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O livro “A outra história do mensalão” é um sucesso de vendas

3 de abril de 2013
O livro de Moreira Leite foi prefaciado por Janio de Freitas; e o de Merval por Ayres Britto. Percebeu a diferença?

O livro de Moreira Leite foi prefaciado por Janio de Freitas; e o de Merval por Ayres Britto. Percebeu a diferença?

Com informações de Paulo Henrique Amorim em seu Conversa Afiada

A 2ª edição, com 7 mil exemplares, do provocativo A outra história do mensalão As contradições de um julgamento político, de Paulo Moreira Leite, está a caminho. O livro lançado em janeiro deste ano vendeu 15 mil exemplares nos primeiros 30 dias e alcançou todas as listas dos mais vendidos do País e esgotou nos estoques da editora. Com a 2ª edição, já foram impressos 25 mil exemplares do livro político mais polêmico do ano, mesmo com uma cobertura modesta da imprensa nacional.

A ampla divulgação nas redes sociais e as contradições apontadas pelo autor fizeram do livro um sucesso. Quem leu gostou, quem comprou não se arrependeu e a Geração Editorial não foi notificada ou processada. Afinal, quem cala, consente.

O leitor poderá encontrar a obra em todas as grandes livrarias do País e na versão e-book, nas principais lojas on-line.

O jornalista Paulo Moreira Leite ousa afirmar que o julgamento do chamado “mensalão” foi contraditório, político e injusto, por ter feito condenações sem provas consistentes e sem obedecer a regra elementar do Direito, segundo a qual todos são inocentes até que se prove o contrário.

Em tempo 1: o Conversa Afiada perguntou a “especialista” na matéria como vendia o livro assemelhado do Ataulfo Merval de Paiva. Esta é a resposta: “Muito pouco, depois da ‘campanha publicitária’ com exposição diária em O Globo, entrevista no Jô e até sorteio na CBN, com vinheta de meia em meia hora, não pegou. Nas listas da Veja, do Valor e do Publishnews não aparece entre os 20 mais vendidos. Já era. Vai fazer parte da lista de best-sellers globais, que tem o Gilberto Freire com ‘I’ à frente.”

Em tempo 2: quem manda ter prefácio do Big Ben de Propriá?

Paulo Moreira Leite: “Não há evidência de desvio de dinheiro público no ‘mensalão’.”

12 de março de 2013
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Jornalista questiona condenações e diz que “mensalão” transformou-se em julgamento político.

Rachel Duarte, via Sul 21

Um julgamento sem provas, com grave desrespeito à Constituição Federal e transformado em espetáculo midiático. Esta é a síntese da leitura do jornalista Paulo Moreira Leite após quatro meses de investigação sobre a Ação Penal 470, conhecida como “mensalão”. Enquanto correu o processo, ele escreveu de forma paralela na internet a sua visão dos fatos jurídicos, políticos e midiáticos relacionados ao tema. Paulo Moreira Leite teve acesso aos autos do processo, ao relatório da Polícia Federal e acompanhou a sessão que condenou os principais quadros políticos do governo Lula à prisão. O material virou o livro A outra história do mensalão – as contradições de um julgamento político, lançado no começo de 2013.

O julgamento, considerado por parte da imprensa brasileira como o maior da história do país no que se refere ao combate à corrupção, é visto de forma diferente pelo jornalista, diretor da sucursal da IstoÉ em Brasília e que já trabalhou em veículos como Época e Veja. Em sua opinião, o julgamento produziu condenações por antecipação, desconsiderou a investigação da Polícia Federal, manteve um desprezo excessivo pela isenção e revelou que a mídia acuou o Supremo Tribunal Federal (STF). “A imprensa deu de barato o caso e torcia pela condenação. Colocar a transmissão ao vivo é uma maneira de jogar o público em cima do Tribunal. Muitos juízes ficaram intimidados. Já outros ficaram contentes e gostaram disso”, falou em entrevista ao Sul21.

Enquanto o envolvimento de grupos econômicos que contribuíram com as empresas do publicitário Marcos Valério não foi devidamente investigado, na visão de Moreira Leite, os réus José Dirceu e José Genoíno teriam sido severamente punidos sem direito ao contraditório, respondendo a uma acusação de desvio de dinheiro público que o jornalista considera vazia. “Ele [procurador-geral da República, Roberto Gurgel] supõe que era um suborno. Convencido disso, ele conta uma história que até faz sentido, mas não prova nada. Cadê os pagamentos? Suborno para quê? Um suborno é feito em contrapartida de alguma coisa. Onde estão as votações compradas? Não há nenhuma votação em que se comprove que parlamentares foram pagos para aprovar projetos do governo”, conclui.

Paulo Moreira Leite lembra outros exemplos da atuação do STF no Brasil, que permitem fazer uma reflexão sobre o exercício da democracia. Segundo ele, o STF teria mantido uma postura de tolerância em relação a possíveis corruptores em outros casos que nem sequer entraram na pauta dos ministros. “O que eu posso dizer é que claramente houve uma decisão seletiva de desmembrar o mensalão do PSDB mineiro, mandando quem não tinha direito a foro privilegiado a ser julgado em primeira instância, o que já dá direito a recorrer. Isso é algo que os julgados pelo STF não têm. Isto é um elemento básico [demonstrando] que houve dois tratamentos”, afirma.

Sul21 – Por que você resolveu escrever o livro A outra historia do mensalão – as contradições de julgamento político? Suas apurações sobre a Ação Penal 470 já eram escritas na coluna que o senhor mantinha na Revista Época durante o processo.

Paulo Moreira Leite – Muitas pessoas me liam na coluna e sugeriam que eu tinha que reunir tudo que eu dizia em um livro. Eu até apreciava a ideia, mas comecei a pensar seriamente nisso quando vi que havia uma discussão de conjunto sobre o que eu escrevia. O livro permite algo que a internet não permite, que é fazer a abordagem do julgamento inteiro, fazendo uma reflexão unificada. Uma exposição sem cortes, com coerência, prefácio e conclusão. Eu penso que, dada a importância que o julgamento ganhou, era algo necessário. E creio que justifica a aceitação que o livro está tendo.

Sul21 – Na coletiva de lançamento, o senhor referiu-se a uma insuficiência na cobertura jornalística sobre o julgamento, o que também influenciou na realização do livro.

Paulo Moreira Leite – O Janio de Freitas [colunista da Folha de S. Paulo], que escreveu o prefácio do livro, diz que eu cobri o julgamento como jornalista. Ele disse que o que deveria ter sido normal, que é o trabalho de jornalista, foi raridade no processo. Eu concordo com o que ele diz. A imprensa teve um comportamento tendencioso, indefinido e pouco jornalístico. O importante do meu livro é que foi jornalístico. Eu procurei contradições, compreender o que aconteceu, fiz questionamentos. Por isso os artigos do blog repercutiam e tornam o livro interessante. Foi o eu quis fazer, ao menos.

Sul21 – A ausência de provas, ou o uso de provas muito rasas para penas tão severas, foi um dos principais argumentos da defesa dos réus. Na tua apuração jornalística sobre o caso, quais foram as provas encontradas?

Paulo Moreira Leite – O que estou convencido, agora que o julgamento acabou e depois de ter lido boa parte da ação penal, das argumentações finais, da acusação, dos relatórios da Polícia Federal é que tivemos penas muito pesadas para provas muito fracas. Esta é para mim a principal contradição deste julgamento. Várias das acusações que foram ditas como verdades absolutas não estão comprovadas, ou estão comprovadas com indícios frágeis, ou ainda, foram contestadas por outras investigações que não foram respondidas no julgamento. Por exemplo: a história de que os contratos entre o PT e o Banco Rural eram simulados. Disseram que estes empréstimos nunca existiram. A Polícia Federal investigou e concluiu que estes contratos existiram. Foi constatado o empréstimo, os saques nas agências e o recebimento entre os que deveriam receber os recursos… Outro exemplo: o “mensalão” foi baseado na acusação de desvio de dinheiro público. A verdade é que não há nenhuma auditoria do Tribunal de Contas da União, do Banco do Brasil, da Visanet ou quem quer que seja apontando o desvio de dinheiro público. É algo impressionante condenar as pessoas por peculato [desvio de dinheiro público] sem ao menos conseguir provar onde estaria o dinheiro desviado. É uma contradição importante. Estes são dois exemplos significativos, mas há outros tantos.

Sul21 – E acusação de suborno por parte do José Dirceu, dentro de um grande esquema de corrupção? O senhor acredita que essa descrição é correta?

Paulo Moreira Leite – Quando eu vi a acusação de suborno, feita na denúncia apresentada pelo procurador Roberto Gurgel… Ele escreve nas alegações finais: “José Dirceu montou um esquema de suborno”. O passo seguinte seria ele dizer o dia, a hora, a forma com que eram feitos os pagamentos. E isso não existe. Ele supõe que era um suborno. Convencido disso, ele conta uma história que até faz sentido, mas não prova nada. Cadê os pagamentos? Suborno para quê? Um suborno é feito em contrapartida de alguma coisa. Onde estão as votações compradas? Não há nenhuma votação em que se comprove que parlamentares foram pagos para aprovar projetos do governo. Ao contrário. O caso mais citado, que é a votação da Reforma da Previdência, na verdade, o PT tinha tantos votos favoráveis que expulsou deputados do partido que eram contra, que saíram [da sigla] e foram depois fundar o PSOL. Era um texto que tinha o apoio do PSDB e do DEM porque era uma reforma com viés conservador, a qual estes partidos eram favoráveis. Então, é até meio surreal imaginar que precisaria subornar alguém para aprovar este projeto. Era uma agenda do PSDB, que o PT estava assumindo naquele começo de governo para fazer uma transição suave. Outra coisa: dizer que a contrapartida de empréstimos falsos do Banco Real seria, por exemplo, levantar intervenção no Banco Industrial de Pernambuco, o que valeria milhões de acordo com a denúncia… Esta intervenção só foi levantada muito tempo depois que o governo Lula tinha terminado e não rendeu o que se dizia que ia render. Ficou claro que Marcos Valério se empenhou para levantar esta intervenção e ouviu um “não”. Ele foi 17 vezes ao Banco Central e sempre ouviu “não”. Então como falar em suborno se a tentativa [de benefício] estava sendo negada? Tem algo errado. Tem coisas faltando nesta história.

Sul21 – O senhor referiu-se que nem mesmo o delator e principal testemunha, Roberto Jefferson, foi preciso em seus depoimentos. Quais foram as contradições e o papel dele no processo?

Paulo Moreira Leite – Ele foi apanhado em um vídeo onde um protegido dele descrevia um esquema do PTB. Como um bom veterano, ele foi pro contra-ataque estratégico indo para cima do José Dirceu, acusando o José Dirceu daquilo que ele acusou. O fato é que ele não tinha como sustentar [as acusações que fez]. Quando ele foi dar depoimento na polícia ele disse uma coisa; em outro depoimento, disse outra. Ele nunca se desdisse, mas entrou em contradições. É aquela testemunha que estava procurando achar um caminho. Ele não falou tudo. Mas chegou a falar em dado momento da Ação Penal 470 que o “mensalão” era uma produção mental. Isto está gravado ou escrito nos autos do processo. As pessoas me perguntam se eu acredito no “mensalão” e eu digo isso, que o Roberto Jefferson diz que é uma criação mental [risos].

Sul21 – A cassação dos mandatos dos deputados condenados, ato que é reservado constitucionalmente ao Poder Legislativo, foi transferido ao STF por decisão do ministro Celso de Mello. O senhor se surpreendeu com isso?

Paulo Moreira Leite – Foi um fato muito grave. Mas eu sinto que ele foi uma consequência do que ocorreu anteriormente. Nós tivemos um julgamento em que o STF passou a fazer política, passou a dizer como a política deveria ser feita, com ministros alegando que o governo do ex-presidente Lula tinha um esquema de golpe de estado, outros fazendo piada sobre o PT no julgamento. O procurador-geral [Roberto Gurgel] chegou a dizer que seria muito saudável se houvesse interferência do processo do “mensalão” nas eleições de 2012. Tivemos todo um comportamento do Judiciário que, ao invés de julgar com frieza as provas técnicas, assumiu postura política. Esta postura extrapolou quando o STF decidiria sobre a perda de mandato dos deputados. A Constituição diz claramente, não precisa ser constitucionalista para saber, que isto é uma prerrogativa do Congresso. Então, passou-se a buscar artigos de leis inferiores à Constituição, que até onde eu aprendi é a lei maior, para se sobrepor à Constituição. Isso interferiu na divisão de poderes. Poderia haver condenação, mas a perda de mandatos quem determina é o Congresso. Não pode haver um desrespeito a uma Constituinte eleita pelo povo em 1986, quando milhões de pessoas saíram de casa para votar. Os deputados se reuniram e aprovaram [a nova Constituição] com maioria, mais de 400 votos. Foi um processo que reuniu de Fernando Henrique Cardoso a Luiz Inácio Lula da Silva, Aécio Neves, Antônio Delfim Netto e outros nomes. Nessa Constituinte, esses parlamentares aprovaram que cabe ao Congresso [cassar mandatos]. Até agora, continua me causando grande surpresa que tudo isso tenha sido desrespeitado.

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Prefaciado por Janio de Freitas, livro foi compilado a partir de postagens em blog que Paulo Moreira Leite mantinha no site da revista Época.

Sul21 – Celso de Melo disse na época que era uma decisão “inquestionável” e que não seria possível “desobedecê-lo”. Qual a sua opinião sobre esta postura?

Paulo Moreira Leite – Na verdade, a decisão do STF tem caráter final, não há dúvida, mas pode ser contestada. Já tinha ocorrido a condenação; era preciso que o STF cassasse os mandatos? Em 1976, quando o governo Geisel financiava a ditadura de Pinochet, determinou-se que o deputado Francisco Pinto fosse cassado e o STF fez a cassação. Será que foi uma decisão correta? Quando a Olga Benário foi enviada para um campo de concentração na Alemanha durante a Segunda Guerra, onde seria morta, foi uma decisão correta? Em 1964, o STF referendou a votação do Congresso que determinava que a Presidência da República ficasse vaga e, portanto, seria legítimo dar posse a um general. Não merecia contestação? O que é complicado hoje é um artigo explícito na Constituição ser ignorado da forma que foi.

Sul21 – Qual o precedente que a Justiça brasileira abre com este julgamento, que segundo o senhor é marcado pela ausência de provas, declarações condenáveis de alguns ministros e com penas desproporcionais às provas?

Paulo Moreira Leite – Eu acho que o STF tinha a obrigação de julgar o caso, mas politizou o julgamento. O que presidiu o julgamento, mais do que análise das provas, do contraditório, argumentos e contra-argumentos foi uma visão do Ministério Público Federal, assumida pelo relator [ministro Joaquim Barbosa]. Um relator que não ouviu os dois lados e fez a denúncia de forma favorável à tese da acusação. O relato de acusação apresentado por ele já era desvantajoso para a defesa. A ausência de provas foi tratada como algo sem importância, ou como [se a referência a isso fosse] uma clara manobra para desviar do suposto fato de que havia desvio de dinheiro público. Eu penso que houve uma visão de criminalizar a atividade política e a maneira como a democracia brasileira funciona. Claro que sabemos que a nossa democracia não é transparente e funciona historicamente no esquema de caixa dois, dinheiro dado por empresários que não aparecem, dinheiro sonegado. Isto tudo é crime. Mas é algo diferente do que foi colocado na Ação Penal 470. Seria justo se as provas apontassem para um crime deste tipo e as penas dadas aos réus do “mensalão” fossem proporcionais a isso. Mas precisa provar. Não basta fazer uma narrativa.

Sul21 – A disposição do ministro Joaquim Barbosa em encerrar o processo até julho e a investigação aberta pelo procurador Gurgel sobre o ex-presidente Lula demonstram que o jogo político do “mensalão” ainda não acabou?

Paulo Moreira Leite – O julgamento teria acabado. O presidente Lula chegou a ser interrogado durante o inquérito, com perguntas feitas pelo próprio relator, e se considerou que nada o incriminava. Ele ficou fora do processo. O Marcos Valério, por outro lado, deu não se sabe quantos depoimentos e está em situação complicada. A condenação dele é muito maior que a dada ao goleiro Bruno, que foi condenado por mandar matar e esquartejar uma mulher. Mas, quanto ao depoimento de Valério, ninguém sabe o que ele afirma e [é um depoente que] merece muito mais suspeitas do que consideração. O que existe é uma situação política. É fácil neste contexto político transformar uma pequena coisa em grande coisa. Utilizar declarações do Marcos Valério, ou coisas que a esposa dele teria dito, em constrangimentos. Cria-se uma situação política que vira um processo político. Voltar a chamar o ex-presidente Lula a depor sem nada consistente é muito complicado.

Sul21 – Qual o efeito do “mensalão” nas eleições de 2014? O senhor afirma que este julgamento foi a primeira derrota política de Lula. Isso enfraquecerá a sua figura?

Paulo Moreira Leite – Este julgamento envolveu ex-ministros, dirigentes do PT de grande expressão, pessoas da confiança de Lula. Gerou uma derrota. Condenar o José Dirceu à prisão é uma derrota. Condenar o José Genuíno à prisão, mesmo que semiaberto, é uma derrota. Foi um episódio que pode representar uma mudança na situação política, dependendo de como ele será interpretado e compreendido. Em 2012 havia uma expectativa grande do impacto deste episódio nas eleições, uma expectativa que se mostrou errada. O papel do Lula foi fundamental para a eleição do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Em vários lugares do país o PT teve resultados importantes. Agora, resta saber como se desdobrará o caso até 2014. As pessoas vão querer entender o que aconteceu. Qual será o impacto das prisões, caso elas sejam realizadas? Como os eleitores entenderão isso? São perguntas em aberto. O fato é que são lideranças importantes do PT e do governo petista que estão na defensiva.

Sul21 – Outros mensalões, como o mensalão mineiro do PSDB que ocorreu antes deste envolvendo o PT, não entraram antes na pauta do STF. Como o senhor interpreta isso? Na sua visão, isso reforça uma ideia de que o julgamento do “mensalão” do PT foi político?

Paulo Moreira Leite – Existem várias explicações para isso. Mas o que eu posso dizer é que claramente houve uma decisão seletiva de desmembrar o mensalão do PSDB mineiro, mandando quem não tinha direito a foro privilegiado para ser julgado em primeira instância – o que dá direito a recorrer, algo que os julgados pelo STF não tiveram. Isto é um elemento básico [demonstrando] que houvera dois tratamentos. Como disse o Janio de Freitas: “foram dois pesos, dois mensalões”. Falamos em casos teóricos, com supostas compra de votos, mas não aparece ninguém no “mensalão” do PT. Por enquanto, o único caso real de compra de votos no país, em que existe uma fita gravada onde a pessoa admite que vendeu seu voto, que foi um parlamentar que votou a favor da emenda que permitiu a reeleição do presidente FHC [Fernando Henrique Cardoso], sequer foi devidamente investigado. Neste caso, se quisesse acusar [alguém por esse] crime, havia provas disso. A pessoa admite com suas próprias palavras a venda do voto.

Sul21 – O senhor afirmou que a soberania do povo chegou a ser questionada durante o julgamento. Como?

Paulo Moreira Leite – Quando o STF se considera no direito de definir a perda de mandatos parlamentares, quando os ministros do STF fazem comentários políticos sobre a natureza política de um governo reeleito pelo povo mais de uma vez, quando os ministros chegam a questionar a capacidade de discernimento do eleitor. O ministro Ayres Brito chegou a falar que o “mensalão” era uma forma de golpe. Com isso ele sugere que as pessoas compram votos de parlamentares e a partir disso ficam enganando a população, como se ela não tivesse capacidade de decidir o seu destino. Eu creio que hoje, na medida em que você tem um poder absolutamente legítimo, mas que não é eleito, que assume atribuições que cabem à Constituição, que é [resultado] de um poder eleito, cria-se uma situação que envolve a soberania popular. Afinal, para que queremos uma democracia? É para que a população, da forma mais simples possível, tomem as suas decisões individuais. Ninguém pode tomar a sua vontade acima da vontade do eleitor. Se isso acontece, comprometemos a democracia. Ao cassar a vontade do eleitor, fere-se a democracia. Quando não se leva em conta que a nossa democracia historicamente tem defeitos, especialmente em seu financiamento baseado em uma hipocrisia do sistema econômico, que quer mandar na política mas que se esconde… Não tem sentido.

Sul21 – O senhor considera a cobertura da mídia insuficiente do ponto de vista investigativo neste caso, que ela própria trata como o maior caso de corrupção do país? Que análise é possível fazer sobre a prática jornalística brasileira com este episódio?

Paulo Moreira Leite – Não quero generalizar, mas no caso deste “mensalão” que envolveu o PT a mídia parou de investigar faz tempo. Entre 2005 e 2006 ela fez o seu trabalho, denunciou. Mas na hora de ver o que sobrou das acusações, não se investigou mais nada. Ela cruzou os braços e ficou esperando as condenações. Foi sintomático que grande parte dos jornais e revistas nacionais não foi ocupada por reportagens investigativas: o espaço foi tomado por advogados que faziam análises. Tivemos poucos exemplos de jornalistas que foram examinar a qualidade das provas ou perguntar sobre os votos dos ministros. Este é o trabalho do jornalista. Questionar as afirmações dadas pelos ministros sobre a pessoa dita como grande testemunha, se ela aparece em vídeo recebendo dinheiro de outro esquema. Ninguém foi atrás disso. A imprensa deu de barato o caso e torcia pela condenação. Houve torcida clara. Colocar a transmissão ao vivo é uma maneira de jogar o público em cima do Tribunal. Muitos juízes ficaram intimidados. Já outros ficaram contentes e gostaram disso. De fato, no fundo, não sabíamos se estávamos diante de um espetáculo ou de algo real.

Sul21 – Mas então a mídia não agiu de forma isenta neste julgamento.

Paulo Moreira Leite – A imprensa tomou o partido da condenação. Ela queria nada menos que a condenação, com raras exceções. Ela teve comportamento faccioso. A maioria dos comentaristas e articulistas queria punição exemplar. Quando se usa a palavra exemplar no meio jurídico, não se trata de fazer justiça, mas sim de dar exemplo. Quando se faz isso, se transforma a pessoa em um signo. Pode-se crucificar alguém com esse tratamento. Muitos casos de linchamento são cometidos quando as pessoas são transformadas em signos. Lembro-me do caso do ministro Alceni Guerra, do ex-presidente Collor, que foi crucificado por várias semanas e estava sendo exemplo para o país. Logo descobriram que estava tudo errado. Todos tiveram que pedir desculpas, mas o estrago estava feito. A vida política do ex-ministro ficou praticamente destruída. O Tribunal não pode trabalhar com signos: tem que trabalhar com a realidade.

Sul21 – Pode se dizer, então, que parte da mídia não fez bom jornalismo durante o julgamento do “mensalão”. Como você definiria, nesse caso, o bom jornalismo?

Paulo Moreira Leite – A minha definição é aquela que se aprende fora da escola. Eu não estudei Jornalismo, mas aprendi. É sempre a tentativa de expressar a verdade. Eu creio que os meus textos são isso. Eu tenho uma opinião, tenho um ponto de partida, mas eu procuro os dois lados e os fatos. Eu acredito nos fatos. Acredito que o jornalismo tem o poder de transformação, na medida em que ele ensina a interpretar os fatos.

Sul21 – O senhor é a favor da democratização da comunicação?

Paulo Moreira Leite – Eu sou a favor da democratização dos meios de comunicação, sem dúvida. Eu acredito que vivemos uma sociedade muito mais plural do que os meios de comunicação tradicionais estão expressando. O fato de termos apenas os meios tradicionais falando com parte da sociedade exclui outra parte, impede que ela tenha espaço para expressar-se. A sociedade ganha com isso [democratização da comunicação]. O debate político interno da sociedade deveria ser expresso nos meios de comunicação em geral – não do modo como ele se dá hoje, com os grandes meios de comunicação tradicional expressando uma parte da sociedade e, de outro, a internet expressando a outra parte. Eu não estou desconsiderando a importância da internet. Eu devo meu livro a ela, foi na internet que adquiri uma repercussão significativa [que motivou a publicação do livro]. Mas os meios de comunicação deveriam contemplar essa realidade que vivemos. As concessões ainda são uma herança de concessões feitas no regime militar. A maioria das emissoras de televisão e rádio têm vínculos políticos. Isto tem que ser revisto e discutido de alguma forma. A Constituição Federal, se cumprida, dispensaria qualquer marco regulatório. A Constituição já impede a concentração, pede pluralidade e defesa das culturas regionais. A discussão sobre a regulação dos meios é importante, mas estamos apenas começando.

O único livro que presta sobre o “mensalão”

28 de fevereiro de 2013

Paulo_Moreira_Leite_Mensalao_LivroO jornalista Paulo Moreira Leite merece ser lido.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Três livros sobre o “mensalão” chegam às bancas. Dois não merecem ser lidos, o de Merval e o de Villa. O terceiro, sim. O jornalista Paulo Moreira Leite produziu, ao longo do julgamento, excelentes artigos – ainda mais admiráveis por terem sido publicados no solo hostil e árido das Organizações Globo. PML, agora na IstoÉ, tinha um blog na Época nos dias do “mensalão”. Seu livro se apoia exatamente em seus textos no blog.

PML fez um livro superior aos outros dois por duas razões: primeiro, pensa melhor que Merval e Villa. Depois, escreve melhor.

O “mensalão” é um mau momento na histórica política e jurídica nacional. Danton, no tribunal em que foi condenado à guilhotina, disse que se tratava de um “julgamento político” e, portanto, com escasso interesse por coisas como provas.

O julgamento do “mensalão” teve exatamente este pecado: foi muito mais político que técnico. A rigor, você nem precisaria de tanto tempo de discussões no STF. Cada juiz já parecia desde antes saber exatamente como seria seu voto.

Houve, desde o início, uma intenção de dar ao caso uma dimensão espetacularmente inflada. Lula, de certa forma, provou o próprio veneno. Ele, que tantas vezes usara a expressão “nunca antes na história deste país”, viu-a ser empregada repetidamente pelos juízes, e depois pelos suspeitos de sempre nas colunas de jornais e revistas.

A opinião pública, expressa nas urnas, não concordou com a gravidade que se quis dar ao caso. O mais notório exemplo disso foi a vitória de Haddad em São Paulo, tirado do nada por Lula em pleno julgamento. É como se o eleitor tivesse dito o seguinte: “Houve erro no PT no episódio? Sim. Mas não deste jeito. Estão transformando um riacho num oceano. Por quê? Alguma vantagem eles estão extraindo disso.”

Do ponto de vista anedótico, outra prova do pouco caso popular com o julgamento veio no Carnaval: onde, afinal, as máscaras de Joaquim Barbosa que estariam sendo vendidas em grande quantidade? As pretensões presidenciais de JB faleceram com o fracasso espetacular de sua máscara carnavalesca.

Paradoxalmente, o Brasil aprendeu com o julgamento – e pode se tornar melhor, se corrigir absurdos que ficaram expostos. Todos soubemos como se chega ao STF, a mais importante corte do Brasil. O ministro Luiz Fux descreveu, à jornalista Mônica Bérgamo, sua louca cavalgada. Foi atrás de Zé Dirceu, na busca de apoio para seu nome, mesmo sabendo que teria de julgá-lo depois.

Como uma criança, rezou e se agoniou enquanto esperava a confirmação de seu nome para uma vaga no STF. E então chorou. “As lágrimas dos fracos secam as minhas”, escreveu Sêneca. Lembrei imediatamente dessa grande frase ao ler sobre o choro de Fux.

Um fraco.

Os brasileiros souberam também como Joaquim Barbosa chegou ao Supremo: porque Lula queria um ministro negro. Não foi por talento, não foi por notório saber. Foi por uma ação de Lula que pode ter sido demagógica, simplesmente, ou nobre. E foi também porque Barbosa teve a cara suficientemente dura para se apresentar a Frei Betto quando o acaso os reuniu numa loja da Varig em Brasília.

Por tudo isso, o STF é um problema, e não uma solução. Se havia dúvidas sobre a precariedade do Judiciário, elas desapareceram. Para o Brasil progredir, o Judiciário terá de ser reformado. Isso ficou patente quando o STF ficou sob os holofotes nestes últimos meses, e eis um benefício para o País. Você pode debelar um incêndio apenas se tiver ciência dele, e o fato é que o Supremo arde.

Em dois dos três livros sobre o “mensalão” o leitor será induzido a uma fantasia na qual JB é um gigante. No de PML, você poderá constatar a realidade: não é.

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Alguém viu a máscara no Carnaval?

Paulo Moreira Leite: “Oposição desaprendeu a ganhar na democracia.”

20 de fevereiro de 2013

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Em evento realizado no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, autor de A outra história do mensalão responde a questões de blogueiros e jornalistas.

Eduardo Maretti, via Rede Brasil Atual

O jornalista Paulo Moreira Leite lançou na noite terça-feira, dia 19, no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo, seu livro A outra história do mensalão (da Geração Editorial), com um debate transmitido ao vivo pela internet, em parceria com a TVT e a Rede Brasil Atual. O livro reúne os 37 posts publicados pelo autor em blog que mantinha em site da revista Época, da qual se desligou em dezembro.

No evento, o autor respondeu a questões de blogueiros e jornalistas por cerca de duas horas. Ele falou sobre o julgamento do chamado caso do mensalão, o papel do Ministério Público e do Judiciário na atual conjuntura política, o poder da mídia, a necessidade de democratizar os meios de comunicação e a possível orquestração de um golpe político no país, entre outros temas.

Sobre o Supremo Tribunal Federal, ele questionou com veemência: “O tribunal que não quis julgar a tortura que sofreu o [deputado federal] José Genoíno é o mesmo que depois condenou Genoíno sem hesitação. Será que isso não significa nada?” Perguntado sobre se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é de certa maneira responsável pelos resultados do julgamento do caso mensalão, já que foi o presidente que mais nomeou ministros para a Corte [oito], Moreira Leite disse que o ex-presidente “pensou grande” e esteve diante de um fato acima de sua influência: “As pessoas sucumbem a pressões”. Além disso, explicou, “Lula, como representante dos trabalhadores, não era poder dominante, era governo. E um governo que não interessa às elites.”

Democracia e mídia

Segundo Moreira Leite, as forças políticas representadas pela mídia tradicional e pela oposição institucional “foram vencidas em 2002, depois em 2006 e em 2010, e mais uma vez em 2012”. Por isso, “estão muito irritados” e procuram outras vias para tentar novamente voltar ao poder. “Eles desaprenderam a ganhar no campo democrático, não têm candidatos”. Para o jornalista, nem mesmo os mínimos avanços sociais e econômicos conquistados pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff são tolerados pela direita nacional. “A burguesia não aceita mais fazer o que considera concessões. Como a oposição não encontra resposta no campo democrático, “tudo é motivo para achincalhar” o governo, de Lula a Dilma.

Se, por um lado, as investidas antidemocráticas não têm surtido efeitos para retomar o poder via eleições, por outro o jornalista vê uma ameaça na conjuntura atual que não havia nos dois governos Lula: a economia internacional. “Vivemos um momento em que não há as condições mundiais que permitiram um crescimento como o chinês de alguns anos atrás, hoje a Europa está afundando, e começa a haver consequências [no Brasil]. O mundo está mais “hostil” que aquele que Lula enfrentou no primeiro mandato”, analisou.

Segundo o jornalista, embora ainda haja índices como, por exemplo, o aumento da renda, “o mundo não está nos ajudando, mas de certa maneira está nos atrapalhando”. Para ele, nesse ambiente Dilma está sendo pressionada a repensar alguns aspectos da política econômica.

Essa conjuntura, na visão do autor de A outra história do mensalão, pode dar fôlego à estratégia de ataques sistemáticos e permanentes da mídia. No entanto, em sua avaliação, “não estamos na iminência de um golpe, porque temos um governo muito popular e o governo está forte”.

Ministério Público

Moreira Leite também foi perguntado sobre a opinião do ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu, a respeito da atuação, sob forte pressão midiática, do Ministério Público relacionada ao mensalão. Em evento recente, Dirceu disse que o MP é um “monstro” criado pela esquerda brasileira. “Hoje, metade dos prefeitos do Brasil é investigada pelo Ministério Público. É difícil acreditar que metade dos prefeitos do País seja formada de ladrões. Imagine como é um prefeito trabalhar sob esse tacão”, segundo o jornalista.

Apesar de o MP ter “um poder exagerado, não acho que deva ser extinto. Mas esse é um debate que a sociedade precisa fazer”, afirmou Moreira Leite. O autor se disse favorável à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, de 2011, que retira poder de investigações criminais do Ministério Público, atribuindo essa incumbência às polícias federal e civis dos Estados e do Distrito Federal. “A proposta, no limite, melhora a situação. Mas, mas não se pode entregar toda a investigação exclusivamente à polícia.”

Paulo Moreira Leite: Um papa sem encanto

19 de fevereiro de 2013

Papa_Chapeuzinho_Vermelho

A renúncia de Bento 16 contém lições interessantes.

Paulo Moreira Leite em seu blog

Empossado com um programa que pretendia reconduzir a Igreja para um mundo fechado nela mesma, voltada exclusivamente para debates de natureza espiritual, longe das questões que afligem os homens e mulheres do mundo, Bento 16 deixou o trono da Igreja em ambiente de decepção e melancolia. Um de seus admiradores afirma que, embora tenha sido um grande teólogo, Bento 16 fracassou como papa.

Não é de surpreender. Não tenho a menor condição de debater teologia. Mas, ateu desde a infância, tenho capacidade de examinar os papas como aquilo que são: chefes políticos da Igreja. E é nesta função que o fracasso de Bento 16 contém elementos didáticos.

Embora o conservadorismo católico tenha produzido vários representantes ao longo da história da igreja, Bento 16 não era apenas um papa fora do tempo – era um papa contra seu tempo. Num mundo em que a cultura tornou-se plural, as sociedades se mostram complexas, os cidadãos se recusam a abrir mão de sua autonomia, seus direitos e opções de vida, a proposta de Bento 16 era uma forma de clausura política e cultural.

Ele se recusava a dar respostas consistentes para a vida das pessoas do século 21, fosse em relação à vida em família, aos direitos das mulheres, às angústias dos mais pobres. Alguém acha viável ter audiência junto às mulheres sem falar sobre aborto? Ou conversar com a juventude sem falar da liberdade sexual? Ou procurar audiência junto às grandes populações do planeta sem responder à pobreza, à desigualdade?

Basta assistir a uma missa num bairro popular de São Paulo – recomendo a Achiropita, no Bixiga – para se entender o que estou dizendo. É fácil perceber quando os fiéis prestam atenção, quando se empolgam, quando ficam entediados. Este conservadorismo radical de Bento 16 queria transformar o isolamento social da Igreja em virtude.

Antecessor de Bento 16, João Paulo 2º, era um papa conservador, que deu início a uma política de combate à Teologia da Libertação e perseguição ao clero comprometido com os interesses dos mais pobres e oprimidos, como aconteceu em São Paulo, com dom Paulo Evaristo Arns – cardeal que esteve longe de liderar alguma fração esquerdista da Igreja, mas jamais abandonou valores como o respeito pelos direitos humanos e a democracia.

Mas João Paulo 2º nunca deixou de dar respostas – a sua maneira – às questões da vida concreta. Sua pregação tinha elementos democráticos, sua mensagem procurava responder ao sofrimento de homens e mulheres comuns – e por isso ele atraía multidões por onde passava. As viagens de Bento 16 jamais tiveram a mesma vibração nem a mesma acolhida, num sinal de que seu papado acentuou uma tendência histórica da Igreja.

No início dos anos de 1980, o francês Marcel Gauchet escreveu um clássico sobre as religiões, O desencantamento do mundo. Ele explica a decadência universal do catolicismo pelas mudanças na vida em sociedade.

Para Gauchet, o apogeu da religião ocorreu em épocas históricas em que as pessoas acreditavam que viviam num mundo encantado. Simplificando uma teoria muito mais complexa: homens e mulheres acreditavam viver num mundo em que a religião era uma forma de magia. Atribuíam aos céus suas alegrias e tristezas, sucessos e desgraças. Pensavam que a colheita era obra divina, tinham certeza de que havia uma vida após a morte e atribuíam cada passo da existência à decisão de Deus. Acreditavam em milagres.

Naquele mundo de encantamento, temia-se o pecado como uma ação terrível e a punição divina como um castigo material.

À medida que a sociedade se modificou, os meios de subsistência evoluíram, a educação e o conhecimento se ampliaram, inclusive para as populações muito pobres, muitas conquistas científicas se mostraram indispensáveis para o bem-estar de todos, era preciso falar a outros homens e mulheres, outras angústias e preocupações. João 23 e, em certa medida, Paulo 6º fizeram esforços neste sentido. Ao contrário do que sugeriam seus inimigos, a Teologia da Libertação e correntes semelhantes ajudaram a prolongar a audiência da Igreja. Deram-lhe uma audiência que as correntes conservadoras jamais teriam alcançado.

O projeto de Bento 16 era fazer o caminho de volta. Chegava a dizer que preferia uma Igreja menor e menos influente, mas composta por fiéis convictos e irredutíveis, do que uma comunidade ampla e pouco consistente.

Foi esta sua aposta política. Um engano, que o crescimento das igrejas pentecostais demonstra pelo avesso: conseguem combinar a angústia material dos mais pobres com a promessa de milagres aqui e agora.

Falando a um mundo em que poucos creem, Bento 16 desencantou-se.

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