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A Igreja Católica quer ter um casal de santos escravocratas?

25 de janeiro de 2014
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Retrato do casal Jerônimo e Zélia Magalhães, em igreja no Rio de Janeiro. Reprodução Facebook.

Arquidiocese do Rio quer a beatificação de Zélia e Jerônimo; se conseguir, Brasil vai ganhar beatos senhores de escravos.

Haroldo Ceravolo Sereza, via Opera Mundi

Aviso:Baseio esse artigo, essencialmente, nas
informações biográficas fornecidas pela própria
arquidiocese do Rio de Janeiro sobre o casal Zélia e Jerônimo,
mais novos candidatos a beato do país
.

13 de maio de 1888: princesa Isabel assina a Lei Áurea. O casal Zélia Pedreira Abreu Magalhães (1857-1919) e Jerônimo de Castro Abreu Magalhães (1851-1909) acata a lei e permite que seus escravos continuem a viver na fazenda.

20 de janeiro de 2014: a Arquidiocese do Rio de Janeiro fez saber ao mundo que pretende a beatificação de Zélia e Jerônimo. Como sabemos, a beatificação é o primeiro passo para a canonização. Ou seja, se o processo correr e ficarem provados milagres concedidos pela dupla, caminhamos para ter, um dia, um santo casal escravocrata brasileiro. Poderemos então chamar Zélia e Jerônimo de “santos padroeiros do sistema escravista”.

Dom Orani Tempesta, recém-nomeado cardeal, arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro, lançou inclusive uma oração para que os dois cheguem lá: “Senhor, nosso Deus, que unis o homem e a mulher pelos laços do Matrimônio, Vos pedimos, por intercessão de vossos servos, Zélia e Jerônimo, que se santificaram na vida do amor matrimonial, acolhendo e educando seus filhos na verdadeira Fé, no amor a Deus e ao Próximo, a graça da proteção às nossas famílias. Rogamos que seguindo os seus exemplos possamos viver de acordo com o Vosso desejo, para o bem da Igreja e a santificação de nossa sociedade.” A partir dessa oração, parece evidente que o objetivo principal da beatificação é a valorização do casamento religioso tradicional, ou seja, entre heterossexuais, como parte do combate ao avanço dos novos arranjos familiares que o Ocidente, sobretudo, vem vivendo. A hora é de valorização do casal, não mais o indivíduo, supostamente santo.

A partir dessa oração, parece evidente que o objetivo principal da beatificação é a valorização do casamento religioso tradicional, ou seja, entre heterossexuais, como parte do combate ao avanço dos novos arranjos familiares que o Ocidente, sobretudo, vem vivendo. A hora é de valorização do casal, não mais o indivíduo, supostamente santo.

A Igreja de Dom Orani, assim, os avalia como bons pais. Entre outros motivos, por terem tido nove filhos conduzidos à vida religiosa. Mas não deixa de tocar em outro ponto, igualmente sensível: acha também que eles foram bons senhores de escravo. No perfil biográfico do casal distribuído pela arquidiocese, afirma: “Na fazenda [de propriedade do casal, Santa Fé] havia uma capela onde Zélia rezava inúmeras vezes ao dia. O casal jamais tratava os escravos, que viviam em liberdade e recebiam salário, como propriedade [grifo meu].” A contradição é evidente, e a saída é o recurso constrangido do verbo tratar: Zélia e Jerônimo podiam não tratar seus negros como escravos, mas jamais permitiram que esses homens “tratados como livres” fossem “de fato” livres.

Outro motivo para a beatificação do casal é que seus escravos “iniciavam seu dia de trabalho com uma oração guiada por ela e acompanhada por Jerônimo, no coreto do pátio da fazenda”. O texto da Arquidiocese acrescenta que “a preocupação de Zélia e Jerônimo com a vida espiritual desses homens, mulheres e crianças era tão grande que eles sempre participavam da Missa, das confissões e da catequese promovidas pelo casal, e Zélia, pessoalmente, encarregava-se da catequese e da assistência aos escravos e necessitados”.

Em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre cita (bem pouco criticamente, é verdade) o viajante Henry Koster, em relação à conversão de escravos ao cristianismo: “Não se pergunta aos escravos se querem ou não ser batizados; a entrada deles no grêmio da Igreja Católica é considerada como questão de direito. Realmente eles são tidos menos por homens do que por animais ferozes até gozarem do privilégio de ir à missa e receber sacramentos”.

A atenção religiosa de Zélia e Jerônimo, assim, se aproxima desse processo descrito: parece, pela própria descrição da arquidiocese, que eles não tinham a opção de participar ou não dos rituais católicos.

Alforria

Ora, não eram raros os casos, no final do século 19, de proprietários que davam cartas de alforria aos escravos, para que eles vivessem não como se fossem livres, mas livres de fato. Alguns faziam isso apenas com os velhos, um processo extremamente cruel; outros, engajados na luta abolicionista, com todos. Como está registrado na trama do romance O cortiço, a carta de alforria era uma aspiração de muitos escravos, muitas vezes comprada com economias juntadas por anos.

Na literatura brasileira, mas claro que diretamente relacionado à experiência da época, vale lembrar o caso do negro Prudêncio, em Memórias póstumas de Brás Cubas. A manumissão (libertação do escravo) não era uma garantia do fim de uma complexa relação e assimétrica: Prudêncio, que servira de cavalinho a Brás Cubas na infância, já livre, compra um escravo e paga “com alto juro” a violência que sofrera. Ao castigar esse escravo seu, Prudêncio é surpreendido por um Brás, que lhe pede para parar e é prontamente obedecido. “Pois, não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!”

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Dom Orani Tempesta (à esq.) se despede do papa Francisco em julho de 2013, junto com o vice-presidente Michel Temer.

Livre legalmente, Prudêncio seguia submetido à violência da lógica da escravidão, e mesmo quando castigava o seu escravo, ainda respondia primeiro às ordens do seu antigo senhor – que se sente alegre e moralmente superior por ter impedido o novo castigo, apesar de não ter feito nada para libertar o novo escravo nem para dar liberdade de fato para o ex-escravo.

O casal é, nesse aspecto, menos santo do que Brás Cubas. Não chegou nem a alforriar seus Prudêncios. Quem leu Memórias póstumas sabe o quanto isso significa.

O advogado do diabo

Ainda no campo da literatura, cabe registrar um escritor que se notabilizou pelo conhecimento que tinha da hierarquia e das contradições do catolicismo: o australiano Morris West, um autor de ótimos best-sellers, que dedicou um livro completo ao dilema moral que é o processo de canonização: O advogado do Diabo.

Advogado do Diabo era o nome popular do Promotor da Fé (Promotor Fidei em latim), a figura da Igreja responsável por encontrar faltas e pecados que pudessem desqualificar um eventual candidato a santo. No romance, o cético profissional descobre que o padre que supostamente realizaria milagres no sul da Itália vivia com uma mulher e com ela dividia, despudoradamente, uma cama de casal. O drama do promotor da fé é que aquele candidato a santo parecia de fato ser um grande homem e talvez até seus fiéis tivessem sido agraciados com milagres, embora ele, em vida, houvesse rompido uma regra de ouro para o Vaticano – o celibato dos líderes religiosos.

O processo de beatificação e de canonização, no entanto, passou por grandes mudanças durante o papado de João Paulo 2º (antecessor de Bento 16, por sua vez antecessor de Francisco). Em tese, desde 1983, ficou mais rigoroso, com exigência maior de comprovação científica de milagres. Na realidade, tornou-se mais burocrático, com maior circulação de papeis e certificações. Ao impor certa ordem na bagunça que era a política da santificação, e eliminar a figura do promotor da fé, João Paulo 2º na verdade facilitou o processo, e o resultado foi o crescimento vertiginoso no número de beatos e santos.

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A Paróquia Nossa Senhora da Conceição da Gávea, no Rio, onde estão os restos mortais do casal. Reprodução Facebook.

Nos últimos meses, o papa Francisco tem feito inúmeras declarações e movimentos no sentido de reaproximar a Igreja Católica de um discurso de preocupação com os pobres e humildes. Lavou pés de mendigos, foi menos duro que Bento 16 com relação à homossexualidade e fez críticas abertas e gestos concretos contra cardeais envolvidos em suspeitas transações financeiras. Mas agora, depois de um movimento celebrado inclusive por católicos ligados às posições mais progressistas, um processo constrangedor, vindo do Brasil e das mãos de um cardeal, cairá em seu colo.

Como ele se posicionará? Talvez o melhor, dessa vez, fosse o papa assumir a postura crítica de um “promotor da fé”.

Até tu? Madre Teresa desviava dinheiro de hospitais para o Vaticano

11 de setembro de 2013
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“Casas para doentes” da missionária eram chamadas por médicos de “necrotérios”.

Via Blog do Paulo Lopes

Madre Teresa de Calcutá (1910-1997) recebeu de doadores centenas de milhões de dólares para seus hospitais – os quais ela chamava de “casas para doentes” –, mas o grosso (ou parte significativa) desse dinheiro ela mandou para o Vaticano, deixando os doentes em estado precário, sem remédios e cuidados.

Médicos classificaram esses locais de “casas da morte” ou de “necrotérios”. No âmbito da OMS (Organização Mundial da Saúde) houve denúncias de que as “casas” eram locais de epidemias. Uma ex-voluntária escreveu que faltava até AAS para amenizar a dor dos doentes.

Essa são algumas das revelações do estudo “O lado escuro de Madre Teresa” feito por Serge Larivee, Carole Senechal e Geneviève Chenard, da Universidade de Montreal, Canadá.

Em 1979, ela foi premiada com o Nobel da Paz e em 2003 beatificada pela Igreja Católica. A missionária já tinha se tornado um símbolo da caridade cristã. Mas os pesquisadores canadenses, após examinar mais de 500 documentos, constataram que os alegados altruísmo e generosidade de Madre Teresa não passavam de fantasia vendida como verdade pela imprensa internacional.

A rigor, ela foi “inventada” pelo jornalista Malcolm Muggeridge, da BBC, que lhe dedicou em 1969 o documentário Algo bonito para Deus, apresentando ao mundo a figura frágil de uma missionária que se dedicava aos pobres e doentes da Índia. Em 1971, o jornalista publicou um livro com o mesmo título.

A missionária abriu centenas de “casas de doentes” em vários países, mas não as tornava hospitais de fato, a ponto de os doentes serem mantidos em agonia em esteiras no chão. Fotos na imprensa desses doentes ajudaram Teresa a arrecadar milhões, inclusive de ditadores sanguinários, como François Duvalier, o Papa Doc do Haiti.

Para Larivee, Madre Teresa colocou em prática a sua convicção de que o sofrimento humano é fundamental para a salvação. Ela acreditava que os sofredores estavam mais perto do céu e de Cristo.

O jornalista britânico radicado nos Estados Unidos Christopher Hitchens (1949-2011) já tinha denunciado o embuste que era Teresa ao publicar em 1995 o livro A intocável Madre Teresa de Calcutá.

Diz um trecho do livro: “Tenham em mente que a receita global da Madre Teresa é mais do que suficiente para equipar várias clínicas de primeira classe em Bengala. A decisão de não fazê-lo […] é deliberada. A questão não é o alívio do sofrimento honesto, mas a promulgação de um culto baseado na morte, sofrimento e subjugação.”

Na época, Hitchens foi “crucificado” pelos católicos por ter criticado a boa e santa velhinha.

Um fato pouco conhecido é que a missionária acobertou um padre pedófilo, o ex-jesuíta Donald McGuire. Em 1993, o sacerdote, que era amigo de Teresa, estava afastado de suas atividades por abusar de um garoto. A missionária usou sua influência para que McGuire voltasse à ativa.

Nos anos seguintes, oito outras queixas de pedofilia foram apresentadas por fiéis à Igreja e às autoridades. E McGuire acabou condenado a 25 anos de prisão.

Madre Teresa, o anjo do inferno, por Christopher Hitchens

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Lavagem de dinheiro: Prisão de padre aumenta pressão por transparência no Vaticano

30 de agosto de 2013
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Nunzio Scarano, o “Monsenhor 500”.

A prisão de um padre italiano, suspeito de envolvimento em um esquema de fraude e corrupção no Banco do Vaticano, está colocando ainda mais pressão sobre a Igreja Católica por mais transparência e cooperação com as investigações da polícia.

O padre Nunzio Scarano, de 61 anos, que tem o título de monsenhor – um reconhecimento de honra dado pelo papa a sacerdotes com mais tempo de carreira –, foi preso juntamente com um agente do serviço secreto italiano e um investidor financeiro.

De acordo com investigações da polícia italiana, o grupo é suspeito de tentar trazer cerca de €20 milhões euros (ou quase R$58 milhões) ilegalmente para a Itália.

Reação

Scarano ocupava o cargo de contador sênior num importante departamento financeiro do Vaticano – o APSA (Amministrazione del Patrimonio della Sede Apostolica) –, mas, segundo o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, tinha sido suspenso de suas atividades “há cerca de um mês, quando seus superiores tomaram conhecimento da investigação”.

Nesta semana, o papa anunciou a criação de uma comissão de clérigos para analisar o trabalho administrativo do Banco do Vaticano, que vinha sendo alvo de denúncias de envolvimento em lavagem de dinheiro. Mas não se sabe até onde o Vaticano estaria disposto a ir para ajudar a polícia.

Segundo o correspondente da BBC em Roma, David Willey, “tradicionalmente, o Banco do Vaticano sempre impôs grande segredo sobre as atividades de seus funcionários”. Com o anúncio da criação da comissão, o papa está tentando “impor mais transparência e clareza na atuação financeira do Vaticano, o que não poderia ter chegado em melhor hora”, disse Willey.

O Banco do Vaticano – cujo nome oficial é Instituto para os Trabalhos da Religião (IOR) – é considerado uma das instituições financeiras mais secretas do mundo. Ele tem 114 empregados e um total de 5,4 bilhões de euros (ou mais de R$14 bilhões) em fundos. O papa teria dado “carta branca” à comissão de clérigos do Vaticano, que terá poderes para quebrar regras tradicionais de sigilo.

Lavagem de dinheiro

Scarano, que exerceu o sacerdócio na cidade de Palermo, a maior cidade da Sicília, no sul da Itália, está sendo acusado de ter lavado dinheiro “sujo” no Banco do Vaticano por meio de cheques descritos como “doação de igrejas”.

De acordo com Willey, a imprensa italiana tem chamado o padre Nunzio Scarano de “Monsenhor 500”, numa alusão ao valor constante dos cheques que ele movimentaria na conta do Vaticano – sempre depositados em montantes de apenas €500,00.

O valor total envolvendo somente esses pequenos cheques chegaria a US$700 mil (ou mais de R$1,5 milhão). Sobre os outros homens presos – Giovanni Maria Zito, descrito pela polícia como agente do serviço secreto italiano, e Giovanni Carenzio, que seria um investidor de mercado – não foram divulgadas informações de como eles participariam do esquema.

O Instituto para os Trabalhos da Religião tem como seu maior investidor o Banco Ambrosiano, uma grande instituição financeira italiana que entrou em decadência em 1982 com a perda de mais de US$3 bilhões (mais de R$6,6 bilhões).

O presidente do Banco Ambrosiano, Roberto Calvi, foi encontrado morto pendurado na ponte de Blackfriars, em Londres, em junho de 1982. O caso ficou famoso por uma reviravolta nas investigações, quando a polícia londrina determinou como assassinato o que no início se supunha ser um suicídio. Calvi tinha relações bem próximas com o Vaticano.

O esquema era comandado pelo monsenhor católico Nunzio Scarano. Os suspeitos são empresários, amigos pessoais do religioso, parentes, médicos e até um carpinteiro. Informações divulgadas por um jornal italiano revelaram que o patrimônio pessoal de Scarano é estimado em quase R$9 milhões.

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Vídeo do Portal R7

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Vaticano é 8º colocado em lavagem de dinheiro

22 de agosto de 2013

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Dermi Azevedo, via Carta Maior

O Vaticano ocupa o 8º lugar do mundo entre os países que lavam dinheiro sujo, oriundo da sonegação de impostos, da obtenção de lucros ilícitos, do tráfico de armas e de drogas, entre outras fontes criminosas. O Vaticano conseguiu deixar para trás, em matéria de lavagem de dinheiro, países como a Suíça, Bahamas, Liechtenstein, Nauru e as Ilhas Maurício.

A pesquisa foi realizada pela rede de organizações sociais francesas Voltaire, com base em dados fornecidos por autoridades alemãs e suíças. No ano passado, o Instituto de Obras da Religião (IOR), nome oficial do Banco do Vaticano, epicentro do problema, teria lavado cerca de US$33 bilhões. Esta informação tem um caráter aproximativo, porque ninguém (nem mesmo o papa) tem acesso ao balanço real da instituição bancária mais secreta do planeta.

Neste momento, está em atividade uma comissão formada por cardeais e outros assessores do papa Francisco cuja missão é precisamente a de investigar os bastidores do IOR e de apresentar ao pontífice propostas de mudanças radicais no banco. Não está excluída a possibilidade de fechamento do instituto e a sua transformação numa entidade que possa administrar os recursos financeiros da cúpula da Igreja Católica Romana.

O mais recente escândalo no banco foi a prisão do monsenhor Nunzio Scarano, ex-chefe de contabilidade do IOR que integrava a APSA, um organismo do IOR que gerencia o patrimônio da Santa Sé. É acusado de corrupção, calúnia e fraude pela polícia financeira italiana. O papa foi comunicado sobre a prisão de Scarano e ordenou à sala de imprensa do Vaticano que divulgasse uma nota, informando que o assessor já havia sido suspenso do seu cargo em maio deste ano. É acusado de transferir para o IOR um total de 20 milhões de euros, da Suíça para uma conta de armadores napolitanos. A Justiça italiana rejeitou, no sábado passado, o recurso do monsenhor Scarano. Ele continua preso domiciliarmente no Vaticano.

Antiga fama

A situação do IOR foi o tema de um dos debates mais acalorados pouco antes do conclave, na Capela Sistina, quando alguns cardeais de todos os continentes questionaram uns aos outros sobre a responsabilidade dos principais assessores do papa renunciante Bento 16 no andamento da corrupção no Banco do Vaticano. Alguns cardeais dos países menos desenvolvidos, mas também da América do Norte e da Europa, deixaram vazar essa informação. Considera-se que esse debate foi importante para que, em seguida, os cardeais tenham votado secretamente no argentino Jorge Bergoglio como novo papa.

A primeira atitude do novo pontífice foi a de nomear a comissão especial para a reforma do banco. Assessores de sua confiança mantiveram também contato com a União Europeia em busca de assessoria técnica, por meio do Moneyval, que é um organismo da UE que avalia e executa medidas contra lavagem de dinheiro e contra o terrorismo.

Em 1997, o Conselho da Europa criou a Comissão Especial de Peritos sobre a Avaliação de Medidas Antilavagem de Dinheiro, com a sigla PC-R-EV, como um subcomitê do Comitê Europeu para os Problemas Criminais (CDPC). Em 2002, o nome da comissão foi mudado para Comitê de Peritos sobre a Avaliação das Medidas de Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo, com a abreviatura Moneyval, por entender que a sigla anterior não expressava com clareza os seus objetivos.

O IOR foi fundado em 27 de junho de 1942 pelo papa Pio 12. Seus estatutos foram redigidos de tal forma que nem o papa tem acesso direto à sua administração. Já nas primeiras décadas dos anos 40, foram levantadas suspeitas de que banco poderia guardar verbas produzidas pelo regime nazista e também por banqueiros judeus perseguidos. O caso Marcinkus tornou-se o escândalo mais conhecido envolvendo o IOR. O então arcebispo norte-americano foi responsabilizado, pelas autoridades italianas, de envolvimento com a Máfia, na falência do Banco Ambrosiano, que também envolveu a loja maçônica P-2 e vários banqueiros. O caso inspirou até mesmo a produção de filmes e de vários livros.

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WikiLeaks: Vaticano apoiou a ditadura de Augusto Pinochet

9 de abril de 2013
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Augusto Pinochet desfila no oitavo aniversário do golpe militar de 1973.

Via Opera Mundi

O site WikiLeaks divulgou na segunda-feira, dia 8, documentos do Departamento de Estado dos EUA que revelam o apoio do Vaticano para o golpe no Chile em 1973. Segundo informações do jornal italiano La Repubblica, “em nome do Santo Padre”, a Igreja negou denúncias contra os militares, dizendo que as repressões reportadas no país sul-americano se tratavam de “propaganda comunista”.

Um dos documentos divulgados – datados na década de 1970 – mostra o então secretário de Estado do Vaticano, Giovanni Benelli, em diálogo com diplomatas norte-americanos expressando “grave preocupação do papa Paulo 6º (1963-1978) com a campanha de esquerda para distorcer completamente a realidade da situação política no Chile”.

As conversas entre Igreja e EUA ocorreram cinco semanas depois de Pinochet tomar o poder por meio de um golpe de Estado, derrubando o regime socialista de Salvador Allende. Na ocasião, milhares de simpatizantes do regime de esquerda foram presos e mortos.

Na ocasião, o Vaticano admitiu que houve sangue derramado nas ruas chilenas, porém, acenou que os bispos chilenos “estavam fazendo de tudo para corrigir a situação e as reportagens que falam de repressão brutal, pois elas são infundadas”, afirma o documento divulgado na segunda-feira, dia 8.

O Vaticano também afirma que “a cobertura exagerada dos eventos ocorridos no Chile foram uma grande vitória da propaganda comunista”.

Segundo informações do site espanhol Publico, Giovanni Benelli era o braço direito do papa Paulo 6º e teve sua gestão marcada pelo autoritarismo e a forma agressiva como ostentava suas opiniões.

O fundador do WikiLeaks, o australiano Julian Assange, disse que os documentos não foram vazados, pois estavam disponíveis no Arquivo Nacional dos EUA. O documento faz parte de um novo projeto do WikiLeaks, o PlusD, que agrega 1,7 milhão de textos diplomáticos entre 1973 a 1976, chamados de “Kissinger Cables” – em razão de serem da mesma época em que Henry Kissinger dirigia a política externa norte-americana – e 250 mil de 2003 a 2010, no vazamento mais famoso da organização, o “Cablegate”.

O projeto é uma parceria com 18 veículos internacionais, incluindo as agências de notícias Associated Press e France Presse e os jornais La Repubblica, da Itália, La Jornada, do México, Página 12, da Argentina, e a Agência Pública, no Brasil.

Quem são os “éticos” da Opus Dei

30 de março de 2013

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Altamiro Borges em seu blog, texto publicado em 24/9/2011

A Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. O jovem sacerdote de 26 anos diz ter recebido a “iluminação divina” durante a sua clausura num mosteiro de Madri. Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um “fanático e doente mental”, decidiu montar uma organização ultrassecreta para interferir nos rumos da Espanha. Segundo as suas palavras, ela seria “uma injeção intravenosa na corrente sanguínea da sociedade”, infiltrando-se em todos os poros de poder. Deveria reunir bispos e padres, mas, principalmente, membros laicos, que não usassem hábitos monásticos ou qualquer tipo de identificação.

Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das ideias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano 2, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros “perigosos” e proibia sua leitura pelos fiéis. “Este concílio, minhas filhas, é o concílio do diabo”, garantiu Escrivá para alguns seguidores, segundo relato do jornalista Emílio Corbiere no livro Opus Dei: El totalitarismo católico.

O poder no Vaticano

Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas a Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo 2º. Para o teólogo espanhol Juan Acosta, “a relação entre Karol Wojtyla e a Opus Dei atingiu seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível ascensão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio ativamente no processo de reestruturação da Igreja Católica sob o protagonismo do papa e a orientação do cardeal alemão Ratzinger”. Em 1982, a seita foi declarada “prelazia pessoal” – a única existente até hoje –, o que no Direito Canônico significa que ela só presta contas ao papa, que só obedece ao prelado (cargo vitalício hoje ocupado por dom Javier Echevarría) e que seus adeptos não se submetem aos bispos e dioceses, gozando de total autonomia.

O ápice da Opus Dei ocorreu em outubro de 2002, quando seu fundador foi canonizado pelo papa numa cerimônia que reuniu 350 mil simpatizantes na Praça São Pedro, no Vaticano. A meteórica canonização de Josemaría Escrivá, que durou apenas dez anos, quando geralmente este processo demora décadas e até séculos, gerou fortes críticas de diferentes setores católicos. Muitos advertiram que a Opus Dei estava se tornando uma “igreja dentro da Igreja”. Lembraram um alerta do líder jesuíta Vladimir Ledochowshy que, num memorando ao papa, denunciou a seita pelo “desejo secreto de dominar o mundo”. Apesar da reação, o papa João Paulo 2º e seu principal teólogo, Joseph Ratzinger, ex-chefe da repressora Congregação para Doutrina da Fé e atual papa Bento 16, não vacilaram em dar maiores poderes a Opus Dei.

Vários estudos garantem que esta relação privilegiada decorreu de razões políticas e econômicas. No livro O mundo secreto da Opus Dei, o jornalista canadense Robert Hutchinson afirma que esta organização acumula uma fortuna de US$400 bilhões e que financiou o sindicato Solidariedade, na Polônia, que teve papel central na débâcle do bloco soviético nos anos de 1990. O complô explicaria a sólida amizade com o papa, que era polonês e um visceral anticomunista. Já Henrique Magalhães, numa excelente pesquisa na revista A Nova Democracia, confirma o anticomunismo de Wojtyla e relata que “fontes da Igreja Católica atribuem o poder da Obra a quitação da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982”.

O vínculo com os fascistas

Além do rigoroso fundamentalismo religioso, a Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, “fingindo-se de louco”, antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. “A Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais”, afirma Henrique Magalhães.

Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as ideias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis “são belos e inteligentes” e devem olhar aos demais como “inferiores e animais”. Na máxima 643, ensina que a meta “é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial”. Na máxima 311, ele escancara: “A guerra tem uma finalidade sobrenatural… Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas”. Em 1992, um ex-membro da Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: “Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: “Escrivá, com toda certeza, era fascista.”

Escrivá até tentou negar estas relações. Mas, em seu processo de ascensão no Vaticano, ele contou com a ajuda de notórios nazistas. Como descreve a jornalista Maria Amaral, num artigo à revista Caros Amigos, “ao se mudar para Roma, ele estimulou ainda mais as acusações de ser simpático aos regimes autoritários, já que suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer a Opus Dei com estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o pontificado do papa Pio 12, por meio do cardeal Eugênio Pacelli, responsável por controverso acordo da Igreja com Hitler”. Outro texto, assinado por um grupo de católicas peruanas, garante que a seita “recrutou adeptos para a organização fascista ‘Jovem Europa’, dirigida por militantes nazistas e com vínculos com o fascismo italiano e espanhol”.

Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma “peregrinação” pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, a Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.

Infiltração na mídia

Para semear suas ideias religiosas e políticas de forma camuflada, Escrivá logo percebeu a importância estratégica dos meios de comunicação. Ele mesmo gostava de dizer que “temos de embrulhar o mundo em papel-jornal”. Para isso, contou com a ajuda da ditadura franquista para a construção da Universidade de Navarra, que possui um orçamento anual de €240 milhões. Jornalistas do mundo inteiro são formados nos cursos de pós-graduação desta instituição.

A Opus Dei exerce hoje forte influência sobre a mídia. Um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo sucessor de Escrivá revelou que a influência da seita se estendia por “479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou televisões, 38 agências de publicidade e 12 produtores e distribuidoras de filmes”.

Na América Latina, a seita controla o jornal El Observador (Uruguai) e tem peso nos jornais El Mercúrio (Chile), La Nación (Argentina) e O Estado de S.Paulo. Segundo várias denúncias, ela dirige a Sociedade Interamericana de Imprensa, braço da direita na mídia hemisférica. No Brasil, a Universidade de Navarra é comandada por Carlos Alberto di Franco, numerário e articulista do Estadão, responsável pela lavagem cerebral semanal de Geraldo Alckmin nas famosas “palestras do Morumbi”.

Segundo a revista Época, seu “programa de capacitação de editores já formou mais de 200 cargos de chefia dos principais jornais do País”. O mesmo artigo confirma que “o jornalista Carlos Alberto Di Franco circula com desenvoltura nas esferas de poder, especialmente na imprensa e no círculo íntimo do governador Geraldo Alckmin”.

O veterano jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, há muito denuncia a sinistra relação da Opus Dei com a mídia nacional. Num artigo intitulado “Estranha conversão da Folha”, critica seu “visível crescimento na imprensa brasileira. A Folha de S.Paulo parecia resistir à dominação, mas capitulou”. No mesmo artigo, garante que a seita “já tomou conta da Associação Nacional de Jornais (ANJ)”, que reúne os principais monopólios da mídia do País. Para ele, a seita não visa a “salvação das almas desgarradas. É um projeto de poder, de dominação dos meios de comunicação. E um projeto desta natureza não é nem poderia ser democrático. A conversão da Folha é uma opção estratégica, política e ideológica”.

A “santa máfia”

Durante seus longos anos de atuação nos bastidores do poder, a Opus Dei constituiu uma enorme fortuna, usada para bancar seus projetos reacionários – inclusive seus planos eleitorais. Os recursos foram obtidos com a ajuda de ditadores e o uso de máquinas públicas. “A Opus Dei se infiltrou e parasitou no aparato burocrático do Estado espanhol, ocupando postos-chaves. Constituiu um império econômico graças aos favores nas largas décadas da ditadura franquista, onde vários gabinetes ministeriáveis foram ocupados integralmente por seus membros, que ditaram leis para favorecer os interesses da seita e se envolveram em vários casos de corrupção, malversação e práticas imorais”, acusa um documento de um católico do Peru.

A seita também acumulou riquezas por meio da doação obrigatória de heranças dos numerários e do dízimo dos supernumerários e simpatizantes infiltrados em governos e corporações empresariais. Com a ofensiva neoliberal dos anos de 1990, a privatização das estatais virou outra fonte de receitas. Poderosas multinacionais espanholas beneficiadas por este processo, como os bancos Santander e Bilbao Biscaia, a Telefônica e a empresa de petróleo Repsol, têm em seu corpo gerencial adeptos da Opus.

Para católicos mais críticos, que rotulam a seita de “santa máfia”, esta fortuna também deriva de negócios ilícitos. Conforme denuncia Henrique Magalhães, “além da dimensão religiosa e política, a Opus Dei tem uma terceira face: da sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos secretos, redigidos em 1950 e expostos em 1986, a Obra determina que ‘os membros numerários e supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca a ninguém que eles próprios pertencem a Opus Dei’. Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada, o que frequentemente serve para encobrir atos criminosos”.

O jornalista Emílio Corbiere cita os casos de fraude e remessa ilegal de divisas das empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, que financiaram a Universidade de Navarra. Há também a suspeita do uso de bancos espanhóis na lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. A Opus Dei esteve envolvida na falência fraudulenta do Banco Comercial (pertencente ao jornal El Observador) e do Crédito Provincial (Argentina). Neste país, os responsáveis pela privatização da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por grupos espanhóis, foram denunciados por escândalos de corrupção, mas foram absolvidos pela Suprema Corte, dirigida por Antônio Boggiano, outro membro da Opus Dei. No ano retrasado, outro numerário da Opus Dei, o banqueiro Gianmario Roveraro, esteve envolvido na quebra da Parlamat.

“A Internacional Conservadora”

O escritor estadunidense Dan Brown, autor do best-seller O código da Vinci, não vacila em acusar esta seita de ser um partido de fanáticos religiosos com ramificações pelo mundo. A Opus Dei teria cerca de 80 milhões de fiéis, muitos deles em cargos-chaves em governos, na mídia e em multinacionais. Henrique Magalhães garante que a “Obra é vanguarda das tendências mais conservadoras da Igreja Católica”.

Num livro feito sob encomenda pela Opus Dei, o vaticanista John Allen confessa este poderio. Ele admite que a seita possui um patrimônio de US$2,8 bilhões – incluindo uma luxuosa sede de US$60 milhões em Manhattan – e que esta fortuna serve para manter suas instituições de fachada, como a Heights School, em Washington, onde estudam os filhos dos congressistas do Partido Republicano de George W. Bush.

Numa reportagem que tenta limpar a barra da Opus Dei, a própria revista Superinteressante, da suspeita Editora Abril, reconhece a enorme influência política desta seita. E conclui: “No Brasil, um dos políticos mais ligados à Obra é o candidato a presidente Geraldo Alckmin, que em seus tempos de governador de São Paulo costumava assistir a palestras sobre doutrina cristã ministradas por numerários e a se confessar com um padre da Opus Dei. Alckmin, porém, nega fazer parte da ordem”. Como se observa, o candidato segue à risca um dos principais ensinamentos do fascista Josemaría Escrivá: “Acostuma-se a dizer não.”

Os tentáculos no Brasil

No Brasil, a Opus Dei fincou a sua primeira raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano 2, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral na revista Caros Amigos.

Ainda segundo seu relato, “aos poucos, a Opus Dei foi encontrando seus aliados na direita universitária […]. Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra Martins e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a frequentar as reuniões da Opus Dei em 1963; Di Franco ‘apitou’ [pediu para entrar] em 1965. Hoje, a organização diz ter no País pouco mais de 3 mil membros e cerca de 40 centros, onde moram aproximadamente 600 numerários”.

Crescimento na ditadura

Durante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do governador Geraldo Alckmin. Até os anos de 1970, porém, o poder da Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema-direita.

Seu crescimento dependeu da bênção dos generais golpistas e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram seus “embaixadores”, relacionando-se com donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção de sua estrutura de fachada: Colégio Catamarã (São Paulo), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: Obras Sociais, Universitárias e Culturais (Osuc). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Confrontado com esta denúncia, Lizandro Carmona, da Osuc, implorou à jornalista Marina Amaral: “Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro a Opus Dei.”

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