Posts Tagged ‘WikiLeaks’

Julian Assange: A América Latina na era das cyberguerras

12 de julho de 2013

Wiki_Julian_Assange39_CypherpunksEspionagem global é ponta de gigantesco iceberg. Controle dos fluxos de comunicação é nova arma dos impérios. A alternativa pode estar no Sul.

Julian Assange, via Outras Palavras

O que começou como meio para preservar a liberdade individual pode agora ser usado por estados menores, para frustrar as ambições dos maiores. O cypherpunks originais eram, na maioria, californianos libertaristas. Eu vim de tradição diferente, onde todos nós buscávamos proteger a liberdade individual contra a tirania do Estado. Nossa arma secreta era a criptografia. Já se esqueceu o quanto isso foi subversivo. A criptografia, então, era propriedade exclusiva dos estados, para uso em suas muitas guerras. Ao escrever nossos próprios programas e distribuí-los o mais amplamente possível, liberamos a criptografia, a democratizamos e a espalhamos pelas fronteiras da nova internet.

A reação contra, sob várias leis “de tráfico de armas”, falhou. A criptografia se difundiu nos browsers da rede e em outros programas que, hoje, as pessoas usam diariamente. Criptografia forte é ferramenta vital na luta contra a opressão pelo Estado. Essa é a mensagem do meu livro Cypherpunks. Mas o movimento para disponibilizar universalmente uma criptografia forte tem de trabalhar para obter mais do que isso. Nosso futuro não está apenas na liberdade para os indivíduos.

Nosso trabalho em WikiLeaks implica compreensão semelhante da dinâmica da ordem internacional e da lógica do império. Durante o período de formação de WikiLeaks, encontramos evidências de pequenos países abusados e dominados por países maiores, ou infiltrados por empresas de fora, forçados agir contra eles próprios. Vimos o desejo popular ao qual não se dava voz e expressão, eleições compradas e vendidas, e países ricos, como o Quênia, assaltados e leiloados por plutocratas em Londres e em Nova Iorque.

A luta pela autodeterminação latino-americana é importante para muito mais gente do que os que vivem na América Latina, porque mostra ao resto do mundo o que pode ser feito. Mas a independência da América Latina ainda engatinha. Tentativas para subverter a democracia latino-americana ainda acontecem, inclusive recentemente, em Honduras, Haiti, Equador e Venezuela.

Por isso a mensagem dos cypherpunks tem importância especial para os públicos latino-americanos. A vigilância em massa não é só problema para a governança e a democracia – é uma questão geopolítica. Se a população de um país inteiro é vigiada por país estrangeiro, há ameaça contra a soberania. Intervenção após intervenção nos assuntos da democracia na América Latina ensinaram-nos a ser realistas. Sabemos que os velhos poderes ainda explorarão, para benefício deles, qualquer possibilidade de retardar ou suprimir a eclosão da independência latino-americana.

Considere-se a simples geografia. Todos sabem que os recursos em petróleo regem a geopolítica global. O fluxo do petróleo determina quem é dominante, quem é invadido, quem é posto em ostracismo fora da comunidade global. O controle físico sobre um segmento de oleoduto define maior poder geopolítico. Governos que se ponham nessa posição podem obter concessões gigantescas. Num golpe, o Kremlin pode condenar a Europa Oriental e a Alemanha a um inverno sem calefação. E até a possibilidade de Teerã controlar um oleoduto para o leste, até Índia e China, é pretexto para a lógica belicosa de Washington.

Mas o novo grande jogo não é a guerra por oleodutos. É a guerra pelos dutos pelos quais viaja a informação: o controle sobre as vias de cabos de fibras óticas que se espalham pela terra e pelo fundo dos mares. O novo tesouro global é o controle do fluxo gigante de dados que conecta todos os continentes e civilizações, conectando as comunicações de bilhões de pessoas e empresas.

Não é segredo que, na Internet e no telefone, todas as rotas que entram e saem da América Latina passam pelos EUA. A infraestrutura da Internet dirige 99% do tráfego que entra e que sai da América do Sul por linhas de fibras óticas que atravessam fisicamente fronteiras dos EUA. O governo dos EUA não mostrou qualquer escrúpulo quanto a quebrar sua própria lei e plantar escutas clandestinas nessas linhas e espionar os seus próprios cidadãos. Todos os dias, centenas de milhões de mensagens de todo o continente latino-americano são devoradas por agências de espionagem dos EUA, e armazenadas para sempre em armazéns do tamanho de pequenas cidades. Os fatos geográficos sobre a infraestrutura da Internet, portanto, têm consequências sobre a independência e a soberania da América Latina.

O problema também transcende a geografia. Muitos governos e militares latino-americanos protegem seus segredos com maquinário de criptografia. São caixas e programas que “desmontam” as mensagens na origem e as “remontam” no destino. Os governos compram essas máquinas e programas para proteger seus segredos – quase sempre o próprio povo paga (caro) –, porque temem, corretamente, que suas comunicações sejam interceptadas.

Mas as empresas que vendem esses equipamentos e programas caros mantêm laços estreitos com a comunidade de inteligência dos EUA. Seus presidentes e altos executivos são quase sempre matemáticos e engenheiros da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA) capitalizando as invenções que eles mesmos criaram para o Estado de Vigilância. Não raras vezes, as máquinas que vendem são quebradas: quebradas propositalmente, por uma razão. Não importa quem as use ou como as usem – as agências dos EUA conseguem “remontar” os sinais e leem as mensagens.

Esse equipamento é vendido para a América Latina e outros países como útil para proteger os segredos do comprador, mas são, de fato, máquinas para roubar aqueles segredos.

Enquanto isso, os EUA aceleram a próxima grande corrida armamentista. A descoberta do vírus Stuxnet – e depois dos vírus Duqu e Flame – marca o início de uma nova era de programas complexos usados como arma, que estados poderosos fabricam para atacar estados mais fracos. A primeira ação agressiva contra o Irã visou a minar os esforços daquele país com vistas a defender sua soberania – ideia que é anátema para os interesses de EUA e de Israel na região.

Longe vai o tempo em que usar vírus de computador como arma de ataque era peripécia de romance de ficção científica. Agora, é realidade global, que se espalha graças ao comportamento leviano do governo de Barack Obama, em violação da lei internacional. Outros estados agora vão se colocar na mesma trilha, aumentando a própria capacidade de ataque.

Os EUA não são os únicos culpados. Em anos recentes, a infraestrutura de Internet de países como Uganda tem recebido grandes investimentos chineses. Gordos empréstimos chegam, em troca de contratos africanos para que empresas chinesas construam a espinha dorsal da infraestrutura de Internet ligando escolas, ministérios do governo e comunidades ao sistema global de fibra ótica.

A África vai-se conectando online, mas com máquinas vendidas por potência estrangeira aspirante ao status de superpotência. A internet africana será o meio pelo qual o continente continuará subjugado no século 21?

Esses são algumas das importantes vias pelas quais a mensagem dos cypherpunks vai além da luta pela liberdade individual. A criptografia pode proteger não só as liberdades civis e os direitos individuais, mas a soberania e a independência de países inteiros, a solidariedade entre grupos que lutem por causa comum, e o projeto da emancipação global. Pode ser usada para enfrentar não só a tirania do estado contra o indivíduo, mas a tirania do império contra estados menores.

O grande trabalho dos cypherpunks ainda está por fazer. Junte-se a nós.

CypherpunksLiberdade e o futuro da internet, de Julian Assange (R$23,00)

Tradução: Vila Vudu.

WikiLeaks vaza conspiração militar que visa tomar a presidência do Brasil

24 de junho de 2013

ESSA NOTÍCIA É FALSA E O LIMPINHO CAIU.

DESCULPE A NOSSA FALHA.

Via Diário de Pernambuco

Muito se comenta que as manifestações ocorridas nos últimos dias podem rumar numa direção de violência sem controle. A tendência é que a situação se agrave até que o cenário político torne-se insustentável e sobrevenha um golpe militar com o pretexto de recolocar a nação em ordem.

Aparentemente, a conjuntura descrita não passava de mera paranoia coletiva que, para a surpresa geral, acaba de ser tornar real e efetiva. Uma lei aprovada de última hora sobre morte e vacância do presidente e a fundação relâmpago do PMB (Partido Militar Brasileiro) já davam certos sinais de um clima conspiratório rondando o País.

Um whistleblower brasileiro, que ainda não se assumiu publicamente, vazou ao WikiLeaks, organização internacional que dá publicidade a documentos extraoficiais, um arquivo de áudio que expõe a descoberta de uma conspiração militar reacionária de direita que visa tomar o poder no Brasil.

O áudio, ainda sendo descriptografado pela equipe de Julian Assange, detalha passo a passo a ação. Os interlocutores do diálogo conspiratório ainda não foram identificados. ”Forjarão a necessidade de uma reunião emergencial entre as principais lideranças brasileiras. Alguns deles irão em conjunto num helicóptero rumo a um destino não revelado.

Dentro da aeronave estarão Dilma, a presidente; Temer, o vice; Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados; e Renan Calheiros, atual presidente do Senado. Este helicóptero sofrerá falhas mecânicas, caindo no oceano e levando a óbito todos os passageiros. Uma vez que é o atual presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Joaquim Barbosa assumiria compulsoriamente a Presidência da República. Barbosa está em processo de filiação ao PMB, Partido Militar Brasileiro, que acaba de nascer!

“O Brasil está diante de um dos golpes mais sofisticados da história dado que nenhum tiro precisará ser disparado e nenhum soldado sequer precisará ir às ruas. Não será necessário nem mesmo acionar a lei da vacância, que curiosamente acaba de ser suscitada”, afirmou Julian Assange, direto da embaixada do Equador em Londres.

WikiLeaks: Assange completa um ano na embaixada do Equador sem perspectivas de sair

20 de junho de 2013
Wiki_Julian_Assange38

Julian Assange completa um ano exilado na embaixada equatoriana na capital britânica. Não há perspectivas de ele sair no curto prazo.

Só mesmo a concessão de um salvo-conduto poderá garantir a ida do fundador do WikiLeaks ao país sul-americano.

Via Opera Mundi

Na quarta-feira, dia 19, completou um ano da chegada do jornalista Julian Assange à embaixada do Equador em Londres. As perspectivas para a resolução do impasse diplomático e político não são animadoras, como reconheceu o próprio fundador do WikiLeaks, no final de semana passado, quando disse estar disposto a permanecer “mais cinco anos no local”, se for preciso.

Sob o ponto de vista jurídico, de acordo com especialistas em direito internacional e direitos humanos consultados pela reportagem de Opera Mundi, não restam muitas opções para que o ex-hacker australiano deixe Londres rumo ao país sul-americano sem a concessão de um salvo-conduto pelo governo do Reino unido, que não está disposto a ceder.

Na segunda-feira, dia 17, uma reunião entre os chanceleres equatoriano, Ricardo Patiño, e britânico, William Hague, terminou sem avanço, a não ser pela criação de um grupo de trabalho bilateral para buscar uma solução diplomática. O próprio Assange, em entrevista concedida à agência de notícias France Presse, disse não acreditar em sua liberação a longo prazo.

Em nome da chancelaria equatoriana, o embaixador do país no Brasil, Horácio Sevilla Borja, afirmou que, apesar da “grande divergência” no tema do asilo político, os dois países têm “relações normais no campo político, econômico, comercial e cultural”.

Opções e entraves

O cientista político Maurício Santoro, assessor de direitos humanos da Anistia Internacional Brasil, chega a cogitar, como alternativa que reconhece incomum, que Assange seja despachado da embaixada pelo aeroporto através da mala diplomática, como uma correspondência, que é inviolável. Oliveira reconhece a inviolabilidade, mas considera o plano mirabolante e que os britânicos poderão interceder de alguma maneira para, no fim, capturar o fundador do WikiLeaks.

Erival Oliveira, assessor jurídico do Ministério Público Federal e professor de Direito Constitucional e Direitos Humanos do Complexo Damásio de Jesus, afirma que o asilo diplomático (ou político) é uma modalidade precária e provisória de asilo quando comparada ao territorial (que se trata de receber estrangeiros sem documentação pertinente já no território do país de hospedagem para evitar punição ou perseguição baseada em crime de natureza política e ideológica).

O advogado lembra que, segundo o artigo XIV parágrafo 2º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o direito ao asilo “não pode ser invocado em casos de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos objetivos e princípios das Nações Unidas”. Seria o caso de Assange, em razão das denúncias que enfrenta de violência sexual na Suécia.

No entanto, Oliveira ressalta também que o artigo 22 parágrafo 7 do Pacto de San José, norma da OEA (Organização dos Estados Americanos) que estabelece regras para os Direitos Humanos, afirma que “toda pessoa tem o direito de buscar e receber asilo em território estrangeiro, em caso de perseguição por delitos políticos ou comuns conexos com delitos políticos, de acordo com a legislação de cada Estado e com as Convenções internacionais”. Ou seja, nesse caso, a defesa do fundador do WikiLeaks pode argumentar que as acusações comuns contra ele têm fundo político. O problema é que ela não vale para os britânicos.

Segundo Santoro, a concessão de asilo diplomático (ou político) é uma tradição latino-americana, pouco utilizada na Europa, como já disse o chanceler britânico William Hague. “Assange tem direito de pedir e o Equador de receber. Já o governo britânico não tem obrigação de aceitar. Na América Latina, é muito maior o custo de se dizer ‘não’ a esse tipo de pedido”, afirma.

O embaixador Sevilla Borja lembra que o país examinou o pedido de asilo de acordo com as normas internacionais. E que “também estudou o caso por um longo período (cerca de um mês), incluindo todos os antecedentes do episódio, sempre notificando o governo do Reino Unido”, que, em sua opinião, não cumpriu as regras do direito internacional por não conceder o salvo-conduto.

Sobre as investigações na Suécia, a Anistia Internacional as considera graves e que “merecem ser investigadas” e o país escandinavo tem o direito de requisitar a presença física do jornalista para prestar depoimentos. “Acreditamos que, caso ele sela extraditado para a Suécia, seus direitos civis não estarão ameaçados. A Suécia não tem tradição disso. Só não defendo que se crie possibilidade para que ele seja extraditado para uma segunda nação, como os Estados Unidos, onde ele poderia sofrer grandes restrições em razão da maneira como denunciou o governo. Essa perseguição jurídica não pode se transformar em punição pelas denúncias do WikiLeaks de violações de direitos humanos”, diz Santoro. No entanto, Suécia e EUA têm um acordo de extradição mútuo e Estocolmo não deu nenhum sinal de garantia.

Entenda o caso

Assange enfrenta duas acusações por abusos sexuais na Suécia e se encontrava em prisão domiciliar no Reino Unido até a decisão da justiça local em extraditá-lo ao país escandinavo. O jornalista nega as acusações e teme que, uma vez em território sueco, seja levado para os Estados Unidos e processado por espionagem e fraude, podendo ser condenado à morte ou à prisão perpétua.

Inimigo de Washington por ter difundido centenas de milhares de documentos secretos diplomáticos e militares, Assange está detido em Londres desde 7 de dezembro de 2010: dez dias em isolamento e 590 em prisão domiciliar. De lá, ele conseguiu fugir e se refugiar na embaixada equatoriana, onde se mantém recluso desde 19 de junho de 2012. O asilo político foi concedido em 16 de agosto do mesmo ano.

Assange completará um ano exato na missão diplomática nesta próxima quarta-feira (19/06). Um policial monta guarda junto à porta blindada que dá acesso ao andar térreo da embaixada. Outros policiais patrulham, dia e noite, sob a sacada onde ele fez sua última aparição pública, antes do Natal, antes da realizada neste domingo, quando foi visitado pelo chanceler Ricardo Patiño.

O temor de Assange se justifica em razão de documentos vazados pelo WikiLeaks de Fred Burton, um dos vice-presidentes da empresa de segurança Stratfor, que possui fortes laços com o governo dos EUA. Referindo-se ao jornalista como “babaca” em uma troca de e-mails datada de 26 de janeiro de 2012, Burton reconhece que a justiça norte-americana havia emitido há um mês uma ordem secreta de prisão contra Assange por práticas de espionagem.

Os EUA no abismo, de Ellsberg a Snowden

12 de junho de 2013
EUA_Ellsberg_Manning_Assange_Snowden

Ellsberg, Manning, Assange e Snowden, os “traidores” do espírito norte-americano

Paulo Moreira Leite em seu blog

A perseguição a Edward Snowden é um episódio típico de nosso tempo. Antigo funcionário da CIA, responsável pela revelação de que o governo norte-americano possui uma máquina de espionagem de dimensões que superam temores que até ontem comentaristas de ar arrogante definiriam como “paranoia”, Snowden é o mais novo fugitivo da liberdade de expressão.

Encontra-se no mesmo patamar no qual o soldado Bradley Manning aguarda julgamento, pelo vazamento de milhares de documentos do Departamento de Estado, que derrubaram diversas máscaras da diplomacia norte-americana. Também lhe faz companhia, claro, Julian Assange, o criador do WikiLeaks, até hoje à espera de um salvo-conduto na embaixada do Equador em Londres.

O patrono desses personagens típicos da sociedade de comunicação de massas chama-se Daniel Ellsberg, o cidadão que em 1971 fez o favor de revelar, pelo New York Times, os célebres papéis do Pentágono. Ali, um conjunto de documentos secretos mostrava que o governo dos EUA sabia perfeitamente que a guerra do Vietnã era uma causa perdida, mas preferia seguir enviando os jovens pobres e negros da América para a morte em vez de enfrentar a elite imperial norte-americana e negociar uma saída pacífica.

O destino de Ellsberg e de seus sucessores contém lições didáticas sobre nosso tempo. Ellsberg foi perseguido, julgado – e absolvido. Nos anos 1970, os Estados Unidos estavam em guerra e seu gesto foi tratado como uma traição, pois ele proporcionava “conforto ao inimigo”. O New York Times foi alvo de censura e, durante duas semanas, impedido de circular, fato raríssimo na história norte-americana.

Mas considerou-se que Ellsberg tinha o direito de revelar aos cidadãos norte-americanos informações que eram de seu legítimo interesse. Um esforço de agentes secretos da Casa Branca para desmoralizá-lo terminou em fiasco e seus detalhes vieram a público. Descobriu-se que homens de confiança do governo Nixon haviam tentado penetrar em seus arquivos médicos para retratá-lo como louco. Foi mais um motivo para que Ellsberg fosse considerado inocente, deixando o escândalo para entrar na história da luta contra a guerra do Vietnã e da liberdade de expressão.

Quatro décadas depois, a situação é outra. Não há hipótese de Bradley Manning ser considerado inocente, ainda que seja impossível apontar um único caso em que as informações que ajudou a revelar tenham ameaçado vidas humanas ou causado prejuízos a interesses legítimos da política externa norte-americana. Em nenhum momento se demonstrou que Manning não tinha o direito (ou quem sabe o dever) de divulgar as informações a que teve acesso.

Num sintoma do momento político, não se questiona a natureza de suas acusações nem se pergunta se o melhor local para um julgamento onde as liberdades civis estão em jogo é um tribunal militar, onde a questão disciplinar irá sobrepor-se sobre qualquer outra consideração.

Na perseguição a Assange, não falta sequer uma anedota pessoal, como ocorreu com Ellsberg. No caso, é uma obscura acusação de estupro feita na Suécia. No mundo de Ellsberg um “traidor” saiu livre do tribunal.

Herbert Marcuse, um dos mestres da contestação nos tempos de Ellsberg, fez uma crítica conhecida da sociedade contemporânea. Dizia que ela criava o homem unidimensional, aquele que não convivia com contradições nem conflitos, enxergando a realidade a partir de suas aparências e mistificações. Marcuse era uma ótima leitura nos anos de 1960, mas é curioso imaginar o que poderia ter escrito sobre o mundo de hoje.

Manning, Assange e Snowden não são personagens fora de lugar. São rebeldes num mundo conformista, onde a democracia costuma ser posta à prova com frequência surpreendente pelo governo norte-americano.

A perseguição implacável aos responsáveis pelo vazamento do WikiLeaks e pela reportagem que denunciou o tamanho da espionagem mundial dos EUA fazem parte da mesma máquina que produziu e protege Guantânamo, onde cidadãos acusados de terrorismo foram sequestrados e torturados e já passaram mais de dez anos na prisão.

Como não há provas substanciais contra eles além de inaceitáveis declarações prestadas sob tortura, que a decência impede que sejam chamadas de “confissões”, palavra que tem o pressuposto de terem como base a verdade, a única atitude razoável seria mandar todos para casa após tanto tempo.

Como ocorria no Vietnã, falta coragem – e força política – para enfrentar os erros e contradições do império. Não é pura coincidência que pelo menos um personagem tenha frequentado esses dois momentos.

A abertura dos arquivos das operações contra Ellsberg revelou que nos bastidores do governo Nixon já atuava um assessor presidencial chamado Donald Rumsfeld. Quatro décadas depois, como secretário de Defesa de George W. Bush, Rumsfeld foi denunciado pela liberação da tortura como método de investigação militar depois do 11 de setembro.

O personagem do momento é Barack Obama, que oferece uma nova prova de melancólica fraqueza política para dar um mínimo de coerência entre palavras e atos. Como Marcuse poderia ter dito, o homem unidimensional atingiu um nível absoluto no governo Obama. Suas decisões e gestos são movimentos de uma máquina implacável, que avança sobre direitos que se pensava sagrados e devora conquistas de valor histórico.

O desrespeito às liberdades individuais e privacidade de milhões de pessoas mostra uma postura sem freios nem pudores para defender aquilo que a Casa Branca considera seus interesses. Imagine o destino reservado a quem pretender confrontá-los, não é mesmo?

A própria sociedade norte-americana mudou. Há 40 anos, houve uma reação de solidariedade a favor de Ellsberg. Com o New York Times sob censura, o Washington Post, que havia tomado o furo, passou a divulgar os papéis do Pentágono, oferecidos pelo mesmo Ellsberg. E agora? Pouco a pouco, muitas publicações que divulgaram os textos do WikiLeaks preferiram tomar distância de Julian Assange.

O julgamento de Bradley Manning ocorre em ambiente de segredo, e isso não gera grande emoção dentro ou fora dos Estados Unidos. Edward Snowden já é descrito como “delator” pelos meios de comunicação – palavra que envolve um juízo negativo e aponta para a criminalização de um gesto político.

Em declaração recente, o já velhinho Ellsberg voltou à cena e declarou que a democracia encontra-se à beira do abismo, nos EUA – e é bom refletir sobre o que ele diz.

Julian Assange: “EUA querem uma confissão falsa.”

5 de junho de 2013

Wiki_Julian_Assange37

Leia a seguir trecho inédito da entrevista com o criador do WikiLeaks a respeito da pressão do governo norte-americano sobre o soldado Bradley Manning, que está sendo julgado.

Lino Bocchini, via CartaCapital

Assange recebeu ao blogueiro, então redator-chefe da revista Trip, com uma câmera na mão. O ativista estava de trem de Diss, município próximo ao casarão onde cumpriu pena domiciliar.

Há dois anos tive a oportunidade de passar três dias com Julian Assange, na casa de campo inglesa onde ele cumpriu sua prisão domiciliar, para fazer a matéria de capa da revista Trip de maio de 2011 – fui redator-chefe da revista até janeiro passado. Nas salas espaçosas e nos quartos, a mobília de época convivia com dezenas de laptops, cabos e enormes HD externos. Na porta da geladeira da cozinha no casarão do século 18, um imã gritava solitário: “Free Bradley Manning”.

Nas longas conversas com o australiano criador do WikiLeaks, o nome do soldado aparecia com frequência. Em um trecho inédito da entrevista reproduzido a seguir, Assange afirma que são duas as intenções do governo norte-americano ao coagir o jovem militar responsável pelo vazamento de 250 mil cables, como são chamados os comunicados das embaixadas norte-americanas à Casa Branca. A ação do jovem Manning em 2010, então com 22 anos, expôs ao mundo a forma como os EUA enxergam e se relacionam com o mundo. Manning começou a ser julgado na segunda-feira 3 de junho. Mas vale recuperar as palavras de Assange sobre o que ele acredita serem as motivações para sua detenção pelo governo norte-americano:

“Primeiro, Manning foi preso e está mantido nestas condições sombrias, em uma solitária, para que ceda. Querem que ele faça uma confissão, que diga que deu documentos para nós e, mais, que conspiramos junto com ele para conseguir tais documentos. Dessa forma eles ganhariam um argumento para indiciar-nos por conspiração e espionagem. Querem obrigá-lo a fazer uma confissão falsa que leve a esse tipo de conexão”.

O criador do WikiLeaks continua com sua calma habitual: “Em segundo lugar estão fazendo isso com Manning para não perderem o controle sobre os militares. Eles se preocupam com a existência de um soldado que não seguiu as ordens. Mas Bradley viu violações de direitos humanos dentro do aparato militar dos EUA e causou tremendo constrangimento para o exército norte-americano ao entregar esse material para a imprensa. E, claro, não querem passar a ideia de que generais não conseguem manter o controle sobre os soldados. Usando-o como exemplo, outros soldados vão ficar em seus lugares e cumprir suas tarefas. Dar à imprensa material como esse iria conter as práticas abusivas do exército norte-americano, e esse é um ponto-chave das forças armadas daquele país”.

Aqui a entrevista na revista Trip.

WikiLeaks: Começa o julgamento do soldado Bradley Manning

5 de junho de 2013

Bradley_Manning03

Há três anos detido, soldado acusado de repassar arquivos secretos ao WikiLeaks enfrenta 22 acusações, que podem lhe render prisão perpétua. O processo em tribunal militar deve durar três meses.

Via Correio do Brasil

Desde que foi preso, em maio de 2010, Bradley Manning é uma figura polarizadora entre os norte-americanos. Responsável pelo maior vazamento de documentos secretos da História dos Estados Unidos, a principal fonte dos WikiLeaks é para alguns um herói e para outros um traidor. Na segunda-feira, dia 3, ele começou a ser julgado, num processo militar cercado de polêmica, sigilo e protestos.

Manning enfrenta 22 acusações, entre elas a de “ajudar o inimigo”, que pode levá-lo à prisão perpétua. Ele pretende se declarar culpado de dez, o suficiente para lhe custar até 20 anos atrás das grades. Entre o material que divulgou estão vídeos de ataques aéreos com vítimas civis, correspondências diplomáticas com conteúdo sigiloso e reportes militares das guerras do Iraque e do Afeganistão.

“Ele é um herói”, diz Heather Linebaugh, de 24 anos, uma das centenas de manifestantes que foram na tarde de sábado, dia 1º, para a frente do quartel de Fort Meade, ao norte de Washington, para mostrar apoio a Manning. “Se ele não tivesse publicado os documentos, as pessoas não teriam visto o que realmente acontece na guerra.”

Logo após sua detenção, no Iraque, Manning foi levado para a prisão militar de Quântico, Virgínia, onde permaneceu na maior parte do tempo sendo monitorado pelos guardas a cada cinco minutos. Pelo temor de que se matasse, foi forçado a dormir com o rosto voltado para uma lâmpada de forte luminosidade e foi impedido de se apoiar na parede durante o dia. Teve ainda suas roupas e óculos confiscados, ao se irritar com os carcereiros.

Após críticas internacionais às condições da detenção, Manning foi transferido em 2011 para a prisão militar de Fort Leavenworth, no Texas. Em março de 2012, após uma investigação de 14 meses, o relator especial da ONU sobre tortura, Juan Mendez, acusou formalmente o governo dos EUA pelo tratamento “cruel, desumano e degradante” dado a Manning. Quase um milhão de pessoas assinaram uma petição para acabar com o isolamento do soldado.

Heather Linebaugh tinha o mesmo trabalho que Bradley Manning. Ela conta que, entre 2009 e 2012, avaliava, como analista de informações, os vídeos e outros registros de aviões militares não tripulados. Ela deixou seu cargo na Força Aérea em março de 2012 e agora estuda ciência política.

“Qualquer pessoa que tenha feito esse trabalho com os drones, viu assassinatos de ambos os lados”, conta. “Viu comboios explodirem, viu como perdemos nossa própria gente.”

Entre herói e vilão

Heather Linebaugh afirma que, por meio da divulgação do vídeo publicado por Manning, ficou claro como é a realidade da guerra no Iraque, com vítimas inocentes e civis.

“Ele arriscou muito por nós”, diz por sua vez Nathan Fuller, porta-voz da rede de apoio a Bradley Manning, que organizou a manifestação em Fort Meade. “Ele arriscou sua vida e sua liberdade para nos informar sobre o que o governo está fazendo em segredo. Por isso, merece nosso apoio e precisamos defendê-lo.”

Há três anos, Bradley Manning aguarda o início de seu julgamento. Se for condenado, terá descontados, por isso, 112 dias – muito pouco, na opinião dos manifestantes em Washington.

Para Daniel Ellsberg, de 82 anos, o duro tratamento dado a Manning pelos militares já é motivo suficiente para encerrar o processo. No começo dos anos de 1970, ele divulgou os chamados “Papéis do Pentágono”, documentos secretos do governo dos EUA que provavam que as autoridades já sabiam desde o início que a guerra do Vietnã não poderia ser vencida e causaria muito mais vítimas do que admitiam publicamente.

Ellsberg também foi indiciado, mas, na condição de civil, não estava sujeito à jurisdição militar. O julgamento foi encerrado depois que o consultório de seu médico foi arrombado a mando do governo.

“Eu me identifico muito com Bradley Manning”, diz, durante a manifestação. “Não é um crime se mostrar a realidade. Não há prova alguma de que as tropas norte-americanas ou qualquer outra pessoa tenham sido prejudicadas através da publicação. Isso só causou um embaraço muito grande para o governo.”

O assistente social Peter Swords, integrante do Syracuse Peace Council, que também veio de ônibus ao Fort Meade, junto com os outros ativistas, concorda com Ellsberg.

“Comparado com os crimes de guerra e o desrespeito às leis internacionais por parte do governo Bush, os quais continuam até agora impunes, Bradley nos fez um grande favor”, diz Swords, que, como outros manifestantes, protestou durante anos contra as guerras no Iraque e no Afeganistão.

Secretismo

Os manifestantes se perguntam o quanto conseguirão saber a respeito do processo, já que a cobertura é difícil. O tribunal não permite gravações de áudio ou vídeo, telefones celulares são proibidos.

Nathan Fuller, de 24 anos, comparece, por isso, há um ano, uma vez por mês a Fort Meade, para participar das audiências, tomar notas e publicá-las.

“Os militares não fornecem anotações, decisões ou propostas ao público e à imprensa. Por isso, temos de fazer nossas próprias anotações”, relata. Muitos manifestantes também reclamam que a mídia norte-americana noticia muito pouco sobre Bradley Manning.

Para Fuller, o apoio a Manning é um trabalho de tempo integral, que ainda o manterá ocupado por um tempo, porque o processo está programado para durar 12 semanas. Na segunda-feira, dia 3, eles fazem uma vigília.

“Esperamos que o interesse continue por todo o verão [Hemisfério Norte], a vigília e o apoio, já que o processo está previsto para durar até meados de agosto. Por isso, mais manifestações estão previstas para junho e julho.”


%d blogueiros gostam disto: