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As taras de Ali Kamel, o todo-poderoso da TV Globo

17 de janeiro de 2013
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Ali Kamel, estrela pornô.

Miguel do Rosário em seu O Cafezinho

Lembro-me como se fosse ontem quando o Cloaca fez uma descoberta incrível. Havia um Ali Kamel na década de 1980 que protagonizara filmes pornográficos, entre eles o clássico, O solar das taras proibidas. Além de ser homônimo do todo-poderoso diretor de jornalismo das Organizações Globo, ele era absolutamente igual! Mesmo rosto, mesmo tom de pele, mesmo formato de cabeça. E a juventude do ator batia com a idade atual do jornalista.

O Cloaca publicou o post com o vídeo, sem mais comentários, sem sequer mencionar o Ali Kamel da Globo. Era uma piada pronta. Uma piada inocente, mas poderosa e engraçadíssima, por razões que me recuso a dar, porque são óbvias, numerosas, e fazê-lo equivaleria a escrever uma tese sobre as piadas de português. Posso ser um blogueiro meio prolixo. Não quero também ser um chato de galochas!

Algo tão engraçado naturalmente logo se espalhou pela internet. Virou uma espécie de “meme” da blogosfera. E agora eu fico sabendo que, anos depois, o nosso querido blogueiro Rodrigo Vianna, responsável pelo blog O Escrevinhador, é condenado pela justiça a pagar uma indenização a Ali Kamel por danos morais. Razão: Vianna teria difamado Ali Kamel ao publicar em seu blog que este trabalhara em filmes “adultos” na juventude.

Ali Kamel pode acusar quem quiser, mas a Justiça aceitar tal disparate, e condenar Vianna por causa de um chiste de humor totalmente inocente como este, me parece uma perseguição política (não muito) velada. Mais que isso, parece um ataque hediondo ao humor político e à liberdade de expressão.

Mais uma vez, vemos a Justiça desempenhando o triste papel de empregadinha dos poderosos. Ali Kamel mostrou-se indigno de ser comparado a um profissional da indústria pornográfica. O Ali Kamel do filme “adulto” é que deveria nos processar por compará-lo a um sacripanta.

É inacreditável que o diretor de jornalismo da empresa que comete todo o tipo de abuso contra a democracia, contra a dignidade humana, a empresa que se empenha dia e noite para denegrir a imagem do Brasil, aqui e no exterior, cujos métodos de jornalismo fazem os crimes de Ruport Murdoch parecerem estripulias de uma criança mimada, pretenda processar um blogueiro por causa de um chiste!

Entendo que todos nós blogueiros devemos ser extremamente prudentes quando acusamos uma pessoa. Se Rodrigo tivesse acusado Kamel – sem provas – de surrupiar iPads do escritório da Globo, eu acharia justo que fosse condenado por danos morais. Não é o caso. A condenação não é apenas injusta, é insensata, arbitrária e antidemocrática. Espero, pelo bem da fé que tenho na justiça, que seja revertida. Vianna já avisou que irá recorrer, o que faz muito bem.

O problema é que tudo isso implica altas despesas advocatícias, as quais constituem uma espécie de penalidade.

Vianna tem toda a solidariedade do Cafezinho [e do Limpinho também]. Mais ainda. O episódio deveria incentivar os blogueiros progressistas a se organizarem numa espécie de associação, para se defender de ataques sórdidos como esse. Uma associação também facilitaria a obtenção de contratos de publicidade e patrocínio, pois se um blog oferece pequena quantidade de visitas, 200 blogs podem oferecer 200 vezes mais. Farei um post amadurecendo melhor a ideia.

Enquanto pensam no assunto, relaxem assistindo à ardente performance de nosso querido Ali Kamel! O verdadeiro, o ator; não o sacripanta reacionário e golpista.

Venezuela: Muito longe da mídia “técnica”

10 de janeiro de 2013
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Mário Silva faz o contraponto, na tevê, à mídia comercial.

Rodrigo Vianna em seu O Escrevinhador

“Vampiros! Miseráveis!”, esbraveja o homem de meia-idade que aparece na tevê em mangas de camisa e com um boné vermelho. Não é um manifestante na rua. Trata-se de um dos mais importantes líderes do chavismo. Ele fala em rede nacional. Os “vampiros” são os líderes da oposição. E o homem que fala alto na tevê é Jorge Rodriguez, ex-alcaide (espécie de governador) de Caracas.

Rodriguez responde aos líderes da oposição, que transformam a doença de Chavez em mote político. O líder da oposição devolve: chama Nicolas Maduro (o vice que comanda o governo, na ausência do presidente) de “usurpador.

Estou há cinco dias na Venezuela, onde acompanho para a TV Record a crise provocada pela doença de Chavez, e pela impossibilidade de o presidente (eleito para mais um mandato) tomar posse nessa quinta-feira.

É a terceira vez que venho a Caracas. E sempre me impressiono com o grau de politização e de acirramento nos debates. Aquilo que no Brasil nós só vemos nos blogs – a pancadaria verbal e o debate duro quase sempre ficam restritos à internet –, aqui na Venezuela se dá nas ruas e nas telas da tevê aberta.

Caminho pelo centro de Caracas, acompanhado pelo cinegrafista Josias Erdei. Um militante chavista nos observa, e provoca: “Olha aí mais dois mercenários da informação, manipulando as notícias sobre a Venezuela.” Paro pra conversar. O discurso é agressivo, mas eles são simpáticos quando percebem que somos do Brasil; “Lula, Lula, grande companheiro…” Explico minhas opiniões pessoais, e o chavista se acalma um pouco. Ainda assim, completa: “Nosso companheiro Mário Silva explica muito bem como funcionam os meios de comunicação internacionais.”

À noite, vejo Mário Silva na tela da VTV (a tevê estatal). É pau puro. Ele usa a tribuna na tevê para criticar o noticiário dos canais privados – a “matriz informativa que tentam impor ao povo”, como dizem os chavistas. Isso é o interessante. Mário Silva é um apresentador com barba por fazer, agressivo, e que fala em socialismo às 11 da noite na tevê. Ele tem um público amplíssimo. O chavismo politiza o povo.

Termina o programa de Mário Silva e entra um rapaz mais jovem, com roupa e visual mais modernos. Na tela, ao fundo do estúdio, aparecem manchetes da imprensa internacional. O jovem apresentador, numa linguagem leve e provocadora, analisa como as redes sociais e os sites dão notícias sobre a Venezuela. Analisa, pontua, critica. É uma espécie de contrapauta. Aquilo que tentamos fazer nos blogs, aqui na Venezuela se faz na tevê aberta, em horário nobre.

Ah, dirão alguns: a correlação de forças na Venezuela é outra. Claro. Mas a correlação é outra, também, porque o chavismo não fugiu dessa questão central: a comunicação. A mãe de todas as batalhas.

Programas como os que vejo na VTV põem a nu a produção jornalística clássica. O jornalismo deixa de ser visto pelo grande público como o detentor da “verdade”, e passa a ser compreendido como aquilo que realmente é: uma arena onde se disputam ideias, valores.

Apresentadores e programas desse tipo no Brasil fariam Merval Pereira e Otavinho, de um lado, e a turma da “mídia técnica” do governo Dilma, de outro, terem um ataque apoplético.

Mídia “técnica”, sei. O chavismo não acredita nessa bobagem.

Na Inglaterra se investiga crimes de imprensa; se ocorre o mesmo no Brasil, é revanchismo

27 de novembro de 2012

Rodrigo Vianna em seu O Escrevinhador

O escândalo percorre as páginas de jornais, revistas e sites ligados à velha mídia brasileira: o relator (um deputado petista) da CPI do Cachoeira teve o desplante de pedir indiciamento de jornalistas que teriam ligação com o bicheiro: dentre eles, Policarpo Jr., da revista Veja.

O País, as liberdades e a democracia estão em risco! Isso é coisa dos “radicais” do PT – e, por acaso, ainda os há? –, inimigos da imprensa “independente”.

Sim, sim… É preciso explicar melhor a público tão dileto: colunistas, editorialistas, comentaristas de rádio e tevê dizem que se trata de “revanchismo” do PT.

Hoje mesmo, pela manhã, ouvi numa rádio paulistana um veterano jornalista estrebuchando de raiva: “Nesses partidos de esquerda há muita gente revanchista.” Ele não quer um colega investigado… Aliás, no mesmo comentário apoplético, berrava também o veterano contra “esse blá-blá-blá” de lembrar a superação do racismo no Brasil, toda vez que se fala em Joaquim Barbosa. Menos mal que tenha sido prontamente apartado por outro comentarista, bem mais jovem: “Há racismo, sim, basta olhar em volta, existem quantos negros trabalhando com você?”; e disse, ainda, o jovem comentarista: “Tem muito revanchista de direita também.”

Hum… Onde estão os revanchistas? Aqueles que perderam três eleições presidenciais, perderam a batalha das cotas raciais e não conseguiram convencer o País que Bolsa-Família era “bolsa-esmola”? Esses seriam os revanchistas? Usam a velha mídia e a tribuna do Judiciário para a revanche? É o que lhes resta, diria dona Judith Brito, dirigente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), ao lembrar já em 2010 que, dada a fragilidade dos partidos de oposição, a imprensa se transformava oficialmente em oposição – esquecendo-se, ela, do papel que o Judiciário também poderia gostosamente encenar, como vemos agora.

Curiosa guerra de palavras. Não tínhamos ingressado numa “nova fase” do País, depois do julgamento do “mensalão”? Agora, não haveria mais lugar para proteger poderosos! Agora, as instituições mostravam força para punir “poderosos”! Certo?

Mais ou menos. Jornalistas não podem ser, sequer, investigados. Banqueiros não podem ser algemados – lembram? era “estado policial”? – e tucano não deve ser investigado de forma muito enfática (seria de mau gosto…). O procurador-geral que sentou em cima da investigação do caso Cachoeira também não pode ser fustigado. Não! Tudo isso seria “revanchismo”, bradam os colunistas e comentaristas.

Vamos combinar, então, as regras nesse novo país, refundado após o “mensalão”:

● investigar e punir petistas, sindicalistas, partidos de esquerda em geral = combate à impunidade;

● investigar e punir tucanos, jornalistas e procuradores/juízes = revanchismo.

Quanto a empresários e banqueiros, analisemos caso a caso. Dependendo de quem estiver ao lado deles em ações judiciais ou investigações, pode se tratar de “revanchismo” ou “combate à impunidade”. Separemos o joio do trigo. Com rigor.

Só assim, conseguiremos fazer do velho Brasil um novo país!

Na caquética Inglaterra – como se sabe, um país dominado por bolivarianos revanchistas –, jornalista e imprensa podem – sim! – ser investigados. Mais que isso, na Inglaterra – país dominado por petistas mensaleiros e inimigos da imprensa livre –, ninguém acha estranho que a imprensa seja regulamentada. Sim. É o que se discute, lá, depois do escândalo estrelado por Robert Murdoch. Leia aqui, no texto do Portal Imprensa.

O título da matéria: “Após escândalo das escutas, primeiro-ministro terá de decidir destino da imprensa britânica”. Chavez e Cristina Kirchner chegaram a Londres? Não. É apenas o óbvio. A Inglaterra sabe que a mídia é poderosa demais para ser mantida como “poder autônomo” – sem nenhum tipo de regulação.

Aqui no Brasil, nossos Roberts, Marinhos, Mervais e outros que tais acham-se acima da lei. Berram, esperneiam, seguem a agir como velhos patronos da casa-grande midiática.

O “novo Brasil pós-mensalão” cheira a naftalina.

Golpe contra Lugo: Paraguai é o elo mais fraco?

22 de junho de 2012

“Os puros” têm de ler esse texto. Não basta apenas ganhar as eleições nas urnas para governar. É preciso ter apoios políticos. Seja ele qual for, caso contrário um golpe é eminente.

Rodrigo Vianna em seu O Escrevinhador

Em 1917, quando a revolução explodiu na Rússia, os marxistas encontraram uma explicação rápida para o fato de o movimento comunista não ter surgido com mais força nos países centrais do capitalismo (como se depreendia que deveria ocorrer, pelas teorias de Marx): a terra do czar era “o elo mais fraco da cadeia”.

Nos anos de 1960, de certa forma, foi isso também o que levou Guevara a fazer guerrilha na Bolívia, em busca de outros vietnãs mundo afora. O país andino era um Estado (aparentemente) fragilizado, sem a força de uma burguesia brasileira ou argentina, sem a coesão política de Colômbia e Venezuela. Além disso, o povo boliviano tinha tradição de luta – como já se fizera notar nos anos 50 do século 20. Guevara terminou cercado e morto, porque o “frágil” Estado boliviano teve apoio dos EUA no combate ao foco guerrilheiro. Não funcionou na Bolívia a ideia do “elo mais fraco”.

Mas a direita parece ter aprendido com isso.

Frente ao movimento contínuo de governos à esquerda, eleitos nos últimos 15 anos na América do Sul, e mesmo na América Central, os setores conservadores – com apoio aparente dos serviços de inteligência dos EUA – passaram a atuar para derrubar, justamente, os “elos mais fracos”.

Fizeram isso depois de perceber que atacar Chavez – como se tentou em 2002 – poderia gerar uma reação ainda mais perigosa no continente. Primeiro, atuaram em Honduras. Lá, um presidente de origem conservadora, virara aliado tardio da esquerda bolivariana. Mas faltava coesão e mobilização social à base de apoio de Zalaya. A direita deu o golpe, com aparência de legalidade. O presidente foi tirado de pijama de casa e deportado. Os EUA prontamente “reconheceram” o novo governo. E Honduras entrou depois numa espiral de violência, em que o Estado foi retomado pelas forças mais conservadoras.

Agora, o “elo mais fraco” é o Paraguai. Lugo chegou ao poder sem maioria no Congresso – alô rapaziada que torce o nariz para as alianças de Lula e Dilma; sem aliança, Lula teria virado um Lugo em 2005 –, desgastou-se pessoalmente com escândalos sexuais. E a base social de seu governo – apesar de ter algum peso – parece ser a mais fraca do subcontinente, na comparação com Argentina, Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil e Uruguai.

Há alguns anos, pessoas da minha família que moram em Assunção já haviam relatado o estranhamento geral no Paraguai com o tal EPP (uma guerrilha “misteriosa”, surgida em províncias de tradição agrária e que passou a atuar e espalhar o ‘terror” entre fazendeiros, justamente no governo Lugo). A mídia paraguaia tenta associar o EPP aos movimentos sociais históricos, que deram e dão apoio a Lugo. Cria-se assim uma gelatina confusa de “subversão” e ameaça à propriedade. Lugo seria associado a essa gelatina, essa é a base para o golpe parlamentar em curso.

Lugo é acusado – especificamente – de inação pelo confronto entre militantes sem-terra e a polícia, há poucos dias. Houve várias mortes. O confronto, registrado em imagens ricas e abundantemente distribuídas mundo afora, pode não ter sido “armado”. Não tenho provas para afirmar coisa parecida. Mas não me cheira bem. Sabemos que a CIA segue a atuar. O WikiLeaks revela como opera a rede de informações (com apoio na mídia, inclusive brasileira, que tenta reverter a “onda vermelha” na América do Sul). É fato que, à direita paraguaia, interessava sobremaneira ter um ou vários cadáveres à mão – para colocar na conta de Lugo. Como se o presidente, e não a histórica concentração de terras no país vizinho, fosse o culpado pelos confrontos agrários e a instabilidade no campo.

Um ex-bispo, acusado ao mesmo tempo de subversão e de traição ao princípio católico do celibato, parece ser o “elo mais fraco” perfeito para uma direita acuada na América do Sul.

O libelo acusatório contra Lugo é uma piada, parece escrito pelo professor Hariovaldo. Mas na Venezuela, em 2002, os discursos dos golpistas também pareciam uma piada. E, se não fosse a reação popular, Chavez estaria exilado ou morto.

Resta saber se Lugo terá a grandeza e a firmeza de Chavez. E mais que isso: se contará com apoio popular efetivo para reverter o golpe “hondurenho” desfechado pelo Parlamento. Apoio diplomático ele tem. A Unasul está com Lugo. Mas Zelaya também teve todo esse apoio. E perdeu.

Do outro lado há o peso histórico da direita, que dialoga diretamente com Washington, na tentativa de iniciar a reversão da onda vermelha na América do Sul.

O Paraguai será o elo mais fraco a se romper? Ou a direita morrerá cercada no Parlamento – feito Guevara no interior boliviano? É a história que se escreverá nas ruas de Assunção e no interior do país vizinho.


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