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Prefeitura de São Paulo: Orçamento para 2014 aumenta descentralização e privilegia periferia

11 de outubro de 2013
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Periferia paulistana pode receber mais serviços públicos, rompendo sucessivas formas de gestão da cidade. Foto de Fernando Stankuns.

Parelheiros deixa a lanterna e Capela do Socorro terá mais dinheiro que Pinheiros. Economista elogia escolha e afirma que áreas com menos Estado demandam mais recursos

Gisele Brito, via RBA

A proposta orçamentária para 2014 entregue pelo prefeito Fernando Haddad (PT) à Câmara Municipal de São Paulo na semana passada aponta maior descentralização da administração da cidade, com aumento de recursos para as 32 subprefeituras. O esvaziamento dessas unidades administrativas era uma das principais críticas à gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), responsável pela elaboração do orçamento que vigorou durante o primeiro ano da gestão Haddad. A proposta tem de ser votada pelos vereadores até 31 de dezembro. Antes, a população também pode sugerir alterações em audiências públicas.

A proposta do Executivo sinaliza mudança nas prioridades entre o centro, com melhor infraestrutura e com renda per capita mais alta, e a periferia empobrecida e historicamente desatendida.

O orçamento prevê aumento de 31% nos recursos para a subprefeitura de Parelheiros, no extremo sul da capital, por exemplo. Com isso, a regional que ocupava a última posição no ranking de orçamentos subiu sete posições e agora é a 24ª entre as 32 da cidade. Foi o maior aumento de aportes para uma única subprefeitura previsto para o ano de 2014. Todas as regiões tiveram variação positiva, superior a 7%, e em média de 14%. Tremembé/Sapopemba foi dividida em duas unidades administrativas, mas mesmo assim a soma dos dois novos orçamentos é superior ao deste ano.

Pirituba/Jaraguá, na zona norte, com orçamento de aproximadamente R$34,2 milhões, e Guaianazes, na leste, com quase R$35,5 milhões, também atraíram mais a atenção da administração Haddad do que a de seu antecessor, em seu último ano de mandato. Respectivamente, as subprefeituras tiveram aumento de 18% e 16% em seus orçamentos, o que lhes garantiu 16ª e 13ª posições entre os melhores orçamentos para o próximo ano.

O orçamento da subprefeitura da Capela do Socorro, também na zona sul, aumentará 18% em relação ao seu antecessor. Com R$37,3 milhões, terá mais recursos do que a subprefeitura de Pinheiros, na zona oeste. Essa região, uma das mais melhor estruturadas da cidade, contará com cerca de R$36,6 milhões, o equivalente a um aumento de 11% em relação ao orçamento proposto para esse ano, o que a levou a cair uma posição no ranking de investimentos e não figurar mais entre as dez subprefeituras com mais verbas da cidade.

A sub da Sé, no centro, continuará como a que recebe mais recursos, cerca de R$64,2 milhões. O valor é superior ao destinado à recém-criada Secretaria de Direitos Humanos (R$61,7 milhões) e à de Serviços (R$62,9 milhões).

Além dos recursos administrados pelos próprios gestores locais, as subprefeituras receberão investimentos em formas de obras, programas e ações. Nesses casos, a região do M’Boi Mirim, na zona sul, será a mais beneficiada. A prefeitura pretende investir no próximo ano R$1,3 bilhão em obras de mobilidade, habitação, cultura e saúde, entre outras. O volume é 13,5 vezes maior do que o que se pretende investir em Pinheiros, de pouco mais de R$97 milhões.

Para o economista Odilon Guedes, membro da Rede Nossa São Paulo, Haddad faz uma opção correta ao investir mais em regiões periféricas. Para ele, a maior presença de serviços públicos tem impacto direto na redução da violência e melhoria de indicadores econômicos e sociais. “Na periferia, você tem subprefeitura sem biblioteca, sem uma área de lazer sequer, que não tem árvore nas ruas. Tem que investir pesado nessas áreas”, enfatiza.

IPTU

Ele avalia, no entanto, que o prefeito superestimou os recursos disponíveis para o próximo ano. Ao todo, o orçamento prevê cerca de R$50,7 bilhões, valor quase 25% maior do que o previsto para ser gasto esse ano.

Parte desses recursos extras seriam obtidos junto ao governo federal e com a revisão da Planta Genérica de Valores Imobiliários, que possibilitará, se aprovada, aumento de aproximadamente 24% na arrecadação do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), o que Guedes acha correto, mas precipitado.

“O problema é que ninguém gosta de pagar mais imposto”, lembra. “Mas o Estado tem que cobrar mais dos que têm mais dinheiro. Governar é administrar conflitos. A prefeitura tem que fazer opções. Mas tem que ser transparente, inclusive fazer um debate aberto e mostrar onde vai aplicar o dinheiro”, acredita.

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Mapa do voto reproduz divisão histórica em São Paulo

8 de outubro de 2012

A periferia de São Paulo está com Haddad e as áreas nobres estão com Serra.

Via Agência Estado

José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT) farão o 2º turno em São Paulo. O tucano teve 30,75% dos votos válidos, ante 28,98% do petista. Em números absolutos, foram 1.884.849 votos para Serra, e 1.776.317 para Haddad. Celso Russomano (PRB) ficou em terceiro, com 21,6% dos votos, e Gabriel Chalita (PMDB), em quarto, com 13,6%. Os votos brancos e nulos quase dobraram em relação aos índices de 2008 e chegaram, juntos, a 12,8%.

Será a segunda vez que PSDB e PT se enfrentam no 2º turno paulistano, e a sexta vez seguida que um candidato petista chega ao turno final na cidade. O 2º turno ocorrerá em 28 de outubro. O horário eleitoral recomeça esta semana, com 20 minutos de propaganda na tevê por dia para cada candidato.

O modelo de divisão do eleitorado criado pelo Estadão Dados em parceria com o Ibope teve 100% de acerto. Serra ganhou em todas as zonas eleitorais antipetistas; Haddad ganhou em todas as zonas eleitorais petistas. Os dois dividiram as zonas volúveis: Haddad venceu em cinco delas, e Serra, em duas. Russomano e Chalita não venceram em nenhuma zona eleitoral.

A divisão da cidade em zonas petista, antipetista e volúvel foi desenvolvida por Estado/Ibope com base em resultados históricos. As zonas petistas são aquelas onde os candidatos majoritários do PT em 2008 e 2010 foram os mais votados. Nas antipetistas, nenhum petista venceu nas últimas três eleições. Nas zonas volúveis, os petistas sempre alternaram vitórias e derrotas.

As zonas antipetistas têm renda média 2,5 vezes maior do que as zonas petistas. Elas formam uma área homogênea e contígua no centro expandido. As zonas petistas estão distribuídas nas periferias sul, leste e norte da cidades. As zonas volúveis ficam sempre entre as petistas e as antipetistas e formam uma área de transição econômica e política.

Neste 1.º turno, Serra conseguiu 42% dos votos válidos no conjunto das zonas antipetistas, contra apenas 21% de Haddad. Russomano ficou em terceiro nessas áreas, com 18%, e Chalita, em quarto, com 14%. A zona antipetista foi responsável por 51% do total de votos válidos.

A zona petista contribui com 38% dos votos válidos totais desta eleição. Haddad ficou com 39% dos votos válidos na zona petista, contra 27% de Russomano, 17% de Serra e 13% de Chalita. O candidato do PT obteve proporcionalmente bem menos votos do que Marta Suplicy (PT) nessa área. Ela chegou a 51% em 2008.

Da zona volúvel vieram os 11% restantes dos votos em candidatos. Nessas sete zonas eleitorais, o resultado consolidado foi uma vitória de Haddad, com 30% dos votos válidos, seguido de Serra, com 27%, Russomano com 23% e Chalita com 15%. A maior vitória de Serra ocorreu na zona eleitoral do Jardim Paulista, na região oeste. O tucano ficou com 67% dos votos válidos. A maior vitória de Haddad foi na zona eleitoral de Parelheiros, na zona sul. O petista conquistou 47% dos votos válidos.

Ombudsman da Folha diz que jornalistas da casa não conhecem a periferia e são “branquinhos”

7 de outubro de 2012

Cobertura eleitoral se apoia demais em pesquisas e desobriga a reportagem de percorrer os bairros distantes para entender o que querem os mais pobres. Quanto mais se afasta do centro da cidade, mais evidente fica a fragilidade da reportagem. A Folha não entende e não conhece a periferia de São Paulo, que responde por 40% dos votos. Talvez seja um reflexo da própria Redação, formada majoritariamente por brancos (e brancas), de alta escolaridade, que vivem no cinturão privilegiado de São Paulo -composição que se repete nas grandes redações.

Suzana Singer, via Folha online

O que prometia ser uma cobertura sem emoção, com o veterano José Serra confortavelmente à frente dos concorrentes, acabou se mostrando um grande desafio. A primeira fase da corrida eleitoral em São Paulo termina hoje [7/10] sem que tenha ficado claro o que motivou o sobe-desce dos candidatos.

A cada reviravolta nas pesquisas, surgia uma nova teoria. Celso Russomano se desidrataria quando começasse o horário eleitoral gratuito na televisão, já que tinha bem menos tempo que o PT e o PSDB. Não aconteceu.

A rejeição a Serra era condenatória porque traduzia o descontentamento com a gestão de Kassab na prefeitura. Nas últimas semanas, o tucano recuperou vários pontos.

O crescimento de Fernando Haddad estava lento, muito inferior ao desempenho dos candidatos petistas do passado. Agora, ele tem chance de passar para o segundo turno.

Uma vez na liderança, Russomano era explicado como representante do novo consumidor da classe C. Sem que nenhum escândalo surgisse, despencou dez pontos.

O que esse monte de teses de vida curta mostra é que falta reportagem. As pesquisas ganharam tanta importância na cobertura eleitoral que “dispensaram” os jornalistas de correr a cidade, ouvir eleitores e tentar captar mudanças de humor.

A forte rejeição a Kassab, que pode ter contaminado Serra, surpreendeu a todos. Por que a população está tão insatisfeita? Para entender isso, a Folha oferece mais pesquisa, numa série de seis cadernos, chamados de “DNA paulistano”. É um levantamento rico, cheio de dados de cada região da cidade, mas não ajuda a entender o macro.

Para medir a influência da religião, do “mensalão”, do Lula, da Dilma, dá-lhe pesquisa. É verdade que nem um exército de repórteres conseguiria ouvir tanta gente a ponto de concluir algo estatisticamente relevante. Só que a frieza dos índices não é suficiente.

A queda de Russomano, por exemplo, pode estar ligada a sua proposta para a tarifa de ônibus (cobrar proporcionalmente ao trecho percorrido). Quando isso foi divulgado, a Folha deu pouco destaque, sem se dar conta de que esse é um tema sensível aos mais pobres.

Quanto mais se afasta do centro da cidade, mais evidente fica a fragilidade da reportagem. A Folha não entende e não conhece a periferia de São Paulo, que responde por 40% dos votos. Talvez seja um reflexo da própria Redação, formada majoritariamente por brancos (e brancas), de alta escolaridade, que vivem no cinturão privilegiado de São Paulo -composição que se repete nas grandes redações.

O sucesso de um artigo publicado em julho no “Tendências/Debates” mostra o tamanho do buraco a ser preenchido (http://migre.me/b1mRc). Leandro Machado, que contribui para o site “Mural”, descreveu, em primeira pessoa, o que é ser da nova classe C. “Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na tevê até trocaram um jornalista para me agradar”, contou.

Para entender o que está acontecendo na cidade e decifrar o que dizem os números das pesquisas, é preciso dar voz à periferia.

Leia também:

Até a ombudsman da Folha acha que jornal deturpa as notícias


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