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Leandro Fortes: De volta à Idade Média

29 de julho de 2013

Papa_Francisco19_Peregrinos

Leandro Fortes no Facebook

Eu, simplesmente, não consigo ter esperança em um mundo ainda povoado por peregrinos.

Passei esses dias no Rio, caminhei na rua com eles, dividi um vagão de Metrô cheio de ataques e gritinhos de amor clerical, um tormento incessante do Centro a Copacabana.

Um bando de bobos tocados alegremente como gado, movidos por essa euforia histérica da fé sob medida para os telejornais, perdidos numa irracionalidade vendida como grandeza de espírito, compelidos à superficialidade das rezas, dos terços, das novenas – essas formas mais do que manjadas de se omitir achando que se está, de fato, contribuindo por um mundo melhor.

Depois, o papa no Fantástico, na TV Globo. O furo mundial mais previsível de todos os tempos: Francisco na emissora de televisão mais poderosa da América Latina, este continente contra qual a igreja católica novamente se volta, claro, em nome dos pobres, justamente para que os governantes escolhidos por eles não se intrometam na agenda dos ricos.

Pois minha única ambição nessa área, como jornalista, seria a de entrevistar o anticristo naquela lama que, ironia divina, convencionou-se chamar de Campo da Fé.

O papa é um Feliciano com muito mais poder e o apoio da Globo

28 de julho de 2013

Papa_Francisco18_Feliciano

Homofobia, machismo, apego ao dinheiro e religião interferindo no Estado. Os motivos que inspiram o “Fora Feliciano” se aplicam ao papa. Com o agravante de que ele é bem mais poderoso.

Lino Bocchini

Os evangélicos estão sendo injustiçados. O tsunami de críticas que atingiu Marco Feliciano, Silas Malafaia e demais líderes evangélicos fundamentalistas se aplica ao papa Francisco e à igreja católica. Explico: as mesmas bandeiras conservadoras levantadas pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos do Congresso estão no centro da atuação da igreja católica há séculos. E o argentino Mário Bergoglio, agora chamado de Francisco, comunga destes ideais e não se mostra disposto a alterá-los. Pelo contrário.

Vamos por partes:

Primeiro, a homofobia

Muito se reclamou da atuação de Feliciano contra os direitos fundamentais dos homossexuais. A coleção de frases e a atuação do pastor não deixam dúvidas quanto a sua posição. Como é sabido, a igreja católica igualmente condena a homossexualidade e considera pecado o amor da população LGBT.

O próprio Francisco, pessoalmente, demonstra preocupação com o que chama de “lobby gay” no Vaticano. Conforme revelou o site católico Reflexión y Liberación, o pontífice afirmou o seguinte em uma audiência recente com a diretoria da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos: “Na Cúria, há gente santa de verdade. Mas também há uma corrente de corrupção, é verdade. Fala-se de lobby gay e é verdade, ele está aí… temos de ver o que podemos fazer”.

Segundo, os direitos da mulher

Em entrevista para o livro Religiões e política, o deputado do PSC/SP afirmou o seguinte: “Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo; [assim] você destrói a família, cria-se uma sociedade só com homossexuais, e essa sociedade tende a desaparecer, porque ela não gera filhos.”

A igreja católica sempre tratou a mulher de forma diferenciada. A começar pelo fato de que elas não podem ser ordenadas. Aos homens (padres) cabe orientar os fiéis, ditar os rumos da igreja e do mundo. Às freiras cabem tarefas como cuidar dos enfermos e necessitados e, por exemplo, cozinhar, lavar e passar para o “homem simples de fala mansa” que está entre nós.

Mais: estão sendo distribuídas 2 milhões de cópias do Manual de bioética (em PDF) durante a visita do papa ao Brasil, sendo quase a metade da tiragem a versão em português, segundo informações da Confederação Nacional de Bispos Brasileiros. De suas 72 páginas, praticamente a metade traz pilhas de informações “científicas” e julgamentos morais contra o aborto. O restante divide-se entre a condenação de pesquisas com células-tronco, a condenação da inseminação artificial e a condenação da eutanásia.

O direito sobre o próprio corpo, uma questão que o movimento feminista do mundo todo considera vital desde a década de 1960, é classificado como “crime” em diversos pontos do texto. De acordo com o manual, mesmo em caso de estupro ou de inviabilidade do feto, a interrupção da gravidez não pode ser sequer aventada: “O direito de matar o próprio filho não pode ser fonte de liberdade nem de realização pessoal.” Todos os métodos contraceptivos, pílula e DIU, inclusive, são considerados abortivos e criminosos.

Em terceiro lugar, o apego ao dinheiro

Causou espécie um vídeo que circulou recentemente, no qual o pastor Marco Feliciano pedia a senha de um cartão de crédito senha de um cartão de crédito para um fiel, dizendo que, caso a senha não fosse revelada, “o milagre não viria”. Costuma ser igualmente criticada a cobrança do dízimo por parte de igrejas evangélicas, como se a igreja católica não o fizesse.

Tudo isso, contudo, é esmola perto do patrimônio misterioso e incalculável da igreja católica. A revista Exame fez uma reportagem bastante reveladora sobre o Banco do Vaticano. Entre diversos casos de lavagem de dinheiro, escândalos sexuais, corrupção e má administração relatados pela publicação, destaco uma informação: o banco gere cerca de €6 bilhões em ativos. Vou repetir: €6 bilhões.

Isso sem contar as milhares de propriedades da igreja católica ao redor do globo todo. Não sou um estudioso do cristianismo, mas acredito que valores como ajuda ao próximo, desapego e amparo aos pobres não combinam com a acumulação de fortunas dessa grandeza. Mesmo que o chefe da instituição prefira andar num Fiat “sem luxo” e dormir num “quarto simples”.

Em quarto lugar, a promiscuidade com o poder público

Muito se critica Feliciano e a bancada evangélica por usar o poder público que detêm para obter vantagens para suas instituições. O que afronta o conceito de estado laico. O catolicismo faz o mesmo.

O amplo uso de estruturas e verbas públicas durante a visita de Francisco; o mesmo lobby para isenções fiscais e outras benesses financeiras; a mesma submissão dos governantes (de Dilma ao vereador de Pindamonhangaba). Mais: há crucifixos em repartições públicas (desrespeitando os evangélicos, inclusive) e mensagens religiosas nas notas de dinheiro, que são um símbolo nacional. E por aí vai.

(Parênteses: pedofilia)

Aqui não há o paralelo com Feliciano, mas vale lembrar das inúmeras acusações de abuso sexual contra padres no mundo inteiro, muitas cometidas contra menores e encobertas pelo Vaticano. A situação é tão grave que a ONU pediu, agora no começo de julho, esclarecimentos sobre os crimes cometidos por padres em todo mundo. Como o Vaticano é membro das Nações Unidas e tem a falta de transparência como uma de suas marcas, a ONU quer saber o que a igreja católica têm feito de efetivo contra os criminosos que foram descobertos em suas fileiras.

Por fim, o apoio da mídia

Aqui, uma das maiores injustiças com Marco Feliciano. O pastor é hostilizado por todos, TV Globo inclusa. Suas posições, conforme demonstrado, são irmãs siamesas das defendidas por Francisco e pela religião que comanda. E dos dogmas vindos de Roma ninguém reclama.

Pior: a maior tevê do País – bem como quase todos os outros veículos de imprensa – ajoelha-se ao mandatário da tevê católica. E não acredito ser esta uma decisão baseada somente pela audiência. A missa de domingo está na grade da Globo há décadas – atualmente é celebrada ao vivo pelo padre Marcelo. E a emissora, apenas recentemente, de olho na perda de audiência e de dinheiro, começou um flerte institucional com os evangélicos, inaugurado com o festival de músicas gospel Promessas.

Para finalizar, deixo vocês com algumas frases do primeiro bloco do Jornal Nacional de segunda-feira, dia 22. Tentem imaginar Marco Feliciano ou qualquer outro líder evangélico sendo tratado desta forma pelo noticioso visto por quase metade da população brasileira toda noite:

“De papamóvel, fez um passeio que vai ficar na memória dos fiéis.”

“Distribuiu simpatia.”

“Mais perto do povo, do jeito que o papa Francisco gosta.”

Fiel: “Foi um presente de Deus, eu consegui estar perto dele e pude constatar que ele realmente é esse pastor humilde, amigo do povo e que veio pra resgatar mais fiéis pra igreja católica.”

“Deixou uma legião de fiéis encantados.”

“Santo, abençoado, humilde… os elogios vão brotando.”

Fiel: “Ele é gente como a gente.”

“A cada esquina ele faz novos amigos.”

“Os gritos pareciam saídos de um show de rock.”

“Se fosse só isso, já valeria a pena, e o papa Francisco acabou de chegar.”

O papa é pop e muito conservador

25 de julho de 2013

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Fernando Brito, via Tijolaço

O jornalista Breno Altman publicou, no Opera Mundi, um artigo desafinando o coro de elogios que o Papa Francisco está recebendo na mídia. E que deve ser lido, exatamente por isso, como advertência à “espetacularização” da figura papal.

Altman não faz críticas pessoais ao pontífice, mas recorda que ele é o líder máximo de uma instituição essencialmente conservadora: a bimilenar Igreja Católica.

Não concordo integralmente com a análise de Altman, talvez por ter um pouco mais de idade que ele e ter visto como, com Paulo 6º, a Igreja teve um papel progressista, sobretudo depois do Concílio Vaticano 2º.

Mas também testemunhei, depois, aquilo que Altman narra: a virada conservadora que sofreu com Karol Wojtyla. João Paulo 2º foi, de fato, o papa do neoliberalismo, ao qual ajudou muito com seu carisma pessoal.

De qualquer forma, Altman tem total razão naquilo que já afirmei: uma instituição de dois mil anos tem horror à mudança e, sem demérito para a simplicidade de Francisco, que é extremamente simpática, todos concordam que o afastamento dos mais pobres da Igreja Católica, que já começava a tornar-se perigoso para a primeira lei de um ente tão longevo: sobreviver.

Terminam aí a minhas observações, que de teológicas não têm nada, até porque meu afastamento da Igreja – embora tenha nelas muitos e ótimos amigos – data da minha reprovação no Catecismo, no tempo em que as missas ainda eram em latim.

Aliás, o fim das missas em latim e de costas para os fiéis foi a avant-première deste processo franciscano que estamos assistindo agora.

Papa Francisco é a contrarrevolução moderna

Breno Altman

“A visita do chefe máximo da Igreja Católica ao Brasil virou um daqueles consensos aos quais se referia o escritor Nelson Rodrigues. “A unanimidade é burra”, pontificava o reacionário e fanático torcedor do Fluminense. Praticamente todos os setores da sociedade, afinal, estão batendo palmas para o sumo pontífice.

Até mesmo representantes ilustres da antiga teologia da libertação juntam-se ao coro dos embevecidos. O centro nervoso do culto ao papa argentino está em seus modos simples e nos discursos voltados à pobreza. Depois da égide de uma nobreza eclesiástica ancorada na guerra fria contra o socialismo, eis que o Vaticano passa ao comando de um cardeal paisano e latino-americano.

Cada gesto seu é saudado como se uma grande modificação estivesse em curso. A cobertura de emissoras tão díspares como a Globo e a venezuelana Telesur parece decidida pelo mesmo editor. As loas ao líder dos católicos eventualmente obedecem a pontos de vista opostos, mas buscam anular qualquer atividade ou pensamento críticos.

Os meios de comunicação brasileiros se calam sobre a biografia de Jorge Mário Bergoglio, quase sempre abdicando de qualquer apuração ou comentário acerca de seu papel durante a ditadura militar argentina. Sequer entre os veículos progressistas há real interesse de colocar luz sobre o tema, apesar de a Jornada Mundial da Juventude ser momento propício para discutir credenciais em direitos humanos.

Ressurgido como Francisco e elevado ao trono de Pedro, o religioso portenho reanima a mais importante instituição mundial do conservadorismo. Despida de ritos aristocráticos e confrontando a antiga cúria corrupta, a Igreja Católica apresenta-se com uma face nova, capaz de cativar o mundo para as mesmas ideias de sempre.

 A imagem midiática do papa tem-se sobressaído tanto que poucos se dão ao trabalho de informar e analisar a doutrina que vertebra seu mandato. Mas uma boa leitura da primeira encíclica que publicou, além de um quase desconhecido manual de bioética que está no prelo, pode revelar que tudo segue como dantes no quartel de Abrantes.

Não há qualquer diferença de abordagem, nestes textos, daquela pregada por João Paulo 2º e Bento 6º Continuam de pé os mesmo dogmas: a centralidade da fé religiosa sobre os problemas políticos e sociais, o combate irascível do direito das mulheres à interrupção da gravidez e a afirmação da heterossexualidade como única relação erótico-afetiva possível.

O estilo de Francisco, claro, é muito diferente. Traz jovialidade, simpatia e humildade à linguagem carcomida de seus antecessores. Apesar de refutar qualquer alteração ao conjunto de decisões que tiraram correntes católicas do apoio às batalhas populares, sua oratória a favor dos pobres rejuvenesce o Vaticano.

A direita encontra, nesta renovação, bom motivo para entusiasmo. Um papa fortalecido e celebrado é instrumento notável para qualquer estratégia de redução da influência de esquerda nas camadas de menor renda, especialmente na América Latina. Além de criar obstáculos para a expansão de pentecostais e outros grupos religiosos, em países nos quais a maioria da elite se vincula à tradição católica.

Não é à toa que o jornalista Elio Gaspari, em artigo recente e afobado, vaticinou que a visita de Francisco ao Brasil poderia ter significado semelhante àquela de Karol Wojtyla a Polônia, em 1979, deflagrando o cerco político que levaria à queda dos regimes socialistas no leste europeu.

Tamanha euforia também levou conservadores a redobrar esforços pelo veto presidencial ao PL 03/103, que regulamenta procedimentos médicos no Sistema Único de Saúde para casos de violência sexual, incluindo a profilaxia da gravidez. O papa irá embora apenas três dias antes do prazo final para a sanção da lei, que passará a vigorar em 1º de agosto.

O curioso é ver forças de esquerda, em plena continuidade da contrarrevolução iniciada nos anos 80, também exaltarem a Francisco. Atiram-se às migalhas oferecidas pela retórica da pobreza como se fosse, depois de décadas ao relento, a própria redenção do catolicismo progressista.

Ainda que de ilusão também se viva, há um preço por abrir mão da crítica, a única vacina possível contra valores reacionários que se camuflam de modernos. Fragiliza a batalha por corações e mentes. Torna mais vulnerável o caráter laico do Estado.

A presidente Dilma, a bem da verdade, com um discurso secular na chegada do ilustre visitante, foi a voz pública que sutilmente dissentiu do pacto de adulação. Sobre ela, porém, caíram representantes do obscurantismo e o silêncio amolecido de quem deveria estar com os olhos bem abertos diante da escalada papista.”

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Igreja católica derruba 334 árvores de Mata Atlântica para receber o papa

19 de julho de 2013
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A Capela de São Sebastião é uma das mais antigas do Rio de Janeiro e as árvores foram derrubadas para uma missa com 800 fiéis. Foto: Cris Isidoro/Diadorim Ideias.

Via Envolverde

Exatas 334 árvores foram derrubadas para a realização de uma missa campal nas proximidades do Parque Estadual Serra da Tiririca, na cidade de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro. Algumas árvores eram centenárias, mas foram retiradas do local por conta de um evento da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que irá receber o Papa Francisco.

Os responsáveis pelo desmatamento que dizimou 30 diferentes espécies de Mata Atlântica foram os líderes da Capela de São Sebastião de Itaipu, uma das mais antigas do estado, segundo o Portal Terra. O objetivo era abrir espaço para a realização de uma missa para que peregrinos celebrem uma missa durante a JMJ.

De acordo com a secretaria municipal de Ambiente de Niterói, um decreto municipal de nº 2602/2008 determina que a retirada e a poda de árvores sejam precedidas de autorização da pasta. Os representantes da igreja, no entanto, derrubaram a vegetação sem autorização. “Se a igreja tem o papel de educação ambiental, não pode cometer uma supressão desse tamanho”, afirmou o secretário Daniel Marques.

Justificativa

Por conta da derrubada, a igreja foi multada em R$10 mil e deverá fazer reflorestamento de plantas nativas da Mata em até 60 dias. O advogado da Diocese de São Sebastião, da qual faz parte a capela, Rafael Cura, justificou a ação. “A autorização foi pedida e, mediante a urgência de um evento que derrubou algumas árvores, se iniciou um processo de limpeza.”

Visita do papa ao Brasil custará R$120 milhões aos cofres públicos

15 de maio de 2013

Papa_Francisco04AO custo corresponde a 10% do valor da obra do Maracanã para apenas cinco dias.

Via 007BONDeblog

Dinheiro público, seu, meu, nosso, como a mídia gosta de ressaltar, vindo dos governos federal, do estado e do município do Rio de Janeiro. A questão é a jornada pertence à Juventude Católica, é uma ação de caráter religioso, do Vaticano. Com todo o respeito, por qual motivo todos os cidadãos, mesmo de outras religiões e os que não possuem religião alguma, devem “financiar” tal evento?

É fato que ao governo federal e estadual cabe os custos de dar segurança ao papa e ao evento, além de toda a estrutura de apoio com a participação da prefeitura. Nesse sentido, a cidade que receberá a jornada tem a contrapartida dos turistas, peregrinos e fica mais conhecida. Mas admitir que um gasto total da ordem de R$120 milhões deva ser rateado entre as três esferas de governo, sendo que metade disso aproximadamente virá do governo federal, é algo absurdo.

Convenhamos, com R$120 milhões, que significam 10% do custo total do Maracanã ou 150% do que a prefeitura vai gastar para reurbanizar a Avenida Rio Branco, não é um valor desprezível. Estas obras ficam, duram décadas, são um patrimônio para toda a sociedade, não estão restritas a uma corrente religiosa, ainda que estatisticamente a mais numerosa. O estado é laico e a presente situação afronta este princípio. Aliás, quem resolve quais os membros da sociedade irão se encontrar com o papa no Teatro Municipal?

Já está mais do que na hora de entender que suntuosidade não tem nenhuma relação com cristianismo e fé e, se querem manter tamanha estrutura, que o façam com dinheiro da igreja.

Que me perdoem meus amigos/irmãos católicos, mas se a igreja católica com os R$200 milhões que vai arrecadar (estimativa/média entre a projeção do governo e da igreja) reembolsar os gastos do governo, aí estará tudo certo. Fora isso, mantenho minha crítica.

Mauro Santayana: O poder e sua maldição

15 de abril de 2013
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Thatcher, Wojtyla e Regan: responsáveis pelo processo mais extenso e mais profundo de corrupção da política pelo poder financeiro.

Mauro Santayana em seu blog

Desde que a história do poder começou a ser escrita, dela tem sido inseparável o registro da corrupção. Contra a corrupção do poder, Savonarola sugeriu um governo de santos. Platão um governo de sábios austeros. Em uma de suas famosas cartas, algumas tidas como apócrifas, ele fala da perversão do poder pelo hedonismo em Siracusa – ele que fora mal sucedido conselheiro de dois de seus tiranos, Dione e Dionísio. Pôde entender Platão que uma coisa são as ideias, outras, os homens.

Savonarola é o modelo de todos os combatentes da corrupção na História. Coube-lhe opor-se ao mais corrupto e corruptor de todos os papas, Rodrigo Borgia, que ocupou o trono com o nome de Alexandre 6º. O frade dominicano desafiou o papado e soube esquivar-se da astúcia do Pontífice, que lhe ofereceu tudo, até mesmo o chapéu cardinalício, com o propósito de retirá-lo da Toscana, onde se sentia seguro.

O monge acabou sendo vencido pelas armas, preso, julgado e condenado à morte. Naquele episódio, e em outros, Mamon, o deus do papa, se sobrepôs ao Cristo de Savonarola.

Ainda agora se revela, pelo WikiLeaks, que o considerou natural a repressão no Chile de Pinochet, e exagerada a reação mundial, provocada pelas forças de esquerda, contra o golpe.

A morte de madame Thatcher convida a uma viagem pela geografia da corrupção por excelência. Provavelmente não se conheça, em toda a História, processo mais extenso e mais profundo de corrupção da política pelo poder financeiro do que o eixo entre Washington, com Reagan, Londres, com a dama de ferro, e o Vaticano, com Wojtyla, no início dos de 1980. Convenhamos que os que os corromperam souberam fazê-lo.

Na conspiração, que se selou em encontro na Biblioteca do Vaticano, Reagan e Wojtyla – em menos de uma hora – com a presença de Alexander Haig, acertaram os movimentos coordenados para destruir o sistema socialista, acabar com o estado de bem-estar social no resto do mundo e globalizar o sistema econômico mundial. Nenhum dos três seria capaz de engenhar o plano, que – tudo indica – lhes foi entregue pelo Clube de Bilderbeg.

É conveniente registrar que não tiveram muitas dificuldades na União Soviética, cujos burocratas, seduzidos pelo “doce charme da burguesia”, sonhavam com a vida faustosa dos executivos norte-americanos e ingleses.

E dificuldades ainda menores nos países em desenvolvimento, alguns deles, como o Brasil, com recursos internos que lhes permitiam resistir à desnacionalização de sua economia. Como se sabe, ocorreu o contrário, com a embasbacada adesão dos dois Fernandos ao Consenso de Washington.

O resultado do processo está aí, com o desmoronamento da economia europeia, o avanço da pobreza pelos países centrais, e a corrupção, alimentada pelo sistema neoliberal, grassando pelo planeta inteiro.

Os maiores bancos do mundo exercem diretamente o poder político em alguns países, como o Goldman Sachs o exerceu na Itália, com Mário Monti, e Papademus, na Grécia, até as eleições. Isso sem falar no Banco Central Europeu, sob o comando de Mário Draghi, também do mesmo banco. No passado, os Estados intervinham no sistema financeiro, para controlá-lo e proteger os cidadãos; hoje, os bancos intervêm nos Estados, com o propósito de garantir seus lucros, o parasitismo dos rentistas e as milionárias remunerações de seus “executivos”.

Para fazer frente ao descalabro da economia, causado pela ficção dos derivativos, os governos europeus cortam os gastos sociais e levam famílias inteiras à miséria e ao desespero. Idosos são expulsos de suas casas, por não terem como pagar as prestações ou os aluguéis, os hospitais públicos reduzem o número de leitos, as indústrias recorrem à falência, e os suicídios se sucedem. Há dias, sem dinheiro para honrar compromissos de pequena monta, um casal de meia-idade, que possuía seu negócio de fundo de quintal, se enforcou, em Civitanova, na Itália. O irmão da senhora, atingido pela tragédia, também se matou, afogando-se no Adriático.

Em Portugal – e ali sobram capitais privados ociosos, que adquirem, sôfregos, ativos brasileiros –, o desespero atingiu limites extremos, e a União Europeia, de joelhos diante dos banqueiros, exige de Lisboa maiores cortes no orçamento social.

No fim de um de seus mais belos romances, Terra fria, o escritor português Ferreira de Castro dá à mulher a notícia da presença de um militante revolucionário na cidade:

“Ele disse que chegará o dia em que haverá pão para todos”.

E, com o pão, a dignidade é a nossa esperança.


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