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Um alerta à indignação popular

14 de abril de 2014
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A gente briga com quem se quer bem: O “nervoso” Zé de Abreu e Lula.

Jorge André Irion Jobim

Eu li que o ator José de Abreu utilizou sua conta na rede social Twitter na noite de sábado, dia 12, para cobrar da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e do PT uma defesa mais enérgica em relação à prisão ilegal do ex-ministro José Dirceu, julgado pelo Supremo Tribunal Federal no processo do “mensalão” (Ação Penal 470).

É claro que eu entendo o ator, pois a indignação que ele sente é a mesma que eu e muitos outros estão sentindo desde o início deste circo travestido de processo que é a Ação Penal 470 que mais parece um daqueles processos terríveis dos obscuros tempos da inquisição.

Só que é necessário um certo cuidado, ainda mais agora em uma época em que Dilma Rousseff está concorrendo à reeleição e seus opositores estão esperando qualquer descuido, por mínimo que seja, para caírem em cima dela com todo seu arsenal deletério de destruição de imagens de seus adversários.

O problema é que nossa Constituição Federal 1988 em seu art. 85 prevê o denominado crime de responsabilidade, um ilícito político/administrativo cuja sanção não é a prisão, mas que pode levar à perda do cargo e à incapacidade de exercício de qualquer função pública.

De acordo com o texto constitucional configuram o referido ilícito os atos do presidente da República que atentem contra a constituição e, entre tais atos, estão aqueles que venham a interferir no livre exercício do Poder Legislativo, Poder Judiciário, Ministério Público e dos poderes constitucionais das unidades da Federação.

Bem, diante do desespero da oposição que já está percebendo que não conseguirá retomar o poder perdido pelas vias democráticas, é evidente que ela aproveitará qualquer manifestação da presidenta para tentar processá-la por um ato que possa configurar crime de responsabilidade. E caso seus opositores assim entendam, poderão tentar promover um processo de impeachment baseando-se em uma suposta tentativa de Dilma de interferir no Poder Judiciário.

É claro que, na situação atual, eles encontrariam muita dificuldade, pois por se tratar de um processo escalonado, haveria necessidade de que o pedido passasse por um juízo de admissibilidade na Câmara Federal onde teriam que obter o voto favorável de 2/3 de seus membros para que a licença para o processo de impeachment fosse admitida. Posteriormente, caso houvesse tal admissão, ele seria julgado no Senado e a condenação somente ocorreria com o voto de 2/3 dos membros da casa.

É uma situação quase improvável, ao menos no atual momento, mas diante de todas as vilanias praticadas pela oposição auxiliada pela mídia golpista com suas manipulações, sabe-se lá o que poderá acontecer. Não podemos duvidar de nada mais em matéria de baixaria desta gente.

Assim sendo, há que se ter cuidado. Outras entidades podem fazer pressão sobre o STF, dentre elas a OAB e as organizações de direitos humanos. Que se utilizem recursos aos tribunais internacionais e que seja feita pressão pela própria população. Mas evitemos de exigir qualquer atitude mais contundente por parte da presidenta Dilma com tal objetivo.

Afinal, a mínima iniciativa dela neste sentido será superdimensionada e utilizada para mais uma tentativa de desestabilização de seu governo através de um desgastante processo por crime de responsabilidade com o claro objetivo de produzir consequências negativas em sua reeleição. E esta oposição desprezível já deu mostras de que não hesita em se utilizar de todos os meios, por mais sub-reptícios que sejam, para atingir seu desiderato que é se aboletar novamente no poder.

E se isso vier a acontecer, já sabemos que o povo será o maior prejudicado, eis que inevitavelmente sofrerá um retrocesso em todas as conquistas que obteve no campo da inclusão social durante os governo de Lula e Dilma.

Comentário de Maria Luiza Quaresma Tonelli, no Facebook.

A mídia oposicionista passou mais de oito anos achincalhando José Dirceu como o “chefe da quadrilha”. E não houve crime de quadrilha, como reconheceu o STF, ao absolvê-lo da imputação de tal crime, bem como Genoíno e Delúbio Soares. Agora José Dirceu, condenado a cumprir pena inicialmente em regime semiaberto, mofa na Papuda sem autorização para trabalhar, há cinco meses. Isolado, fala com os advogados através de um vidro, por um telefone, como se fosse um preso de alta periculosidade.

Defender os direitos de José Dirceu não é ir contra o PT, ao contrário, é defender o partido que ele ajudou a construir. À mídia e aos partidos de oposição interessa José Dirceu trancafiado, como um bandido perigoso. Será que pouca gente se dá conta disso?

Defender José Dirceu é defender seu direito de preso, é defender a legalidade. É a defesa de direitos fundamentais do cidadão, a defesa dos direitos humanos.

A ameaça que se faz a um, no Estado democrático de Direito, é uma ameaça a todos, indiscriminadamente.

Defender José Dirceu é, também, defender o PT, de alguma maneira.

José de Abreu: “Estou com medo do Supremo como eu tinha de general no tempo da ditadura.”

13 de maio de 2013
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“Essa escolha por mim tem um sentido político”, diz ator sobre processo movido pelo magistrado. Foto de Luciana Whitaker/Arquivo RBA.

Ator comete “tuiticídio” após selar acordo com Gilmar Mendes, do STF, que moveu processo devido a críticas postadas na rede social: “Eu não sei mais o que eu posso dizer. Fiquei inseguro.”

Gisele Brito, via Rede Brasil Atual

Ator, petista e militante político, José de Abreu se tornou um dos mais influentes tuiteiros do Brasil em função de sua defesa contínua de políticos, como José Dirceu e José Genoíno em meio ao julgamento do caso do “mensalão” pelo Supremo Tribunal Federal (STF), saiu da rede de microblogs no final da última semana.

A motivação foi o mesmo STF a quem criticou durante todo o segundo semestre do ano passado. Seguido por mais de 75 mil pessoas, Zé de Abreu ganhou um problema quando suas declarações contra o ministro do Supremo Gilmar Mendes, em dezembro, renderam uma queixa-crime por injúria e difamação movida pelo magistrado. Na ocasião, o ator escreveu “E o Gilmar Mendes que contratou o Dadá? 19 anos de cadeia pro contratado. E pro contratante? Domínio do fato?”. A mensagem aludia a Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo e apontado como espião contratado por Carlinhos Cachoeira.

Certo da derrota na disputa judicial, o ator desistiu de usar o processo para discutir a liberdade de expressão no País e fechou um acordo com Mendes em que se compromete a não mais proferir expressões ofensivas contra o ministro e a doar R$10 mil ao Hospital São João Batista, em Diamantino (MT), cidade natal de Mendes.

Na entrevista a seguir, Zé de Abreu diz se sentir inseguro para continuar a se manifestar e compara o medo que sente do Supremo com o que sentia de generais no período da ditadura. E afirma que pretende processar sete pessoas que usam o microblog para ofendê-lo. “Já me provaram que eu não posso escrever tudo que quero. Então eu também não quero escutar tudo que eu não quero.”

Leia trechos da entrevista realizada por telefone na tarde de segunda-feira, dia 13.

Você chegou a dizer que não iria se retratar e iria até o fim do processo para discutir liberdade de expressão. Por que resolveu selar um acordo agora?

O Código Penal não é o lugar para discutir liberdade. A partir do momento que ele vira um processo, é o Estado e o Gilmar Mendes, porque é um crime contra a honra, contra mim. Eu, obviamente, seria condenado, o juiz vai dar uma pena. O lugar para discutir isso era o Código Civil. As duas vezes que ele me processou foi por uma palavra, uma coisinha. Um twitter. Não um conjunto. Se eu for pegar todo mundo que me xinga de ladrão, de petralha, mensaleiro, sócio do José Dirceu ou coisas mais pesadas. Se for pegar esse tipo de coisa, tem centenas de milhares. Mas isso não dá para considerar. O que a gente está escolhendo é gente que fala coisas sérias. Mas é difícil, tem sete que tem pelo menos dez mensagens bem pesadas.

Então você pretende processar essas pessoas?

Pois é, acho que sim. Porque aí é a maneira de discutir se pode escrever tudo ou não. Já me provaram que eu não posso escrever tudo que quero. Então também não quero escutar tudo que não quero. Tem de ver até onde isso vai. Porque ser processado pelo Gilmar Mendes, que na semana passada era o homem mais poderoso do Brasil, pelo menos para a mídia… Você vê aquele monte de senadores, de todos os partidos, Pedro Simon (PMDB/RS), Ana Amélia (PP/RS), Randolfe Rodrigues (PSOL/AP), a Marina Silva (Rede) foi lá na casa dele pedir [senadores foram ao Supremo para declarar apoio à liminar do ministro que impediu a tramitação do PL 14, de 2013, que restringe o acesso dos novos partidos ao tempo de rádio e tevê no horário eleitoral e também aos recursos do fundo partidário]. Quer dizer, todo mundo virou o baba-ovo dele e eu vou brigar sozinho?

Você se sentiu abandonado pelas pessoas que defende, por isso saiu do twitter?

Não. Abandonado, não. O Twitter você pode acompanhar mesmo sem estar nele. Não estou lendo com a mesma assiduidade. Entro para saber o que estão falando de mim.

Mas por que você fechou sua conta?

Sou muito compulsivo. Vejo uma injustiça escrita e vou para cima. Não consigo ficar pensando dez vezes antes de apertar o botão. Eu não sei mais o que eu posso dizer. Fiquei inseguro.

Essa judicialização acaba provocando o medo de falar?

Claro. Eu estou com medo do Supremo como eu tinha de general no tempo da ditadura. O mesmo medo. Todo mundo vai lá puxar o saco dele, até o Randolfe e a Marina. Me dá medo, me dá medo. É o mesmo pessoal que fez do “mensalão” esse espetáculo.

É um tipo de censura?

Não é uma espécie de censura. A coisa é muito sutil. Eu não falei nada do Gilmar Mendes que 500 mil pessoas no Twitter não tenham falado. Essa escolha por mim tem um sentido político. Tem um objetivo político. Eu saí na capa de O Globo duas vezes em solidariedade ao José Dirceu. Eu voltei a fazer política para acabar com esse mito do “mensalão”, no dia que o Zé Dirceu saiu da Casa Civil. Eu tinha certeza que essa história era uma farsa. Isso não sou só eu que estou falando, eu conversei com bastante gente e realmente tem endereço certo esse processo. Não é aleatório.

Você dá visibilidade ao tema…

Pelo menos uma visibilidade dentro de um núcleo de pessoas onde não havia essa visibilidade. Eu sou seguido por todos os grandes jornalista do Brasil, por pessoas que pensam. Tenho muitos seguidores por causa da novela, mas isso agrava mais a situação. De repente o telespectador de novela que só recebe informação de um lado estava achando que o PT só tem ladrão. Aí vê que seu ídolo, entre parênteses, seu ator favorito, tem uma outra visão sobre a história e fica botando links, frases, atacando e defendendo. Dizendo “meus amigos não são ladrões. José Dirceu não é ladrão, Genoino não é ladrão, o PT não inventou a corrupção no Brasil, o MST não é um bando de vagabundos”. Isso vindo de uma pessoa que, querendo ou não, tem um poder: eu tenho o poder da comunicação. E a Globo não se importa. Eu já fui lá perguntar um tempo atrás, voltei agora com essa história da candidatura e nada, nunca. Não há a menor possibilidade da Globo fazer qualquer coisa contra mim por conta da minha posição política.

Muita gente acreditava em uma reação da Rede Globo…

Talvez o Serra tenha ligado na época da campanha, não sei. Mas a Globo não dá a menor bola, não mistura mesmo. Nem pode misturar. A Globo não dá nem meu endereço para o oficial de Justiça.

E você vai sair candidato a deputado no ano que vem?

Não. A família ficou muito contra. A gente conversou muito. Além da família ia ter uma diminuição muito grande de salário do que eu ganho na Globo e o que eu ganharia como deputado. É muita diferença. Eu não conseguiria viver. Eu tenho pensão alimentícia, tenho filho de 12 anos. Ajudo familiares. E tem a história do financiamento de campanha. Se fosse financiamento público até podia ser. Mas ter de sair captando dinheiro para fazer campanha… Eu não aguento fazer isso nem para fazer teatro pela Lei Rouanet. Deus me livre. O PT, óbvio, que iria arcar com uma boa parte por meio do diretório nacional, mas mesmo assim.

Gilmar Mendes processa ator José de Abreu pela segunda vez

16 de abril de 2013

Ze_Abreu09Via Portal iG

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), está processando o ator José de Abreu pela segunda vez. No dia 10 de outubro de 2012, o ator tuitou: “E o Gilmar Mendes que contratou o Dadá? 19 anos de cadeia pro contratado. E pro contratante? Domínio do fato?”, referindo-se ao espião envolvido em diversos casos de grampo, como o do bicheiro Carlinhos Cachoeira, quando foi preso. Mendes alega que Abreu quer desmoralizá-lo.

No ano passado, o ator já havia recebido uma notificação judicial do ministro por tê-lo chamado de corrupto no Twitter. Na época, Abreu fez uma retratação formal e o caso foi encerrado. Desta vez, o ator afirmou que não vai se retratar.

“Foi uma piada, não tenho porque me retratar. Imagina se eu quis dizer que ele [Gilmar Mendes] tem de responder por tudo o que o Dadá fez? Só na cabeça dele, é fora de qualquer lógica imaginar que ele, ministro, é responsável pelo Dadá. Não é possível que ele não tenha coisa mais séria para fazer do que implicar com o que eu tuito”, disse o ator.

***

Na época da ditadura militar, José de Abreu também sofreu perseguições. Abaixo sua ficha que estava arquivada no Deops.

Ze_Abreu08_Ficha***

Leia também:

A perseguição ao ator José de Abreu

Zé de Abreu, o militante

O mantra de Zé de Abreu

Zé de Abreu, o militante

18 de março de 2013
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“Quem vai abonar minha ficha é a Dilma e o Lula. No mínimo”, brinca.
Foto: Paula Kossatz

Cynara Menezes, via Carta Maior

Com o mar da Barra da Tijuca na janela e o cão da raça lhasa apso e nome Pipo no colo, diante da tela do computador, o ator José de Abreu tuíta. Fala de política (muito) e de televisão e teatro (menos), praticamente o dia inteiro. Tem frequência tão assídua na rede social quanto o divertido vilão Nilo tinha nos lares brasileiros durante Avenida Brasil, a anterior novela das 9 da Globo. A popularidade na tevê e na internet fez surgir um novo interesse: Zé de Abreu decide se vai ou não se lançar a deputado federal pelo PT em 2014. Está para se filiar ao partido.

“Estou esperando, porque quero o “top” na minha filiação. Quem vai abonar minha ficha é a Dilma e o Lula. No mínimo”, diz o ator, que milita na política desde a época da ditadura, quando cursava Direito na PUC/SP. Tem o destino paralelo ao de outro Zé, o Dirceu. Ambos nasceram no ano de 1946, Zé Dirceu em março e ele em maio. Zé de Abreu, em Santa Rita do Passa Quatro, São Paulo; e Zé Dirceu, em Passa Quatro, Minas Gerais. Todo mundo confunde. Um continuou na política e o outro se decidiu pelo teatro, após viver anos rebeldes em São Paulo e anos lisérgicos em Londres, em Amsterdã e na Bahia.

Pipo não para sossegado, e Zé de Abreu o tranca na cozinha enquanto conversa e posa para as fotografias. Falo que está em boa forma para os 67 anos prestes a completar, ele passa a mão no tórax, estica-se todo na cadeira e diz: “É, tô gostosão”, gargalha. “Sou de uma geração que deu sorte, que vai chegar aos 70 bem.”

Em seguida entra, com jeito sério e dread locks nos cabelos, seu filho Cristiano, de 28 anos, que participará de toda a conversa com o ator. No elevador, cruzamos com a mulher de Abreu, Camila, que vai nos encontrar no almoço. Por último, já no restaurante, conheço Bernardo, de 12, o caçula. Tem ainda Theo, de 36, e Ana, de 35. O primogênito Rodrigo morreu ao cair do prédio onde moravam, em 1992, aos 21 anos.

O ator fala do assunto meio apressadamente e eu não remexo no assunto, mas no final do almoço, depois de alguns copos de vinho branco, Zé de Abreu vai chorar ao lembrar o filho perdido. O artista, percebe-se, é uma pessoa do tipo “casadoira e família”. Ainda bastante jovem, durante o movimento estudantil, se envolveu com Neuza, mãe de Rodrigo. “Ele já estava mais enrascado”, conta o outro “Zé” da turma, o Mentor, deputado federal petista. Depois viveria 19 anos ao lado da atriz Nara Keiserman, mãe dos três filhos mais velhos. Está casado com Camila há oito.

Na época da ditadura, Mentor e Abreu eram mais independentes, e Dirceu, ligado à Dissidência de São Paulo (DI/SP), uma das tendências originadas do antigo PCB. “O Zé de Abreu era mais radical”, ri Mentor. “O Zé Dirceu era mais leve. Mandava os estudantes para a universidade fazer grupo de estudo. Eu era mais da turma do [Luís] Travassos, que falava: “Vamos quebrar o Estadão, o Citibank”. Eu era mais porra-louca”, admite o ator. Estavam juntos quando a polícia prendeu todo mundo no Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna (SP), em 1968. Abreu e Mentor sairiam dias depois.

Dirceu, Travassos [então presidente da proibida UNE] e Vladimir Palmeira foram mantidos presos e seriam libertados somente um ano depois, em troca do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado pelo MR-8 e pela Ação Libertadora Nacional em 1969. Zé de Abreu, enquanto isso, mudou-se para o Rio de Janeiro, descolou um emprego de vendedor de máquinas Olivetti como fachada e continuou no apoio às ações clandestinas. Quando foi chamado pela concorrente, a multinacional IBM, topou na hora. Era o disfarce perfeito.

“Imagina eu com um crachá da IBM: International Business Machine Corporation. Melhor cobertura impossível.” Com o salário, comprou um DKW Fissore, um dos carros mais bacanas da época. “Fui encarregado de levar para São Paulo parte dos dólares que foram roubados do cofre da amante de Adhemar de Barros, em 1969, no meu Fissore vermelho de banco de couro, dentro de caixas de máquina de escrever da IBM. E ainda falei para os guardas que me pararam no caminho: ‘Vi um carro suspeito lá atrás’.”

“Assim como quase todo nordestino de 90 anos conheceu Lampião, todo militante ou simpatizante de esquerda com 65 anos diz ter colocado as mãos nos dólares do Adhemar”, brinca o jornalista Tom Cardoso, autor do livro O cofre do dr. Rui (Civilização Brasileira), sobre o episódio. “Durante a pesquisa para o livro, ao menos 60 entrevistados falaram que colocaram as mãos nos dólares do Adhemar.”

A paixão pelos automóveis continua. Hoje Zé de Abreu se diz louco por Citroën. “É como o Geraldo Vandré falava: ‘Não vou me fantasiar de proletário’.” Ele tinha um Galaxie. Criticar o ator pelo modo de vida ou pelo fato de “ser de esquerda e trabalhar na Globo” é recorrente entre seus (muitos) adversários no Twitter, onde tem mais de 72 mil seguidores. Foi parar na emissora dos Marinho após o filme A intrusa, de Carlos Hugo Christensen, vencedor de vários prêmios no Festival de Gramado em 1980, inclusive o de melhor ator para Zé de Abreu. À época, atuava no teatro gaúcho. Sua primeira novela foi As três Marias (1980). Viriam outras 15.

Zé de Abreu diz que sempre apoiou o PT, mas sua presença só se tornou visível na eleição de 2010, quando entrou com força na campanha de Dilma Rousseff à Presidência. Votou em Lula em todas as tentativas, mas, em 1994, admite, torceu por Fernando Henrique Cardoso. “Eu achava que FHC era melhor que Lula naquele ano. Não era a vez dele, Lula concorda comigo hoje”, diz. “FHC era a literatura de axila de minha geração. Mesmo quem não lia, usava debaixo do braço.”

Na eleição de Dilma, posicionou-se de tal forma a ponto de começarem a rolar boatos de que seria demitido da Globo, sobretudo quando fez uma transmissão ao vivo pelo Twitter na qual provocava o tucano José Serra, que “tinha abandonado o mandato até como presidente da UNE”. Na noite do último debate da eleição presidencial, na emissora carioca, foi buscar a petista no heliponto, com o carrinho de golfe do Projac, e a levou até os estúdios. Quando Dilma fez o discurso da vitória, o ator global apareceu de “papagaio de pirata” em todos os jornais no dia seguinte. “Aquela foto me ferrou”, afirma.

Aí foi ele quem começou a achar que exagerava e decidiu procurar a direção da emissora para ver se havia algum problema. “Eu incomodo?”, perguntou a Otávio Florisbal, então diretor-geral da TV Globo. “Inspire-se em Dias Gomes, Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho. Você vai precisar correr muito para chegar aos pés deles”, teria dito Florisbal, nas palavras do próprio Zé de Abreu. “Posso estar imaginando, mas foi mais ou menos assim.”

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Papagaio de pirata. No fundo, durante o discurso da vitória de Dilma Rousseff. “Aquela foto me ferrou.”
Foto: Buda Mendes/Latin Content/Getty Images

Fato é que não só segue contratado como acabou selecionado para um papel importante em Avenida Brasil, que lhe rendeu o prestigiado prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor ator de tevê do ano de 2012. A risadinha (hihihi) de Nilo, sua marca registrada, nasceu de um ímpeto “socialista” do ator de valorizar o trabalho da maquiadora, que passava mais de uma hora a deixar feios os seus dentes, escondidos por baixo da espessa barba do personagem. Atualmente, está em cartaz na peça Bonifácio Bilhões, um texto meio datado cujo principal chamariz é a presença do “Nilo”, com estreia em São Paulo prevista para abril.

Em 2012, Zé de Abreu voltou à carga nas críticas virtuais, inclusive a jornalistas da Globo, durante o julgamento do “mensalão”. Ele não acredita na compra de votos. “Que ‘mensalão’? Eu sei que não aconteceu. Este julgamento foi o maior espetáculo virtual, uma grande farsa. Como uma pessoa sem foro especial como Zé Dirceu é julgado sem ter direito a recurso?”, critica. Pondero que se comprovou, no mínimo, caixa 2. “Óbvio. Sim, cometemos esse crime. Mas quantas vezes o Lula tentou ser eleito sem entrar no esquema e perdeu? Não se elege um presidente com 10 mirreis.”

Se na Globo o ator não encontrou problemas por sua militância no PT, o mesmo não se pode dizer da Abril. Alvo constante de blogueiros da editora dos Civita, recebeu um recado da direção: está vetado nas páginas da Contigo!, a revista de fofocas de maior circulação do País, por “estar batendo muito no patrão”. “O Roberto Civita queria ser o Roberto Marinho, mas Roberto Marinho era um homem inteligente. Acho o Civita um ser humano torto, nasceu acéfalo”, dispara. “Agora, para um cara bilionário como ele se preocupar comigo é porque sou bom pacas.”

A última polêmica nas redes sociais não tem a ver com política: ele declarou-se bissexual, para espanto de muitos. Homossexual assumido, o autor de novelas Aguinaldo Silva duvidou. “Sabe o que eu acho, Zé? Tu tá gozando com nossa cara, isso sim”, provocou Silva no Twitter. Zé de Abreu parece ter-se divertido tanto com a história que chegou a gravar um vídeo no qual aparece como “namorado” do comediante Rafinha Bastos, já visto por mais de 650 mil internautas no Youtube.

Zé de Abreu é ou não bissexual? “Sou machista, luto todos os dias contra isso. Uma vez, minha mãe brigou com minha mulher porque eu estava lavando pratos. ‘Filho meu não lava prato!’ O que posso fazer? Fui criado assim. Então pensei que, para vencer meu machismo, meus preconceitos, teria de fazer parte de uma minoria. Não posso fingir que sou negro, nem que sou índio, nem que sou gay. ‘Mas bissexual vão acreditar’, pensei. Foi por isso que falei”, confessa. Ao lado, o filho Cristiano balança a cabeça: “Eu achei ridículo.”

Leia também:

A perseguição ao ator José de Abreu

Golpistas pagam R$17 milhões a Marcos Valério para envolver Lula no “mensalão”

16 de dezembro de 2012

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O acordo de R$17 milhões teria convencido o empresário a envolver o ex-presidente Lula no “mensalão”, de acordo com o ator. O dinheiro teria sido reunido por grupo de empresários, políticos, além de Roberto Civita, dono da Veja. A condição era que declarações saíssem primeiro na revista semanal, que em setembro deu capa com Marcos Valério. Procurada, Editora Abril não se pronunciou.

Via Brasil 247 em 16/12/2012

Declarações de um advogado feitas na madrugada de sexta-feira, dia 14, denunciam suposta trama que envolve um acordo de R$17 milhões para convencer o empresário Marcos Valério a denunciar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do “mensalão”. A conversa, que teria acontecido num restaurante de Brasília, foi noticiada na manhã de sábado, dia 15, pelo ator e ativista político José de Abreu, via Twitter.

Ao 247, Abreu não deu mais informações sobre quem seria o advogado, mas garantiu que não se trata de Marcelo Leonardo, representante do publicitário mineiro na Ação Penal 470, da qual seu cliente foi condenado com uma pena que passa dos 40 anos. Marcelo Leonardo sequer teria concordado com o acerto. Quanto à fonte que lhe revelou o diálogo, ele se limitou a dizer: “É um político da oposição”.

“Estou repassando o que me contaram, foi nessa madrugada. Uma pessoa ouviu do advogado, que começou a falar mais alto num restaurante de Brasília. Era um lugar menos nobre, não era tipo um Piantella”, descreveu José de Abreu, em referência ao famoso ponto de encontro de políticos da capital federal. Segundo ele, há ainda prometido ao empresário dois apartamentos nos Estados Unidos – um em Miami e outro em Nova Iorque – “fora o pagamento de todas as multas financeiras a que Marcos Valério foi condenado”.

O acerto teria sido feito sob a condição de que as revelações contra Lula sairiam primeiramente na revista Veja. Em setembro, uma reportagem de capa intitulada “Os segredos de Valério” traz frases atribuídas a interlocutores próximos ao empresário apontando o ex-presidente como chefe do “mensalão”. Segundo o advogado, o dinheiro para pagar Marcos Valério teria vindo de uma “composição financeira” envolvendo empresários, políticos e o próprio dono da semanal, Roberto Civita, quem, segundo ele, seria o responsável pela organização da “vaquinha”.

Posteriormente à publicação da reportagem, foi levantado um debate na imprensa e nas redes sociais que questionava a veracidade das denúncias e a existência de um áudio que comprovasse a entrevista. O colunista do jornal O Globo, Ricardo Noblat, liderou a defesa à revista, garantindo que havia, sim, uma “fita” com as revelações de Valério. Procurada pelo 247 para comentar as denúncias, a assessoria de imprensa da Editora Abril não respondeu até a publicação dessa reportagem.

Futuro dos filhos
A intenção de Marcos Valério seria “deixar bem os filhos”, postou o responsável pelas revelações. Ao 247, o ator acrescentou que há psiquiatras e psicólogos envolvidos e que o publicitário não passa bem. “Cada imóvel teria sido colocado em nome de cada filho de Marcos Valério. A saída de casa e a “farsa da separação”, segundo o advogado bêbado fazem parte”, escreveu José de Abreu, em referência ao acordo. Valério andava muito deprimido e não queria deixar a família sem garantias quando ele fosse para a prisão, conta Abreu.

Falou, tem de provar
As denúncias, porém, teriam de ser provadas. “Uma parte da grana só seria paga se Marcos Valério conseguisse que abrissem processo contra Lula”, escreveu José de Abreu no microblog. Depois de três meses da reportagem publicada por Veja, o jornal O Estado de S.Paulo revelou, na semana passada, parte de um depoimento do empresário à Procuradoria Geral da República feito em 2003, com mais revelações sobre o ex-presidente.

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