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Stand-ups: Piadas inteligentes, por favor!

9 de janeiro de 2013

Danilo_Gentili06A

Miguel Angelo

Acabo de ver o premiado documentário O riso dos outros, de Pedro Arantes, que aborda o direito ou não de se fazerem certas piadas; se se pode impor limites. O que, no final, me ficou como opinião do documentário – sim, ele emite uma opinião – é que deve haver limites. Não só concordo com essa conclusão como corroboro para reforçá-la.

A opinião, principalmente dos humoristas – que obviamente defendem sua profissão –, é que a liberdade deve ser irrestrita, ilimitada; que o tal de “politicamente correto” é uma falácia, um entrave à “liberdade de expressão”.

Creio que o documentário cumpre bem sua meta de apontar que tal liberdade sem limites é um abuso, um desrespeito a muitos dos que são alvos das referidas piadas, principalmente minorias, como gays, negros e, mesmo, as próprias mulheres. Assim sendo, acrescento mais um aspecto: a baixa autoestima dos brasileiros como algo “natural”.

A riquíssima discussão, que este filme apresenta, “esclareceu” algo que eu buscava, entrevia, mas não encontrava: o viés explicativo de nossa cultura tão subserviente. Não sou um catedrático para desenvolver aqui um detalhado estudo de nossas raízes, daí que recorro mais à síntese e ao bom senso do leitor, principalmente o brasileiro que, por conviver com esta fenomenologia em seu dia a dia, mais facilmente compreenderá o que pretendo dizer.

Nossa história nos conta como foi “montada” a Terra Brasilis. A descoberta da Terra de Vera Cruz, como algo casual, foi uma farsa; começamos bem! Posteriormente, vieram os senhores de terras de sesmarias que tinham poder de vida e morte sobre seus “súditos”; longe de qualquer corte judiciária, tais senhores exerciam esse poder sem limites, sem escrúpulos. Nossa independência foi proclamada pelo filho do rei de Portugal e com, não só a aquiescência do mesmo, mas com sua recomendação. A escravatura foi abolida pela Princesa. Nossa república foi proclamada pelos amigos do Imperador, que foi carinhosamente deportado para Portugal. Finalmente, foi um caudilho que, se fazendo ditador, pôs ordem em nosso abusivo sistema trabalhista, impondo, inclusive, a obrigatoriedade de existência de sindicatos. Apenas uma pincelada.

Repare: nosso povo nunca se autodeterminou; sempre foi manipulado. Desenvolvemos a cultura do “deixa pra lá que isto não me diz respeito”, ou seja, criamo-nos ausentes consentidos de um processo politicamente controlado por alguns. Fazer piada de si mesmo – que é, ao fim e ao cabo, a tônica de tais programas humorísticos – é uma saída catártica para tanta humilhação, tamanha submissão. Fazer piada de si mesmo é reforçar esta ausência; é continuar negando a capacidade de ser agente do próprio processo histórico.

No dia em que tivermos um povo inteligente, com brio, tais “humoristas” não terão auditório. Até lá, se quisermos vir a ser tal povo, não podemos dar espaço a quem nos quer reforçar sentimentos de inferioridade, ridicularizando-nos, estupidificando-nos. Não é moralismo nem pundonor, mas devemos cultivar um mínimo de altivez, de autoconfiança… Com piadas inteligentes, por favor!

Dica de Raul Longo