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Dilma enfrenta mitos e faz comparação demolidora

29 de julho de 2013

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Ao reafirmar lealdade ao ex-presidente Lula, a presidenta Dilma Rousseff irrita oposição, mas se distingue num País acostumado a ver as criaturas políticas procurarem devorar seus criadores. Ao comparar 4,4 milhões vagas de trabalho criadas em 30 meses de gestão frente às menos de 825 mil abertas nos primeiros quatro anos de Fernando Henrique, a presidenta mostra que Brasil está “crescendo mesmo com um vendaval em nossa cara”, referindo-se às adversidades do cenário externo.

Via Brasil 247

Generosa em discursos públicos, mas sovina em relação a entrevistas à mídia, a presidenta Dilma Rousseff nada perdeu, ao contrário, ao falar por quase três horas com a jornalista Mônica Bergamo. O conteúdo do encontro estampou a primeira página do jornal Folha de S.Paulo no domingo, dia 28, sob o título “Lula não vai voltar porque ele nunca saiu”, afirma Dilma.

Sem contar, sobre Lula, nenhuma novidade – “Querida, olha, vou-te falar uma coisa: Lula e eu somos indissociáveis” –, a presidente irritou seus críticos ao enfrentar o mito da lealdade entre os políticos. Dos que orbitam, no PSDB, sob a influência do chefe partidário Fernando Henrique Cardoso, aos que pautam seus movimentos pelos passos do governador Eduardo Campos, do PSB, alcançando os fiéis seguidores de Marina Silva, do Rede Solidariedade. Por que cada um que tem seu líder e modelo tem dificuldade em aceitar que Dilma também tenha, ela própria, um político referencial?

Num país que se acostumou a ver criaturas políticas procurando devorar seus criadores, causa espécie Dilma agir de maneira leal com o ex-presidente. Mas, a não ser pelos interesses político-eleitorais, essa atitude de entendimento com o antecessor deveria ser comemorada. Afinal, a presidente elegeu-se pela mão de Lula e, uma vez no poder, não faz como outros tantos que na primeira chance renegam até mesmo o passado recente em nome de autonomia e independência, os nomes mais bonitos para o que também se poderia chamar de ingratidão e traição.

FHC rejeitou aproximação

Se ainda precisasse explicar mais suas ligações com Lula, Dilma poderia argumentar que, do ponto de vista institucional, com ex-presidentes, ela procurou formalmente o ex-presidente Fernando Henrique. A ele, até mesmo dirigiu carta escrita de próprio punho, com elogios à sua gestão, e muito comemorada pela oposição. Porém, em lugar de uma postura de união nacional, FHC preferiu manter-se em sua casamata da qual desfere ora ironias, ora críticas sem humor ao governo. O que restaria a Dilma, então, isolar-se ou manter acesa a chama de seu histórico relacionamento com Lula? A resposta é óbvia.

Sem meias palavras em relação a todos os temas levantados pela entrevistadora, Dilma foi definitiva ao lembrar que, graças à internet, pode-se despachar várias vezes ao dia, mesmo à distância, com diferentes ministros. A presidente já foi muito criticada por meio da contagem de seus encontros pessoais com alguns integrantes do primeiro escalão, mas o argumento que ela apresentou é, sem dúvida, bastante razoável – e, nestes tempos de cobrança por economia, até coerente.

“Eu acho fantástico, nesse mundo de mídias, vocês acharem que o despacho seja apenas presidencial.”

Pauta da oposição

A presidente mostrou que não vai ceder frente aos reclamos sobre redução no número de ministérios. Estes vêm, especialmente, da oposição. Dilma diz que não vê economia nesse gesto potencial, acrescentando que os primeiros ministérios a serem reduzidos seriam os de pequena estrutura, mas socialmente importantes, como da Igualdade Racial, de Diretos Humanos e Política para as Mulheres. Por sinal, ministérios que tiveram indicação de titulares por ela própria, e não por circunstâncias de alianças partidárias (de resto, o mesmo que acontece em qualquer grande democracia do mundo).

Quando demonstra, claramente, que não vai reduzir, pelos ministérios, o tamanho do governo, mas, ao mesmo tempo, ordena um corte de R$10 bilhões no Orçamento, a presidente demonstra que não está aceitando a pauta que a oposição tenta-lhe impor. Dilma se mostra firme, em plena autoridade. Uma postura que não corresponde às avaliações, primeiro de José Serra, e depois de Aécio Neves, de que a gestão dela vai acabando antes da hora, como as dos presidente João Goulart e Fernando Collor (exemplos citados diretamente por Serra em teleconferência na semana passada).

Parece estar sepultada, após a entrevista a Mônica Bergamo (fotografada por Marlene Bergamo), ao menos pelos próximos dias, a constante boataria sobre a derrubada do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que “está onde sempre esteve”.

Comparação demolidora

Para demonstrar sua confiança nos resultados que Mantega vem alcançando com a política econômica, Dilma citou a geração, nos 30 meses de seu governo até aqui, de 4,4 milhões empregos formais – lembrando, em contrapartida, que FHC, em quatro anos, abriu menos de 825 mil novas vagas de trabalho. Além disso, citou o IPC-15 mostra, para julho, uma prévia de 0,07%. “Tá?”, perguntou a presidente. “Ela (a inflação) é cadente, assim ó (apontando para baixo).

Entre outros pontos importantes, um especialmente deve estar, agora e para o futuro, incomodando os barões da mídia tradicional. Em apenas uma frase, a presidente mostrou qual é seu modelo de regulação da mídia, muito mais para o que acontece nos Estados Unidos (onde, por exemplo, as redes de tevês pagam mais impostos à medida em que detém mais audiência, e a propriedade cruzada de meios de comunicação é tolhida de várias maneiras) do que para o que ocorre, digamos, em Cuba.

“Vou te dizer o seguinte: não sou a favor da regulação do conteúdo. Sou a favor da regulação do negócio.”

Ao adiantar que, “em algum momento”, pode tomar a iniciativa de mexer nos ganhos das empresas de comunicação agigantadas, mas garantido-lhes a sagrada liberdade de expressão, Dilma, sem medo de novas críticas, mostrou uma coragem bastante saudável para um governante de um país historicamente regulado, ele sim, pelos ditames da mídia tradicional.

Revelações de Fux impõem mudanças na escolha para STF

6 de dezembro de 2012

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Marcelo Semer, via Terra Magazine

As revelações do ministro Luiz Fux à jornalista Mônica Bergamo sobre sua campanha ao STF, publicadas domingo, dia 2, na Folha de S.Paulo, são no mínimo constrangedoras.

Fux admitiu ter buscado apoio de José Dirceu, quando já fora do governo, esquecendo-se que ele era réu do processo que se propunha a julgar. Disse ter grudado no pé do ex-ministro Delfim Netto ao saber que era uma pessoa com influência no poder. E ainda ter pedido ajuda a Antônio Palocci e João Pedro Stédile logo após julgar processos que interessavam a União e aos sem-terra, no Superior Tribunal de Justiça.

Talvez Fux tenha preferido esclarecer seus contatos e apoiadores antes que outros o fizessem publicamente. Talvez tenha agido por entender ser este o caminho natural para o “soldado que quer virar general”, concluindo, no processo da candidatura, que na “meritrocracia não chegaria lá”.

Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que outros candidatos chegaram a ministros sem um périplo entre agentes públicos e autoridades, independente do notável saber jurídico comum a todos.

Competindo à Presidência da República, por certo que a escolha sempre terá um componente político.

Nem é desarrazoado que assim seja.

Nos Estados Unidos, de onde importamos o modelo, não há surpresas no fato de que os presidentes nomeiam juristas com perfis que se aproximam de suas visões de mundo. As mudanças de governo sempre representam, a médio prazo, alterações significativas de composição na Suprema Corte e isso não deveria ser diferente por aqui.

A questão mais delicada é a ocultação dos movimentos, que formata uma política de gabinete com total opacidade, abrindo espaço para pedidos e interesses escusos.

Os relatos de Fux lembraram um pouco as inconfidências de Eliana Calmon, que debitou sua escolha à influência do apoio de políticos como Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e José Sarney.

Os ministros, bem-sucedidos em suas campanhas, têm em comum não apenas a sinceridade, mas o fato de terem revelado seus apoiadores apenas depois da indicação.

Se a escolha da Presidência é política e, por consequência, a aprovação pelos senadores também, não seria o caso de expor tais apoios antes da sabatina?

Entidades como a Associação Juízes para a Democracia e a Articulação Justiça e Direitos Humanos têm sugerido publicamente a adoção do modelo argentino, que não depende de nenhuma mudança constitucional.

A Presidência indicaria os nomes que estão sendo considerados para a escolha e estas pessoas apresentariam seus currículos, bens e ligações profissionais, abrindo-se oportunidade para que operadores do direito e entidades da sociedade civil formulassem, também de forma pública, seus apoios.

Tolher o caráter político da escolha do ministro é inviável, mas é possível torná-lo mais transparente.

Pelo menos para que o Senado, ao cumprir o seu papel na sabatina, possa arguir o candidato inclusive acerca de quem sustenta sua indicação. E fazer com que o ministro, ao final nomeado, assuma o importante cargo da República sem qualquer esqueleto no armário.

Marcelo Semer é juiz de Direito em São Paulo, escritor e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia.

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Luiz Fux, a vaidade engoliu o esperto

Luiz Fux, a vaidade engoliu o esperto

5 de dezembro de 2012

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Luis Nassif em seu Advivo

Quando, no decorrer do julgamento do “mensalão”, começaram a circular as primeiras versões sobre o périplo de Luiz Fux em Brasília, para conseguir a indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), confesso que fiquei com um pé atrás e me recusei a divulgar.

O quadro que me traçavam era de uma pessoa sem nenhum caráter. Eram histórias tão esdrúxulas que só podiam partir de quem pretendia desmoralizar o Supremo.

Uma das histórias era sobre sua visita a Antônio Palocci. Ele próprio, Luiz Fux, teria entrado no tema “mensalão” e assegurado que, se indicado ministro do STF, “mataria no peito” o processo, afastando o perigo de gol.

A mesma conversa teria tido com José Dirceu. Falava-se também das manobras para aproximar-se de Delfim e do MST, mas descrevendo um cara de pau tão completo que parecia um exercício de ficção em cima de Pedro Malasartes, Macunaíma ou outros personagens folclóricos.

Com sua competência imbatível, Mônica Bérgamo recolheu todas as lendas e perguntou sobre elas ao personagem. Fux se vangloria tanto da esperteza que deixou de lado a prudência e confirmou todas as malandragens. Como se diz em Minas, a esperteza comeu o esperto.

Prefere entrar para a história como o esperto. Que assim seja.

Por Zuleica Jorgensen

Se ele contou tudo isso a Mônica Bérgamo e, se contou, ele fez realmente tudo que diz, processo nele por corrupção ativa. Como é que alguém pode julgar determinado processo, que faz o governo poupar US$20 milhões, e depois fica implorando uma nomeação para o STF? Como é que um juiz homologa um acordo que beneficia o MST – sem fazer aqui juízo de valor sobre o caso – e depois pede uma recomendação do Stédile para ser indicado ministro do STF? Como é que um cara que entra para a magistratura já mirando no STF pode ser confiável?

Tudo muito estranho, parece mesmo um sincericídio como diz a reportagem.

***

Em campanha para o STF, Fux procurou Dirceu

Mônica Bérgamo

O ministro Luiz Fux, 59, diz que desde 1983, quando, aprovado em concurso, foi juiz de Niterói (RJ), passou a sonhar com o dia em que se sentaria em uma das onze cadeiras do Supremo Tribunal Federal (STF).

Quase 30 anos depois, em 2010, ele saía em campanha pelo Brasil para convencer o então presidente Lula a indicá-lo à corte.

Fux era ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o penúltimo degrau na carreira da magistratura. “Estava nessa luta” para o STF desde 2004 – sempre que surgia uma vaga, ele se colocava. E acabava preterido. “Bati na trave três vezes”, diz.

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Ministro Luiz Fux no prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília.

“Pensei que não tinha provas; li o processo do mensalão e fiquei estarrecido”, diz Fux

Aval

Naquele último ano de governo Lula, era tudo ou nada.

Fux “grudou” em Delfim Netto. Pediu carta de apoio a João Pedro Stédile, do MST. Contou com a ajuda de Antônio Palocci. Pediu uma força ao governador do Rio, Sérgio Cabral. Buscou empresários.

E se reuniu com José Dirceu, o mais célebre réu do mensalão. “Eu fui a várias pessoas de São Paulo, à Fiesp. Numa dessas idas, alguém me levou ao Zé Dirceu porque ele era influente no governo Lula.”

O ministro diz não se lembrar quem era o “alguém” que o apresentou ao petista.

Fux diz que, na época, não achou incompatível levar currículo ao réu de processo que ele poderia no futuro julgar. Apesar da superexposição de Dirceu na mídia, afirma que nem se lembrou de sua condição de “mensaleiro”.

“Eu confesso a você que naquele momento eu não me lembrei”, diz o magistrado. “Porque a pessoa, até ser julgada, ela é inocente.”

Conversaram uma só vez e por 15 minutos, segundo Fux. Conversaram mais de uma vez, segundo Dirceu.

A equipe do petista, em resposta a questionamento da Folha, afirmou por e-mail: “A assessoria de José Dirceu confirma que o ex-ministro participou de encontros com Luiz Fux, sempre a pedido do então ministro do STJ.”

Foram reuniões discretas e reservadas.

Currículo

Para Dirceu, também era a hora do tudo ou nada.

Ele aguardava o julgamento do mensalão. O ministro a ser indicado para o STF, nos estertores do governo Lula, poderia ser o voto chave da tão sonhada absolvição.

A escolha era crucial.

Fux diz que, no encontro com Dirceu, nada disso foi tratado. Ele fez o seguinte relato à Folha:

Luiz Fux – Eu levei o meu currículo e pedi que ele [Dirceu] levasse ao Lula. Só isso.

Folha – Ele não falou nada [do mensalão]?

Ele falou da vida dele, que tava se sentindo… em outros processos a que respondia…

Tipo perseguido?

É, um perseguido e tal. E eu disse: “Não, se isso o que você está dizendo [que é inocente] tem procedência, você vai um dia se erguer”. Uma palavra, assim, de conforto, que você fala para uma pessoa que está se lamentando.

Mato no peito

Dirceu e outros réus tiveram entendimento diferente. Passaram a acreditar que Fux votaria com eles. Uma expressão usual do ministro, “mato no peito”, foi interpretada como promessa de que ele os absolveria.

Fux nega ter dado qualquer garantia aos “mensaleiros”.

Ele diz que, já no governo Dilma Rousseff, no começo de 2011, ainda em campanha para o STF [Lula acabou deixando a escolha para a sucessora], levou seu currículo ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Na conversa, pode ter dito “mato no peito”.

Folha – Cardozo não perguntou sobre o mensalão?

Não. Ele perguntou como era o meu perfil. Havia causas importantes no Supremo para desempatar: a Ficha Limpa, [a extradição de Cesare] Battisti. Aí eu disse: “Bom, eu sou juiz de carreira, eu mato no peito”. Em casos difíceis, juiz de carreira mata no peito porque tem experiência.

Em 2010, ainda no governo Lula, quando a disputa para o STF atingia temperatura máxima, Fux também teve encontros com Evanise Santos, mulher de Dirceu. Em alguns deles estava o advogado Jackson Uchôa Vianna, do Rio, um dos melhores amigos do magistrado.

Evanise é diretora do jornal Brasil Econômico. Os dois combinaram entrevista “de cinco páginas” do ministro à publicação. Evanise passou a torcer pela indicação de Fux.

Em Brasília, outro réu do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT/SP), articulava apoio para Fux na bancada do PT. A movimentação é até hoje um tabu no partido. O deputado Cândido Vacarezza (PT/SP) é um dos poucos que falam do assunto.

Vacarezza – Quem primeiro me procurou foi o deputado Paulo Maluf. Eu era líder do governo Lula. O Maluf estava defendendo a indicação e me chamou no gabinete dele para apresentar o Luiz Fux. Tivemos uma conversa bastante positiva. Eu tinha inclinação por outro candidato [ao STF]. Mas eu ouvi com atenção e achei as teses dele interessantes.

Folha – E o senhor esteve também na casa do ministro Fux com João Paulo Cunha?

Eu confirmo. João Paulo me ligou dizendo que era um café da manhã muito importante e queria que eu fosse. Eu não te procurei para contar. Mas você tem a informação, não vou te tirar da notícia.

O mensalão foi abordado?

Não vou confirmar nem vou negar as informações que você tem. Mas eu participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, eu preferia não falar.

Fux confirma a reunião. Mas diz que ela ocorreu depois que ele já tinha sido escolhido para o STF. Os petistas teriam ido cumprimentá-lo.

Na época, Cunha presidia comissão na Câmara por onde tramitaria o novo Código de Processo Civil, que Fux ajudou a elaborar.

Sobre Maluf, diz o magistrado: “Eu nunca nem vi esse homem”. Maluf, avisado do tema, disse que estava ocupado e não atendeu mais às chamadas da Folha. Ele é réu em três processos no STF.

Choro

No dia em que sites começaram a noticiar que ele tinha sido indicado por Dilma para o STF, “vencendo” candidatos fortes como os ministros César Asfor Rocha e Teori Zavascki, também do STJ, Fux sofreu, rezou, chorou.

Luiz Fux – A notícia saiu tipo 11 horas. Mas eu não tinha sido comunicado de nada. E comecei a entrar numa sensação de que estavam me fritando. Até falei para o meu motorista: “Meu Deus do céu, eu acho que essa eu perdi. Não é possível”. De repente, toca o telefone. Era o José Eduardo Cardozo. Aí eu, com aquela ansiedade, falei: “Bendita ligação!”. Ele pediu que eu fosse a seu gabinete.

No Ministério da Justiça, ficou na sala de espera.

Luiz Fux – Aí eu passei meia hora rezando tudo o que eu sei de reza possível e imaginável. Quando ele [Cardozo] abriu a porta, falou: “Você não vai me dar um abraço? Você é o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal”. Foi aí que eu chorei. Extravasei.

De fevereiro de 2011, quando foi indicado, a agosto de 2012, quando começou o julgamento do mensalão, Fux passou um período tranquilo. Assim que o processo começou a ser votado, no entanto, o clima mudou.

Para surpresa dos réus, em especial de Dirceu e João Paulo Cunha, ele foi implacável. Seguiu Joaquim Barbosa, relator do caso e considerado o mais rigoroso ministro do STF, em cada condenação. Foi o único magistrado a fazer de seus votos um espelho dos votos de Barbosa. Divergiu dele só uma vez.

Quanto mais Fux seguia Barbosa, mais o fato de ter se reunido com réus antes do julgamento se espalhava no PT e na comunidade jurídica. Advogados de São Paulo, Rio e Brasília passaram a comentar o fato com jornalistas.

A raiva dos condenados, e até de Dilma, em relação a Fux chegou às páginas dos jornais, em forma de notas cifradas em colunas – inclusive da Folha.

Pelo menos seis ministros do STF já ouviram falar do assunto. E comentaram com terceiros. Fux passou a ficar incomodado. Conversou com José Sarney, presidente do Senado. “Sei que a Dilma está chateada comigo, mas eu não prometi nada.” Ele confirma.

Na posse de Joaquim Barbosa, pouco antes de tocar guitarra, abordou o ex-deputado Sigmaringa Seixas, amigo pessoal de Lula. Cobrou dele o fato de estarem “espalhando” que prometera absolver os “mensaleiros”.

Ao perceber que a Folha presenciava a cena, puxou a repórter para um canto. “Querem me sacanear. O pau vai cantar!”, disse. Questionado se daria declarações oficiais, não respondeu. Dias depois, um emissário de Fux procurou a Folha para agendar uma entrevista.

Raio X – Luiz Fux, 59

Origem

Rio de Janeiro (RJ)

Família

Casado com Eliane Fux, tem dois filhos: Rodrigo e Marianna, ambos advogados

Formação

Bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Concluiu doutorado em Processo Civil, também pela Uerj

Carreira

Atuou por 18 anos no Ministério Público do Rio. Foi juiz em para Niterói (RJ). Passou a desembargador do TJ/RJ em 1997 e, em 2001, foi nomeado pelo então presidente FHC para o STJ. Está no Supremo desde 2011, indicado por Dilma

Fux e a fogueira das vaidades

3 de dezembro de 2012
O topete é implante.

O topete foi implantado.

Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

Qual seria a verdadeira intenção do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao relatar para a Folha de S.Paulo o processo pelo qual conseguiu chegar à Suprema Corte? E qual seria o propósito da Folha ao conceder generosamente duas páginas inteiras, na edição de domingo, dia 2, às confissões do ministro?

Apontado como traidor por representantes do Partido dos Trabalhadores, por haver votado pelas decisões mais duras no STF contra os acusados no núcleo político da Ação Penal 470, apesar de ter sido indicado ao posto por alguns desses personagens, ele se viu na contingência de afirmar que não tinha obrigações para com seus apoiadores.

Seria apenas essa a motivação do ministro? Reafirmar sua independência?

A verdade é que, ao relatar detalhadamente o esforço que fez, em duas ocasiões, para ser conduzido ao Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux escancara o complicado jogo de acomodações e tráfico de influência que define a composição da mais alta instância da Justiça.

Não que os jornalistas e a maioria dos leitores mais críticos de jornais não saibam como se dá esse processo. Mas daí a descrever como um magistrado vagueia de gabinete em gabinete, de restaurante em restaurante, a mendigar a lembrança de seu nome, vai a diferença que pode valer a reputação do próprio tribunal.

Mendicância de favores

O ministro e a jornalista que o entrevistou, a colunista Mônica Bergamo, sabem muito bem que tais declarações podem conduzir ao raciocínio segundo o qual as duras e polêmicas decisões do STF na Ação Penal 470 podem ter sido influenciadas justamente pelo sentimento explicitado por Fux na entrevista – a obsessão de provar que não deve favores.

Também neste caso, aqueles que acusam a Corte de haver sido influenciada por motivações políticas acabam ganhando um argumento de peso. Segundo a Folha, o ministro procurou o jornal para conceder a entrevista. Ele se sentia pressionado por insinuações que vinham aparecendo na imprensa dizendo que ele havia se reunido com réus do processo antes do julgamento.

Luiz Fux declara, na entrevista, que pediu ajuda ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, ao ex-ministro José Dirceu, aos deputados João Paulo Cunha e Cândido Vaccarezza, ao ex-ministro Delfim Netto, ao líder do MST João Pedro Stédile e a outros personagens, para ser indicado ao STF.

Entre esses avalistas de sua candidatura, Dirceu e Cunha estavam com a corda no pescoço quando Luiz Fux pediu ajuda para ser guindado à instância máxima da carreira no Judiciário.

Ele nega, na entrevista, que tenha pedido o apoio também de Paulo Maluf, que tem pelo menos três acusações pendentes de julgamento no STF. O ministro afirma que, ao levar seu currículo a José Dirceu, não se lembrou de que ele era réu na Ação Penal 470. Acreditar nisso seria o mesmo que desconsiderar o tirocínio do magistrado. Inevitável imaginar que um jurista assim distraído não deve ter o perfil adequado para ser ministro da Suprema Corte de Justiça, mas ele chegou lá.

Suas justificativas, mais do que servirem de vacina contra maledicências que, segundo afirma, andam espalhando por aí, acabam reforçando a desconfiança de que não apenas ele, mas todos os ministros indicados para o STF fizeram o mesmo caminho da mendicância de favores, o que atinge diretamente a reputação do Supremo Tribunal Federal e de todo o Judiciário.

Cativo arbítrio

Ao procurar se contrapor a intrigas que, em sua opinião, poderiam afetar sua imagem pessoal, o ministro Fux acaba resvalando para a política rasteira, arrastando consigo toda a Corte.

O contexto que ele explicita como sendo o processo de indicação e escolha dos magistrados que irão compor um dos três poderes máximos da República não exala qualquer essência da pompa que a toga quer significar. Só está faltando aparecer um bilhete de Rosemary Noronha apoiando sua postulação.

O uso da expressão “mato no peito”, que teria sido interpretada como uma promessa de julgamento favorável dos réus que apoiaram sua ascensão na carreira, também não contribui para melhorar seu perfil. E mesmo sua performance como guitarrista, na posse do novo presidente do STF, Joaquim Barbosa, não combina com a circunstância solene.

Completam o perfil que ele mesmo oferece as preferências de leitura do ministro: um livro de autoajuda intitulado Nietzsche para estressados.

Fux poderia ter ido ao original: Além do bem e do mal é obra seminal de Nietzche, mais adequada a pessoa com suas responsabilidades. Principalmente o trecho em que o filósofo fala sobre a distância entre o livre arbítrio e o cativo arbítrio.

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Ministro Luiz Fux conta à Folha como enganou José Dirceu

Ministro Luiz Fux conta à Folha como enganou José Dirceu

3 de dezembro de 2012

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Numa entrevista em que abre seu coração, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, revela à jornalista Mônica Bergamo os caminhos que percorreu para chegar à corte máxima do País. Ele próprio diz que fez lobby junto a Delfim Netto, Antônio Palocci, João Pedro Stédile e… pasmem… José Dirceu. Fux diz ainda que não se lembrava que o ex-ministro da Casa Civil era réu e seria julgado por ele, embora admita ter pronunciado a expressão “mato no peito”. Dá para acreditar?

Via Brasil 247

Corre em Brasília que, antes de ser indicado para o Supremo Tribunal Federal, o ministro Luiz Fux cunhou uma frase emblemática. “Mensalão? Eu mato no peito”, com jeitão típico de carioca. Se é verdade ou não, pouca gente sabe. Mas o fato é que Fux pediu ao próprio José Dirceu, apontado como “chefe de quadrilha” pelo procurador-geral Roberto Gurgel, para ser indicado ao STF. Sobre matar no peito… bom, aí é outra história. Fux admite que pode ter dito a frase, mas com outra conotação. E sempre votou pela condenação dos réus – em quase todos os casos, alinhado com o relator Joaquim Barbosa.

Se Fux mentiu em sua caminhada rumo ao STF, é uma questão para administrar junto a seu travesseiro. Mas ele concedeu uma entrevista à jornalista Mônica Bergamo, que circulou no domingo, dia 2, na Folha, no mínimo desastrosa. Fux revela como fez lobby e se humilhou para chegar à suprema corte. Pediu favores a todos que poderiam lhe ajudar – inclusive ao próprio Dirceu, a quem teria a missão de julgar. Sobre isso, ele conta uma história pouco crível. “Eu confesso a você que naquele momento não me lembrei [que Dirceu era réu]”, disse Fux a Bergamo. “Porque a pessoa, até ser julgada, é inocente.”

Fux revela que sonhava com o STF desde 1983, quando foi aprovado num concurso para juiz em Niterói (RJ). E afirma que estava lutando para chegar à suprema corte desde 2004. “Bati na trave três vezes”, disse.

Sentindo-se preterido, ele partiu para o “tudo ou nada”. E se aproximou de todos que pudessem ajudá-lo. O primeiro foi Delfim Netto. “Fizemos amizade em um debate. E aí comecei a estreitar. Alguém me disse: ‘Olha, o Delfim é uma pessoa ouvida pelo governo’. Eu colei no pé dele”, revela Fux, em seu ato de “sincerídio”.

O ministro também pediu ajuda a João Pedro Stédile, líder dos sem-terra, e a Antônio Palocci, o queridinho dos mercados financeiros. “Houve confronto e eu fiz uma conciliação no STJ entre fazendeiro e sem-terra. Depois pedi ao Stédile para mandar fax me recomendando. Ele mandou”, conta. Em relação a Palocci, Fux revela que deu um voto que ajudou o governo a poupar US$20 bilhões. “Você poupar US$20 bilhões, o governo vai achar o máximo. Aí toda vez que eu concorria, ligava para o Palocci.”

O mais surpreendente, no entanto, é ele ter procurado o próprio Dirceu, que era o principal réu na Ação Penal 470. Fux diz que não se lembrava dessa situação e que imaginava não haver provas. Mas afirma que, quando leu o processo, encontrou evidências assustadoras. “Eu tinha a sensação ‘bom, não tem provas’. Eu pensei que realmente não tivesse. Quando li o processo, fiquei estarrecido.” O ministro procurou também João Paulo Cunha, outro réu condenado na Ação Penal 470, na campanha que fez rumo ao STF. “Só na meritocracia não vai.”

A entrevista da Folha revela um juiz vaidoso. Que fala de seu próprio implante capilar e da preocupação estética. “Quando a roupa aperta, neurotizo.” Fux não se incomoda em demonstrar que fez de tudo para chegar ao STF – inclusive, tomando decisões que pudessem agradar alguns padrinhos, como Palocci e Stédile. Ao ser confirmado, num encontro com o ministro José Eduardo Cardozo, Fux diz que se emocionou como uma criança. “Foi aí que eu chorei. Extravasei.”


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