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As polianas e os “protestos”

26 de fevereiro de 2014

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Sergio Saraiva, via Jornal GGN

Temos visto ultimamente um movimento de pretensos polianas que afirma que o governo está tentando sufocar, ou criminalizar, movimentos sociais quando reprime com a polícia ou por meio de uma legislação específica para protestos as ações dos Black Blocs que agora se travestiram de “protestos contra a Copa” e em reivindicações genéricas, tais como, “pela felicidade geral da Nação, padrão Fifa”.

Querem nos fazer crer, portanto, que tais grupos de desordeiros são pertencentes aos movimentos sociais. São tanto quanto o PCC ou o Comando Vermelho, ao seu modo, também são.

Então, um governo que dialoga com tantos movimentos sociais, dos sindicatos aos “sem”, sem-teto, sem-terra, sem floresta e que tais, não saberia dialogar com mais um? Ocorre que não se pode dialogar com o “Movimento dos Sem Diálogo”, com o “Movimento dos Sem Noção”.

Firmemos um ponto:

É um absurdo o uso da violência como forma de ação política na vigência do Estado Democrático de Direito. Logo, a reação do governo é a adequada quando cria formas de reprimir ações que são antidemocráticas porque têm fins antidemocráticos. É da defesa da democracia que estamos falando.

Vitorioso o “não vai ter Copa”, a próxima manifestação é o “não vai ter eleições”, quem ainda não percebeu isto? Os polianas aparentemente não. Não sejamos ingênuos, desde a Copa das Confederações, ano passado, quem vai a tais “protestos” sabe que vai participar de uma ação violenta, pretende isso.

A violência foi o único legado das tais “jornadas de junho”. A violência é filha do momento em que as reivindicações deixaram de ser pelos R$0,20 do MPL e passaram a ser “contra tudo isso que está aí”.

Acreditar que, hoje, existem “manifestações pacíficas” infiltradas de Black Blocs é uma forma de autoengano. Quem usa de um argumento tal como “não vai ter Copa” não está reivindicando nada, está ameaçando.

O que estamos assistindo é a surrada união tácita da extrema-esquerda com a direita no combate à esquerda democrática, no combate à social-democracia.

A extrema-esquerda só acredita na forma revolucionária de chegar ao poder. Uma esquerda que mostre ser possível fazê-lo pela via democrática é seu maior inimigo. Tira-lhe a razão de existir. Melhor, então, apoiar a tomada do poder pela direita, pois isso permitiria a retomada da luta radical. É o tal de “reforçar as incoerências do sistema para fomentar a consciência social do povo”. Também conhecida como a tática do quanto pior melhor.

Do lado da direita, a extrema-esquerda está fazendo o papel de idiota útil, criando a conturbação social que justifica as “medidas de exceção temporárias” necessárias ao “reestabelecimento da ordem”. Já vimos esse filme, durou 21 anos.

Não deverá se repetir, já que, como nos ensina Marx, “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Dá-lhe razão o número ínfimo dos “manifestantes” que vêm sistematicamente incendiando nossas ruas e depredando patrimônio público e privado, criando situações de provocação e confronto que tragicamente já acabaram em morte. Assassinato seria melhor dito.

Que representatividade tais grupos têm? Nenhuma, eis porque do uso da violência. Sem ela, lhes restaria os guetos autorreferentes e carregados de ódio das redes sociais. Restariam desapercebidos pelo mais da população.

Ainda assim, seria temerário se o governo nada fizesse. O partido no governo, ainda que de esquerda, ainda que comprometido com a causa popular, não lidera passeata de protesto contra si mesmo. Ainda mais de grupos tão radicalizados e reduzidos querendo se passar por “povo”.

Só os polianas parecem não entender que nessas situações o preço da liberdade é a eterna vigilância.

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10 de fevereiro de 2014

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Vitor Nuzzi, via RBA

Um dos coordenadores nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile afirma não ser contra a Copa do Mundo no Brasil, por mais razão que tenham os protestos contra os gastos para a organização do torneio e pela presença da Federação Internacional de Futebol (Fifa). “Acho que é um erro político colocar todos os problemas do país na reforma dos estádios: R$8 bilhões representam duas semanas de juros que o Brasil paga para os bancos.” A estimativa oficial mais recente dá conta que o valor com obras em estádio chegará a R$8,9 bilhões.

Para ele, é importante fazer mobilizações o quanto antes. O pior momento seria justamente durante a competição, que vai de 12 de junho a 13 de julho. “O povo quer ver a Copa do Mundo. A Copa faz parte da nossa cultura, e acho que seria um erro da moçada achar que isso [protestos] vai granjear apoio popular.”

Mas, segundo Stédile, não significa que é um momento de trégua. “Acho que Copa é que nem carnaval. Alguém vai marcar mobilização durante o carnaval? É besteira politizar certos períodos”, afirma.

Ao mesmo tempo, o coordenador do MST lembra que a entidade integra uma plenária com mais de 100 entidades. “Aqueles problemas estruturais (moradia, transporte, educação) estão latentes, e a juventude vai voltar a se manifestar. A juventude é um termômetro, é como se ela medisse a febre antes dos outros. Mas ela não tem um programa de mudanças. Quem tem de apresentar esse programa são os movimentos sociais organizados.” Ele lembrou que as centrais sindicais já organizam uma manifestação para 9 de abril.

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Washington Araújo: O Brasil é um lar espiritual para o futebol mundial

7 de fevereiro de 2014

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Washington Araújo, recebido por e-mail

Nosso país bem pode ser referido como um dos lares espirituais do futebol mundial e em 1950 teve o privilégio de sediar pela primeira vez uma edição da Copa do Mundo de Futebol organizada pela entidade-mor do esporte, a FIFA, agora, passados 64 anos, tendo no currículo cinco campeonatos mundiais, receberá em junho próximo os selecionados de 32 países, incluindo os estreantes Bósnia e Herzegovina.

A Copa Fifa 2014 no Brasil não tem sido avaliada adequadamente e sempre que lemos algo na imprensa percebemos o alto teor político-partidário com que o assunto vem se revestindo.

Com suas características de país-continente, a massa esperada de turistas-torcedores que aqui acorrerá terá oportunidade singular de, em não mais que um mês, conhecer as belezas naturais de cidades tão diversas quanto a hospitaleira Natal, o ícone de metrópole brasileira que é o Rio de Janeiro, a misteriosa Manaus, a moderna Curitiba, a pujante São Paulo, a festeira Salvador, a festeira Recife, a bucólica Cuiabá, e mais esses centros de brasilidade que são Fortaleza, Belo Horizonte e Porto Alegre. E, além de todas essas, os visitantes poderão visitar Brasília, esse milagre de arquitetura arrojada tornado realidade por Oscar Niemeyer e Lucio Costa há pouco mais de 50 anos.

As distâncias entre as sedes dos jogos não serão desprezíveis e o clima oscilará do frio de Porto Alegre à umidade de Manaus e ao calor com brisa do mar de Recife, Fortaleza, Salvador e Natal.

Essa nossa diversidade geográfica diz muito da diversidade humana que o Brasil tem para revelar ao mundo. Somos originários de ancestrais índios, europeus e africanos. Aqui desfrutamos da mais completa liberdade de crença, quando cristãos, adeptos de cultos de matriz africana, muçulmanos, bahá’ís, judeus, budistas convivem sem maiores dificuldades, e salvo eventuais excessos praticados por um ou outro indivíduo, no país vale o ensinamento de Krishna de que “não importa por que nome me invoqueis, Eu te responderei”.

Mas se alguém deseja mensurar de forma séria o significado de um evento esportivo de dimensão planetária como tem sido as sucessivas e mais recentes edições da Copa do Mundo de Futebol não existe filtro menos aconselhável que o de natureza ideológica. Com esse filtro, todos os gols são contrários à livre e independente busca da verdade, uma vez que privilegia-se visões fragmentadas da realidade e percepções sectárias na falsa dicotomia governos versus oposições.

Se mirarmos tão somente aspectos econômicos e financeiros, ainda com as contas finais longe de estarem fechadas, os custos e investimentos totais deverão estar por volta de R$26 bilhões. E como o país tem investido – e continua investindo – este montante? Bem, a construção de estádios (R$8 bilhões é cerca de 30% desse valor. E os 70% dos gastos da Copa não serão em estádios, mas em infraestrutura, serviços e formação de mão de obra. Apenas os gastos em aeroportos (R$6,7 bilhões, somados ao que será investido pela iniciativa privada (R$2,8 bilhões até 2014) é maior que o gasto com estádios. Já os gastos com mobilidade urbana praticamente empatam com o dos estádios.

A desinformação sobre valores e investimentos em ações para termos a melhor das Copas do Mundo muito contribui para o acirramento de ânimos e sua consequente politização, gerando muitas vezes falsas dicotomias: Copa do Mundo versus Saúde – Copa 2014 versus Educação – Fifa 2014 versus Mobilidade urbana. O que se desconhece (ou se procura desconhecer) é o fato que tais binômios não são antagônicos em sua natureza, em sua essência. Quem, em sã consciência, colocaria um evento esportivo acima de prioridades humanas básicas como educação, saúde e mobilidade urbana? Mas quem, também em sã consciência, poderia afirmar que se os 8 bilhões de reais usados na construção de arenas e estádios de futebol tivessem sido destinados ao aprimoramento de nossas carências nas três áreas sociais mencionadas, o Brasil passaria a dispor de educação, saúde e mobilidade urbana padrão Fifa?

É inegável que os recursos gastos em estádios poderiam ser úteis a atender parte de nossas históricas carências de infraestrutura de serviços essenciais. Mas, convenhamos, se os problemas do Brasil pudessem ser resolvidos com R$8 bilhões, já teriam sido.

De natureza pacifista, o Brasil só tem guerras em seus livros de história. Conflitos armados? Não. Disputa de fronteiras com países vizinhos? Também não. Terremotos e tsunamis? Não. O país, relativamente novo no concerto das nações, foi descoberto no ano de 1.500 com a vinda do navegante português Pedro Alvares Cabral. Naquele mês de abril há cinco século passados, esta terra foi descoberta ao tempo em que foram encobertas culturas, crenças e idiomas de seus povos nativos, reunidos em cerca de 200 diferentes etnias e tribos indígenas.

E é o povo deste Brasil que irá recepcionar, abrigar e acolher milhares de cidadãos vindos de quase duas centenas de nações, todos marcados por seu apreço ao futebol-arte, à dança de 22 atletas buscando levar seu país ao topo do futebol mundial.

É um momento singular para exercitarmos a virtude que tanto nos caracteriza, cantada em verso e prosa, destacada com regularidade nas mais diversas competições esportivas do planeta – a hospitalidade. Tratar o estrangeiro como um amigo longe de ser um desafio para nós brasileiros, é um convite irrecusável a que conheçam nossa cultura, nossos valores humanos, nossa maneira de encarar do futuro o presente que há muito ansiamos – a terra da prosperidade para todos, com justiça, liberdade e desenvolvimento social.

A Copa 2014 precisa ser um poderoso magneto criando “mais liga entre os seres humanos” em um mundo tão fragmentado por guerras e conflitos, tão fragilizado por injustiças há muito enraizadas e a desigualdades sociais duramente resistentes a mudanças.

O Brasil tem muito o que ensinar ao mundo. E também muito a aprender. Poderemos ensinar a tolerância em meio às diferenças. Poderemos aprender a ter um nacionalismo são e saudável, sem extremismos.

Ensinaremos nossa unidade essencial, essa unidade que irmana manauaras a cariocas, mineiros a cearenses, baianos a capixabas, sulistas a nordestinos.

Apreço à diversidade… não será para isso que serve um evento a ser visto via satélite por 2/3 da raça humana?

Tem um fusquinha no meio do caminho

31 de janeiro de 2014
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Cinco pessoas estavam dentro do Fusquinha.

O fusca de um serralheiro incendiado por manifestantes anti-Copa simboliza o equívoco dos que oferecem destinos redentores à sociedade sem combinar com ela.

Saul Leblon, via Carta Maior

Acontecimentos fortuitos muitas vezes sintetizam uma época melhor que as ações deliberadas de seus personagens.

Quando Maria Antonieta – afirma-se – num rasgo de espontaneidade aconselhou a plebe rude a optar por brioches à falta do pão, revelou-se por inteiro o abismo entre a rua que acabara de derrubar a Bastilha e a monarquia agonizante de Luiz 16. O general João Figueiredo, ditador entre 1979 e 1985, sintetizou o apreço do regime pela gente brasileira esponjando-se na língua das estrebarias: “Prefiro o cheiro de cavalo ao de povo”.

Na largada da campanha tucana em 2010, Eliane Cantanhede, colunista da Folha, definiu-se melhor que seus críticos ao explicar: “O PSDB é um partido de massa, mas uma massa cheirosa”.

O Fusquinha 75 incendiado na rua da Consolação, em São Paulo, no sábado, dia 25, revelou uma incomoda dimensão dos protestos contra a Copa de 2014.

Black Blocs que interrompiam a via atribuem o acidente ao piloto, que teria avançado sobre um bloqueio de fogo com crianças a bordo. Itamar Santos, serralheiro pobre de 55 anos, rejeita o papel de vilão.

Um colchão em chamas foi atirado sobre seu carro quando avançava para escapar de protestos, teoricamente, em defesa de brasileiros pobres como ele.

O Fusquinha no meio do caminho é a pedra no sapato dos que oferecem destinos redentores à sociedade sem combinar com ela –nem dizer como se chega lá.

Contrapor objetivos distintos aos do governo, qualquer governo, é legítimo. Sem adicionar aos enunciados as linhas de passagem capaz de materializá-los, porém, rebaixa-se a política ao plano do bate-boca inconsequente. Dispersa em vez de organizar.

A oposição conservadora também é useira e vezeira na atividade exclamativa. Desprovidos de compromissos com a sorte da nação e de sua gente, seus economistas, egressos em geral do vale tudo financeiro, colecionam receitas de como tocar fogo no país, indiferentes aos ocupantes dos Fusquinhas no meio do caminho.

A instabilidade cambial que ronda as nações em desenvolvimento nesse momento, antes de preocupá-los é vista como um bom aditivo para queimar caravelas. Move-os a esférica certeza de que o legado recente é incompatível com o futuro recomendado ao país.

A saber: aquele nascido de uma purga ortodoxa, capaz de limpar o tecido econômico de qualquer vestígio de soberania, interesse público e justiça social.

O problema dessa lógica é o bendito Fusquinha atrapalhando o tráfego das boas causas. Fortemente ancorada na ampliação do mercado de massa, a economia brasileira avançou nos últimos anos apoiada em ingredientes daquilo que a emissão conservadora denomina “Custo país”.

Em tempos de interdições inflamáveis, nunca é demais recordar. O salário mínimo teve elevação do poder de compra da ordem de 70% desde 2003, acima da inflação; 16 milhões de vagas foram abertas no mercado de trabalho, regidas pela regulação trabalhistas da era Vargas; políticas sociais destinadas a mitigar a fome e a miséria atingem mais de 55 milhões de pessoas atualmente.

No Fórum Social Temático, em Porto Alegre, a ministra Tereza Campello deu um exemplo do que está subjacente a estatísticas para as quais o vocabulário conservador reserva apenas uma palavra: assistencialismo.

Pela primeira vez na história do país, disse Campello, uma geração de crianças pobres, que agora completa 12 anos, nasceu e cresceu livre da fome (Bolsa Família, o poder transformador de uma infância sem fome).

O blackboquismo nas suas variadas versões dá de ombros.

O mesmo trejeito merece o cinturão de segurança de US$375 bilhões em reservas internacionais acumuladas no período de fastígio das commodities – “ciclo desperdiçado pelo governo do PT”, assevera-se. Não fosse ele, o Brasil seria presa fácil da volatilidade internacional desse momento, com consequências sabidas e equivalentes às da tripla quebra no ciclo tucano.

Mas a blindagem figura como um retrocesso do ponto de vista de quem acredita que as conquistas dos últimos 12 anos devem ser corroídas para reduzir o custo do investimento privado e aliviar o “gastança” fiscal.

Aí sim, sobre os escombros, brotaria uma nova matriz de crescimento “mais leve, ágil e competitiva”, temperada por um corte geral de tarifas de importações.

O diabo, de novo, é o Fusquinha na contramão do schumpeterismo blanquista. Dentro dele, 40 milhões de brasileiros saídos da pobreza extrema e outros tantos que ascenderam na pirâmide social formam a vértebra decisiva de um dos mais cobiçados mercados de massa do planeta.

Os jovens da chamada classe C, por exemplo, tornaram-se majoritários no mercado de consumo. Em 2013 eles realizaram compras no valor de quase R$130 bilhões – R$50 bilhões acima do valor consumido pela juventude dos segmentos A e B (Data Popular). Juntas, as faixas de renda C, D e E reúnem 155 milhões de pessoas, o que faz da demanda popular brasileira, sozinha, o 16º mercado consumidor do planeta.

É esse o recheio do Fusquinha que avança na contramão da dupla barreira, a incendiária e a purgativa, que sacode o debate do passo seguinte do país.

Reconheça-se, o tráfego social e econômico brasileiro tornou-se bem menos linear sob a pressão do fluxo de demandas, prazos e requisitos para o seu atendimento. Cada urgência tem um custo e quase nunca ele é neutro em relação a outra. Nenhuma novidade.

Desequilíbrio e desenvolvimento são irmãos siameses, exceto quando se entende por desenvolvimento a mera concentração da riqueza nas mãos dos endinheirados.

O Brasil talvez tenha avançado demais para regredir a essa modalidade de paz do salazarismo social. As multidões que invadiram a economia dentro do Fusquinha não aceitam dar meia volta na estrada da ascensão experimentada nos últimos anos.

Uma nova macroeconomia do desenvolvimento terá de ser construída em negociação permanente com elas. Ou contra elas –correndo-se o risco de ser atropelado por elas.

A contingência não incomoda apenas o blackbloquismo em suas variantes sabidas. Significa também que a vitória progressista em 2014 somente será consistente se ancorada na decisão política de promover a mutação do Brasil que se tornou majoritário na pista do consumo, em um Brasil hegemônico na repactuação de projeto de nação para o século 21.

Carta Maior, propositadamente, insiste em repetir: para isso é preciso – ao contrário do que fazem os shoppings aos sábados – alargar as portas da democracia e criar os instrumentos que forem necessários para sustentá-la.

Não adianta interditar o tráfego. Nem tacar fogo no Fusquinha das demandas populares.

A ver.

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Eles não são anticopa, são anti-PT e antidemocracia

28 de janeiro de 2014

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Crônicas do Motta

Como se diz por aí, é preciso dar nome aos bois. Por isso, vamos acabar com essa bobagem de chamar esses “protestos” de “anticopa”. Eles são sim anti-PT, antigoverno (federal), anti-Lula, anti-Dilma e antidemocracia.

São organizados pelo que de pior existe no Brasil: reaças saudosos da ditadura militar, “esquerdistas” imbecis desses partidecos “revolucionários”, políticos que não se conformam em ter perdido as mamatas do poder, ex-petistas obcecados em dar a revanche.

É um lixo só.

Se esse pessoal se diz tão preocupado com o progresso do país, por que quebra estabelecimentos comerciais e pontos de ônibus e incendeia veículos de trabalhadores? Que benefício ao Brasil traz esse tipo de atitude? Se esse pessoal se diz tão preocupado com o nível da educação brasileira, por que não lê alguns livros, não propõe um debate civilizado, não tenta ganhar adeptos no campo das ideias – e não na base da porrada?

É preciso dar nome aos bois.

Esse bando que diz que “não vai ter Copa” não está nem um pouco preocupado em ver o Brasil melhor. Quer, isso sim, que a nação regrida a seu nível – que é o dos energúmenos.

Sinto muito pelos que defendem o “direito” desses delinquentes saírem quebrando tudo e aterrorizando as pessoas – eles, no fundo, são gente da mesma laia dos vândalos, só que mais covardes. Este, queiram ou não, é o país do futebol. O futebol é a paixão do brasileiro. O Brasil sempre parou para assistir às Copas do Mundo.

Por que agora, quando a vida da população melhorou, vem esse grupo dizer que é contra a Copa, sob as mais imbecis e mentirosas alegações?

Ora, vamos dar nome aos bois.

Eles não querem mesmo é que o PT continue na Presidência, eles odeiam tudo o que Lula e Dilma representam, eles são viúvas da ditadura, oportunistas do mais alto grau travestidos de “esquerdistas”, sociopatas que deveriam ser retirados do convívio social.

Não querem a Copa?

Pois bem, vão para o inferno, que é seu lugar.

Florestan Fernandes Jr.: Abaixo as máscaras

28 de janeiro de 2014
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Rua 7 de Abril, centro da cidade de São Paulo. A agência da CEF foi destruída. Crédito/foto: clipping.com.br/notícia

Florestan Fernandes Jr., via Por dentro da mídia

Querem transporte coletivo de qualidade, mas depredam pontos de ônibus e colocam fogo nos coletivos. São contra a especulação financeira internacional e depredam agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica. Reclamam do custo das ligações telefônicas, mas arrebentam com os orelhões. Pedem mais investimentos em cultura e educação e invadem teatros e shows. São contra os grandes magazines, mas saqueiam pequenas lojas do comércio. Dizem defender os direitos do cidadão humilde, mas colocam fogo em carros populares com a família dentro. São contra a Copa do Mundo, mas não fizeram nada para evitar que ela viesse para o Brasil. Para mim, esse quebra-quebra todo é coisa de fascista, neonazista ou de pessoas a mando de um esquema clandestino para levar à insegurança institucional. São atos terroristas numa sociedade democrática onde as liberdades individuais são garantidas pela Constituição.

Trinta anos após o início da campanha das Diretas Já, temos bons motivos para nos preocupar com o futuro da nossa democracia. Os governos do PT e do PSDB têm responsabilidade de preservar o maior legado da geração que foi às ruas pela redemocratização do país. Foi ela o embrião dos dois partidos. Não quero ser paranoico, mas devemos saber quem são esses encapuzados que se infiltram em movimentos de protesto para gerar pânico e violência descabida.

Tenho uma amiga no Facebook que estuda o movimento Black Blocs e que acompanhou o “protesto” de sábado, dia 25, em São Paulo. Segundo ela, pela primeira vez no grupo havia gente de 14 e 15 anos que ficou apavorada com a violência nas ruas e se retirou das manifestações. Hoje a Folha publica o perfil de quem foi preso pela polícia. Dos 119 identificados, 62 têm entre 20 e 29 anos e 14 são menores de idade. Entre os detidos, uma menina de 14 anos e um senhor de 59 que é funcionário público. E ficou nisso. Nada além. Apenas quatro dos que participaram de atos de vandalismo foram detidos. Isso mostra que os mais violentos sabem quando e como desaparecer da cena do crime.

É urgente que o setor de inteligência das polícias federal, estadual e municipal identifiquem os vândalos para saber com exatidão quem são e se estão agindo a mando de grupos neonazistas ou de paramilitares. A nossa democracia precisa ser defendida imediatamente antes que seja tarde demais.

A realização da Copa no Brasil teve o apoio de quase todos os partidos e dos governos estaduais e municipais. A escolha do Brasil como sede do mundial foi comemorada pela maioria da população brasileira que ama o futebol. Realmente as exigências da Fifa foram exageradas, e algumas obras de governos estaduais excederam e muito os gastos previstos.

Aqui em São Paulo, o estádio da Copa é privado. O mesmo ocorre em Curitiba e no Rio Grande do Sul. Devemos cobrar explicações dos governos de Minas, Rio de Janeiro, Amazonas, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Distrito Federal, Ceará e Bahia. Cada um que se explique. Em ano eleitoral é bom mesmo saber quem administrou mal os recursos públicos. Mas depois de todo o caminho percorrido, boicotar a Copa é de uma burrice sem tamanho. O melhor a fazer é aproveitar o evento para retirar dele parte dos gastos que tivemos.

A sociedade civil e os movimentos organizados devem continuar indo às ruas para cobrar de seus governantes ações de interesse público: saúde, educação, segurança, moradia, reforma agrária e transporte público de qualidade. Mas de cara limpa, sem máscaras. Pra mim, quem esconde o rosto numa democracia não tem boas intenções. Mesmo nos movimentos revolucionários em períodos de totalitarismo as pessoas tinham convicção do que queriam e não tinham motivos para esconder seus rostos.

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