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São Paulo: Folha demite repórter jurado de morte por vereador do PSDB

16 de fevereiro de 2014
Telhada_Comandante_Rota02A

O vereador tucano coronel Telhada ameaçou matar o repórter André Caramante, demitido pela Folha.

Altamiro Borges em seu blog em 12/2/2014

“O repórter André Caramante foi demitido do jornal Folha de S.Paulo, na segunda-feira, dia 10/2. O profissional voltava de férias, mas não encontrou seu nome na escala de trabalho da semana. Ao chegar à redação foi comunicado de sua demissão, sob a alegação de ‘contenção de despesas’”, informa a jornalista Jéssica Oliveira, do portal Imprensa.

O caso é gravíssimo. André Caramante ficou famoso ao denunciar os abusos cometidos pelo ex-chefe da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar (Rota), o coronel Paulo Telhada, que hoje é vereador pelo PSDB de São Paulo. Ele foi ameaçado de morte e deixou o Brasil, com a sua família, por alguns meses. Agora, a Folha demite o repórter para “conter despesas”.

Especializado em segurança pública, o jornalista era funcionário do Grupo Folha há mais de 14 anos, atuando nos últimos oito anos na redação da Folha. Ele denunciou vários crimes da polícia de São Paulo, como o envolvimento com grupos de extermínio e a prática de corrupção. Em julho de 2012, Caramante publicou um artigo com o título: “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, sobre o coronel reformado Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, então candidato a vereador pelo PSDB. A partir daí a sua vida virou um inferno. Ele recebeu diversas ameaças de morte e passou a ser escoltado por motoristas do jornal para ir ao trabalho.

O próprio coronel Telhada escreveu no seu Facebook que o jornalista “é um notório defensor de bandidos”. Nas redes sociais, os seguidores do truculento tucano postaram mensagens criticando o “péssimo repórter” e ameaçando: “Bala nele”. Sua família também sofreu ameaças. Diante dos riscos, “a Folha pediu a investigação do caso e, em conjunto com o profissional, optou por afastá-lo do país por motivo de segurança. Em 11 de setembro de 2012, ele e sua família saíram do Brasil e permaneceram fora por 90 dias”, relata Jéssica Oliveira. Após seu retorno ao país, ele foi afastado da cobertura da área de segurança pública e passou a escrever textos no caderno “Cotidiano” e para a TV Folha.

Agora, porém, o renomado jornalista – vencedor do Prêmio Santo Dias da Assembleia Legislativa de São Paulo e do Prêmio Nacional de Direitos Humanos – é demitido. Durante este período, a Folha evitou pressionar o governador Geraldo Alckmin e o PSDB. Num evento no final de 2012, a repórter Lúcia Rodrigues, da Rede Brasil Atual, até questionou: “Neste momento, André Caramante está fora do país por ter feito denúncias contra o ex-comandante da Rota. Como é que o senhor se posiciona, governador?”. Alckmin se fingiu de surdo e não respondeu. Coronel Telhada é hoje uma das vozes mais estridentes do PSDB na Câmara Municipal. Já André Caramante foi demitido pela Folha!

Leia também:
Coletânea de textos: A mídia como ela é… golpista e manipuladora

 

Democracia dos EUA: Repórter do Estadão é detida em Yale, tentando entrevistar Barbosa

28 de setembro de 2013
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Cláudia ficou cinco horas incomunicável. E pensar que seus patrões lambem botas dos estadunidenses.

Humilhação e truculência em Yale Law School

Cláudia Trevisan, via Estadão e lido no Viomundo, sugestão de Gerson Carneiro

Minha primeira reação foi o descrédito. Depois vieram lágrimas. Por fim, a indignação de quem tem a convicção de estar sendo submetida a um tratamento abusivo, truculento e desproporcional. Em outras palavras, um injustiça, cometida em uma das mais tradicionais escolas de Direito dos Estados Unidos.

Fui tratada como uma criminosa, enquanto tentava desempenhar meu papel de jornalista. Minha única intenção era ter a chance de encontrar o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, e tentar convencê-lo a me dar um entrevista. Ele já havia me falado por telefone que não falaria, mas jornalistas nunca se conformam diante de um não.

A Faculdade de Direito de Yale fez de tudo para impedir a presença de imprensa no local durante a visita do presidente do STF. Seu nome não constava do programa oficial do evento e a diretora de Comunicação foi taxativa ao dizer que repórteres não seriam admitidos no local. De novo, repórteres resistem ao não e essa é uma das características que fazem o bom jornalismo. De qualquer maneira, eu não tinha nenhuma intenção de invadir o local do evento. Só precisava saber onde ele estava sendo realizado, para saber em que calçada esperar.

O tratamento que tive foi o mais humilhante e degradante que já enfrentei em minha vida profissional. Algemada, impedida de dar ou receber telefonemas, transportada em um camburão escuro e sem janelas, no qual tinha que me agarrar com as mãos imobilizadas a cordões presos nos bancos para evitar ser jogada de um lado para o outro enquanto o carro se movia.

Na delegacia, fui revistada de cima abaixo e colocada em uma cela, ao lado de outras ocupadas por suspeitas de crimes de verdade. Havia gritaria incessante e batidas nas paredes de metal. O vaso sanitário era visível por meio das grades que separava minha cela do corredor por onde circulavam policiais. Quando entrei, um policial veio com um grande rolo de papel higiênico e ordenou que eu retirasse o que iria necessitar. Perguntei se ele ficaria olhando enquanto eu usava o local e obti uma resposta irônica: “Imagine, sua privacidade será mantida”. Ele saiu, mas o trânsito de pessoas no local era incessante.

Fiquei cinco horas incomunicável. Uma hora algemada. Três horas e meia em uma cela. Tudo por ter ousado me aproximar do local onde estava o presidente do STF, ironicamente uma instituição voltada à defesa de princípios constitucionais.

Observação de Gerson Carneiro: Yale Law School não fica em Cuba.

STF paga viagem de jornalista de “O Globo”

7 de maio de 2013
Joaquim_Barbosa72_Costa_Rica

Joaquim Barbosa na Costa Rica.

Eis um caso inaceitável de infração de ética de mão dupla.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Um asterisco aparece no nome da jornalista de O Globo que escreve textos sobre Joaquim Barbosa em falas na Costa Rica. Vou ver o que é o asterisco. E dou numa infração ética que jamais poderia acontecer no Brasil de 2013. A repórter viaja a convite do Supremo.

É um dado que mostra várias coisas ao mesmo tempo. Primeiro, a ausência de noção de ética do Supremo e de O Globo. Viagens pagas já faz tempo, no ambiente editorial mundial e mesmo brasileiro, são consensualmente julgadas inaceitáveis eticamente. Por razões óbvias: o conteúdo é viciado por natureza. As contas do jornalista estão sendo bancadas pela pessoa ou organização que é central nas reportagens.

Na Abril, onde me formei, viagens pagas há mais de 20 anos são proibidas pelo código de ética da empresa. Quando fui para a Editora Globo, em 2006, não havia código de ética lá. Tentei montar um, mas não tive nem apoio e nem tempo.

Tive um problema sério, na Globo, em torno de uma viagem paga que um editor aceitou. Era uma boca-livre promovida por João Dória, e o editor voltou dela repleto de brindes caros, outro foco pernicioso de corrupção nas redações.

Fiquei absolutamente indignado quando soube, e isso me motivou a fazer de imediato um código de ética na editora. Surgiu um conflito do qual resultaria minha saída. Dias depois de meu desligamento, o editor voltou a fazer outra viagem bancada por Dória, e desta vez internacional.

Bem, na companhia do editor foi o diretor geral da editora, Fred Kachar, um dos maiores frequentadores de boca livre do circuito da mídia brasileira. Isto é Globo.

De volta à viagem de Costa Rica.

Quando ficou claro que viagens pagas não podiam ser aceitas eticamente, foi a Folha que trouxe uma gambiarra ridícula. A Folha passou a adotar o expediente que se viu agora em O Globo: avisar que estava prevaricando, como se isso resolvesse o caso da prevaricação.

A transparência, nesta situação, apenas amplia a indecência. A Globo sabe disso. Mas quando se trata de dinheiro seus limites morais são indescritivelmente frouxos.

Durante muito tempo, as empresas jornalísticas justificaram este pecado com a alegação de que não tinham dinheiro suficiente para bancar viagens. Quem acredita nisso acredita em tudo, como disse Wellington. Observe o patrimônio pessoal dos donos da Globo, caso tenha alguma dúvida. É ganância e despudor misturados – e o sentimento cínico de que o leitor brasileiro não repara em nada a engole tudo.

Então a Globo sabe que não deveria fazer o que fez. E o Supremo, não tem noção disso?

É o dinheiro público torrado numa cobertura jornalística que será torta moralmente, é uma relação promíscua – mídia e Judiciário – alimentada na sombra.

Para usar a teoria do domínio dos fatos, minha presunção é que o Supremo não imaginava que viesse à luz, num asterisco, a informação de que dinheiro do contribuinte estava sendo usado para bancar a viagem da jornalista do Globo.

Como dizia meu professor de jornalismo nas madrugadas de fechamento de revista, quando um texto capital chegava a ele e tinha de ser reescrito contra o relógio da gráfica, a quem apelar?

Repórter é ameaçado de morte por vereador do PSDB

10 de fevereiro de 2013
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Gelsi teria dito que vai “abrir o cérebro” de repórter.

Renata Cardarelli, via Comunique-se

O Diário da Região, de São José do Rio Preto (SP), acusa o vereador César Gelsi (PSDB) de ameaçar o repórter de política do veículo, Rodrigo Lima. As agressões verbais teriam ocorrido na terça-feira, dia 5, na Câmara Municipal. O político estaria descontente com duas matérias, que questionavam aspectos de sua vida política.

Em texto publicado na sexta-feira, dia 8, a versão online do Diário reproduz fala do vereador tucano. Gelsi teria dito que vai mostrar um “porrete” para o repórter e “dar no meio da tua cabeça”. “Juro por Deus. Se eu der no meio da tua cabeça, o cérebro vai abrir. Quero dar no meio da cabeça dele”, teria afirmado, durante a sessão da terça-feira, dia 5, em entrevista gravada e concedida a Heitor Mazzoco, também do Diário da Região. O vereador acrescentou que morrerá “sossegado no dia em que esse cara estiver azarado”.

Ameaças

Na terça-feira, Mazzoco cobriu os desdobramentos do pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). A proposta seria investigar supostos casos de corrupção que teriam acontecido no primeiro mandato do prefeito reeleito, Valdomiro Lopes (PSB). O empresário Alcides Fernandes Barbosa declarou que o prefeito teria recebido dinheiro que seria usado na construção de casas do programa “Minha Casa, Minha Vida”, do governo federal, em esquema montado com o ex-procurador-geral de São José do Rio Preto, Luiz Tavolaro. Para a CPI ser instalada são necessárias seis assinaturas e o documento conta com cinco.

O vereador Gelsi estava presente na sessão que daria prosseguimento à votação pela CPI. Mazzoco explica que o tema motivou sua conversa com o tucano. “Comecei a perguntar sobre a CPI, se ele assinaria ou não. Ele disse que por problemas partidários não assinaria. No meio da entrevista, de repente, ele começou a fazer ameaças. Não citou nominalmente o Rodrigo, mas se referiu às reportagens escritas por ele.”

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Fotomontagem trazia candidatos em corpos de zumbis.

Boletim de ocorrência

Segundo o jornalista Rodrigo Lima, que sofreu as ameaças, a direção do Diário ponderou a situação e o orientou a ir à delegacia. Ele registrou boletim de ocorrência (292/2013) no 1º Distrito Policial da cidade do interior paulista. “O caso foi registrado, por ameaça e injúria. O delegado vai chamá-lo [Gelsi] para ouvi-lo”. Lima disse que é a primeira vez que sofre intimidações e admitiu estar angustiado. “Em 13 anos de Diário, isso nunca me aconteceu. Fico chateado e preocupado, porque ele [Gelsi] já avançou em outros vereadores”.

Reportagens

Lima assinou duas reportagens que teriam desagradado o vereador de São José do Rio Preto. A primeira, publicada em 4 de setembro passado, foi intitulada “Eles querem voltar”. O texto falou sobre ex-vereadores que tentaram se reeleger e os chamou de “mortos-vivos da política”. A fotomontagem que acompanhava a matéria trazia o rosto de 13 políticos em corpos de zumbis.

Em “Estado cobra R$75,8 mil de autoridades”, de 20 de janeiro deste ano, o Diário da Região revela que políticos eram cobrados judicialmente pela prefeitura por impostos atrasados. Citando dados do Tribunal de Justiça, a matéria diz que Gelsi devia R$4,6 mil em Imposto Sobre Serviço (ISS).

O Comunique-se tentou contato com Gelsi, mas as ligações não foram atendidas. O gabinete do vereador também não retornou os telefonemas da reportagem. Por sua vez, a Comissão Nacional do PSDB alegou não ter conhecimento do assunto. Os diretórios estadual e municipal do partido também não se pronunciaram sobre o caso.

Fora do Brasil, repórter ameaçado pelo coronel Telhada relata mudança brusca de vida

14 de dezembro de 2012
Coronel Telhada (à esquerda) ameaçou repórter da Folha.

Coronel Telhada (à esquerda) ameaçou repórter da Folha.

Luis Kawaguti, via BBC Brasil

Após escrever uma reportagem em julho relatando que o ex-comandante da Rota – a controversa unidade de elite da Polícia Militar de São Paulo – e vereador eleito pelo PSDB Paulo Telhada usava sua página no Facebook para pregar a violência, o repórter André Caramante, do jornal Folha de S.Paulo, passou a ser alvo de ameaças que o levaram a deixar o País com a família.

Com os filhos fora da escola regular e longe dos amigos e da profissão, o jornalista espera providências das autoridades, que ainda não identificaram os autores de ameaças como: “Quero deixar um recado para o André Caramante. Para ele deixar a polícia trabalhar em paz ou os filhos dele vão estudar no tacho do inferno”, feita por telefone a um funcionário da Folha de S.Paulo, segundo o Ministério Público.

Segundo o advogado de Telhada, as ameaças não partiram dele – que pediu pela internet apenas que seus simpatizantes escrevessem ao jornal em atitude de “desagravo” à reportagem. Porém, o pedido deflagrou a perseguição ao repórter feita por supostos policiais que equiparam a defesa dos direitos humanos à proteção a bandidos.

O episódio mostrou, contudo, que Caramante não está sozinho. Ele tem o apoio de diversas organizações não-governamentais, entidades de classe e movimentos sociais. Na segunda-feira, dia 10, recebeu o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo, devido não só à reportagem de julho, mas a um trabalho sistemático de denúncia de abusos de direitos humanos no País.

Na terça-feira, dia 11, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, escreveu em sua conta no Twitter que Caramante, “que denuncia impunidade e violência em São Paulo, deve poder trabalhar livre de ameaças”. Ela afirmou também que o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana reforçará o apoio aos jornalistas.

Leia abaixo trechos da entrevista de Caramante à BBC Brasil. Observe também o “Outro lado”, com as reações do advogado do coronel Paulo Telhada, da Secretaria de Segurança Pública e da Polícia Militar às declarações do jornalista.

BBC Brasil – Que tipo de ameaças você recebeu após a publicação da matéria sobre o coronel Paulo Telhada?

André Caramante – Por telefone, ameaçaram minha família. Pela internet, houve uma onda de ameaças e intimidações em redes sociais, blogs e até no próprio site do jornal Folha de S.Paulo, na seção de comentários. Entre as mensagens, fui chamado de “bandido”. Disseram coisas como “bala nele”, “você ainda será vítima de um sequestro relâmpago”, “quando apontarem uma arma para você…” e, ironizando, “espero que nada de mau te aconteça”. Esta onda teve grande força por mais de um mês, e seguiu forte até outubro. O coronel me chamou publicamente, no Facebook, de “notório defensor de bandidos” e pediu uma mobilização contra mim. Houve incitação de pessoas para que denegrissem meu trabalho e deflagrou-se uma onda de intimidações e de incitação à violência contra mim e contra o jornal. As ameaças e intimidações na internet estão ligadas, em sua maioria, a alguns policiais, por meio de declarações próprias, e simpatizantes. Em relação aos atos fora da internet, até o momento, não é possível apontar um autor.

BBC Brasil – A defesa do coronel diz que ele nunca falou com você...

Caramante – Esse mesmo coronel da PM reformado, eleito vereador, é alguém que durante seu trabalho na Polícia Militar assume ter matado 36 pessoas – todas “dentro da lei”, segundo afirma. Na tentativa de desmoralizar meu trabalho na Folha de S.Paulo, ele disse nunca ter falado comigo. Não é fato. Já fiz reportagens sobre a Rota quando era comandada por ele. Conversamos para que ele pudesse oferecer sua versão sobre uma suspeita de que seus subordinados haviam feito uma emboscada na qual seis suspeitos de tentar roubar caixas eletrônicos em um supermercado foram mortos. Existe a suspeita de que a operação policial teve a oportunidade de prender os suspeitos, mas eles foram mortos. Isso aconteceu em agosto de 2011.

BBC Brasil – Qual foi o impacto de tudo isso para você e para a sua família? Estão no exterior?

Caramante – Sim, atualmente estamos no exterior. Ao contrário do que tentaram dizer, não considero que eu e minha família passamos a viver escondidos e sim que mudamos temporariamente nossa localização. Isso por causa das ameaças de morte e fatos que consideramos suspeitos, relacionados por exemplo a chamadas telefônicas, à presença de motocicletas durante percursos em trajetos iguais aos meus e ao levantamento de informações de parentes meus por policiais.

BBC Brasil – Como foram as mudanças em sua vida pessoal? Está pensando em voltar logo?

Caramante – Toda mudança de rotina, ainda mais esta, brusca e imposta, traz transtornos e desafios. Meus filhos tiveram seu processo de aprendizado regular interrompido. Minha companheira mudou completamente sua rotina. Hoje, parte de nossa vida é transportada em malas de viagem. A comunicação com amigos e parentes é bem restrita. Continuo trabalhando à distância, mas sinto a angústia de não poder exercer plenamente minha profissão. Repórter tem mais é que sujar os sapatos atrás da notícia, tem de estar nas ruas, estar em contato direto com as fontes de informação. A avaliação sobre meu retorno, juntamente com minha família, será feita em conjunto com a direção da Folha de S.Paulo. Desde o início desse período de maior pressão, tudo tem sido decidido em conjunto com o jornal, afinal, o que aconteceu também foi uma tentativa de atentar contra o direito de informar.

BBC Brasil – Como se sente nesta situação?

Caramante – Essa tentativa de intimidação contra a liberdade de imprensa não é nova e não se restringe apenas a mim. No México, por exemplo, as pressões contra a imprensa livre são exercidas pelo narcotráfico. No Brasil, mesmo após o fim da ditadura militar, há quase 30 anos, as indicações são de que setores das forças de segurança tentam impedir a divulgação de informações. Posso citar dois exemplos, cada um com seu grau de intensidade, mas ainda assim semelhantes por terem PMs como alvo de denúncia: o do jornalista Caco Barcellos, autor do livro-reportagem Rota 66 – A História da Polícia que Mata, ameaçado de morte e obrigado a deixar o País nos anos de 1990 por mostrar a política de extermínio da tropa especial da PM de São Paulo. E também o do jornalista Renato Santana que, em 2011, após denunciar grupos de extermínio na região do litoral paulista, passou a ser ameaçado e teve de pedir demissão do jornal para o qual trabalhava e se mudar.

BBC Brasil – O governo estadual poderia ter feito alguma coisa para evitar essa situação, ou pode tomar alguma atitude agora?

Caramante – Depois de a notícia sobre minha mudança temporária de localização ter sido tornada pública, o governador Geraldo Alckmin propôs-me colocar, ao lado de minha família, no programa estadual de proteção a vítimas e testemunhas. Mas isso não atendeu a minha expectativa, porque faria com que eu tivesse de abrir mão de minha atividade profissional, do direito de informar. [O programa] faz com que um jornalista tenha de deixar de exercer seu trabalho, rompa laços de amizade, mude de casa ou até mesmo de nome, mas não diz nada sobre como responder à ameaça contra a liberdade de imprensa que a minha situação expôs. No fim de julho, o secretário da Segurança Pública do governador Alckmin já havia afirmado que iria determinar uma investigação na Corregedoria da PM contra o coronel reformado [Telhada] sobre as atitudes dele contra mim no Facebook. Até hoje não fui informado sobre o resultado dessa investigação. Somente dois meses depois dessa afirmação, a Corregedoria da PM, sabendo que eu já estava fora do País, enviou um ofício ao jornal para me ouvir. Fica muito difícil acreditar em resultados. Afinal, havia uma investigação em curso no fim de julho?

BBC Brasil – Qual é sua opinião sobre o posicionamento do governo Alckmin?

Caramante – Se tivéssemos uma política de segurança pública transparente em São Paulo, o governo manteria de forma explícita, por exemplo, uma lista completa com todos os dados das vítimas dessa onda de violência em andamento. Em São Paulo, jornalistas não têm acesso a documentos públicos sobre esses crimes. A desculpa é a de que a revelação sobre quem morreu “atrapalharia as investigações”.

BBC Brasil – Como vê essa atitude do governo do Estado de trocar cúpula e aceitar ajuda federal?

Caramante – Diante da atual onda de violência enfrentada pela população de São Paulo, a mudança no comando da Segurança Pública e o recebimento de ajuda do governo federal eram medidas cujo adiamento seria muito difícil justificar. O novo comando chega com a necessidade de apresentar resultados urgentes à população, que espera voltar a confiar plenamente nas instituições governamentais, nas leis. A população não pode temer suas polícias e nem viver sob a pressão de criminosos. Essa mesma população quer afastar o fantasma do estado de exceção que assombra as periferias, onde se atropelam direitos fundamentais.

BBC Brasil – Você recebeu apoio de alguma instituição?

Caramante – Recebi a solidariedade de familiares, amigos, de entidades de classe, estudantes, colegas de profissão e de organizações que defendem os Direitos Humanos e a Liberdade de Imprensa, como Repórteres Sem Fronteiras, SIP [Sociedade Interamericana de Imprensa], Abraji [Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo], Instituto Vladimir Herzog, Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, S.O.S. Racismo [Assembleia Legislativa de SP], Condepe [Conselho de Defesa da Pessoa Humana de SP], Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça, e também das ONGs Justiça Global, Conectas, Instituto Sou da Paz. Membros do hip hop e da cena cultural da periferia de São Paulo, como a Cooperifa [Cooperativa Cultural da Periferia], estenderam as mãos e isso tem muito valor, assim como o incentivo que sempre me foi dado pelo grupo independente Mães de Maio, composto por familiares de jovens mortos durante o primeiro grande enfrentamento entre o crime organizado e as forças de segurança, em maio de 2006.

Outro lado

O advogado de defesa do coronel Paulo Telhada, Israel Alexandre de Souza, afirma que o perfil do Facebook analisado pela reportagem de André Caramante e pelo Ministério Público era falso.

De acordo com Souza, a página em questão era uma homenagem a Telhada e não seria de autoria dele. “Eu consigo provar que não foi ele quem postou”, afirmou o advogado.

“O coronel tem uma página com 100 mil seguidores no Facebook em que ele publica as posições dele. E a posição dele é de combate ao crime, mas ele não publica incitação à violência.”

O caso levou o Ministério Público a pedir à Justiça Eleitoral a cassação do registro de candidatura de Telhada por usar indevidamente meios de comunicação social. O processo foi extinto em primeira instância, mas os promotores recorreram.

Em relação à alegação de que Telhada teria chamado Caramante de “notório defensor de bandidos”, Souza afirma: “O coronel ‘postou’ na página dele dizendo que esse cara perseguia ele. Pode ter dito isso, não tenho certeza. O que ele pediu para os seguidores dele foi que mandassem e-mails de desagravo ao jornal o defendendo.”

O advogado diz que a ação do coronel foi “uma atitude cívica de liberdade de expressão”, mas afirmou acreditar que se Telhada soubesse com antecedência da repercussão do caso não teria publicado a mensagem.

Souza acrescentou que os seguidores do vereador “podem ter exagerado no desagravo”. “Não acredito nem que sejam ameaças reais, mas não deixam de ser crime e deveriam ser apuradas pela polícia”, afirma.

Além do processo na Justiça Eleitoral, o caso é investigado pelo Grupo Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gecep) do Ministério Público do Estado de São Paulo.

A Secretaria de Segurança Pública afirma que não há falta de transparência na pasta, “fato comprovado pelo fato de São Paulo ser o único Estado do País que divulga as estatísticas criminais mensalmente, e com regularidade”.

“Quanto aos boletins de ocorrência, eles não são divulgados integralmente para preservar as partes e não atrapalhar as apurações”, acrescenta a secretaria. Quanto aos crimes, todos estão sendo investigados e todas as hipóteses, inclusive o suposto envolvimento de policiais, são consideradas nas apurações. O governo do Estado de São Paulo e o novo secretário de Segurança, Fernando Grella Vieira, são os maiores interessados em elucidar os casos.”

A Polícia Militar afirmou que uma investigação sobre as ameaças ao jornalista “está em andamento”. “Estamos na fase de processamento de autoria dessas supostas ameaças, como o objetivo de individualizar a suposta conduta, descobrindo os supostos motivos da ameaça, atribuir uma penalidade administrativa militar e abrir um procedimento para avaliarmos sua conduta na esfera penal [inquérito Policial Militar]”, disse a entidade em nota.

Serra chama repórter de “sem vergonha”

30 de setembro de 2012

Via Portal Terra

O candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, José Serra, se irritou na sexta-feira, dia 28, com uma questão de um repórter sobre seu programa de governo. Durante visita ao bairro da Mooca, onde passou a infância, Serra se desentendeu com um repórter da Rede Brasil Atual, veículo ligado a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e chegou a chamá-lo de “sem vergonha”.

Durante coletiva de imprensa, o candidato do PSDB anunciou que pretendia criar “o sistema municipal de ensino técnico” para dar uma “chance” a crianças de “famílias humildes”. Mas admitiu que esta era uma ideia que lhe veio à cabeça no momento da entrevista. “Como administrador público (…) nós vamos criar o sistema municipal de ensino técnico e profissionalizante. Para aumentar em dezenas de milhares os alunos de ensino técnico e profissionalizante. Esta é uma chance imensa para crianças de famílias mais humildes. Essa é a minha ideia. É o que me veio agora há cabeça vindo aqui à Mooca, me lembrando a minha infância e a juventude”, disse.

Após o comentário do candidato, o repórter da Rede Brasil Atual questionou Serra sobre a proposta: “Veio a cabeça agora ou está no seu plano de governo?”, perguntou. O candidato, então, quis saber o veículo no qual o jornalista trabalha. “De qual veículo você é?”, retrucou. Como o repórter não quis se identificar, Serra ameaçou deixar a coletiva. Mas parou para ouvir a pergunta de outros profissionais na sequência, sem ainda responder o primeiro jornalista.

Ao final da entrevista, enquanto Serra se dirigia ao carro da campanha, o mesmo repórter da Rede Brasil Atual voltou a questionar o candidato. “Por que você só responde perguntas favoráveis?”, disse. Foi então que o tucano xingou o profissional. “Não, eu não respondo pergunta de sem vergonha”, afirmou.

Depois da confusão, Serra foi a uma padaria da região e comentou a discussão com outro repórter. “Eu não tenho direito de saber de qual veículo ele é?”, questionou. Não é a primeira vez que Serra faz essa pergunta a um jornalista durante uma coletiva de imprensa. Ele costuma ter essa postura quando é questionado de forma mais incisiva.

Antes disso, um repórter de um programa de tevê também voltou a falar sobre programa de governo. “Que solução você tem para resolver o problema do trânsito em São Paulo se nem programa de governo você apresentou?”. “Eu apresentei o programa de governo”, disse antes de complementar. “Está na televisão, no rádio, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE)”, afirmou em referência às notícias sobre suas propostas que são publicadas na imprensa diariamente.

O documento mencionado pelo tucano, cujo registro no TRE é obrigatório, tem dez páginas. Em boa parte do texto, a campanha ataca candidaturas de adversários. Na outra metade há um resumo de algumas propostas e ideias, sem especificar detalhes e custos.


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