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WandNews: Feliciano, a revista Playboy, o ânus, Paulo Coelho e a Copa

14 de abril de 2014

Via Jornalismo Wando

E é com muita satisfação que anuncio a chegada da WandNews, a coluninha de sexta-feira [11/4] com os acontecimentos mais incríveis da semana.

Hoje temos a incansável afirmação heterossexual de Feliciano, as mágicas mudanças de opinião de Paulo Coelho, a delicadeza de um gigante grego no combate ao racismo, e um Tio Wando Responde pedagógico.

Choruminho

O produtor do choruminho de hoje já é velho conhecido desta coluna. O pastor-deputado Marco Feliciano volta ao centro da ribalta com declarações bastante polêmicas, dadas em entrevista para uma revista pagã, a Playboy.

A sexualidade é um tema recorrente na vida de Feliciano. Apesar de ser um guerreiro em defesa da heteronormatividade social, o pastor assume que delineia as sobrancelhas, faz escova progressista, chapinha, pinta as unhas com base e diz que, sem a pinça, vira um “monstrinho”. O pastor é um homem feminino, mas faz questão de frisar que nada disso fere seu lado masculino. Segue a explicação em três partes:

1. A certeza: “Com certeza, tem homens que têm tara por ânus, sim.”

2. A dúvida: “Eu não entendo muito dessa área porque nunca fiz, graças a Deus.”

3. A esperança: “E espero nunca fazer, porque pa­rece que quem faz não volta mais. Deve ser uma coisa tão estranha…”

Marco_Feliciano09_Deputado

Os momentos mais representativos da metrossexualidade do pastor. Fotos: Instagram e divulgação.

Essa heterossexualidade excessiva é que está ficando estranha, pastor. Há anos que o senhor insiste em reafirmá-la publicamente. Aquela história de “contada mil vezes, torna-se verdade” pode enganar muita gente aqui na Terra, mas não vai adiantar em nada no Dia do Julgamento Final. Deus tá vendo tudo, cara.

Beijo no coração

O beijo no coração dessa semana vai para o escritor brasileiro mais famoso do mundo, o nosso mago Paulo Coelho. Na semana passada, o escritor expressou toda sua revolta contra a realização da Copa do Mundo no Brasil e, segundo a revista Época, “está decepcionado com o governo, a Fifa e os escritores nacionais”.

“Não vou à Copa, embora tenha ingressos. Eu não posso estar dentro do estádio sabendo o que se passa lá fora com os hospitais, a educação e tudo o que o clientelismo do PT tem renegado muito.”

O curioso foi relembrar do entusiasmo do nosso mago em 2007, quando foi integrante da delegação brasileira na disputa do país sede para a Copa desse ano.

 

Paulo_Coelho06_Copa_Mundo

Na ocasião, Coelho chegou a chamar o presidente da Fifa, Joseph Blatter, de cher ami (“querido amigo”) e deu fortes declarações em favor da candidatura brasileira.

Sacramentada a vitória do Brasil, o escritor comemorou:

“A partir de hoje, começa uma vitória que durará sete anos. O que vemos na Seleção, vemos no povo. O trabalho árduo, a capacidade de sonhar e sua criatividade. Honraremos como povo brasileiro essa possibilidade.”

Nessa época nossas escolas e hospitais não eram padrão Fifa, Blatter não era exemplo de honestidade e a política do PT não era tão diferente da atual. Isso pra não dizer que o Romário ainda não era deputado.

O que de fato aconteceu pro mago ter mudado de opinião? Será que foi porque o governo não levou seus amigos escritores pra Feira de Frankfurt no ano passado? Ou é apenas a tal metamorfose ambulante?

Imagem wandalizada

Os casos de racismo nos estádios de futebol têm sido destaque na imprensa mundial. Com uma distância segura da vítima, torcedores têm aproveitado para destilar seu ódio contra minorias. Num ginásio de basquete, a coisa muda de figura.

Imagine que você, racista, está torcendo tranquilamente para seu time e ofendendo negros em quadra, quando de repente um pivô com 2,06m e 156kgs parte pra cima de você na arquibancada.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu num jogo de basquete em Israel (assista ao vídeo):

Racismo_Futebol01

Nascido em Camarões e radicado na Grécia, Sofoklis Schortsanitis abandonou os preceitos democráticos clássicos e partiu para a ação direta depois de ouvir insultos racistas enquanto saía da quadra. Foi aí então que Sofoklis invadiu a arquibancada e enfurecidamente correu em direção ao seu algoz, que fugiu da briga como Feliciano foge da realidade.

O que você achou do episódio, querido leitor?

a) bem feito pro racista. Levou uma surra pedagógica.

b) reação exagerada. Foi apenas uma brincadeira do torcedor.

c) nada a ver. Vocês enxergam racismo em tudo!

d) tinha que amarrar no poste esse jogador de basquete.

e) não sei. Vou esperar a opinião da Sheherazade.

Cynara Menezes: Como você se atreve, Paulo Coelho?

13 de agosto de 2012

Cynara Menezes, via CartaCapital

Nunca li Paulo Coelho. Por nenhuma razão específica, a não ser uma: não sou uma pessoa mística, nunca fui. Portanto, os temas que são caros ao escritor não me atraem, não me atiçam, não me convidam à leitura.

Nunca li Ulysses de James Joyce. Por nenhuma razão, apenas não calhou. Não há suficiente tempo na vida para se ler tudo e a gente vai escolhendo o que é mais importante, cada um faz a sua própria lista de prioridades literárias e Ulysses jamais esteve na minha, não até hoje. Mas devo confessar que livros tidos como “difíceis” tampouco são my cup of tea.

Como não sou especialmente fã, como leitora, nem de um nem de outro, me sinto livre para opinar sobre a polêmica que se desenrola desde a semana passada, desde que Paulo Coelho ousou criticar Ulysses, tido como o melhor livro do mundo. (Embora muitos, como eu, jamais o tenham lido –inclusive alguns dos que defendem a obra neste quiproquó.) “É só estilo. Não tem nada ali. Se você disseca Ulysses, dá um tuíte”, zombou Coelho em entrevista ao repórter Rodrigo Levino, da Folha de S.Paulo.

Não vou entrar no mérito sobre quem é melhor, Coelho ou Joyce, nem sobre o que é “literatura maior” ou “literatura menor”, o padrão normalmente usado pelos críticos para definir o que é bom e o que não é. Sempre discordei destes parâmetros. Romances policiais, por exemplo, são considerados “literatura menor”. Ah, meus queridos Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Rex Stout não mereciam isso! E o que dizer de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Georges Simenon? Enfim, os críticos sabem do que estão falando, não é?

O que me chamou a atenção nesta polêmica foi a tentativa de deslegitimar Paulo Coelho em seu direito de criticar James Joyce. “Como você se atreve a opinar sobre um ícone da literatura mundial, Coelho? Ponha-se no seu lugar! Quem é você, um brasuca vendedor de livros qualquer, para falar mal do irlandês autor do livro mais bem-escrito do planeta?” O paradoxo chega a ser hilário: o autor que mais críticas literárias acumula no mundo não tem o direito, ele mesmo, de perpetrar uma crítica literária. Na verdade, nem foi bem uma crítica, mas algo com tradição no mundo das letras: uma provocação. Foi isso que Paulo Coelho fez.

É como se o autor best-seller fosse um pária da literatura, alguém que, apesar de ter uma obra, não recebeu carteirinha no seleto clube dos escritores, neste Hotel Algonquin imaginário e eterno; como se o autor best-seller fosse o rico primo pobre da literatura. “Você vende livros, mas não é um dos nossos”, parecem dizer os demais, torcendo o nariz. Responda com sinceridade, amigo leitor: se você fosse escritor e tivesse que escolher um dos dois, iria preferir o sucesso de crítica ou o de público? Sim, existe uma ponta de evidente inveja neste tratamento discriminatório ao best-seller.

E então vieram as reações estrangeiras à frase de Paulo Coelho. A revista The Economist chegou ao cúmulo de comparar a literatura de Joyce com a de Coelho, como se isso fosse possível. O jornal The Guardian ridicularizou o brasileiro dizendo que talvez ele tivesse confundido Ulysses de Joyce com o desenho animado Ulysses, de 1981. Como nós só somos ufanistas na hora de defender jogadores de futebol ultrajados por críticos esportivos (por exemplo, quando algum argentino diz que Maradona foi melhor que Pelé), todos aplaudiram que Paulo Coelho fosse colocado “em seu devido lugar” pelos gringos.

Mas qual é mesmo o lugar de um autor que tem milhões de leitores? Qual é mesmo a altura de um escritor do “terceiro mundo” traduzido em dezenas de países? Sinto muito: não importa a mínima que os críticos não considerem seus livros “boa” literatura, o autor best-seller recebeu o aval dos leitores para ter uma voz importante, digna de ser ouvida. Ele possui, sim, o direito à crítica, inclusive a clássicos da literatura, seja James Joyce ou Machado de Assis. Por que não?

Nunca li Paulo Coelho, mas o respeito. Em todos os países para onde fui encontrei leitores dele, pessoas interessantes e inteligentes que apreciavam seus livros – só não eram críticos literários. A única coisa que lamento nesta polêmica toda é que James Joyce não esteja vivo para responder à provocação. Isso sim ia ser divertido.

Nota do Limpinho: Publico esse texto de Cynara Menezes, porque também nunca li Paulo Coelho, nunca li Ulisses e, a partir de agora, vou respeitar ainda mais o Paulo Coelho em virtude de ele ter jogado para cima esse complexo de vira-lata que muitos pseudo-intelectuais ainda sentem de ser brasileiro. Valeu, Paulo!


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