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A desinformação sobre Pizzolato e outras maquinações

19 de fevereiro de 2014

Pizzolato06

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

A grande mídia continua fazendo um excelente trabalho de contrainformação quando o assunto é Henrique Pizzolato e “mensalão”. Os leitores têm de tomar muito cuidado. O “mensalão” sempre foi uma operação eminentemente midiática. E continua sendo. Os mesmos grupos que fizeram o que fizeram, não só durante o julgamento da Ação Penal 470, mas antes, durante a montagem da peça de acusação, continuam agindo. Eles vão usar todas as suas armas agora para desmoralizar Pizzolato porque entendem que isso será necessário para minimizar os contra-ataques que podem vir da Justiça italiana.

Diariamente os jornais trazem notícias pretensamente “bombásticas” sobre Pizzolato. O importante é desconstruir, ao máximo, a sua figura, e criar uma agenda negativa para se contrapor à campanha de solidariedade aos réus petistas que vem constrangendo profundamente a mídia.

A matéria de O Globo de segunda-feira, dia 17, por exemplo, desinforma muito mais do que qualquer outra coisa. O subtítulo é genial: “Extratos encontrados na Itália apontam operações em muitos países europeus”. Qual a intenção agora? Pintar Pizzolato como um grande criminoso internacional, chefe das máfias em vários lugares do mundo?

O que há de concreto sobre o fugitivo é o seguinte:

1 – Sua fuga foi completamente atabalhoada. Apesar de, supostamente, tê-la planejado desde 2008, quando renovou os documentos do irmão, Pizzolato fugiu pela Argentina usando o cartão de crédito da própria mulher. O fato de usar os documentos do irmão também não pressupõe nenhuma sofisticada mente criminosa. Não quero justificar, mas temos que manter as proporções. Tudo que Pizzolato fez se deu após a constatação de que a guilhotina de uma Justiça falsa iria desabar fatalmente sobre seu pescoço.

2 – Pizzolato foi preso na casa de seu sobrinho, e todo mundo sabia que ele tinha um sobrinho na Itália, o que mostra uma total falta de cuidado. Parecia que Pizzolato queria ser pego. Ao apresentar os documentos de seu irmão à polícia, Pizzolato também se mostrou uma pessoa completamente despreparada. É o anticriminoso por excelência. É prova também que não havia “nenhum grupo forte” por trás de Pizzolato, conforme se aventou meses atrás. Até agora tem sido defendido por um advogado indicado pela polícia, ou seja, se não é um advogado público ou gratuito, é o mais barato possível. Aliás, espero que seja um bom advogado, ou então que Pizzolato tenha condições de contratar o melhor advogado criminal possível.

3 – Ele ficou no Brasil até o último dia possível, trabalhando 24 horas em sua defesa. Não se escondeu. Foi a diversos eventos do PT onde explicava o que acontecia. Fazia reuniões com jornalistas, militantes, curiosos, tentando mostrar a sua versão dos fatos. Não era, nem de longe, o comportamento de um criminoso. Sempre teve o comportamento de um cidadão angustiado para provar sua inocência.

4 – Até agora, a polícia italiana, encontrou extratos que falam de somente de 30 mil euros, quantia irrisória para um alto executivo do Banco do Brasil e sua esposa arquiteta. No entanto, é possível que Pizzolato tenha mais dinheiro guardado, dinheiro seu, próprio, acumulado em mais de 40 anos de trabalho, conforme explicarei mais abaixo.

5 – A matéria do Globo fala de contas em “vários países”. No subtítulo, troca-se “vários” por “muitos”. Uma mudança sutil, mas importante e maliciosa. A única informação concreta da polícia italiana é que Pizzolato e sua esposa tinham contas na Espanha. Pizzolato praticamente morou na Espanha entre 2006 e setembro 2012. Se quisesse fugir, aliás, teria fugido nesse período. Provavelmente abriu uma ou mais contas na Espanha nessa época. Quando fugiu, deve ter raspado todo o dinheiro que possuía. Daí as “várias operações”.

6 – A irmã de Pizzolato era (ainda é, pelo que eu sei) diarista em hospital e casas de famílias há muitos anos na Espanha. Pizzolato a ajudava financeiramente sempre que podia, e também a ajudou a resolver alguns problemas familiares que aconteceram por lá nos últimos anos.

7 – Até o momento, portanto, Pizzolato tinha contas na Espanha, onde sua irmã residia, e na Itália, onde mora desde que para lá fugiu. Os “muitos países” do subtítulo, até o momento, são apenas dois, com explicações concretas para tal.

8 – Reproduzo abaixo um comentário que publiquei, há alguns dias, como resposta a um internauta que me fez perguntas sobre a tal conta na Suíça de Pizzolato, sobre a qual não há, até o momento, nenhum rastro.

“Não sei, Luís. Pode ser mentira, pode ser uma verdade mal contada. Também desencanei dessa história. O fogo é saber que a mídia jamais vai querer explicar as coisas direito. Sempre haverá essa terrível má-intenção deliberada, que é uma coisa sinistra nessa história do “mensalão”. O interesse político está muito acima do interesse pela verdade.

Pizzolato é hoje o brasileiro com a vida mais devassada do mundo. Não conheço tanto assim o Pizzolato, mas pelo descobri, dele mesmo e de terceiros, ele vendeu tudo que tinha e deu pra mulher. Pizzolato não era pobre. Algumas vezes eu uso demais a mim mesmo como referência e acabo esquecendo que nem todo mundo é duro. Ele era de família tradicional do Paraná, de imigrantes trabalhadores e poupadores como ainda vemos no interior do sul do país. Começou a trabalhar muito cedo no Banco do Brasil e se tornou graduado por eleições internas. Foi o primeiro sindicalista eleito pelos próprios funcionários. Antes, só os funcionários indicados pelo alto galgavam postos na empresa. Um amigo dele me contou que Pizzolato era um dos raros funcionários do BB que nunca usou cheque especial. Ele e a esposa sempre foram muito disciplinados com dinheiro. A esposa era arquiteta e fazia projetos. Em 30 ou 40 anos de Banco do Brasil, ele morou em umas 10 cidades, em todas sempre adquiria a casa ou apartamento onde residiu. Sem contar que Pizzolato trabalhou por bastante tempo no Conselho da Previ (sempre indicado democraticamente pelos funcionários), e ganhava muito bem por essa função.

Uma jornalista do Correio Braziliense descobriu e publicou reportagem há alguns dias trazendo todos os dados fiscais de Pizzolato até 2005. No imposto de renda, ele tinha cerca de dez imóveis, todos adquiridos antes do governo Lula. Parece que tinha uma bela casa de praia em Camboriú, Santa Catarina. Esse imóveis eram avaliados pela receita, em números não atualizados, em R$2 milhões. Com o preço desses imóveis atualizados, esse valor pode dobrar ou triplicar. Ou quadruplicar, sei lá.

Se ele mandou esse dinheiro para o exterior, não sei. Pizzolato já sabia que estava lascado. O caso dele, juridicamente, é o mais difícil de virar, porque ele foi condenado por todos, até mesmo pelo Lewandoswki, que embarcou na onda do Visanet.

Se tudo que eu penso que aconteceu, realmente aconteceu, se Pizzolato foi vítima de uma armação jurídica, então eu serei o último a culpá-lo por planejar sua fuga, que naturalmente envolve segurança financeira no lugar para onde você vai. Eu nunca recriminarei a busca pela liberdade. Se um indivíduo acredita realmente na sua inocência, ele tem todo o direito de fugir, se achar que é a única saída que possui para continuar lutando por sua dignidade.”

9 – A campanha de solidariedade aos petistas tem um limite. Ela representa uma postura de enfrentamento. Mas um enfrentamento (paradoxalmente) passivo, quase desesperado, estéril. A verdadeira luta contra as arbitrariedades da Ação Penal 470 se dá no debate sobre o mérito das acusações. E aí é que Pizzolato constitui uma figura central, porque a sua condenação se deu contra as provas. Pizzolato tinha provas de que ele não era responsável pelo Visanet, que o Visanet era 100% privado, e que não foi desviado. Mais ainda, Pizzolato foi o réu mais prejudicado pela ocultação de provas feita por Joaquim Barbosa. O Laudo 2.828 foi escondido. O Inquérito 2.474 foi escondido. Tudo isso prejudicou profundamente a defesa de Pizzolato e outros réus. Além disso, Pizzolato não era parlamentar, nunca foi, e foi julgado diretamente no STF, sem direito a um segundo grau de jurisdição, contrariando a Constituição e os tratados internacionais de direitos humanos assinados pelo Brasil. Outros réus foram vítimas da mesma arbitrariedade, já que apenas dois ou três, de um total de 39, tinham mandato parlamentar.

10 – Pizzolato foi vítima ainda da estratégia de “fatiamento”, essa jogada de gênio (do mal) de Barbosa, feita em cima da hora, pegando de surpresa até mesmo o relator do processo, Lewandowski. A estratégia forçou os réus, seus advogados e a militância a se aferrarem aos casos individuais, ao invés de discutir o todo, o mérito de todo o processo. Com isso, os réus se isolaram em suas próprias defesas. Os militantes e amigos de Dirceu se apegaram somente a seu caso, e assim por diante. Pizzolato, que nunca fez parte de nenhuma corrente do PT, ficou totalmente isolado, só com um ou dois amigos a seu redor. O caso Pizzolato só irá ganhar notoriedade junto a seu próprio campo após as reportagens de Raimundo Pereira na Retrato do Brasil. Mas aí já era tarde demais.

11 – Não sei que espécie de inteligência esteve por trás de tantas maquinações. Mas sei que houve maquinação. Conversando com um deputado federal que viveu intensamente aqueles primeiros anos do “mensalão”, ele me contou algumas coisas interessantes. Ele me contou, por exemplo, que o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, foi convidado a ir a São Paulo por um grupo de empresários. Lá, fizeram-lhe uma proposta. Que ele renunciasse à presidência. Em seu lugar, entraria o deputado Thomaz Nonô, do então PFL/AL, o qual aceitaria o pedido de impeachment do presidente Lula. Mesmo que o Congresso não aceitasse, o pedido serviria para desgastar politicamente o presidente. Cavalcanti não aceitou, em nome da afinidade que sentia com um homem de sua própria terra, vindo da mesmas origens populares como ele próprio. O que pode ter salvado o país, portanto, foi a velha honra pernambucana.

12 – O mesmo deputado (o que conversava comigo, não o Severino) fez a seguinte avaliação de conjuntura. “Não sei quem esteve por detrás disso, Miguel, mas eles tiveram sucesso em sua estratégia: que era evitar a construção de uma hegemonia de esquerda no parlamento, sobretudo do Partido dos Trabalhadores. Não fosse o “mensalão”, o PT elegeria mais deputados. Não haveria a cisão que criou o PSOL. E o governo ficaria menos dependente de acordos com a direita para garantir a governabilidade.”

13 – Eu complementei e o deputado concordou: “Naquela época, Dirceu vinha dando entrevistas fazendo uma defesa da união da América do Sul. Lembro-me de uma entrevista que Dirceu falou inclusive da criação de uma moeda única para todo o continente. Falou em instituir espanhol nas escolas públicas. Isso com certeza apavorou alguns poderosos lá do norte.”

14 – Eu continuei, ainda com anuência do parlamentar: “Apesar de ser considerado, dentro do PT, representante de uma vertente mais conservadora, Dirceu era o quadro mais temido pela direita, por causa de seu entendimento sobre a conjuntura global. Dirceu era o quadro intelectualmente mais bem preparado do Partido dos Trabalhadores, e seria um perigo que ele ganhasse a presidência, porque poderia iniciar ações concretas para realizar o seu objetivo de unir a América do Sul num só bloco político e econômico.”

15 – Tenho mais documentos e informações sobre o caso Pizzolato, que destroem mais ainda a farsa. Mas antes de entrar nessa seara, eu precisava fazer uma marcação política, quase semiótica, sobre o caso. Volto ao assunto em breve.

***

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10 de fevereiro de 2014
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Na Itália, ele pode ser ouvido.

Paulo Nogueira, via DCM

A cinematográfica fuga de Pizzolato para a Itália tem um curioso efeito colateral sobre o mundo político nacional. Na Itália, Pizzolato vai poder falar sobre coisas que ele não teria a quem dizer no Brasil: nem a mídia lhe daria voz e nem muito menos a Justiça o levaria em conta.

Uma pequena amostra disso se viu no final de semana passado. Cercada de jornalistas depois de visitar seu marido na cadeia, Andrea Haas, mulher de Pizzolato, produziu uma mistura de desabafo e manifesto ao ver gente da Globo ali presente.

Ela se dirigiu para a reportagem da Globo. Disse que seu marido tem documentos que provam que a Globo ficou com R$5 milhões do dinheiro da Visanet que alegadamente foi desviado no “mensalão”. (Pizzolato afirma ter como comprovar a utilização de todo o dinheiro que segundo os acusadores teria sido subtraído pelo PT aos cofres públicos para comprar apoio.)

Mais que isso, ela tocou num assunto que é proibido na mídia brasileira: o escândalo da sonegação da Globo. A Globo, como revelaram documentos publicados pelo site Cafezinho, trapaceou e sonegou na compra dos direitos da Copa de 2002.

Num desdobramento inacreditável, uma funcionária da Receita foi flagrada tentando destruir a documentação que provava os delitos da Globo. (Gilmar Mendes, e aí não existe surpresa, concedeu habeas corpus para a amiga da Globo.)

Quanto a mídia foge deste assunto sabemos todos. Perguntei ao editor executivo da Folha, Sérgio Dávila, por que a Folha ficou de fora de uma história que o UOL dera. Sob pressão, a Globo acabou admitindo ao UOL a multa da Receita, e afirmou ter pagado sem jamais exibir o Darf, o recibo fiscal, o que é motivo de chacota até hoje.

Dávila pareceu sensível a minha ponderação jornalística, e no dia seguinte a Folha deu uma nota para o assunto. Eu imaginava que fosse o começo, mas foi o fim. Nunca mais a Folha voltou ao assunto, e nem o UOL.

A Globo com certeza se movimentou, e quando os Marinhos não querem que se toque em algum assunto, a manada se comporta bem, dado seu descomunal poder de intimidação e sua conhecida falta de escrúpulos em fazer o que tiver que ser feito para obter o silêncio.

O problema – ou solução – é que a Globo não controla a Itália. Não manda na mídia italiana, não manda na justiça italiana. Se um repórter italiano decidir ouvir Pizzolato em profundidade, ouvirá. Se o que ele tiver a dizer afetar a Globo, azar dela.

Isso pode mudar muita coisa.

A explosão de Andrea mostrou que os Pizzolatos estão com muita vontade de falar. Caso isso efetivamente ocorra, a Globo não terá como deter o vento, como faz usualmente no Brasil. Isto é muito bom.

***

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10 de fevereiro de 2014
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Para agradar à “grande mídia”, Pizzolato está na lista negra de JB.

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

Reproduzo abaixo um importante texto do Paulo Moreira Leite, mas antes faço alguns comentários. Barbosa não escondeu somente o Inquérito 2.474. Ele também escondeu o Laudo 2.828 que ele mesmo mandou a PF fazer em 2006. Quando o STF começou a discutir a aceitação da denúncia, em 2007, o Laudo 2.828 não foi incorporado ao conjunto de documentos a disposição dos ministros. Só um mês depois de aceita a denúncia, o Laudo 2.828 é agregado à Ação Penal.

Por que Barbosa escondeu o Laudo 2.828?

Simples, porque o laudo inocentava Pizzolato e derrubava o pilar central da acusação: que um petista desviou dinheiro público para Marcos Valério, que por sua vez operava o pagamento a parlamentares. Ter um petista dentro do Banco do Brasil fazendo a ponte entre Valério e o PT era fundamental para dar consistência à farsa.

***

Pizzolato, perseguido político

Não se deve confundir o principal e o acessório na prisão de um condenado pela AP 470.

Paulo Moreira Leite

No momento em que se assiste a uma pequena festa cívica por causa da prisão de Henrique Pizzolato na Itália, convém conhecer melhor alguns dados da Ação Penal 470.

É importante, nessa hora, não confundir o assessório com a substância. Pizzolato foi condenado por peculato, corrupção passiva, lavagem de dinheiro. Mas é bom reconhecer o caráter precário dessas afirmações.

Nem vou falar aqui do Inquérito 2.474, com 78 volumes de provas e testemunhos – inclusive um caudaloso relatório da Polícia Federal – que sequer foram examinados pelos ministros. Foram mantidos em segredo, do próprio STF, em decisão tomada em 2011, com o argumento de que era preciso dar “celeridade” ao processo. Tá bom: celeridade no destino dos outros não arde, nós sabemos.

Vamos em frente e examinar alguns pontos.

Por exemplo. Em novembro de 2007, o STF aceitou a denúncia contra Pizzolato (e outros 39 réus). Mas os ministros votaram no escuro, sem conhecer todas cartas que deveriam estar à mesa. Só depois de votar eles puderam ler o Inquérito 2.828. Embora este documento, do Instituto Nacional de Criminalística, estivesse pronto desde dezembro de 2006, só foi distribuído aos ministros um mês depois da aceitação da denúncia, quando os acusados já haviam sido transformados em réus, naquela decisão em que se votou “com faca no pescoço”, como disse Ricardo Lewandowski. Antes disso, o 2.828 foi mantido em sigilo por Joaquim Barbosa.

Entre outras coisas, lê-se no Inquérito 2.828 uma questão básica para se entender o papel de Pizzolato na AP 470.

O relator Joaquim Barbosa pergunta a quem “competia fazer o gerenciamento dos recursos” do Fundo Visanet repassados a DNA?

Em bom português, o relator queria saber quem fazia os pagamentos – sem o quê, obviamente, não dá para desviar dinheiro para comprar um picolé na praia.

O Banco do Brasil responde: quatro diretores eram responsáveis pela gestão do fundo de incentivo entre 2001 e 2005. O texto faz até um gráfico pequeno, com nomes e datas, para ninguém ficar em dúvida. Não vou escrever o nome deles aqui porque este não é meu papel. O importante é saber que Henrique Pizzolato não se encontra entre eles. Nenhum dos responsáveis, autorizados a liberar o dinheiro, foi indiciado nem julgado. Pizzolato foi condenado como “único responsável” pelos pagamentos. Não era único nem era o responsável.

Outro exemplo. Em novembro de 2005, seis meses depois da célebre entrevista de Roberto Jefferson, os parlamentares da CPMI dos Correios receberam um documento “para uso interno – confidencial” da Visanet. É muito ilustrativo e chocante, quando se vê o que ocorreu depois,

Numa denúncia baseada em desvio de dinheiro público, os parlamentares perguntaram:

A Visanet é uma empresa pública?

Resposta. “Não. É uma empresa de capital privado.”

Qual era a relação do senhor Henrique Pizzolato com a Visanet?

“Nenhuma. “

Outro exemplo. Pizzolato foi acusado de prorrogar o contrato da DNA com o Banco do Brasil para beneficiar o esquema. Não custa lembrar que as prorrogações de contrato são autorizadas por lei, e podem ocorrer três prorrogações de um novo contrato antes de se fazer uma nova licitação. Em 11 de fevereiro de 2003, logo depois da posse de Lula, o Banco do Brasil fez a terceira prorrogação do contrato com a DNA, por seis meses. As duas anteriores haviam sido assinadas em 2001, e 2002, quando o PSDB estava no governo. A prorrogação foi assinada por três diretores. Pizzolato não é um deles nem poderia. Só tomou posse no banco uma semana depois. Ou seja: quando o contrato já fora prorrogado.

Outro exemplo. Conforme a denúncia, o pagamento indevido de Bônus de Volume às agências teria sido uma forma de desviar dinheiro do Banco do Brasil. Até executivos da Globo prestaram depoimento, mostrando que essa visão era distorcida, pois ignorava o funcionamento real do mercado publicitário. Em julho de 2009, Joaquim Barbosa enviou um conjunto de perguntas a direção do Banco do Brasil. Entre outras questões, queria saber se o Banco estava cobrando “a devolução ou o ressarcimento de valores pagos a título de Bônus de Volume.”

Lembrando que os recursos da Visanet não eram de sua propriedade, a resposta do Banco é enfática: “conforme referido no relatório de auditoria, a origem, propriedade e gestão dos recursos do Fundo Visanet pertenciam a Visanet. […] Quem se apresentava como titular desses recursos no plano material era a Visanet, posição exteriorizada no regulamento instituidor do Fundo.” O documento conclui: “desse modo, o Banco do Brasil não tem legitimidade ativa para propor eventual ação de ressarcimento. “

É isso que está escrito. A direção jurídica do BB, a qual Pizzolato deve obediência na matéria, diz que a pergunta do relator envolvia uma cobrança que não tinha “legitimidade.”

Não vou prosseguir aqui para não cansar demais. Só lembro estes fatos para mostrar o seguinte.

Nós sabemos por que Pizzolato foi condenado e imagino que muita gente está pensando nisso agora.

Teria aparecido, teoricamente, um ato de ofício capaz de estabelecer a ligação entre suas decisões como diretor de marketing e o recebimento de R$326 000 em sua casa. A acusação sustenta que ele ganhou esse dinheiro como pagamento pelos serviços prestados ao esquema. Ele diz que eram recursos para o PT e ninguém é obrigado a acreditar em qualquer versão.

Todo mundo tem o direito de pensar o que quiser. Mas eu acho, humildemente, que os fatos acima, que descrevem o papel de Pizzolato, mostram o seguinte. Mesmo que quisesse prestar serviços ilícitos ao esquema, não tinha autoridade nem poderes para tanto. Não podia fazer o que dizem ter feito – muito menos sozinho. Não era o diretor que fazia o pagamento de recursos. Não decidiu a prorrogação dos contratos. Sua relação com a Visanet era “nenhuma”. A cobrança de Joaquim Barbosa, pelo ressarcimento do Bônus de Volume, simplesmente não tinha “legitimidade,” diz o jurídico do banco.

Dá para entender? Dá. É só aceitar a ideia — dolorosa, difícil, mas real — de que o STF fez um julgamento de exceção, aplicando regras que nunca foram aplicadas antes e dificilmente irão se repetir.

Como demonstrou o professor Dalmo Dallari, o STF sequer tinha autoridade constitucional para julgar, em primeira instância, réus que não tinham direito ao foro privilegiado, o que demonstra o caráter questionável de suas decisões. Não custa lembrar – é cansativo mas educativo – que o mensalão do PSDB/MG e o mensalão do DEM/DF não serão julgados da mesma maneira. Numa atitude que equivale a admitir o erro mais uma vez – só falta agora saber quem vai pagar a conta da AP 470 – até o propinoduto tucano será julgado, se isso acontecer, pelo sistema de desmembramento. Precisa de mais?

Acho que não.

É neste ambiente que se deve enxergar a fuga de Pizzolato, os passaportes falsos e outros momentos que levaram a sua prisão na Itália.

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9 de fevereiro de 2014

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Andrea Haas negou crimes atribuídos pelo STF ao petista Henrique Pizzolato.

Jamil Chade, via Estadão on-line

Mulher de Henrique Pizzolato, Andrea Haas visitou no sábado, dia 8, o petista na prisão de Modena, próximo a Maranello. Na primeira tentativa, pela manhã, ela foi barrada por problemas burocráticos. Depois, numa segunda tentativa, conseguiu entrar.

Questionada na saída por jornalistas, ela atacou a imprensa e afirmou que seu marido nunca desviou dinheiro público, como sentenciou o Supremo tribunal Federal. Segundo os ministros da Corte, o ex-diretor do Banco do Brasil desviou R$73 milhões do fundo Visanet, do qual o banco estatal fazia parte junto com bancos privados, para abastecer o esquema de pagamento e parlamentares no primeiro mandato do ex-presidente Lula.

A mulher de Pizzolato então negou os crimes atribuídos pelo Supremo ao petista. “Leiam o regulamento da Visanet, as auditorias do Banco do Brasil. Esses documentos são fundamentais porque provam que o dinheiro não era público, não era do Banco do Brasil”, insistiu. “O dinheiro era privado, da Visanet, uma empresa privada”, declarou, irritada.

Ao identificar a reportagem da TV Globo entre os jornalistas, ela interrompeu seu discurso para atacar a rede de televisão. “A Globo recebeu R$5 milhões do fundo Visanet. Todos os documentos estão no processo. Ele está preso e vocês da Globo estão devendo dinheiro público. Não pagaram imposto. Isso é vergonha. Mais de R$700 milhões”, disse, com a voz rachada. “Onde estão os R$700 milhões da Copa que vocês não pagaram impostos de renda. Onde estão?”

A TV Globo informou que não iria se pronunciar sobre o caso.

***

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9 de fevereiro de 2014
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Andrea Haas, mulher do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, chega ao escritório de seu advogado na sexta-feira, dia 7, horas antes de conceder a entrevista à IstoÉ.

Andrea Haas, mulher de Henrique Pizzolato recebe IstoÉ em Modena, na Itália, fala sobre suas angústias, critica a Justiça brasileira e acusa o PT de nunca ter enfrentado o “mensalão” de frente.

Paulo Moreira Leite e Janaina Cesar, enviada especial a Modena (Itália), na IstoÉ

Em Modena, na Itália, eram 5 horas da tarde da sexta-feira, dia 7, quando Andrea Haas, mulher de Henrique Pizzolato, terminou uma reunião com seus advogados. Ela acabara de receber a notícia de que o marido permaneceria na cadeia, pois o pedido de liberdade provisória lhe fora negado. Ali mesmo, no escritório, concordou em receber a reportagem de IstoÉ. Nos primeiros dez minutos da entrevista, Andrea quase não conseguia articular as respostas. Suas mãos tremiam – fruto do nervosismo provocado pela constatação de que o plano de fuga do ex-diretor de marketing do Banco do Brasil deu errado. E a certeza de que a Justiça italiana o trataria melhor do que STF também já não era a mesma. O posicionamento de Andrea foi determinante na decisão de Pizzolato deixar o Brasil. Durante a entrevista, ela reafirma que não vislumbraram outra saída a não ser fugir do País. Andrea, no entanto, se recusou a esclarecer como foram falsificados os documentos usados por Pizzolato, não comentou sobre a situação financeira do casal na Europa e nem explicou por que razão ele votou em nome do irmão nas eleições de 2008, quando a prisão dos réus da AP 470 ainda não estava na agenda política brasileira. A tensão de Andrea só diminuiu quando ela começou a comentar a atuação do marido no Banco do Brasil e a criticar os ministros do STF.

IstoÉ – Vocês imaginavam que essa prisão pudesse ocorrer agora?

Andrea Haas – Não. Não estávamos esperando por isso.

IstoÉ – Mas a televisão mostrou que vocês ficavam com as luzes apagadas, com janelas fechadas, como se estivessem sabendo que poderiam estar sendo monitorados.

Andrea Haas – As pessoas esquecem que estamos no inverno e por isso as janelas ficavam fechadas.

IstoÉ – Por que vocês decidiram fugir do Brasil?

Andrea Haas – Isso aconteceu quando ficou claro que não havia mais saída jurídica para nós. É claro que, se fosse possível escolher, não queríamos sair do Brasil. Ninguém queria deixar o País. Mas era preciso achar uma saída. Temos um monte de sobrinhos e queríamos ver o crescimento de todos eles. Também gostamos de morar no Brasil, de encontrar os amigos. Nossa vida está lá. Mas eu aprendi com meu pai que não podemos nos submeter. Nós não podemos nos submeter aos erros da justiça brasileira. Podemos até morrer, mas não podemos deixar de procurar uma saída, porque sempre existe uma saída na vida. Por isso decidimos sair do Brasil. Querem roubar nossa dignidade. Queremos uma saída. Queremos sobreviver. Temos esse direito.

IstoÉ – A senhora acha que a Justiça italiana será melhor para Henrique Pizzolato do que a brasileira?

Andrea Haas – Não sei. Não conheço. Até agora o governo brasileiro não enviou o pedido de extradição. Não sabemos o que vai acontecer, pois é a partir daí que as coisas podem se mexer. Mas já vi uma diferença importante.

IstoÉ – Qual?

Andrea Haas – Na Itália os julgamentos não são televisionados. São feitos por três juízes, a portas fechadas.

IstoÉ – Por que isso seria bom, no entendimento da senhora?

Andrea Haas – As pessoas falam no Brasil que a televisão no julgamento é algo democrático, mas não é nada disso. Ela mostra os ministros falando, mas não mostra os documentos. Não mostravam as provas, o que estava por trás daquilo. Então era só um lado. Que transparência é essa? É uma grande hipocrisia. O Henrique [Pizzolato] deu um depoimento televisionado pela tevê. Foi um espetáculo. Só isso.

IstoÉ – Como a senhora se sente depois da prisão de Pizzolato?

Andrea Haas – Eu me sinto arrasada. Você deixa de ser dono da sua vida. O Henrique está angustiado e decepcionado. Esperamos que justiça italiana seja mais correta e íntegra. Na União Europeia, os direitos humanos e o amplo direito de defesa são garantias fundamentais. Hoje, a vida do Henrique não é mais dele. Quem manda em tua vida são os advogados, os juízes, os jornalistas. Quando começou tudo isso, a gente caiu num mundo que não conhecia, não temos mais controle. Você descobre que a verdade pouco importa. O que importa são os interesses políticos, o interesse material. É uma grande angústia, uma grande decepção.

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“O Henrique Pizzolato sempre foi CDF. Sempre fez tudo direitinho e certinho.”

IstoÉ – Você se sentiram sozinhos nos dias que antecederam à prisão?

Andrea Haas – O tempo inteiro. Não me sinto abandonada porque, apesar de tudo, não sou vítima. Olhamos para a frente. Estamos enfrentando todos os obstáculos. Conseguimos sobreviver. Todo o dia eu tenho que convencer as pessoas. Tento mostrar o que aconteceu, mas é como se estivesse diante de uma avalanche de mentiras. Isso não é viver. Ninguém quer perder 5 minutos de seu tempo para saber a verdade.

IstoÉ – Como a senhora avalia o comportamento do PT em relação ao Henrique Pizzolato durante julgamento do “mensalão”?

Andrea Haas – Eu acho que ao longo do julgamento muitas pessoas fingiam não ver o que estava acontecendo. Elas achavam que não seriam atingidas e não queiram se envolver. Eu também ajudei a formar esse partido. Mas eu acho que o PT nunca soube enfrentar esse processo de frente. Deixou-se carimbar.

IstoÉ – De uma forma ou de outra, a senhora teve contato com advogados, com pessoas que entendem de Direito. Quais impressões eles têm do julgamento do “mensalão”?

Andrea Haas – Eles estão muito impressionados com o fato de que os réus não puderam ter um segundo grau de jurisdição. Isso é o que mais incomoda. Este é um direito que existe no mundo inteiro. Quando ouvem falar sobre isso eles dizem que é muito estranho. Um outro ponto que incomoda é a noção de que foi um julgamento político.

IstoÉ – Mas no julgamento no STF, alguns ministros disseram que os embargos poderiam ser considerados um segundo julgamento…

Andrea Haas – O Henrique só teve direito aos embargos de declaração. Isso aconteceu com outros réus também. Toda vez em que se tentava questionar o mérito de alguma decisão, um juiz dizia que essa fase já havia passado e ponto final. Se não dava para julgar o mérito, como se poderia dizer que eram uma revisão? E foi apenas isso que o Henrique pode apresentar.

IstoÉ – O que mais incomodou no julgamento?

Andrea Haas – O Henrique sempre foi um CDF. Sempre fez tudo direitinho e certinho. É um sujeito organizado. Você pode ver a história dele. De repente ele está preso, acusado de ter desviado R$73 milhões do Banco do Brasil…

IstoÉ – A senhora poderia explicar o que, em sua avaliação, há de errado nessa acusação?

Andrea Haas – Não houve desvio. Basta ler a auditoria do Banco do Brasil para concluir que não houve desvio. Os gastos declarados foram feitos. Estão lá, com recibos e notas fiscais. E são gastos com empresas de comunicação, com publicidade que saiu na televisão, nos jornais, nas revistas. A auditoria mostra qual veículo recebeu tal verba, qual veículo recebeu a outra verba. Se não fosse verdade, eles poderiam ter denunciado a fraude. Mas os anúncios estão lá, foram publicados. Você acha que se alguém tivesse desviado R$73 milhões de reais da Visa, empresa que é dona do Fundo Visanet, ela não teria aberto uma investigação para apurar o que tinha acontecido? Você acha que se tivessem sumido R$73 milhões do Banco do Brasil não teria sido aberto um inquérito interno para se apurar o que tinha acontecido?

IstoÉ – Mas como ministros que estudaram tanto o caso puderam errar como a senhora diz?

Andrea Haas – O Joaquim Barbosa citou uma auditoria de 2004 para dizer que o Henrique mudou algumas regras no marketing. Você ouve a colocação dele e tem certeza de que essa mudança foi feita para piorar o controle, para favorecer o PT. Mas é não é verdade. O Pizzolato não mudou as regras do marketing para favorecer o PT. A auditoria elogia o trabalho do Henrique. Fala que depois das mudanças que promoveu, os procedimentos ficaram melhores, o controle ficou mais eficiente. Teve um ministro que disse que o ônus da prova cabe ao acusado. Era tão absurdo, tão primário para se dizer num julgamento, que achou melhor suprimir a frase nos acórdãos. Também se disse que, embora não tivesse apoio em provas, era possível condenar um dos réus com base naquilo que diz a literatura jurídica. A discussão sobre gastos públicos foi e voltou na sentença de muitos juízes.

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