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O futuro das empresas de mídia é um pesadelo

2 de junho de 2013
Roberto_Marinho11_Filhos

Família Marinho: João Roberto, Roberto, Roberto Irineu e José Roberto.

Mas para a sociedade isso vai ser muito bom.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Um ditado, que afirmavam ser muito citado por Tancredo Neves, estabelece o seguinte: “A esperteza, quando é demais, come o dono.”

A frase se aplica às famílias que controlam as grandes empresas de jornalismo do Brasil num momento especialmente dramático para elas. Há uma troca de gerações, como se observou pela morte, com poucos dias de distância, de Ruy Mesquita e Roberto Civita.

O crescimento avassalador da internet tornará complicado gerir as companhias que se tornaram gigantes sob circunstâncias completamente diferentes. Todo dia – melhor, todo segundo – diminui o número de leitores e o volume de anúncios.

Não há volta. No seriado “The Office”, passado numa empresa que vende papel, uma das melhores piadas aparece quando um vendedor diz a outro, diante das quedas constantes nas vendas: “A gente recupera quando a moda da internet passar.”

Haverá uma transferência cada vez mais rápida de leitores, anunciantes, verbas publicitárias e bons jornalistas rumo ao mundo digital.

Diante do cenário desanimador, é provável que muita gente, nas novas gerações que controlam as grandes empresas jornalísticas, desejasse simplesmente vender o negócio. Você faz dinheiro e se livra, no ócio milionário, dos capítulos duros da agonia inevitável.

Seria uma alternativa excelente – não fosse a reserva de mercado que os barões da mídia trataram de garantir para si próprios, num passado em que nada fazia prever o surgimento da concorrência destruidora da internet.

A reserva é assim. Os estrangeiros podem ter apenas 30% do capital das empresas brasileiras. Não vou discutir aqui quanto isso agride as leis básicas de concorrência capitalista pelas quais as empresas jornalísticas se batem tanto exceto para elas mesmas. Vou falar apenas da ironia que essa situação esdrúxula trouxe agora.

Se você não pode vender a compradores internacionais, e eles sim têm recursos, está condenado a negociar com um universo bem menos opulento – o dos compradores brasileiros.

Existe uma justiça poética, nisso, inegavelmente. Décadas depois, a esperteza parece estar comendo as famílias que a usaram para promover a reserva de mercado na mídia. Porque ela, a reserva, só é, ou foi, boa para os acionistas, protegidos de uma concorrência que haveria de resultar em produtos melhores para os leitores e um mercado de trabalho mais pujante para os jornalistas.

Quanto ela é indefensável, você avalia por um artigo do novo ministro do STF, Luís Barroso, escrito nos tempos em que ele era advogado da associação que defende os interesses da Globo, a Abert.

No artigo, Barroso disse que a reserva tinha a virtude de preservar as novelas, “patrimônio cultural brasileiro”, e evitar que Mao Tsé-Tung irrompesse nos lares brasileiros com sua pregação subversiva.

O ajuste de contas com a esperteza chegou primeiro para a mídia impressa, a vítima inicial da internet. Mas logo chegará também ao reino da tevê: cada vez menos pessoas veem televisão, como se constata na generalizada queda de audiência da Globo. Tudo converge para a internet, e já se formou um consenso entre os estudiosos de que a televisão será a próxima vítima.

Marcas como a Netflix, o YouTube e a Amazon – que já anunciou que vai produzir conteúdo de entretenimento – tomarão inexoravelmente o lugar de marcas de outra era, como a Globo no Brasil. A famosa grade da Globo morrerá com os consumidores que verão os programas quando quiserem, onde quiserem e se quiserem.

E então o serviço da esperteza ficará completo. Quando os herdeiros dos três filhos de Roberto Marinho eventualmente pensarem em vender um negócio que vai valer cada vez menos e doer cada vez mais, vão topar com o mesmo quadro que massacra hoje as esperanças vendedoras das novas gerações das famílias da mídia impressa.

Marcos Pereira, o pastor-estuprador, já foi herói na TV Globo: “Ele é muito respeitado.”

15 de maio de 2013

Marcos_Pereira04_PastorRodrigo Vianna em seu O Escrevinhador

O pastor Marcos Pereira, da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, está sendo acusado de estupros em série. Teria atacado mulheres que viviam em alojamentos mantidos pela igreja dele, no Rio de Janeiro. Os indícios são graves. A mídia, em especial o jornal conservador O Globo, partiu pra cima do pastor. E não apenas por conta do estupro: investiga-se a vida de Pereira, o patrimônio, tudo.

O curioso é que, há cinco ou seis anos, o mesmo pastor era tratado como herói pelas Organizações Globo. A dica veio de um colega jornalista. Acompanhem: em 2008, O Globo denunciou um “Tribunal do Tráfico” em favelas do Rio. Jovens infratores eram julgados, condenados e executados pelos traficantes. O repórter acompanhou de perto um desses “julgamentos”. Quem abriu as portas pro jornalista subir o morro? O pastor Marcos Pereira. Mais que isso: o líder evangélico era apresentado como o homem que – na última hora – impedia a ação cruel dos traficantes. Vejam esse trecho da reportagem:

“Capturado de madrugada, o menor foi algemado e barbaramente torturado: tomou choque elétrico, teve garrafas quebradas em seu corpo, foi espancado com pedaços de madeira, sufocado com fita crepe e recebeu uma facada nas costas. Os traficantes estavam decididos a matá-lo, quando o pastor Marcos Pereira intercedeu e começou a sua defesa.”

O repórter Mauro Ventura ganhou o “Prêmio Esso” de jornalismo com essa matéria. E foi até entrevistado no Programa do Jô. Os dois – apresentador e jornalista de O Globo – exaltaram o trabalho de Marcos Pereira: “Impressionante a coragem desse pastor”; “ele é muito respeitado”; “trabalho fantástico”.

Não passou pela cabeça de ninguém que o pastor tinha feito um trabalho de RP (relações públicas) usando a audiência da Globo? Ou passou pela cabeça, sim, mas a Globo estava na fase de “aproximação” com os evangélicos e aí não era o momento de questionar aliados? Há ainda uma terceira hipótese (foi Ali Kamel, da Globo, quem nos ensinou a importância de “testar hipóteses” no jornalismo): Marcos Pereira é um homem de bem, foi acusado de forma vil e injusta, estaríamos diante de um novo caso “Escola Base”. Será?

Seja como for, não acho que devemos condenar – de forma hipócrita e isolada – o repórter Mauro Ventura. Quantos não agiriam da mesma forma que ele? O caso serve pra mostrar como funciona o moderno jornalismo: essa mania de glorificar o repórter que passa por cima de qualquer risco, e se alia a qualquer um, para conseguir a informação. Vale tudo mesmo?

É bom fazer a ressalva: uma coisa é ter um bicheiro ou pastor de conduta duvidosa como fonte (isso eu não considero absurdo, já que muitas vezes é a única forma de acessar um ambiente ou um esquema criminoso); outra coisa é transformar sua fonte em “herói” para assim manter a “parceria”.

Cinco anos depois, assistir a entrevista do repórter ao Jô é mais do que constrangedor. É revelador. O jornalismo dos novos tempos está nu, e o que vemos não é bonito.

Leia também:

Vídeo: Para o tucano Álvaro Dias, o pastor-estuprador Marcos Pereira é um enviado do deus

Sexo em nome da fé

Os níveis de audiência da Globo chafurdam na lama de seu golpismo

2 de março de 2013

Globo_Derrete02Principais programas da Globo têm queda de ibope.

Ricardo Feltrin, via F5

Aos poucos vão fazendo sentido as profundas mudanças que a Globo fez em vários de seus escalões neste ano. Uma análise de ibope de seus principais produtos fixos (não incluídos os sazonais como BBB, F1, futebol etc.) aponta que a emissora vem sofrendo queda sistemática de audiência na maioria de seus produtos. E não adianta usar a desculpa de que “oh, boa parte das pessoas está assistindo a Globo na internet”, porque isso não é verdade.

Os números de visualizações de atrações na internet ainda são muito pequenos para afetar a conta toda. Nem a tevê paga ainda conta. O produto importante ainda é, e continuará a ser por um bom tempo, a tevê aberta. Observem as quedas nas tabelas abaixo.

Globo_Audiencia_Queda

Dramaturgia das 21 horas

Das três novelas no biênio 2011/2012, a única que teve algum ganho foi Avenida Brasil, com inexpressivo crescimento de 1% no ibope e 5% no share (share é a participação do programa no número de tevês ligadas; ou seja, do tanto de tevês ligadas àquela hora, X% estavam assistindo a novela tal…). Mas, certamente, esse ganho já será consumido pela má performance da atual Salve Jorge.

Dramaturgia das 18 horas e 19 horas

As novelas das 18 horas e 19 horas, por sua vez, tiveram marcantes quedas. Entre 2011 e 2012, a novela das 18 horas perdeu 12% de ibope e 5% de share. Já a novela das 19 horas perdeu 10% de audiência e 5% de share. Cada ponto vale por 60 mil domicílios na Grande São Paulo.

Afunda! Afunda!

De longe, o produto fixo que mais ibope perdeu no último biênio foi o veterano Esporte Espetacular, que caiu 16% no ibope e 10% no share. Esse seria um motivo da reação do público à presença de Tande que, como excelente jogador de vôlei, é um insosso apresentador.

Outro em queda

Outra atração fixa que chama a atenção por estar tendo má performance é o Caldeirão do Huck. O programa perdeu entre 2011 e 2012 cerca de 12% de índice de audiência e 6% de share. As mudanças promovidas no Bom Dia Brasil também não parecem ter surtido muito efeito: caiu 12% em ibope e 7% em share. Está perdendo fôlego para o Fala Brasil da Record, tudo indica.

E tem mais

Pode esperar a partir de agora cada vez mais sambistas e quadros-reality no matinal da Globo. Não se espantem se Encontro com Fátima virar uma espécie de cover do Esquenta, de Regina Casé. Ninguém parece ter ficado muito surpreso com a transferência do programa de Fátima Bernardes para o núcleo de Boninho. Já era esperada uma guinada ainda maior rumo à popularização do programa – para alguns, com ar elitista demais.

Leia também:

A máquina da notícia pode virar sucata

A máquina da notícia pode virar sucata

2 de março de 2013

Globo_Destruida01Carlos Castilho, via DoLaDoDeLá

Nos anos de 1970 e de 1980, o Jornal Nacional da TV Globo se orgulhava de ter uma média de 80% de audiência. Oscilava entre o primeiro e o segundo lugares no ranking de popularidade junto ao público da emissora. Hoje, o JN patina nos 27% de audiência e está no quinto lugar na lista dos programas mais vistos na Globo, atrás até mesmo do pouco expressivo seriado Pé na Cova.

Esta brutal mudança de status não pode ser atribuída a alguma defasagem técnica ou concorrência de outro telejornal. A Globo continua usando o que há de mais moderno em matéria de tecnologia, mantém o maior e mais bem pago plantel de jornalistas da tevê brasileira e nenhuma outra emissora consegue bater a Vênus Platinada em matéria de coberturas internacionais, de temas políticos ou econômicos, e na mobilidade das equipes de reportagem. Só enfrenta alguma concorrência da TV Record na cobertura de crimes, tragédias e escândalos sociais.

Pode-se alegar que a concorrência do canal fechado GloboNews – e seus similares na Band e Record – tenha levado os públicos A e B para um nicho informativo mais exclusivo, deixando a tevê aberta como um reduto das classes C e D, supostamente menos interessadas em jornalismo. Mas acontece que tanto o Jornal Nacional como seus similares na tevê paga seguem estritamente o mesmo modelo jornalístico, a mesma fórmula para lidar com a audiência.

A explicação para a perda de audiência do Jornal Nacional está fora da emissora. Está nos quase 150 milhões de brasileiros que todas as noites ligam a tevê. Este público perdeu a atração quase mística pelo noticiário na televisão, como acontecia entre os anos de 1970 a 1990, passando para um posicionamento desconfiado, distante e cético. A narrativa telejornalística deixou de ser discursiva para ganhar ares menos ufanistas, menos formalista e mais próxima da realidade, mas nem isso fez com que o telespectador baixasse a guarda.

Esse comportamento não é exclusivo do telespectador, pois também o leitor de jornais e de revistas é, sobretudo, um cético quando se trata de avaliar publicações. Em qualquer conversa sobre o noticiário impresso ou audiovisual, o número de críticas sempre supera – por larga margem – a quantidade de elogios.

Há 20 ou 30 anos, as pessoas discutiam os fatos, dados e eventos noticiados na tevê e nos jornais. Hoje, o leitor e o telespectador se mostram mais preocupados em identificar quem está por trás da notícia, quem são os beneficiários e os prejudicados. Ao longo dos anos, o público, de maneira geral, começou a perceber que os entrevistados e protagonistas do noticiário estavam mais preocupados com sua imagem pessoal do que com a informação. Que os eventos cobertos estavam ligados a interesses políticos, comerciais ou econômicos.

Como a imprensa raras vezes questionou esse tipo de comportamento, as pessoas assumiram, consciente e inconscientemente, que era necessário ter um pé atrás ao receber sua dose diária da realidade filtrada pelas redações. A sofisticação crescente do marketing pessoal, social, político e corporativo torna inevitável que celebridades, parlamentares, governantes e executivos tentem projetar para o público percepções que lhes sejam favoráveis. Pode ser eticamente nebuloso, mas é a regra do jogo.

O erro está no papel da imprensa que, em vez de questionar esse tipo de postura marqueteira, ou pelo menos identificar os interesses ocultos, simplesmente passou a publicar tudo o que recebia como informação, desde que fosse fornecido por fontes respeitáveis. A confiabilidade de dados e fatos deixou de estar atrelada a uma checagem jornalística para ficar pendente do status da fonte. Os jornais, revistas e telejornais se preocuparam mais com os formadores de opinião e tomadores de decisões do que com o público, que foi aos poucos perdendo a confiança naquilo que lhe era oferecido como sendo a verdade dos fatos.

A imprensa está pagando caro por esse erro estratégico porque a crise no modelo de negócios provocada pelas novas tecnologias de comunicação e informação fez com que ela se tornasse mais dependente do consumidor de notícias, justo no momento em que cresce o ceticismo e desconfiança do público em relação ao noticiário corrente. Ceticismo que assume proporções endêmicas no público jovem, com menos de 35 anos e que em breve estará na liderança dos governos, das organizações sociais e das empresas.

A solução para esse problema não está em tecnologias mais sofisticadas, mas na revisão das estratégias editoriais que priorizam os interesses das fontes e das empresas jornalísticas. O jornalismo tem em seu DNA a prestação de serviços ao público, e é aí que ele pode encontrar novas fórmulas de relacionamento com leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

Trata-se de uma escolha histórica porque, se ela não for feita, corremos o risco de desperdiçar toda a experiência e sabedoria de várias gerações de jornalistas que têm muito a transmitir para os novos profissionais e amadores. Estes inevitavelmente vão mudar a imprensa porque já nasceram com um chip digital embutido em sua cultura informativa. Mas também inevitavelmente passarão por muitas decepções e revezes porque a experiência é única e insubstituível.

Se as atuais empresas jornalísticas ignorarem o público como seu parceiro para continuar a vê-lo apenas como comprador de notícias, elas não sobreviverão e serão substituídas por outras. O preço a ser pago é o desperdício de quantidades imensas de informação acumuladas ao longo dos anos e que podem virar sucata junto com marcas jornalísticas centenárias.

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Transposição do Rio São Francisco: Fantástico mente novamente

21 de janeiro de 2013

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Via Portal do Ministério da Integração Nacional

Nota de Esclarecimento – Projeto de Integração do Rio São Francisco

Em relação à reportagem veiculada no Fantástico, no domingo, dia 20 o Ministério da Integração Nacional informa que:

O governo federal trabalha em diversas frentes para ampliar o acesso à água a toda população que vive no semiárido. Cerca de R$5 bilhões foram investidos pelo Ministério da Integração Nacional, apenas em 2012, para mitigar os efeitos da seca. Desse valor, mais de R$1,3 bilhão foram direcionados para ações emergenciais, como Operação Carro-Pipa, Bolsa Estiagem, Garantia-Safra e transferências de recursos para assistência à população. Além do socorro na urgência, o governo trabalha em ações estruturantes, como perfuração e recuperação de poços, recuperação de barragens, ampliação do sistema de abastecimento, construção de adutoras, além de abertura de linhas de crédito em condições especiais, para dar suporte aos agricultores familiares e pequenos e médios empreendedores.

Para cada R$1,00 investido no Projeto de Integração do Rio São Francisco, outros R$2,00 são destinados a outras obras hídricas, como barragens, adutoras, poços, sistemas de abastecimento de água simplificado, que já estão sendo entregues à população e beneficiando milhares de pessoas em todo o Nordeste.

Em relação à ruptura da obra do túnel Cuncas I, em 2011, o Ministério da Integração Nacional informa que tomou todas as providências técnicas necessárias e as soluções apresentadas garantiram o cronograma de execução da obra sem atrasos. A apuração das causas do acidente deverá ser conduzida pelo IPT no sentido de apurar as causas e responsabilidades do incidente. Tão logo o laudo seja concluído, o Ministério tomará todas as providências cabíveis.

Sobre as Vilas Produtivas Rurais, que estão sendo construídas pelo Exército Brasileiro, o Ministério fez um levantamento completo da situação e está tomando providências para correção dos imóveis.

O Ministério da Integração Nacional informa, ainda, que o Poder Público não arcará com eventuais gastos em decorrência de reparações nas obras já executadas. As empresas prestadoras devem entregar os serviços executados em perfeito estado e sem ônus para os cofres públicos. O Ministério da Integração Nacional adotará todas as sanções que devem ser aplicadas às empresas que não honrarem com os compromissos firmados.


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