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São Paulo: Folha demite repórter jurado de morte por vereador do PSDB

16 de fevereiro de 2014
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O vereador tucano coronel Telhada ameaçou matar o repórter André Caramante, demitido pela Folha.

Altamiro Borges em seu blog em 12/2/2014

“O repórter André Caramante foi demitido do jornal Folha de S.Paulo, na segunda-feira, dia 10/2. O profissional voltava de férias, mas não encontrou seu nome na escala de trabalho da semana. Ao chegar à redação foi comunicado de sua demissão, sob a alegação de ‘contenção de despesas’”, informa a jornalista Jéssica Oliveira, do portal Imprensa.

O caso é gravíssimo. André Caramante ficou famoso ao denunciar os abusos cometidos pelo ex-chefe da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar (Rota), o coronel Paulo Telhada, que hoje é vereador pelo PSDB de São Paulo. Ele foi ameaçado de morte e deixou o Brasil, com a sua família, por alguns meses. Agora, a Folha demite o repórter para “conter despesas”.

Especializado em segurança pública, o jornalista era funcionário do Grupo Folha há mais de 14 anos, atuando nos últimos oito anos na redação da Folha. Ele denunciou vários crimes da polícia de São Paulo, como o envolvimento com grupos de extermínio e a prática de corrupção. Em julho de 2012, Caramante publicou um artigo com o título: “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, sobre o coronel reformado Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, então candidato a vereador pelo PSDB. A partir daí a sua vida virou um inferno. Ele recebeu diversas ameaças de morte e passou a ser escoltado por motoristas do jornal para ir ao trabalho.

O próprio coronel Telhada escreveu no seu Facebook que o jornalista “é um notório defensor de bandidos”. Nas redes sociais, os seguidores do truculento tucano postaram mensagens criticando o “péssimo repórter” e ameaçando: “Bala nele”. Sua família também sofreu ameaças. Diante dos riscos, “a Folha pediu a investigação do caso e, em conjunto com o profissional, optou por afastá-lo do país por motivo de segurança. Em 11 de setembro de 2012, ele e sua família saíram do Brasil e permaneceram fora por 90 dias”, relata Jéssica Oliveira. Após seu retorno ao país, ele foi afastado da cobertura da área de segurança pública e passou a escrever textos no caderno “Cotidiano” e para a TV Folha.

Agora, porém, o renomado jornalista – vencedor do Prêmio Santo Dias da Assembleia Legislativa de São Paulo e do Prêmio Nacional de Direitos Humanos – é demitido. Durante este período, a Folha evitou pressionar o governador Geraldo Alckmin e o PSDB. Num evento no final de 2012, a repórter Lúcia Rodrigues, da Rede Brasil Atual, até questionou: “Neste momento, André Caramante está fora do país por ter feito denúncias contra o ex-comandante da Rota. Como é que o senhor se posiciona, governador?”. Alckmin se fingiu de surdo e não respondeu. Coronel Telhada é hoje uma das vozes mais estridentes do PSDB na Câmara Municipal. Já André Caramante foi demitido pela Folha!

Leia também:
Coletânea de textos: A mídia como ela é… golpista e manipuladora

 

Coxinhas e “grande mídia” conseguiram: Black Blocs têm seu primeiro cadáver. E agora?

10 de fevereiro de 2014

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Confirmada a morte cerebral de Santiago Andrade, atingido por um rojão na cabeça enquanto registrava manifestação contra o aumento da passagem de ônibus no Rio, na última quinta-feira, dia 6. A violência do movimento de mascarados Black Blocs traz sua primeira vítima fatal. Em entrevista no domingo, dia 9, Arlita Andrade, mulher do cinegrafista da Bandeirantes, disse que autores do disparo “não têm amor” e que será difícil perdoar aqueles que “destruíram uma família”.

Via Brasil 247

Foi confirmada na segunda-feira, dia 10, a morte cerebral do cinegrafista da Bandeirantes Santiago Andrade, atingido por um rojão na cabeça enquanto fazia a cobertura de um protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio, na quinta-feira, dia 6. A informação foi dada pela equipe de neurocirurgia do Hospital Municipal Souza Aguiar, onde ele estava internado no Centro de Terapia Intensiva.

O cinegrafista de 49 anos, que teve afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda, foi submetido a uma cirurgia para diminuir a pressão craniana, assim que chegou ao hospital. No sábado, dia 8, uma tomografia comprovou que a hemorragia havia sido controlada, mas o estado de saúde do cinegrafista piorou.

Santiago é o primeiro cadáver do movimento de mascarados Black Blocs, que durante manifestações populares, que muitas vezes começam de forma pacífica, destroem o patrimônio público e privado, utilizam artefatos explosivos contra a polícia e escondem seus rostos enquanto praticam esses atos. Geralmente são detidos, mas sempre soltos em seguida.

Com a morte de Santiago Andrade, como irão agir os governantes contra esse grupo, autointitulado anarquista? Haverá maior rigidez na política de segurança contra quem estiver mascarado durante um protesto? Essa é uma proposta polêmica e que deve ser cobrada para que não saiam impunes os responsáveis pela morte do cinegrafista da Band.

Leia abaixo reportagem anterior do 247 reproduzindo a entrevista da esposa de Santiago, Arlita Andrade, concedida neste domingo à TV Globo:

“Eles destruíram uma família”, diz mulher de cinegrafista

A mulher do cinegrafista da Bandeirantes atingido por um rojão na cabeça enquanto cobria protesto no Rio, Arlita Andrade, disse que é difícil perdoar “aqueles que destruíram uma família”. “Perdoar? Meu marido está indo embora, eles destruíram uma família. Uma família que era unida, muito unida mesmo”, desabafou, em entrevista à TV Globo

Segundo ela, “os médicos disseram que o estado dele é grave, disseram de manhã [no domingo] que teriam desligado os aparelhos porque estavam somente aguardando ou milagre ou a morte cerebral”. Santiago Andrade, que está internado no CTI do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, ajudou a criar os três filhos de Arlita e juntos tiveram uma filha. Segundo a esposa, ele fazia planos para a aposentadoria.

Sobre a entrevista de Fábio Raposo, preso após ter assumido passar o rojão para o responsável pelo disparo que acertou Santiago, ela comentou: “Eu vi ele pedindo desculpa, mas acho que o que falta neles é o amor, o amor pelas pessoas, porque a gente não faz isso. Ele disse que foi sem intenção. Que seja, mas meu marido estava trabalhando, estava mostrando uma manifestação”.

Abalada, ela fez um apelo para que as pessoas não usem mais da violência em manifestações. “Eu peço que essas pessoas não sejam violentas, que não façam isso. Isso não vai levar a nada. O nosso Brasil só vai ser mal visto, ninguém vai querer olhar depois para a nossa terra. Eu espero que esses rapazes pensem na mãe, pensem na família, que a família é tão importante. Meu marido está indo embora, podem ser outros, pode ter outra família que pode ser destruída com isso”, disse.

Ditadura militar: Coronel do Exército confirma farsa montada no desaparecimento de Rubens Paiva

9 de fevereiro de 2014

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Via Instituto João Goulart

Há muito tempo se sabia, por apurações da família e da imprensa, testemunhas, historiadores e depoimentos de ex-presos político, mas confirma-se agora pela undécima vez: oficiais do Exército montaram uma farsa para desaparecer com o corpo do deputado Rubens Paiva, morto em janeiro de 1971 após ser torturado em dependências do DOI-Codi-Rio, que funcionou durante a ditadura militar no quartel da força, na rua Barão de Mesquita.

O que já era conhecido de todos foi confirmado mais uma vez, agora pelo coronel reformado (da reserva) Raimundo Ronaldo Campos, em depoimento prestado à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e divulgado ontem pelo Jornal Nacional, da Rede Globo. No depoimento à Comissão, segundo o JN, o militar contou que na noite de 21 de janeiro de 1971 ele e outros dois militares receberam ordens de seus superiores para atirar na lataria de um Fusca e incendiá-lo em seguida, no Alto da Boa Vista, no Rio.

Entre os superiores que deram as ordens estavam o major Francisco Demiurgo Cardoso – já falecido –, que ordenou a encenação do falso resgate do político. O coronel do Exército Raimundo Ronaldo Campos contou à comissão da Verdade que apenas participou do “do teatro montado, cineminha armado pelo Exército”, mas que não sabe do destino do corpo de Rubens Paiva.

Como toda a farsa foi montada

A montagem, prosseguiu o coronel Campos no encontro com a Comissão, era para sustentar a versão oficial do Exército de que, ao ser transportado por militares, o ex-deputado foi sequestrado por terroristas, que atearam fogo no carro. Campos sustenta que cumpriu a ordem que lhe foi dada já sabendo que se tratava de uma operação para “justificar o desaparecimento de um prisioneiro”, e informado de que Rubens Paiva já estava morto.

O absurdo da versão oficial tem sido mostrado pela mídia desde a 2ª metade dos anos 70, a primeira vez, pelo jornalista Fritz Utzeri, num caderno especial (sobre Rubens Paiva) no Jornal do Brasil: o ex-deputado era um homem alto, pesava mais de 100 kg e nunca teria conseguido fugir do banco traseiro de um fusca, cujos bancos dianteiros estavam ocupados por dois agentes armados da repressão.

Rubens Paiva perdeu o mandato de deputado federal nas primeiras levas de cassações pós-golpe de 1964 e foi preso dia 20 de janeiro de 1971, sob a acusação de que trouxera para brasileiros correspondência de exilados políticos no Chile. Foi preso em casa, diante da família. Sua mulher, Eunice Paiva, e uma filha de 13 anos também foram levadas e ficaram 15 dias presas no DOI-Codi. Foram levados por militares da Aeronáutica que os entregaram ao DOI-Codi do I Exército.

Vários militares do Exército já confirmaram a encenação

Pela versão oficial montada, o ex-deputado foi ouvido, depois conduzido de carro para fazer o reconhecimento de uma casa que funcionaria como aparelho subversivo e nesse deslocamento foi sequestrado. Logo em seguida os militares registraram esta história na 19ª DP, no Rio. Desde então Rubens Paiva consta da lista de centenas de desaparecidos políticos brasileiros assassinados pela ditadura militar.

O depoimento de Raimundo Ronaldo Campos não é o primeiro que contesta a versão oficial do Exército sobre a morte de Rubens Paiva. Em 1986, o ex-tenente Amílcar Lobo, médico do Exército, disse à Polícia Federal (PF) que tentou socorrer o prisioneiro, que encontrou em estado crítico após sofrer torturas. Lobo confirmou o mesmo à viúva de Paiva, Eunice. No ano passado, a Comissão Nacional da Verdade divulgou documento, encontrado na casa de um ex-comandante do DOI-Codi-Rio, coronel Molina Dias, confirmando a passagem de Paiva por aquele centro de tortura.

Ao comentar o depoimento de agora do coronel Campos à Comissão da Verdade, a filha do ex-deputado, professora e pesquisadora da USP, Vera Paiva, disse a Roldão Arruda, do Estadão: “É importante que mais gente faça isso. Interessa à família e ao Brasil, onde casos de tortura continuam sendo abafados por essa lógica de não se falar nada. Não há mais dúvidas de que meu pai não é um desaparecido: ele foi assassinado e a cena do crime está ficando cada vez mais clara”.

Ao que tudo indica, agora só falta a localização do corpo do ex-deputado, ou o destino final dado a seu corpo. Como várias vezes perguntou aqui o ex-ministro José Dirceu, diante disso nada pode ser feito? E até quando? O Brasil não pode mesmo processar e estabelecer sanção, nenhum tipo de punição contra os responsáveis por essa barbárie? Com a palavra, a justiça, a Comissão Nacional da Verdade, os juristas. E o Supremo Tribunal Federal (STF) que já validou uma vez o caráter recíproco da Lei de Anistia de 1979, mas ainda tem um último recurso a julgar a respeito.

Morre Ariel Sharon, “o açougueiro de Beirute”

12 de janeiro de 2014

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Líder político deu guinada ao centro no final da vida política, mas ficará marcado pelo envolvimento com alguns dos episódios mais violentos da relação com palestinos

Guila Flint, via Opera Mundi e lido no

Mais do que qualquer outro líder israelense, Ariel Sharon simboliza a linguagem da força. Em sua longa carreira, como militar e político, Sharon esteve envolvido nos capítulos mais violentos do conflito entre Israel e os palestinos, ocupando postos-chave desde a fundação de Israel, em 1948.

Em 1953, quando era um jovem militar de apenas 24 anos, Sharon comandou a operação na aldeia palestina de Qibya, também conhecida como massacre de Qibya, que deixou 69 mortos, a maioria deles civis. A operação foi uma decisão do governo israelense, naquela época liderado pelo primeiro-ministro David Ben Gurion, em represália a um atentado na cidade de Yehud que havia deixado 3 civis israelenses mortos.

A Unidade Especial 101, comandada por Sharon, atacou a aldeia na Cisjordânia – então sob domínio jordaniano – destruindo 49 casas, uma escola e uma mesquita. Muitas das vítimas estavam dentro das casas, que foram explodidas pelas tropas.

Na guerra de outubro de 1973, já general do Exército, Sharon comandou a travessia do Canal de Suez, que foi decisiva para a vitória das tropas israelenses contra as forças egípcias. Essa operação lhe rendeu o reconhecimento como um dos estrategistas militares mais importantes da história do país.

Carreira política

Em 1977, após se aposentar do Exército, Sharon iniciou sua carreira política. Seu primeiro cargo foi de ministro da Agricultura no governo de Menahem Begin, líder do partido de direita Likud. Naquela época Sharon foi apelidado de “trator”, por sua ação enérgica em favor da ampliação dos assentamentos israelenses nos territórios ocupados.

Sharon foi considerado o “pai” dos assentamentos ao longo de quase três décadas de carreira política. Em 1981 foi nomeado ministro da Defesa no governo de Begin e, em 1982, liderou a primeira guerra do Líbano, contra as forças da OLP (Organização de Libertação de Palestina), baseadas no país.

O massacre nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em setembro de 1982, levou a um afastamento temporário de Sharon da vida política. Cerca de 1.500 civis palestinos foram assassinados por milícias falangistas libanesas, que entraram no campos enquanto as tropas israelenses os cercavam.

Afastamento

A Comissão Kahan, nomeada pelo governo israelense para investigar o massacre, chegou à conclusão de que Sharon era responsável por ter “ignorado o perigo de derramamento de sangue e não tomar medidas adequadas para impedi-lo”.

No mundo árabe, após o massacre de Sabra e Chatila, Sharon tornou-se a figura israelense mais odiada e foi denominado “o açougueiro de Beirute”.

Sharon foi afastado do cargo de ministro da Defesa e muitos em Israel pensaram que sua carreira política havia chegado ao fim. No entanto, ele permaneceu entre os líderes mais importantes do partido Likud e ocupou cargos de ministro até 1999, quando se tornou presidente do partido.

Em setembro de 2000, Sharon, escoltado por mil policiais, entrou na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém Oriental, desencadeando a segunda Intifada (levante palestino).

A presença do líder israelense mais odiado pelos palestinos, no lugar mais sensível e em uma época de extrema tensão entre os dois povos, foi o estopim de uma onda de violência que durou 4 anos e deixou mortos dos dois lados.

“Homem forte”

Em 2001, em meio à Intifada, Sharon foi eleito primeiro-ministro. Sua imagem de “homem forte” fez com que grande parte do público israelense o elegesse para pôr um fim à série de atentados suicidas que assolava as cidades israelenses.

Em março de 2002 Sharon ordenou o início da chamada Operação Muralha de Defesa, durante a qual as tropas israelenses reocuparam as cidades palestinas e cercaram o quartel general do presidente palestino, Yasser Arafat, em Ramallah.

No mesmo ano, sob o comando de Sharon, foi iniciada a construção do Muro israelense na Cisjordânia.

O Muro, que consiste em um complexo de muros de concreto nas áreas urbanas e cercas nas áreas rurais, e tem mais de 400 quilômetros de extensão, foi construído supostamente para separar israelenses de palestinos e, assim, impedir a entrada de atacantes suicidas no país.

No entanto, a barreira não separa israelenses de palestinos, mas sim palestinos de palestinos, pois não passa na chamada Linha Verde – a fronteira entre Israel e a Cisjordânia até a guerra de 1967– mas dentro da Cisjordânia, anexando parte do território palestino a Israel.

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Sharon e Bush Jr. em 2003, ano da guinada política do israelense.

Guinada

Em 2003, Sharon deu uma guinada em direção a uma posição de centro, mais pragmática do que aquela que havia defendido praticamente a vida inteira.

“Não é possível continuar mantendo 3,5 milhões de palestinos sob ocupação”, disse em maio de 2003. “Essa situação é ruim para os palestinos, para Israel e para a economia de Israel”.

Naquela época, Sharon aceitou o Mapa do Caminho, plano proposto por Estados Unidos, Rússia e União Europeia, para a paz entre israelenses e palestinos, e anunciou seu apoio à ideia da criação de um Estado Palestino.

Em 2005 Sharon conduziu a retirada das tropas e dos assentamentos israelenses da Faixa de Gaza.

A guinada de Sharon gerou choque e indignação da direita israelense, que passou a considerá-lo traidor da ideologia do Grande Israel.

Ele enfrentou uma rebelião dentro de seu próprio partido, o Likud, e em 21 de novembro de 2005 renunciou à liderança do partido e fundou o partido de centro Kadima.

Em 4 de janeiro de 2006 Sharon sofreu um derrame cerebral que o deixou em estado vegetativo por oito anos, até a sua morte, no sábado, dia 11.

A complicada morte de Yasser Arafat

10 de novembro de 2013

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O relatório da equipe de investigadores suíços apontou resquícios de polônio 210, numa quantidade 18 vezes superior à considerada normal.

Flávio Aguiar, via Carta Maior

Yasser Arafat, o líder palestino de 75 anos, vivia em seu refúgio, transformado num verdadeiro bunker em ruínas, em Ramallah, cercado por tropas israelenses. Em outubro de 2004, depois de uma refeição, ele sentiu-se mal, com vômitos, náuseas, dores e diarreia. O diagnóstico inicial foi de uma virose.

Entretanto seu estado piorou rapidamente. Em consequência disto, ele foi retirado de lá por um helicóptero e levado para um hospital militar francês, onde acabou falecendo. Não foi feita uma autópsia então – o que foi um erro.

Naquela época já especulou-se sobre a causa de sua morte. Teorias as mais díspares foram levantadas: Aids, leucemia, simplesmente velhice e outras – entre elas a de envenenamento. Entre os suspeitos enfileiram-se os governos de Israel e grupos palestinos rivais.

Em 2012 três equipes – uma russa, uma francesa e uma suíça – retiraram espécimes do seu túmulo – restos de ossos, de tecido humano e amostras da terra sob o cadáver – e recolheram objetos do morto, como sua escova de dentes e roupa de baixo.

O primeiro relatório destas equipes – o da Suíça – veio a público na semana passada, publicado pela Al Jazeera, depois de compartilha-lo com o britânico The Guardian. Ele pode ser conferido neste endereço. São 108 páginas muito detalhadas, com assinatura dos membros da equipe, do Centro Universitário de Medicina Legal da Universidade de Lausanne. A conclusão objetiva do relatório é a de que foram encontrados nos restos mortais do líder palestino e na terra sob seu corpo resquícios de polônio 210, uma substância radioativa letal, numa quantidade 18 vezes maior do que a normal. O resultado não surpreendeu, uma vez que a mesma equipe já dissera ter encontrado resquícios elevados de polônio 210 nas roupas e outros objetos de Arafat.

A partir daí começam a entrar em cena os adjetivos e advérbios, para qualificar – ou desqualificar – a afirmação. Ainda não se tem o relatório russo. Tem-se apenas uma declaração de Vladimir Uibe, presidente da Federação Russa de Medicina Biológica, declarando peremptoriamente que não haveria indícios de polônio nos restos de Arafat. Não se tem ainda o relatório dos franceses – que, de todos, será o mais complicado, porque na França, a pedido da viúva de Arafat, existe uma investigação criminal sobre sua morte.

É óbvio que os olhares se voltam para o governo de Israel e seus agentes secretos, como os possíveis e até prováveis envenenadores do líder palestino.

Algumas das declarações de representantes do governo, citadas na mídia internacional, escolheram o caminho mais complicado ainda: desqualificar o relatório, a equipe e a investigação, apontando-a como parte de uma “novela de tevê” (“soap opera”, em inglês) ao invés de algo cientificamente sério. Aventaram até a possibilidade da equipe suíça ser “parcial”, e que a única de fato independente seria a francesa.

Uma defesa mais apurada do governo israelense veio de membros do governo de Ariel Sharon, então o primeiro ministro em Telavive, argumentando que Israel não teria motivos para assassinar Arafat, na verdade, para esta visão, um ex-líder isolado entre os palestinos. Comentários reproduzindo declarações do autor de um livro sobre Arafat, Danny Rubinstein, contestam o argumento: para ele nas semanas que antecederam a sua morte havia seguidamente conversações no círculo próximo a Sharon sobre como “se livrar do líder palestino”. Mas os autores do argumento e o governo israelense continuam negando veementemente qualquer participação no episódio.

O próprio relatório afirma que existem suficientes indícios para sustentar “moderadamente” a tese de que Arafat possa ter sido envenenado por polônio 210. Ao final, nas conclusões, o relatório organizar uma tabela com os indícios e os argumentos pró e contra o envenenamento. Os principais argumentos pró são os sintomas apresentados por Arafat depois da refeição que parece ter sido o ponto de partida da deterioração de seu estado, mais a presença dos resquícios da substância letal. O principal argumento contrário é o da ausência de dois sintomas característicos do envenenamento por radioatividade: queda de cabelo e deterioração da medula óssea. Entretanto o próprio relatório diz que tais sintomas são obrigatórios no caso de uma exposição externa material radiativo, mas que poderiam não ocorrer numa ingestão do veneno, que é de ação extremamente rápida e também de decomposição moderadamente rápida.

David Barclay, expert britânico de medicina forense, citado em artigo de Angelique Chrisafis (Guardian, 6/11/2013), alega que os indícios do relatório suíço são mais conclusivos do que exprimem seus próprios comentários, dizendo que os resquícios de polônio são como “um revólver fumegante”.

Algumas coisas são absolutamente certas, no caso de ter de fato havido o envenenamento:

1. É altamente improvável uma presença “natural” na residência de Arafat de tais quantidades de polônio 210. Ninguém mais apresentou aqueles sintomas. Portanto, se polônio houve, ele foi ingerido por Arafat, e só por ele.

2. Os israelenses ao redor de Ramallah mantinham um controle rigoroso sobre tudo o que entrava e saía da residência de Arafat: pessoas, objetos, comida, tudo. Portanto, se o polônio chegou lá, ele passou através deles.

3. Das duas uma: ou o polônio já veio de fora misturado em alguma comida dada a Arafat, ou contou com a cumplicidade de alguém dentro da residência. Ambas parecem possíveis.

Em editorial (8/11/2013) o The Guardian expressa a preocupação em nome de que os assassinatos deixem de ser moeda comum e de troca entre as partes beligerantes na região.

Aguardam-se os relatórios russo e francês, sendo que este último poderá instruir a investigação criminal pedida também, no momento, pela Autoridade Palestina. Este enredo, que nada tem de “soap opera”, vai continuar.

Para a realização deste artigo consultaram-se as seguintes mídias: The Guardian, Der Spiegel, Al Jazeera, New York Times, Haaretz e Jerusalem Post, além de outras fontes citadas por estas.

Giap, o homem que humilhou dois impérios

8 de outubro de 2013
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Vo Nguyen Giap

Morre no Vietnã, aos 102 anos, gênio militar responsável por arrasar “mito da invencível superioridade dos Estados Unidos”.

Xavier Monthéard, via Le Monde Diplomatique e lido no Outras Palavras

Do nada, ele fez um exército; de um enfrentamento local, um símbolo da resistência à iniquidade. Ele venceu os franceses da batalha de Diên Biên Phu, em 1954, e depois arrasou os norte-americanos, com a Ofensiva do Tet, em 1968. Um David que triunfou sobre diversos Golias: assim se inscreve o general Vo Nguyen Giap na história do Vietnã.

Giap nasceu em 25 de agosto de 1911, em Annan, protetorado da Indochina francesa. Foi criado por sua família numa atmosfera de orgulho pela dominação estrangeira. No colégio de Hue, a leitura do Processo da Colonização Francesa, de Ho Chi Mihn, transtorna-o. A ganância dos colonizadores, seu desprezo pela população local e sua brutalidade provocam, em 1930, um vasto levante, duramente reprimido. Instruído pela prisão, Giap terá, a partir de então, vida dupla.

Forma-se em 1934, torna-se professor, casa-se. Ao mesmo tempo, ingressa no Partido Comunista, clandestino. As bases do Vietminh, uma estrutura operária e camponesa ligada à Internacional Comunista, estão superadas. Na China, Giap recebe, em 1940, orientação de formar um exército de libertação. Tem trinta anos, seu futuro transforma-se. A partir de então, três décadas de combate – pela independência, em setembro de 1945; contra o ocupação francesa da Indochina, até 1954; contra os invasores norte-americanos, expulsos em 1975 – serão marcadas por seu gênio militar.

Sem formação militar acadêmica, Giap refina o conceito de “guerra popular prolongada”: um exército de camponeses firmemente apoiado na população. Suas tropas souberam ser respeitadas nos vilarejos por sua abnegação, que contrastava com a arrogância francesa e norte-americana. Em contrapartida, os civis ajudavam os soldados e tornaram possíveis proezas logísticas. Basta vislumbrar as dificuldades do cerco de Diên Biên Phu: durante 55 dias, jangadas e bicicletas, que se esgueiravam pelas trilhas da floresta, abasteceram de alimentos e munições um exército sob chuva de bombas e napalm.

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De volta a Diên Biên Phu, em 1994, quarenta anos após vencer os franceses. Abnegação dos soldados e unidade profunda com camponeses eram conceitos-chave para Giap.

Para Giap, a guerra revolucionária comportava três fases: a defesa estratégica, a guerrilha e a contraofensiva. Ele foi insuperável nas duas primeiras, mas se mostrava às vezes impaciente, nas operações de grande amplitude. Soube, porém, transformar uma derrota tática, como a de Tet, numa vitória política: a opinião pública norte-americana tremeu, quando descobriu a onipresença dos “vietcongues”.

Afrontado por uma lógica de aniquilação, Giap desenvolveu uma estratégia que fez voar em pedaços o que ele chamava de “mito da insuperável potência das tropas norte-americanas”. Segundo um de seus biógrafos, Cecil B. Currey, Giap foi “talvez o único gênio militar do século 20 e um dos maiores de todos os tempos” – porque “desencadeou uma batalha contra seus inimigos a partir de uma situação de grande fraqueza, começando quase sem tropas, porém capaz de vencer sucessivamente os vestígios do império japonês, os exércitos da França (à época segundo império colonial) e os Estados Unidos, então uma das duas superpotências do mundo”

Tradução: Antonio Martins


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