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“Não adianta dar bônus para a polícia se não temos armas.”

24 de maio de 2013
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“Alckmin está perdido.”

Um sargento da PM falou com o Diário sobre a crise na segurança pública em São Paulo e expôs o modo de viver e pensar da corporação.

Kiko Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

O bônus semestral que Geraldo Alckmin anunciou que quer dar aos policiais foi criticado unanimemente pelas entidades de classe. A iniciativa, que faz parte do programa São Paulo Contra o Crime, prevê que quem conseguir bater a meta em sua área de atuação ganhará entre R$4 mil e R$10 mil. Os presidentes dos sindicatos preferem, compreensivelmente, aumento de salário.

Alckmin está vivendo, e não é de hoje, um inferno astral na segurança pública: na capital, o número de vítimas de homicídio doloso cresceu de 37,3% (de 91 em fevereiro para 125 em março), uma alta de 26,2% em comparação com dados do mesmo período do ano passado. As ocorrências durante a Virada Cultural expuseram um pouco mais o problema.

O que acontece com a polícia? O Diário conversou com o sargento PM Fernando C. Ele tem 49 anos, é divorciado e pai de cinco filhos. “O bônus é uma mágica do governo. Falta treinamento, falta mudar a metodologia, falta gente, faltam armas. A PM não tem condições de trabalho”, disse. Fernando pintou um quadro que revela o modo de pensar e de viver da PM e ajuda a explicar o momento que São Paulo atravessa.

Não adianta dar bônus ou colocar mais viaturas nas ruas. O Alckmin está perdido. Isso não é solução. Tem carros demais para pouco efetivo. Dentro da polícia, a orientação é a seguinte: o soldado atende a ocorrência que achar que der. Se não der, ele simplesmente não atende.

Muitas viaturas têm apenas um PM. São as viaturas “solitárias”. A população vê um carro da polícia e acha que está tudo bem. Não está. Um PM não resolve nada. A pergunta que se faz é: quem não tem segurança faz segurança para quem? Como eu vou proteger alguém se não sou protegido? Quando o PCC resolve fazer um “salve geral” [sair às ruas para executar policiais], os primeiros a morrer são os das “solitárias”. O comando avisa que vai ter isso, vai ter aquilo, mas não explica por que e nem o que vai acontecer.

Temos cerca de 80 mil homens distribuídos em 645 municípios no estado. A falta de material é absurda. É uma luta desigual. Durante muito tempo, a PM usava revólver 38 contra o crime, quando ele ainda não era organizado. Atualmente, as armas são calibre .40, enquanto os bandidos usam submetralhadora.

A PM prendia um cara e o apresentava na delegacia. Enquanto o policial estava terminando de preencher o boletim de ocorrência, o cara estava passando atrás dele, indo embora, depois de subornar o delegado. O raciocínio ficou o seguinte: já que tem acerto, eu mesmo acerto na rua. “Se eu não fizer isso, alguém vai fazer”, eles pensam. Funciona assim.

A corrupção corre solta: o policial toma R$50,00 de um bandido para soltá-lo, mas o delegado pega R$5 mil. Os PMs estão percebendo que, já que existe roubo, é melhor eles mesmos roubarem.

Quando o policial puxa o gatilho, ele não puxa sozinho. Eu já torturei. Uma vez, no Pico do Jaraguá, eu segurei um cara com a mão esquerda, à beira de um morro. Falei para ele imaginar que estivesse voando. Eu apontava para um passarinho e dizia que ele podia se salvar se soubesse voar. Ele não voou… Deu a informação que eu queria, nós pegamos as drogas e fomos à delegacia, mas percebemos que era entregar o ouro pra outro bandido. Por isso você vê investigador de Audi X-3, viajando para a Europa etc.

Eu nunca matei ninguém. O máximo que faço é o furinho, mas quem mata é o Senhor. Nesse sentido, já fiz furinho em um monte de gente. Já levei um monte de balas também. Dá última vez passei vários dias numa UTI, com quatro tiros. Ao sair do hospital, para minha surpresa, encontrei um dos que atiraram em mim. Eu disse a ele: “Fica calmo, nada vai acontecer a você agora, mas nós vamos acertar nossas contas”. Tive apoio dos companheiros para saber onde ele morava. Tirei-o de lá e cumpri o que havia lhe prometido.

Às vezes contamos com a ajuda do médico. Tem um hospital na Lapa em que um médico perguntava: “Polícia ou bandido?” “Polícia!”, ele atendia rapidinho. Se fosse bandido, ele demorava, mexia no pneu do carro e em outras coisas sujas e verificava a profundidade do disparo com o dedo. Se o cara morria de infecção, paciência. Afinal, ele teve assistência. Esse médico fazia uma seleção natural.

Quando Erasmo Dias era secretário de Segurança Pública de São Paulo, havia um boletim dizendo que o policial que “derrubasse” um bandido tinha 15 dias de dispensa. Eu fiquei seis meses em casa. Fui para a Bahia e foram as melhores férias da minha vida. Hoje, se você bater no cara, vai preso. Se não bater, vai preso também.

Toda viatura tem um recruta para fazer o serviço sujo. Ele se enquadra no artigo 50 do Código Penal Militar [que diz que o menor de 18 anos é inimputável]. O rapaz acha que está na viatura porque gostam dele, mas é para ele poder matar sem problema. Chamamos isso de “quebrar o cabaço do recruta”.

A polícia deveria ser treinada em contraguerrilha urbana, como na época do Lamarca. Hoje, vivemos uma época de emburrecimento. Tem três ou quatro psicólogos mandando desenhar árvore, gato… Aquela pessoa que está pintando uma vaca tem 30 anos de profissão. Em vez de contribuir para subir o moral da tropa, o efeito é oposto.

Uma das máximas da PM é que todo “paisano” é babaca. Quer dizer, quem não é policial é babaca. E isso é dito abertamente entre nós.

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Ataque do PCC: “O comando não avisa o que está acontecendo.”

 

Haddad evita novo Pinheirinho e Alckmin quer levar a fama

30 de março de 2013

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Na noite de terça-feira, dia 26, o governador Geraldo Alckmin, depois de o prefeito Fernando Haddad ter solucionado o problema, queria levar os louros da negociação. É muito cara de pau.

Via Maria Frô

Faltou pouco para a cidade de São Paulo ser palco de uma tragédia com as mesmas características vistas em janeiro de 2012, no Pinheirinho. Quem interrompeu o massacre, já com a PM atuando e jogando bombas de dispersão em direção aos moradores, foi o prefeito Fernando Haddad.

Ele defendeu uma solução negociada para o conflito que se instava no Jardim Iguatemi, São Mateus, Zona Leste da cidade, e conseguiu ganhar tempo, para no dia seguinte decretar a desapropriação do terreno. Isso é fazer política com “P” maiúsculo e não jogá-la na vala comum do pragmatismo que justifica todo desmando e concessões de alguns governantes petistas às alianças espúrias com o capital ou com a base fundamentalista.

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Decreto publicado no Diário Oficial de 26/3/2013.

Não esqueçamos que Haddad foi execrado quando a Secretaria de Habitação foi para o PP e nem é preciso lembrar o quanto o PT, Lula e Haddad foram achincalhados devido à foto com Paulo Maluf.

Com a ação de Fernando Haddad as famílias do Jardim Iguatemi terão outra sorte que as do Pinheirinho. Infelizmente as do Pinheirinho foram alvo da fúria de gângsteres dos lacaios a serviço de especuladores em todas as instâncias de poder e agora elas têm negada a indenização solicitada pela Defensoria Pública.

O gesto marcante de Haddad, entre tantos outros gestos precisos e rápidos que ele já tomou em situações de conflitos em três meses de administração, mostra que ele não é mais um estelionato eleitoral. Embora seja cedo para uma avaliação definitiva, como moradora, cidadã e eleitora desta cidade que foi tão vilipendiada nos últimos oito anos da indigestão Serra-Kassab, digo que estes três meses de governo de Haddad já valeram meu voto e todo esforço de campanha para elegê-lo.

Faz tempo que não me admiro tanto com as ações de um político. Se continuar assim, Haddad se tornará o símbolo da mudança de rumos da administração paulistana.

***

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Tropa de choque usou bombas para dispersar moradores do Jardim Iguatemi.

Haddad intervém para impedir desocupação de área com 750 famílias

Ação da tropa de choque, a mando da Justiça, começou na manhã desta terça-feira (26). A prefeitura promete declarar terreno na zona leste de utilidade pública.

João Paulo Soares, da Rede Brasil Atual

O prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) informou hoje (26), durante o anúncio do Plano de Metas de seu governo, que a prefeitura está intercedendo para reverter a reintegração de posse de um terreno na zona leste da cidade onde vivem 750 famílias de sem-teto. A desocupação, por ordem judicial a pedido do proprietário, começou hoje de manhã com homens da tropa de choque da Polícia Militar, que usou bombas de efeito moral para dispersar moradores que protestavam na frente do terreno.

Segundo Haddad, o secretário de Habitação do município, José Floriano de Azevedo Marques Neto, foi instruído a procurar o dono da área, Heráclides Batalha, para tentar uma solução negociada, que passaria pela desapropriação amigável do local. Batalha, porém, não teria aceitado a proposta.

Diante disso, a prefeitura diz que irá publicar um decreto nos próximos dias declarando a área de utilidade pública. Ao mesmo tempo, segundo o secretário de Assuntos Jurídicos, Luís Massonetto, a administração entrou com uma petição no Tribunal de Justiça de São Paulo para suspender a reintegração.

O terreno fica no Jardim Iguatemi e tem 132 mil metros quadrados.

PM determina revista em pessoas “da cor parda e negra” em bairro nobre de Campinas

24 de janeiro de 2013
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Cópia da ordem de serviço da PM de Campinas.

Eduardo Schiavon

A Polícia Militar de Campinas determinou, em uma ordem de serviço, de 21 de dezembro de 2012, que seus integrantes abordassem jovens negros e pardos, com idade entre 18 e 25 anos, na região do bairro Taquaral, uma das áreas mais nobres da cidade. Segundo a determinação, dirigida ao Comando Geral de Patrulhamento da região, pessoas que se enquadrem nessa categoria são consideradas suspeitas de praticar assaltos a casas na região e devem ser abordadas prioritariamente.

A orientação foi passada de forma oficial, em papel timbrado da PM, assinada pelo capitão Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, e pede que os policiais foquem “abordagens a transeuntes e em veículos em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra, com idade aparentemente de 18 a 25 anos, os quais sempre estão em grupo de 3 a 5 indivíduos na prática de roubo a residência daquela localidade”.

A instituição nega cunho racista e disse que se baseou em uma carta de moradores para ter a descrição dos suspeitos e determinar as abordagens. O documento, no entanto, não foi enviado à reportagem.

Segundo o ofício, uma patrulha deverá ser feita nas proximidades do Colégio Liceu Salesiano, todos os sábados, entre 11h e 14h, e a abordagem deverá ser feita nos indivíduos descritos acima caso estejam em atitude suspeita.

A assessoria de imprensa da PM informou que existe a carta dos moradores, que chegou para o capitão. O órgão informou ainda que a carta pedia providências, pois vários roubos e furtos estavam sendo realizados. Essa carta descrevia o perfil dos criminosos e as ações, informou a assessoria de imprensa da instituição, acrescentando que “não existiu cunho racista”.

A PM informou ainda que o capitão Beneducci é, ele mesmo, pardo, e que ele “ficou triste” com a repercussão do caso. Ele foi procurado para comentar no 8º Batalhão, mas não foi encontrado.

Racismo

Para o coordenador do Cepir (Coordenaria Especial de Promoção da Igualdade Racial), Benedito José Paulino, a indicação de procura de negros e pardos é claramente racista. Ele afirmou não acreditar que recomendação semelhante fosse dada caso os suspeitos fossem brancos.

“Isso é racismo. Se ele está atrás de qualquer negro, sem apontar um em específico, isso é racismo. Se fosse um negro identificado, não teria problema. O jovem negro é que o mais sofre nas mãos da polícia”, afirmou.

Pinheirinho: Após um ano, Alckmin não cumpre as promessas feitas aos moradores

20 de janeiro de 2013

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Área no interior de São Paulo onde viviam 8 mil pessoas e ocorreu uma das maiores ações de reintegração de posse mais brutais ações da PM do País hoje só tem mato, cercas e vigias.

William Cardoso

Há um ano, o Pinheirinho – terreno de 1,3 milhão de metros quadrados em São José dos Campos – foi palco de uma das maiores ações de reintegração de posse do País. Mais de 2 mil policiais militares retiraram [brutalmente] da área 8 mil pessoas que viviam ali desde 2004. Não houve tempo de reação e o “exército” que havia se armado de porretes, caneleiras de PVC e capacetes de moto a população foi surpreendidoa pelo Batalhão de Choque [de Geraldo Alckmin].

Hoje, a área tem apenas mato, cercas e seguranças privados espalhados para evitar uma nova invasão – a calçada do lado de fora virou uma minicracolândia. O terreno foi devolvido à massa falida da empresa Selecta, do investidor bandido Naji Nahas, como ordenou a juíza Márcia Faria Mathey Loureiro.

A manhã de 22 de janeiro de 2012 mudou a vida de 1.500 famílias. Entre elas, a do cabeleireiro Jaime Rocha do Prado, de 62 anos, ex-coordenador da capela que havia no local. Sem casa e sem emprego – ele perdeu o salão dentro Pinheirinho –, Prado dormiu com a mulher e os filhos no chão da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que recebeu parte dos desabrigados. E ainda sofre com as lembranças. “Muitas pessoas tiveram crises de ansiedade e depressão. Eu mesmo engordei dez quilos.”

Correr e cair em meio às bombas e balas de borracha, com a barriga de 6 meses de gravidez, foi só o prenúncio das dificuldades que a camareira Charlene da Silva, de 29 anos, e as duas filhas enfrentariam. “Dormia no meio de pombas mortas, gente usando droga. Quase perdi meu bebê”, diz. Após passar por várias casas, ela hoje mora em dois cômodos cheios de umidade, por R$400,00 ao mês. “Minha filha recém-nascida vive doente.”

Os desalojados recebem auxílio-aluguel de R$500,00 mensais, mas o valor dos imóveis dobrou de preço nos bairros próximos ao Pinheirinho. Muitos partiram para áreas de risco, vivendo em casas abandonadas no Rio Comprido. Outros optaram pela zona rural, como a diarista Ana Paula Pardo da Silva, de 35 anos.

Ela se mudou para uma chácara com os quatro filhos e o marido, Kleverton dos Santos, de 38 anos, que perdeu o emprego de carpinteiro ao descobrirem que era ex-morador do Pinheirinho. “Tem muito preconceito. Ele tinha carteira assinada e tudo.”

No dia da reintegração, a faxineira Tereza Meireles, de 50 anos, seguia para a missa matinal quando cruzou com o Choque. Teve dez minutos para juntar peças de roupa e deixar o local. Hoje, mora em uma casa paga com o auxílio-aluguel. “Durmo imaginando que isso não é meu.”

São Paulo: Um freio na PM

13 de janeiro de 2013
Agora, somente a equipe do Samu poderá atender os acidentados nas ruas.

Agora, somente a equipe do Samu poderá atender os acidentados nas ruas.

Carlos Motta em seu blog

A Polícia Militar paulista não se conforma com a norma baixada pelo governo do Estado que a proíbe de prestar atendimento a vítimas graves. Com essa resolução fica mais difícil para os PMs mexerem na chamada “cena do crime”, prática que era muito comum e que visava isentá-los de qualquer complicação posterior à ocorrência.

O que os jornais cansaram de noticiar era que, depois de trocar tiros com a polícia, o meliante, ferido, era “socorrido” pelos PMs e, infelizmente, chegava sem vida ao hospital.

O que se sabe é que, sob o pretexto de “socorrer” as vítimas, os PMs acabavam por executá-la. A ocorrência era registrada nas delegacias como “resistência seguida de morte”.

Agora, atendendo a pedido da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a Polícia Civil de São Paulo não vai mais registrar ocorrências de homicídios cometidos por policiais como “resistência seguida de morte”.

Assim, casos em que pessoas são mortas após supostos conflitos com a força pública de segurança deverão ser registrados como “morte decorrente de intervenção policial”. A recomendação da SDH foi feita no início de dezembro como forma de evitar a manipulação dos registros policiais.

O esperneio da PM, portanto, tem seus motivos: as novas resoluções permitem que as ocorrências com feridos ou mortos sejam devidamente investigadas. Antes, bastava apenas a palavra dos policiais para dar o caso por encerrado, já que a vítima do confronto havia morrido “a caminho do hospital”.

A segurança pública tem sido o calcanhar de aquiles do governo de Geraldo “Picolé de Chuchu” Alckmin, que, recentemente, trocou toda a cúpula do setor.

Essas medidas são, claramente, para mostrar à tropa que existe um comando externo. Podem não ser suficientes para mudar a mentalidade dos policiais militares paulistas, que ainda vivem como se estivessem na ditadura, mas servem como um recado para que mudem seu modo de agir, incompatível com o atual estágio da democracia brasileira.

Quem sabe agora a PM refreie, um pouco que seja, a fúria de seus cães de caça.

Mauro Santayana: Onde há justiça social há menos medo nas ruas

12 de novembro de 2012

Nessa guerra os que morrem são sempre os mais pobres, e não beligerantes diretos. Raramente um oficial é executado por bandidos. Em algumas vezes são soldados desprotegidos, alvejados quando chegam do trabalho.

Mauro Santayana, via Carta Maior e lido Rede Brasil Atual

Falta identificar as forças beligerantes na guerra que se trava em São Paulo, com baixas diárias que se aproximam das registradas em conflitos internacionais. Aparentemente – e convém desconfiar das aparências – o confronto se dá entre os bandidos e a polícia. Os bandidos, na versão oficiosa, vingam-se da sociedade que os confina ao “executar” policiais militares em emboscadas. Há, no entanto, a denúncia de que os policiais militares estão assassinando pequenos bandidos, mas também pessoas trabalhadoras, a fim de atemorizar as organizações criminosas dos presídios.

Não há policiais perfeitos, a não ser na ficção, mas sem dúvida a Polícia Militar, pela sua natureza, é muito mais violenta do que as corporações civis. O uniforme, os aquartelamentos, as formações e os treinamentos – semelhantes aos que se submetem as forças armadas destinadas à hipótese da guerra contra os inimigos externos – condicionam esses homens ao ato de matar sem a inibição do sentimento de culpa. Isso não inocenta os policiais civis, muitos deles tão violentos ou ainda mais violentos do que os uniformizados.

Organizações brasileiras denunciaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, que só em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre 2003 e 2009 (não há estatística mais recente), a polícia matou 11.000 pessoas – mais de vinte vezes as baixas das tropas brasileiras em combate na Itália. Na quase totalidade dos casos, os próprios matadores redigem um “auto de resistência”, embora nunca possam provar que os mortos tiveram a iniciativa do tiroteio.

Isso, apenas nas duas capitais brasileiras mais populosas. No interior do país, a situação é semelhante. Ainda agora, acabam de ser identificadas três milícias em João Pessoa, compostas de policiais militares e civis, acusadas de constituir um grupo de extermínio, de oferecer proteção a homens de negócios e de extorquir os traficantes de drogas na Paraíba. Foram presos 56 suspeitos, entre eles soldados e oficiais da PM, além de carcereiros e policiais civis. A operação foi realizada por 400 agentes da Polícia Federal, com o apoio das autoridades estaduais, e sob mandato judicial.

Nessa guerra os que morrem são sempre os mais pobres, e não beligerantes diretos. Raramente um oficial é executado por bandidos. Em algumas vezes são soldados desprotegidos, alvejados quando chegam do trabalho. Da mesma forma, não são os capitães do PCC e de outras organizações semelhantes os mortos, mas delinquentes menores ou apenas trabalhadores inocentes, como parecem ser os últimos fuzilados em São Paulo por um soldado que passeava com a sua família e alegou haver respondido à ameaça dos mortos. Testemunhas afirmam que se tratou apenas de uma disputa de trânsito – as vítimas teriam “fechado” o carro do policial. Por terem assim agido, de acordo com as testemunhas, os rapazes foram fuzilados pelo militar.

Quando alguém importante é vítima de um criminoso comum, a sociedade se mobiliza. Quando os mortos são trabalhadores das favelas – ou pequenos criminosos levados ao tráfico pela falta de educação, de estrutura familiar sadia, e de empregos normais – a reação é quase nenhuma. Aqui e ali se manifestam alguns altruístas, e, pouco depois, as execuções deixam de ser notícia.

Quando houve, há seis anos, uma insurreição aberta de bandidos em São Paulo, o então governador Cláudio Lembo colocou o dedo na ferida, ao culpar pela calamidade “a elite branca e perversa” de seu estado. É certo que a desigualdade social não é a única responsável pela violência urbana – a cultura da violência, importada dos EUA pela televisão, tem muito dessa culpa – nem pelos crimes brutais que conhecemos. Bandidos há em todas as classes e, provavelmente, os mais cruéis sejam os mais dissimulados, como os que atuam em Wall Street.

Onde há mais justiça social há menos medo nas ruas.


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