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Os surtos de primitivismo político e os reféns do bolsonarismo

19 de março de 2014

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Conrado Hübner Mendes, lido no Jornal GGN

O Brasil tem assistido a surtos agudos de primitivismo político. O fenômeno não é de direita nem de esquerda, não é de oposição nem de situação, não é conservador nem progressista. Merece outro adjetivo porque não aceita, por princípio, a política democrática e as regras do jogo constitucional. Esforça-se em corroê-las o tanto quanto pode. Não está disposto a discutir ideias e propostas à luz de fatos e evidências, mas a desqualificar sumariamente a integridade do seu adversário (e, assim, escapar do ônus de discutir propostas e fatos). Cheio de convicções, é surdo a outros pontos de vista e alérgico ao debate. Não argumenta, agride. Dúvidas seriam sinais de fraqueza, e o primitivo quer ser tudo menos um fraco. Suas incertezas ficam enrustidas no fundo da alma.

Há muitos exemplos desse surto. Aos interessados num curso relâmpago sobre essa patologia, serve qualquer entrevista de um folclórico deputado do PP que há pouco mobilizou o seu partido para pleitear, sem sucesso, a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (ver YouTube). Ao ser perguntado sobre os seus projetos para o cargo, dispara: “A minoria tem de se calar e se curvar à maioria!”. E continua: “Não podemos estimular crianças a serem homossexuais”. Para ele, “não somos nós que temos de respeitar homossexual, eles é que têm de me respeitar”.

“Vagabundos”, pondera ainda, deveriam “pagar por seus pecados”. Por isso, os presídios brasileiros seriam “uma maravilha” e o Complexo Penitenciário de Pedrinhas, onde alguns presos foram decapitados semanas atrás, “a única coisa boa do Maranhão”.

Dessa amostra se pode deduzir o que pensa o deputado sobre tantos outros temas. Ele sabe para quem está falando e por qual breviário deve rezar para se eleger. Suas frases de efeito imoral são combustível para toda sorte de recalque homofóbico, sexista, racista, elitista, policialesco, enfim, para todo o arsenal de recursos opressores estocados na cultura brasileira. A filosofia da discriminação dá voto. Invocada com raiva e fé, ainda elege e reelege.

O parlamentar do PP é a expressão mais caricata, se não repugnante, do primitivismo. Fosse apenas um lembrete pedagógico de um país que um dia existiu, ou representasse só um reduto de filhos bastardos da ditadura, não causaria maior dor de cabeça. Mas quando notamos que ele é somente a versão mais antipática de um Brasil que ainda nos espreita da esquina, ou de uma mentalidade que continua a se manifestar nos jornais, na família e no trabalho, é sinal de que o confronto não pode ser evitado. Há muito em risco para ficar em silêncio.

Onde erra o bolsonarismo? Essa não é uma pergunta retórica. A resposta, afinal, nem sempre está na ponta da língua daqueles que rejeitam, por instinto ou convicção, essa visão de mundo. Construir uma resposta robusta, por todos os ângulos possíveis, é um esforço indispensável para deixar claro o que está em jogo.

Incomodam ao bolsonarismo os padrões de decência política, os direitos fundamentais e os compromissos de mudança social pactuados pela Constituição de 1988. Esse pacto constitucional, entretanto, é um ponto de partida inegociável e não está aberto a reconsideração. Se pensa que nem todos merecem direitos, não entendeu bem o que são direitos. Fala em direitos, mas pensa em privilégios. Se quer ser um servo da maioria, não aprendeu bem o que é democracia, mas definiu perfeitamente a tirania. Se acha que a parada gay deve ser respondida com a marcha dos heterossexuais, não entendeu nada mesmo.

Que o seu repertório de ideias fixas constitui uma brutalidade moral e uma aberração jurídica, isso não é mais novidade. Antes disso, porém, trata-se de um monumento de desonestidade intelectual. Ignora as abundantes provas sobre a motivação homofóbica de centenas de crimes de ódio anualmente praticados por todo Brasil. Ignora a relação causal, já demonstrada por tantos pesquisadores nacionais e estrangeiros, entre o encarceramento em massa e o agravamento da violência. Prisões brasileiras há muito não cumprem suas funções publicamente anunciadas – prevenção, dissuasão, ressocialização. Poucos se dão conta, contudo, de que prisões cumprem perigosas funções extraoficiais, e elas invariavelmente agradam ao primitivo: o incentivo à demagogia, a repressão da pobreza, o endurecimento da violência estatal. Isso já é saber convencional nas ciências sociais, mas a política mostra-se impermeável a essas velhas constatações.

Um dos desafios para a sobrevivência da democracia é alijar as ideias que atacam a sua própria condição de existência. E como alijá-las sem suprimir a liberdade de expressão? Há pelo menos dois caminhos complementares.

Primeiro, pela construção e manutenção de uma esfera pública vigilante que defenda e rotinize práticas democráticas, algo que depende da educação política praticada por escolas, jornais, instituições culturais, organizações não governamentais (ONGs), etc. Práticas que seriam facilitadas, por exemplo, pela multiplicação de espaços públicos nas cidades, onde se possa conviver com a diferença e apreciar a pluralidade brasileira.

Segundo, por meio de líderes que não se acuem diante da baixa política, que tenham coragem de arriscar seus cargos em defesa de certos princípios e tenham grandeza para fazer alianças com aqueles que, mesmo adversários, compartilham esses princípios. Quando o medo da derrota eleitoral sequestra essas lideranças, que em silêncio desidratam seus projetos de implementação de direitos e promoção da igualdade, o alarme passa a tocar.

Conrado Hübner Mendes é professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor em Direito pela Universidade de Edimburgo (Escócia) e doutor em Ciência Política pela USP.

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11 de março de 2014
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Página do grupo de extrema-direita no Facebook.

Via Correio do Brasil

A audiência para um novo golpe militar no Brasil, marcado em uma rede social para o próximo dia 22, seguia morna nesta Quarta-feira de cinzas, sem animar os integrantes da ultradireita que usam a apresentadora do canal brasileiro de TV SBT Raquel Sheherazade como porta-voz e um general de Brigada aposentado, Paulo Chagas, como ideólogo. O diário conservador carioca O Globo que apoiou a ditadura instalada em 1964, após a queda do governo de João Jango Goulart, eleito democraticamente, também é citado na rede social, com uma matéria em que criminaliza o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e chama para comentários ainda mais radicais.

O risco de uma ação como esta para a democracia brasileira situa-se em um zero absoluto e sua simples convocação beira o ridículo, como asseguram as instituições do país, mas demonstra que os rumos das eleições que se aproximam será ainda turbulento, a exemplo da campanha de 2010, que levou a presidenta Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto, após uma série de ataques por parte da ultradireita religiosa, que a acusava de promover e apoiar o aborto livre. A sanha foi detida após uma série de três reportagens publicadas aqui, no Correio do Brasil.

Para o jornalista Luiz Carlos Azenha, editor do site Viomundo, apesar de o peso dos segmentos ultraconservadores, na realidade, beirar o irrisório, a impressão que passam nas redes sociais é mais nefasta.

“Se você circular por aí na internet é bem capaz de acreditar que sim, dada a sandice dos sem voto. Um golpe pressupõe uma base política organizada, algum tipo de apoio militar e externo. Neste momento não há nenhum deles. O governo Dilma tem base parlamentar, tem apoio significativo do capital nacional e do capital internacional (especialmente depois da concessão do pré-sal)”, escreveu Azenha, em seu perfil.

O editor de um dos sites de maior audiência na web brasileira, no entanto, deixa uma crítica ao partido no governo:

“Quem tenta reforçar a tese do golpe iminente são alguns simpatizantes petistas, com o objetivo de justificar qualquer coisa que a Dilma fizer: ou é isso ou é golpe! Se ela mandar fechar a CUT é para evitar o golpe! Isso não significa que não devamos ficar atentos, já que a modalidade dos golpes mudou tremendamente desde que Ronald Reagan, com apoio dos democratas, inventou o NED, National Endownment for Democracy, que articula partidos, empresários e sindicalistas norte-americanos na promoção da democracia”, adverte.

Ainda segundo Azenha, “hoje o ‘onguismo’ é veículo de golpes, assim como as entidades da ‘sociedade civil’: depois que Barack Obama assumiu e colocou Hillary Clinton no Departamento de Estado, os diplomatas norte-americanos reassumiram protagonismo que havia sido transferido para o Pentágono e passaram a aplicar o soft power – que na verdade é um porrete amigo financiado por verbas de Washington, como temos visto na Venezuela. Portanto, é bom ficar alerta, mas sem histeria”.

General abusado

Os alvos primários dos ataques dos membros da página que convoca para o golpe são o PT, a presidenta Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para consolidar a tomada de poder, no próximo dia 22, os signatários da página na rede social apostam que o levante ocorrerá “em todas as capitais brasileiras, dando como referência comandos e batalhões militares do Exército. Com exceção do Rio e São Paulo, cujos movimentos acontecerão na Candelária e Praça da República, respectivamente”.

Mais abusado ainda, no entanto, diante das leis e da Constituição brasileira, foi o general de brigada, na reserva, Paulo Chagas. Trata-se de um dos únicos militares, ainda que já no gozo da aposentadoria, manifesta-se, publicamente, sobre o golpe marcado para este mês. Nenhuma outra reação, dentro ou fora dos quartéis, foi observada desde o lançamento da página, na internet. O militar aposentado, para medir seu grau de envolvimento nas hostes da extrema direita, afirma, em seu artigo, que vê em uma possível “marcha da família pela tradição e propriedade, uma contribuição importante” e convoca toda a “sociedade esclarecida” a o acompanhar.

“A debacle da Suprema Corte, desmoralizada por arranjos tortuosos que transformaram criminosos em vítimas da própria justiça, compromete a crença dos brasileiros nas instituições republicanas e se soma às muitas razões que fazem com que, com frequência e veemência cada vez maior, os generais sejam instados a intervir na vida nacional para dar outro rumo ao movimento que, cristalinamente, está comprometendo o futuro do Brasil”, vocifera, contra os réus na Ação Penal 470, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Outro grupo, denominado Pró-Brasil, Rumo a 2014, por sua vez, apesar do apoio ao golpe militar, pretende lançar candidatos de ultradireita, caso o levante seja o fracasso previsto. O objetivo da estratégia seria “desestabilizar a reeleição de Dilma”. Entre os vários candidatos que pretendem apoiar estão Marco Feliciano (PP/RJ), Ronaldo Caiado (DEM/GO) e Jair Bolsonaro (PP/RJ) que, nas contas deles, seriam capazes de retirar do PT “mais de 35 milhões de votos”.

“Com essa proposta há grande possibilidade de empurrar Dilma para o segundo turno, onde, em uma aliança bem montada, apoiaria-se um nome forte que poderia enfrentar o PT (não citam nenhum), mediante alianças e acordos com representantes de categorias e da sociedade de direita”, concluem.

Endireita, São Paulo: O depoimento de um pessedebista histórico sobre o governo Alckmin

5 de abril de 2013
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Salles, do Endireita Brasil.

A nomeação de Ricardo Salles, criador do Movimento Endireita Brasil, é só mais um sintoma da falta de rumo do partido.

Kiko Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

Um pessedebista histórico, ex-presidente de diretório em São Paulo, escreveu para o Diário um depoimento sobre a guinada à direita do PSDB e do governado Geraldo Alckmin. Ricardo Salles está na companhia de outros conservadores que têm cada vez mais espaço em um governo que tucanos amigos classificam de “feijão com arroz” e tucanos inimigos de “medíocre”.

O advogado Ricardo Salles, criador do movimento Endireita Brasil, é a mais recente aquisição do governador de São Paulo no balaio da direita, mas não é a única e não será a última. Nomeado secretário particular do governador, Salles defende o regime militar, é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o aborto, abomina o Estado e se define o único direitista assumido do Brasil, seja lá o que isso quer dizer. Geraldo já havia imposto na presidência do diretório estadual um deputado obscuro que brilha no papel de mascate, na base de promessas, tapinha nas costas e benesses às lideranças de pequenas e médias cidades do interior. O libanês Pedro Tobias, médico radicado em Bauru e que ganhou notoriedade fazendo consultas e partos gratuitos, é conhecido no meio político por sua visão estreita de mundo e nenhum compromisso ideológico. Mas quem se importa com isso se a massa de prefeitos quer mais é saber de verbas para a Santa Casa ou a reforma das praças com fonte luminosa?

Salles, de 38 anos, é o terceiro secretário particular de Alckmin desde a posse, em janeiro de 2011. Antes dele, passaram pela função o ex-deputado Marco Antônio Castello Branco e Fábio Lepique, este oriundo da Juventude Tucana, hoje instalado no Comitê Paulista da Copa do Mundo e na tesouraria do diretório do PSDB na capital. Conservador, raso intelectualmente e cheio de formalidades, é natural que Alckmin, diferentemente da maioria dos líderes populares do País, faça questão de manter um secretário para cuidar da sua agenda (o prefeito Fernando Haddad, por exemplo, não tem essa figura).

Ignorando a base partidária e vendo Serra nos estertores da aposentadoria após a humilhante derrota na corrida para a prefeitura do ano passado, Geraldo (é assim que ele é tratado nas internas) está finalmente livre para agir por conta própria, levando seu grupo e mais o que restou do partido aonde lhe convier. Desde 2006, quando ele e Serra digladiaram nos bastidores pela candidatura à presidência, os dois vivem às turras, um puxando o tapete do outro e ambos dando sinais cada dia mais claros de que caminham para o abraço dos afogados. No comando do partido na capital, o escolhido foi o deputado federal licenciado e atual secretário Estadual de Planejamento e Desenvolvimento Regional, Júlio Semeghini. Semeghini tirou licença médica durante o fogo-cruzado da campanha municipal de 2012 – chegou a ser chamado de covarde por membros do partido, menos por virar as costas para a campanha de Serra (o que estava longe de ser uma exceção) e mais por evitar reuniões e se omitir nos permanentes embates por espaços de poder dentro da sigla.

Chefe de um governo que os tucanos amigos classificam de “arroz com feijão” e os tucanos inimigos de “medíocre”, Geraldo aposta que, na hora do vamos ver, em 2014, vai sair às ruas e fazer prevalecer sua fama de bom moço, o famoso picolé de chuchu. Na base da camaradagem, visitando pequenos comércios, tomando café em boteco, falando com os populares, indo a missas dia sim, outro também, garante que ninguém tira dele a chance de dirigir pela quinta vez o estado mais rico e mais importante do País.

Para dar visibilidade e, principalmente, dinamismo a sua gestão, convenceu o veterano João Carlos Meirelles, que já ocupou a secretaria de Ciência e Tecnologia e coordenou sua campanha em 2006, a devolver o pijama à gaveta e voltar para o front, agora na condição de assessor especial de assuntos estratégicos. Legítimo representante dos quatrocentões paulistas, doutor Meirelles, como Alckmin faz questão de tratá-lo, ostenta um bigodão impecável, usa abotoaduras douradas e uma bengala de madeira de lei e de cabo prateado. Certamente uma figura de referência para o jovem Ricardo Salles.

Doutor Meirelles: bengala de madeira de lei com cabo prateado.

Doutor Meirelles: bengala de madeira de lei com cabo prateado.

Agora livre da sombra de Serra, mas também sabendo que não vai contar com os serristas no ano que vem, o governador está testando sua capacidade de liderança e de estrategista. Nas duas últimas vezes em que tentou isso, em 2006 e 2008, o resultado não foi lá grande coisa, com a derrota para Lula no segundo turno da eleição presidencial e o vexame do terceiro lugar na corrida pela prefeitura com Kassab e Marta. Geraldo se considera ungido e não ouve ninguém. O staff que está sendo montado com a chegada do reacionário Salles é uma amostra de que não ouve nem Fernando Henrique Cardoso, que criticou as alianças do partido com “setores conservadores”.

Educado à moda antiga, do tipo que sempre inicia uma conversa perguntando da família, o governador de São Paulo é um adepto das historinhas de salão. Principalmente aquelas relacionadas à ascensão e queda das antigas e tradicionais famílias de São Paulo. Narra com brilho nos olhos, e riqueza de detalhes, coisas como a teia de intrigas dos herdeiros de Luiz Dumont Villares na antiga gigante metalúrgica. Também gosta de se divertir lembrando da maior vaia que já presenciou em sua vida pública. Foi no 1º de Maio da Força Sindical de 2005, quando 1,5 milhão de trabalhadores não deixaram o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, concluir o discurso. “O eco batia na serra da Cantareira e voltava num barulho ensurdecedor”, conta, rindo. “Uma coisa de louco.”

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Mallandro: ele faz visitas à chácara do governador.

É notória sua amizade com Campos Machado, dono do PTB e cacique do conservadorismo mais anacrônico. Campos Machado, autointitulado herdeiro de Jânio Quadros, foi candidato a vice na aventura fracassada de Alckmin de tornar-se prefeito de São Paulo em 2008 e foi também quem iniciou o colega na leitura da obra de Jânio. (Ele guarda com carinho os livros de JQ em sua estante pessoal em seu apartamento no Morumbi). Geraldo também gosta de convidar o comediante Sérgio Mallandro para visitar sua chácara em Pindamonhangaba, para divertir a família. Mallandro confidenciou a amigos que, na verdade, é ele quem ri dos Alckmin.

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5 de abril de 2013

Marcelo_Rubens_Paiva01Via Diário do Centro do Mundo

O escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do desaparecido na ditadura militar, Rubens Paiva, publicou um texto em seu blog no Estadão no qual mostra indignação com a presença do assessor de Alckmin, Ricardo Salles na cerimônia de abertura dos documentos digitalizados do Dops.

Marcelo lembrou que Salles, “um provocador”, já disse coisas como “felizmente tivemos uma ditadura de direita no Brasil”.

Salles concorreu duas vezes, a deputado federal pelo PFL e estadual pelo DEM, mas não conseguiu se eleger. Ele é fundador do Instituto Endireita Brasil, que além de criticar o casamento gay e a Comissão da Verdade, já publicou que Dilma é uma terrorista.

“Mas a declaração mais chocando de Salles embrulha o estômago de muitas famílias vítimas da Ditadura, como a minha”, escreveu Marcelo. “Segundo o assessor do governador de São Paulo, não vamos ver generais e coronéis acima dos 80 anos presos por crimes de 64, ‘se é que esses crimes ocorreram’”.

“Sim, esses crimes ocorreram”, afirmou Marcelo. “Sou testemunha viva. Eu e minhas irmãs. Vimos nossa casa no Rio de Janeiro ser invadida por militares armados com metralhadoras em 20 de janeiro de 1971. Vimos meu pai, minha mãe e irmã Eliana serem levados.”

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18 de março de 2013
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O jovem velho.

O novo assessor pessoal de Alckmin é, aos 37 anos, ideologicamente senil.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

O mundo é dominado, hoje, por uma crescente irritação com a assombrosa desigualdade social surgida nos últimos 30 anos. Reagan, de um lado do Atlântico, e Thatcher, do outro, comandaram políticas que se espalharam em escala planetária e levaram ao célebre 1% versus 99%.

Era uma situação insustentável, como sempre acontece nos extremos de iniquidade. E então as respostas começaram a aparecer.

Sarkozy foi chutado na França. Romney deixou de ganhar uma eleição fácil, dada a crise econômica norte-americana, por causa da indignação dos norte-americanos em relação aos privilégios que ele tem e defende abertamente. Protestos varrem as principais cidades do mundo.

Isto é o que se chama, enfim, Espírito do Tempo. Na célebre palavra alemã, Zeitgeist.

Feito este introito, então observemos o que se passa no PSDB. Como um partido que teve algum tipo de sensibilidade social se ajusta aos ventos que empurram o mundo para a frente?

A resposta é: Ricardo Salles.

Alckmin consegue, neste momento, fazer o exato oposto do que deveria, como um líder influente dentro do PSDB. Ele se junta a Serra e empurra com Salles, seu novo assessor particular, o PSDB rumo à direita selvagem da qual o universo está se despedindo com fanfarras. A humanidade repudia o que se plantou na década de 1980. O PSDB parece estar vivendo naqueles dias.

Salles é um jovem velho como uma daquelas senhoras de Santana. Defende, por exemplo, a ditadura militar. Ora, passado meio século do golpe militar, é fácil ver o que ele trouxe. A ditadura destruiu a educação pública, o maior fator de mobilidade social. Extirpou conquistas trabalhistas, como a estabilidade no emprego depois de dez anos, e ao mesmo tempo proibiu greves. Isso levou a uma brutal concentração de renda.

O Brasil sofreu, sob os militares, uma política econômica parecida com a que Reagan e Thatcher espalharam internacionalmente. O horror do legado de Reagan e Thatcher se estampou nos últimos anos. No Brasil, isso já ficara claro muito antes: o País se favelizou.

A ditadura defendeu os interesses de uma ínfima minoria – e os dos Estados Unidos, naturalmente. A CIA não participou ativamente da conspiração por amor incondicional a figuras como Carlos Lacerda, Roberto Marinho e Golbery.

E então, em pleno 2013, Alckmin se cerca de um secretário que é a negação do Zeitgeist.

E que por isso mesmo é um fracasso prematuro e irremediável: tentou em vão se eleger deputado estadual em 2010. Postou na campanha um vídeo com seu jingle no Youtube que arrebanhou, nestes anos todos, 951 exibições até esta amanhã.

É um número similar ao angariado habitualmente por Reinaldo Azevedo e amigos nos debates sobre o “mensalão” no canal da Veja no Youtube.

FHC deve estar muito ocupado com a namorada 50 anos mais nova para se dar conta do melancólico, funéreo curso dado ao PSDB. O PSDB, no qual votei a maior parte das vezes em minha vida adulta, não é mais um partido, mas uma morgue de homens e ideias.

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