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O maior momento de Dilma na primeira metade de seu mandato

27 de dezembro de 2012
Dilma_Joaquim_Barbosa02_Niemeyer

Quando a sinceridade encontrou o farisaísmo.

O olhar reprovador dirigido a Joaquim Barbosa foi uma inovação no campo da sinceridade política.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

E Dilma vai chegando à metade do mandato, sob aprovação da maior parte da população, como mostram as pesquisas. Segundo o Datafolha, ela venceria hoje as eleições no primeiro turno. Lula também.

Dilma ganhou luz própria, e isso foi um de seus maiores feitos. Na Rússia, Medvedev ficou sempre na sombra de Putin mesmo enquanto foi presidente. Dilma não. A despeito da lealdade irretocável a Lula, ela segue seu caminho.

Do ponto de vista interno, seu maior acerto é a clareza de que o Brasil não tem muito do que se orgulhar, mesmo à beira de ser a economia do mundo, enquanto houver tantos milhões de miseráveis.

Governar sob esta divisa é, inegavelmente, bom para o país.

Do ponto de vista de política exterior, Dilma não se alinhou ao bolivarianismo de Chavez na Venezuela, e nisso destoou de colegas como a argentina Cristina Kirchner, o equatoriano Rafael Correa e o boliviano Evo Morales. Mas fez questão de incluir em sua fala, numa visita aos Estados Unidos, um pedido para que chegue ao fim o bloqueio econômico que os estadunidenses impõem a Cuba.

Outro bom instante de Dilma foi não se impressionar – ao contrário da mídia – com o sermão dado pela Economist com ares imperiais. Ora, a Economist não conseguiu resolver sequer os problemas de seu país, a Inglaterra, e nem os seus próprios, aliás: vai sendo castigada intensamente pela internet sem achar respostas satisfatórias para a surra.

Mesmo assim, em seu tom doutoral, a Economist – que não está na primeira divisão na mídia inglesa, tradicionalmente voltada para jornais e não para revistas – dá receitas de salvação para o mundo todo. Ninguém ouve, exceto no Brasil.

Mas o maior momento de Dilma, nestes dois anos, foi captado por um fotógrafo [Gustavo Miranda] de O Globo: o olhar furioso que ela endereçou a um estranhamente sorridente Joaquim Barbosa no velório de Niemeyer. Foi quando a transparência se encontrou com a hipocrisia.

Dilma trouxe, ali, uma cena rara na alta política nacional: a sinceridade. Alguns críticos disseram que ela desrespeitou o Supremo, mas é um erro. Se, diante do caixão de Niemeyer, Dilma mostrou falta de respeito, o alvo não foi o Supremo, mas a pessoa física de Joaquim Barbosa.

Não se sabe como a história julgará Joaquim Barbosa, se como um herói anticorrupção ou um Vichinski que destroçou a presunção de inocência, mas o que vimos é que Dilma já parece ter feito seu julgamento pessoal.

Não estamos acostumados à sinceridade na política, e provavelmente por isso o gesto de Dilma causou tanta celeuma.

Compare a atitude de Dilma com a de Lula na morte de Roberto Marinho, em 2003. Lula não apenas decretou luto oficial de três dias como sublinhou, em Roberto Marinho, “quase um século de vida de serviços prestados à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil”.

Sêneca escreveu que ao pensar em certas coisas que dissera invejava os mudos. Presumo que Lula, ao lembrar de suas palavras sobre Roberto Marinho, sinta algo parecido. A retribuição a elas está expressa, todos os dias, nos múltiplos colunistas das Organizações Globo.

Neste ponto, o da franqueza, Dilma representou um avanço sobre Lula.

Por que rola-bosta é a palavra do ano no dicionário político brasileiro

24 de dezembro de 2012
O subitamente popular inseto em ação.

O subitamente popular inseto em ação.

O inseto alcançou notoriedade súbita em 2012 graças à defesa que Boff fez de Niemeyer.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Não gosto de palavreado ofensivo em debate. Empobrece-o, na minha opinião. Já escrevi no Diário minha baixa opinião sobre as expressões “petralha” e “PIG”. Remetem a discussões de arquibancadas, nas quais há excesso de calor e falta de lógica racional.

Dito isso, faço aqui o elogio de uma palavra que, no debate político que se trava no Brasil, simplesmente pegou, porque é leve, divertida e, não obstante, incisiva. É uma bofetada, e não um tiro. Daí o poder, daí o encanto.

É, para mim, a palavra do ano no Dicionário Político Brasileiro: rola-bosta.

Quem a trouxe foi Leonardo Boff para rebater um artigo de Reinaldo Azevedo que chamava Niemeyer de metade idiota por ser de esquerda.

Escreveu Boff:

A figura que me ocorre deste articulista […] é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na Veja online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto […] e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ele o faz com naturalidade e prazer, pois é o meio no qual vive e se realimenta continuamente.

Na internet, rola-bosta virou mania, para designar colunistas de direita.

Agora mesmo, se você vai ao twitter, vai vê-la aplicada a Ferreira Gullar e a Augusto Nunes. A Gullar porque defendeu a candidatura de Joaquim Barbosa à presidência. A Nunes porque arrolou – numa lista de caráter ético duvidoso, pois num regime como o que o Brasil teve por tantos anos a partir de 1964 poderia levar à perseguição – Luis Fernando Verissimo como “apoiador de Lula” na categoria do jornalismo “esgotosférico”.

Não sou quem vai defender Verissimo. Sua obra e sua biografia defendem-no melhor que ninguém.

Mas é curioso comparar “rola-bosta” e “esgotosférico”. Esgotosférico não vai pegar: é grosseiro, de mau gosto, vulgar. É falsamente engraçado, é falsamente espirituoso, é falsamente criativo.

Rola-bosta pegou porque é o oposto disso.

No futuro, é possível que jovens descendentes de jornalistas como Merval Pereira e Ricardo Noblat perguntem a seus pais: “Por que estão dizendo na escola que sou bisneto de rola-bosta?”

Sobre a foto de Dilma e Joaquim Barbosa no velório de Niemeyer

7 de dezembro de 2012

Dilma_Joaquim_Barbosa02_Niemeyer

Uma coisa é certa: a foto não vai para o álbum de nenhum dos dois.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

De uma coisa não se pode acusar Dilma: de hipocrisia. É flagrante, é torrencial, é irreprimível o mal-estar que a figura de Joaquim Barbosa provoca nela, como mostra a foto que o fotógrafo Gustavo Miranda, da Agência Globo, captou no velório de Oscar Niemeyer.

É o olhar de alguém que está oscilando entre o desprezo e o ódio, e que provavelmente se tenha visto na contingência de calar o que sente.

Que detalhes conhecerá Dilma das andanças de Barbosa por apoio político para ser nomeado para o STF? Ou será que ela não perdoa o que julga ser deslealdade e ingratidão de JB perante o homem a quem ambos devem o cargo, Lula?

Interessante examinar o rosto de JB no encontro. Ali está um sorriso de quem espera aprovação, compreensão, atenção – ou pelo menos um sorriso de volta, ainda que protocolar e falso.

Mas não.

O que ele recebe de volta é um olhar glacial, uma mensagem clara da baixa opinião de Dilma sobre ele. Parece estar acima das forças de Dilma fingir que não sente o que sente, ainda que por frações de segundo. A fotografia não vai para o álbum de lembranças de nenhum dos dois.

A franqueza por vezes desconcertante é uma característica de quem, como ela, não fez carreira na política. Fosse uma política, esta foto não existiria, não pelo menos deste jeito singular, e seria uma pena porque esta é uma das imagens que decerto marcarão a República sob Dilma, de um lado, e Barbosa, de outro.

Niemeyer é homenageado pelo mundo, mas a Veja o chama de “idiota”

6 de dezembro de 2012

Oscar_Niemeyer06_Veja

O mundo se rende à genialidade de Oscar Niemeyer, enquanto o pitbull e “colonista” da revista [da] marginal Reinaldo Azevedo definiu o arquiteto como “metade gênio e metade idiota”. Em resposta, ouviu dos próprios leitores que ele é 100% idiota.

Via Pragmatismo Político

“O universo curvo de um revolucionário”, publicou o diário Granma, de Cuba. No espanhol El País, “Morre Niemeyer, o poeta das curvas”. O britânico The Guardian expôs a trajetória do arquiteto brasileiro em reportagem especial, destacando que sua exploração das formas livres foi maior até que a de seu mestre, o suíço Le Corbusier.

O francês Le Monde descreve Oscar Niemeyer como um dos pais da arquitetura moderna, que construiu, entre tantas grandes obras, a sede do Partido Comunista francês, na Place du Colonel Fabien, em Paris.

O obituário do New York Times afirma que Niemeyer capturou a atenção de gerações de arquitetos. “Suas formas curváceas, líricas, hedonistas ajudaram a dar forma a uma arquitetura nacional distinta e a uma moderna identidade para o Brasil, que quebrou com seu passado colonial e barroco”, diz o texto.

O jornal argentino Clarín afirma que Niemeyer foi “um homem que sempre se deixou levar por suas ideias e suas convicções, um criador que havia tempo já tinha assegurado seu lugar no mítico panteão dos maiores arquitetos da história da humanidade”.

Outros veículos de comunicação de notoriedade global como a Rede CNN, a BBC e a Al Jazeera renderam homenagens ao homem que desenhou brasília.

A única grosseria contra Niemeyer partiu de um órgão de imprensa do Brasil. O saudoso arquiteto foi chamado de “meio idiota” por Reinaldo Azevedo, jornalista de Veja, em razão de seus posicionamentos políticos. O blogueiro de Veja não conseguiu controlar sua paixão mesquinha nem mesmo no momento da perda de uma figura singular na história do Brasil, revelando intransigência e, por conseguinte, ele sim, ser o verdadeiro idiota.

Os insultos de Reinaldo Azevedo a Oscar Niemeyer causaram revolta na Web. Até seus próprios leitores repudiaram sua irracionalidade em momento inoportuno. Leia alguns a seguir.

André Mortatti : “Que triste lê-lo, Reinaldo. És um completo idiota. Triste testemunhar tua imensa ignorância.”

José Natalino: “O senhor é de extrema-direita. Tenho nojo… Felizmente pessoas como o senhor são vistas como lunáticos… Ninguém o leva a sério… Claro que existem os débeis mentais que lhe adoram, mas são só isso: débeis mentais insignificantes. Sem o salário do PSDB, o senhor seria um mero idiota falando bobagens.”

Fernando Freitas: “Esse Reinaldo Azevedo é o famoso quem mesmo? Para a maioria do povo brasileiro ele é um ilustre desconhecido metido a intelectual sem passar de um mero IMBECIL. Só tenho um adjetivo para esse senhor: DESQUALIFICADO!”

Thiago: “Ainda bem que ninguém liga para o que você pensa.”

Anelisa: “Nojo de cada palavra que você escreve.”

***

Dilma lamenta morte de Oscar Niemeyer

A presidenta Dilma Rousseff emitiu, na quarta-feira, dia 5, nota em que lamenta a morte do arquiteto Oscar Niemeyer.

Íntegra da nota:

“A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”, dizia Oscar Niemeyer, o grande brasileiro que perdemos hoje. E poucos sonharam tão intensamente e fizeram tantas coisas acontecer como ele.

A sua história não cabe nas pranchetas. Niemeyer foi um revolucionário, o mentor de uma nova arquitetura, bonita, lógica e, como ele mesmo definia, inventiva.

Da sinuosidade da curva, Niemeyer desenhou casas, palácios e cidades. Das injustiças do mundo, ele sonhou uma sociedade igualitária. “Minha posição diante do mundo é de invariável revolta”, dizia Niemeyer. Uma revolta que inspira a todos que o conheceram.

Carioca, Niemeyer foi, com Lúcio Costa, o autor intelectual de Brasília, a capital que mudou o eixo do Brasil para o interior. Nacionalista, tornou-se o mais cosmopolita dos brasileiros, com projetos presentes por todo o país, nos Estados Unidos, França, Alemanha, Argélia, Itália e Israel, entre outros países. Autodeclarado pessimista, era um símbolo da esperança.

O Brasil perdeu hoje um dos seus gênios. É dia de chorar sua morte. É dia de saudar sua vida.

Dilma Rousseff

Presidenta da República Federativa do Brasil

 

Leia também:

Oscar Niemeyer: Uma vida em uma foto, três frases e dois vídeos

Oscar Niemeyer: Uma vida em uma foto, três frases e dois vídeos

6 de dezembro de 2012

Aly, via redecastorphoto

Uma foto

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Três frases

“O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que no encontro sinuoso de nossos rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curva é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.”

“Existem apenas dois segredos para manter a lucidez em minha idade: o primeiro é manter a memória em dia; o segundo, eu não me lembro.”

“Se eu fosse jovem, em vez de fazer arquitetura, gostaria de estar na rua protestando contra este mundo de merda em que vivemos. Mas, se isso não é possível, limito-me a reclamar o mundo mais justo que desejamos, com os homens iguais, de mãos dadas, vivendo dignamente esta vida curta e sem perspectivas que o destino lhes impõe.”

Dois vídeos

● Fidel Castro e Oscar Niemeyer

● A vida é um sopro


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