Posts Tagged ‘Palestina’

Morre Ariel Sharon, “o açougueiro de Beirute”

12 de janeiro de 2014

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Líder político deu guinada ao centro no final da vida política, mas ficará marcado pelo envolvimento com alguns dos episódios mais violentos da relação com palestinos

Guila Flint, via Opera Mundi e lido no

Mais do que qualquer outro líder israelense, Ariel Sharon simboliza a linguagem da força. Em sua longa carreira, como militar e político, Sharon esteve envolvido nos capítulos mais violentos do conflito entre Israel e os palestinos, ocupando postos-chave desde a fundação de Israel, em 1948.

Em 1953, quando era um jovem militar de apenas 24 anos, Sharon comandou a operação na aldeia palestina de Qibya, também conhecida como massacre de Qibya, que deixou 69 mortos, a maioria deles civis. A operação foi uma decisão do governo israelense, naquela época liderado pelo primeiro-ministro David Ben Gurion, em represália a um atentado na cidade de Yehud que havia deixado 3 civis israelenses mortos.

A Unidade Especial 101, comandada por Sharon, atacou a aldeia na Cisjordânia – então sob domínio jordaniano – destruindo 49 casas, uma escola e uma mesquita. Muitas das vítimas estavam dentro das casas, que foram explodidas pelas tropas.

Na guerra de outubro de 1973, já general do Exército, Sharon comandou a travessia do Canal de Suez, que foi decisiva para a vitória das tropas israelenses contra as forças egípcias. Essa operação lhe rendeu o reconhecimento como um dos estrategistas militares mais importantes da história do país.

Carreira política

Em 1977, após se aposentar do Exército, Sharon iniciou sua carreira política. Seu primeiro cargo foi de ministro da Agricultura no governo de Menahem Begin, líder do partido de direita Likud. Naquela época Sharon foi apelidado de “trator”, por sua ação enérgica em favor da ampliação dos assentamentos israelenses nos territórios ocupados.

Sharon foi considerado o “pai” dos assentamentos ao longo de quase três décadas de carreira política. Em 1981 foi nomeado ministro da Defesa no governo de Begin e, em 1982, liderou a primeira guerra do Líbano, contra as forças da OLP (Organização de Libertação de Palestina), baseadas no país.

O massacre nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em setembro de 1982, levou a um afastamento temporário de Sharon da vida política. Cerca de 1.500 civis palestinos foram assassinados por milícias falangistas libanesas, que entraram no campos enquanto as tropas israelenses os cercavam.

Afastamento

A Comissão Kahan, nomeada pelo governo israelense para investigar o massacre, chegou à conclusão de que Sharon era responsável por ter “ignorado o perigo de derramamento de sangue e não tomar medidas adequadas para impedi-lo”.

No mundo árabe, após o massacre de Sabra e Chatila, Sharon tornou-se a figura israelense mais odiada e foi denominado “o açougueiro de Beirute”.

Sharon foi afastado do cargo de ministro da Defesa e muitos em Israel pensaram que sua carreira política havia chegado ao fim. No entanto, ele permaneceu entre os líderes mais importantes do partido Likud e ocupou cargos de ministro até 1999, quando se tornou presidente do partido.

Em setembro de 2000, Sharon, escoltado por mil policiais, entrou na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental, desencadeando a segunda Intifada (levante palestino).

A presença do líder israelense mais odiado pelos palestinos, no lugar mais sensível e em uma época de extrema tensão entre os dois povos, foi o estopim de uma onda de violência que durou 4 anos e deixou mortos dos dois lados.

“Homem forte”

Em 2001, em meio à Intifada, Sharon foi eleito primeiro-ministro. Sua imagem de “homem forte” fez com que grande parte do público israelense o elegesse para pôr um fim à série de atentados suicidas que assolava as cidades israelenses.

Em março de 2002 Sharon ordenou o início da chamada Operação Muralha de Defesa, durante a qual as tropas israelenses reocuparam as cidades palestinas e cercaram o quartel general do presidente palestino, Yasser Arafat, em Ramallah.

No mesmo ano, sob o comando de Sharon, foi iniciada a construção do Muro israelense na Cisjordânia.

O Muro, que consiste em um complexo de muros de concreto nas áreas urbanas e cercas nas áreas rurais, e tem mais de 400 quilômetros de extensão, foi construído supostamente para separar israelenses de palestinos e, assim, impedir a entrada de atacantes suicidas no país.

No entanto, a barreira não separa israelenses de palestinos, mas sim palestinos de palestinos, pois não passa na chamada Linha Verde – a fronteira entre Israel e a Cisjordânia até a guerra de 1967– mas dentro da Cisjordânia, anexando parte do território palestino a Israel.

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Sharon e Bush Jr. em 2003, ano da guinada política do israelense.

Guinada

Em 2003, Sharon deu uma guinada em direção a uma posição de centro, mais pragmática do que aquela que havia defendido praticamente a vida inteira.

“Não é possível continuar mantendo 3,5 milhões de palestinos sob ocupação”, disse em maio de 2003. “Essa situação é ruim para os palestinos, para Israel e para a economia de Israel”.

Naquela época, Sharon aceitou o Mapa do Caminho, plano proposto por Estados Unidos, Rússia e União Europeia, para a paz entre israelenses e palestinos, e anunciou seu apoio à ideia da criação de um Estado Palestino.

Em 2005 Sharon conduziu a retirada das tropas e dos assentamentos israelenses da Faixa de Gaza.

A guinada de Sharon gerou choque e indignação da direita israelense, que passou a considerá-lo traidor da ideologia do Grande Israel.

Ele enfrentou uma rebelião dentro de seu próprio partido, o Likud, e em 21 de novembro de 2005 renunciou à liderança do partido e fundou o partido de centro Kadima.

Em 4 de janeiro de 2006 Sharon sofreu um derrame cerebral que o deixou em estado vegetativo por oito anos, até a sua morte, no sábado, dia 11.

Cadu Amaral: Latuff não é antissemita, Netanyahu sim

17 de janeiro de 2013
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Mortes de palestinos geram votos a Netanyahu.

Cadu Amaral em seu blog

Depois de divulgar, em 2012, uma charge em que o líder israelense Benjamin Netanyahu espreme uma criança palestina morta e dela caem votos em uma urna, a ONG israelense “Centro de Defesa dos Direitos Humanos Simón Wiesenthal” classificou o cartunista brasileiro Carlos Latuff como a terceira pessoa ou organização mais antissemita do mundo.

Segundo a lista da ONG, Latuff só é menos antissemita que o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e que partidos da extrema-direita da Ucrânia e da Grécia. A ONG tem sede nos Estados Unidos.

O discurso comum das elites ocidentais é de que Israel é vítima do mal palestino. Afinal, os judeus são os donos de boa parte da riqueza do Ocidente. Também não é correto afirmar que todo judeu apoia a política da guerra do Estado de Israel. Ao contrário, é crescente as manifestações contrárias ao genocídio dos palestinos.

Apesar do avanço do reconhecimento do Estado Palestino e a permissão de participação de espaços da Organização das Nações Unidas (ONU), pouco se faz para acabar com a sangria que Israel promove na região.

Alguns argumentam que os palestinos têm homens-bomba e que matam civis israelenses. De fato. Lá se vive uma guerra intensificada com a criação do Estado de Israel e sua política de grilagem territorial. Gráficos mostram como Israel cresce seu território em detrimento dos povos árabes da região.

Também não se mata formiga com bazuca. Quem tem o poder econômico ao seu lado e a permissividade nessa guerra é Israel. Quem tem mais condições de pôr fim a ela é Israel.

Obviamente que isso iria de encontro aos interesses da indústria bélica. Indústria, aliás, com força significativa nos EUA.

Latuff há anos condena a guerra com suas charges. Há anos que ele condena a política belicista israelense. Mas em nenhum momento ele faz menções à questão religiosa ou étnica.

Acusá-lo de antissemita é, no mínimo, ridículo. Antissemita é quem patrocina as barbáries que lá acontecem. Alimentando o ódio a Israel e ao povo judeu.

Netanyahu é antissemita, não o Latuff.

Arafat foi assassinado por sionistas israelenses

16 de janeiro de 2013
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Arafat foi assassinado em 11 de novembro de 2004.

Na sexta-feira, dia 11, Shimon Peres, presidente de Israel, assumiu publicamente que o governo israelense é responsável pela morte do líder palestino.

Baby Siqueira Abrão, via Brasil de Fato

A notícia de que os sionistas são os responsáveis pela morte de Arafat foi dada por ninguém menos do que Shimon Peres, presidente de Israel. Na sexta-feira, dia 11), dia em que a resistência palestina entrou numa nova fase de luta contra a ocupação – a das ações diretas não violentas para tentar retomar suas terras, roubadas pelas autoridades israelenses –, Peres veio a público revelar que sim, os sionistas assassinaram o líder palestino Yasser Arafat.

Mais surpreendente do que a confissão foi o silêncio dos governos do mundo em relação a ela. Não houve nenhuma condenação formal, nenhuma indignação expressa em discursos diplomáticos, nada. Nem mesmo os grandes partidos palestinos se pronunciaram oficialmente, ao menos até agora. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP), chefiada durante seus anos mais difíceis por Arafat, teve um fim de semana muito atarefado para emitir algum comunicado sobre o assunto: tentava convencer a União Europeia a trabalhar pelo fim imediato da ocupação militar israelense, depois que palestinos foram arrancados pela polícia sionista da vila de Bab Al-Shams, em seu próprio país.

Tem-se a impressão de que o assassinato da maior autoridade de uma nação pelo governo de um país estrangeiro é fato comum, sem nenhuma importância. Ou talvez os governantes do mundo não se tenham surpreendido com a confissão de Peres porque já sabiam do fato.

Mas exatamente por isso as condenações deveriam ser efetivas, como as sanções econômicas que o Conselho de Segurança da ONU gosta de impor a países escolhidos a dedo por sua independência em relação às políticas econômicas dominantes, gestadas em grandes centros financeiros mundiais, e à agenda das guerras: às drogas, ao narcotráfico, ao terrorismo, guerra sem fim. Todas destinadas a alimentar o caixa do complexo industrial militar do eixo Estados Unidos-Europa-Israel.

A confissão de Simon Peres não teve nem mesmo algum sinal de arrependimento pela trama sórdida que levou à morte de um ser humano. O presidente limitou-se a dizer que a decisão foi um erro estratégico por dois motivos: porque com Arafat era possível conversar e porque sua eliminação levou a uma situação “mais difícil e complexa”.

As declarações do presidente de Israel não teriam sido feitas, porém, se a rede de mídias Al-Jazeera, financiada pelo Qatar, não tivesse enviado para exame alguns pertences pessoais de Arafat. Realizado pelo Instituto de Radiofísica de Lausane, na Suíça, o exame revelou “uma elevada, inexplicável e insuportável quantidade de polônio 210 nos fluidos biológicos encontrados nos objetos pessoais do senhor Arafat”, como explicou François Bochud, diretor do instituto à Al-Jazeera. O polônio 210 é um elemento radioativo potente, capaz de matar em pouco tempo, e provoca os mesmos sintomas que Arafat começou a sentir em 25 de outubro de 2004. Em 11 de novembro, ele estava morto.

O programa que a Al-Jazeera levou ao ar em 3 de julho de 2012 rompeu o pacto de silêncio que havia em torno da morte do líder palestino. Por insistência de Suha, viúva de Arafat, seu corpo foi exumado por especialistas suíços e franceses em novembro do ano passado e amostras seguiram para análise. Os resultados confirmaram o envenenamento.

Esse fato, e as provas documentais de que Ariel Sharon, primeiro-ministro israelense à época da morte de Arafat, havia mandado assassiná-lo, trouxeram à tona aquilo que todo palestino já sabia e vem falando abertamente em conversas nas ruas, nas lojas, nos ônibus da Palestina. Faltavam apenas as provas, conseguidas agora, nove anos depois do crime.

A grande virada da resistência palestina

14 de janeiro de 2013

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Mais de 250 mulheres e homens, sob o intenso frio do fim de madrugada de 11 de janeiro, fundaram Bab Al Shams (Porta do Sol), a mais nova vila palestina. Ali, no platô pedregoso de al-Tur, eles montaram, com a ajuda de ativistas de várias partes do mundo, dezenas de barracas para evitar a construção de novas casas para colonos israelenses. A construção da vila é uma iniciativa única e marca uma nova fase da resistência. Os palestinos, segundo a declaração distribuída durante a fundação da vila, não estão mais dispostos a esperar que o confisco de seu país se consume.

Baby Siqueira Abram, via Carta Maior

A resistência palestina acaba de entrar em nova fase. Com a fundação da vila de Bab Al Shams, em 11 de janeiro, ela mostra que a partir de agora vai criar fatos consumados para retomar, na prática, aquilo que é seu por direito

Logo depois que a maioria dos países presentes à Assembleia Geral da ONU de 29 de novembro de 2012 reconheceram o Estado da Palestina nos limites anteriores à ocupação militar israelense de 1967, com Jerusalém oriental como capital, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, decidiu desafiar a decisão. Em represália às Nações Unidas, anunciou a construção de três mil unidades habitacionais para colonos judeus, duas mil delas, além de centro comercial e educacional, em al-Tur, área próxima a Jerusalém oriental que Israel denomina E1.

Al-Tur fica no Estado da Palestina. E é importantíssima do ponto de vista geoestratégico. Construir ali uma extensão da colônia judaica de Ma’ale Adumin – ela também erigida ilegalmente em território palestino –, como quer o governo israelense, significaria dividir a Cisjordânia em duas partes.

A Palestina ficaria, então, com três blocos geograficamente separados: Cisjordânia do norte, Cisjordânia do sul e Gaza. Todas elas sem nenhum tipo de comunicação umas com as outras. E sem acesso a Jerusalém.

O impacto na população palestina, lembra o Alternative Information Center (AIC), organização fundada e dirigida por pesquisadores palestinos e israelenses que apoiam a causa palestina, seria “desastroso”. As comunidades ficariam isoladas, o crescimento natural seria impedido e, como consequência, os moradores começariam a deixar as áreas vizinhas a Al-Tur. O caminho estaria aberto para o governo de Israel anexar mais terras a seu território.

Além disso, cerca de 2,3 mil beduínos que vivem em pequenas comunidades entre Ma’ale Adumin (localizada na Cisjordânia) e Jerusalém seriam expulsos. A maioria deles, diz o AIC, é composta de refugiados forçados a deixar o deserto de Naqab (em hebraico, Negev), ao sul da Palestina, quando os sionistas tomaram a região à força para fundar Israel.

Mais: aproximadamente 50 mil palestinos das cidades de Anata, Abu Dis e Azaria ficariam praticamente isolados do resto do mundo, espremidos entre a colônia judaica planejada em al-Tur do lado leste e o Muro do Confisco e do Apartheid a oeste. A única comunicação com seu próprio país seria feita por uma estrada que corta Belém e Ramala.

Hora de mudar as regras do jogo

Pois foi exatamente nessa área sensível, fundamental para a contiguidade do Estado da Palestina, que mais de 250 mulheres e homens, sob o intenso frio do fim de madrugada de 11 de janeiro, fundaram Bab Al Shams (Porta do Sol), a mais nova vila palestina.

Ali, no platô pedregoso de al-Tur, eles montaram, com a ajuda de ativistas de várias partes do mundo, dezenas de barracas retangulares de tecido emborrachado branco e creme, estruturadas com vigas de ferro. Uma delas abriga uma clínica médica. Outra anuncia, com letras enormes, em árabe e em inglês: “Bab Al Sham Village”.

A construção da vila é uma iniciativa única e marca uma nova fase da resistência. Os palestinos, segundo a declaração distribuída durante a fundação da vila, não estão mais dispostos a esperar que o confisco de seu país se consume. A união entre comitês populares, movimentos de jovens, organizações da sociedade civil e os verdadeiros donos daquela área, fortalecidos pela decisão da ONU de reconhecer a Palestina como Estado, efetuaram a ação não violenta mais importante e decisiva dos mais de 100 anos de resistência ao sionismo – o movimento político que tomou para si, na base do terrorismo e da força, a maior parte da Palestina. Mas o real objetivo, como Ben-Gurion deixou claro em carta escrita a seu filho, e como os sionistas jamais esconderam – o projeto faz parte do programa do Likud, o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e de outros partidos de Israel –, é tomar a Palestina inteira.

Até hoje de manhã, os palestinos vinham assistindo, impotentes, o governo de Israel levar adiante esse plano, roubando suas terras, destruindo suas casas e seus meios de vida. A construção de Bab Al Shams é o ponto de virada dessa história. Nem mesmo os helicópteros que passaram a sobrevoar a nova vila assim que a notícia chegou aos ouvidos do governo sionista, nem os numerosos soldados que cercaram o local podem mudar isso.

Os palestinos desistiram de esperar que seu direito à autodeterminação lhes seja concedido. Decidiram conquistá-lo por conta própria. Apropriaram-se, na prática, do que sempre foi seu. Mostraram, ao retomar suas terras, a disposição de lutar por elas centímetro por centímetro. Colocaram os sionistas contra o muro que eles mesmo construíram.

Em Bab Al Shams, em meio à montagem das tendas, Abdallah Abu-Rahmah, líder do Comitê Popular de Bil’in, declarava aos repórteres, fazendo eco ao conteúdo da declaração de Bab Al Shams, que “Israel impôs fatos consumados durante décadas, diante do silêncio da comunidade internacional. Agora é hora de mudar as regras do jogo. Somos os donos desta terra e imporemos a nossa realidade”.

Na Itália, Luisa Morgantini, ex-membro do Parlamento Europeu, aplaudiu a iniciativa, lamentando apenas não estar em Bab Al Sham. Em alguma parte do mundo, os hackerativistas do grupo Anonymous aprovaram a ação direta da resistência palestina: “Este assentamento é nosso”, declararam eles no Twitter. “E vai permanecer de pé até que os outros [as colônias ilegais construídas por Israel] tenham ido embora.”

Em Ramallah, a doutora Hanan Ashrawi, membro da Comissão Executiva da OLP, parabenizou os organizadores e deu total apoio à ação: “Estimulamos a resistência popular não violenta contra a ocupação israelense em todo o Estado da Palestina”, disse ela, lembrando as privações que os palestinos enfrentam para viver em seu próprio país. “A iniciativa é uma ferramenta criativa e legítima para proteger a Palestina dos planos coloniais de Israel. Temos o direito de viver em qualquer parte de nosso Estado. Conclamamos a comunidade internacional a apoiar ações como essa e a dar proteção àqueles que são ameaçados pelas forças ocupantes por exercerem seu direito de resistir pacificamente à ocupação ilegal de Israel.”

A reação do governo israelense

Desafiado por uma ação baseada em seus próprios métodos – criar fatos consumados para tomar terras palestinas –, o governo israelense despachou soldados para instalar postos de controle (checkpoints) nos acessos à nova vila e para cercá-la, além de emitir uma ordem de “evacuação”, exigindo que os moradores deixassem a área. Nenhum deles fez um único movimento no sentido de sair dali, até porque naquele mesmo momento a Suprema Corte de Israel decidia favoravelmente a um recurso interposto pela resistência. Durante seis dias, declarou o tribunal, Bab Al Shams permanece onde está.

À medida que a noite descia, em torno de fogueiras, aquecidos por cobertores e pelo chá, a tradicional bebida palestina, os moradores receberam a boa notícia de que a instalação elétrica da vila estava pronta. Luzes foram acesas nas tendas e notebooks, já sem bateria, ligados.

Aconchegados uns nos outros, palestinas, palestinos e ativistas estrangeiros preparavam-se para a primeira noite da nova vila. A primeira noite de um dia muito especial, marco da virada de um povo até então imobilizado por circunstâncias externas.

Em 11 de janeiro os palestinos decidiram fazer as próprias circunstâncias. A nova fase da luta contra o ocupação prosseguirá, como afirma a histórica Declaração de Bab Al Shams, cuja tradução vem a seguir.

Declaração de Bab Al Shams

Nós, filhas e filhos da Palestina, de todas as partes do país, anunciamos o estabelecimento da vila de Bab Al Shams. Nós, o povo, sem permissão da ocupação, sem permissão de ninguém, estamos aqui hoje porque este é nosso país e habitá-lo é um direito nosso.

Poucos meses atrás o governo israelense anunciou sua intenção de construir cerca de 4 mil unidades habitacionais na área que denomina E1.

Trata-se de uma área de 13 km2 que fica no território palestino confiscado de Jerusalém oriental, entre a colônia de Ma’ale Adumin, construída na Cisjordânia ocupada, e Jerusalém. Não permaneceremos calados enquanto a expansão das colônias e o confisco de nosso país continua. Portanto, pela presente declaração, estabelecemos a vila de Bab Al Shams para proclamar nossa crença na ação direta e na resistência popular.

Declaramos que a vila permanecerá em pé até que os donos destas terras tenham o direito de construir nelas.

O nome da vila foi retirado da novela Bab Alshams, do escritor libanês Elias Khoury. O livro descreve a história da Palestina por meio do amor entre um palestino, Younis, e sua esposa Nahila. Younis deixa a esposa para unir-se à resistência no Líbano enquanto Nahila permanece firme no que restou da vila de ambos, na Galileia. Durante os anos 1950 e 1960 Younis sai às escondidas do Líbano e volta à Galileia para encontrar a esposa na caverna de Bab Al Shams, onde ela dá à luz os três filhos do casal. Younis retorna à resistência e Nahila fica na caverna.

Bab Al Shams é a porta para nossa liberdade, é nossa firmeza. Bab Al Shams é nossa porta para Jerusalém. Bab Al Shams é a porta para o nosso retorno.

Durante décadas Israel tem criado fatos consumados enquanto a comunidade internacional permanece calada em resposta a essas violações. Chegou a hora de mudar as regras do jogo, de estabelecermos fatos consumados em nosso país. Esta ação, envolvendo mulheres e homens de norte a sul [da Palestina] é uma forma de resistência popular.

Nos próximos dias criaremos vários grupos de discussão, faremos apresentações educacionais e artísticas, passaremos filmes nesta vila. Os moradores de Bab Al Shams convidam todas as filhas e todos os filhos de nosso povo para participar e juntar-se à vila, a fim de dar apoio a nossa resistência.

Sabra e Chatila: A linha do tempo da barbárie

16 de julho de 2012

Através de um acordo mediado pelos EUA, a OLP aceitou deixar o Líbano, se asilando na Síria e na Argélia. Para trás ficaram milhares de refugiados civis. Receberam garantia de israelenses e do próprio governo norte-americano de que não seriam atacados. Vamos esquecer aquele junho de 1982?

Gilson Caroni Filho, via Carta Maior

Depois de 30 anos, é preciso indagar novamente. Vamos esquecer aquele junho de 1982, em que Beguin e Sharon não pestanejaram ao perpetrar o genocídio? Ao mesmo tempo em que massacravam as populações palestina e libanesa, restringiam ao máximo a manifestação de quaisquer segmentos contra a guerra, acabando com a ilusão de vários setores da sociedade israelense que acreditavam nas maravilhas de viver na “única sociedade democrática do Oriente Médio”.

Desta forma, paralelamente a uma ação de pinças visando estabelecer no Líbano um estado títere – chefiado por um grupo fascista cristão, aliado incondicional de Israel – que assinasse a “pax beginnis” (como fez o Egito em Camp David) isolando a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), foi deflagrado um processo que terminaria numa ocupação com a tomada da capital Beirute.

Num primeiro momento, a ação de Beguin alcançou seus resultados. A OLP e a população libanesa foram totalmente abandonadas por seus “aliados”. Síria e Jordânia, entre outros, saíram de cena, deixando que todo o peso da ação militar fosse sustentado por palestinos e libaneses. Com total proteção de Washington, o exército sionista cometeu toda sorte de atrocidades. Milhares de mortos, desaparecidos ou feridos. Um milhão de pessoas sem teto. Foram varridos da face da Terra: três cidades, 32 povoados libaneses e 14 acampamentos de palestinos. Contra cidades foram lançadas bombas de fragmentação: fosfóricas, de napalm e bengalas.

Para matar crianças, os invasores, armados e manobrados por Ronald Reagan, usaram as chamadas “minas e armadilha” e “minas surpresa”, que explodiam ao leve toque da mão infantil. O Líbano, palco de tragédias de colonialismos e neocolonialismos, guerra fria e lutas internas com intervenção de potências externas, seria o último solo das vítimas de uma solução final para o “problema palestino”.

Frente à barbárie, os estados árabes recusaram-se até mesmo a receber os militantes palestinos, com medo do impacto de sua organização e nível de consciência em suas próprias populações – como ocorreu na Jordânia em 1970.

A pressão sobre a OLP foi, então, enorme. Enquanto sua direção buscava um recuo organizado que lhe permitisse conservar a unidade territorial dos combatentes palestinos, evitando um banho de sangue maior, os “aliados” pressionavam para uma “solução diplomática” que espalhasse os palestinos por vários países e destruísse sua direção.

Estava claro que a nova diáspora era carta jogada não só para os países árabes como para os dirigentes sionistas. Beguin e Sharon não aceitariam, na verdade, qualquer solução que preservasse um mínimo de organização do movimento palestino, que mantivesse intactas as possibilidades de unificação de um movimento anti-imperialista em toda a região. Os novos kaisers de Israel sabiam que a destruição total obedecia a uma estratégia geopolítica de domínio pleno.

Através de um acordo mediado pelos EUA, a OLP aceitou deixar o Líbano, se asilando na Síria e na Argélia. Para trás ficaram milhares de refugiados civis. Receberam garantia de israelenses e do próprio governo norte-americano de que não seriam atacados. Como relembrou o jornalista Diego Cruz, em artigo sobre os 24 anos do massacre:

“No entanto, na madrugada de 16 de setembro, a Falange, milícia libanesa cristã aliada de Israel, sob o comando direto do então Ministro da Defesa judeu, Ariel Sharon, invadiu os campos de refugiados de Sabra e Chatila, no subúrbio de Beirute, protagonizando um verdadeiro genocídio. Cerca de 3.500 mulheres, crianças e idosos foram cruelmente mortos com tiros e facadas.”

A sorte estava lançada. Beguin quis destruir a OLP como foco de organização e polarização das forças revolucionárias. Ao destampar essa garrafa, o líder israelense liberou um vinho que, se num primeiro momento, produziu o que lhe pareceu um excelente perfume, liberou poderosos gases, forças sociais com as quais Israel terá que se haver até que o direito à existência soberana seja reconhecido. Enquanto isso não ocorrer, a democracia israelense será uma ficção preservada por muros e pela proteção estadunidense.

Não é sobre corpos de mulheres, crianças e idosos que se constrói um país democrático. Israel deveria, pela linha do tempo da memória coletiva, saber disso há mais de 60 anos.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.


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