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Humor: FMI propõe receita neoliberal para o Brasil

27 de outubro de 2013

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Só pode ser gozação. O novo relatório do Fundo Monetário Internacional defende que País não mude a meta de superávit fiscal e reduza gasto público para conter dívida pública bruta. A mesma receita que afundou a Europa.

Marcel Gomes, Carta Maior em 24/10/2013

Quando o ministro da Fazenda Guido Mantega fez uma defesa pública da política fiscal brasileira, na terça-feira, dia 22, não mirava exatamente no estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre desemprego entre jovens no Brasil e que, paralelamente, trazia críticas ao modo com o qual o governo maneja suas contas.

O alvo de Mantega, descobriu-se no dia seguinte, quarta-feira, dia 23, era o relatório anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado na data e com duras críticas à política fiscal. A equipe econômica já tinha conhecimento do estudo, que começou a ser produzido no primeiro semestre, após entrevistas de uma equipe do fundo com representantes do governo e do mercado.

Para o FMI, preocupa o fato de a dívida pública bruta ter subido nos últimos anos. O salto vem desde 2010, e ela alcançou a casa dos 60% do PIB.

“A política fiscal expansionista nos últimos anos interrompeu a década de declínio na dívida pública bruta. Revisões da meta de superávit primário e/ou ajustes associados, recorrente uso de financiamento excepcional e grandes operações fiscais fora do orçamento nos últimos anos têm aumentado a dívida pública bruta e contribuíram para enfraquecer a credibilidade da política fiscal”, diz o relatório.

O resultado, avaliam os técnicos do fundo, é aumento da desconfiança do investidor e, consequentemente, redução da perspectiva de crescimento da economia.

Críticas
Um das razões para o aumento da dívida bruta passa pelas operações de financiamento do Tesouro Nacional a bancos públicos, em especial para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), que usa os recursos para financiar projetos de clientes. Em 2012, o Tesouro repassou R$45 bilhões no BNDES. Em 2012, já foram injetados cerca de R$20 bilhões. Mas o governo prevê queda dessas transferências a partir deste ano, o que ajuda a reduzir a pressão sobre a dívida.

Os técnicos do fundo também se incomodam com “medidas excepcionais” para fechar as contas. Por exemplo, o uso do bônus de R$15 bilhões pago pelo consórcio vencedor do campo de Libra. O montante tem de ser depositado no Tesouro logo após a assinatura do contrato, em novembro. Isso ajudará a cumprir a meta de superávit primário de 2,3% do PIB neste ano.

O FMI, por fim, desaprova a redução desse mesmo superávit primário. No relatório de 2012, o fundo havia saudado o esforço do governo para manter a meta ao longo dos anos. Mas, na proposta orçamentária de 2014 enviada ao Congresso em agosto, a economia para pagar juros da dívida pública baixou de 2,3% para 2,1%, ou de R$111 bilhões para R$109,4 bilhões. Com isso, haverá margem maior para os gastos públicos.

Ideologia
O relatório, enfim, revela que a pauta ideológica do FMI segue a receita de sempre, mesmo diante da persistência da crise financeira internacional e até de mea culpa feito pelo próprio fundo acerca de propostas de arrocho apresentadas a economias estagnadas, como ocorreu em Portugal. O Brasil, não imune aos efeitos dessa mesma crise, deveria adotar a receita?

O próprio FMI admite que já há elevação dos dados de investimento no País. Vale lembrar, no relatório de 2012, seus técnicos destacaram a necessidade de se mudar o modelo de expansão baseado no consumo para algo sustentado no investimento. Parece claro que o governo brasileiro também aposta nessa estratégia, diante do atual contexto de Selic em alta, bilionários leilões de concessões e crédito à vontade para o BNDES.

Há consenso em Brasília de que é necessário ampliar o esforço para elevar ainda mais os investimentos no País e melhorar o nível de nossa combalida infraestrutura. Como fazer isso é que é a questão. Oferecer empréstimos às estatais sem contabilizar como despesa e, depois, receber lucros e dividendos como receita, com o objetivo de divulgar o cumprimento do superávit, é uma estratégia criativa que, na prática, pouco ajudou a estimular a confiança dos investidores. Há que se reconhecer isso.

A saída, portanto, parece ser enfrentar o receituário do FMI em suas bases – admitindo, por exemplo, que, em um ano de crise e/ou de baixo crescimento, há razões de sobra para que o superávit não seja cumprido. Nessa linha, é bem-vinda a redução da meta – ainda que pequena – para o próximo ano, proposta no novo orçamento. E Mantega terá ainda mais legitimidade para defender a política fiscal, como fez na semana passada.

Breno Altman: Neoconservadores são vanguarda liberal-fascista

8 de agosto de 2013

Nazistas06Breno Altman, recebido por e-mail

Não bastassem as investidas do astrólogo Olavo de Carvalho contra a esquerda, na semana que passou, a ele se juntou mais um rufião, o blogueiro Reinaldo Azevedo. Ambos têm, em comum, remoto passado de militância progressista e adesão à sarjeta das ideias mais obscurantistas. São a dupla dinâmica do neoconservadorismo brasileiro, em uma versão ainda mais tosca e enferma que a norte-americana.

Houve um tempo no qual os vira-casacas tinham higidez intelectual e sólida cultura. Carlos Lacerda e Paulo Francis, por exemplo, trocaram de lado sem capitularem ao charlatanismo. Mesmo quando ataram suas vidas ao pensamento de direita, seus cérebros não foram ofuscados pelo histrionismo tão próprio a bufões como o Batman e o Robin do reacionarismo pátrio.

Apesar de caricaturais, estes dois personagens colocaram em foco tema de interesse para uma discussão política relevante, ao reagirem com histeria e falso espanto ao termo liberal-fascismo. “Não se pode ser, a um só tempo, liberal e fascista”, vaticinou o escriba da ex-revista Veja. Supondo que a contestação seja de boa fé, a ignorância histórica não pode servir, porém, de álibi para eludir as características típicas de certo conservadorismo do pós-guerra.

O que foram as ditaduras militares da Argentina e do Chile, para citarmos dois casos notórios, que não uma fusão entre liberalismo econômico e fascismo político? Nas duas situações, a agenda da hegemonia do mercado foi imposta pelo terror de Estado. A repressão em grande escala, sufocando o movimento operário e os partidos progressistas, emergiu como instrumento para aplicar programa de privatização, desregulamentação e eliminação de direitos que destravassem a acumulação de capital.

Integrante de uma das mais poderosas famílias de proprietários de terras, José Alfredo Martínez de Hoz foi ministro da Economia no regime dos generais argentinos. Com o apoio do Fundo Monetário Internacional, adotou medidas prescritas pela corrente monetarista, célula-mater da alternativa liberal. Congelou salários, eliminou controle de preços, desvalorizou a moeda, proibiu sindicatos, cortou gastos públicos (salvo os militares), liberou a taxa de juros, desregulamentou bancos, colocou ativos do Estado à venda.

A euforia burguesa dos primeiros tempos, antes que o país entrasse em bancarrota, levou o período entre 1976 e 1980 a ser conhecido como plata dulce. Parcelas expressivas do empresariado e das camadas médias endinheiradas viviam à tripa-forra enquanto o sangue jorrava nas masmorras. Era o idílio do liberalismo sem limites e sem freios, tão ao gosto do homem-morcego e do garoto-prodígio, que apenas o fascismo poderia propiciar.

As evidências deste casamento são ainda mais cristalinas durante o processo chileno, no qual o liberal norte-americano Milton Friedman, principal apóstolo da Escola de Chicago, serviu de grão-conselheiro para o ditador Augusto Pinochet. A mão de ferro dos quartéis funcionava como pé de cabra para as forças do livre-mercado, derrubando o governo constitucional do presidente Salvador Allende e limando resistência à apoteose da liberdade de capitais.

Não faltaram, na Argentina e no Chile, movimentos de massa, respaldados pelas frações mais ricas da população, que ajudaram a erodir administrações eleitas nas urnas e criar o clima adequado ao gorilismo. Não é preciso dizer que até “Pátria e Libertad”, braço civil do fascismo chileno, pregava a derrubada de Allende em nome da democracia, da liberdade de imprensa e da luta contra o “totalitarismo comunista”. A propósito, como também ocorreu no Brasil, quando foi ceifado o governo João Goulart.

A grupos desse quilate também se juntaram vozes liberais mais moderadas, especialmente representadas por meios de comunicação (como o argentino “Clarín” e o chileno “El Mercurio”) e partidos tradicionais das classes abonadas. O fascismo se transformou, com facilidade, na janela de oportunidade para o liberalismo se impor como modelo de economia e sociedade.

Uma olhada a fatos mais recentes permite reconhecer o mesmo fenômeno no fracassado golpe de Estado contra Hugo Chávez, na Venezuela, em 2002. Uma ampla frente conservadora foi chefiada por grupos fascistas, com agenda liberal, em sublevação que levou à ruptura da ordem constitucional e pretendia enterrar, pelas armas, o projeto de caráter socialista.

Esta não é, contudo, apenas uma questão histórica. Diz respeito à atualidade da vida política brasileira. Podem ser identificadas, no lamaçal de opiniões e condutas que lhe são próprias, três tendências fundamentais no campo de direita.

A primeira delas, alcunhada de social-liberalismo pelo sociólogo José Guilherme Merquior, foi hegemônica durante os anos noventa e no governo de Fernando Henrique Cardoso. Associava ao programa privatista um conjunto de medidas compensatórias que, timidamente, buscavam minimizar as consequências brutais de sua política econômica sobre as camadas populares.

A segunda delas, o conservadorismo, foi coadjuvante da primeira durante a gestão tucana. Representante das oligarquias regionais e dos setores menos dinâmicos do capitalismo, sempre ofereceu resistência à modernização do Estado, à democratização das instituições e à ampliação dos direitos econômico-sociais. Seus porta-vozes, então partidariamente concentrados no antigo PFL, além de presentes em fatias do PMDB e agremiações menores, costumeiramente são defensores de uma visão mais clássica do liberalismo e a combinam com um forte viés repressivo contra as lutas sociais.

A terceira destas tendências é o liberal-fascismo. Excluída do bloco de poder no ciclo anterior às administrações petistas, ganhou paulatina relevância nos últimos dez anos. Apesar de seu caráter extraparlamentar, seus expoentes têm relevante espaço em veículos de imprensa e passaram a influenciar gradativamente o discurso do conjunto da oposição de direita ao PT.

A existência de um governo de esquerda, afinal, por si só já é ingrediente favorável à polarização, provocando relativa dispersão entre os grupos mais centristas. Mas o fator preponderante talvez seja a potente implantação de programas distributivistas, associada a medidas econômicas que incorporaram dezenas de milhões ao mercado interno e aceleraram o crescimento da economia. O aumento de renda e emprego acabou por retirar do social-liberalismo tanto audiência para sua narrativa híbrida quanto pujança para comandar as fileiras antipetistas.

O esfarelamento dos sociais-liberais libertou os conservadores de sua órbita e abriu flanco para abordagem cada vez mais reacionária, capitaneada desde fora do sistema partidário pelas trincheiras do liberal-fascismo na mídia e na sociedade. A campanha de José Serra, no segundo turno de 2010, é ilustrativa dessa guinada, ao incorporar as bandeiras mais retrógadas do portfólio direitista.

Este núcleo liberal-fascista ganhou o reforço do fundamentalismo religioso, adensando a retórica pró-mercado e de criminalização da esquerda com o preconceito racial e social, o ódio contra a liberdade sexual e o ataque à laicidade do Estado. Seu desenvolvimento foi facilitado pela debilidade do governo e da esquerda em travar o embate de valores contra a direita, no bojo de uma estratégia de mudanças paulatinas sem confronto e ruptura.

O componente estrutural desta fraqueza são os monopólios de comunicação, que não reproduzem a pluralidade real do país e garantem plataformas para a incidência dessas linhagens reacionárias que vai muito além de sua representatividade eleitoral ou capilaridade social.

O objetivo tático imediato do liberal-fascismo, por razão de força e aliança, não parecer ser a queda do governo progressista, mas submetê-lo a uma guerra de desgaste e mobilização, unificando particularmente as camadas médias das cidades mais importantes e forjando um bloco com o conservadorismo, que acabe por arrastar os cacos do social-liberalismo.

Um símbolo relevante dessa confluência é a decisão de fazer ressurgir das cinzas o ex-jornalista Augusto Nunes, outro trânsfuga a serviço do liberal-fascismo, e nomeá-lo âncora do “Roda Viva”, um programa abrigado pela TV Cultura, de propriedade do governo paulista. Revela-se, assim, nítida aproximação entre o PSDB de Geraldo Alkmin, inspirado pelo radicalismo católico e vértice da articulação conservadora, e os agrupamentos mais extremos do reacionarismo.

Os liberais-fascistas podem até flertar com alguma candidatura cesarista, como seria a de Joaquim Barbosa. Sua intenção fundamental, no entanto, é pautar a agenda da direita, qualquer que seja o nome capaz de concorrer, em 2014, contra Dilma Rousseff. Não constituem um projeto de poder a curto ou médio prazo, mas querem batizar e influenciar a alternativa contra o PT.

Um dos motivos para a esquerda reanimar a batalha de ideias e valores contra o liberal-fascismo, portanto, é porque essa corrente expressa, de forma mais clara e vanguardista, o discurso de identidade e crítica da oposição. A verdade é que este pensamento precisa ser derrotado para que certos grilhões do atraso sejam rompidos.

O liberal-fascismo, além do mais, colocam permanentemente em risco a democracia. Seus áulicos são os galinhas-verdes de nosso tempo. Precisam ser combatidos como o foram seus antepassados integralistas. Nas urnas e nas ruas. A falsa retórica da liberdade não escamoteia sua natureza autoritária e golpista, própria de quem espelha a face mais feroz e antipopular da oligarquia. Mesmo que os rostos no espelho sejam de personagens bizarros e medíocres.

Breno Altman é jornalista, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

Por que a Suécia está em chamas

28 de maio de 2013

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Sete anos de governos de direita desfizeram o sonho de um país justo e aberto. Desigualdade e violência policial crescentes atiçaram revolta dos imigrantes.

Tom Peck, no The Independent, e lido no Outras Palavras

A partir do instante em que Henrik Sedin controlou o puck, ainda bem atrás no próprio meio-campo, começou uma noite terrível em Estocolmo. Faltava pouco para as 22 horas de domingo, dia 26, quando o time de superstars milionários conseguiu enfiar o puck no fundo da rede vazia do adversário: 5-1. Pela primeira vez em sete anos, e em casa, frente à própria torcida, a equipe sueca era campeã mundial de hóquei sobre o gelo.

O Ericsson Dome, na parte sul da cidade, foi ao delírio. Nos pubs irlandeses, nos elegantes quarteirões de Södermalm, rolaram rios de pints de cerveja Guinness.

Mas em Husby, subúrbio no norte da cidade, distante do centro, região superpopulosa onde vivem imigrantes, começava uma conflagração, em tudo diferente do que se via entre os suecos brancos ricos. Um shopping center foi vandalizado e uma garagem incendiada, o que causou a evacuação dos moradores de um bloco de apartamentos. Quando a polícia chegou, foi recebida a pedradas por mascarados; dois policiais foram feridos. Num vídeo que chocou o país, um terceiro policial caído aparece sendo espancado e chutado; os agressores chutaram também a pistola que se vê no coldre do policial.

Quando o dia clareou, havia mais de cem carros incendiados; e quando os jogadores campeões erguiam a taça, em confraternização com o rei Carl 16 Gustaf no Kungsträdgården, à vista de 20 mil fãs, a Suécia já entrara na primeira manhã dos piores tumultos urbanos de toda a moderna história do país, que continuam.

Centenas de carros e dúzias de prédios foram incendiados, e há mais de 100 presos. Imagens dos policiais feridos e prédios em chamas, na rica, pacífica e igualitária Suécia, surpreenderam o mundo. Mas, para outros muitos, não foi surpresa. Há anos os sindicatos, trabalhadores dos serviços sociais, cientistas políticos, rappers, em confronto com número crescente de extremistas de direita, já contam o Conto das Duas Estocolmos – duas sociedades que coexistem numa mesma cidade dividida e não integrada. Mas nunca se vira oposição e contraste tão declarados quanto naquela primeira noite de fogo nas periferias, que sitiaram a festa do hóquei sobre o gelo do centro.

Para quem estava em Londres há dois anos, os tumultos em Estocolmo são assustadoramente familiares. Há duas semanas, começaram a circular notícias da morte de um imigrante português, 68 anos, atacado pela polícia dentro do apartamento onde morava em Husby, depois levado ao hospital, onde morreu. Ele teria sequestrado uma mulher, refém no apartamento, e teria recebido os policiais com um cutelo de açougueiro na mão.

Mas Megafonen, grupo que milita por mudanças sociais nos subúrbios de Estocolmo publicou fotos de um saco do tipo que a Polícia usa para remoção de cadáveres sendo retirado do mesmo apartamento, num carro que parte em seguida. Não uma ambulância: um carro. Mais tarde se soube que a dita “refém” era, de fato, o cadáver da mulher do imigrante português, de 30 anos. Segundo seu cunhado, o homem tinha na mão uma faca de cozinha, não um cutelo de açougueiro; e que tentava defender-se contra uma gangue de mascarados que dias antes perseguira ele e sua mulher. Quando a Polícia bateu à porta do apartamento, a mulher contara ao cunhado, o marido supôs que fossem os mascarados da gangue que os seguia; gritou para assustá-los, talvez um pouco assustadoramente demais; e foi morto a tiros pela polícia.

Ativistas de esquerda, alvo preferencial, hoje, da Polícia sueca, que os acusa de insuflar os tumultos de rua, dizem que quando essa versão dos eventos chegou aos subúrbios, ajudou a incendiar quatro anos de ressentimento contra a brutalidade policial – queixa já antiga e muito repetida nos subúrbios, onde já praticamente não se veem suecos brancos – e contra o desemprego alto e crescente, a sempre crescente desigualdade, a falta de oportunidades para todos.

Mas, dessa vez, os tumultos espalharam-se pela cidade, também para os subúrbios a oeste e ao sul de Estocolmo e para outras cidades – Malmö, Gothenburg, Örebro – onde escolas, restaurantes e delegacias de Polícia foram incendiadas. É difícil determinar as motivações originais. Mas, o que quer que fosse, na origem, o movimento já está hoje invadido por gangues de rua, pequenos delinquentes, ou grupos de mascarados que, simplesmente, tomaram conta dos bairros mais pobres. Parece que há algo de podre no estado sueco.

A escala dos tumultos não se compara ao que se viu em Paris em 2005 ou em Londres há dois anos, onde aconteceram em áreas distantes do centro das capitais. Na Suécia não houve mortos e houve baixo número de feridos. O pequeno subúrbio de Husby é local agradável de viver, construído para suecos ricos – que já não vivem ali. Nem de longe se parece com o conjunto habitacional Broadwater Farm, de Tottenham, marco zero dos tumultos em Londres.

Hoje, 80% dos que vivem em Husby, Estocolmo, são imigrantes, a maior parte dos quais ali chegaram como refugiados, escapados dos mais diferentes cantos do mundo em guerra – Iraque, Irã, Afeganistão, Somália, Curdistão e, mais recentemente, da Síria – atraídos pela propagada hospitalidade com que os suecos recebem refugiados. Mas o desemprego entre os jovens é alto, pelo menos para os padrões suecos: 6%.

“Estão dizendo que é por causa daquele homem que foi morto”, disse Sadiya, 13 anos, somaliana, que faz um curso de arte e artesanato no centro de Husby. “Acho que querem chamar a atenção da Polícia. O pessoal que está fazendo essas coisas é pouco mais velho que eu. Por que se preocupariam com o desemprego? São crianças.”

Na parte externa do centro onde são dados os cursos, durante o dia, mesmo no auge dos tumultos, a vida prosseguiu praticamente normal. As floristas continuaram a vender suas flores, fileiras de pequenos vasos plantados, alinhados na parte externa da loja. Os prédios de apartamentos, todos de média altura, têm jardins externos, bem cuidados. Mas todos os vidros da estação do metrô estão quebrados. As paredes que protegiam um telefone público foram destruídas. Restou o telefone, preso a um poste, no centro do que parece ser uma piscina de vidros quebrados. Na rua, um ônibus articulado foi explodido e incendiado. Há fragmentos de metal e vidro por todos os lados. Os carros incendiados já foram diligentemente removidos pelas autoridades, mas a coisa aqui parece grande demais. Uma colega de Sadiya, Sagal, diz que ninguém ali consegue dormir já há três noites.

Todas as crianças que assistem às aulas, cerca de 25, nasceram na Suécia, mas só uma é filha de pais suecos. Todas as demais são filhas de pais africanos do leste ou do meio-leste da África.

“É difícil para nós”, diz Ann-Sofie Ericson, diretora da Escola de Artes da Cidade de Estocolmo que supervisiona a área. “19% de nossas crianças abandonam a escola a cada ano. Vivo a 15 minutos de carro daqui. Meus vizinhos são iraquianos. Quando as pessoas chegam, vêm para bairros como Husby. Alguns arranjarão emprego, educação, depois se mudam. Alguns não conseguem sair.”

Quase não há pobreza absoluta, mas não é a pobreza absoluta que alimenta os tumultos e levantes urbanos. A sociedade sueca, afamada por ser igualitária, com oferta excepcional de bem-estar para todos, foi construída por 40 anos de governo da democracia social, dos anos de 1930 aos anos de 1970. Mas um crash econômico no início dos anos 90, e o governo de centro-direita que está no poder desde 2006 impuseram inúmeras restrições ao estado de bem-estar, apesar das condições econômicas relativamente benignas.

Estudo recente da OECD revelou que a Suécia tem o mais rápido crescimento da desigualdade dos 34 países do grupo – e surpreendeu muita gente. Por isso, foi muitíssimo citado ao longo da semana que passou.

Como vários lembraram, os tumultos urbanos em Londres brotaram ao final de 30 anos de economia neoliberal da linha thatcheriana e da “terceira via” – com furiosa desregulamentação das finanças justificada pela ideia de que pouco importava aumentar a desigualdade social, se as condições dos mais ricos continuassem a melhorar.

O que se vê na Suécia é que a desigualdade crescente está gerando indignação e fúria também crescentes.

Em Husby, quando cai a noite – que em maio dura pouco mais de quatro horas –, grupos de jovens reúnem-se no centro, todos usando calças e camisetas largas. “Acho que tenho até sorte, por estar na Europa” – diz Baraar Mohamed, filho de somalianos, 15 anos, cujos pais garantem que não jogou pedras nem incendiou coisa alguma. – “Comparado ao pessoal na Somália, talvez seja sorte. Mas não fiz nada, nem ando com eles, e vivo aqui, e tenho de conviver com a brutalidade da Polícia, e não tenho a mesma sorte que outros suecos da minha idade. Eu sou sueco. Sou sueco.”

Ken Ring, rapper sueco de origem queniana, que cresceu e ainda vive no subúrbio de Valingby, onde grupos de jovens apedrejaram vagões do metrô e incendiaram carros na 5ª-feira à noite, concorda.

“Nunca estive em lugar algum, do mundo, onde as pessoas saibam o que é a realidade de viver na Suécia” – diz ele. “Quando veem fotos dos nossos subúrbios, dizem ‘não, não é Estocolmo. Deve ser Londres, Marselha.’ Estocolmo é hoje uma loucura…”

Hoje com 34 anos, Ring foi nome bastante conhecido nos anos de 1990, quando foi preso depois de gravar um rap em que falava de invadir o Castelo Real e estuprar a princesa Madeleine, terceira na linha de sucessão ao trono, e que se casaria em duas semanas. Por causa do casamento, havia mobilização policial extra. Mas, depois, se reabilitou. “Onde moro vejo crianças de 14, 15 anos usando heroína. Tenho um filho de 12. Há dois anos, outra criança apontou uma arma para a cabeça de meu filho e disse ‘olhe só, você, assim, fica mais fraco que eu’. É a Suécia hoje. E não era para ser assim.”

Não era. O herói do dia, surgido dos tumultos de rua, é um bombeiro, Mattias Lassen, atingido por pedradas quando tentava apagar o fogo em casas próximas de Husby, e que, depois, publicou uma carta aberta aos que o apedrejaram pelo Facebook.

“Podem me chamar, se seu pai bater o carro e precisar de ajuda. Posso ajudar sua irmã, se a cozinha dela pegar fogo. E nado na água gelada, para salvar seu irmão pequeno, se ele cair do bote”, escreveu ele. “Também posso ajudar sua avó, se ela tiver um infarto. E posso até ajudar você, se acontecer de você pisar em gelo fino no lago, num ensolarado dia de março.”

A maré de insatisfação cresce dos dois lados. Nas eleições gerais de 2010, o Partido Sueco Democrático – que faz campanha contra os imigrantes, regularmente descrito como partido de extrema-direita – ultrapassou pela primeira vez a cláusula de barreira dos 4% de votos. Elegeu 20 deputados, para o Parlamento, de 349 cadeiras.

Na sexta-feira, dia 24, à noite, com número extra de policiais nas ruas de Estocolmo, onde as coisas estavam comparativamente mais calmas, graves tumultos irromperam em Örebro, a quase 200 quilômetros a leste da capital; e em Tumba, no sul do país. Pela primeira vez, grupos de “vigilantes” de extrema-direita tomaram as ruas, depois de postar fotos de membros do grupo, com rostos mascarados. Em Tumba, a polícia prendeu 18 deles. A polícia também está à caça de “uma pequena claque de agitadores profissionais de esquerda”, acusados de estarem viajando de cidade em cidade, usando carros particulares, disseminando táticas que conhecem bem, como destruir calçadas para soltar as pedras, e provocando agitação por onde passam.

A grande maioria dos presos durante os primeiros dias de tumultos de rua já foi libertada. O primeiro a comparecer ante o juiz foi um arrependido e trêmulo jovem de 18 anos. “Nunca deveria ter-me juntado a eles” – disse ele. – “Queria ser bombeiro. Agora, acho que nunca conseguirei.”

Ontem, em Åkersberga, 60 quilômetros ao norte do centro de Estocolmo, ainda havia incêndios de carros à luz do dia, com a Polícia perseguindo grupos suspeitos, em helicópteros. Ken Ring, embora condene firmemente a violência geral, ainda tem esperanças. “Essas coisas ajudam a chamar a atenção. Os jornais falam, as televisões mostram. O governo não poderá deixar de ver o que está acontecendo.”

Depois que acabarem os incêndios provocados, com os ativistas de esquerda, os extremistas da direita fascista e os imigrados irados já julgados em tribunais justos, talvez, então, sim, o mundo perceba o que muitos suecos já perceberam: desde os anos neoliberais, as coisas na Suécia já não são o que parecem.

Tradução: Vila Vudu

Dilma, a inflação e os neoliberais

9 de abril de 2013

João Sicsú, via CartaCapital

O balanço da atuação dos governos Lula e Dilma em relação ao quesito “manter a inflação sob controle” é positivo. Somente em 2003, a inflação ficou fora da meta estabelecida. Os governos do PT foram bem-sucedidos em 9 dos 10 anos que governaram o País até o momento.

O Brasil adotou o regime de metas para a inflação em meados de 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. A inflação estourou a meta nos anos 2001 e 2002. O regime implantado em 1999 era muito simples: o Banco Central (BC) seria o único organismo responsável por manter a inflação sob controle, teria somente esse mandato e também um único instrumento anti-inflacionário, a taxa de juro básica da economia.

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Tal regime era parte do receituário neoliberal cujas fórmulas são sempre simples e aparentemente neutras. O regime de metas brasileiro mostrou que precisava sofrer adaptações. A experiência internacional e brasileira revelaram que a inflação é um fenômeno complexo, de causas variadas. O regime de metas, em sua configuração original, apontava como causa da inflação o crescimento econômico que geraria excesso de demanda e pressão sobre os preços. Nesse sentido, tinha como regra que o BC deveria “tocar um samba de uma nota só”: quando existisse algum tipo de pressão inflacionária a taxa de juros deveria ser aumentada imediatamente.

É preciso que seja dito claramente: a elevação da taxa de juro desaquece a economia, gera desemprego e, por último, adormece a inflação. Em 27 de março de 2013, a presidente Dilma afirmou que não é uma entusiasta dessas políticas: “[…] não concordo com políticas de combate à inflação que ‘olhem’ a questão do crescimento econômico, até porque temos uma contraprova dada pela realidade: tivemos um baixo crescimento no ano passado e um aumento da inflação, porque houve um choque de oferta devido à crise e fatores externos”.

Utilizar somente a elevação da taxa de juro como instrumento anti-inflacionário obriga o Banco Central a utilizar o remédio em doses cavalares o que mata a inflação e, também, a economia real: a inflação é reduzida e com ela milhares de trabalhadores são jogados no desemprego. Complementou a presidente: “Esse receituário que quer matar o doente antes de curar a doença é complicado. Eu vou acabar com o crescimento do País? Isso daí está datado. É uma política superada.”

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Como a elevação de preços tem diversas causas, o combate a inflação não pode se restringir a utilização de um único instrumento, a taxa de juros, que possui um perverso efeito colateral. A inflação pode ser combatida, dentre outras maneiras, com a redução de tributos (p.ex. os impostos sobre os bens da cesta básica), com estímulos à produtividade (p.ex. qualificando a mão de obra) e com a redução de custos de produção (p.ex. diminuindo as tarifas de energia elétrica).

A independência ou autonomia do Banco Central, que torna exclusiva a responsabilidade pelo controle da inflação, representa também o atraso, o passado. Época em que os fenômenos reais, sociais ou monetários eram analisados por uma única ótica. Os fenômenos econômicos são todos fenômenos sociais que merecem um acompanhamento interdisciplinar e interministerial: um acompanhamento de todo o governo, inclusive da Presidência.

É fato que o Brasil não precisa ter uma taxa de juro elevada para ter uma inflação controlada. Isto foi provado nos últimos anos: houve queda da taxa de juro básica (a taxa Selic) e controle inflacionário. O Brasil também não precisa gerar desemprego e reduzir a massa salarial para ter preços bem comportados. Nos últimos tempos, empregos e salários subiram.

Neoliberais rejeitam a política bem-sucedida de controle da inflação dos governos Lula e Dilma. Para eles, sempre é melhor uma taxa de juro maior do que uma taxa menor. Aqui neoliberais revelam de que lado eles estão: com juros elevados, trabalhadores ganham o desemprego e banqueiros, mais rendimentos e lucros. Nesse jogo há perdedores e ganhadores. Não há a neutralidade das políticas anti-inflacionárias decantadas por neoliberais.

Para camuflar de que lado estão, ensaiam sempre o seguinte argumento: “Quem mais perde com a inflação são os pobres que não podem proteger seus parcos recursos no sistema financeiro”. É verdade, mas é igualmente verdade que a experiência tem mostrado que usar a taxa de juro com parcimônia pode auxiliar a manter a inflação sob controle, além de não provocar desaquecimento econômico e desemprego relevantes.

Por último, cabe ser destacado que essa sensibilização com a vida dos pobres não combina com o DNA dos neoliberais brasileiros. O que eles querem de fato são juros maiores, mais rentismo e lucros financeiros.

João Sicsú é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do Ipea entre 2007 e 2011.

Política neoliberal: “A saída é frear a economia. É demitir mesmo.”

26 de março de 2013

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A frase acima é do economista Alexandre Schwartsman (esq.), ex-diretor do Banco Central e um dos pit bulls do sistema financeiro na defesa dos juros altos. Assim como ele, Ilan Goldfajn (dir.), economista-chefe do Itaú Unibanco, também defende, abertamente, mais desemprego para conter a inflação: “Não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos”, diz. Será que existe o risco de que esse discurso seja ouvido em Brasília?

Via Brasil 247

Os pit bulls do sistema financeiro estão nervosos. Enfurecidos. Exigem, de qualquer maneira, uma ração maior de juros, que poderá trazer, como resultado imediato, aumento do desemprego. E já nem fazem mais questão de esconder seus propósitos. Pedem, abertamente, a demissão de trabalhadores, como forma de reduzir o consumo e tentar fazer arrefecer a inflação.

Um desses personagens é Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, que depois teve curta passagem como economista-chefe do Santander, onde nem mesmo os espanhóis conseguiram administrar seus excessos verbais. Schwartsman exige demissões já. “A saída é frear a economia”, afirma. “É demitir mesmo”, completa, sem deixar claro se essa recomendação valeria para ele ou para pessoas próximas.

Mais contido na forma, mas não no conteúdo, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, que também passou pelo BC, adota o mesmo discurso. “A inflação não cai num passe de mágica. Não cai porque o Banco Central resolve falar mais duro. Cai com o encontro do crescimento da oferta com o crescimento da demanda. É preciso fazer escolhas. Não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos”, diz ele, repetindo uma frase da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello.

A posição desses dois economistas, no entanto, é questionada pelo ex-ministro Delfim Netto, um dos mais próximos conselheiros da presidente Dilma Rousseff. “A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses gênios é fazer com que ela volte a usar sabão de coco aumentando os juros”, afirma.

Em Brasília, até agora, tem prevalecido uma outra estratégia de política econômica. Com a redução dos juros, o governo federal, que é o maior devedor da economia, passa a ter uma folga fiscal, que permite desonerar vários setores da economia. Graças a isso, foram reduzidos impostos incidentes sobre a cesta básica e também reduzidas as tarifas de energia.

De todo modo, o latido dos pit bulls para que o Banco Central adote o remédio antigo de alta dos juros é cada vez mais forte.


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