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Manifestação tipo coxinha enfrenta rejeição popular

16 de fevereiro de 2014

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Miguel do Rosário, via Tijolaço

“Tantas você fez, que ela cansou…”, cantava Toquinho.

Chega a ser um pouco alarmante constatar isso, mas é o que aconteceu. Claro que foi potencializado pela histeria midiática dos últimos dias, mas já era uma tendência que vinha sendo detectada em pesquisas anteriores.

Os “protestos” no Rio se tornaram uma diversão para os ricos e sofrimento para os pobres. Os coxinhas, enfim, com suas atitudes irresponsáveis e violentas, com sua falta de pautas objetivas, com sua intransigência absoluta, conseguiram a proeza de fazer os pobres se voltarem contra as manifestações.

Agora é estatístico. Segundo o Datafolha, 51% da população do Rio que ganha até dois salários é contra protestos. Já entre o segmento mais rico, que ganha mais de dez salários, a situação é inversa: 71% é a favor.

Quando se mede por escolaridade, a disparidade é ainda mais gritante. Entre os que têm apenas ensino fundamental, 61% afirmaram ser contra protestos. Já entre a turma com ensino superior, a aprovação aos protestos é de 74%.

Por que isso? Não é tão difícil entender. Manifestações desorganizadas e totalmente indiferentes ao caos provocado na cidade afetam de maneira muito mais brutal os cidadãos mais humildes. Os ricos, sempre dão um jeito de se safar dos engarrafamentos. Assistem à tudo no conforto de seus apartamentos, na Globonews. Aliás, a Globo há meses passou a contar com o “globoninja”, que nada mais é do que um repórter disfarçado de mídianinja. Portanto, até esse lado realmente anárquico das manifestações, a presença de um novo tipo de midiativismo, foi incorporado pela grande imprensa.

Segundo a reportagem, 95% dos entrevistados afirmaram ser contra vandalismo e 90% reprovam o uso de máscaras. Os números comprovam, portanto, que foi exatamente a violência e a máscara, características eminentemente coxinha e Black Bloc, o que vem causando a erosão do apoio popular a manifestações.

Além disso, as pautas são vagas. Mesmo as manifestações contra o mais recente aumento da passagem no município me pareceram egoístas, porque fingiram não ver os avanços oferecidos pela prefeitura.

Na mesma decisão em que determinou o aumento das passagens, o prefeito Eduardo Paes finalmente aceitou uma demanda antiga do movimento estudantil: aumentou o passe livre. Os estudantes de ensino médio e fundamental, que tinham direito a 60 viagens gratuitas por mês, agora terão 76 viagens. A medida visa incluir o fim de semana, permitindo que os jovens passeiem pela cidade em seus dias livres.

Os estudantes universitários que participam de algum programa do governo federal, por sua vez, que já pagavam meia passagem, agora terão direito ao passe livre. Os universitários com renda familiar per capita de até um salário mínimo, agora também dispõem do benefício da gratuidade. A medida vale para estudantes tanto de universidades privadas como públicas.

A comprovação da renda familiar foi desburocratizada e poderá ser feito através de “autodeclaração” à prefeitura.

Essas medidas já estão valendo, e explicam em parte o esvaziamento das manifestações contra o aumento da passagem do ônibus, que foi de 9%, e o primeiro em dois anos, abaixo da inflação oficial (IPCA) no período, que foi de 11,63%. O ônibus no Rio agora é R$3,00.

Entretanto, acredito que os pobres cariocas tenham desenvolvido hostilidade a um tipo específico de protesto, intransigente, violento, desorganizado e difuso.

Protestos inteligentes, focados em pautas específicas, feitos com objetivo de obter mudanças concretas e que, portanto, incluam a disposição de dialogar com as forças políticas, estes nunca perderão o apoio popular.

***

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10 de fevereiro de 2014

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Confirmada a morte cerebral de Santiago Andrade, atingido por um rojão na cabeça enquanto registrava manifestação contra o aumento da passagem de ônibus no Rio, na última quinta-feira, dia 6. A violência do movimento de mascarados Black Blocs traz sua primeira vítima fatal. Em entrevista no domingo, dia 9, Arlita Andrade, mulher do cinegrafista da Bandeirantes, disse que autores do disparo “não têm amor” e que será difícil perdoar aqueles que “destruíram uma família”.

Via Brasil 247

Foi confirmada na segunda-feira, dia 10, a morte cerebral do cinegrafista da Bandeirantes Santiago Andrade, atingido por um rojão na cabeça enquanto fazia a cobertura de um protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio, na quinta-feira, dia 6. A informação foi dada pela equipe de neurocirurgia do Hospital Municipal Souza Aguiar, onde ele estava internado no Centro de Terapia Intensiva.

O cinegrafista de 49 anos, que teve afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda, foi submetido a uma cirurgia para diminuir a pressão craniana, assim que chegou ao hospital. No sábado, dia 8, uma tomografia comprovou que a hemorragia havia sido controlada, mas o estado de saúde do cinegrafista piorou.

Santiago é o primeiro cadáver do movimento de mascarados Black Blocs, que durante manifestações populares, que muitas vezes começam de forma pacífica, destroem o patrimônio público e privado, utilizam artefatos explosivos contra a polícia e escondem seus rostos enquanto praticam esses atos. Geralmente são detidos, mas sempre soltos em seguida.

Com a morte de Santiago Andrade, como irão agir os governantes contra esse grupo, autointitulado anarquista? Haverá maior rigidez na política de segurança contra quem estiver mascarado durante um protesto? Essa é uma proposta polêmica e que deve ser cobrada para que não saiam impunes os responsáveis pela morte do cinegrafista da Band.

Leia abaixo reportagem anterior do 247 reproduzindo a entrevista da esposa de Santiago, Arlita Andrade, concedida neste domingo à TV Globo:

“Eles destruíram uma família”, diz mulher de cinegrafista

A mulher do cinegrafista da Bandeirantes atingido por um rojão na cabeça enquanto cobria protesto no Rio, Arlita Andrade, disse que é difícil perdoar “aqueles que destruíram uma família”. “Perdoar? Meu marido está indo embora, eles destruíram uma família. Uma família que era unida, muito unida mesmo”, desabafou, em entrevista à TV Globo

Segundo ela, “os médicos disseram que o estado dele é grave, disseram de manhã [no domingo] que teriam desligado os aparelhos porque estavam somente aguardando ou milagre ou a morte cerebral”. Santiago Andrade, que está internado no CTI do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, ajudou a criar os três filhos de Arlita e juntos tiveram uma filha. Segundo a esposa, ele fazia planos para a aposentadoria.

Sobre a entrevista de Fábio Raposo, preso após ter assumido passar o rojão para o responsável pelo disparo que acertou Santiago, ela comentou: “Eu vi ele pedindo desculpa, mas acho que o que falta neles é o amor, o amor pelas pessoas, porque a gente não faz isso. Ele disse que foi sem intenção. Que seja, mas meu marido estava trabalhando, estava mostrando uma manifestação”.

Abalada, ela fez um apelo para que as pessoas não usem mais da violência em manifestações. “Eu peço que essas pessoas não sejam violentas, que não façam isso. Isso não vai levar a nada. O nosso Brasil só vai ser mal visto, ninguém vai querer olhar depois para a nossa terra. Eu espero que esses rapazes pensem na mãe, pensem na família, que a família é tão importante. Meu marido está indo embora, podem ser outros, pode ter outra família que pode ser destruída com isso”, disse.

Ditadura militar: Coronel do Exército confirma farsa montada no desaparecimento de Rubens Paiva

9 de fevereiro de 2014

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Via Instituto João Goulart

Há muito tempo se sabia, por apurações da família e da imprensa, testemunhas, historiadores e depoimentos de ex-presos político, mas confirma-se agora pela undécima vez: oficiais do Exército montaram uma farsa para desaparecer com o corpo do deputado Rubens Paiva, morto em janeiro de 1971 após ser torturado em dependências do DOI-Codi-Rio, que funcionou durante a ditadura militar no quartel da força, na rua Barão de Mesquita.

O que já era conhecido de todos foi confirmado mais uma vez, agora pelo coronel reformado (da reserva) Raimundo Ronaldo Campos, em depoimento prestado à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e divulgado ontem pelo Jornal Nacional, da Rede Globo. No depoimento à Comissão, segundo o JN, o militar contou que na noite de 21 de janeiro de 1971 ele e outros dois militares receberam ordens de seus superiores para atirar na lataria de um Fusca e incendiá-lo em seguida, no Alto da Boa Vista, no Rio.

Entre os superiores que deram as ordens estavam o major Francisco Demiurgo Cardoso – já falecido –, que ordenou a encenação do falso resgate do político. O coronel do Exército Raimundo Ronaldo Campos contou à comissão da Verdade que apenas participou do “do teatro montado, cineminha armado pelo Exército”, mas que não sabe do destino do corpo de Rubens Paiva.

Como toda a farsa foi montada

A montagem, prosseguiu o coronel Campos no encontro com a Comissão, era para sustentar a versão oficial do Exército de que, ao ser transportado por militares, o ex-deputado foi sequestrado por terroristas, que atearam fogo no carro. Campos sustenta que cumpriu a ordem que lhe foi dada já sabendo que se tratava de uma operação para “justificar o desaparecimento de um prisioneiro”, e informado de que Rubens Paiva já estava morto.

O absurdo da versão oficial tem sido mostrado pela mídia desde a 2ª metade dos anos 70, a primeira vez, pelo jornalista Fritz Utzeri, num caderno especial (sobre Rubens Paiva) no Jornal do Brasil: o ex-deputado era um homem alto, pesava mais de 100 kg e nunca teria conseguido fugir do banco traseiro de um fusca, cujos bancos dianteiros estavam ocupados por dois agentes armados da repressão.

Rubens Paiva perdeu o mandato de deputado federal nas primeiras levas de cassações pós-golpe de 1964 e foi preso dia 20 de janeiro de 1971, sob a acusação de que trouxera para brasileiros correspondência de exilados políticos no Chile. Foi preso em casa, diante da família. Sua mulher, Eunice Paiva, e uma filha de 13 anos também foram levadas e ficaram 15 dias presas no DOI-Codi. Foram levados por militares da Aeronáutica que os entregaram ao DOI-Codi do I Exército.

Vários militares do Exército já confirmaram a encenação

Pela versão oficial montada, o ex-deputado foi ouvido, depois conduzido de carro para fazer o reconhecimento de uma casa que funcionaria como aparelho subversivo e nesse deslocamento foi sequestrado. Logo em seguida os militares registraram esta história na 19ª DP, no Rio. Desde então Rubens Paiva consta da lista de centenas de desaparecidos políticos brasileiros assassinados pela ditadura militar.

O depoimento de Raimundo Ronaldo Campos não é o primeiro que contesta a versão oficial do Exército sobre a morte de Rubens Paiva. Em 1986, o ex-tenente Amílcar Lobo, médico do Exército, disse à Polícia Federal (PF) que tentou socorrer o prisioneiro, que encontrou em estado crítico após sofrer torturas. Lobo confirmou o mesmo à viúva de Paiva, Eunice. No ano passado, a Comissão Nacional da Verdade divulgou documento, encontrado na casa de um ex-comandante do DOI-Codi-Rio, coronel Molina Dias, confirmando a passagem de Paiva por aquele centro de tortura.

Ao comentar o depoimento de agora do coronel Campos à Comissão da Verdade, a filha do ex-deputado, professora e pesquisadora da USP, Vera Paiva, disse a Roldão Arruda, do Estadão: “É importante que mais gente faça isso. Interessa à família e ao Brasil, onde casos de tortura continuam sendo abafados por essa lógica de não se falar nada. Não há mais dúvidas de que meu pai não é um desaparecido: ele foi assassinado e a cena do crime está ficando cada vez mais clara”.

Ao que tudo indica, agora só falta a localização do corpo do ex-deputado, ou o destino final dado a seu corpo. Como várias vezes perguntou aqui o ex-ministro José Dirceu, diante disso nada pode ser feito? E até quando? O Brasil não pode mesmo processar e estabelecer sanção, nenhum tipo de punição contra os responsáveis por essa barbárie? Com a palavra, a justiça, a Comissão Nacional da Verdade, os juristas. E o Supremo Tribunal Federal (STF) que já validou uma vez o caráter recíproco da Lei de Anistia de 1979, mas ainda tem um último recurso a julgar a respeito.

Ah, meu Rio $urreal

31 de janeiro de 2014

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Salvador Dalí reina na moeda que circula na cidade.

Edgard Catoira, via CartaCapital

Tudo no Rio, a meu ver, sempre foi surreal, no ótimo sentido do estilo: o cenário deslumbrante da cidade, o caminhar das garotas na praia, a alegria dos botequins, e por aí vai.

Do ponto de vista negativo, os tempos trouxeram o tráfico invariavelmente truculento, balas perdidas, violência em qualquer lugar, além de políticos corruptos que fazem obras monumentais de acordo com as verbas que têm para gastar e encher os bolsos – deles e das empreiteiras amigas – deputados, e vereadores que também levam algum aprovando o que o Executivo propõe. E o povo que se ferre também com os conchavos entre poder público e privado, como o setor do transporte público. Um caos!

Neste momento, a fase é de grandes lucros para a classe política, graças aos grandes eventos internacionais que o Rio vem abrigando. Só que com o exemplo emanado pelos dirigentes da cidade, o comércio e os serviços também resolveram levar uma grana extra. Um maço de cigarros, tabelado em 6,25 reais, num quiosque do calçadão da Avenida Atlântica, custa 10 reais. O coco já está custando a bagatela de 6 reais. Bares e restaurantes, e não estou me referindo aos tradicionalmente caros e luxuosos, mas daqueles que sempre frequentamos, estão com cardápios proibitivos.

O carioca, claro, criou nome para essa nova moeda local – $urreal.

De acordo com minha pesquisa pessoal, só as lojas de roupas não estão usando a nova moeda. Aliás, para refazer o caixa, estão em liquidação em pleno verão.

Mas não podemos esquecer que os turistas estão chegando e têm que desembolsar seus $urreais em acomodações: as diárias dos hotéis estão com preço na estratosfera. Apartamentos ou quartos, para os menos exigentes, estão em aluguéis, incluindo aqui os imóveis de favelas. O $urreal não está explorando o turismo, está explorando o turista.

Claro que quem frequenta habitualmente as praias está levando suas garrafinhas de água, latinhas de cerveja e cangas para se acomodarem na areia, já que até as cadeiras oferecidas pelas barracas de praia estão também com preços proibitivos.

Todos estão mais espertos, tentando pagar ainda com o Real.

No Facebook, a página criada pelas jornalistas Daniela Name e Andréa Cals, com layout do designer Flávio Soares, a “Rio $urreal – não pague” está fazendo grande sucesso! “Se Vira no Rio”, “Não pago preço absurdo” e “Boicote Rio” são postagens que chamam a atenção de como está a revolta geral contra os preços. Também fazem sucesso nas redes sociais as notas do $urreal, criadas pela designer Patrícia Kalil. Elas são semelhantes às do Real onde, no lugar das garças e garoupas da moeda oficial, fica a imagem do pintor surrealista Salvador Dalí.

As dicas postadas na rede social Rio $urreal, em forma de piada ou de bronca, estão repercutindo muito bem e já fazem os fornecedores reverem seus preços. Um exemplo é o coco, que já pode ser pago em Real, apesar de ainda caros R$5,00.

Quando contei ao jornalista – e crítico amigo – Murilo Rocha que eu não paguei 10 $urreais num quiosque por um maço de cigarros, mas o tabelado do outro lado da Avenida Atlântica, ele, divertido, me mandou seu divertido conselho:

“Antes de reclamar dos preços nos órgãos de defesa do consumidor, lembre-se do mais importante: você mesmo. Não dá tanto trabalho, basta, ao entrar na, digamos, casa de pasto, ao consultar o cardápio, faça-o da direita para a esquerda. Ou seja, veja primeiro a coluna que interessa, que é a dos preços. Então, basta ligar o nome à pessoa, e, em caso de decepção, levantar-se e cair fora, sem constrangimentos. Se o garçom fizer a gentileza de perguntar o porquê da saída extemporânea, não perca a oportunidade: Sofro de vertigens e me senti mal quando olhei os preços”.

E Murilo Rocha continua, lembrando que virou moda falar do Custo Brasil, o peso que a absurda carga tributária e os encargos em geral colocam sobre os preços. Verdade, mas há, também, o Custo Ganância, instrumento que o comerciante utiliza frequentemente, com base na filosofia dele mesmo, de que talvez não haja amanhã neste mundo. Afinal, nunca tivemos terremotos devastadores nem tsunamis de arrasar tudo, mas… nunca se sabe, não é? E o Brasil, como país exótico que é, onde as leis de economia já nascem caducas, sempre teve por regra contrariar o princípio do comércio que manda ganhar pouco sobre muito. Nossos comerciantes querem mesmo é ganhar muito sobre pouco. Como se não houvesse amanhã…

Mudando os hábitos, quando ouvir: “Meu bem, onde nós NÃO vamos comer hoje?”. Saiba que essa é para quem curte o luxo e o requinte de comer em corredor de shopping.

Faço minhas as palavras de Murilo Rocha. E lanço meu grito de ordem: “Abaixo o $urreal.”

Luciano Martins Costa: Uma bomba armada nas ruas

17 de outubro de 2013

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Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

O leitor ou leitora que escrutinar o noticiário de quinta-feira, dia 17, poderá achar um pouco confusa a descrição das ações do Estado, no Rio e em São Paulo, contra manifestantes acusados de promover depredações a atacar policiais.

Em São Paulo, dos 60 detidos após as manifestações violentas ocorridas na noite de terça-feira, 59 foram soltos por falta de provas e apenas um foi indiciado, por porte de maconha. No Rio, metade dos 190 detidos continuava presa e 27 haviam sido autuados pela nova Lei de Crime Organizado.

A diferença no comportamento das autoridades nos dois estados, assim como a abordagem da imprensa, dificulta a compreensão do que se passa nas ruas. Basicamente, o governo paulista demonstra estar fazendo um esforço para identificar os adeptos da tática conhecida como Black Bloc, para compreender suas motivações e seus objetivos. Já o governo do Rio parece mais preocupado em conter a onda de violência, na tentativa de amenizar o estrago que o fenômeno poderá provocar em suas pretensões eleitorais do próximo ano.

O sistema de inteligência da polícia paulista registrou cerca de 400 suspeitos de protagonizar atos de vandalismo e está estudando seus perfis para tentar identificar lideranças e separar os diferentes grupos que se organizam e se desfazem continuamente durante as manifestações.

Os especialistas reunidos numa espécie de conselho procuram montar um quebra-cabeças em busca de um sentido para o comportamento desses jovens, considerando, de antemão, que eles precisam ter algo mais em comum do que o simples impulso da destruição para organizar suas ações aparentemente espontâneas, que, no entanto, revelam uma característica de sofisticada mobilidade e eficiência.

Pelo que se pode depreender das reportagens, a estratégia do governo de São Paulo é usar essas informações para tomar medidas práticas, como obrigar os reincidentes a se apresentar a uma autoridade policial no horário dos protestos. O modelo é semelhante àquele que é aplicado contra os integrantes de torcidas organizadas de futebol que se envolvem continuamente em conflitos nos estádios.

Mistura explosiva

Pressionado por uma campanha avassaladora que promoveu até mesmo o bloqueio da rua onde mora, o governador do Rio, Sergio Cabral, é movido pela urgência: se quiser sobreviver politicamente, ele não pode chegar ao fim do ano sitiado pelos manifestantes.

As palavras de ordem dos primeiros protestos eram contra o custo e a má qualidade dos transportes públicos, depois evoluíram para a exigência de investigação sobre o desaparecimento do pedreiro Amarildo Alves de Souza e atualmente têm como estopim as reivindicações salariais dos professores do Estado. No entanto, o alvo pessoal dos manifestantes segue sendo o governador Cabral.

A perspectiva de eleições no horizonte próximo instiga à urgência e limita a disposição das autoridades para entender a natureza desse fenômeno. Afinal, o que move centenas, eventualmente milhares, de jovens a arriscar sua integridade física e seu futuro por uma pauta de demandas difusa e quase irreconhecível?

Pesquisadores reconhecidos pela imprensa apresentam teses eventualmente conflitantes, mas no geral há certo consenso em que o conjunto denominado genericamente de Black Bloc tem como objetivo chamar a atenção para o distanciamento entre o Estado e o cidadão. Segundo essa tese predominante, baseada em entrevistas selecionadas no calor dos protestos, há um mosaico de racionalidade por trás das atitudes destrutivas desses manifestantes.

No entanto, seria aconselhável que os pesquisadores e jornalistas tivessem algum cuidado ao analisar declarações feitas aos gritos, no meio do tumulto, por jovens bombados pela adrenalina do momento.

Da mesma forma que ninguém vai considerar que o pacato pai de família que se manifesta nas arquibancadas contra o juiz de futebol acredite mesmo que a mãe do árbitro seja necessariamente uma prostituta, não se pode interpretar linearmente o que diz um manifestante enquanto se desvia de uma bomba de efeito moral e acende seu “coquetel molotov”.

Esse é talvez o maior desafio para se compreender o momento por que passam as maiores cidades do País: encontrar um terreno sólido no campo da racionalidade para entender o comportamento aparentemente irracional.

Há uma enorme dose de concessão nas análises de acadêmicos e jornalistas sobre a natureza dessa violência. A mistura de universitários, mendigos, meninos abandonados e delinquentes profissionais no confronto com policiais viciados na arbitrariedade compõe uma receita explosiva.

Quem poderia desejar um desfecho trágico para esse enredo?


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