Posts Tagged ‘Rio Grande do Norte’

O desembargador, o garçom, o bom samaritano e a justiça no Brasil

6 de janeiro de 2014
Dilermando_Motta01_Desembargador

“Sabe com quem você está falando?”: O desembargador que humilhou o garçom.

Paulo Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

A miséria e a grandeza humana se encontraram numa padaria de Natal neste final de ano. A miséria foi representada pelo desembargador Dilermando Motta; e a grandeza pelo cidadão Alexandre Azevedo. Um garçom foi o palco involuntário do combate entre a grandeza e a miséria.

Segundo os relatos, o desembargador pegou o garçom pelos ombros aos gritos e o mandou tratá-lo como “excelência”. Ameaçou “quebrar a cara” do garçom. O motivo: o garçom não colocara gelo em seu copo.

Alexandre reagiu, e isto está registrado num vídeo que está sendo intensamente visto e compartilhado na internet.

Numa nota sobre o caso, Alexandre citou Darcy Ribeiro. “Ele dizia que só há duas opções na vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

O desembargador chamou a polícia na padaria, depois de dizer que Alexandre seria preso imediatamente. Quatro viaturas logo acudiram. Mas, feitas perguntas aos presentes, ninguém foi preso. Evangélico fervoroso, Motta, como você pode observar no vídeo, berrava palavras como “endemoniado” e “endiabrado” ao bom samaritano que tomara a defesa do garçom.

“Bando de cagão”, disse o desembargador aos policiais segundo Alexandre. Um novo vídeo capta o momento em que Motta ofende os policiais. Nele, a voz de uma mulher corrobora a versão de Alexandre. “Todo mundo é testemunha”, diz ela à polícia.

Numa entrevista posterior ao caso, Alexandre disse que Motta estava armado, e manifestou preocupação com eventuais de um “homem poderoso”.

Num mundo menos imperfeito, uma prisão teria sido feita: a do desembargador, por abuso de autoridade.

Num mundo menos imperfeito, o caso teria conquistado repercussão nacional na mídia. Mas a mídia brasileira não dá voz aos desvalidos, aos humilhados e ofendidos. Eles são nossos irmãos invisíveis.

Na Inglaterra, em 2012, ocorreu um episódio de certa forma assemelhado. Um alto funcionário da equipe do premiê David Cameron foi acusado de chamar de “plebeus” os policiais que não o deixaram sair de bicicleta pelo portão principal de Downing Street, a sede do governo. Os policiais pediram que ele usasse a saída dos pedestres.

Foi uma comoção nacional. A mídia chamou o caso de “Plebgate”. Em pouco tempo, o acusado perdera o emprego depois de já haver perdido a reputação.

Na Escandinávia vigora um código – a Janteloven, leis de Jante, cidade fictícia que moldou a cultura igualitária da região – segundo o qual ninguém é melhor – nem pior – que ninguém por força de cargo e dinheiro. O infame comentário de Boris Casoy sobre os lixeiros o teria transformado imediatamente num pária social se tivesse sido proferido na Escandinávia.

No Brasil, a reação ao comportamento do desembargador se restringiu essencialmente às redes sociais, o que mostra o divórcio entre a mídia e a realidade dos brasileiros.

No começo deste ano, a única vítima do episódio era o garçom. Ele foi afastado por estar com problemas psicológicos, segundo a padaria. Foi colocado em “férias”.

O desembargador, numa nota, afirmou que está tomando as “providências cabíveis”. Ora, o mínimo “cabível” era um pedido honesto de desculpas ao garçom e às pessoas da padaria que tiveram de aturar sua arrogância violenta.

Não poderia haver retrato melhor da justiça brasileira e nem da mídia, que só dá voz a quem já a tem em alta escala. A internet faz seu papel: reage ao abuso e, como Alexandre, defende vigorosamente o garçom.

No momento em que escrevo, nem um único repórter fora convocado para ouvir a história do garçom. Ninguém fora a sua casa, que podemos bem imaginar como seja.

Nenhuma autoridade – federal, estadual, municipal – se pronunciara em favor dele. E o desembargador viverá em 2014 como sempre viveu, sabedor dos poderes que o cargo lhe dá.

***

Pivô de confusão com desembargador, garçom é afastado do trabalho

Danilo Sá

O garçom que teria sido humilhado por um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte foi afastado do trabalho e passou por consultas com psicólogos após a confusão.

Segundo a administração da padaria Mercatto, que fica na zona sul de Natal, o funcionário trabalha na empresa desde a sua fundação e ficou “muito abalado” pelo episódio registrado na manhã do último dia 29.

O desembargador Dilermando Motta está sendo acusado de ter humilhado o garçom, antes de se envolver em discussão com outro cliente da padaria, o empresário Alexandre Azevedo.

O bate-boca foi filmado por clientes da padaria e as imagens foram parar na internet. Um dos vídeos já superava 210 mil visualizações na sexta-feira, dia 3.

Segundo Azevedo, que estava em mesa ao lado de Motta, o desembargador se irritou porque o garçom não colocou gelo em seu copo e gritou com o funcionário na frente dos demais clientes.

“Não satisfeito com esse escândalo, este senhor [Motta] puxou o garçom pelo ombro e exigiu que lhe olhasse nos olhos e o tratasse como excelência, e disse que deveria ‘quebrar o copo em sua cara’”, afirmou Azevedo em nota divulgada após o episódio.

O empresário disse ter decidido intervir em defesa do garçom. Nos vídeos, ele aparece gritando com o desembargador, a quem chama de “safado” e “sem-vergonha”. O magistrado revida e se refere a Azevedo como “cabra safado” e “endemoniado”.

O dono da padaria, Adelino Marinho, disse que a empresa deu total apoio ao garçom e optou por conceder férias ao funcionário após o caso.

PF estoura caixa 2 do DEM, mas Gurgel engavetou

23 de dezembro de 2013

DEM_Quadrilha02_Gurgel

Via Brasil 247

A chegada da edição de Natal da revista IstoÉ às bancas não traz notícias boas para o DEM, principalmente para a governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini, e ao presidente do partido, Agripino Maia. Ambos estão sendo investigados pelo Ministério Público Federal por caixa 2 durante a campanha eleitoral de 2006. Em umas das escutas telefônicas, Maia surge questionando a um interlocutor se a parcela de R$20 mil – em um total de R$60 mil prometidos a determinado aliado – foi repassada. A sequência das ligações revela que não era uma transição convencional. Segundo a investigação do MP, contas pessoais de assessores da campanha eram utilizadas para receber e transferir depósitos não declarados de doadores. A reportagem da revista IstoÉ é assinada pelo jornalista Josie Jeronimo.

A denúncia foi encaminhada à Procuradoria Geral da República em 2009, durante a gestão de Roberto Gurgel, mas só agora, sob a batuta do procurador-geral Rodrigo Janot será investigada. O caso entra no alvo do MPF num momento complicado para a governadora Rosalba Ciarlini, que já teve seu mandato suspenso pelo TRE, por uso da estrutura governamental em 2012 para beneficiar uma aliada que era candidata a prefeita. Rosalba permanece no cargo por força de uma liminar.

Confira matéria na íntegra:

Agripino_Maia05

Caixa 2 democrata

Ministério Público Federal investiga esquema envolvendo a governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini, e o presidente do DEM, Agripino Maia. Escutas telefônicas revelam transações financeiras ilegais durante campanha

Josie Jeronimo

Pequenino em área territorial, o Rio Grande do Norte empata em arrecadação tributária com o Maranhão, Estado seis vezes maior. Mas, apesar da abundância de receitas vindas do turismo e da indústria, a administração do governo potiguar está em posição de xeque. Sem dinheiro para pagar nem mesmo os salários do funcionalismo, a governadora Rosalba Ciarlini (DEM) responde processo de impeachment e permanece no cargo por força de liminar. Sua situação pode se deteriorar ainda mais nos próximos dias.

O Ministério Público Federal desarquivou investigação iniciada no Rio Grande do Norte que envolve a cúpula do DEM na denúncia de um intrincado esquema de caixa 2. Todo o modus operandi das transações financeiras à margem da prestação de contas eleitorais foi registrado em escutas telefônicas feitas durante a campanha de 2006, às quais IstoÉ teve acesso. A partir do monitoramento das conversas de Francisco Galbi Saldanha, contador da legenda, figurões da política nacional como o presidente do DEM, senador José Agripino, e Rosalba foram flagrados.

A voz inconfundível de José Agripino surge inconteste em uma das conversas interceptadas. Ele pergunta ao interlocutor se a parcela de R$20 mil – em um total de R$60 mil prometidos a determinado aliado – foi repassada. A sequência das ligações revela que não era uma transição convencional. Segundo a investigação do MP, contas pessoais de assessores da campanha eram utilizadas para receber e transferir depósitos não declarados de doadores. Uma das escutas mostra que até mesmo Galbi reclamava de ser usado para as transações. Ele se queixa: “Fizeram uma coisa que eu até não concordei, depositaram na minha conta”.

Galbi continua sendo homem de confiança do partido no Estado. Ele ocupa cargo de secretário-adjunto da Casa Civil do governo. Em 2006, o contador foi colocado sob grampo pela Polícia Civil, pois era suspeito de um crime de homicídio. O faz-tudo nunca foi processado pela morte de ninguém, mas uma série de interlocutores gravados a partir de seu telefone detalharam o esquema de caixa 2 de campanha informando número de contas bancárias de pessoas físicas e relatando formas de emitir notas frias para justificar gastos eleitorais.

Nas gravações que envolvem Rosalba, o marido da governadora, Carlos Augusto, liga para Galbi e informa que usará de outra pessoa para receber doação para a mulher, então candidata ao Senado. “Esse dinheiro é apenas para passar na conta dele. Quando entrar, aí a gente vê como é que sai para voltar para Rosalba.” O advogado da governadora, Felipe Cortez, evita entrar na discussão sobre o conteúdo das escutas e não questiona a culpa de sua cliente. Ele questiona a legalidade dos grampos. “Os grampos por si só não provam nada. O caixa 2 não existiu. As conversas tratavam de assuntos financeiros, não necessariamente de caixa 2”, diz o advogado de Rosalba.

Procurado por IstoÉ, o senador José Agripino não nega que a voz gravada seja dele. No entanto, o presidente do DEM afirma que as conversas não provam crime eleitoral. “O único registro de conversas do senador José Agripino refere-se à concessão de doação legal do partido para a campanha de dois deputados estaduais do RN”, argumenta.

No Rio Grande do Norte, José Agripino é admirado e temido por seu talento em captar recursos eleitorais. Até mesmo os adversários pensam duas vezes antes de enfrentar o senador com palavras. Mas o poderio econômico do presidente do DEM também está na mira das investigações sobre o abastecimento das campanhas do partido. A Polícia Federal apura denúncia de favorecimento ao governo em contratos milionários com a Empresa Industrial Técnica (EIT), firma da qual José Agripino foi sócio cotista até agosto de 2008. Nas eleições de 2010, o senador recebeu R$550 mil de doação da empreiteira. Empresa privada, a EIT é o terceiro maior destino de recursos do Estado nas mãos de Rosalba. Perde apenas para a Folha de pagamento e para crédito consignado. Só este ano foram R$153,7 milhões em empenhos do governo, das secretarias de Infraestrutura, Estradas e Rodagem e Meio Ambiente. Na crise de pagamento de fornecedores do governo Rosalba, que atingiu o salário dos servidores e os gastos com a Saúde, a população foi às ruas questionar o porquê de o governo afirmar que não tinha dinheiro para as despesas básicas, mas gastava milhões nas obras do Contorno de Mossoró, empreendimento tocado pela EIT.

Edvaldo_Fagundes01

De acordo com a investigação do MPF, recursos do governo do Estado saíam dos cofres públicos para empresas que financiam campanhas do DEM por meio de um esquema de concessão de incentivos fiscais e sonegação de tributo, que contava com empresas de fachada e firmas em nome de laranjas. O esquema de caixa 2 tem, segundo o MP, seu “homem da mala”. O autor do drible ao fisco é o empresário Edvaldo Fagundes, que a partir do pequeno estabelecimento “Sucata do Edvaldo” construiu, em duas décadas, patrimônio bilionário. No rastreamento financeiro da Receita Federal, a PF identificou fraude de sonegação estimada em R$430 milhões.

O empresário é acusado de não pagar tributos, mas investe pesado na campanha do partido. Nas eleições de 2012, Edvaldo Fagundes não só vestiu a camisa do partido como pintou um de seus helicópteros com o número da sigla. A aeronave ficou à disposição da candidata Cláudia Regina (DEM), pupila do senador José Agripino. Empresas de Edvaldo, que a Polícia Federal descobriu serem de fachada, doaram oficialmente mais de R$400 mil à campanha da candidata do DEM. Mas investigação do Ministério Público apontou que pelo menos outros R$2 milhões deixaram as contas de Edvaldo rumo ao comitê financeiro da legenda por meio de caixa 2.

Preconceito: Jornalista diz que médicas cubanas parecem “empregadas domésticas”

27 de agosto de 2013

Cuba_Medicos35_Twitter

“Será que são médicas mesmo?”, questiona Micheline Borges no Facebook. Após mais de 5 mil compartilhamentos, ela excluiu a conta na rede social.

Via Portal G1

A declaração de uma jornalista do Rio Grande do Norte sobre a aparência das médicas cubanas que chegaram ao Brasil para trabalhar no Programa Mais Médicos gerou polêmica nas redes sociais na terça-feira, dia 27. A jornalista Micheline Borges publicou que as médicas têm cara de “empregada doméstica” e questiona se as mulheres são mesmo profissionais da saúde. “Será que são médicas mesmo?”, contesta. Ela excluiu a conta na rede social após a repercussão da mensagem, que gerou mais de cinco mil compartilhamentos até as 16 horas da terça.

“Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma Cara de empregada doméstica. Será que São médicas Mesmo? Afe que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência…Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? Febre amarela? Deus proteja O nosso povo! (sic)”, diz a mensagem postada durante a manhã.

Ao G1, a jornalista pediu desculpas aos que se sentiram ofendidos e afirmou ter sido mal interpretada. “Foi um comentário infeliz, só gostaria de pedir desculpas, fiquei muito angustiada. Ganhou uma proporção muito grande nas redes sociais, onde as pessoas interpretam do jeito que querem. Não tenho preconceito com ninguém, não quis atingir ninguém, nem ferir a imagem nem a profissão de ninguém”, declarou.

Justiça

O diretor do Sindicato das Empregadas Domésticas do Rio Grande do Norte, Israel Fernandes, informou que vai analisar a possibilidade de entrar na Justiça contra a jornalista. “Isso é um absurdo. Em pleno século 21 uma pessoa ainda ter esse tipo de pensamento. Não acredito que essa moça seja jornalista mesmo. É racismo, discriminação, é crime. Vou me reunir com os demais membros do sindicato para analisar a possibilidade de entrar na Justiça. Ela vai responder por esses crimes”.

***

Leia também:

Vídeo: O dia que os médicos brasileiros envergonharam o País

Dez informações sobre a saúde e a medicina em Cuba

Médicos cubanos: Como se desmonta uma farsa de jaleco

Médicos cubanos: Os primeiros já chegaram ao Brasil

Médicos de Cuba, bienvenidos camaradas!

Vinda de médicos cubanos reforça ódio ideológico ao PT

Mais de 70% dos médicos cubanos vão para o Norte e Nordeste

Mais Médicos: Alheias ao embate ideológico, pequenas cidades comemoram vinda de médicos cubanos

Paulo Moreira Leite: O extremismo dos doutores

Eliane Brum: Ser doutor é mais fácil do que se tornar médico

Breno Altman: Conservadorismo de branco é atraso

Médico que diz que estrangeiros são enganação tem dois filhos “importados” de Cuba

Programa Mais Médicos, o Bolsa Família da saúde

***

Método Paulo Freire de alfabetização completa 50 anos

4 de junho de 2013

Paulo_Freire_Educador03

Há 50 anos, Paulo Freire dava início a seu projeto de alfabetizar 300 alunos de Angicos (RN) em 40 horas.

Via O Globo

Era um dia como outro qualquer, em 1963, quando os pais de dona Maria Eneide de Araújo Melo ouviram correr na cidade de Angicos, a 171 quilômetros de Natal, no Rio Grande do Norte, a notícia de que, ali, os adultos poderiam aprender a ler e escrever em apenas 40 horas. Era a oportunidade para quem, quase aos 30 anos, sequer sabia quantas letras eram necessárias para riscar o próprio nome. Analfabetos, como 40% da população brasileira adulta daquela época, Severino de Araújo e Francisca de Andrade Araújo pensaram: Por que não tentar? Em 18 de janeiro de 1963, o educador Paulo Freire deu início à primeira turma em que aplicaria seu método. Severino e Francisca estavam em um dos círculos de cultura, que contavam com até 15 alunos.

Quatro meses depois, o País tinha menos 300 analfabetos, graças ao trabalho conhecido como as 40 horas de Angicos que completa agora seus 50 anos. Sem ter com quem deixar a filha, Severino e Francisca levavam Maria Eneide, então com 6 anos, para as aulas. Mesmo sem ser o público-alvo do projeto, a pequena aprendeu a ler e a escrever. Antes de morrer, os pais, analfabetos até a vida adulta, viram, com orgulho, a filha virar professora.

Depois de aprender a ler e a escrever, eles fizeram questão de fazer outra identidade, em que pudessem assinar. Mesmo sendo uma aula de alfabetização, os professores incentivavam os alunos a tirarem os documentos e a conhecerem seus direitos disse Maria Eneide, que hoje tem 56 anos.

Inédito, o projeto rompeu os conceitos de alfabetização da época. Primeiro, porque se baseava na experiência de vida das pessoas. Segundo, porque um dos objetivos era dar ao aluno um espírito crítico sobre o papel do homem no mundo as duas primeiras aulas eram apenas sobre cultura. Terceiro, porque não existiam cartilhas, com lições programadas. Paulo Freire repudiava o uso do material que, segundo ele, pouco tinha a ver com a realidade do aluno.

Ele dizia que eram palavras e uma metodologia que vinha de cima para baixo. “O aluno era apenas um objeto”, disse Marcos Guerra, um dos coordenadores dos círculos de cultura onde era difundido o método de Paulo Freire, durante seminário promovido pela Fundação Roberto Marinho em comemoração aos 35 anos do Telecurso.

Paulo_Freire_Educador04No método Paulo Freire, eram identificados, a partir de uma conversa, os termos que faziam parte do cotidiano da turma. Eram as chamadas palavras geradoras. A partir de uma expressão mais simples, os alunos aprendiam o que eles mesmos apelidaram carinhosamente de famílias. Assim, a partir de palavras mais simples como povo, voto ou tijolo, os adultos aprendiam as famílias silábicas. E passavam a notar que, com isso, já poderiam formar outros termos.

O significado é bem maior do que uma experiência que repercutiu fora do Brasil e é válida até hoje. É um método que desperta o desejo de continuar aprendendo o resto da vida disse o presidente do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti.

Freire foi considerado subversivo

O método agradou. A formatura da turma pioneira em Angicos, escolhida para ser a primeira a viver a experiência por ser a terra do governador do estado à época, Aluísio Alves, contou com a presença do então presidente João Goulart. O método ganhou expansão, foi exportado para outros estados e impulsionou o Programa Nacional de Alfabetização. Numa época em que analfabetos não podiam votar, o país ganhava não só mais pessoas que sabiam ler e escrever, mas também eleitores. Foi somente com a promulgação de uma emenda constitucional em 1985 que os analfabetos recuperaram o direito de votar, em caráter facultativo.

O projeto não teve vida longa. Veio o golpe militar, em 1964, e a difusão do método caiu por terra. Uma prática que ensinava aos alunos não só as letras, mas seu papel no mundo e sua importância para a sociedade não agradava aos militares. Prova disso é um trecho do Inquérito Policial Militar a que Paulo Freire respondeu durante a ditadura: “É um dos responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos”, dizia o relatório de outubro de 1964.

Considerado subversivo, Paulo Freire terminou preso e exilado. Mesmo com o pouco tempo de existência, o método fez o educador ser, até hoje, um dos brasileiros mais estudados no exterior.

O Brasil ainda fala pouco de Paulo Freire. O mundo se apropriou muito mais da teoria dele. As grandes universidades norte-americanas e europeias lembram nas salas de aula, na grade curricular, a importância de Paulo Freire. Se você diz lá fora que conviveu com Paulo Freire querem tirar foto com você lembra Vilma Guimarães, gerente-geral de Educação e Implementação da Fundação Roberto Marinho, que conviveu com o educador por 40 anos e exalta o legado do amigo.

Apesar de cinquentenário, o projeto de Paulo Freire ainda é considerado atual pelos educadores: “O método não envelheceu. Continua sendo atual. Se não está sendo usado é porque não corresponde ao objetivo dos governantes”, afirmou Marcos Guerra.

Quando a experiência de Angicos completou 30 anos, Paulo Freire voltou à cidade. Reencontrou os alunos que, emocionados, agradeciam ao educador que desenvolveu a teoria que os ajudou não só a aprender as letras, mas a escrever o próprio futuro.

Paulo_Freire_Educador02

Paulo Freire em Angicos no 30º aniversário do projeto.

OSs de Serra e Alckmin levam prefeita de Natal a perder cargo

8 de novembro de 2012

Helena Sthephanowitz, via Rede Brasil Atual

A prefeita de Natal (RN), Micarla de Sousa (PV), foi afastada do cargo em decorrência de fraudes na Secretaria de Saúde, descobertas na Operação Assepsia, deflagrada em 27 de junho deste ano.

O esquema consistia na contratação de organizações sociais (OSs) para administrar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e os Ambulatórios Médicos Especializados (AMEs), por meio de fraudes nos processos de seleção das entidades combinado com o pagamento de propinas para gente da prefeitura.

Foi apurado também que as OSs inseriram despesas fictícias nas prestações de contas apresentadas à Secretaria Municipal de Saúde, como forma de desviar dinheiro público.

Os contratos foram anulados pela Justiça, alguns envolvidos já estão denunciados, e o Ministério Público encontrou indícios suficientes de envolvimento da prefeita para afastá-la.

A entrega de unidades de saúde para OSs é uma política de privatização tucana muito defendida por José Serra (PSDB) na última eleição na capital paulista, mas recriminada pelo Ministério Público de São Paulo. As novas unidades deverão ser geridas por funcionários concursados da prefeitura, no caso de São Paulo.

As ambulâncias que “seguem” Serra

Uma das OS denunciadas em Natal é o ITCI – Instituto de Tecnologia, Capacitação e Integração Social –, comandado pelo empresário Daniel Gomes da Silva, que também é dono da empresa de ambulâncias Toesa.

A Toesa foi flagrada pelo programa Fantástico da TV Globo, em março deste ano, negociando propina para um repórter que fazia se passar por um dirigente de um hospital público. A empresa entrou no ramo de ambulâncias terceirizadas para hospitais federais do Rio de Janeiro, quando José Serra era ministro da Saúde. Quando o tucano tomou posse como prefeito de São Paulo, em 2005, a empresa abriu uma filial na cidade para atender a prefeitura.

Outra OSs investigada em Natal chama-se Marca, cuja origem também o Rio de Janeiro. Um dos envolvidos responde a processo no Rio acusado de operar ONGs usadas para desviar dinheiro do estado para a pré campanha de Garotinho (PR) em 2006, quando ele pretendia disputar a Presidência da República (aqui, na página 76). Em 2008, o senador José Agripino Maia (DEM) deu apoio e coligou-se à Micarla.

Por sua vez, Micarla é dona da TV Ponta Negra (filiada ao SBT) e da Rádio 95 FM de Natal. Herdou o sistema de comunicação do pai, ex-senador. Além de dona, atuou em frente às câmeras nos noticiários de seu canal. Essa exposição na mídia local alavancou sua carreira política.


%d blogueiros gostam disto: