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Uma patifaria chamada “O país dos metralhas”

15 de fevereiro de 2013

Gibi_Metralhas02O gibi vai entrar para a história como um retrato dos tempos cinzentos que já vivemos.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

A posteridade terá num simples gibi um exemplo perfeito dos dias mentalmente turbulentos e desgovernados que vivemos. O gibi, da Abril, é uma compilação de histórias dos Irmãos Metralhas. É um triunfo da raiva, do recalque e do jogo sujo. Não há nada que desculpe, que atenue, que explique o absurdo que este gibi representa.

É um insulto mesmo a não petistas como eu.

Estranhamente, uma vez que será lido por crianças que não atinarão com a brutalidade boçal e reacionária da revista, tudo ali foi feito para agredir os petistas. Há tantas formas inteligentes de criticar o PT, e eis que aparece um gibi transformado num panfleto inútil e obtuso em sua agressividade delirante.

O título remete a um livro em que o blogueiro Reinaldo Azevedo compila parte de sua verborreia ultradireitista, O país dos petralhas.

Dentro, nasty foi traduzido por “petralha”. Nasty é repulsivo. O termo “petralha” é, em si, outro símbolo destes dias intelectualmente tenebrosos no campo da direita.

Pausa.

Fui – rapidamente – ver o que Azevedo dizia sobre isso. Acabei topando com uma sucessão de agressões dele a Flávio Moura por ter cometido o crime de escrever um artigo no Valor em que critica alguns colunistas reacionários. Moura é tratado como “empregadinho” de Luiz Scharcz, porque é editor da Companhia de Livros. Me lembrou o caso de um conservador inglês que recentemente foi estraçalhado pela mídia por ter chamado policiais de “plebeus”. Para encerrar: Moura não escreveu, mas o declínio daquele tipo de colunista se manifesta, mais que tudo, nas sistemáticas surras eleitorais que tomam. Não estão convencendo ninguém, ou porque são simplesmente ineptos, ou porque a causa é ruim, ou por uma mistura de ambos os pontos.

Bem, de volta a petralha.

É um neologismo de Reinaldo Azevedo, e ninguém o usa tanto quanto o próprio autor, com evidente e infantil ufanismo (Tolstói não se ufanava de Guerra e paz e nem Shakespeare de Hamlet, mas Azevedo parece achar que merece reconhecimento internacional por “petralha”). Em escala muito menor, uns poucos conservadores falam em “petralhas” para diminuir petistas.

Note: petistas e não delinquentes em geral. É uma palavra com um alvo único: os petistas. Nenhum torcedor apaixonado chama um juiz de futebol, por exemplo, de “petralha”.

Mas o gibi consagrou, aspas, esta acepção inexistente de “petralha”. Quem optou por isso? Algum tradutor teria cometido essa barbaridade, ou um fundamentalista anônimo fez o ajuste na edição?

O responsável por isso, seja ele quem for, vai entrar para a história como o autor anônimo de uma pequena patifaria que não é grande senão por mostrar a falta de decência no debate entre os conservadores nacionais.

A triunfal ascensão à base de asneiras de Marco Antônio Villa

8 de fevereiro de 2013

Marco_Antonio_Villa02

Como o reacionarismo ululante de Villa (foto) deu a ele os holofotes da mídia.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Não tenho grandes expectativas em relação à academia brasileira, mas mesmo assim me surpreendi ao ler um artigo sem nexo na Folha, nas eleições de 2010, e ver que o autor era professor da Universidade Federal de São Carlos.

Pobres alunos, na hora pensei.

Não conhecia o professor Marco Antônio Villa, historiador não sei de que obras. No artigo, depois de ter entrado na mente de Lula, ele contava aos brasileiros que a escolha de Dilma se dera apenas para que em 2014 Lula voltasse ao poder, nos braços da “oligarquia financeira”. Villa, com as asas de suas teorias conspiratórias, voara até 2014 para prestar um serviço à Folha e seus leitores.

Não sei se Villa conhece a história inglesa, mas deveria ler uma frase de Wellington, o general de Waterloo: “Quem acredita nisso, acredita em tudo”.

Minha surpresa não pararia ali. Saberia depois que, graças a seu direitismo estridente e embalado numa prosa com as vírgulas no lugar, Villa virou presença frequente em programas de televisão cujo objetivo era ajudar Serra, notadamente na GloboNews sob William Waack.

Mais recentemente, ele tem participado de animadas mesas redondas no site da Veja sobre o “mensalão”. Vá ao YouTube e observe quantas pessoas veem as espetaculares discussões de que Villa participa ao lado de Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo. O recorde de Psy pode ser batido antes do que imaginamos.

Soube também que ele lançou um livro sobre o “mensalão”. Abominei sem ler. Zero estrela de um a cinco.

Minha única surpresa em relação a Villa derivou de uma chancela importante de Elio Gaspari, um dos melhores jornalistas que vi em ação como diretor-adjunto da Veja nos anos de 1980. Ele fez parte da equipe de Elio na elaboração de seu livro A ditadura derrotada.

Villa, conta Elio, “conferiu cada citação de livro ou documento. Foi um leitor atento e pesquisador obsessivo. Villa tem uma prodigiosa capacidade de lembrar de um fato e de saber onde está o documento que comprova sua afirmação. Ajuda como a dele é motivo de tranquilidade para quem tem o prazer de recebê-la. Além disso, dá a impressão de saber de memória todos os resultados de jogos de futebol”. Foi o que escreveu Elio.

Uau.

Villa trabalhou com Elio, portanto. Não aprendeu nada?

Não parece. Elio tem uma independência intelectual perante os partidos e os políticos que passa completamente ao largo de Villa e congêneres. Isso lhe dá autoridade para criticar e elogiar situação e oposição, e credibilidade para ser levado a sério.

Villa, em compensação, é fruto de uma circunstância em que se procura desesperadamente dar legitimidade acadêmica a um direitismo malufista. Em outros tempos, Villa – caso acredite mesmo nas coisas que escreve e fala — seria um extravagante, um bizarro, imerso num mundo que é só seu. Você poderia imaginá-lo jogando dardos num pôster de Lula.

Nestes dias de confronto, é um símbolo de como alguém pode chegar aos holofotes e virar “referência” falando apenas o que interesses poderosos querem ouvir.

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Surge em Havana um Lula menos cordato

5 de fevereiro de 2013

Lula_Censura

Como Dilma alguns dias atrás, Lula parece ter, enfim, perdido a paciência.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Lula mais enfático. Lula governou apanhando calado das viúvas do antigo regime, representadas pelas grandes corporações de mídia. Ele fez uma opção, desde o início, pela conciliação.

Na Carta aos Brasileiros, garantiu ao 1% que nada de substancial mudaria. Fez questão de comparecer ao enterro de dois barões da imprensa de grande destaque no Antigo Regime, Octávio Frias e Roberto Marinho.

Chegou ao ponto – lastimável – de decretar três dias de luto em memória de Roberto Marinho, a quem numa nota pública fez um panegírico sem apoio nenhum na realidade dos fatos.

Não fez nada em relação aos limites da mídia. A velha Inglaterra se movimentou primeiro, e sob um governo conservador com fortes vínculos com Rupert Murdoch.

O relatório Leveson, o conjunto das propostas de mudança na regulação da mídia britânica, foi o reconhecimento do governo de David Cameron de que a sociedade está acima dos jornais: propriedade de empresários como Murdoch para os quais o interesse pessoal vem na frente do interesse público.

Ponto.

Lula sequer discutiu a abjeta, repulsiva reserva de mercado para as empresas de jornalismo. Tão ávidas em falar de competição, elas se agarram a uma legislação esclerosada que impede o estabelecimento no Brasil de empresas estrangeiras.

Perde o País, porque o jornalismo brasileiro melhoraria sob a concorrência. E perde a decência, pela perenidade de um privilégio sem sentido.

Em sua política de boa vizinhança, Lula sequer chegou a mexer no destino da multimilionária conta publicitária do governo e das estatais. Isso foi dar numa bizarrice: a Globo mesmo com a pior audiência de sua história em 2012 continuou a faturar em cima do governo como se dominasse, como na era pré-internet, o mercado brasileiro de forma avassaladora.

Nada disso impediu que Lula fosse atacado de forma cada vez mais feroz por aqueles diante de quem contemporizava e, em certas ocasiões, até recuava.

A mídia brasileira se transformou, nos últimos dez anos, numa fábrica uniformizada de colunistas dedicados a caçar Lula. Bater em Lula deu emprego e espaço a nulidades como Villa, Azevedo e Mainardi. Todos eles inexpressivos em seus campos de atuação antes de Lula, ganharam depois os holofotes interesseiros apenas por atirar em quem o antigo regime queria ver sangrando.

Lula jamais reagiu, e isso talvez tenha-lhe dado a aura de perseguido e ajudado a construir a formidável popularidade que ele tem diante do povo brasileiro.

Mas ao mesmo tempo a contemporização o tolheu: quando Lula disse, repetidas vezes, que os grandes empresários jamais tinham ganhado tanto dinheiro como sob ele, estava tristemente certo.

Como a riqueza nacional é um bolo só, se um grupo está ganhando muito dinheiro – a família Marinho retornou agora à lista dos bilionários da Forbes – os demais terão de se contentar com o que sobrar. Não é um dado auspicioso para um país com tamanha desigualdade.

O silêncio de Lula diante das pancadas ininterruptas não o ajudou sequer depois do Planalto. Como já foi notado, Lula se transformou no primeiro ex-presidente cuja derrubada é tramada, sonhada e tentada.

Tudo isso posto, é interessante notar as palavras de Lula em Havana, onde ele esteve nestes dias para a celebração do herói cubano José Martí e também para visitas a Fidel e ao adoentado Chavez.

Lula falou mais alto do que de costume, como Dilma alguns dias antes dele num pronunciamento transmitido pela televisão brasileira.

Disse o óbvio, mas este óbvio não tinha sido jamais expresso publicamente antes com tamanha clareza. O antigo regime, notou ele, o persegue não pelos erros – que não são poucos, de resto, como o Diário tem constantemente lembrado, a começar pelo fracasso no choque ético prometido na política e a continuar pela baixa velocidade na escandinavização do Brasil – mas pelos acertos.

O cordato Lula mudou?

Veremos. Mesmo a paciência de alguém forjado nas disputas sindicais, em que você xinga e é xingado a cada assembleia, tem limites.

Mas não é este o ponto.

Lula parece ter entendido, fora do poder, que para que a sociedade brasileira seja menos absurdamente injusta você não pode permitir que uma pequena casta mimada ganhe mais dinheiro que nunca.

Caso isso aconteça, estarão sendo indiretamente lesados milhões de brasileiros que foram simplesmente abandonados no antigo regime, iniciado no golpe militar de 1964.

Lula parece ter carregado a ilusão de que poderia fazer a reforma social que o Brasil demanda com urgência recebendo tapinhas nas costas dos defensores e beneficiários da velha ordem.

Não é bem assim.

Se é para Lula ser agredido incondicionalmente como é, que pelo menos ele aja sem ansiar por afagos que jamais virão.

Os brasileiros ganharão.

Paulo Nogueira: A melhor filantropia é pagar o imposto devido

2 de fevereiro de 2013
Crianca_Esperanca01

O programa arrecada menos de 0,5% do que a Receita Federal está cobrando da Globo.

Imposto é um dos temas mais quentes do mundo moderno, e o Diário tem coberto o assunto intensamente.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Nos Estados Unidos, por exemplo. Barack Obama usou isso como uma arma para atacar seu adversário republicano Mitt Romney. Romney é um homem rico, mas tem pagado bem menos imposto, proporcionalmente, do que um assalariado comum.

Obama o desafiou a publicar o quanto ele pagou nos últimos cinco anos. Se ele fizesse isso, Obama jurou que não tocava mais no assunto. Romney não fez, e se estrepou nas eleições.

No mundo, agora. Um levantamento de um instituto independente chamado TJN mostrou, em 2012, que mais de US$30 trilhões estão escondidos em paraísos fiscais, longe de tributação. Se aquela cifra descomunal fosse declarada, ela geraria impostos de mais de US$3 trilhões, considerada uma taxa (modesta) de 10%.

Lembremos. Imposto é chato e ninguém gosta, nem você e nem eu. Mas é com ele que governos constroem escolas, estradas, hospitais etc. Logo, eles são do mais absoluto interesse público.

Agora, o Brasil.

Uma notícia espetacular, a despeito do número esquálido de linhas, foi publicada há algum tempo na seção Radar, de Lauro Jardim, da Veja: “A Globo, o Paraíso dos “PJs”, está sendo cobrada em R$2,1 bilhões pela Receita Federal por impostos que alegadamente deveria recolher e não recolheu.”

Globo_ImpostosSegundo o Radar, outras 69 empresas foram objeto do mesmo questionamento fiscal. Todas acabaram se livrando dos problemas na justiça, exceto a Globo. Chega a ser engraçado imaginar a Globo no papel de vítima solitária, mas enfim.

Em nome do interesse público, a Receita Federal tem de esclarecer este caso. É mais do que hora de dar um choque de transparência na Receita – algo que infelizmente o governo Lula não fez, e nem o de Dilma, pelo menos até aqui.

Se o mundo fosse perfeito, a mídia brasileira cobriria a falta de transparência fiscal para o público. Mas não é. Durante anos, a mídia se ocupou em falar do mercado paralelo.

Pessoalmente, editei dezenas de reportagens sobre empresas sonegadoras. A sonegação mina um dos pilares sagrados do capitalismo: a igualdade entre os competidores do mercado. Há uma vantagem competitiva indefensável para empresas que não pagam impostos. Elas podem investir mais, cobrar menos pelos seus produtos etc.

Nos últimos anos, o assunto foi saindo da pauta. Ao mesmo tempo, as grandes corporações foram se aperfeiçoando no chamado “planejamento fiscal”. No Brasil e no mundo. O NY Times, há pouco tempo, numa reportagem, afirmou que o departamento contábil da Apple é tão engenhoso quanto a área de criação de produtos. A Apple tem uma sede de fachada em Nevada, onde o imposto corporativo é zero. Com isso, ela deixa de recolher uma quantia calculada entre US$3 bilhões e US$5 bilhões por ano.

Grandes empresas de mídia, no Brasil e fora, foram encontrando jeitos discutíveis de recolher menos. Na Inglaterra, soube-se que a BBC registrou alguns de seus jornalistas mais caros, como Jeremy Paxton, como o equivalente ao que no Brasil se chama de “PJ”. No Brasil, muitos jornalistas que escrevem catilinárias incessantes contra a corrupção são “PJs” e, aparentemente, não veem nenhum problema moral nisso. Não espere encontrar nenhuma reportagem sobre os “PJs”.

Os brados contra a sonegação deixaram de ser feitos pela mídia brasileira quando as empresas aperfeiçoaram o “planejamento fiscal” — uma espécie de sonegação legalizada, mas moralmente imoral.

O dinheiro cobrado da Globo – a empresa ainda pode e vai recorrer, afirma o Radar – é grande demais para que o assunto fique longe do público. A Globo costuma arrecadar R$10 milhões com seu programa “Criança Esperança”. Isso é cerca de 0,5% do que lhe está sendo cobrado. Que o caso saia das sombras para a luz, em nome do interesse público – quer a cobrança seja devida ou indevida.

A Inglaterra não apenas está publicando casos de empresas que pagam muito menos do que deveriam, como Google e Starbucks, como, agora, nomeou os escritórios de advocacia mais procurados por corporações interessadas na evasão legal.

De resto, a melhor filantropia que corporações e milionários podem fazer é pagar o imposto devido. O resto, para usar a grande frase shakesperiana, é silêncio.

Paulo Nogueira: O último suspiro de influência da mídia

18 de janeiro de 2013
Collor07

Collor e a ex-mulher em sua posse.

A imprensa construiu e destruiu Collor. Depois disso, se dedicou a defender seus próprios interesses.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

A queda de Fernando Collor de Mello, há 20 anos, foi a última demonstração de força e influência da imprensa brasileira, para o bem e para o mal. Collor, um político provinciano e oco, tagarela e bonitão, se tornou uma figura nacional graças à mídia, que viu nele uma alternativa salvadora a – sempre ele – Lula na Presidência.

Collor seria consagrado como “o caçador de marajás” por jornais e revistas. Era descrito pela mídia como o homem perfeito: combatia marajás – os funcionários públicos de altos salários – e era moderno. Este foi o primeiro empurrão em Collor, e lhe permitiu chegar ao segundo turno das eleições presidenciais.

Sua plataforma era a versão tosca em português da de Margareth Thatcher, que então era tida como uma semideusa. Não haviam aparecido ainda os efeitos sinistros do thatcherismo. Hoje eles são claros, impressos que estão na grande crise econômica e financeira mundial. Mas quando Collor virou um pretendente sério à Presidência a fórmula de Thatcher – desregulamentar e privatizar — parecia funcionar.

Como um Thatcher de calças, Collor cortejou e conquistou Roberto Marinho, à época considerado amplamente o homem mais poderoso do País. Isso foi essencial para o segundo empurrão dado em Collor: a edição mal-intencionada da TV Globo do debate entre ele e Lula às vésperas da eleição. Lula não foi bem no debate, mas na edição da Globo – vista por uma audiência gigantesca que já não existe mais para a emissora – ele foi ainda muito pior. E então nosso Thatcher virou presidente.

Collor cometeu o erro de achar que, porque andara de avião, podia voar sozinho. Foi fatal. Não buscou alianças políticas, e não soube manter sequer o apoio da mídia que tanto contribuíra para sua vitória. Sem base política, foi jogado para o abismo pela mesma mídia que o alçara ao Planalto.

Foi o apogeu da imprensa como força política.

Em 1964, ela participara ativamente das ações para a derrubada do presidente João Goulart, mas o papel principal coube aos militares. Em 1992, o protagonismo foi da mídia. Passados 20 anos, o poder da imprensa é uma sombra do que foi. Em parte porque a internet foi ocupando um espaço cada vez maior. Mas também porque as grandes corporações de jornalismo não souberam captar o zeitgeist, o espírito do tempo. E isso é fatal no jornalismo.

Em 1992, por exemplo, ler a Folha era considerado coisa de gente bacana. Ela captara o espírito do tempo na campanha das Diretas Já. Hoje, na nova geração de leitores, quem se importa com a Folha? O espírito do tempo agora se manifesta em coisas como a inconformidade com a iniquidade social monstruosa que varreu o mundo. Na agenda de que grande empresa de mídia se vê algum traço desse inconformismo?

A maior demonstração da crescente falta de potência está nos resultados das três últimas eleições presidenciais. Ganharam candidatos – Lula e Dilma – que jamais gozaram do apoio da mídia, para dizer o mínimo.

É bom ou ruim o enfraquecimento da mídia estabelecida para o Brasil? É difícil lamentar a perda de influência. O Brasil que as grandes empresas de jornalismo ajudaram a construir era simplesmente insustentável em sua iniquidade, na forma absurda com que era distribuído o bolo, no número abjeto de miseráveis amontoados em favelas.

No mundo perfeito, a mídia teria apontado esse drama e lutado para corrigi-lo. Não fez. Fez o oposto, na verdade: se alinhou à manutenção de privilégios e de mamatas. Por isso, 20 anos depois da queda de Collor, fala apenas para os privilegiados – e não todos eles, mas aqueles que em seu egoísmo sem limites ignoram e desprezam os desfavorecidos.


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