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Reino Unido tem 13 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza

17 de janeiro de 2014

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Entre 2011 e 2012, 128.697 pessoas recorreram a estes bancos. Em 2012 e 2013, a cifra quase triplicou: 346.992. Já há mais de 400 bancos de alimentos no país.

Marcelo Justo, via Carta Maior

É a sexta economia mundial, origem da Revolução Industrial, ex-império que dominou o mundo tem cerca de 13 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Com um duro plano de austeridade que está socavando lentamente o Estado de Bem estar, salários estagnados, explosão do emprego temporário e de meio turno, muitos têm que recorrer aos bancos de alimentos das ONGs no Reino Unido.

A Fundação Trussell Trust tem mais de 400 bancos de alimentos em todo o país. O impacto do programa de austeridade aplicado pela coalizão de conservadores e liberais democratas desde 2010 é claro. Em 2011-2012, 128.697 pessoas recorreram a estes bancos. Em 2012-2013, a cifra quase triplicou: 346.992. “Há muita gente que come uma vez ao dia ou tem que escolher entre comer e acionar a calefação em pleno inverno”, disse à Carta Maior o diretor da Trussell Trust Chris Mould.

Os especialistas medem a pobreza em termos absolutos (virtual incapacidade de sobrevivência) e relativos (em relação à renda média e às expectativas de uma época). Hoje em dia não ter uma geladeira é um indicador de pobreza; em 1913, data de invenção da geladeira doméstica, era um luxo. Segundo o Trussell Trust, um de cada cinco britânicos se encontram hoje em situação de pobreza relativa ou absoluta. “É fácil esquecer que se pode cair muito rápido nesta situação. Uma demissão, uma conta muito alta de eletricidade, uma redução dos benefícios sociais, um drama familiar e essas pessoas ficam sem nada”, explica Mould.

Esta pobreza se estende para além do desemprego. A atual taxa de desocupação de 7,7% (2,5 milhões de pessoas) encobre um panorama social complexo. Quase 1,5 milhão de pessoas tem trabalhos de meio turno e com salários baixíssimos que geraram o movimento pelo chamado “living wage” (salário digno).

O percentual de subempregados (que desejariam trabalhar mais se pudessem) aumentou de 6,2% em 2008 para 9,9% hoje. “A maioria da ajuda estatal não vai para os desempregados, mas sim para pessoas que estão subempregadas ou têm salários muito baixos. Muitas vezes pela própria instabilidade destes trabalhos as pessoas entram e saem de situações de extrema necessidade”, diz Mould.

A esta pobreza de receita se somam outras formas no Reino Unido, como a chamada “pobreza energética” dificilmente visualizada na América Latina seja pela diferença climática ou porque ainda não foi conceitualizada. Este nível de pobreza afeta cerca de 3,4 milhões de pessoas (cerca de 6% da população) que tem que gastar mais de 10% de suas receitas para “manter um nível adequado de calefação” durante os cinco meses ou mais de duração do inverno britânico. Muitos não têm escolha e deixam a calefação desligada porque não podem pagar as contas.

Um caso particular

Uma britânica que não pode ligar a calefação no inverno é Geraldine Pool, de Salisbury, sudoeste da Inglaterra, diagnosticada com depressão, divorciada, com um filho e sem trabalho. A Carta Maior conversou com Pool, um caso típico do impacto devastador que a austeridade está tendo em muitas vidas. “Em 2011 perdi meu trabalho em uma biblioteca pública pelos cortes do governo. Desde então, busquei trabalho em administração, supermercados, seja o que for, mas é muito difícil para alguém com mais de 50 anos porque sempre preferem os mais jovens”, disse Pool.

O Estado paga a ela 61 libras semanais (99 dólares) a título de seguro desemprego e fornece assistência habitacional. “Não é suficiente. Se uso a calefação, as contas sobem para quase 300 libras semanais”. Neste momento não tenho água quente. Tenho que esquentar a água para me lavar”, explica Pool.

Pool tinha ouvido falar dos bancos de alimentos, mais foi por causa de sua médica do Sistema Nacional de Saúde que acabou indo a um. “Não queria recorrer a isso. Mas foi fundamental. Com os “vouchers” (vales) me deram latas de carne, peixe, massa, leite, açúcar. Umas seis semanas depois, no último Natal, tive um segundo pacote muito completo de alimentos”, assinalou à Carta Maior.

Os Bancos de Alimentos procuram trabalhar muito perto da comunidade e funcionam com as contribuições voluntárias da população e, em muito menor medida, de supermercados ou fazendeiros. “Cerca de 95% dos alimentos que temos vem das pessoas a quem pedimos que adquiram dois itens adicionais em um supermercado que sirvam para uma nutrição balanceada”, informa Mould.

Os bancos se conectam com figuras chave da comunidade em consultórios médicos, hospitais, serviços sociais, igrejas e, em alguns casos, da polícia que identificam as pessoas que podem necessitar estes vales para ter acesso a um pacote de alimentos. Em um caso raro de sensibilidade social, a polícia de Islington, no norte de Londres, não prendeu um jovem que havia tentado roubar pão e ovos de um mercado, após passar dias sem se alimentar direito. Quando a pessoa em questão, Adam, relatou seu drama o levaram ao banco de alimentos onde, segundo o testemunho dos próprios policiais, começou a chorar.

A Trussell Trust calcula que necessitará uns “200 ou 300 bancos de alimentos mais” para cobrir todo o Reino Unido, mas é consciente que, com toda sua boa vontade, funciona como um paliativo: necessário, muito útil, mas insuficiente. “Nós intervimos nestes momentos de emergência e se for necessário ampliamos nossa assistência. Mas o que é preciso é uma política social para o emprego, a habitação, salários dignos e estímulos ao crescimento. Devido a todos os cortes que ocorreram, estamos inundados de trabalho”, apontou Mould à Carta Maior.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer.

EUA e Reino Unido “derrotaram” criptografia na internet

9 de setembro de 2013

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Agência Nacional de Segurança Nacional (NSA) e sua correlata britânica, o GCHQ, decifraram uma grande parte dos códigos criptografados na internet que protegem a privacidade de e-mails, registros bancários e médicos de centenas de milhões de pessoas. As agências celebraram o feito em tom triunfalista assinalando em suas mensagens que “derrotaram a segurança e privacidade da rede”.

Marcelo Justo, de Londres, via Carta Maior

Com a visita oficial da presidenta Dilma Rousseff aos Estados Unidos por um fio, com as queixas de Brasil e México a Barack Obama na cúpula do G20 e com o pano de fundo de uma investigação do Parlamento Europeu, o jornal The Guardian voltou a colocar o dedo na ferida publicando novas revelações sobre as agências de espionagem eletrônica dos Estados Unidos e Reino Unido. Segundo o matutino britânico, a Agência Nacional de Segurança Nacional (NSA) e sua correlata britânica, o GCHQ, decifraram uma grande parte dos códigos criptografados na internet que protegem a privacidade de e-mails, registros bancários e médicos de centenas de milhões de pessoas. As agências celebraram o feito em tom triunfalista assinalando em suas mensagens que “derrotaram a segurança e privacidade da rede”.

Os documentos entregues ao The Guardian pelo ex-analista de inteligência da CIA, Edward Snowden, revelam que um programa criado há dez anos pela NSA conseguiu em 2010 a decodificação de material criptografado que tornou uma vasta quantidade de dados acessíveis e manuseáveis. O nome do programa é Bullrun em homenagem a uma famosa batalha da guerra civil dos Estados Unidos, enquanto que o programa britânico do GCHQ é Edgehill, primeira batalha da guerra civil inglesa do século 17. Se cabem o simbolismo e a interpretação, poderia se dizer que para ambas as agências a espionagem eletrônica é uma questão bélica e a guerra contra o processo de criptografia é uma espécie de “mãe de todas as batalhas”.

A NSA está gastando cerca de 250 milhões de dólares anuais em outro programa que permite trabalhar com as grandes empresas tecnológicas para obter “uma influência oculta” sobre o desenho de seus produtos com a construção de “portas traseiras” no software para obter acesso à informação antes que seja criptografada e enviada pela internet. Este programa é dez vezes mais caro que o Prisma, revelado também por Snowden e pelo The Guardian em junho deste ano, que permite à agência estadunidense acessar milhões de e-mails e chats ao vivo.

Desde 2011, os Estados Unidos gastaram 800 milhões de dólares nesta colaboração com as empresas tecnológicas. O nome das empresas que trabalham em parceria com a NSA é considerado “top secret” nos documentos estadunidenses, mas nos britânicos se revela que, desde 2010, o GCHQ vem desenvolvendo métodos de ingresso no Hotmail, Google, Yahoo e Facebook.

Essa série de revelações do The Guardian causou uma interminável tormenta política. Em uma entrevista concedida em São Petersburgo, Rússia, no marco da cúpula do G20, Dilma Rousseff comentou que o presidente Barack Obama “assumiu responsabilidade direta e pessoal pela investigação das denúncias de espionagem” e se comprometeu “a responder ao governo brasileiro até quarta-feira o que ocorreu”. No último domingo, Glenn Greenwald, o jornalista do Guardian que revelou as informações vazadas por Edward Snowden, indicou que houve espionagem eletrônica da NSA contra Dilma e o presidente mexicano Enrique Peña Nieto, que também espera explicações de Obama.

Enquanto isso, o parlamento europeu iniciou quinta-feira sua investigação sobre a espionagem da NSA a cidadãos europeus e aos governos e instituições da União Europeia. Na quinta, os parlamentares receberam um pedido por vídeo conferência do editor-chefe do Guardian, Alan Rusbridger, para que a liberdade de imprensa seja protegida. “O jornalismo está profundamente ameaçado pela vigilância massiva”, assinalou Rusbridger.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Mauro Santayana: O funeral de uma “mulher perversa”

18 de abril de 2013
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“Apodreça no inferno, Maggie Thatcher.”

Margaret Thatcher simbolizou o egoísmo, a ganância e o descalabro social.

Mauro Santayana, via Diário do Centro do Mundo

“Ela foi uma mulher perversa”, disse o eminente parlamentar George Galloway, o mais corajoso homem de esquerda da Grã-Bretanha da atualidade, ao protestar contra a falácia da tentativa de glorificação de Margaret Thatcher pelo governo conservador.

“Nós estamos gastando £10 milhões na canonização dessa mulher malvada, dessa mulher que arrasou a indústria britânica, da Escócia, no Norte, ao País de Gales, no Sul. A comparação com Churchill é rematado absurdo. Ele salvou a real existência de nosso país, enquanto Thatcher fez tudo o que pôde para acabar com 1/3 de nossa produção manufatureira e reduzir-nos ao que somos hoje.”

Os protestos populares da noite do sábado, dia 13, contra mais cortes no orçamento social britânico (que se iniciaram nos anos de 1980, com Margaret Thatcher), foram marcados pelas manifestações de júbilo pela morte da Dama de Ferro, que já se encontrava exilada de sua mente, acometida da doença de Alzheimer. Enquanto mantinha plena consciência de seus atos, planejou seus funerais com toda a pompa desejada: honras militares e cerimônia religiosa na Catedral de São Paulo – homenagens que não se prestaram à Rainha-mãe, quando de sua morte, em 2002.

Os cartazes exibidos pelos trabalhadores nas ruas de Londres foram impiedosos na expressão de sua revolta contra a única mulher, até agora, a chefiar o poder executivo de um país anglo-saxão.

No mesmo tom de Galloway manifestou-se Lord Prescott, que foi vice-primeiro ministro de Tony Blair: “Ela só defendeu os multimilionários, os banqueiros, os privilegiados. Nunca mostrou a menor compaixão pelos doentes, necessitados e desesperados”.

Prescott foi o primeiro a denunciar a pompa fúnebre, e sugeriu que apenas os multimilionários beneficiados por Thatcher contribuíssem para o enterro.

O consulado tirânico de Thatcher, com suas consequências abomináveis para os povos do mundo, deixa lições que não podem ser esquecidas. A primeira delas é a de que as massas, sem uma vanguarda política, e, assim, sem consciência social, são facilmente manobradas pelos líderes carismáticos da direita – ou de uma falsa esquerda.

Ela, como Hitler, nunca enganou. Desde seus primeiros passos na política, mostrou logo a que vinha. Como funcionária do primeiro escalão do Ministério da Educação, no governo Heath, mandou cortar a ração diária de leite fornecida às crianças das escolas públicas, como medida de economia, com o argumento de que os pais podiam dar-lhes o leite em casa. Diante dos protestos – os trabalhistas vaiavam-na aos gritos de “Thatcher ladra de leite!” – ela decidiu que as cantinas escolares distribuiriam 1/3 de copo de leite a cada criança, a fim de “evitar sua desnutrição”.

O corolário de sua estranha teoria política se resume em poucas palavras: não há sociedade; há indivíduos. Cabe a cada indivíduo buscar o seu bem-estar, sem nada pedir ao Estado. Em suma: se o Estado não protege os fracos, ele só existe para garantir os fortes. Abole-se, desta forma, o princípio imemorial da solidariedade tribal, assumida pelo Estado, que garantiu a sobrevivência da espécie.

A segunda lição é a de que a mobilização política é sempre mais poderosa do que os atos de violência, quando há ainda espaço para essa conduta.

Em 1983, quando terminaria o seu mandato, com a renovação da Câmara dos Comuns, um fato inesperado serviu para que, ganhando o pleito para os conservadores, permanecesse no poder: a insensatez de Galtieri em invadir as Malvinas, sem dispor de poder militar para isso, nem do necessário suporte diplomático. E o atentado do IRA, no ano seguinte, que visava matá-la, em um hotel de Brighton, e que fez cinco vítimas, consolidou seu poder.

O atentado pode ser explicado pela brutalidade da repressão contra os militantes irlandeses, prisioneiros em Ulster. O líder Bobby Sands e vários outros iniciaram uma greve de fome que terminou com a sua morte e a de nove de seus companheiros.

A contrarrevolução mundial de madame Thatcher contra os direitos do homem continua, na brutal insolência do neoliberalismo, sob o comando do Clube de Bilderberg e dos grandes bancos mundiais.

Em todos os países do mundo, principalmente na Europa, os pobres estão morrendo, por falta de empregos, de hospitais, de teto, de vontade de viver. Há endemia de suicídios, principalmente nos países meridionais. Thatcher morreu, mas Ângela Merkel está aí, para defender as suas ideias

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Um cartaz impiedoso, exibido sábado à noite em Londres, expressa o sentimento dos ofendidos e humilhados pelas “reformas” de Thatcher: “The bitch is dead” (A cadela morreu). Seus filhotes, no entanto, se multiplicam no mundo.

Se a Humanidade quiser sobreviver com a dignidade construída pela razão, e não se entregar a uma tirania universal, terá que reagir com a mobilização política dos cidadãos organizada em torno de iniciativas concretas que restabeleçam os direitos previstos nas leis que pretendiam assegurar, em todo o mundo, o Estado de bem-estar social, antes que seja muito tarde.

Anti-Thatcher: A BBC não sabe o que fazer com a música mais vendida da Inglaterra

14 de abril de 2013
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Alegria, alegria…

Ativistas anti-Thatcher levaram a música A bruxa morreu ao primeiro lugar e a BBC sofre pressão para não tocá-la na tradicional parada de domingo.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Liberdade de expressão é uma coisa realmente complicada: é mais fácil falar dela do que praticá-la. Um episódio mostra isso exatamente neste momento no país que supostamente é o berço da liberdade de expressão.

No meio de uma controvérsia que se espalhou toda a mídia britânica, está a venerada BBC. O que aconteceu: ativistas deflagraram uma campanha para comprar uma música anti-Thatcher para levá-la ao topo das paradas. A música é do Mágico de Oz e se chama “Ding dong, the witch is dead!” (Dim dom, a bruxa morreu!).

Objetivo alcançado.

Neste momento em que escrevo, é a número 1 na Inglaterra. E é aí que entra a BBC com seu excruciante dilema. Tradicionalmente, aos domingos, a principal rádio da BBC, a 1, toca as músicas mais vendidas, a conhecida parada de sucessos.

A questão que se ergueu barulhentamente: a BBC deveria tocar o hino anti-Thatcher, a três dias de seu funeral? Os comentaristas conservadores da mídia saíram gritando que não. Que isso seria desrespeito com uma pessoa que sequer foi enterrada.

Mas um momento: isso é censura ou não?

É o entendimento da chamada voz rouca das ruas. Numa enquete no Guardian, quase 90% das pessoas disseram que sim, a rádio tinha que tocar a canção.

E a BBC, que fez?

Encontrou uma solução que foi a seguinte: subiu no muro. Não vai censurar a música, ao contrário do clamor conservador. Mas tampouco vai tocá-la inteira: decidiu dar, na parada de domingo, um fragmento de 4 ou 5 segundos.

O que parece claro, passados alguns dias da morte de Thatcher, é que a elite política e jornalística inglesa não tinha a menor ideia de quanto a Dama de Ferro era detestada. É uma demonstração espetacular de miopia e de desconexão com as pessoas.

A Inglaterra vive hoje não apenas uma crise econômica que não cede há anos, mas uma situação dramática de desigualdade que levou aos célebres riots – quebra-quebras — de Londres há pouco mais de um ano. Qual a origem da crise e da desigualdade?

Thatcher, é claro.

O real legado de um governante se vê depois que ele se foi. As desregulamentações, as privatizações e os cortes em gastos sociais de Thatcher, passados 30 anos, resultaram num país em que as pessoas têm um padrão de vida inferior ao que tiveram.

Como imaginar que as pessoas ficariam tristes com sua morte?

 

Muito mais que bucólicos são os paraísos fiscais

11 de abril de 2013

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Entrevista com Nicholas Shaxson, realizada por Christophe Ventura, para o site Memoire des Luttes. Shaxson é jornalista investigativo e escritor. Ele é autor de livro Treasure islands: uncovering the damage of offshore banking and tax havens [Ilhas do tesouro: revelando os danos dos paraísos fiscais e das finanças offshore, ainda sem tradução em português] indispensável para entender as finanças offshore, o sistema bancário das sombras que ocupa o centro do capitalismo global.

Via Outras Palavras

Um escândalo mundial – o OffshoreLeaks – está revelando, desde o início de abril, a promiscuidade entre os mundos da política institucional, das finanças e da economia offshore, a grande rede dos chamados “paraísos fiscais”. Nesta entrevista, publicada originalmente em novembro de 2012, no site francês independente, Memoire des luttes, o jornalista investigativo e escritor Nicholas Shaxson ajuda a entender o que está em jogo.

Autor de um livro produzido a partir pesquisa profunda no mundo paralelo das finanças ocultas – Treasure islands: uncovering the damage of offshore banking and tax havens –, Nicholas Shaxson escreve regularmente no Financial Times e no The Economist. Em sua obra de referência, ele lança uma nova luz sobre o papel da City de Londres e da rede formada pelas ex-colônias do Império Britânico na galáxia offshore.

Christophe Ventura: Em seu livro, você indica quantias exorbitantes – ativos bancários, investimentos diretos de multinacionais no exterior, frutos da evasão fiscal etc. – que transitam pelo sistema internacional dos paraísos fiscais. Segundo você, “mais da metade do comércio internacional […] passa por ele”. Mas, na verdade, o que é um paraíso fiscal?

Nicholas Shaxson: Podemos explicar facilmente o que é um paraíso fiscal com duas palavras: “fuga” e “outro lugar”. Os paraísos fiscais possibilitam sonegar impostos, certamente, mas também fugir às leis penais, à regulação financeira, às obrigações de transparência etc. Em uma palavra, às responsabilidades civis e sociais. Eles isentam os ricos e as grandes empresas das restrições, dos riscos e das obrigações que a democracia exige de cada um de nós. A tributação é apenas um aspecto da questão. A palavra “outro lugar” é igualmente crucial. Quem pretende fugir às suas responsabilidades, precisa colocar seu dinheiro (o próprio ou de sua empresa) em outro lugar. Daí a palavra offshore, literalmente, em Inglês “fora do país”. Assim, por exemplo, a legislação das Bahamas é concebida para atrair dinheiro não dos habitantes do arquipélago, mas de estrangeiros.

Qual é a função dos paraísos fiscais na arquitetura das finanças internacionais?

Os paraísos fiscais servem a vários objetivos. Seus apologistas dizem que eles permitem corrigir as “deficiências” do sistema financeiro internacional: graças a eles, o capital move-se mais rápido pela economia e enfrenta menos obstáculos. Uma imagem muitas vezes usada é a de grãos de areia numa máquina: os paraísos fiscais forneceriam o óleo que lubrifica o motor. Mas se você olhar mais de perto, tem uma perspectiva completamente diferente. Quais são esses “obstáculos” que supostamente desaceleram as finanças globais e as tornam menos “eficientes”? São os impostos, a regulação financeira e as obrigações de transparência – todas elas, coisas que têm uma boa razão de existir! Não se vê muito bem, por exemplo, como o sigilo bancário pode ser “eficiente”: ele é talvez bem conveniente para pessoas privadas, mas prejudica o sistema como um todo.

Você descreve um dos mecanismos a que recorrem as multinacionais: a “manipulação dos preços de transferência”. Do que se trata?

Os preços de transferência são um recurso usado pelas multinacionais para reduzir o valor dos seus impostos. Basicamente, permite transferir as receitas de uma empresa para um paraíso fiscal – onde ela não é tributada – e os custos para um país de forte tributação – onde eles permitem redução de impostos. Como procede uma multinacional? Manipulando os preços dos bens e serviços que as suas subsidiárias comerciam. Tomemos, por hipótese, o caso de uma máquina fabricada na França e vendida ao Equador, por meio das Bermudas. O preço de venda no Equador é de US$2 mil; os custos de produção, US$1 mil. A filial das Bermudas paga para a matriz francesa U$$1.001,00 pela máquina, que é faturada em seguida à filial equatoriana por US$1.998,00. A companhia francesa obtém, portanto, US$1,00 de lucro (1.001 – 1.000 = 1); a subsidiária equatoriana, US$2,00 (2000 – 1998 = 2), o que gera muito pouca receita tanto para o Estado francês como para o Estado equatoriano. Já a filial das Bermudas realiza ela um lucro de US$997,00 (1998 – 1001 = 997), que não é tributado. E pronto! Aí está como desaparece uma nota fiscal! A realidade é, naturalmente, mais complexa, mas o procedimento básico é esse.

O que é o Círculo Mágico Offshore?

Este é o nome dado a um pequeno grupo de escritórios de advocacia que dominam o setor financeiro offshore. Eles têm escritórios em múltiplos paraísos fiscais ao redor do mundo e são mestres na arte de elaborar montagens financeiras transnacionais, muito frequentes hoje em dia.

Você analisa a geografia política dos paraísos fiscais em escala internacional e apresenta ao leitor os vários grupos de “jurisdições de sigilo”. Na sua opinião, há uma “teia de aranha” formada por três círculos, dos quais o mais importante e agressivo gravita em torno da City de Londres. Você desenvolve a ideia de que o sistema de paraísos fiscais teria uma filiação à história colonial britânica, mas também francesa. Do que se trata? Como funciona esse novo império financeiro? Qual é o papel atual da City de Londres no mundo offshore?

A Grã-Bretanha está no centro de uma rede de paraísos fiscais que abastece a City [distrito financeiro] de Londres de capital e lhe fornece um gigantesco volume de negócios. O primeiro círculo da teia é constituído do que é chamado de dependências da Coroa – Jersey, Guernsey e Ilha de Man –, cuja atividade principal são transações com os países da Europa, África, ex-URSS e Oriente Médio. O segundo círculo inclui territórios britânicos no exterior, incluindo as Ilhas Cayman e Bermudas, voltados principalmente às Américas do Norte e do Sul. Estas entidades [dependências da Coroa e territórios ultramarinos do Reino Unido] são parcialmente britânicas, parcialmente autônomas. A Grã-Bretanha se coloca em sua defesa, assegura a sua “boa governança” e seus governantes são nomeados pela rainha; em troca, sua política interna é independente. Além desses dois círculos, outros paraísos fiscais mantêm relações estreitas com a City de Londres, mas cortaram todos os laços institucionais com a antiga potência colonial. É o caso de Hong Kong, por exemplo. Essa rede de paraísos fiscais envolve o planeta: cada link “captura” o capital que transita por sua esfera geográfica e o envia para a City.

E os Estados Unidos?

Particularmente desde os anos de 1970, os EUA têm adotado, de forma deliberada, uma legislação que assegura aos fundos estrangeiros o sigilo bancário e vários benefícios fiscais; isso atrai ao país trilhões de dólares de capital flutuante, proveniente do exterior. Certas infraestruturas offshore existem num ou noutro estado norte-americano, mas os mais importantes são diretamente disponíveis em nível federal. Os Estados Unidos também dispõem de uma pequena rede de satélites, tais como o Panamá ou as Ilhas Virgens norte-americanas, mas essa rede nem se compara à britânica.

Ao mergulhar o leitor na história da evasão fiscal e financeira, você indica que o “verdadeiro Big Bang” teve lugar no final dos anos de 1950, com a emergência dos eurodólares – dólares detidos fora dos Estados Unidos – e do euromercado. Você pode nos explicar melhor?

É uma longa história, muito emocionante. Resumindo, a City de Londres ofereceu aos bancos um novo ambiente, não regulamentado, que lhes permitiu, desde os anos de 1950, contornar a regulamentação financeira estrita praticada nas fronteiras nacionais. Em última análise, graças a este playground offshore, Wall Street tem podido crescer extraordinariamente e recuperar todo seu poder político: ele tem o controle sobre o aparelho de estado dos Estados Unidos e convenceu o Legislativo de que a única forma de avançar é a que foi escolhida por Londres.

Você propõe enfrentar o “sistema offshore” e apresenta, para isso, diversas propostas específicas. Elas dizem respeito aos países ocidentais – incluindo o Reino Unido –, assim como aos do Sul, ao tema das reformas tributárias e ao da luta contra a corrupção. Como seria, a seu ver, um sistema financeiro regulado pelas sociedades?

O sistema de Bretton Woods, praticado nos 25 anos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial, é o melhor exemplo de finanças bem regulamentadas. Sob sua égide, diversos países haviam introduzido controles de capital e controles de câmbio. Os intercâmbios financeiros e a especulação internacional eram severamente enquadrados. As taxas de imposto sobre a renda eram muito altas. Alguns hoje consideram esse período como a idade de ouro do capitalismo: o comércio era relativamente livre, mas não as finanças. Houve um forte crescimento econômico, poucas crises financeiras, e redução das desigualdades. É interessante notar que, recentemente, o FMI reconheceu que o controle do capital não era talvez uma ideia tão má…

O que um estado nacional pode fazer para lutar eficazmente contra os efeitos nocivos das finanças offshore?

Não há receita mágica. A primeira coisa a ser feita é compreender bem o papel dos centros offshore na economia mundial. É necessário criar uma consciência nova. Em seguida, tomar uma série de medidas específicas – descrevo algumas em meu livro. Deve-se, por exemplo, estabelecer um sistema em que as multinacionais são tributadas em função de sua atividade econômica real, em vez de sua forma jurídica artificial e complicada. Em tal sistema, sua atividade nos paraísos fiscais não seria levada em conta. Se as multinacionais se retirarem dos paraísos fiscais, eles vão perder uma grande parte da proteção política de que desfrutam há anos.

A construção europeia, que tem como dois princípios fundamentais “a livre circulação dos capitais” e “a livre concorrência”, não favorece também a “concorrência fiscal” e, portanto, a criação de novos paraísos fiscais dentro de suas próprias fronteiras (Luxemburgo, Países Baixos, Irlanda etc.), ao lado dos “tradicionais” como a Suíça?

Certamente. Todo o mundo sabe que a Suíça é um paraíso fiscal, mas há outros na Europa: Luxemburgo, em particular, claro, o Reino Unido. A Áustria, os Países Baixos e a Irlanda também desempenham um papel importante. Sempre que a União Europeia tenta resolver o problema, ela enfrenta obstáculos políticos – e isso, desde que existe.

Os países emergentes como a China, a Índia e outros não vão também procurar se aproveitar das facilidades das finanças offshore?

Os paraísos fiscais beneficiam as elites ricas de vários países do mundo. Eles causam, sem dúvida, muito mais danos nos países em desenvolvimento do que nos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, sim, é verdade: as elites chinesas apoiam fortemente Hong Kong, e seu colaborador próximo, as Ilhas Virgens Britânicas, apesar das consequências desastrosas para o resto da população do país.

Nas conclusões do livro, você se dirige também à mídia. Qual é sua mensagem para os jornalistas e especialistas?

Um consenso conseguiu se impor. E afirma que o sistema é “eficiente” e os paraísos fiscais são uma boa coisa. Comece por questionar este pressuposto. O assunto é tão complexo que muitas vezes, para explicar como as coisas funcionam, os jornalistas recorrem a “especialistas” – na maioria das vezes, os profissionais do “Big Four”, as quatro grandes empresas de auditoria. O problema é que essas empresas de auditoria têm como fonte de suas receitas ajudar seus clientes a sonegar impostos e outras obrigações fiscais. Seu ponto de vista é, portanto, enviesado em favor do sistema. Sempre que jornalistas recorrem a eles, sua visão de mundo perniciosa dissemina-se e coloniza cada vez mais as consciências.

Você considera que é possível atribuir, aos centros offshore, alguma responsabilidade nas dificuldades da zona do euro, do sistema bancário europeu e da Grécia?

Aqueles que, nos paraísos fiscais, fazem as leis, são sempre separados daqueles que sofrem suas consequências. Nunca há qualquer consulta democrática real quando essas leis são adotadas. O problema é que este não é apenas um ato deliberado. As coisas vão mais longe. Trata-se da própria essência dos paraísos fiscais. Suas leis são feitas por pessoas iniciadas por iniciados: pessoas que não prestam contas a ninguém, ao contrário do que a democracia exige. Os paraísos fiscais são máquinas legais de uso privado, quase cabines secretas. As conclusões a serem tiradas da recente crise financeira, como da próxima, deveriam ser bastante óbvias.

Tradução: Inês Castilho

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Leia também:

OffshoreLeaks: As caixas pretas do poder global

O julgamento popular de Margaret Thatcher e de Hugo Chavez

9 de abril de 2013

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Muita gente comemorou sua morte, e ninguém chorou.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Abaixo, você pode ler a essência da manifestação de Morrissey, cantor do The Smiths, à morte de Thatcher.

Cada movimento que ela fez foi marcado pela negatividade. Ela odiava os mineiros, ela odiava as artes, ela odiava os pobres, ela odiava o Greenpeace e os todas as entidades de proteção ambiental.

Ela deu a ordem para explodir o Belgrano já quando o navio argentino estava se afastando das Malvinas. E quando os meninos argentinos a bordo do Belgrano sofreram uma morte terrível e injusta, Thatcher deu o sinal sinal de positivo para a imprensa britânica.

Ela odiava feministas ainda que tenha sido graças a elas que o povo britânico aceitou que um primeiro-ministro pudesse realmente ser do sexo feminino.

Thatcher era um horror sem um átomo da humanidade.”

Quanto a mim: sabia, evidentemente, que Thatcher era uma figura que dividia os ingleses. Mas não imaginava, até ver as reações a sua morte aqui na Inglaterra e em outras partes do Reino Unido, quanto o ódio que ela despertou suplantava o amor e a admiração.

Horas depois do anúncio da morte, enfrentaram-se em Manchester os dois times locais, o United e o City. Não houve minuto de silêncio. A torcida teria devastado o tributo.

Em Liverpool, os torcedores cantavam em comemoração à morte de Thatcher. Numa tragédia em que morreram muitos torcedores no estádio do Liverpool nos dias de Thatcher, a polícia acusou a torcida local – erradamente, como se veria depois. Thatcher condenou a torcida e apoiou a versão falaciosa da polícia. Jamais foi perdoada.

Em Glasgow, uma multidão foi às ruas celebrar a morte. Os escoceses acham que foram tratados como subespécies por Thatcher.

No Twitter, o congressista George Galloway lembrou que ouviu Thatcher chamar Mandela, no Parlamento, de “terrorista”. (Alguém disse que houve justiça poética em Mandela, tão combalido, ter sobrevivido a ela.)

“Que ela arda no inferno”, disse Galloway, sob numerosas manifestações de apoio e poucas de protesto. Alguém pediu respeito a Galloway. A melhor maneira de mostrar respeito hoje é esta, respondeu Galloway – e postou um link que ia dar no seu partido, chamado exatamente Respeito.

Fora da galhofa, Galloway disse algo que merece reflexão. Ele comparou a reação à morte de Thatcher com a reação à morte de Chavez, um mês atrás.

O povo não é bobo.

Thatcher fez um governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos. Chavez governou para os pobres. O reconhecimento da voz rouca das ruas – vital para o que vai ficar registrado para a posteridade nos livros – irrompe com potência sublime e comovedora na morte de pessoas públicas.

É a aprovação definitiva, ou a reprovação, ou a indiferença.

Chavez foi amplamente aprovado, como gritaram as filas de 14 horas formadas por venezuelanos desesperados por vê-lo pela última vez em Caracas – num lamento épico e histórico protagonizado não pelo Comandante, mas pelos excluídos ao longo da história por uma elite corrupta e predadora controlada pelos Estados Unidos.

Thatcher foi reprovada.

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