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Quem não está acostumado, estranha: The Economist faz análise realista da política brasileira

3 de janeiro de 2014

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Via Blog do Zé Dirceu

Está na primeira edição deste ano da conservadora revista britânica. A The Economist joga uma ducha de água fria na direita brasileira, com matéria em que prevê ser muito difícil os candidatos ao Planalto que estão postos aí, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) e o senador Aécio Neves (PSDB/MG), ganharem o pleito de 2014 da presidenta candidata à reeleição Dilma Rousseff. E os adversários tucanos enfrentarão na campanha deste ano o gigantesco escândalo do trensalão do PSDB paulista, a formação do cartel que pagou propina a agentes públicos e políticos do PSDB de São Paulo.

Nesta análise a revista – que fez recente previsão pessimista sobre a economia brasileira – chama as nossas eleições nacionais deste ano de “imprevisíveis”, mas com base no fato de que o apoio à presidenta Dilma voltou a subir, após uma queda durante os protestos de junho, e que, portanto, ela “será difícil de ser batida” – will be hard to beat, em inglês.

O que falaram contra o Bolsa Família se volta agora contra eles

Até porque, diz Economist, estes adversários já no páreo, Eduardo Campos e Aécio Neves, terão de convencer o eleitorado de que, na hipótese de que algum deles vencesse, dariam continuidade a programas de sucesso dos governos do PT, como o Bolsa Família e o Mais Médicos.

Assim, assinala a revista, apesar dos desafios que terá ao longo deste ano, como enfrentar as críticas da oposição a sua gestão econômica – o que ela já fez em 2013 – e de precisar garantir o sucesso da Copa do Mundo no Brasil, o favoritismo nessa disputa pelo Planalto é da presidenta Dilma. Presidencial Dilma “será difícil de ser batida” – will be hard to beat, em inglês.

Economist observa que depois da queda nos índices das pesquisas durante as manifestações de junho, a presidenta voltou a crescer meses depois, já tendo chegado a 47%, contra 30% de seus dois principais futuros adversários, Aécio e Eduardo Campos somados (os índices dão vitória à presidenta no 1º turno, segundo os especialistas em pesquisas brasileiros).

O trensalão do tucanato paulista, o mensalão mineiro…

Segundo a The Economist, “nenhum dos prováveis adversários de Dilma está fazendo campanha a sério”. E, para completar, o PSDB do senador-candidato Aécio “enfrenta ainda um grande problema no importante Estado de São Paulo”: é acusado de corrupção e superfaturamento em contratos públicos com os trens do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) – o chamado trensalão. E a revista nem cita o outro escândalo de proporções gigantescas que atinge o tucanato, o chamado mensalão de Minas Gerais.

A publicação britânica acentua, ainda, que que as 14 milhões de famílias pobres beneficiárias do programa Bolsa Família certamente apoiarão a reeleição da presidenta Dilma. E exemplifica: “prova da força desse eleitorado foi o rumor, em maio, de que o programa iria acabar, causando confusão em cidades carentes do Nordeste. Outras iniciativas, como a importação de profissionais estrangeiros pelo Mais Médicos, foram altamente aprovadas pelas massas.”

“Apesar da fome dos brasileiros por mudança, os adversários terão de convencer os eleitores de que muitas políticas permanecerão as mesmas, se um deles ganhar de Dilma Rousseff”, conclui a publicação.

The Economist quer agradar Higienópolis

3 de outubro de 2013

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

A última edição da britânica The Economist, trazendo uma capa duramente crítica ao Brasil, produziu grande euforia nas hostes coxinhas. No post anterior, eu dei uma resposta preliminar, com base apenas na capa e nas chamadas, que já prenunciavam o teor da matéria.

Agora, que tive a pachorra de ler os nove textos, mais a abertura, posso fazer uma crítica mais consistente.

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Em primeiro lugar, baixemos as armas. Eu gosto da Economist. Acho uma revista elegante e bem redigida. Quer dizer, eu gostava. Mas não foi a capa ofensiva ao Rio e ao Brasil que me fez mudar de ideia. Não sou de ligar muito para essas coisas, e na verdade não sou tão ufanista como me “acusam” alguns. Também tenho milhares de críticas ao governo federal e ao PT, com os quais, sempre é bom deixar claro, não tenho nenhum elo ou obrigação.

O que me fez mudar de ideia em relação à Economist foi o último artigo de capa, um libelo sem-vergonha em favor de intervenções armadas dos EUA. É notório que o principal público consumidor da revista hoje em dia está nos Estados Unidos. A matéria favorável à indústria bélica mostra que, infelizmente, os patrocinadores também estão lá.

Voltando à matéria sobre o Brasil, juro que li os textos com máxima boa vontade. A jornalista Helen Joyce, como quase todos na Economist, é ótima redatora e me pareceu uma profissional disciplinada. Deram-lhe uma missão, escrever uma série de textos com um viés de oposição, e ela a cumpriu com dignidade. Respeito isso.

Entretanto, temos que entender as razões. A Economist tem um evento agendado no Brasil para outubro, cujos patrocinadores são os seguintes:

Economist_Brasil07_Patrocinadores

Os dois primeiros são fundos de investimento que vem perdendo bilhões com a decisão de Dilma de reduzir os juros, e o terceiro é uma petroleira estrangeira com interesse no pré-sal e uma agenda política específica e urgente para 2014.

Os palestrantes brasileiros conhecidos são os seguintes. Não riam.

Economist_Brasil06_Palestrantes

Faltou aí apenas o Alckmin e o Aécio Neves, para completar a cúpula do tucanato nacional.

Joaquim Barbosa, por incrível que pareça, dará uma palestra sobre… reforma política, assunto que ele domina tanto quanto o ex-presidente, Ayres Brito, sabia de física quântica e hábitos alimentares de passarinhos. Ou seja, nada. Preparem-se para as bombas!

Sem contar que não consigo conceber nada de pior em termos de mau gosto e insensibilidade democrática, mas sintomático do que está acontecendo no Brasil, do que chamar o presidente do judiciário para falar de um tema cujo debate está só começando no legislativo. Montesquieu se remói no túmulo.

A estratégia empresarial da Economist, portanto, está clara como os olhos de Eduardo Campos. Ela quer seduzir a direita endinheirada de São Paulo. E nada melhor, neste sentido, do que falar mal do Brasil.

***

Sobre a matéria em si, seguem algumas observações.

A reportagem abre com um tom ridiculamente professoral. Logo no subtítulo do primeiro texto, o leitor topa com o seguinte aviso:

“Tendo chegando tão perto de decolar, o Brasil travou. Helen Joyce explica o que deve ser feito para o país ganhar o espaço novamente”.

Com todo o respeito à competente Helen Joyce, se ela realmente tivesse as soluções para os problemas que assolam um país tão complexo como Brasil, ela não seria apenas uma repórter da Economist, mas uma consultora internacional que mereceria ganhar milhões de dólares por ano.

Ainda mais porque as “soluções” trazidas por Joyce não passam de clichês neoliberais, ou pior, ideias estapafúrdias e antipovo de economistas tucanos. No texto que conclui a reportagem, Joyce confessa o viés partidário de toda a matéria:

“O país pode superar o alto e mal direcionado gasto público, através da limitação de qualquer aumento em no máximo metade da taxa de crescimento econômico, conforme economistas ligados ao oposicionista PSDB vem sugerindo.”

A ideia é socialmente criminosa e politicamente colonial. Além de idiota, claro. Se alguém sugerisse tal coisa na Inglaterra seria ridicularizado, inclusive pela Economist. Mas como é para o Brasil, e pode beneficiar os especuladores que patrocinam a Economist, então não é só válida, como apresentada como solução brilhante.

Os problemas listados pela matéria são reais. Há graves problemas de infraestrutura. As obras demoram a terminar, e sempre ficam mais caras do que o acertado inicialmente. Os serviços públicos ainda deixam muito a desejar. Entretanto, eu fico imaginando como seria útil, a esta repórter, que ela entrasse numa máquina do tempo e voltasse ao Brasil de dez anos atrás. Desemprego altíssimo, dívida externa descontrolada, inflação alta, juros estratosféricos, crédito zero para pobres, situação de tragédia social em vasta regiões. E, sobretudo, uma criminosa falta de investimentos… em infraestrutura.

A reportagem peca ao não fornecer ao leitor um balanço realista, com dados, sobre o universo de obras em andamento no país. O leitor certamente sairia menos pessimista se fosse informado de que entre as cem maiores obras de infraestrutura em andamento no mundo, boa parte se encontra no Brasil.

Não podemos esquecer que as belas estradas inglesas, seu magnífico sistema ferroviário e seus portos e aeroportos modernos foram construídos com recursos e sangue oriundos da exploração colonial de países pobres, incluindo o Brasil.

O Brasil está se autoconstruindo com dinheiro próprio e trabalho duro; sem explorar e humilhar nenhuma colônia, sem fazer guerras. É claro que é um processo mais lento e mais difícil. Mas quando encerrarmos este ciclo, teremos uma dignidade que poucas nações poderão exibir.

A parte em que fala de política me pareceu leviana e hipócrita, como se fosse um problema só do Brasil, ou como se ela tivesse se baseado em informações colhidas na imprensa partidária. Independente dos problemas do sistema político brasileiro, que são inúmeros, na comparação com outras democracias ocidentais, exibimos um dos melhores índices de alternância política e produção legislativa. Em lugar nenhum a democracia é um mar de rosas, nem os políticos, seja na Inglaterra, EUA, em qualquer lugar, são exemplos de idoneidade. Mas nos últimos anos testemunhamos no Brasil a criação de instâncias de controle administrativo e combate à corrupção, além das ferramentas e leis de transparência, que hoje são referência internacional.

Me parece que os “protestos” de junho, ao afetarem a popularidade do governo, acenderam as esperanças da revista de uma vitória da direita em 2014, e isso a fez estreitar laços com a oposição. A bem da verdade, a Economist vem se aproximando da oposição há tempos, sobretudo desde que o governo decidiu acelerar a queda dos juros básicos, medida que afetou severamente a rentabilidade dos fundos de investimento que patrocinam a publicação. As matérias pedindo a cabeça de Guido Mantega serviram apenas para desmascarar a ridícula arrogância da Economist, e sua defesa de rentistas globais que há séculos chupam o sangue dos brasileiros.

A matéria, vista como um todo, é um retalho de contradições, porque louva a ascensão da nova classe média e o baixo desemprego, mas critica a universalização do sistema previdenciário, sem fazer a conexão entre as duas coisas, além de omitir que se trata de um avanço que a Inglaterra e toda Europa conquistaram há muito tempo.

É lamentável constatar que a elegante e sóbria Economist tenta agradar os vira-latas medievais de Higienópolis às custas de vender soluções profundamente nocivas aos interesses populares e à nossa soberania política.

Maria da Conceição Tavares: “Não creio em geração espontânea na Economist.”

29 de setembro de 2013

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A professora Maria da Conceição Tavares já deixou registrado que revista inglesa é pautada por interesses escusos do capitalismo global; e não apenas por seus jornalistas; matriarca dos desenvolvimentistas do País diz: “Não acredito nessa geração espontânea nas páginas da Economist, por mais que isso combine com seu conservadorismo”. Para ela, “o alvo é 2014”. A análise se deu a respeito de pedido da cabeça do ministro Guido Mantega, feito pelo magazine da terra da rainha Elizabeth no final do ano passado; mas vale para o caso atual de crítica grosseira à economia brasileira. O site 247 apurou que ex-ministro Pedro Malan tornou-se uma das principais fontes de informação da publicação.

Via Brasil 247

Entre os mais de 150 comentários gerados nas primeiras duas horas de exposição do texto Economist ataca brasil na hora de nova decolagem, um leitor enviou artigo da professora Maria da Conceição Tavares como contribuição ao debate.

A matriarca dos economistas desenvolvimentistas do País sustentava, no referido texto, que a publicação inglesa não possui “geração espontânea” de reportagens quando se trata de assuntos de interesse do grande capital internacional. Ao contrário. Para a professora, sempre que esses interesses estão em jogo, a Economist se pauta por eles, e não simplesmente pelos fatos jornalísticos.

Escrito na virada de 2012 para 2013, quando a Economist, com todas as letras, e de maneira grosseira, pediu a cabeça do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a presidente Dilma Rousseff, o artigo de Maria da Conceição serve como uma luva para o caso presente: na capa desta semana, o magazine volta a fazer carga pela desestabilização da economia brasileira.

Na ocasião, 247 apurou que o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, atual diretor do Banco Itaú, era uma das principais fontes da revista inglesa no Brasil (aqui).

Abaixo, o texto de autoria da professora Maria da Conceição Tavares remetido ao 247, publicado originalmente no site Carta Maior.

O alvo não é o Mantega; é 2014

A revista Economist sabe, e se não sabe deveria saber o que está acontecendo no mundo; a revista Economist, suponho, enxerga o que se passa na Europa; sobretudo, não é cega a ponto de não ver o que salta aos olhos em sua própria casa.

A economia inglesa despenca de cabo a rabo atrelada ao que há de mais regressivo no receituário ortodoxo, numa escalada pró-cíclica de fazer medo ao abismo. Então que motivações ela teria para criticar o Brasil com a audácia de pedir a cabeça do ministro da economia de um governo que se notabiliza por não incorrer nas trapalhadas que estão levando o mundo à breca?

O coro contra o Mantega não me convence. Nem nas suas alegações, nem nos seus protagonistas, nem na sua batuta.

Não acredito nessa geração espontânea nas páginas da Economist, por mais que isso combine com o seu conservadorismo. Não acredito que a motivação seja econômica e não acredito que o alvo seja o Mantega

Pela afinação do coro vejo mais como algo plantado daqui para lá; o alvo é 2014 e o objetivo é fortalecer o mineiro (NR Aécio Neves)

A mim não me enganam. Ah, quer dizer então que o Brasil vive uma crise de confiança, por isso os empresários não investem? Sei…

O investimento está retraído no planeta Terra, nos dois hemisférios do globo. Bem, a isso se dá o nome de crise sistêmica. É disso que se trata. Hoje e desde 2008; e, infelizmente, por mais um tempo o qual ninguém sabe até quando irá, mas não é coisa para amanhã ou depois, isso é certo. Então não existe horizonte sistêmico de longo prazo e sem isso o dinheiro foge de compromissos que o imobilizem. Fica ancorado em liquidez e segurança, em papéis de governo ricos, em especial (paga para se abrigar nos papéis alemães, por exemplo, recebendo em troca menos que a inflação).

Não é fácil você compensar em um país aquilo que o neoliberalismo esfarelou e pisoteou nos quatro cantos do globo. Por isso não se investe nem aqui, nem na China ou nos EUA do Obama. E porque também mitos setores estão com capacidade ociosa –no mundo, repito, no mundo.

A política monetária sozinha não compensa isso, da mesma forma que o consumo não alarga o horizonte a ponto de estender o longo prazo requerido pelo capital. Então do que essa gente está falando?

Alguns deles certamente conseguem compreender o que estou dizendo. Estes, por certo não fazem a crítica que eu faria, se fosse o caso de fazer alguma. A meu ver o Brasil tem que ser ainda mais destemido na redução do superávit primário – e nisso Mantega está sendo até excessivamente fiscalista, para o meu gosto.

Mas com certeza a malta que pede a sua cabeça não pensa assim. Também não pensa, como eu penso, que o governo deve ir mais depressa no investimento estatal, fazer das tripas coração no PAC, porque é daí, do investimento público robustecido que pode irradiar a energia capaz de destravar a inversão privada.

Mas não. A coisa toda cheira eleitoral. A economia internacional não vai crescer muito em 2013. O Brasil deve ficar acima da média. Mas, claro, nenhum desempenho radiante e eles sabem disso.

Então imaginam ter encontrado a brecha para fincar o pé de palanque do mineiro. E começam a disparar para atingir Dilma.

Agora pergunte o que eles propõem ao Brasil. Pergunte. E depois confira onde querem chegar olhando as estatísticas de emprego, investimento e as sondagens quanto a confiança dos empresários em Portugal, na Inglaterra, Espanha… Ora, façam-me o favor.

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Leia também:

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O cuco infatigável: Serra, FHC e Economist

28 de setembro de 2013

Relogio_Cuco02_TucanoSaul Leblon, via Carta Maior

Com a sincronia infatigável dos ponteiros de um cuco, e uma notável harmonia de enredo e afinação, três paladinos dos interesses conservadores vieram a público, na semana passada, opor reparos à condução das coisas no País.

A perda de confiança no governo é o diapasão que rege o conjunto. Que os indicadores da economia, os da confiança dos consumidores – a dos eleitores, inclusive, mostra o Ibope, com Dilma a vencer no 1º turno – desenhe uma curva inversa, pouco lhes importa.

Importa-lhes, acima de tudo, desautorizar um governo que trocou a ênfase nas reformas neoliberais pelo intervencionismo econômico.

“Vamos ter de nos reorganizar para restabelecer a confiança”, convocou FHC em ordem unida ministrada a empresários mineiros, na quarta-feira, dia 25. “Quando o Estado sufoca, os que empreendem ficam com medo”, pontificou o tucano, de longe um especialista na arte de encorajar o capital.

Na quinta-feira, dia 26, foi a vez de José Serra ir ao ponto. “O governo decidiu, em 2010, implantar um modelo de partilha para novas explorações no pré-sal, obrigando a Petrobras a deter pelo menos 30% do capital e criando uma nova estatal – Petrosal! – que controla o comitê gestor de cada campo”, arrepiou-se em exclamativos, no seu artigo no jornal O Estado de S.Paulo.

O resumo da ópera veio impresso na edição especial da revista The Economist, que seguiu na mesma toada: “Será que o Brasil estragou tudo?”, pergunta a bíblia neoliberal para oferecer suas respostas 14 páginas. Nenhuma dedicada à questão essencial do desenvolvimento brasileiro nos dias que correm: o desafio de recuperar a competitividade da indústria e inscrevê-la na grade das cadeias globais. Nada que se resolva com a bala de prata da abertura radical do mercado, receitada como panaceia pelos cucos de bico longo.

Ao contrário até.

A tarefa convoca um salto em tecnologia, coordenação do câmbio e blindagem do País contra a volatilidade financeira internacional. A rigor, recoloca na ordem do dia a questão do controle de capitais (clique aqui).

Não é essa, contudo, a hierarquia das prioridades grasnadas por Serra, FHC ou a The Economist. O oposto que os mobiliza explica a inquebrantável disposição de frustrar o modelo de partilha do pré-sal, cujo primeiro leilão ocorrerá dia 21 de outubro.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Para entendê-lo é importante conhecer melhor um regime regulatório, alvo, ao mesmo tempo, da dureza crítica da esquerda e do mutirão do cuco conservador. Para encurtar etapas, basta ir direto ao anátema que mereceu um exclamativo eriçado no artigo de Serra: a Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA).

Trata-se da operadora estatal exclusiva de todos os campos do pré-sal. Na prática, exerce o papel equivalente ao da gerência de um projeto público que tenha sua execução fatiada (por leilão) a agentes privados. A estes, no caso, caberá prestar um serviço: a extração do petróleo. Cujo dono continua sendo o País.

As relações da PPSA com as petroleiras serão tensas. A estatal controlará toda contabilidade da exploração, incluindo-se o grau de eficiência das múltis, seus custos e lucros. Para exercer seu poder de comando, terá o controle de metade das cadeiras do comitê gestor de cada campo.

Cabe ao comitê decidir, por exemplo, qual será o custo equivalente em barris da exploração do petróleo. Fixado o parâmetro, define-se a sua contrapartida: o petróleo excedente (excedente do custo de exploração). É sobre esse “excedente” que incide a parte do governo no volume total extraído dos campos: a “partilha” do pré-sal, que será, no mínimo, de 41,5%.

É esse, portanto, o lance mínimo do leilão que ocorrerá no dia 21 de outubro. Mas o objetivo é justamente forçar a competição para produzir lances maiores, com ofertas de partilha mais vantajosas ao País.

Há, ainda, os royalties, elevados de 10% para 15% por barril na regulação do pré-sal. A PPSA controlará toda essa contabilidade.

Com poderes incontrastáveis.

Em caso de impasse no comitê gestor, ela detém o voto de Minerva. Cabe-lhe, ademais, o poder de veto sobre decisões que possam ferir o interesse nacional.

Quais decisões?

Por exemplo, controlar o ritmo da exploração; controlar o volume de petróleo exportado; controlar o índice de nacionalização dos equipamentos e encomendas requeridos em cada etapa do processo.

Esse poder dosador dá ao Estado brasileiro a possibilidade de transformar o ciclo do pré-sal num impulso industrializante gigantesco. E de características inéditas na história do desenvolvimento: reside aí o vínculo com a disjuntiva que separa a visão progressista da receita conservadora para os gargalos da industrialização brasileira.

A singularidade mais relevante do modelo de partilha consiste em agregar um estratégico espaço de planejamento à luta pela regeneração da estrutura industrial do país.

A PPSA funciona como um pé de cabra que arromba a caixa preta introduzida pelo governo FHC na história do petróleo nacional. A perda de controle veio com a quebra do monopólio, em 1995, seguida de sua operacionalidade, o regime de concessão, adotado em 1997.

Essa modalidade, ainda vigente em poços fora do pré-sal, faz da empresa exploradora a dona absoluta do óleo. Mediante pagamento de bônus de assinatura e royalties, petroleiras internacionais se autorregulam (afinal, os mercados são autorreguláveis, não?). Compete-lhes, assim, definir seus próprios custos, estabelecer o ritmo da exploração e exercer a prerrogativa sobre o destino do óleo extraído. No limite, podem exportar o “seu” petróleo mesmo havendo escassez interna.

A mudança introduzida no regime do pré-sal, se bem-sucedida, sobretudo em tonificar a estrutura industrial do País, provocará redefinições sensíveis na disputa política e no imaginário social. Pode regenerar a combalida imagem do interesse público como planejador e gestor direto do desenvolvimento da Nação.

Entende-se, portanto, a inquietação do infatigável cuco encarregado de nos lembrar, de hora em hora, de ciclo em ciclo, de crise em crise, que o Brasil não sabe, o Brasil não deve e o Brasil não pode, sob quaisquer critério, assumir o comando de seu próprio destino.

Nunca é suficiente repetir: “assumir o comando de seu próprio destino”, era assim que Celso Furtado definia a luta épica embutida na palavra “desenvolvimento”.

O cuco conservador arrepia as penas só de ouvir.

Resposta ao ataque da revista The Economist ao Brasil

27 de setembro de 2013

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Miguel do Rosário, via O Cafezinho

Parece até brincadeira, mas a menos que seja uma barriga gigante do UOL, a próxima capa da Economist representará um ataque frontal ao Brasil. A mídia tupi, que sempre escondeu os inúmeros elogios que o governo recebeu da mídia estrangeira, nos últimos dez anos, agora poderá fazer o contrário. Jornal Nacional, Fantástico, capas, a diatribe da revista britânica com certeza vai ganhar destaque em todos os meios.

Então eu voltei lá na Economist, para ver o que tinha mudado. E deparei com o artigo principal da última edição, “O ocidente enfraquecido”, um ridículo, desorientado e desonesto libelo em favor de mais intervenções militares norte-americanas no Oriente Médio, a começar pela Síria.

A Economist, que sempre foi conservadora, deu uma guinada à direita ainda mais forte nos últimos tempos. E deu fim à lua de mel com países em desenvolvimento.

Não é tão difícil entender, contudo. Segundo dados do Banco Mundial, o fluxo crescente de investimentos estrangeiros diretos para o Brasil desvia verbas que, até então, iam apenas para as grandes potências ocidentais, a começar por EUA e Reino Unido.

Confiram o gráfico abaixo. Observem que o Reino Unido, pátria-mãe da Economist, sofreu violenta queda de seus investimentos produtivos, e agora recebe menos dinheiro que o Brasil. Ou seja, a Economist pode resmungar à vontade. Na hora de botar a mão no bolso e investir, o mundo prefere o Brasil.

Aliás, esse é um fator para o qual devemos olhar sempre, porque a crise financeira do mundo desenvolvido está forçando seus governos a adotarem medidas algo drásticas para interromperem o fluxo de recursos para países emergentes, como o Brasil. Com o poder que eles detêm sobre a informação, há sempre o risco de incitarem desordens aqui com objetivo de fazer os investidores desistirem do Brasil e voltarem a aplicar nas praças tradicionais, como Londres e Nova Iorque.

Segundo a consultoria AT Kearney, que há anos produz um índice de investimento estrangeiro direto (em inglês, FDI, Foreign Direct Investment), o Brasil subiu várias posições nos últimos anos, e hoje está em terceiro lugar no ranking global, atrás apenas de EUA e China. A Inglaterra, por sua vez, tem perdido pontos, e está hoje em oitavo lugar, após décadas entre os três primeiros.

Economia04

 

A avaliação que a consultoria faz do Brasil é ultrapositiva: 40% de razões para otimismo, contra apenas 10% para pessimismo. Os investidores têm sido atraídos por nossa demografia espetacular (muitos jovens em idade produtiva) e pelo aumento da renda dos trabalhadores. Em 2012, o investimento estrangeiro direto no Brasil, segundo a empresa, foi de US$65,2 bilhões, só um pouquinho abaixo do recorde registrado no ano anterior, de US$66,7 bilhões. Nesses primeiros dois anos do governo Dilma, os investimentos estrangeiros diretos (ou seja, em produção; não em especulação) foram os maiores da história.

Economia05_Investimentos

A Inglaterra também não pode chorar de barriga cheia. Recebeu US$62,7 bilhões de investimentos estrangeiros diretos em 2012. Mas entende-se a choradeira: em 2008, recebeu quase US$90 bilhões. A avaliação que a AT Kearney faz do Reino Unido, em matéria de atração aos investidores, é menos positiva, porém, que a do Brasil: apenas 24% de razões positivas, contra 13% negativas.

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Investimento Estrangeiro Direto – Gráfico Comparativo – Reino Unido e Brasil

Economia07_Brasil_InglaterraFonte: Banco Mundial.

Alguém poderia também lembrar à Economist que o desemprego no Brasil já está bem abaixo da taxa britânica. E a renda dos trabalhadores brasileiros tem crescido regularmente, ao contrário do que acontece na Inglaterra, onde tem caído. O Brasil ainda precisa avançar muito para alcançar o nível de desenvolvimento da Inglaterra. Mas não podemos perder de vista dois fatores:

1. As estatísticas mostram que estamos no caminho certo.

2. A história mostra que a Inglaterra sempre jogou contra o Brasil.

Desemprego no Reino Unido

Economia08_Brasil_Inglaterra

Desemprego no Brasil

Desemprego07_Agosto2013Fonte: Blog O Cafezinho

E já que a revista desenhou o Cristo Redentor caindo feito um míssil sobre o Rio de Janeiro, o Cafezinho retribui com um contra-ataque semiótico: uma bela foto da cidade maravilhosa. Última informação: segundo o IBGE, o desemprego na região metropolitana do Rio, em agosto, ficou em 4,5%, o menor da história da nossa cidade!

Pedro Malan planta notícias contra o governo federal na mídia internacional

23 de março de 2013
Pedro_Malan01_Mantega.

Malan planta notícias contra Guido Mantega e contra a política econômica do governo federal no Financial Times e The Economist.

Já foi identificado, em Brasília, o personagem que conecta interesses oposicionistas a publicações internacionais, como a revista The Economist e o jornal Financial Times. Trata-se do ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, atual membro do Conselho de Administração do Itaú Unibanco, que desfruta de prestígio junto aos meios financeiros internacionais. Os periódicos ingleses têm feito críticas constantes à condução da economia por Guido Mantega e, agora, a Economist passou a defender a eleição de Aécio Neves.

Via Brasil 247 em 23/3/2013

Os aparatos de inteligência em Brasília – e, que fique bem claro, não têm qualquer relação com a Abin – já identificaram o nome do personagem que mais tem trabalhado para conectar os interesses da oposição ao governo federal a grandes publicações internacionais. Trata-se do economista Pedro Sampaio Malan, que foi ministro da Fazenda nos oito anos do governo FHC (1995-2002) e hoje faz parte do Conselho de Administração do Itaú Unibanco.

O exemplo mais recente dessa costura foi publicado no fim de semana passado na revista britânica The Economist. Trata-se de uma reportagem sobre o processo político no Brasil, em que a publicação defende a “receita mineira” e o nome de Aécio Neves para o Palácio do Planalto. Malan é um dos principais conselheiros econômicos de Aécio, assim como o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga.

Antes dessa reportagem, a mesma Economist que havia feito uma capa sobre a decolagem do Brasil, no início do governo Dilma, já havia dado outras demonstrações de uma guinada em sua política editorial. Recentemente, a revista pediu, com todas as letras, a demissão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, como única medida capaz de garantir a reeleição da presidente Dilma Rousseff.

A Economist foi também seguida pelo jornal inglês Financial Times, que, além de pedir a cabeça de Mantega, também abriu espaço para que o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setúbal, reclamasse da política econômica no Brasil e de supostas mudanças constantes nas regras do jogo.

Ministro da Fazenda num momento em que o Brasil tinha poucas reservas internacionais e foi três vezes ao Fundo Monetário Internacional, Malan conquistou muito prestígio junto aos círculos financeiros internacionais. A aproximação com o Unibanco se deu quando o banco dos Moreira Salles obteve autorização para incorporar a chamada parte boa do extinto Nacional. E quanto o Unibanco se fundiu com o Itaú, Malan foi guindado ao Conselho de Administração.

Discreto, o ex-ministro da Fazenda pouco fala com a imprensa, mas suas movimentações internacionais já dispararam o alarme em Brasília. Já sabe, por exemplo, que a agenda da oposição rumo ao Planalto passa por questões como a suposta estagflação (crescimento baixo e inflação alta), o desempenho da Petrobras e a estratégia do BNDES de fomentar “campeões nacionais”.

Novos ataques virão. Com a assinatura de Malan.

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