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A mídia golpista está com a faca entre os dentes contra o desenvolvimento

10 de janeiro de 2013

FHC_Apagao01Saul Leblon, via Carta Maior

O empenho das manchetes alarmistas em equiparar o horizonte elétrico atual ao desastre construído pelo tucanato no apagão de 2001 é compreensível. Aquele foi o episódio-síntese de um erro histórico clamoroso ungido em doutrina política pelo PSDB e assemelhados. Seu nome é dissociação entre Estado e agenda do desenvolvimento. Doze anos e um colapso mundial do capitalismo desregulado se passaram. Inútil. Diga planejamento público da economia. Ou comando estatal do crescimento. Um exército tucano sairá em revoada de faca na boca.

Estão na praça, de novo, desbastando pescoços e goelas para abrir caminho ao Adam Smith das gerais. O apagão de 2001 machuca e atrapalha esse labor: o iluminismo tropical colonizado pelos livres mercados revelou-se então puro obscurantismo conservador. Uma contradição em seus próprios termos dói mais que pancada.

Prescindir do planejamento estatal na área de energia é algo só concebível em uma época em que a mentalidade política foi esfericamente colonizada pelo espírito imediatista e predador dos ditos mercados autossuficientes. O dispositivo midiático e o PSDB foram os sujeitos históricos dessa aventura no Brasil. Livre da mão pesada do “intervencionismo” estatal, os mercados alocariam os investimentos da forma mais eficiente, ao menor custo e da maneira mais rápida possível. Era a promessa.

Em meados de maio de 2001, esse conto de fadas midiático-ortodoxo havia cavado uma diferença de robustos 20% entre a oferta e a demanda de eletricidade no mercado nacional. Um período de chuvas de baixa pluviosidade pôs a nu a fraude. O País se viu diante de uma contabilidade crítica: duas horas de apagão para cada dez de consumo. Colosso.

O governo Dilma, ao contrário, projeta uma queda de 20% no custo da tarifa elétrica impondo às concessionárias corte de preços proporcionais ao valor dos investimentos amortizados. A relação antagônica entre os 20% do PSDB e os 20% de Dilma – sabotado por governadores tucanos – é intolerável numa disputa sangrenta como promete ser a de 2014. A necessidade de criar uma vacina ao “apagão” emplumado explica o empenho das manchetes nos dias que correm. Exemplos de terça-feira, dia 8:

“Grandes indústrias já planejam racionar energia” (Globo)

“Falta de chuvas pode tolher 5 pontos do desconto na energia” (Valor)

“Governo já vê risco de racionamento de energia” (Estadão)

Fatos:

a) Os reservatórios do sistema hidrelétrico nacional realmente encontram-se em níveis críticos. Próximos ou até um pouco abaixo dos níveis registrados nos anos de 2000 e 2001, quando o governo tucano acordou de seu sonho mercadista, sem contrapesos de planejamento para enfrentar a escassez.

b) Sábios que voltaram a borrifar seu “iluminismo” peculiar contra os “obscurantistas estatizantes” haviam contratado uma escuridão estrutural em pleno século 21.

c) O apagão tucano custou 3 pontos do PIB, mais um salário mínimo per capita em impostos emergenciais adicionados à conta de luz de cada brasileiro. Investimentos foram engavetados. O desemprego em São Paulo, em abril do ano seguinte, bateu em 20,4% (no auge da Depressão nos EUA, em 1937, chegou a 27%).

d) Justiça seja feita: foi apenas o tiro de misericórdia numa economia já desidratada pela ortodoxia monetária, asfixiada pelo endividamento interno e externo, escalpelada pela fuga de capitais. O oposto do que ocorre hoje.

e) Entre 2001 e 2012 a capacidade instalada de geração de energia no Brasil cresceu 75%.

f) O estoque de emergência formado por termelétricas aumentou 150% no mesmo período.

g) A capacidade de realocação de energia entre as regiões (os linhões de integração do sistema) cresceu 68%.

h) Em setembro de 2011, a Presidenta sintetizou a guinada indo à jugular do iluminismo às avessas: “Tivemos que reconstruir esse setor”.

i) A reconstrução inclui um Plano Decenal que prevê 71 novas usinas até 2017, com potencial de geração de 29 mil MW (o equivalente a duas Itaipus). As hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio entram em operação este ano, gradualmente (adicionam o equivalente a cerca de 35% de uma Itaipu).

Em resumo: encerrou-se o hiato de três décadas sem o planejamento público de grandes obras no país. O êxito desse resgate – o comando de Estado sobre um setor estratégico –, vitaminado ademais por uma redução no custo tarifário, é incompatível com os planos do conservadorismo para 2014.

O próprio FHC tem advertido aos mais entusiasmados com a aliança entre togas & tucanos. Não adianta ganhar na narrativa midiática se o “povão”, a gente diferenciada, como dizem seus vizinhos de Higienópolis, percebe avanços sociais e econômicos como conquistas carimbadas com o selo de Lula e Dilma.

É indispensável desautorizar o modelo que lastreia esse sentimento. É crucial provar que o comando de Estado sobre os mercados é ineficiente. Se possível, desastroso.

Será preciso chover muito para afogar essa sede incontida. Do contrário, as manchetes prosseguirão na faina de antecipar o colapso – “que só não foi hoje porque virá amanhã”.

Uma última observação: o dispositivo midiático conservador está tão entretido nessa labuta, que descuidou dos destaques internacionais deste início de semana.

Compare-se, por exemplo, o espaço destinado à grita gerada pelo ajuste contábil nas contas fiscais de 2012, com o tratamento respeitoso dispensado a outro arranjo, mutatis mutandis, este sim temerário e escandaloso. O prazo para o sistema bancário mundial lastrear empréstimos em ativos de qualidade superior à montanha tóxica esfarelada com a implosão da ordem neoliberal, foi protelado por mais quatro anos.

Só deve vigorar plenamente em 2019. Ou seja, 11 anos depois de iniciada a crise decorrente justamente dessa falta de cobertura. Originalmente, a banca deveria ingressar em 2015 já municiada de “ativos líquidos de alta qualidade” para enfrentar 30 dias de crise. Isto é, para não exigir que os cofres estatais e os fundos públicos tenham de ser drenados outra vez na salvação de banqueiros irresponsáveis e rentistas gulosos.

A torre de vigia do orçamento fiscal brasileiro, formada como se sabe por argutos jornalistas do ramo, não expressou sua indignação diante da manobra contábil, que mantém o sistema financeiro global vulnerável por mais sete longos anos.

Não se diga que o legado da desordem financeira justifique o comedimento. A taxa de desemprego nos 17 países da Zona do Euro atingiu um novo recorde: foi a quase 12% no final de 2012. Ao todo, 26 milhões de pessoas estão sem trabalho na União Europeia. A taxa vai a 24,4% entre os jovens. Na Espanha direitista e zelosa da ortodoxia que gerou a crise, o desastre atinge seu cume: 26,6% dos espanhóis vivem à deriva sem trabalho.

Tudo em nome da austeridade fiscal, cujo padrão os sabichões tucanos reclamam de volta para o Brasil. Afrontá-los não implica, naturalmente, aderir a uma leitura rasteira do keynesianismo, nivelando-o a um vale tudo fiscal. Trata-se, porém, de rejeitar no plano financeiro, também, a dissociação entre Estado e desenvolvimento, cujo equívoco ficou escancarado no episódio do apagão tucano.

Quando a sirene ortodoxa faz soar seu apito porque o Brasil não cumpriu a meta cheia do superávit em 2012 – e o governo acode em atendê-la contabilmente – é o subtexto desse interdito que está gritando a sua saturação também. Constituir um Estado democrático que detenha igualmente a iniciativa histórica no plano financeiro é um dos desafios da agenda do desenvolvimento pós-2008.

Em seu artigo da terça-feira, dia 8, no jornal Valor Econômico, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo dá uma pista de como esse degrau pode ser vencido:

“A estratégia chinesa inclui um forte controle e direcionamento do crédito, cuja oferta está concentrada nos cinco grandes bancos públicos. Depois da crise de 2007/08, a relação crédito/PIB avançou de 200% para 250% (NR no Brasil é da ordem de 51%). Os principais tomadores foram as empresas públicas, privadas e semipúblicas dedicadas à execução dos grandes projetos de infraestrutura, sobretudo ferrovias de alta velocidade e infraestrutura urbana com atenção especial para o transporte coletivo”.

STF: Um sultão num país de eunucos?

18 de dezembro de 2012

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Saul Leblon, via Carta Maior

A Suprema Corte, como o próprio nome indica, existe para ser a instância máxima a dirimir as pendências constitucionais de uma Nação. Sobretudo, foi concebida para erguer linhas de passagem que superem interpretações divergentes em torno da Carta Magna, evitando-se crises institucionais, antecipando-se a elas, ademais de calafetar hiatos decorrentes de elisões constituintes.

Assim entendido, o Supremo é a extensão permanente do poder constituinte que o originou. Mas não acima de qualquer circunstância. Sobretudo, não como um usurpador do equilíbrio de poderes no qual se assenta a estabilidade da democracia.

Esse, infelizmente, foi e tem sido o conceito autoritário e oportunista de suprema instância evocado pela coalizão conservadora que capturou o STF. Serve-se dele abertamente para impor uma revanche à esquerda que a derrotou sucessivamente nas urnas presidenciais desde 2002.

Como lembrou recentemente o professor Alfredo Bosi, a prerrogativa da instância suprema pressupõe a plena autonomia em relação ao dinheiro, à burocracia viciosa e à endogamia dos favores espúrios.

O monopólio da última palavra cobra das togas a necessária temperança nas decisões que revalidem esse apanágio.

O papel de reserva constitucional da sociedade – que não pode ser mobilizada a todo instante para escrutinar suas pendências; mas deveria sê-lo com maior frequência – está indissociavelmente atrelado à validação dessa equidistância acomodatícia que se renova a cada sentença.

Não se trata de uma terceirização absoluta da soberania popular.

A esta sim, cabe entre outras prerrogativas aquela suprema de se refundar enquanto sujeito histórico. E convocar uma nova assembleia constituinte, capaz de reordenar o pacto social, cuja institucionalidade caberá a uma suprema instância preservar e aperfeiçoar.

O mandato das togas reafirma-se nesse exercício do discernimento histórico e jurídico, chamado a recosturar permanentemente a argamassa que ordena as fricções institucionais inerentes aos interesses conflitantes da sociedade.

Nada mais distante disso do que a soberba egocêntrica e o autoritarismo arestoso que marcariam os quatro meses e meio de julgamento da Ação Penal 470, concluído a caráter nesta 2ª feira.

Ilustrativo da escalada tangida a holofotes, o voto do ministro Celso de Mello não poupou a própria biografia jurídica na sofreguidão de atender ao script condenatório prevalecente.

A decisão de afrontar o poder Legislativo impondo-lhe uma genuflexão humilhante diante de cassações de mandatos soberanos, nivelou a Suprema Corte à exacerbação midiática que logrou fazer da Ação 470 o cavalo de Troia da campanha eleitoral conservadora de 2014.

Perde toda a Nação quando uma Corte Suprema deixa de ser referência para ser referido. Ao tomar partido, o STF tornou-se um foco irradiador de impasses; uma usina de sobressaltos constitucionais. Trocou a equidistância das togas pelo turbante de um sultão e pretende fazer do país uma democracia de eunucos.

Ressente-se a sociedade brasileira, perigosamente, de uma Corte Suprema que ao contrário de conflagrar a democracia a pacifique, ao contrário de desprestigiá-la a engrandeça, ao contrário de tumultua-la a estabilize.

Cabe a quem de direito ocupar o vácuo com uma liderança de serenidade e desassombro, capaz de reconduzir a democracia e o desenvolvimento brasileiro aos trilhos pactuados nas urnas nos últimos 10 anos. Não se trata de um fecho exclamativo, mas de uma agenda de providências e de coragem a ser acionada. E logo.

José Serra está entregue às togas

23 de outubro de 2012

Saul Leblon, via Carta Maior

O tucano José Serra esgotou seu repertório antes de terminar a campanha. Seu maior problema nesses dias que restam da disputa em São Paulo é decifrar o enigma: o que mais dizer ao eleitor que não o ouviu até agora?

A percepção mais grave é que sua narrativa perdeu significado para o próprio PSDB. Pior: a imensa rejeição que atrai tornou-o um estorvo ambulante para o futuro do partido.

A obsolescência contagiosa prenuncia-se em isolamento. Este se reflete nos recados de pavões partidários, sempre ágeis em se desvencilhar do legado de uma derrota. Sobretudo, quando tende a deixar sequelas na opinião pública simpatizante da legenda.

FHC e Sérgio Guerra vazam desapontamento com a condução das coisas em São Paulo. Contabilizam como erro primário a fusão da candidatura com a agenda da intolerância.

O horizonte de uma vitória tucana em São Paulo, associado a um termidor de malafaias, colocou em alerta parcelas da classe média que orbitam em torno do PSDB; adensou a percepção do partido como um agrupamento que age e urdi na base do vale tudo que condena.

Não só. Muitos consideram inábil a sôfrega exploração do julgamento em curso no STF pela campanha em São Paulo. Serra está distribuindo milhões de adesivos com o slogan “Diga não ao mensalão”. A panfletagem é uma parceria calculada com o calendário desfrutável do Supremo, que deve culminar esta semana com a deliberação de penas.

É o tour de force que lhe restou nas horas que correm. Pode significar um desastrado saque contra o futuro, na avaliação de analistas embarcados na sorte do PSDB.

A mão grande de Serra na cumbuca da Ação Penal 470 dessacraliza um trunfo nacional contra o PT em 2014. Ademais de argui-lo com uma derrota nas urnas em São Paulo, subtrai ao julgamento um cerimonial de ecumenismo e equidistância que o legitimaria. Cabos eleitorais togados poderão ir além do inexcedível espetáculo político eleitoral que emoldurou certos votos nas condenações decididas nesta segunda-feira?

Serra ignora limites e ponderações. A soberba é seu ponto forte. Do alto dela, o ex-governador menosprezou a importância de uma plataforma consistente para concorrer em São Paulo. Um aggionamento programático de seu perfil teria sido estratégico para suavizar as marcas ainda recentes de um abalroamento triplo, a saber:

a) a segunda derrota presidencial em 2010, desta vez para uma adversária que ele próprio definia como “um poste”;

b) o bom governo e a elevada aprovação popular que “o poste” exibe hoje, desautorizando-o como avalista de um desastre que não se consumou; e

c) o desastre executivo de proporções ferroviárias da gestão que bancou como a melhor para São Paulo – a de seu afilhado Gilberto Kassab, catalisador de um sentimento de rejeição quase unânime na cidade, expresso no desejo de mudança administrativa de 88% da população; sendo este o principal flanco da candidatura tucana.

O raciocínio político tosco é outro traço que os próprios amigos da Unicamp creditam a Serra. O ferramental rudimentar definiu o teto de sua liderança com um pé direito insuficiente para acomodar todo o PSDB e convencer a sociedade a lhe conceder a delicada tarefa de presidir a Nação.

A falta de grandeza e a moderada argúcia levaram-no ao erro de avaliação que pode selar agora sua despedida da política.

Serra apostou que o manejo do ódio ao petismo, do qual se tornou o maior expoente com a derrocada dos Demos, seria abastecido just in time pela artilharia do STF. A entrega de munição à campanha deste ano culminaria numa apoteose, com a definição das penas em plena boca de urna do 2º turno.

As togas fizeram e fazem a sua parte nessa guerra de politização da justiça e vice versa. Mas o excesso caramelado pelo jogral enjoativo do dispositivo midiático conservador torna qualquer enredo desinteressante; em certa medida, suspeito.

A trama caricata chega ao seu epílogo –deliberadamente associado ao desfecho das eleições– tropeçando em inconsistências que transpiram mais engajamento do que credibilidade.

É desse paiol molhado que depende a munição dos últimos dias de campanha de Serra.

Por tudo isso, seu futuro político está entregue às togas, muito mais do que o dos petistas que demoniza. Com uma desvantagem robusta nas pesquisas, o recurso reiterativo deve adicionar pouco à insuficiência já acumulada.

Não é inusitado na história que o algoz tenha o destino concebido às suas vítimas; não raro, como alma penada de um ostracismo sem similar. Serra preenche os requisitos para ser um desses vultos capturados pelas suas próprias armadilhas.

A mídia e o ódio à política

21 de agosto de 2012

Saul Leblon, via Carta Maior

Começou na terça-feira, dia 21, o horário eleitoral do pleito municipal de 2012. Com todas as ressalvas cabíveis – a rendição ao publicitarismo desprovido de conteúdo programático é uma delas – constitui uma das raras janelas em que o critério de tempo, e a seleção dos temas tratados, escapa à pauta política imposta pela grande mídia à sociedade. A má vontade dos auto-intitulados “formadores de opinião” com essas ilhas de autonomia é conhecida.

Editorial da Folha de domingo, dia 21, rememora a ladainha: trata-se de um instrumento de natureza impositiva, com veiculação simultânea obrigatória, que subtrai 60 horas da grade de programação das tevês comerciais; estas, como se sabe, oferecem ao País a crème de la crème do repertório cultural e informativo da humanidade.

A repulsa ao horário eleitoral tem sua origem na mesma cepa que identifica na Voz do Brasil não um serviço de utilidade pública suprapartidário, credor de aperfeiçoamento, mas uma agressão do “leviatã hobesiano” à livre escolha da sociedade civil.

Deriva desta fornalha ainda a ojeriza às televisões públicas, assim como ao chamado “Estado anunciante”, cujo efeito deletério, sugestivamente, ganhou os holofotes dos “pesquisadores” à medida que o governo desconcentrou a veiculação da publicidade oficial, antes abocanhada quase integralmente pelos “barões da mídia”.

Aos liberais que não se libertam jamais da canga conservadora, não ocorre arguir se a estrutura de propriedade dos meios de comunicação – sobretudo no caso da televisão – assegura a pluralidade narrativa necessária à formação crítica do discernimento nacional.

A verdade é que a indigência política no caso brasileiro tem como um de seus principais tributários a própria mídia. Baratear o debate sonegando espaço e relevância aos grandes temas que afrontem seu interesse, é uma de suas especialidades.

Um exemplo é o tratamento demonizante dispensado ao tema da regulação democrática do setor; outro, as acusações de chavismo carimbadas contra qualquer opinião favorável à ampliação da democracia participativa (leia Laurindo Lalo Leal Filho, A criminalização da política).

A mesma edição dominical da Folha, que critica o horário eleitoral como sinônimo de recurso impositivo e de má qualidade, oferece ao leitor um suplemento ilustrativo dessa contribuição ao aperfeiçoamento do debate político nacional.

Um encarte na forma de quadrinhos, que almeja despertar o interesse decepcionante do distinto público pelo julgamento do chamado “mensalão”, condensa todo um coquetel tóxico de preconceito e generalização colegial.

O conjunto está na raiz da infantilização e das deformações da vida política que o jornal critica. Aos bordões típicos do conservadorismo contra a instituição partidária, subjaz uma dissimulada genuflexão ao agonizante credo neoliberal, a saber: tudo o que não é mercado é corrupção; tudo o que não é mercado é ineficiente; tudo o que não é mercado é irrelevante, é descartável e suspeito.

Nada mais caricato do que uma caricatura que se presta a baratear a realidade para vender o peixe do conservadorismo obtuso e do atomismo social. Perto do ódio à política massificada pelo dispositivo midiático conservador, as deficiências efetivas do horário eleitoral são, ao contrário do que sugere a Folha, o mal menor.

Datafolha: Lula, Maluf, fotos, símbolos e caricaturas

28 de junho de 2012

Saul Leblon, via Carta Maior

O Datafolha entregou os números que as manchetes da Folha, sobre a aliança PT/Maluf, cuidaram de induzir as pessoas durante os sete dias que antecederam a sondagem. O intervalo cobre o período que vai da publicação da polêmica foto do encontro entre Lula, Haddad e Maluf, selando o apoio do PP ao candidato petista, e a ida à campo dos pesquisadores. Aos resultados: “64% dos petistas rejeitam apoio de Maluf”, diz, cheio de gula, o jornal da família Frias, em título de seis colunas. Mas a pesquisa revela também nuances não previstas e pouco destacadas pelo jornal. Em parte, porque sujam a narrativa maniqueísta da “desilusão petista” mas, sobretudo, pelo que revelam da correnteza submersa, a comprimir o favoristimo quebradiço e engessado de José Serra.

Por exemplo:

a) para 50% dos entrevistados pelo Datafolha, o apoio de Maluf (do qual podem até não gostar) é indiferente ou benéfico a Haddad;

b) 36% votariam no candidato indicado por Lula;

c) só 21% sabem que esse candidato é Haddad;

d) a defasagem de 15%, mais os 6% atribuídos ao petista pelo Datafolha reduzem para 10% a distância atual entre Haddad e Serra;

e) Serra não sai do degrau de 30% de votos, mas evolui com desenvoltura no quesito rejeição. Ela já era alta e saltou de 32% para 35%, num intervalo inferior a duas semanas, em julho. A de Haddad, ao contrário, é baixa (12%) e estável.

Fotos, símbolos e caricaturas

Muitos gostariam que a foto polêmica em que Lula e Haddad posam ao lado de Maluf simbolizasse a essência daquilo que o PT, Lula e Maluf representam para a história política brasileira. Uma gigantesca engrenagem foi posta a serviço dessa tese. A pesquisa do Datafolha faz parte desse mutirão. Egos foram atiçados. Durante dois dias seguidos, após a divulgação da polêmica fotografia, martelou-se a sentença irrecorrível: a imagem era o ultrassom de uma degeneração terminal que destruía por dentro o principal partido progressista brasileiro e sua liderança máxima.

Uma técnica usual na mídia consiste em blindar “denúncias” contra qualquer arguição vitaminando-as por meio de uma implacável imersão da opinião pública em declarações reiterativas.

No caso da foto, o esforço anestesiante ganhou um reforço imediato de grande impacto: a deputada Luiza Erundina, ela mesma um símbolo de retidão e dignidade na política, reagiu à pressão do rolo compressor renunciando ao posto de vice na candidatura Haddad à Prefeitura de São Paulo. Seu gesto e sucessivas declarações a uma mídia sequiosa foram incorporados à espiral condenatória dando-lhe um torque quase irrespondível nas primeiras 48 horas pós “flagrante fotográfico”.

Aos poucos, porém, surgiram fissuras. O PT e Lula estão presentes na história e no imaginário do País há três décadas. Ambos são filhos do capitalismo brasileiro, cuja principal singularidade foi assentar a supremacia de uma elite indigente na mais desigual estrutura de distribuição de renda (e de poder) existente no planeta. O PT decidiu, e conseguiu, assumir o governo dessa sociedade com a promessa de transformá-la.

O compromisso de torná-la mais justa, inclusiva e democrática, dentro dos marcos institucionais disponíveis (o que não o exime de ampliá-los, por exemplo, no acesso à comunicação), levou-o a um mergulho no moedor de carne de concessões e recuos impostos pela exigência da governabilidade, ao preço, entre outros, de um certo grau de desfiguramento orgânico e partidário. Ainda assim, o partido obteve um voto de confiança das grandes maiorias para testar a sua aposta em 2002, 2006 e 2010.

Há resultados eloquentes que explicam a renovação desse pacto eleitoral. São avanços conhecidos; alguns, objeto de controvérsia quanto à consistência estrutural; outros, ainda por demais tímidos para reverter desequilíbrios aterradores, como o acesso e a qualidade da saúde e da escola pública. Mas a percepção vivenciada e majoritária da população concede a Lula e ao PT que o Brasil é hoje, após dez anos sob seu comando, o país menos desigual de sua história de 500 anos – 380 dos quais em regime de senzala e casa-grande. O recuo da taxa de pobreza no País, de fato, foi notável no período: uma redução da ordem de 15%, caindo de 39% da população, em 1999, no fim do segundo governo tucano, para 23,9%, em 2009, no crepúsculo do ciclo Lula. A renda domiciliar per capita dos 10% mais pobres cresceu 7% ao ano entre 2001 e 2009; entre os 10% mais ricos a taxa foi de 1,5%. Tudo somado, 30 milhões de brasileiros deixaram a pobreza brava nesse meio tempo.

Teve um custo. Não se espere querubins egressos dessa descida ao inferno implícita numa aposta de transformação progressiva da senzala em cidadania, sem ruptura abrupta com a casa-grande. O desfibramento intrínseco da militância a partir dessa experiência, ancorada mais em eleições e acordos de cúpula do que em mobilizações – exceto nos momentos críticos – produziu um legado de paradoxos de peso histórico ainda não totalmente mensurável. Inclui-se nessa contabilidade de perdas e danos, por exemplo, a esquizofrênica dualidade de um PT que defende a democracia participativa, mas tem dificuldade de vivenciá-la internamente.

Maniqueísmos religiosos ancorados em símbolos fáceis não ajudam, porém, a entender e nem a intervir na história. Nenhum partido de esquerda passou pelo teste do poder impunemente. O desgaste está implícito num aparelho de Estado quem longe de ser “imparcial”, está organizado para dinamitar projetos que afrontem a lógica dominante e premiar, em contrapartida, políticas “amigáveis e quadros complacentes”. Por isso o Banco Central – “independente” – funciona e as políticas sociais, assim como os investimentos públicos em educação, saneamento, saúde e habitação têm dificuldade para deslanchar. Lula deixou oito anos no comando desse paradoxo com 80% de apoio popular, marca inédita, exceto talvez se comparada à catarse em torno de Vargas, após o suicídio em 1954.

O PT, sim, o partido desfibrado, burocratizado, espelho da sociedade que representa, cuja vida interna e inquietação intelectual às vezes lembram o eletrocardiograma de um morto, é o preferido por cerca de 1/3 dos brasileiros – tem 28% das preferências; o PMDB vem em seguida com 6%; o PSDB, apesar da superexposição que a Folha – e o Datafolha – lhe concede, de forma sempre isenta, obtém ralos 5% da aceitação. Os dados, extraídos de um levantamento recente feito pela Vox Populi, indicam ainda que 70% dos brasileiros enxergam no PT um partido moderno e comprometido com os pobres; 66% veem nele um partido que busca políticas que atendam ao interesse da maioria da população (apenas 16% discordam disso e enxergam no partido a força ultrapassada – “degenerada” – que as perguntas do Datafolha buscam induzir e calcificar).

Voltemos à fotografia polêmica. Martelada em 48 horas de bombardeio intenso, a imagem teve o apoio reiterativo da sempre digna deputada e socialista Luiza Erundina, para assumir a dimensão de um testamento ejetado do fundo da cova petista.

A esférica blindagem em torno dessa tese enfrentou, após o desconcerto inicial, uma avalanche de fissuras em blogs e sites progressistas. O que se constatou, então, é que a aliança com o PP, embora questionada na forma – o que foi reafirmado pelo Datafolha – não fora percebida como uma renúncia ao espaço ocupado pelo PT na história brasileira. Mais que isso. Embora a contragosto, a mídia foi obrigada também a reconhecer certas nuances entre o “símbolo definitivo” que saboreou com gula inicial e a visão da própria deputada Luiza Erundina. Passado o gesto abrupto, a ex-prefeita de São Paulo tirou uma a uma as escoras da versão que ajudara a construir. Mais atenta ao uso de sua credibilidade, matizou em divergência de forma uma reprovação que não se estendia nem ao candidato, nem a campanha e tampouco à aliança com o PP.

Erundina, a exemplo dos 70% que enxergam no PT e em Lula referências antagônicas às forças e projetos que acompanham Paulo Maluf, sabe que ambos são imiscíveis historicamente, ainda que interações secundárias possam ocorrer no jogo eleitoral. Erundina sabe, ademais, que Lula não trocou a sua história por 90 segundos, como regurgitaram sebosamente os editoriais e colunistas de sempre. Lula foi em busca de um fator essencial a um candidato ainda desconhecido por 55% dos eleitores de São Paulo. E não só para adicionar-lhe 90 segundos de exposição, mas para evitar que esses 90’ fossem para o candidato Serra, que ficou irritadíssimo com Alckmin por ter “deixado escapar o Maluf”, como confidenciou ao Terra Magazine um tucano capa preta menos hipócrita.

Lula raciocinou com base na matemática dos confrontos diretos: “tirar 90’ do Serra e acrescentar 90’ a Haddad significa virar 3 minutos”. Foi isso. “Virar 3 minutos” em troca de um cargo subalterno no plano federal, sob o comando rígido de Dilma Rousseff. “Não muda uma vírgula”, disse o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, “na hegemonia da aliança. Tampouco no programa de Haddad para São Paulo”. Justiça seja feita, a recíproca é verdadeira; e significativa: a foto não reflete igualmente o presente, o passado ou o futuro do próprio Maluf que – os críticos da aliança afirmam, com razão – continua sendo quem sempre foi. Seria esse diagnóstico válido apenas a um dos lados da equação?

A imagem, na verdade, é caricata; acentua aspectos reais do jogo eleitoral ao qual o PT aderiu há mais de três décadas – com os resultados medidos pela pesquisa Vox Populi. Mas não tem a força simbólica que o dispositivo midiático conservador pretende atribuir-lhe, para jogar a pá de cal da “desilusão” petista que o Datafolha busca agora colher com o senso de oportunidade de um engajamento conhecido.

A antessala do julgamento do chamado “mensalão” – empurrado em ritmo paraguaio pela mídia conservadora para coincidir com a campanha municipal deste ano – explica em boa parte esse esforço de reportagem em torno de uma fotografia de dimensões elásticas. Uma, pouco destacada, é que ela acrescenta ao PT 90 segundos de fôlego para se defender de uma previsível identidade narrativa, a emendar o noticiário do Jornal Nacional sobre o julgamento do “mensalão” e a campanha tucana na TV. É esse esforço de vida ou morte para não perder São Paulo e não enterrar Serra na urna de mais uma derrota para o partido de Lula, que deu à imagem a densidade de um símbolo de significado incontestável, que ela de fato não tem.

Leia também:

Gilson Caroni Filho: O purismo e o verdadeiro Maluf

Miguel do Rosário: O maquiavelismo de Lula


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