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Eleição do pastor Feliciano: Um dia para esquecer

7 de março de 2013
O deputado Marco Feliciano, o novo líder das minorias da Câmara. Foto: Gustavo Lima / Agência Câmara

O deputado Marco Feliciano, o novo líder das minorias da Câmara.

Matheus Pichonelli, via CartaCapital

Foi, como esperado, um dia para ser esquecido na história do Congresso. O acordo entre as lideranças partidárias na semana passada, que deu de bandeja ao Partido Social Cristão a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, possibilitou ao País assistir a um movimento inédito: um presidente de claras inclinações homofóbicas ser eleito representante das minorias sobre as quais nutre um desprezo declarado.

Na véspera da votação, que apenas chancelou o inevitável, grupos ofendidos pela escolha fizeram alarde na sala da comissão. No dia seguinte, foram impedidos de acompanhar a votação por decisão do presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN). A medida provocou mais revolta, agora entre os deputados. O então presidente da comissão, Domingos Dutra (PT/MA), renunciou. Foi acompanhado por colegas como a deputada Luiza Erundina (PSB/SP). “Vamos sair juntos. Esta comissão não é mais a Comissão dos Direitos Humanos”, disse ela.

Assim o pastor Marco Feliciano (PSC/SP) ganhou terreno livre para ser eleito com 11 votos a favor e apenas um branco. Terá agora, oficialmente, a chance de combater por dentro o que chama de privilégio de uma minoria rude e barulhenta. Uma minoria cujas bandeiras ele reluta em reconhecer como legítimas.

Durante a semana, quando seu nome foi aventado e as reações se multiplicaram, o pastor levantou a bandeira branca para cravar a haste na garganta de quem, com outras palavras, promete combater. Disse não ter nada contra os atores e sim contra o ato; negou ser racista com base em sua ascendência negra. Acuado, disse que o autoritarismo não reside em negar direitos a grupos marginalizados, mas sim na não aceitação das críticas aos marginalizados. Por fim, disse ser especialista em perseguição, já que na História ninguém sofreu mais acossamento do que os cristãos.

Trata-se de um jogo retórico: o pastor se apoia em uma série de verdades, como a perseguição histórica aos cristãos, para sustentar uma inverdade básica, quase lógica. Basta lembrar que, pela avenida Paulista, não há notícias de cristãos sendo devorados por leões por andarem com a Bíblia debaixo do braço. Nenhum crente, de qualquer fé, terá de gritar alto para poder existir ou manifestar sua crença: trata-se de um direito garantido e assimilado ao longo dos anos.

Mesmo assim a inversão do papel de vítima é invocada para legitimar uma ofensa. “Reação”, dessa maneira, virou “autoritarismo” e “fundamentalismo”, mero “ponto de vista”. O que o pastor Feliciano não parece ter entendido é que a revolta provocada por sua escolha não se explica pelo fato de ser cristão; explica-se pela demonstrada ignorância, para não dizer má fé, sobre o cargo que pretende ocupar, os grupos que pretende representar, os crimes que se nega a condenar. Pois ele a partir de agora será o responsável por receber e encaminhar investigações de abusos que hoje evita reconhecer a gravidade.

Ao assumir a comissão de Direitos Humanos, Feliciano provocou, não por acaso, um embaralhamento semântico com vistas a confundir noções como “privilégio”, “perseguição”, “preconceito”, “minorias”. Essa confusão, mais do que vídeos antigos e comprometedores sobre Arca de Noé e “câncer gay”, escancara o paradoxo da sua escolha. Exemplo: quando o pastor diz saber o que é ser discriminado e usa como exemplo a morte de um bebê na barriga de sua mulher numa fila de hospital, coloca uma tragédia pessoal, de alcance universal, na rota do preconceito. Confunde descaso do poder público com perseguição; descaso é universal, perseguição é específica. O fato de ser cristão e heterossexual, portanto, não teve a menor influência no episódio, em si lamentável.

A lógica da perseguição, é bom que se lembre, opera em outro campo. Ela não se manifesta apenas quando se estoura uma lâmpada no rosto de pedestres supostamente vulgares; se manifesta também quando se classifica, isso sim de forma autoritária, o que é ou não vulgar. É a mola propulsora do discurso de ódio, manifestada, por exemplo, quando se usa uma interpretação bíblica para impedir a ampliação de acesso a direitos básicos. Em nome de quê? Da suposta proliferação da espécie? Da busca pela moral familiar? Não: em nome da manutenção da ordem. Mais: da manutenção do medo da desordem. Se pastores, padres e líderes espirituais aceitarem que as pessoas podem viver em paz com quem quiserem, se quiserem, da forma como quiserem (famílias monoparentais, pais de mesmo sexo, solteiros por convicção), não terão mais o que fazer nem discursar. Não há Céu sem a projeção do Inferno e não há transcendência sem pecado. Sem o inimigo declarado, a arma contra o inimigo perde seu valor de uso e de troca. O mercado apodrece. Para quem se apoia no discurso do medo (medo do caos, medo da vulgaridade, medo da decadência), a liberdade de quem aceita a dor e a delícia de ser o que se é, para citar a música, é o maior dos infernos.

E isso não tem nada a ver com a fé.

Tem a ver, é bom repetir, com a manutenção da ordem: manda quem sempre mandou, obedece quem sempre obedeceu. Ainda que a manutenção da ordem seja propagada à base da confusão de conceitos. Destes, nenhum foi mais maltratado em todo o episódio do que a ideia de luta pelo direito básico de existir – que pouco tem a ver com o propalado privilégio citado pelo pastor. À frente da comissão, o deputado Feliciano deveria saber de antemão que direito básico não é gritar mais alto ou se rebelar. É poder andar nas ruas como bem quiser e com quem quiser. Sem que por isso, e não por outro motivo, chegar vivo em casa seja um mero lance de sorte.

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Vídeo: Pastor Marco Feliciano, o ético, é flagrado pedindo a senha do cartão de fiel

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6 de março de 2013
Bispo_Marco_Feliciano02

Aparece que o pastor usou o mesmo tratamento capilar do choroso ministro do STF, Luiz Fux, e do milionário esquecido, Álvaro Dias.

Sessão que elegeria pastor nos Direitos Humanos é suspensa na Câmara

Marco Feliciano que atacou negros e gays em 2011 é cotado para presidir colegiado

Eugênia Lopes, via O Estado de S.Paulo

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, deputado Domingos Dutra (PT/MA), suspendeu na quarta-feira, dia 5, a sessão que deveria eleger o novo presidente da comissão. Indicado pelo PSC para comandar a comissão, o nome do pastor Marco Feliciano (SP) enfrenta resistências junto a integrantes da comissão e de movimentos sociais.

A sessão foi tumultuada, com bate-boca entre os deputados, vaias e gritos. Feliciano é acusado de racismo e homofobia. “Vou devolver para os líderes e para o presidente da Câmara o abacaxi que criaram. Quem pariu Mateus, que o embale”, disse Domingos Dutra, ao suspender a sessão.

O líder do PSC, deputado André Moura (SE), afirmou que o partido não pretende rever a decisão de ter indicado o nome de Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos. “Em 18 anos, nunca vi uma situação dessas. Não tenho condições de votar nele [Feliciano]”, afirmou o deputado Nilmário Miranda (PT/MG), ex-secretário de Direitos Humanos do governo Lula.

O PSC ficou com a presidência da comissão depois de acordo de líderes. Antes da votação, o PMDB, o PSDB e o PP cederam suas vagas para o PSC, que ficou com cinco vagas de titular. A bancada evangélica se uniu para apoiar o nome do pastor. “Vim aqui respaldar o nome dele. Ele tem formação humanista e cristã”, disse João Campos (PSDB/GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica e suplente da Comissão.

***

Vídeo mostra pastor Feliciano pedindo senha do cartão de fiel

“Samuel de Souza doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale”, diz indicado para presidir Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Em vídeo que circula pelas redes sociais, o pastor Marco Feliciano (PSC/SP), indicado para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, recolhe doações de fiéis da Assembleia de Deus, na Catedral do Avivamento, sua igreja. Feliciano aceita doações de motocicletas, pede cheques, dinheiro e anuncia recompensas divinas. Em determinado momento, com um cartão na mão, ele diz:

“É a última vez que eu falo. Samuel de Souza doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale. Depois vai pedir o milagre pra Deus e Deus não vai dar e vai falar que Deus é ruim.”

Logo em seguida, um fiel tetraplégico anuncia que vai doar R$1 mil. O pastor, então, diz:

“Ele veio como murmurador. Vai voltar como o homem mais abençoado da festa. Eu ainda vou pregar com você por aí, garoto.”

As cenas de recolhimento de dinheiro prosseguem. Marco Feliciano afirma que R$500,00 é o suficiente:

“Tem mais [dinheiro] aqui na frente? Glória a Jesus!”, diz ele, pegando um cheque. “Deixa eu ver o sobrenome dele? Feliz de Souza [risos]. Mais um [cheque]. Amém, amém. Tem gente que diz: ‘Pastor, pastor, R$1 mil eu não aguento’. Traga R$500,00. Você só não pode é perder a bênção. Quem crê dá um jeito.”


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