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Chacina de Unaí: Tucano acusado de mandar matar 4 pessoas é condecorado em MG

7 de maio de 2013
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Antério Mânica, condecorado na Assembleia Legislativa
de Minas Gerais.

Em crime ainda impune, tucano acusado de mandar matar 4 na chacina de Unaí se diz vítima.

Gustavo Costa, via Viomundo em 7/5/2013

A Chacina de Unaí vai completar quase uma década sem julgamento. Em 28 de janeiro de 2004, uma denúncia anônima de trabalho degradante no campo (forjada) levou três auditores fiscais do Ministério do Trabalho e o motorista deles para uma emboscada. Todos foram executados com tiros na cabeça, a menos de 160 quilômetros de Brasília.

Os assassinatos repercutiram dentro e fora do país.

Por pressão direta da Presidência da República, uma investigação relâmpago descobriu os envolvidos nas execuções. Uma trama que envolve hierarquia e poder. Segundo o Ministério Público Federal, os irmãos Antério e Norberto Mânica, os maiores produtores de feijão do País, seriam os mandantes. Hugo Pimenta e José Aberto de Castro, o Zezinho, empresários de sucesso na produção de grãos, os intermediários. Francisco Helder Pinheiro, conhecido como Chico Pinheiro, o homem que contratou os pistoleiros. Erinaldo Silva e Rogério Alan Rocha, os matadores. Willian de Miranda, motorista dos bandidos. E Humberto dos Santos, o responsável por tentar apagar os rastros da quadrilha.

Antério Mânica, segundo o Ministério Público Federal um dos mandantes da chacina, se elegeu duas vezes prefeito de Unaí concorrendo pelo PSDB.

Sua declaração de bens na Justiça Eleitoral, em 2008, chegou perto dos R$19 milhões. A primeira eleição aconteceu no ano do crime, mesmo sendo ele um dos suspeitos de mandar matar os servidores públicos.

Antério passou dois curtos períodos na cadeia.

As propriedades dele, com cerca de 5 mil hectares, produzem mais de 200 mil sacas de 60 quilos de feijão por safra.

Os Mânicas são descendentes de italianos. Chegaram ao Brasil no final de década de 1940.

Hoje, Antério diz que praticamente não conversa com o irmão, Norberto, que mudou-se para o interior de Mato Grosso.

No final do texto, você pode assistir ao vídeo do programa Domingo Espetacular, da TV Record. É uma reportagem especial com detalhes inéditos de um atentado contra o estado brasileiro: Chacina de Unaí, o Dossiê.

Unai

A seguir, uma entrevista exclusiva com Antério Mânica, feita em Unaí.

Gustavo Costa: Quando aconteceu a Chacina de Unaí, o senhor ficou preso quanto tempo?
Antério: Fui preso faltando 18 dias, aliás, às 18 horas, fui preso porque depois da meia noite não poderia mais ser preso porque faltavam 15 dias [para a eleição], e eu era candidato. E a Polícia Federal e a Civil, que investigou, até hoje não encontrou sequer indícios de minha participação no crime. Um juiz, que está afastado e sendo investigado neste momento, por ofício me mandou prender. E cinco dias após a minha prisão, o Ministério Público Federal ofereceu uma denúncia. Então, fui preso seis horas antes do limite que não poderia ser preso por ser candidato. E faltando três dias para a minha diplomação, sem fato novo, este mesmo juiz me mandou prender. E as duas vezes eu fui solto por unanimidade, por habeas corpus no tribunal federal, em Brasília, por unanimidade dos desembargadores. Eu fiquei preso 17, 18 dias na primeira prisão e dois dias na segunda prisão.

Gustavo Costa: Segundo a investigação, o senhor e o seu irmão são os mandantes do crime. O senhor mandou matar os auditores fiscais do Ministério do Trabalho e o motorista?
Antério: Absolutamente. Eu falo por mim, não tenho nada a ver com este crime. Tanto é que a Policia Federal e Civil, com delegado escolhido a dedo, não encontraram até hoje sequer indícios de participação minha.

Gustavo Costa: Qual a relação do senhor com o empresário Hugo Pimenta, acusado de ser um dos intermediários da chacina?
Antério: Praticamente nenhuma. Ele era comprador de feijão, mas eu praticamente não comercializava com ele. Não era meu inimigo, mas não tinha relação próxima com ele.

Gustavo Costa: O senhor conhecia o Nelson [José da Silva], um dos fiscais assassinados?
Antério: Conhecia, praticamente nunca conversamos. A imprensa divulgou que tem ameaças minhas pra ele. Na verdade, o que tem no processo é uma ameaça, segundo o processo, que um irmão meu, Norberto Mânica, teria feito, num escritório, com um perfurador de saco de feijão para amostragem de feijão. Comigo mesmo, nunca tivemos uma troca de palavra sequer. Essa é a verdade. Não foi o que a imprensa divulgou. E muitas vezes o próprio Ministério Público tem divulgado inverdades, como por exemplo, o último relato no site a respeito desta decisão do STJ. No site do Ministério Público de Minas Gerais diz que fui preso em 2007. É mentira. No site, nesta mesma reportagem, fala que eu entrei com recurso para procrastinar o julgamento. Faltaram com a verdade, literalmente. Eu não sei porque eles fazem isso. Desde o início do processo eu entrei com três recursos no Tribunal – a não ser os habeas corpus – os três pedindo julgamento imediato, e por três vezes o Ministério Publico Federal entrou com recurso e conseguiu adiar meu julgamento e o meu será depois que os de todos os outros acusados. Então, o Ministério Público falta literalmente com a verdade, mente, para ser mais enfático. Só nesta última matéria, duas mentiras: que eu entrei com um recurso para procrastinar meu julgamento, quando foram eles. Eles falam ao contrário. E contaram lá que fui preso em 2007. Outra inverdade, fui preso antes de assumir, em 2005. E depois disso nunca mais fui preso, fui chamado, intimado, nunca mais.

Gustavo Costa: O auditor fiscal Nelson fiscalizou sua propriedade?
Antério: A minha ele fiscalizou, fiscalizou a fazenda de todos os produtores aqui de Unaí, produtores de médio porte pra cima, ele fiscalizou a região.

Gustavo Costa: O senhor foi autuado por trabalho degradante?
Antério: Não, jamais fui autuado por trabalho degradante ou por trabalho escravo. Até digo mais: aqui em Unaí tem dois ou três casos de pequenos produtores e carvoeiros que foram autuados por trabalho degradante. Nós temos o ex-prefeito, que me antecedeu, que foi autuado numa fazenda dele, no Pará. Então, Unaí não tem disso. E digo mais, não só a minha fazenda, o padrão dos produtores rurais e empresariais de Unaí é um dos melhores do país. E as autuações são das mais normais possíveis. As multas milionárias divulgadas por todos os meios de comunicação, eu não sei onde acharam isso. Mentira em cima de mentira, multas milionárias que nunca existiram.

Gustavo Costa: Se o senhor foi autuado, lembra do valor que pagou?
Antério: 5 mil, 20 mil, 3 mil. É assim: a autuação, se você pagar na hora, paga com 50% do valor, se entrar na Justiça, tem que depositar 100% do valor e passar 20 anos brigando. Então, o pessoal que nos assessora diz que é interessante pagar o valorzinho em vez de brigar anos e anos na Justiça.

Gustavo Costa: O senhor teve contato com o Chico Pinheiro ou com o Zezinho? [Chico, agenciador dos matadores; José Alberto de Castro, o Zezinho, intermediário]
Antério: Esse Zezinho eu devia conhecer porque a mãe dele chegou a morar do lado da minha mãe aqui na cidade, mas não tinha relacionamento nenhum. E os outros, conheci na penitenciária Nelson Hungria, quando fui preso eles estavam lá. Nunca tinha visto essas pessoas e nunca tive contato com eles.

Gustavo Costa: Antes do crime, o senhor ligou para a Delegacia do Ministério do Trabalho, em Paracatu, para oferecer uma coroa de flores ao fiscal Nelson?
Antério: Isso é piada, para não dizer mais. Na verdade, no dia que aconteceu a tragédia eu dei depoimento para Polícia Federal, fui intimado e eles confirmaram isso tudo. O gerente [Juca] da cooperativa – que eu fui fundador, presidente por dois mandatos, associado número 001 – me ligou [dizendo] que um outro produtor passou no local [do crime] e viu e ligou pra ele. E ele me ligou da cooperativa. Tá tudo no processo, as ligações. Me ligou perguntando, e eu disse “não sei”. Aí, eu liguei depois do crime, meia hora, uma, duas, sei lá, eu liguei [para o Ministério do Trabalho] porque a delegada, doutor Dália, a gente criou um condomínio rural, a gente tinha e criou uma proximidade, liguei que a conversa era que teve um problema com fiscais. Liguei do meu telefone, da minha casa, não era ainda este apartamento, liguei, é o Antério Mânica, houve o acidente, confirma? A Dália não estava, aí a moça disse não estou sabendo de nada. Liguei pro Juca na cooperativa dizendo “o pessoal não sabe de nada”. Ele [Juca] me ligou depois de uns 15,20 minutos, olha, confirmou [a morte dos fiscais], ligaram de lá. Aí voltei a ligar, olha, confirmou. Na maior boa fé do mundo, da minha casa, do meu telefone. Aí começa a história que eu queria confirmar se tinha morrido todo mundo? Ora, se o pessoal [os assassinos] tava aí, tinha que ter ido atrás deles e não ligar lá.

Gustavo Costa: Antes, o senhor ligou?
Antério: Não, nem… Fazia seis meses ou um ano que eu não ligava para o Ministério do Trabalho, não existe ligação. Não sei quem criou esta fantasia.

Gustavo Costa: E um pouco depois?
Antério: Isso. Está esclarecido tudo. Me ligaram da cooperativa. Fazia muito tempo que eu não falava com Hugo, Zezinho, com Ministério do Trabalho. Ouvi falar da história da coroa, isso é fantasia, é loucura.

Gustavo Costa: Como o senhor ficou sabendo das mortes?
Antério: O gerente da Coagril [Cooperativa Agrícola de Unaí], Juca, me ligou. Liguei lá [no Ministério do Trabalho] para saber se era verdade.

Gustavo Costa: O que o senhor tem a dizer sobre a demora para o julgamento?
Antério: Tá aí gravando, não sei qual a intenção do Ministério Público em faltar com a verdade. Eu assino embaixo de tudo o que estou dizendo. Eu quero ser julgado. Entrei com três pedidos de julgamento imediato na Justiça. Quero que isso acabe. Porque o que está no processo, não é o que o Ministério Público divulga, e muito menos o que a grande imprensa tem feito a respeito do meu nome. E a luta do Ministério Público pra me levar a Belo Horizonte é porque não querem que eu seja julgado pelos meus pares, por pessoas que me conhecem há 35 anos, eles querem criar um monstro lá em BH do Antério Mânica, com mentiras em cima de mentiras. Não existem multas milionárias, não existe recurso para procrastinar, não existe coroa de flores, isso é fantasia, alucinação. Eles criaram do Antério Mânica um monstro. Fui eleito e reeleito, e tenho respeito, a não ser meia dúzia de adversários por problemas de política, assim mesmo não tenho inimigo, posso ter adversário.

Gustavo Costa: O senhor tem preferência do local do julgamento, Belo Horizonte ou Unaí?
Antério: É lógico que eu tenho, as pessoas aqui sabem quem é Antério Mânica de verdade. Lá eles não têm nada do Antério, só poucas pessoas me conhecem. Mas eu quero ser julgado, mesmo que seja em BH, não tenho nada a ver com essa história. O Ministério Público mente deliberadamente sobre a minha pessoa e acredito que é influência do sindicato dos auditores fiscais. Eles contam a versão deles, que é mentirosa, falo do meu, nesta questão. A verdade é que não fui indiciado pela Polícia Civil e Federal até hoje.

Gustavo Costa: O senhor foi condecorado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais?
Antério: Fui condecorado. Eu não tenho nada a ver com crime, sou inocente, uma pessoa trabalhadora, tive 8 anos de prefeito. E recebi a homenagem por coisas que você mesmo pode conferir na cidade, tenho a aprovação de muita gente. Ele [deputado estadual Durval Ângelo, do PT, que convocou Antério para depor], como um presidente da Comissão de Direitos Humanos, vem me condenar sem me julgar. Olha, sou ser humano também. Ele, desinformado, com informações nada a ver, mentirosas, chegou a ser duro demais, grotesco comigo. Eu sou um ser humano. Ele tinha que me respeitar mais, mas pelo menos foi o único que me deu a oportunidade de falar ao vivo. A imprensa edita, corta, fala do jeito que quer, não passa. Eu não tenho pago imprensa pra falar a verdade. Mas não sei se o sindicato dos auditores fiscais não paga, não sei o seu interesse de vir aqui, se tem alguém bancando, não sei. Essa é a grande verdade: sou inocente, não tenho nada a ver com este crime. Não fui indiciado e olha, não encontraram sequer indícios, que dirá culpa.

[Gustavo Costa quer investigar a ameaça aos awa guajá, indígenas que correm risco de extinção, por parte de madeireiros. Patrocine o documentário, clicando aqui]

O senhor será candidato a deputado?
Antério: Olha, como eu te disse. Fui candidato a deputado federal em 98, candidato a prefeito em 2000, 2004, 2008. Será que eu tenho que abrir mão de uma coisa que faço desde jovem? Isso me satisfaz, eu gosto disso.

Gustavo Costa: Os acusados de intermediários ou de execução em algum momento mencionaram o seu nome ou do seu irmão?
Antério: Não sei. Não tenho conhecimento, mas se alguém usou, usou faltando com a verdade.

Gustavo Costa: Qual a sua opinião sobre o crime?
Antério: Um crime bruto. A versão que eu ouvi na Justiça Federal, quando estava preso, estavam todos juntos na sala, alegaram que [os assassinos] estavam numa fazenda para ver e roubar de noite. Na volta viram uma caminhonete e resolveram roubar. Na hora alguém se assustou e deram um tiro e mataram todos. Pra falar a verdade, não procurei me aprofundar. Não tenho nada a ver com isso.

Gustavo Costa: O senhor acredita em crime de mando?
Antério: Não foi o que eles contaram lá, mas pode ser também. A Polícia Federal, que não me indiciou, indiciou o resto. Eu sei que comigo a polícia foi justa, não tem indícios.

Gustavo Costa: E o Marea? [Segundo a polícia, o Marea é um dos carros apreendidos com os envolvidos na chacina. O veículo seria da mulher dele, Bernadette Mânica]
Antério: Tinha um Marea, ficou de 5 a 6 anos. Agora de ser meu ou da minha esposa, é o argumento que eles usaram. Que alguém teria visto um Marea na noite anterior ao crime, é o que está no processo, e que eu liguei na Delegacia do Trabalho para saber se tinham morrido. Se tinha Marea ou não tinha, eu não sei. Mas não era o da minha esposa e não era eu. A gente se incomoda com o fato do Ministério Público fazer este tipo de coisa. Se eu tivesse 1% de tudo o que a gente fala que tenho, era muito mais rico. Não dá pra se dizer pobre, não, temos capital razoável, muita luta, muito trabalho, sem dar prejuízo pra ninguém. Tem um irmão meu aí, o Norberto [o outro acusado de ser mandante] que está sendo acusado, deu problema na cidade, vendeu a fazenda agora, separou da família, entortou a vida.

Gustavo Costa: Está em Mato Grosso agora?
Antério: É [em Paranatinga].

Gustavo Costa: Como ficou a relação do senhor com o seu irmão Norberto depois dos assassinatos?
Antério: Praticamente a gente não conversa. Eu não briguei com ele, ele se distanciou da família. Ficou dois anos sem visitar a minha mãe. Faz cinco que a minha mãe morreu. Ele veio no enterro. Mas não temos relacionamento.

Gustavo Costa: O Hugo [acusado de ser intermediário no crime] diz que o seu irmão deve pra ele quase um milhão de reais. O senhor também acredita na inocência do seu irmão?
Antério: Não sei. Na verdade, ele, o Hugo e o Zezinho, pelo que tá no processo, eles se falavam de minuto em minuto, tinham proximidade. Eu não acredito que tenha um envolvido sem os outros estarem. Porque eu vi no dia do depoimento, lá em BH, tava meu irmão, o Hugo, o Zezinho e todos aqueles que estavam presos. Inclusive o que faleceu, o Chico.

Gustavo Costa: O Hugo enriqueceu?
Antério: Dizem que enriqueceu. Eu vi o Hugo quando veio aqui. Nunca tinha nem visto na rua. O Hugo saiu do hangar e mostrou dois aviões. Mas eu não sei qual é o patrimônio [dele].

Gustavo Costa: O que mudou na sua vida depois do episódio da chacina?
Antério: Vocês não sabem, dei hoje um depoimento. Isso é um inferno na vida da gente. Se vê todo dia uma bobagem na imprensa, uma mentira. E fala na imprensa… E eu provo. Eu quero ser julgado pra acabar com esse inferno. Sabe o que é colocar a cabeça no travesseiro e pensar: se for condenado é morrer na cadeia, quatro crimes bárbaros como estes.

Gustavo Costa: O senhor nunca ameaçou o Nelson, fiscal do Ministério do Trabalho?
Antério: Não ameacei o Nelson. Norberto e Antério vão misturando… Gente, a nossa família é humildade total. Pelo patrimônio que nós temos, olha como vivemos, a casa. Saímos do nada. Não foram nossos pais que fizeram patrimônio, fomos nós.

Abaixo, vídeo do Domingo Espetacular com as provas que o MPF tem sobre o envolvimento de Antério Mânica na chacina.

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Luis Nassif: A birra de O Globo com os pobres

9 de novembro de 2012

Luis Nassif em seu blog

Não se entende onde o jornal O Globo pretende chegar com sua série “Os mercadores da miséria”, criticando os programas sociais, especialmente Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria.

Na chamada série, o jornal promete:

“[…] O Brasil Sem miséria, programa criado pela presidente Dilma para erradicar a pobreza extrema, tem sido alvo frequente de fraudes, revelam Alessandra Duarte e Carolina Benevides numa série de reportagens que O Globo inicia hoje”.

Qualquer realidade complexa – uma grande empresa, um organismo estatal ou privado, um programa de governo – pode ter grandes virtudes e pequenos defeitos; ou grandes defeitos e pequenas virtudes. Se o veículo for mal intencionado, basta dar destaque aos pequenos defeitos (quando for para denunciar) ou às pequenas virtudes (quando for para enaltecer). E esquecer que existe a estatística para avaliar o peso tanto de um quanto de outro.

Se quisesse criticar o modelo de concessão de aeroportos, as dificuldades do Plano de Ação Continuada (PAC), a barafunda burocrática, os desperdícios da administração pública, o jornal teria um bom material jornalístico. Mas a birra do jornal é com programas voltados aos mais necessitados.

A principal “denúncia” de O Globo, manchete principal, foi do gato que recebia como beneficiário e de dono de Land Rover que seria beneficiário de R$60,00 por mês.

O que deixou de contar:

1. O fato ocorreu em 2009, muito antes da criação do Brasil Sem Miséria.

2. Toda família matriculada em programas sociais precisa submeter as crianças a exame médico. Quando a família não apareceu, o médico foi atrás da criança e descobriu tratar-se de um gato.

3. Descoberto o golpe, pelos próprios mecanismos do programa, o dono foi denunciado à polícia, está respondendo por dois crimes, inclusive pelo crime de falsidade ideológica.

Tal fato ocorreu há quatro anos e foi objeto de inúmeras reportagens na época. De lá para cá passaram três ministros e dois presidentes pelo programa. Qual a razão de ludibriar assim os leitores requentando uma notícia velha?

A outra denúncia, sobre o dono do Land Rover, além de antiga, foi apresentada de forma incorreta. O tal empresário registrou laranjas no Bolsa Família. Tratava-se de um explorador, que foi identificado e processado.

Outra “denúncia” foi o de uma senhora que afirmou não receber mais o benefício. Vai-se conferir, ela deixou de atualizar seu cadastro. Exige-se a atualização de cadastros justamente para evitar fraudes. Mas o jornal condena o programa por ter gato, e condena por não ter gato.

A maioria absoluta dos episódios de fraude relatados foi desvendada pelos próprios sistemas de controle do Bolsa Família. Mesmo que tivessem sido levantados por terceiros, ainda assim são estatisticamente irrelevantes.

Qual a intenção de levantar meia dúzia de casos para desacreditar um programa que assiste a milhões de miseráveis?

Intenção eleitoral, não é. As eleições de 2012 já aconteceram e o Bolsa Família já está assimilado pelos eleitores. Tanto assim que o PT não se deu bem no Nordeste. Quem quiser coração e mentes desses eleitores, até o governo, daqui para frente terá que oferecer outros benefícios.

Só pode ser birra com pobre.

Recordar é viver: Como a Globo deu o golpe da barriga em FHC e enviou Miriam para Portugal

4 de novembro de 2012

Fotomontagem de FHC e Miriam Dutra

Palmério Doria, lido na redecastorphoto, texto publicado em 16/7/2011

Assim como existe carro-forte, existe armário-forte. O do caso FHC-Miriam Dutra não abria nem com pé-de-cabra até abril de 2000, quando Caros Amigos veio com a primeira reportagem sobre o assunto. A revista entrega o jogo logo de cara. “Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo” é o título que ocupa toda a capa. Não entra em tricas nem futricas, denuncia o silêncio dos grandes grupos de comunicação diante de “um fato jornalístico”, como diz o título da reportagem.

Por isso, os jornalistas que assinamos a matéria de seis páginas – eu, Sérgio de Souza, Mylton Severiano, Marina Amaral, José Arbex e João Rocha – deixam de lado quase todos os detalhes que cercam o romance para ir fundo no essencial: por que, quando lhe interessa, a mídia publica que fulano ou cicrano teve caso fora do casamento; e naquele caso, passou uma década escondendo o caso FHC-Miriam Dutra. Então, em 2000, não era o caso de contar que…

● … o caso de amor começa com a bênção de outro par constante, Alberico de Souza Cruz, o todo-poderoso diretor de jornalismo da Rede Globo, e Rita Camata, a bela deputada federal do PMDB, sensação do Congresso, mulher do senador capixaba Gerson Camata, que um dia seria candidata a vice de Serra nas eleições presidenciais de 2002.

● … mais saborosa que a pauta da Constituinte, as andanças do quarteto na noite brasiliense eram o grande assunto nos círculos políticos e nas redações. Contudo, os diálogos e as situações vividas por eles não renderam um mísero gossip em coluna social alguma.

● … o bafafá com status de rififi que se instalou no gabinete de Fernando Henrique, ouvido no corredor por jornalistas do naipe de Rubem Azevedo Lima, e presenciado por seus assessores, quando Miriam Dutra foi comunicar-lhe a gravidez, seria digno dos melhores bordéis do mangue: “Rameira!”, xingava o senador aos berros. Tudo com direito a efeitos especiais, arrematados por um chute de bico de sapato de cromo alemão no circulador de ar.

● … a operação cala-a-boca-da-Miriam foi organizada por uma força-tarefa: Alberico de Souza Cruz; o então deputado federal José Serra; e Sérgio Motta, que tinha coordenado a campanha de Fernando Henrique para o Senado, seu amigo mais íntimo.

● … o trio maravilha se desdobra. Providencia a mudança da futura mamãe para apartamento mais confortável na Asa Sul – ao botar o colchão no caminhão, um dos carregadores alisou-o e disse para os colegas: “Este é do senador.” (ah, esse povo brasileiro); e, depois do nascimento da criança, à medida que se projetava a candidatura de Fernando Henrique à Presidência, tratam de mudar Miriam para outro país. No caso, Portugal, onde a Globo era parceira da Sociedade Independente de Comunicação (SIC), primeira estação portuguesa de televisão privada. Aí a repórter iniciaria a longa carreira de última exilada brasileira, que chega aos nossos dias.

● … Ruth Cardoso, antropóloga, pouco ficava em Brasília. Tocava vida própria em São Paulo, o que facilitava o caso extraconjugal do marido.

● … Fernando Henrique não contou para Ruth Cardoso o caso extraconjugal durante certa viagem a Nova Iorque como se propala, mas numa casa isolada nos arredores de Brasília, onde o casal descansava nos fins de semana. Foi pouco antes de ele assumir a candidatura. Não se sabe, claro, o que conversaram. O certo é que, por volta das 8 da manhã, jornalistas que ali davam plantão, viram um Gol sair em disparada, com Fernando Henrique ao volante e a mulher ao lado. E foram atrás deles até o Hospital Sarah Kubitschek, onde o casal desapareceu.

● … a futura primeira-dama reapareceria com um braço na tipoia no saguão do hospital. Ao ser abordada pelos repórteres, perdeu sua habitual presença de espírito e afastou-os, quase explodindo: “Me deixem em paz!”

Segredos de polichinelo
Não havia, como não há hoje, jornalista em Brasília que não soubesse de tudo quanto se passa, às claras ou nos bastidores. Segredos de polichinelo. Veja fez uma reportagem, mandou repórter atrás de Miriam na Europa (não por coincidência, Mônica Bergamo, que viria a dar na Folha, em 2009, a notícia do reconhecimento do filho adulterino por Fernando Henrique, 18 anos depois). Mas, naquela época, a semanal nada publicou.

Nós também fomos atrás dela na Espanha, onde Miriam passou a morar depois de Portugal: “Perguntem para a pessoa pública”, foi a única coisa que deixou escapar. Ao mesmo tempo, fomos atrás de uma história que envolveu toda a imprensa. E volta a envolver: a história de Tomás Dutra Schmidt. Que a maioria dos colegas, na sua anglofilia, transformou em Thomas. Está lá, no registro do Cartório Marcelo Ribas, conforme cópia autenticada obtida por Marina Amaral, a quem bastou sair do hotel em Brasília, atravessar a pista e entrar no edifício Venâncio 2000, 1º andar, onde a avó materna de Tomás foi declarante do nascimento, ocorrido a 00:15 de 26 de setembro de 1991.

“Por que tanto segredo?”, perguntamos a todos os jornalistas que ocupavam postos de comando nas publicações em que trabalhavam durante a campanha presidencial de 1994. Cada qual apresentou suas razões. Alguns simplesmente desqualificaram o fato.

Outros apelaram para uma ética jornalística válida apenas para FHC. Outros confessaram ainda que guardavam matéria “de gaveta” para a eventualidade de um concorrente sair na frente.

Tentando fazer Caros Amigos sustar a matéria, houve vários tipos de pressões, relatadas uma a uma na reportagem. Algumas sutis, outras ostensivas.

Um amigo jornalista me acenou com emprego público na Petrobras, durante almoço na cantina Gigetto, quando julgavam que eu era o único autor do trabalho. Tinha sido enviado pelo lobista Fernando Lemos, cunhado de Miriam Dutra. O mesmo Lemos que mandou um dublê de jornalista e lobista à redação de Caros Amigos, dizendo estar intercedendo em nome da própria jornalista da Globo, o que ela negou de pés juntos lá em Barcelona.

Um deputado federal do PT ligou-nos para dar “um toque”. Disse que o Planalto estava preocupado com “uma matéria escandalosa” que estaríamos fazendo.

O afável colega Gilberto Mansur chamou Sérgio de Souza e seu sócio Wagner Nabuco de Araújo para jantar no Dinho’s Place da avenida Faria Lima. Começou suave, ponderando que a revista ia criar problemas para si própria, que aquele assunto era irrelevante, que, deixando aquilo pra lá, Caros Amigos passaria a ter o mesmo tratamento da grande imprensa em matéria de anúncios estatais. Vendo que Sérgio de Souza era irredutível, deixou claro que podíamos esquecer a publicidade oficial se publicássemos a matéria, o que já acontecia na prática.

Eternamente otário
Na época, Gilberto Mansur, ex-diretor da revista masculina Status, um mineiro maneiro, era braço direito do publicitário Agnelo Pacheco, que havia conquistado a confiança do secretário de Comunicação de FHC – e homem das verbas publicitárias, portanto.

Falamos do embaixador Sérgio Amaral, porta-voz da Presidência, que o colunista de humor José Simão chamava de “porta-joia”, sempre com a pose de “nojo de nóis”.

Juntos, Agnelo e Amaral “operavam” a Caixa Econômica Federal. Agnelo adorava dizer que era um dos depositantes do “Bolsa Pimpolho”, que financiava a vida de Miriam Dutra e seu filho no continente europeu.

O que não tem a menor relevância perto do custo Brasil para alimentar a conspiração de silêncio em torno do romance. Existem hoje, no eixo Brasília-São Paulo, grupos de picaretas que ficaram ricos graças a esse adultério, bem como ao falso DNA agora brandido pela família Cardoso, a fim de evitar mais um herdeiro a dividir l’argent que FHC vai deixar.

Absolutamente contra sua vontade, FHC cai de novo na boca do povo. Mesmo nas edições online dos grupos de comunicação que tanto faturaram para esconder o romance, seus leitores vêm pérolas, tais como este comentário sobre a notícia da Folha do teste de DNA negativo, repercutindo nota da coluna Radar, de Veja – autora do furo:

A Globo deu golpe da barriga em FHC: O Brasil pagou caro essa pensão. FHC, quando era ministro da Fazenda, isentou de CPMF todos os meios de comunicação. Em 2000 houve o Proer da mídia, que custou entre US$3 bilhões e US$6 bilhões aos cofres públicos. Ele também mudou a Constituição para permitir que a mídia brasileira, então falida, pudesse contar com 30% de capital estrangeiro. E autorizou que o BNDES fizesse um empréstimo milionário à Globo.

Ricardo J. Fontes: DNA falso você pode conseguir com qualquer R$10 milhões em qualquer esquina de São Paulo ou Washington, onde Tomás estuda. Mas se FHC, de fato, não for o pai, o Brasil merece conhecer o pai verdadeiro, o homem que tomou dinheiro dos Marinhos e de FHC durante 20 anos e carimbou de vez o ex-presidente como, além de entreguista, zé-mané, trouxa, pangaré, terceirizado. Enfim, otário.

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Coletânea de textos: FHC, o vendilhão da Pátria

Renovação tucana envolve até Luciano Huck

4 de novembro de 2012

Apresentador da Globo é o primeiro nome lembrado numa reportagem de O Estado de S.Paulo sobre eventuais “apostas para o futuro” do PSDB. O rumor do projeto político de Huck circulou no ano passado, quando ele foi objeto de capas de Alfa e Veja, duas revistas da Editora Abril. É assim que o partido vai se aproximar dos mais pobres, como pretende FHC?

Via Brasil 247 e lido no Blog da Dilma

Numa extensa reportagem de domingo, dia 4, assinada pela bem informada repórter Julia Dualibi, O Estado de S.Paulo aponta quais seriam as grandes apostas do PSDB para o futuro, em seu projeto de renovação defendido por lideranças como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador Aécio Neves (leia mais aqui).

Entre os nomes citados, o primeiro é o do apresentador da Globo, Luciano Huck. “O apresentador de tevê, amigo de Aécio e FHC, é apontado como possibilidade no médio prazo. Para tucanos, Huck poderia disputar o senado em 2018”, informa o Estadão.

No passado recente, ele foi capa de duas revistas da Abril: uma de Veja, que falava da “reinvenção do bom-mocismo”; e uma de Alfa, em que Huck insinuava seu desejo de disputar a Presidência.

A reação foi forte, inclusive aqui no Brasil 247, que o apontou como novo Collor (leia mais aqui), e o apresentador nunca mais tocou no assunto. No domingo, dia 4, no entanto, voltou a ser lembrado.

Em seu artigo deste fim de semana, FHC fala da necessidade do PSDB de se aproximar dos mais pobres e deixar de ser visto como o “partido dos ricos”. Será que é possível como uma aposta tão identificada com o estereótipo do “mauricinho”?


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