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Leandro Fortes: Em Goiás, os arapongas se bicam

18 de maio de 2013
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A pedido de Cachoeira, Disanto (esq.) faz a contra-arapongagem na arapongagem do governo Perillo. Tutti buona gente.

Em Goiás, a espionagem cruzada entre a turma de Marconi Perillo e o grupo de Carlos Cachoeira.

Leandro Fortes, via CartaCapital e lido no Diário do Goiás

A central de grampos montada para beneficiar o governador de Goiás, Marconi Perillo, revelado há um mês por CartaCapital, não é a única ação clandestina em funcionamento no estado. A arapongagem tornou-se tão comum em terras goianas que ninguém mais sabe quem está a serviço de quem. Trata-se de prova inequívoca da existência de um novo modelo de delinquência, o crime desorganizado. As evidências constam de uma nova troca de mensagens descobertas na esteira das investigações do escândalo: o esquema montado pelos radialistas Luiz Gama e Eni Aquino, com o apoio crucial do hacker conhecido como “Mr. Magoo”, foi descoberto por espiões a serviço do bicheiro Carlos Cachoeira. Resultado: os grampeadores Gama e Aquino acabaram grampeados.

A tramoia nonsense pode ser acompanhada pelas mensagens diretas de Twitter e de e-mail vazadas por “Mr. Magoo”. Tudo começa em setembro de 2012, quando arapongas ligados a um empresário italiano radicado em Goiânia, Nazir Ângelo Disanto, amigo de Cachoeira, ao descobrir o esquema, cobram explicações dos radialistas.

Antes, um breve histórico. Em junho do ano passado, em sessão na CPI do Cachoeira, Perillo respondeu a uma pergunta do deputado federal carioca Miro Teixeira. O parlamentar queria saber se o governador conhecia Disanto. “Não”, foi a resposta. Estranho. O grupo Perlatenda, do italiano, fornece equipamentos médicos para o Hospital de Urgências de Goiânia, administrado pela Organização das Voluntárias de Goiás, entidade presidida pela primeira-dama Valéria Perillo. Além disso, Disanto é sócio de Cachoeira e do empresário Walter Paulo Santiago no Jóquei Clube de Goiânia. Santiago, dono da Faculdade Padrão, intermediou a venda de uma casa do governador para Cachoeira (a mesma onde o bicheiro foi preso pela Polícia Federal em fevereiro do ano passado). Fica difícil imaginar que os dois não se conhecessem, ao menos de vista. A capital de Goiás não chega a ser uma metrópole e contam-se nos dedos os eventos sociais frequentados pela “elite” local.

“O Exmo. Governador tem o dever de em primeiro lugar cuidar do estado. Não precisava desgastar-se por um simples e humilde ignoto. Aprendi um ditado no Brasil: Manda quem tem poder, obedece quem tem juízo”, escreveu de forma enigmática o empresário italiano, no mesmo dia, em sua conta no Twitter.

Acusado de comercializar ilegalmente aparelhos de grampo, Disanto é velho conhecido da Polícia Federal. Ele é citado em várias conversas de Cachoeira interceptadas durante a Operação Monte Carlo. Em um dos diálogos captados, em 20 de maio de 2011, entre o vereador de Goiânia Santana Gomes (PMDB) e Cachoeira, o italiano é descrito como personagem influente no governo goiano. Teria sido, por exemplo, responsável pela nomeação de João Furtado, então secretário estadual de Segurança Pública e hoje chefe de gabinete de Perillo. Gomes garantiu ao bicheiro: o empresário havia doado R$8 milhões para a campanha do tucano em 2010. Aparentemente, Disanto não sabia da existência de outra central clandestina de grampos no estado. Os dois esquemas se cruzaram por acaso, em setembro de 2012, quando um hacker a serviço do empresário percebeu uma tentativa de invasão de seu perfil no Twitter. Era “Mr. Magoo”, de olho em uma encomenda de Gama e Aquino: recolher o máximo de informações de um certo @Opoltico.

Em 20 de outubro, Gama iniciou uma troca desesperada de mensagens com “Mr. Magoo” a respeito. Dias antes, ele recebera por e-mail um pacote completo de suas mensagens reservadas trocadas com o hacker, sinal de que alguém havia invadido seus computadores e roubado todas as informações sobre o funcionamento da central de grampos montada para beneficiar Perillo. Segundo Gama, as mensagens lhe foram repassadas por alguém chamado Joaquim, servidor do Palácio das Esmeraldas supostamente responsável pela manutenção dos notebooks do gabinete do governador. A fonte original das informações, contudo, era outro hacker, o cinegrafista Luiz Cláudio Cavalcante, conhecido no Twitter pelo perfil @Opoltico.

Cavalcante é funcionário da Agência Goiana de Comunicação, órgão responsável pelos pagamentos iniciais da central de grampos, de acordo com diversas mensagens trocadas entre Gama, Aquino e “Mr. Magoo”. Recentemente, foi cedido à emissora de tevê da Assembleia Legislativa de Goiás. Ocupa ainda o cargo de assessor do vereador Paulo Magalhães, do PV de Goiânia. Segundo Gama afirma em suas mensagens, o verdadeiro ofício de @Opoltico é atuar como hacker a serviço de Disanto, a quem o radialista costuma chamar de “israelita rei da espionagem” (ele confunde a nacionalidade do empresário).

“Esse Luiz [Cláudio Cavalcante, @Opoltico] é amigão do Dr. Nazir”, explica Gama a “Mr. Magoo”. “Esse Nazir é de Israel e tem equipamento até do inferno. Ele contrata os melhores hackers do Brasil, sempre”, completa o radialista, em seu estilo inconfundível. Em seguida, pede a “Mr. Magoo” a invasão do perfil @Opoltico e a busca de informações sobre o real conhecimento de Cavalcante a respeito do esquema. Solicita adicionalmente um grampo no telefone de Joaquim, o servidor público. “Tem alguma coisa errada! O Joaquim está recebendo todas as DMs (Direct Messages do Twitter) que você fala comigo. Aí é brincadeira!”, revolta-se o grampeador grampeado.

O esquema de Gama havia sido descoberto pela turma de Disanto no feriado de 7 de setembro. Pelo Twitter, @Opoltico pediu ao radialista, em tom de ironia, para o “competente Mr. Magoo” deixá-lo em paz. Segundo Cavalcante, apenas naquele dia o hacker da grampolândia de Perillo havia tentado invadir seu perfil 12 vezes. “Ai, que canseira, viu?”, lamenta-se o cinegrafista em uma das mensagens.

Pego de surpresa, Gama tentou desmentir. “Deve ser outra galera que está tentando te invadir”, mente, na troca de mensagens com Cavalcante. “A nossa turma fez curso com os caras da PF. Serviço de inteligência agora tá 10”, justifica-se. O araponga de Disanto não se faz de rogado e ignora a desculpa do radialista. “Vi um e-mail com nomes. E lá constava meu perfil”, esclarece, antes de se despedir.

Preocupado com a possibilidade de vazamento das mensagens hackeadas por Cavalcante, Gama e Aquino montaram uma salvaguarda de fachada. No início de novembro, o radialista grampeador ensaiou uma queixa na Polícia Civil de Goiás: reclamou de um suposto grampo contra ele. Nada foi apurado, claro. A Secretaria de Segurança estava sob o comando do delegado Joaquim Mesquita, ex-superintendente da Polícia Federal em Goiás. O fato parece ter redobrado o ânimo da equipe de arapongas de Perillo.

Deduz-se, por várias mensagens trocadas entre o casal e Mr. Magoo, que a chegada de Mesquita ao governo, em outubro de 2012, deu à grampolândia um suporte institucional poderoso. Em uma conversa com o hacker, no fim de outubro, Aquino afirma ter ordenado à polícia goiana uma investigação dos suspeitos de terem invadido e vazado informações do computador pessoal do marido, entre eles um assessor de Perillo, Elaino Garcia. “Agora ficou mais fácil, é só eu colocar a polícia para quebrar o sigilo telefônico”, avisa a radialista, por e-mail, a Mr. Magoo.

Na Assembleia Legislativa de Goiás, a iniciativa do deputado petista Mauro Rubem de instalar uma CPI para apurar os grampos foi atropelada pelos governistas, maioria absoluta no Parlamento goiano. Um aliado de Perillo, o deputado tucano Marcos Martins, ex-diretor da Polícia Civil do Estado, adiantou-se e protocolou antes o pedido de instalação da comissão. Martins chegou a ser mencionado no relatório final da Operação Monte Carlo. Seria um dos delegados a soldo de Cachoeira em Goiás. Ou seja, a CPI vai sair, mas totalmente controlada pelo governador e por um grupo interessado em enterrar a investigação.

Cavalcante não atendeu aos pedidos de entrevista. Nem o empresário Disanto.

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Leandro Fortes: Tucano Perillo está envolvido em arapongagem

Íntegra da matéria de Leandro Fortes, na CartaCapital: Tucano Perillo está envolvido em arapongagem

28 de abril de 2013

CartaCapital_Marconi_PerilloO Limpinho reproduz a íntegra da matéria do repórter Leandro Fortes, para CartaCapital, em que ele denuncia um esquema de espionagem de políticos e jornalistas, orquestrado pelo governo do tucano Marconi Perillo, em Goiás.

Durante duas semanas, Fortes teve acesso a e-mails e DMs (direct messages enviadas pelo Twitter) entre o cracker, conhecido como Mr. Magoo, e o publicitário Gercycley Batista. “Separei essas mensagens por dia, hora e tema, para criar o mínimo de linearidade. Tive acesso digital à informação, que desde quinta-feira [25/4] é pública, porque foi entregue ao Ministério Público Federal. Recebi a informação por uma fonte de Goiás, apurei, cruzei os dados e verifiquei que eram idôneos”, afirmou o repórter.

De Marconi Pirillo a Mister Magoo

Leandro Fortes, de Goiânia

Mister Magoo, o simpático personagem de desenho animado criado nos Estados Unidos em 1949, é um velhote que se mete em enormes confusões por ser praticamente cego. E aparece aqui neste texto na cota de humor de um enredo de espionagem e ilegalidades de desenhado e comandado de gabinetes do Palácio das Esmeraldas, sede do governo de Goiás, e sob as ordens do governador Marconi Perillo. “Mister Magoo” é o codinome de um hacker, cuja identidade está prestes a ser desvendada pelo Ministério Público Federal, contratado para operar um rede ilegal de grampos telefônicos, criar perfis falsos na internet e invadir a privacidade de dezenas de adversários e até aliados de Perillo. O contato com o hacker era intermediado por um casal de radialistas de Goiânia, Luiz Gama e Eni Aquino.

Em 2011 e 2012, “Mister Magoo”, dono de uma “visão cibernética” invejável, ao contrário do personagem do desenho, serviu ao esquema com grande eficiência. A partir das encomendas de Gama e Aquino por e-mails e mensagens diretas via Twitter, o hacker montou um fenomenal arquivo de informações retiradas de computadores invadidos e telefones celulares grampeados. Pelos serviços, recebia de R$500,00 a R$47 mil, a depender da complexidade do trabalho e do alvo em questão. O dinheiro saía de duas fontes antes de passar pelas mãos do casal de radialistas, segundo documentos obtidos por CartaCapital. No início, o responsável pelos pagamentos era o jornalista José Luiz Bittencourt, ex-presidente da Agência Goiana de Comunicação. Na fase seguinte, a operação passou a ser de responsabilidade de Sérgio Cardoso, cunhado de Perillo, atual secretário estadual extraordinário de Articulação Política.

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Além da participação do governador e de assessores diretos no esquema de grampo e invasão de perfis na rede mundial de computadores, a troca de mensagens dos radialistas com “Mister Magoo” revela que o governo de Goiás seria utilizado de hackers oriundos de São Paulo e Minas Gerais. O radialista sustenta ainda que parte desse serviço importado chegou ao estado por meio de um contrato firmado com a SMP&B, agência de publicidade que pertenceu a Marcos Valério de Souza, figura central dos escândalos dos “mensalões” do PSDB e do PT.

Em um dos possíveis crimes mais graves, Gama conta a “Mister Magoo” que Bittencourt negociava a compra de dados da Infoseg, a rede nacional de informações de segurança pública de todos os órgãos policiais, de Justiça e de fiscalização do Brasil. Depositária de diversas informações altamente sigilosas, a Infoseg arquiva dados sobre inquéritos policiais, processos, armas de fogo, veículos e mandados de prisão.

Guarda também informações secretas sobre armas do Exército brasileiro e dados da Receita Federal, do Superior Tribunal de Justiça e da Justiça Federal, inclusive aqueles referentes à Estratégia Nacional de Combate à Lavagem de Dinheiro e de Recuperação de Ativos. A administração do sistema é de responsabilidade da Secretaria Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça, mas os dados podem ser acessados por cerca de 80 mil autoridades, sobretudo policiais, cadastradas em todo o País.

Segundo Gama, a base de dados da Infoseg foi oferecida a “Zé Bitte”, apelido de Bittencourt, por R$18 mil. Na parte de cima da mensagem copiada por “Mister Magoo”, em 6 de março de 2012, o hacker anotou: “Estão falando de um programa Infoseg de tempo real. É um dicionário do cidadão brasileiro. Se nasceu e fez sombra, tem nesse programa.” Pelas demais mensagens trocadas entre os dois, não foi possível saber se a negociação chegou a ser realizada ou não. Se houve compra, Perillo pode ter cometido um crime federal gravíssimo, de quebra de sigilo institucional contra a União.

CartaCapital teve acesso a 450 das mensagens trocadas entre os radialistas e o hacker. O material permite dimensionar a forma de operação do esquema. Elas foram entregues pelo próprio “Mister Magoo” ao publicitário Gercyley Batista, vice-presidente do Partido Republicano Progressista de Goiás, diretor de criação da agência de propaganda Canal, de propriedade de Jorcelino Braga e ex-secretário de Fazenda do governo Alcides Rodrigues, um dos maiores desafetos de Perillo no estado.

Batista mantém no Twitter o perfil@Gersyley44, por meio do qual faz muitas e duras críticas ao governador tucano. Por esse motivo, e por ser ligado a Braga, tornou-se um dos principais alvos de Gama e Aquino. Por ordem do casal, “Mister Magoo” foi instado a invadir o computador de Batista e derrubar o perfil do publicitário no Twitter, mais de uma vez. Entre as atribuições do hacker constava a montagem de uma rede de perfis falsos no Twitter, os chamados fakes, a fim de garantir uma claque virtual de apoio a Perillo quando o governador foi depor na CPI do Cachoeira, em 12 de junho de 2012. Ao todo, o hacker criou 92 perfis que infestaram a internet antes, durante e depois do depoimento do Perillo. Na ocasião, o governador tentou explicar o inexplicável: a presença maciça e a influência desmensurada da quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira na administração pública de Goiás.

Na quinta-feira, dia 25, Batista foi à sede do Ministério Público entregar pessoalmente os arquivos repassados por “Mr. Magoo”, além de cópias das mensagens trocadas reservadamente pelo Twitter com o hacker. No depoimento ao procurador Hélio Telho, o publicitário relatou os contatos com “Mr. Magoo”, todos realizados por meio da internet. Segundo Batista, o hacker identificou-se como um estudante de Medicina de 22 anos que alegadamente passou a fazer o serviço para pagar os estudos e auxiliar a mãe doente.

Telho já tinha conhecimento informal da existência do material produzido pelo hacker, mas esperava o depoimento de Batista para iniciar o processo de investigação. Caberá ao procurador organizar as informações e enviá-las à Procuradoria Geral da República, em Brasília, de modo a viabilizar uma denúncia no Superior Tribunal de Justiça, por conta do foro privilegiado de Perillo. O tucano e seus auxiliares envolvidos podem responder por peculato (crime cometido por servidor público), improbidade administrativa e quebra ilegal de sigilos telefônicos e telemáticos.

Segundo Batista, o hacker entrou em contato via mensagem direta do Twitter nos primeiros meses de 2012, aparentemente preocupado com as consequências do serviço sujo. “Cheguei ao nome do senhor porque me pediram, mais uma vez, para fazer serviços, e desta feita contra o senhor e seus chefes, como vou lhe mostrar”, escreveu “Mr. Magoo”, por meio de um perfil falso (@petrastoubas), em 22 de maio de 2012. Logo depois, os dois passaram a trocar e-mails, período em que o hacker teria descrito como eram feitas as encomendas de invasão de perfis e grampos telefônicos a pedido de Gama e Aquino.

O invasor fez questão de se declarar hacker (especialista em invadir sistemas e modificá-los) e não cracker (marginal virtual que rouba dados e senhas para utilizá-los de forma criminosa), o que é desmentido pelas mensagens de Gama e Aquino. “Mr. Magoo” fazia as duas coisas. Ele confessou ter recebido ordens para invadir o computador do publicitário, mas se declarou arrependido. Para provar suas informações, passou a enviar cópias das mensagens trocadas com os radialistas. “Ele queria saber quem estava certo ou errado naquela história toda”, diz Batista.

Na verdade, “Mr. Magoo” decidiu entregar o esquema após descobrir que Gama e Eni atrasavam os pagamentos. E mais: a dupla embolsava parte do dinheiro destinado a ele. O casal, narrou a Batista, cobrava R$12 mil e só repassava R$7 mil ao estudante. Nos primeiros contatos, “Mr. Magoo” tentou vender as informações ao publicitário. Este diz ter recusado. Apesar da negativa, garante o denunciante, o hacker aceitou revelar o esquema para provar não ser um blefe.

“Mr. Magoo”, afirma Batista, pediu para que outros três alvos do esquema fossem avisados. São eles o jornalista Altair Tavares e o administrador Carlos Bueno, funcionários da Rádio 730, e o ex-secretário Jorcelino Braga, antigo proprietário da emissora. Por medida de segurança, e por pavor da turma de Perillo, Batista diz ter apagado os e-mails trocados com Mr. Magoo. Ele pretende, porém, solicitar ao Ministério Público Federal a quebra de sigilo em suas contas no MSN (Microsoft) e Gmail (Google), para provar a existência dos diálogos. O publicitário guardou as mensagens reservadas trocadas pelo Twitter.

Perillo não concedeu entrevista. Preferiu escalar João Furtado, seu chefe de gabinete, para rebater as acusações. Furtado não soube precisar a data, mas garante ter dado ordem para a Polícia Civil investigar a proliferação de perfis falsos nas redes sociais. Infelizmente, o pedido tinha um viés. A polícia supostamente foi escalada para levantar apenas as mensagens negativas contra o tucano. “O governador, na verdade, era vítima desses caluniadores”, afirma. Talvez por causa desse viés, os investigadores, se é que investigaram algo, nunca chegaram a Gama e Aquino, muito menos souberam da existência do hacker. Apesar de garantir o pedido de apuração, Furtado nunca se interessou pelo resultado do trabalho policial.

Segundo o chefe de gabinete, o casal de radialistas responsáveis pelo contato com “Mr. Magoo” não é ligado ao governo de Goiás nem recebeu ordens de Perillo para montar a central ilegal de grampos, embora as mensagens obtidas por esta revista sejam claras quanto à origem das solicitações. “Se o fizeram, foi por conta própria”, afirma. Para Furtado, as referências a Bittencourt e Cardoso não passam de tentativa de “exploração de prestígio”.

Gama e Aquino são apresentadores do programa Papo de Bola na Fonte TV, emissora da Rede Fonte de Comunicação, ligada à Igreja Fonte da Vida, um milionário culto pentecostal fundado e administrado pelo “apóstolo” César Augusto de Sousa. Gama chegou a ser chefe do Departamento de Jornalismo da empresa, mas acabou demitido no ano passado por razões não esclarecidas. Manteve, porém, o espaço terceirizado do programa esportivo apresentado em companhia da mulher. Tanto o “apóstolo” quanto seu filho, o pastor Fábio Sousa, deputado estadual pelo PSDB, foram grampeados por “Mr. Magoo”, segundo consta das mensagens.

Apesar dos reiterados pedidos de entrevista, Sousa preferiu o silêncio. O mesmo fez o casal de radialistas acusados de operar o esquema. Gama achou melhor contra-atacar na internet. No Twitter, declarou-se vítima de “pistoleiros virtuais”.

A seguir, detalhes da central de grampo que não poupou aliados ou subordinados de Perillo.

“O cabra poderoso”

Apesar de manter contato com “Mr. Magoo” desde agosto de 2011, apenas depois da Operação Monte Carlo, operação da Polícia Federal que desbaratou a quadrilha do bicheiro Carlos Cachoeira, Gama e Aquino intensificaram o relacionamento com o hacker. Nas redes sociais, a proximidade entre o governador de Goiás e o contraventor tornara-se assunto recorrente.

O hacker começou a ser sondado para um serviço inicialmente não definido. Em 27 de março, Gama decidiu abrir o jogo. Durante a troca de 28 mensagens entre 12h53 e 16h20, o radialista revelou o nome do verdadeiro chefe do esquema, não sem antes criar um clima de mistério. “Ele”, escreve Gama, queria o hacker no esquema “para sempre”. “O cabra é poderoso”, anota em outra comunicação. A revelação viria às 14h39. “Na verdade, é o governador Marconi Perillo”, informa ao hacker. “Ele precisa de um cara craque assim como você. Ele é muito atacado.”

A partir desse ponto e até a última mensagem, Gama discorre sobre as vantagens de trabalhar para o governo (“arrumar a sua vida”), da necessidade de se manter tudo em segredo (“ele quer sigilo total”), do apoio logístico de primeira (“tudo teta pra você, o que precisar de equipamento, rola”), da segurança das operações (“você será, inclusive, protegido por todo o esquema dele”) e do status social (“fora a moral que você vai ter”). Às 15h46, o radialista, eufórico com o desfecho da negociação, não se contém: “Vem aí… o espião Magooo 007! KKKKKK. Vai ser show!”. Em várias mensagens, Gama insinua a possibilidade de o hacker tornar-se funcionário do governo estadual. Em um texto específico, Aquino chega a mencionar o possível salário: R$15 mil.

Em 14 de abril, a turma de Perillo se mostra preocupada com o movimento Fora Marconi, desencadeado nas redes sociais e, em seguida, transformado em passeatas pelas ruas de Goiânia. O movimento nasceu após reportagem de CartaCapital de 12 dias antes intitulada “O crime no poder”. O texto descrevia em detalhes a influência da quadrilha de Cachoeira no governo de Goiás. “Tem como derrubar o Fora Marconi?”, pergunta o radialista ao hacker. Não tinha. Mr. Magoo escreve, no alto da mensagem, que a tarefa seria impossível, por causa do grande número de servidores, equipamentos de armazenagem de dados, envolvidos.

Marconi_Perillo12_CartaCapitalEm contrapartida, Gama pede ao hacker para dar um jeito de colocar a hashtag #ForçaMarconi nos trend topics, o ranking de mensagens mais vistas do Twitter, em 21 de abril. Caso conseguisse realizar o serviço, “Mr. Magoo” poderia passar no dia seguinte para pegar “trezentinho” com o radialista.

Em 17 de maio, após Perillo anunciar a disposição de depor voluntariamente na CPI do Cachoeira, Gama enviou um pedido especial para “Mr. Magoo”: “Preciso de um cara que monte uma rede de uns 100 perfis no TT (Twitter) e no face (Facebook). R$2 mil por mês de salário”. Segundo o radialista, os perfis serviriam para “falar bem do governo e do governador e quando for preciso atacar os adversários e aqueles que nos atacam”.

A partir de então, foram montados 92 perfis falsos para o dia do depoimento de Perillo na CPI do Cachoeira, em 12 de junho, às 10 horas da manhã. “Preciso que a tag #ForçaMarconi arrebente no Twitter na hora que ele estiver na CPI”, pede Gama em 9 de junho.

Em 11 de junho, dia anterior ao depoimento, Aquino entra em contato com “Mr. Magoo”, via mensagem direta do Twitter. Ela avisa ao hacker que, na manhã seguinte, enviaria as frases a serem usadas nas redes sociais a favor do governador. Às 4h24 do dia 12, Gama envia as tags a serem seguidas no Twitter, a partir de uma hierarquia de tempo: #EuConfioMarconi (antes), #MarconiEsclarece e #VerdadePerillo (durante), e #EuAcreditoMarconi (depois). “Mete bronca com gosto de gás!”, escreve.

O vídeo da “grana alta do Marconi”

Em 8 de maio de 2012, Gama avisa “Mr. Magoo” que o secretário de Educação de Goiás, Thiago Peixoto, foi gravado em vídeo quando recebia “uma grana alta do Marconi”. Ex-deputado estadual pelo PMDB, Peixoto abandonou a legenda de Íris Rezende a convite de Perillo para se candidatar em 2010 a deputado federal pelo recém-criado PSD. Eleito, se licenciou e assumiu a secretaria.

O secretário é citado na Operação Monte Carlo. Segundo a PF, ele teria repassado sigilosamente o modelo das escolas goianas para o grupo de Cachoeira construir prédios iguais e, depois, alugá-los ao estado. O vídeo, diz Gama, “ferra feio” o secretário. O radialista desconfia que a gravação tenha sido feita por encomenda do vereador Elias Vaz, do PSOL de Goiânia, e de Adib Elias, do PMDB, candidato derrotado à prefeitura de Catalão. O vídeo teria sido vendido ao jornal O Popular, de Goiânia.

Vaz, igualmente citado no relatório da Monte Carlo após ser flagrado em conversas com Cachoeira (a quem chama de “companheiro”), nega tudo. Diz não ter conhecimento sobre o tal vídeo e que não tem nenhuma intimidade com Gama. A assessoria do secretário Peixoto, embora contatada pela reportagem, não respondeu aos pedidos de informação.

A rede de pagamentos

Na troca das mensagens fica claro que os pagamentos ao hacker sairiam da Agência de Comunicação estatal sob o comando de José Luiz Bittencourt Filho, órgão irrigado por muitas verbas públicas. Só em 2012, a Agecom gastou cerca de R$150 milhões em compra de espaço publicitário. O hacker recebia o dinheiro de Gama e Aquino. O pagamento era feito normalmente na casa do casal ou na sede da Fonte TV em Goiânia.

Em mensagem de 6 de fevereiro do ano passado, Gama avisa a “Mr. Magoo” o propósito de colocá-lo em contato com “um dos Bittencourt”, e diz ao hacker que “os caras são quentes e gente boa, tudo campeão”. Referia-se a uma turma muito conhecida em Goiás: os quatro irmãos Bittencourt, apelidados pelos adversários de “Irmãos Metralha”.

O Bittencourt citado nas mensagens é o chefe da Agecom. “Eles vão te contratar, um deles é José Luiz Bittencourt. Cara quente!”, avisa. Os outros irmãos são Luiz Bittencourt, ex-deputado federal do PMDB, João Bosco Bittencourt, assessor informal de imprensa de Perillo, e Paulo Tadeu Bittencourt, diretor de Comunicação Social da Assembleia Legislativa.

No dia seguinte, 7 de fevereiro, Gama avisa ao hacker: os pagamentos passam à responsabilidade de Sérgio Cardoso, cunhado de Perillo e secretário de Articulação Política. Cardoso é outro citado na Monte Carlo. Segundo a PF, o secretário intermediou contratos sem licitação para a Delta Construções, empreiteira-mãe da quadrilha de Cachoeira. “Sérgio é meu chegado”, tranquiliza Gama.

Fraudes no Serasa e outros crimes

Gama e Aquino ficaram entusiasmados com a possibilidade de ter um hacker a seu serviço. O primeiro crime cometido para o casal teve caráter particular. Em 15 de setembro de 2011, por meio do e-mail da Fonte TV, Aquino enviou um pedido a “Mr. Magoo”: “Você consegue zerar nome no SPC e Serasa?”. Diante da resposta positiva, a radialista envia, no mesmo dia, o nome a ser “zerado” nos serviços de proteção ao crédito: “Luiz Carlos Alves, CPF 470.794.101-00, RG 8124212 2a Via DGPC – GO”. Detalhe: Luiz Carlos Alves é o verdadeiro nome de Luiz Gama.

Ao longo dos 17 meses de registros de mensagens, o casal encomendou a invasão de mais de duas dezenas de perfis hostis a Perillo, além de solicitar grampos telefônicos nos celulares adversários e naqueles de ao menos dois aliados do governador: o deputado Túlio Isac, do PSDB, e Elaino Garcia, assessor de Perillo e vice-presidente do Partido Humanista da Solidariedade.

Isac, dono do perfil @apostolomarcos1 no Twitter, é chamado de “otário fazendo gracinha” por Gama, por criticar as pretensões eleitorais do pastor Fábio Sousa, da Igreja Fonte da Vida, pré-candidato a prefeito de Goiânia pelo PSDB em 2012.

Gama pede a “Mr. Magoo” para ficar de olho em Garcia, pois, segundo anotou o hacker em mensagem de 11 de abril de 2012, o assessor “estaria estranho” e provavelmente era ligado a alguém que havia pago R$4 mil para bloquear outras linhas telefônicas.

Passados sete meses, descobre-se que até Sousa e o pai, o “apóstolo” César Augusto, eram monitorados, acusados de “puxar o tapete” do casal na Fonte TV. Aquino avisa “Mr. Magoo”, em 14 de novembro: “Mantenha Túlio Isac e Elaino Garcia grampeados”.

A primeira encomenda de grampo foi feita em 23 de janeiro de 2012. O alvo era o ex-prefeito de Goiânia Nion Albernaz, do PSDB. O tucano entrou na mira do esquema pelo fato de, no momento da articulação das pré-candidaturas à prefeitura da capital, ter lançado o nome de Leonardo Vilela, deputado federal da legenda, e não apoiado Souza, da Igreja Fonte da Vida. Sousa não conseguiu se articular e Vilela acabou derrubado por aparecer em interceptações legais da PF, nas quais pede a Cachoeira um emprego para a filha.

O boquirroto

A sensação de poder afetou Gama. Estimulado pelo intenso relacionamento com “Mr. Magoo”, o radialista passou a usar com mais intensidade o esquema para interesses pessoais e a atacar adversários, aliados e personalidades de Goiás.

Em 11 de julho de 2012, ele acusa o deputado Sandro Mabel (PMDB/GO) de ter ficado milionário por meio de empréstimos no BNDES. “Ele adora uma mutreta. KKKKKK!”, diverte-se.

Em seguida, tripudia do bicheiro mais famoso do estado. “Esse Cachoeira é um safado. E uma piranhaça a tal noiva dele [Andressa Mendonça]. KKKKKK, tem grana e [é] bobo”. E faz uma “revelação” conhecida até pelas árvores de pequi de Goiás: “A revista Veja só tinha furos que o Cachoeira dava pra eles”.

Em 25 de julho, mira no secretário de Cultura do estado, Gilvane Felipe. “Ele tem fama de gay, a ex-mulher dele hoje é doente”. Em 3 de novembro, investe contra os poderosos irmãos Bittencourt. Segundo informou a “Mr. Magoo”, os quatro “começaram a plantar mentiras escandalosas” contra ele e a mulher. “Esses Bitencas são os cãos.” Assim mesmo, neste português castiço.

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