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Russos querem produzir com o Brasil o caça mais moderno do mundo

28 de março de 2014

Russia_Brasil_Aviao01Via Crônicas do Motta

O site Gazeta Russa informa que a Rússia não desistiu de desenvolver e produzir, em conjunto com o Brasil, caças multifuncionais de quinta geração do tipo do Sukhoi T-50.

A informação foi prestada pelo diretor do Serviço Federal para a Cooperação Técnico-Militar da Rússia, Aleksandr Fomin.

“Infelizmente, não participamos da licitação para o fornecimento de 36 caças ao Brasil. No entanto, a nossa proposta de desenvolver e produzir em conjunto com o país um caça multifuncional com base no T-50 continua de pé”, disse Fomin à agência de notícias Ria Novosti na véspera da abertura da Feira Internacional Aérea e Espacial de Santiago, no Chile.

Segundo ele, a Rússia está pronta para discutir a possibilidade de criação de uma joint venture em suas negociações com o Brasil.

O Brasil já escolheu o vencedor da licitação para a aquisição de 36 caças pesados para a Força Aérea Brasileira (FAB), no valor de US$4 bilhões.

Na lista final estavam três aeronaves: o Rafale, da Dassault Aviation, o F/A-18E/F Super Hornet, da Boeing, e o JAS-39 Gripen NG, da Saab. O russo Sukhoi Su-35 não ficou entre os finalistas. A licitação foi vencida pelo sueco JAS– 39 Gripen NG.

Esta não é a primeira vez que se noticia o interesse dos russos em produzir junto com o Brasil um avião similar ao T-50. Os russos estão investindo pesadamente na ampliação do mercado para a sua indústria bélica – o país é o segundo maior exportador de armamentos do mundo, só perde para os Estados Unidos.

O Sukhoi T-50 deve entrar em produção no ano que vem. Os russos desenvolvem um modelo similar com a Índia – provavelmente o mesmo que querem fabricar com o Brasil.

As negociações com o governo brasileiro vêm desde meados dos anos 2000, quando foram anunciados os planos para a modernização da força aérea russa e o desenvolvimento de um avião de quinta geração para competir com os norte-americanos F-22 Raptor e o F-35 Lightning.

O primeiro protótipo do T-50 voou em 2011.

Os 36 caças Gripen NG que o Brasil vai comprar da Suécia não são de quinta geração, ou seja, são menos sofisticados, com menos recursos tecnológicos e menos capazes, em vários aspectos, de cumprir as missões para que foram projetados.

Russia_Brasil_Aviao02

De certa forma, o Brasil está comprando máquinas de guerra já ultrapassadas, embora os Gripen NG e aparelhos similares ainda sejam aeronaves de ponta e possam suprir muitas carências da defesa brasileira.

Mas a produção conjunta de um avião como o T-50 seria capaz de dar um extraordinário impulso à indústria aeronáutica brasileira, pois colocaria os engenheiros do país em contato com a tecnologia mais avançada existente em todo o mundo.

Para vários analistas, o governo Obama, cada vez mais hostil aos russos, está, de certa forma, contribuindo para fortalecer o grupo dos Brics (Brasil, Rússia, China e África do Sul), formado por países que têm economias complementares e podem se unir ainda mais para se contrapor ao expansionismo e protagonismo norte-americanos.

O projeto de produção conjunta de uma máquina similar ao T-50 é parte desse raciocínio.

Mauro Santayana: A Otan e as matrioskas

15 de março de 2014

Russia_Matrioskas01Mauro Santayana em seu blog

Toda nação tem seus símbolos. Um dos mais tradicionais símbolos russos, à altura de Dostoievski e de Puchkin, são as matrioskas, as bonecas de madeira, delicadamente pintadas e torneadas, que, como as camadas de uma cebola, guardam, uma dentro da outra, a lembrança do infinito, e a certeza de que algo existe, sempre, dentro de todas as coisas, como em um infinito jogo de espelhos e surpresas.

Ao se meter no complicado xadrez geopolítico da Eurásia, que já dura mais de 2 mil anos, o “ocidente” esqueceu-se dos russos e de suas matrioskas.

Para enfrentar o desafio colocado pela interferência ocidental na Ucrânia, Putin conta com suas camadas, ou suas matrioskas.

A primeira camada, a maior e a mais óbvia, é o poder nuclear.

A Rússia, com todos os seus problemas, é a segunda potência militar do planeta, e pode destruir, se quiser, as principais capitais do mundo, em uma questão de minutos.

A segunda é o poder convencional. A Rússia dispõe, hoje, de um exército quatro vezes maior que o ucraniano, recentemente atualizado, contra as armas herdadas, pela Ucrânia, da antiga URSS, boa parte delas, devido à condição econômica do país, sem condições de operação.

A terceira, é o apoio chinês, a China sabe que o que ocorrer com a Rússia, hoje, poderá ocorrer com a própria China, no futuro, assim como da importância da Rússia, como última barreira entre o Ocidente e Pequim.

A quarta matrioska é o poder energético. Moscou forneceu, no último ano, 30% das necessidades de energia europeias, e pode paralisar, se quiser, no próximo inverno, não apenas a Ucrânia, como o resto do continente, se quiser.

A quinta, é a financeira. Com US$177 bilhões de superávit na balança comercial em 2013, os russos são um dos maiores credores, junto com os Brics, dos EUA. Em caso extremo, poderiam colocar no mercado, de uma hora para outra, parte dos bilhões de dólares que detêm em bônus do tesouro norte-americano, gerando nova crise que tornaria extremamente complicada a frágil a situação do “ocidente”, que ainda sofre as consequências dos problemas que começaram – justamente nos EUA – em 2008.

Finalmente, existe a questão étnica e histórica. Para consolidar sua presença nas antigas repúblicas soviéticas, Moscou criou enclaves russos nos países que, como a Ucrânia, se juntaram aos nazistas, para atacar a URSS na 2ª Guerra.

Naquele momento, o nacionalismo ucraniano, fortemente influenciado pelo fascismo, não só recebeu de braços abertos, as tropas alemãs, quando da chegada dos nazistas, mas também participou, ao lado deles, de alguns dos mais terríveis episódios do conflito.

Derrotados pelo exército soviético, na derradeira Batalha de Berlim, em 1945, os alemães sabem, por experiência própria, como pode ser pesada a pata do urso russo, quando provocado. E como podem ser implacáveis – e inesperadas – as surpresas que se ocultam no interior das matrioskas.

Mauro Santayana: O ninho da serpente

11 de março de 2014
Ucrania05_EUA

O senador John McCain e de seu lado esquerda o líder do partido neonazista ucraniano, o Svoboda, Oleh Tyahnybok.

Mauro Santayana, via Carta Capital

Há um velho ditado que reza que, toda vez que o capitalismo se vê ameaçado, ele sai para passear com o fascismo. Como um skinhead e seus pit bulls, que pode ser por eles atacado, depois de tentar prendê-los à força no canil, ao voltar para casa, bêbado drogado, a Europa mostra que não aprendeu nada com as notícias dos jornais, nem com as lições do passado.

Dirigentes europeus – e norte-americanos – tiram fotos, sorridentes, ao lado dos líderes do Partido Svoboda ucraniano, que podem ser vistos, em outras fotos, recentes, discursando em tribunas nazistas e saudando com a palma da mão levantada.

A cruz celta, símbolo da supremacia branca, as suásticas, os três dedos que lembram o tridente tradicional usado pelos neofascistas ucranianos, os raios assassinos das SS nazistas, destacam-se nas bandeiras e braçadeiras portadas pela multidão, na qual desfilam, triunfantes, membros das 22 organizações neonazistas que existem no país, que, segundo analistas locais, são muito mais radicais que o “Svoboda”.

As notícias que vem de Kiev dão conta de que há indícios de que os atiradores que mataram manifestantes durante os protestos, antes do golpe, teriam sido contratados pelos próprios neonazistas para fazê-lo. Sinagogas têm sido incendiadas nos últimos meses, professores e estudantes de Yeshivas – assim como estrangeiros e homossexuais – têm sido insultados e espancados pelas ruas. Na Ucrânia atual o antissemitismo é tão forte, que nos últimos 20 anos, depois da derrocada da União Soviética – que sempre protegeu os judeus como etnia – 80% dos 500 mil hebreus que viviam no país o abandonaram, desde 1989, em um êxodo sem precedentes no pós-guerra. Hoje, em uma população mais de 44 milhões de habitantes, há menos de 70 mil judeus ucranianos.

Se a situação é ameaçadora para a população judaica, é ainda pior para os cerca de 120 mil a 400 mil ciganos que vivem na Ucrânia, uma minoria que não conta com recursos para deixar o país, nem com um destino, como Israel, que os possa receber.

Com a desmobilização da polícia e do exército, e sua substituição por brigadas paramilitares compostas de vândalos e arruaceiros, os neonazistas têm circulado livremente pelos bairros ciganos da periferia de Kiev e de cidades do interior do país, insultando e agredindo. Impunemente, qualquer homem, mulher, criança, idoso, que encontrem pela frente.

Não é preciso lembrar que os roms, assim como os judeus, foram torturados e mortos – seis milhões de judeus e um milhão de ciganos, pelo menos – nos campos de concentração e de extermínio nazistas, a maioria deles pelas mãos de voluntários ucranianos, que serviam de “guarda” auxiliar para os alemães, em lugares como Treblinka, Auschwitz e Sobibor.

Os nazistas ucranianos não apenas forneceram assassinos e torturadores para o holocausto – e a eliminação de prisioneiros políticos e de homossexuais – mas também lutaram ao lado dos alemães, por meio da sua famigerada Legião Ucraniana de Autodefesa e da Divisão SS Galitzia, contra os russos, na Segunda Guerra Mundial.

Longe de renegar esse passado, do qual toma parte o extermínio da própria população ucraniana – em Baby Yar, uma ravina perto de Kiev, foram massacrados, com a ajuda de soldados e policiais ucranianos, 150 mil civis, entre ciganos, comunistas, e judeus ucranianos, 33.700 deles apenas nos dias 29 e 30 de setembro de 1941 – a direita ucraniana o venera e honra.

No dia primeiro de agosto de 2013, com a presença de um padre ortodoxo, dezenas de pessoas vestindo uniformes da Waffen SS, em meio a uma profusão de bandeiras ucranianas e de suásticas, se encontraram na cidade de Chervone, na Ucrânia, para honrar o “sacrifício” dos “heróis” ucranianos da Divisão SS Galitzia.

Os nazistas ucranianos não foram os únicos a combater, ao lado de Hitler, contra a União Soviética e a colaborar no extermínio de judeus e ciganos e da sua própria população.

O massacre de Odessa, também na Ucrânia, de outubro de 1941, no qual morreram 50 mil judeus, foi cometido, sob “organização” alemã, por tropas do exército romeno, um dos diversos países que participaram, como aliados do nazismo, da invasão da URSS na Segunda Guerra Mundial.

Entre elas, estavam, além da Itália, da Espanha e da Romênia, Bulgária, Hungria e Eslováquia, países não por acaso colocados – para que isso não viesse a acontecer de novo – sob a esfera de influência soviética, após o fim do conflito.

Engrossada pela deterioração do estado de bem-estar social, a crise econômica, o desemprego e a pressão migratória – criada em boa parte pela própria Europa com o incentivo ao terrível pesadelo da “Primavera Árabe” – a baba do racismo, do ódio contra os ciganos e os árabes, do antissemitismo e do anticomunismo mais arcaico e bestial, espalha-se como peste seguindo o curso de grandes rios como o Dnieper e o Danúbio, criando uma sopa densa e corrosiva, apropriada para alimentar as ovas – nunca totalmente inertes – da serpente nazista. Fruto de uma nação multiétnica, que estabelece seu passado e seu futuro na diversidade universal de sua gente, nenhum brasileiro pode ficar ao lado dos golpistas neofascistas ucranianos.

Não é possível fazê-lo, não apenas pelo senso comum de não apoiar uma gente que odeia e despreza tudo o que somos.

Mas, também, porque não podemos desonrar o sangue e a memória daqueles cujos ossos descansaram no solo sagrado de Pistoia.

De quem, em lugares como Monte Castelo e Fornovo di Taro – onde derrotamos, em um único dia, a 148 Divisão Wermacht e a Divisão Bersaglieri Itália, obtendo a rendição incondicional de dois generais e de milhares de prisioneiros – combateu, com a FEB, o bom combate.

Dos soldados e aviadores que, com a força e a determinação de 25.700 corações brasileiros, ajudaram a derrotar, naquele momento, a serpente hitleriana.

No afã de prejudicar e sitiar a Rússia, criando problemas à sua volta, em países que já a atacaram no passado, o que a UE não entendeu, ainda, é que o que está em jogo na Ucrânia não é o apenas o futuro do maior país europeu em extensão territorial, nem mesmo o de Putin, mas o da própria Europa.

Até agora, o neonazismo se ressentia de um território grande e simbólico o suficiente, do ponto de vista de uma forte ligação com o anticomunismo e com o nacional-socialismo, no passado, para servir de estuário para o ressentimento e as frustrações de um continente decadente e nostálgico das glórias perdidas, que nunca se sentiu realmente distante, ou decididamente oposto, ao fascismo.

Faltava um lugar, um santuário, onde se pudesse perseguir o mais fraco, o diferente, impunemente. Um front ideológico e militar para onde pudessem convergir – como voluntários ou simpatizantes – militantes da supremacia branca de todo o mundo.

Um laboratório para a criação de um novo estado, com leis, estrutura e ideologia semelhantes às que imperavam na Alemanha há 70 anos.

Se, como tudo indica, os neonazistas se encastelarem no poder em Kiev, por meio de eleições fraudadas, ou da consolidação de um golpe de estado desfechado contra um governante eleito, o ninho da serpente poderá renascer, agora, no conflagrado território ucraniano.

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Os jovens, o Brasil e a Ucrânia

Mauro Santayana: A arquitetura da balcanização

11 de março de 2014

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Mauro Santayana, lido no SQN

A Alemanha e os Estados Unidos querem montar um “grupo de contato” para promover “negociações”, mas, em gesto de aberta provocação, Washington envia o secretário de Estado John Kerry a Kiev, para manifestar o apoio dos EUA aos rebeldes que tomaram o poder na capital ucraniana.

Se houver combate entre as tropas que estão entrando na Crimeia para defender a população de origem russa que vive na região e se esses confrontos degenerarem em prolongada guerra civil, a responsabilidade por esse novo massacre será dos Estados Unidos e da União Europeia.

Seria inadmissível que Putin enviasse um senador para discursar diretamente aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street, em Nova Iorque, como fez John Mcain no centro de Kiev, ou que os russos promovessem em Porto Rico a prolongada campanha de desinformação e provocação que o “Ocidente” está desenvolvendo há meses na Ucrânia, empurrando a parte da população que não é de etnia russa para um conflito contra a segunda maior potência militar do planeta e a maior da região.

A Otan sabe muito bem que não poderá intervir militarmente – e atacar Moscou, que conta com milhares de ogivas atômicas, que podem atingir em minutos Berlim, Londres e Paris – para defender os manifestantes que ela jogou o tempo todo contra o governo ucraniano.

Sua intenção é levar o país ao caos, pressionando Yanukovich a tentar recuperar o poder com apoio de Putin, para depois acusá-lo – junto com o líder russo – de déspota e de genocida, e posar de defensora dos direitos humanos, da liberdade e da “democracia”.

Se conseguir alcançar seu objetivo de desestruturar o país, o “Ocidente” poderá somar os milhares de mortos, de estupros, de refugiados, e os bilhões de dólares de prejuízo da destruição da Ucrânia, a uma longa lista de crimes perpetrados nos últimos 12 anos, no contexto de sua Arquitetura da balcanização.

Inaugurada nos anos 1990, essa tática foi testada, primeiro, na eliminação da Iugoslávia e na sangrenta guerra que se seguiu, que acabou dividindo o país de Tito em Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia, e em enclaves menores como o Kosovo.

O mesmo processo de fragmentar, para dividir e dominar, destroçando o destino de milhares, milhões de idosos, mulheres e crianças, foi mais tarde repetido no Iraque e no Afeganistão, jogando etnia contra etnia, cultura contra cultura – no contexto da “Guerra contra o Terror” – montada a partir de mentiras como as “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein, que nunca existiram.

O mesmo ocorreu, depois, na Tunísia, Líbia, Egito, Iêmen, Síria, a partir do macabro engodo da “Primavera Árabe” – também insuflada, de fora, em nome da “liberdade” – que, como maior resultado, colocou em poucos meses crianças que antes frequentavam, em condições normais, os bancos escolares, para comer – sob a pena de perecer de fome – a carne de cães putrefatos, recolhida nos escombros.

O objetivo da Arquitetura da balcanização no entorno russo é gerar condições para a derrubada de regimes simpáticos a Moscou na região, promovendo o caos, a destruição, o ódio entre culturas e famílias que convivem há décadas pacificamente para obter a sua divisão em pequenos países, que possam ser mais facilmente cooptados pela Otan, com sua definitiva sujeição ao “Ocidente”.

Sua esperança é a de que, levando Moscou a intervir em antigas repúblicas soviéticas – para proteger seu status geopolítico e suas minorias étnicas – os russos se envolvam em várias guerras de desgaste, que venham a enfraquecer a Federação Russa, ameaçando a união social e territorial do país.

Ao se meter na área de influência de Moscou, insuflando protestos em países que já pertenceram à URSS, a Europa e os EUA estão – como antes já fizeram Hitler e Napoleão – cutucando o Urso com vara curta, e empurrando, insensatamente, o mundo para a beira do abismo.

A Rússia de hoje, com US$177 bilhões de superávit comercial no último ano, e o segundo maior exportador de energia do mundo – o que lhe permitiria congelar virtualmente a Europa se cortasse o fornecimento de gás nos meses de inverno – não é a mesma nação acuada que era no início da guerra de 1990, quando os norte-americanos acreditavam, arrogantes, na fantasia do “Fim da História” e em sua vitória na Guerra Fria.

A Federação Russa tem gasto muito para manter e modernizar sua capacidade de defesa e de dissuasão nuclear nos últimos anos. Putin sabe muito bem o que está em jogo na Ucrânia. E já deu mostras de que, se preciso for, irá enfrentar, pela força, o cerco da Europa e dos Estados Unidos.

Ele já provou que está disposto a levar até o fim a decisão que tomou de não se deixar confundir, em nenhuma hipótese, com uma espécie de Gorbachev do Terceiro Milênio.

Opera Mundi: Dez personalidades que marcaram 2013

1 de janeiro de 2014

Retrospectiva2013_Opera_Mundi

Presidentes e delatores de programas norte-americanos estiveram entre destaques do globo neste ano.

Via Opera Mundi

O ano de 2013 foi marcante, sobretudo no Brasil, devido às manifestações de junho e todo o embate ideológico que as cercou. A pauta – mais atuação do estado nas áreas de transporte urbano, saúde e educação – era tipicamente de esquerda, mas a direita também foi às ruas. Mas o ano, em que morreram Hugo Chavez e Nelson Mandela, também foi significativo nas relações internacionais, sendo que algumas figuras tornaram os últimos 363 dias especialmente relevantes. Vamos a elas:

1. José Mujica

O presidente do Uruguai pode festejar em 2013 duas grandes conquistas políticas: implementou a liberação do aborto e aprovou a liberação da maconha. O velho combatente tupamaro, que se dá ao respeito e vai à posse de ministro usando uma humilde sandália, coerente com o calor do verão de Montevidéu e com seu “carro oficial”, um fusca, será lembrado pelas próximas décadas pelo pioneirismo em questões comportamentais, sem ter deixado de fazer um governo também popular em outras áreas.

2. Bradley Chelsea Manning

Quando ainda atendia pelo nome de Bradley, e vivendo um inconformismo com a violência que o país que defendia como militar espalhava pelo mundo, Manning divulgou segredos que constrangeram o governo dos Estados Unidos. Após a condenação por uma corte marcial, Manning novamente demonstrou extrema coragem, ao anunciar ao mundo que sua prisão ocorreu quando estava em processo de mudança de sexo e que agora é uma mulher e se chama Chelsea. A postura firme representa um exemplo para as questões referentes aos direitos de gênero.

3. Edward Snowden

O agente da NSA revelou para o mundo uma série de documentos que mostram a capacidade gigantesca de monitoramento das redes de computadores. Ninguém que escreve uma singela mensagem no comunicador instantâneo acha que dispõe de alguma privacidade. Aliás, nem quem usa cartão de crédito ou telefone celular. A vida de todo mundo alimenta negócios e decisões estratégicas de governos. Aliás, se você está lendo este texto, saiba que gente muito poderosa pode estar sabendo.

4. Papa Francisco

Visto exteriormente, e considerando o papel que desempenhou recentemente na Argentina, Mário Jorge Bergoglio parecia ser apenas uma promessa de mais conservadorismo na Igreja Católica, ao ser escolhido papa, em março. Seu pontificado tem sido marcado, no entanto, por mudanças significativas de rumo: primeiro, o afastamento da velha guarda das instituições financeiras católicas; segundo, o diálogo permanente com nomes da teologia da libertação, até então perseguida pelo antecessor, Bento 16; terceiro, por declarações no cenário internacional – como a crítica à possível ação militar na Síria – que contrastam com a postura anterior de suposta neutralidade do Vaticano. Uma das máximas mais famosas do Barão de Itararé é: de onde menos se espera… é de lá que não vem nada mesmo. Será que Francisco vai contrariá-la?

5. Nicolas Maduro

Nenhum governante foi colocado tanto em xeque como o atual presidente da Venezuela em 2013. Com a morte do popularíssimo Hugo Chavez, Maduro teve, primeiro, de confirmar seu papel de vice-presidente e assumir o cargo; segundo, de enfrentar e vencer uma dura eleição presidencial. Contra a escalada dos preços, promoveu um congelamento. Encarou outra votação, para a prefeitura dos municípios. Venceu de novo. Não vai ter um 2014 fácil, mas saiu vitorioso de um ano particularmente espinhoso.

6. Michelle Bachelet

Michele Bachelet, no Chile, pôs fim aos quatro anos de impopularidade de Sebastian Piñera, com a complexa missão de criar um ensino público gratuito e de qualidade, contrariando o atual governo, que transformou esse direito em negócio – e quebrou gerações de famílias. Terá quatro anos para fazer um governo realmente reformador.

7. Ana Paula Maciel

A ação da brasileira Ana Paula Maciel, que subiu na plataforma de petróleo russa junto com uma centena de ativistas ambientais ligados ao Greenpeace (assim como a do militante José Bové quando Jacques Chirac presidia a França que fazia testes nucleares no Pacífico), manteve a questão ecológica em pauta no cenário internacional. A crise mundial, que se arrasta desde 2008, e o método de fissura hidráulica para a prospecção de xisto nos EUA tornam cada vez mais esquecidas as questões do aquecimento global e a da substituição das fontes de energia fósseis. Mas esse é um assunto que não nos abandonará tão cedo.

Leia também: Cuidado com a ativista Ana Paula. Ela é contra o pré-sal

8. Vladimir Putin

Ele ofereceu uma saída a Bashar Al-Assad, aproximou-se do papa Francisco, viu o ano se encerrar com a liberação das garotas da banda Pussy Riot e dos ativistas do Greenpeace. O presidente russo liderou em muitos momentos a diplomacia internacional e por pouco não conseguiu vender caças ao Brasil. Dentro de casa, no entanto, de olho no eleitorado conservador, fez feio, alimentando perigosos fantasmas da homofobia na Rússia.

9. Bashar Al-Assad

Quando a Primavera Árabe parecia varrer todo o Oriente Médio, Bashar Al-Assad era visto só como mais um presidente a ser derrubado. Assad resistiu a rebeldes financiados pelos Estados Unidos, muitas vezes promovendo massacres, num país em que alianças étnicas e religiosas dificultam leituras tradicionais. Acusado em 2013 de usar armas químicas, o que parecia ser o golpe fatal e a abertura definitiva para um ataque dos EUA e/ou de Israel, Assad baixou a guarda da diplomacia e aceitou a oferta de destruir seu arsenal de armas não convencionais. Numa situação para lá de delicada, conseguiu safar-se e paralisar, pelo menos momentaneamente, seus inimigos internacionais.

10. George Clooney

A situação do Sudão do Sul mostra que o apoio a causas independentistas é algo mais sério do que fazer comercial de café expresso. De boas intenções de celebridades, os conflitos sanguinários estão cheios.


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