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“O Revalida é feito para não aprovar ninguém.”

10 de dezembro de 2013

Medicos54

Roberto Amado, via Diário do Centro do Mundo

O Revalida, ou Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médico, foi adotado em 2011 como uma solução para uniformizar o procedimento de validação do diploma de médico obtido em faculdades do Exterior, por brasileiros ou estrangeiros. Antes, esse exame era realizado de forma independente por algumas universidades, como a USP, pelo qual a obstetra brasileira Anita Hinggs tentou passar, sem sucesso. “É uma prova para não aprovar ninguém”, diz ela, que hoje faz um trabalho médico social em Moçambique, a serviço de uma organização internacional. Seu depoimento:

“Por ter pai brasileiro e mãe inglesa, nasci e morei no Brasil, mas resolvi fazer faculdade de medicina na Inglaterra, na University of Nottingham. Depois dos cinco anos de graduação, pensei em voltar para o Brasil, por querer trabalhar com medicina social. Comecei a pesquisar as possibilidades, mas, enquanto isso, fui cumprindo a trajetória exigida para me especializar. Lá, é necessário uma longa especialização para poder trabalhar onde você quiser e passei sete anos nesse processo até conseguir o título máximo, o de “consultant”, trabalhando no Hospital da Universidade de Oxford. Também fiz mestrado em Saúde Pública.

Então resolvi investir na minha mudança ao Brasil e na validação do meu diploma. Nos dois exames que fiz na USP fui reprovada, ainda que por uma pequena margem de pontos. No primeiro exame, em 2005, tive que enfrentar uma burocracia enorme, fornecer documentos detalhados sobre o meu curso, todos traduzidos. Demorou um ano para eu conseguir me habilitar e, depois de ser aceita para fazer o exame, a USP não definia a data e nem as matérias que seriam abordadas. Só fui informada da data do exame um mês antes. Nessa época, eu estava trabalhando em Serra Leoa, no Médicos sem Fronteira. Não foi nada simples eu me deslocar de lá para São Paulo e ao mesmo tempo me preparar adequadamente para as provas em prazo tão curto. Mesmo assim, tirei a maior nota entre todos os outros cinco candidatos. Eram questões dificílimas, que só pude responder porque tenho sete anos de especialização. Mas um recém-formado não teria nenhuma condição de respondê-las. É uma prova para não aprovar ninguém.

Mesmo assim, quis tentar de novo. Sempre pensei em voltar ao Brasil. Minha vocação, como médica, é atuar em comunidades carentes, dando um sentido social à minha atividade. Foi por esse motivo que também fiz mestrado em Saúde Pública na Inglaterra. Lá, eu não teria oportunidades para trabalhar de acordo com meus objetivos. A USP relutou em me dar uma nova oportunidade Depois de insistir muito por um ano, consegui ter uma nova chance. Desta vez, procurei me preparar bem fazendo um estágio de dois meses no Hospital das Clínicas, em São Paulo, e estudando muito. No dia da prova, recebi a informação de que o exame havia mudado. Além do teste de múltipla escolha, teria que fazer também um exame escrito — mas no mesmo espaço de tempo. E a nota de aprovação tinha subido de 55% para 70%. De novo, tive a melhor nota entre todos os participantes, mas não o suficiente para passar.

Depois disso, não tive o menor interesse em tentar, em passar por tudo aquilo de novo, sabendo que se trata de um exame para não ser aprovada. Acho que há um protecionismo da classe médica brasileira que estimula um sistema de saúde completamente distorcido, baseado num atendimento público deficitário e, para quem pode pagar, na indústria dos planos de saúde.

Então fiz contato com uma organização suíça, a Solidarmed, e fui contratada para trabalhar em Moçambique, numa pequena vila próxima à cidade de Pemba, no norte do país. Era tudo o que eu queria. Em Moçambique, meu diploma foi validado rapidamente, apenas com a comprovação da minha formação e atividades médicas. Agora, faço um trabalho de extensão social e médica com mães carentes de grande repercussão na comunidade local e estou muito feliz por aqui.”

Como morrem os médicos

15 de novembro de 2013

Quino11

Sobre lucro assustador que indústria de assistência média aufere, prolongando a vida com aparelhos, à custa do sofrimento do paciente e familiares.

Cynara Menezes em seu Socialista Morena | Imagens: Quino

Escritores octogenários que entrevistei coincidiram em dizer que o duro na vida não é envelhecer, mas enterrar os amigos, aguentar a saudade deles que fica. Você começa a encarar a morte de perto. Suponho que a isso se chame amadurecer. E dói.

Dizem as estatísticas que a média de idade das pessoas subiu, mas a realidade ao lado da gente desmente a estatística. Cada vez que uma pessoa querida se vai, fico pensando na forma como nós encaramos a morte e como a medicina tradicional nos trata no final de nossas vidas. Será que não existe uma maneira menos sofrida?

Pesquisando sobre o tema, encontrei, em um dos meus sites de jornalismo independente favoritos, o Alternet, um artigo do mês passado muito esclarecedor, que traduzi, adaptei e publico para vocês, sobre como os médicos norte-americanos planejam a própria morte. E a imensa maioria opta por não fazer os tratamentos invasivos que eles mesmos indicam a seus pacientes, preferindo cuidados paliativos.

Os cuidados paliativos são um conceito em ascensão no mundo mas que engatinha no Brasil por desinteresse da classe médica. É chamado de hospice ou “casas para os que morrem”: centros voltados para a melhoria da qualidade de vida de pacientes diagnosticados com doenças incuráveis. Para que possam passar seus derradeiros momentos no mundo tranquilos, assistidos, da maneira menos dolorosa possível, cercado pelos familiares, em vez de tentando procedimentos invasivos –e inócuos– até o fim.

(Há um bom artigo científico sobre o movimento hospice, inclusive no Brasil, aqui.)

Esta reportagem aborda também o lucro que o prolongamento da vida com o uso de aparelhos dá à indústria da assistência médica, à custa do sofrimento do paciente e dos familiares. Leiam. Espero que seja útil para alguns de vocês.

***

O segredo dos médicos para morrer direito

“Por que médicos fazem escolhas diferentes que a maioria de nós no final da vida?”

Melinda Welsh, Sacramento News & Review

O doutor Ken Murray escreveu um artigo para a revista online Zócalo Public Square pensando que, com sorte, atrairia algumas dúzias de leitores e um comentário ou dois. Em vez disso, o médico recebeu uma avalanche de respostas. Na verdade, o que ele escreveu o colocou no meio de um debate sobre a vida, a morte e médicos.

O que ele revelou de tão avassalador?

Revelou que a imensa maioria dos médicos faz escolhas para o fim da vida dramaticamente diferentes do resto de nós. Dito de uma forma simples, a maioria dos médicos escolhe conforto e calma em vez de intervenções ou tratamentos agressivos Visto de outra maneira, médicos rotineiramente ordenam procedimentos aos pacientes no fim da vida que eles não escolheriam para si mesmos.

Quino12

O que os médicos fazem e o resto de nós não?

De acordo com Murray, os médicos veem as limitações da medicina moderna de perto e sabem que as tentativas de prolongar uma vida podem frequentemente levar a uma morte prolongada, sofrida.

O livro de 2011 de Murray, How doctors die (Como médicos morrem), foi traduzido em vários idiomas e recebeu resenhas do The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post. Milhares de pessoas comentaram nas páginas de leitores dos jornais e blogs que as reproduziram. Leitores falaram sobre “familiares à beira da morte sendo atacados por drogas tóxicas”, disse Murray, ofertas de “procedimentos dolorosos por nenhuma razão”. Entre as respostas estavam centenas de histórias de médicos e cuidadores profissionais que confirmavam a tese de Murray.

“Muitas das histórias eram desoladoras”, disse.

Dados que provam isso não são difíceis de encontrar. Murray cita o Johns Hopkins Precursors Study, uma das maiores pesquisas sobre envelhecer no mundo, que contém estatísticas de saúde em um grupo de aproximadamente 750 médicos que eram membros da Johns Hopkins University School of Medicine em Baltimore entre 1948 e 1964. Através dos anos, o estudo ajudou a pesquisa médica a relacionar, por exemplo, colesterol alto com ataques cardíacos. Mas 15 anos atrás –com seus participantes em seus 60, 70 e 80 anos– os pesquisadores começaram a perguntar sobre escolhas terminais.

Doutor Joseph Gallo, diretor do Precursors Study, estava feliz de explicar como os dados mostram continuamente que médicos –por uma ampla maioria– fazem diferentes escolhas quando confrontados com diagnósticos desesperadores. Médicos que escolhem menos procedimentos também tendem a facilitar as chamadas “diretivas antecipadas de vontade”, uma importante parte da papelada que permite aos pacientes escolher um procurador e determinar antecipadamente que intervenções querem ou não em caso de acontecer um declínio em sua saúde. No Brasil isso ainda não é regulamentado (leia sobre o movimento pela regulamentação da Ordem de Não Reanimar aqui.)

Em um cenário onde o grupo de estudo foi questionado sobre o que desejaria no caso de uma doença cerebral irreversível que os deixasse incapazes de reconhecer pessoas ou falar, “a maioria das pessoas quer tudo”, disse Gallo, enquanto 90% dos médicos disseram não à ventilação mecânica (aparelhos de respiração artificial) e à hemodiálise. Cerca de 80% dos médicos disseram também não a uma cirurgia de grande porte ou a um tubo de alimentação, disse.

“Isto sugere que quanto mais familiar você é com intervenções, menos você quer”, Gallo disse, direto ao ponto.

Murray crê que a culpa pela ruptura se deve a três fatores: má comunicação do médico com o paciente, expectativas irreais dos pacientes e suas famílias e um sistema de saúde que encoraja tratamento excessivo. (Nota: um quarto de todos os gastos com saúde ocorre no último ano de vida das pessoas.)

“Não me entube”

Quando se considera o grande número de mortes que o doutor James Gregor testemunhou em décadas como especialista em cuidados paliativos e em casas de repouso de Sacramento, é comovente vê-lo tomado pela emoção ao contar a história de Ella.

Idosa diagnosticada com uma doença terminal, Ella (não é seu verdadeiro nome) tinha fortes convicções sobre não ter nenhuma intervenção médica quando estivesse próxima da morte. Ela preencheu a papelada com este efeito e oficializou tudo, com seu marido servindo como procurador no caso de se tornar incapaz de tomar suas próprias decisões. Logo veio o inevitável ponto em que Ella, presa numa cama de hospital e perto de morrer, começou a ter dificuldades de respirar. Um dos muitos médicos dela disse para seu marido: “Ela está se debatendo muito. O senhor não quer que a coloque num respirador?” Pensando que o médico sabia melhor, o marido consentiu e ela foi colocada no respirador artificial.

Aquele momento de escolha virou sete longos dias de arrependimento.

Apesar de seus desejos, Ella permaneceu semiviva na unidade de terapia intensiva com “tubos em toda parte” e uma máquina respirando por ela durante uma semana. De acordo com McGregor, o marido então teve que tomar a responsabilidade por retirar a ajuda. “Ele estava devastado”, disse McGregor. “Ele sentiu que tinha traído sua mulher durante a última semana de vida dela… Você podia ver aquela dor.”

McGregor, um especialista em hospices (que permitem a doentes terminais conforto em vez de tratamentos agressivos) e medicina paliativa (com foco em aliviar e prevenir sofrimento), disse que a experiência de Ella é mais comum do que se pensa.

“Vi pacientes morrerem na UTI aos poucos e a família não podia nem chegar perto.”

Além disso, apesar de a maioria das pessoas desejarem morrer em casa perto dos seres amados, 70% morrem no hospital ou na clínica após um longo embate contra um câncer avançado, falência cardíaca, doença incurável ou incapacidades múltiplas da velhice.

Quando perguntados sobre a diferença e por que médicos não tendem a colocar a si mesmos em respiradores em UTIs no fim de suas vidas como aconteceu com Ella, McGregor foi sombrio.

“Frequentemente a questão não é bem colocada”, disse McGregor, como: “Nós temos duas opções aqui: nós podemos tentar de tudo ou nós podemos administrar agressivamente seus sintomas e mantê-lo confortável. O que seria qualidade de vida para você?”

Médicos, ele disse, tendem a escolher a opção 2, porque viram o que viram, e “sabem que uma intervenção pode gerar um efeito cascata.”

Doutor Kevin Ryan, médico aposentado e escritor, coloca de uma forma diferente: “Médicos viram (morte e morrer) de todas as perspectivas, exceto acontecendo com eles.”

“Quando você está perto do fogo, sabe como pode se queimar.”

Quino13

Medicina e hospitais existem para combater doença e morte, é assim que se pensa, então se o paciente morre, o médico falhou.

McGregor lembra das aulas de habilidades clínicas que assistiu na faculdade de medicina com uma lista de passos que um médico deveria seguir, concluindo com as palavras: “Se o paciente morre, eu falhei”.

“Espera-se de nós que façamos coisas, que consertemos coisas”, disse McGregor. “Médicos se sentem impotentes se não podem oferecer alguma coisa e é difícil para eles falar sobre opções que não sejam as agressivas ‘trazer sua saúde de volta’. Um médico pode sentir que falhou diante de um paciente ao dizer ‘bem, você vai para um centro de cuidados paliativos’.”

Um informe publicado no ano passado no New England Journal of Medicine diz que 69% dos pacientes com câncer de pulmão e 81% dos pacientes com câncer colo-retal disseram não ter entendido de seus médicos que a quimioterapia não iria curar de todo seu câncer.

Isto acontece por duas razões, diz McGregor.

O paciente ou a família podem frequentemente vir com enormes expectativas não-realistas, algumas vezes reforçadas por crenças populares. Muitas veem a respiração artificial, por exemplo, como algo que salva vidas, mas na verdade ela raramente é eficaz. “Existe uma percepção equivocada que a medicina pode consertar tudo”, ele diz. “E há também um sentimento de ter direito a isso algumas vezes – ‘você deveria me dar tudo’.”

Quino14

 

Infelizmente, uma outra razão pelas quais médicos algumas vezes “fazem tudo” com pacientes terrivelmente enfermos é o medo de sofrer processos por má prática de medicina.

“Acho que este é um fator”, disse McGregor. Os outros médicos entrevistados concordam. “Algumas vezes os médicos dizem ‘ok, nós lhe daremos tudo’, mesmo que saibamos que não irá ajudar, como um modo de não nos enredarmos numa ação legal de alguém da família que achou que deveria haver mais procedimentos”, disse.

Para seu próprio desejo de fim da vida, se ele se encontra com uma doença terminal, seu desejo é morrer em casa sem intervenções e com a assistência de centros de cuidados paliativos.

“Brinco que tenho ‘NMR’, ‘NTMR’ e ‘PMN’ tatuado no meu peito”, disse McGregor (não me ressuscite, não tente me ressuscitar e permita morte natural).

“Simplesmente não me entube”, especifica.

“De jeito nenhum farão isso comigo”

Doutor Michael GuntherMaher, diretor médico do Sacramento and Roseville Kaiser conta a história de Sophie.

Mulher negra de 88 anos, Sophie (não é seu nome real) deu entrada no Kaiser poucos meses atrás com um histórico de rápida perda de peso e uma infecção chamada sepse, disse GuntherMaher. “Fizemos alguns testes e vimos que ela estava anêmica. Escaneamos seu abdômen… e achamos uma massa. Estava claro que tinha câncer”, disse.

Já no começo Sophie falou que queria que os médicos fizessem todo o possível para salvar sua vida, disse GuntherMaher. Com a família insistindo fortemente, o hospital imediatamente começou com intervenções e remédios. “E esta mulher morreu lentamente na UTI com um tubo na garganta”, disse. “Finalmente a família disse: ‘tire-a da máquina’. Foi um difícil e prolongado final de vida quando não havia não havia nenhuma chance razoável de que isso fosse funcionar.”

GuntherMaher, que tinha sido consultado sobre o caso de Sophie como um especialista em cuidados paliativos, refletiu que a mulher perdeu a chance de retornar a Oakland para morrer suavemente, em seu ambiente, “ao redor de amigos e família que queriam visitá-la e dizer adeus… Aquela oportunidade foi completamente perdida”.

“Tenho um monte de histórias como essa. O hospital está cheio delas.”

GuntherMaher vê o caso de Sophie como um exemplo do que ele chama de caos que acompanha muitos cenários de final da vida.

“Um monte de mudanças na vida acontecem nos últimos anos, e as famílias não estão preparadas para a doença”, ele diz. “A doença existe. As pessoas entram e saem de hospitais ou casas de repouso. Eles estão nestes lugares mesmo apesar de estarem acostumados a pensar ‘eu nunca quero estar assim’. Mas eles estão. E isto é caótico.”

Foi um desejo de colocar ordem nesta turbulência do final da vida que colocou GuntherMaher na rota do seu posto atual no Kaiser.

“Acho que a maioria das pessoas… o que têm é medo”, ele disse. “Estão com medo. Estão confrontados. Há coisas a terminar. Eles não podem aceitar que irão chegar ao fim deste jeito porque estão pouco preparados.”

Esse estado mental, diz, frequentemente pavimenta o caminho para que suas famílias aceitem todos os procedimentos oferecidos, não importa que sejam agressivos.

GuntherMaher acredita que os pacientes deveriam estar aptos a escolher por eles mesmos se vão ou não ser submetidos a tratamentos perto do fim da vida. “Sou a favor que as pessoas escolham”, ele diz, “desde que isto seja informado.”

Quino15

Questionado por que médicos morrem de maneira diferente, como na tese de Murray, GuntherMaher respondeu: “Médicos são diferentes”.

“Como grupo, tendemos a estar no final do espectro onde se acham as pessoas inteligentes, capazes. Então, se você pega gente assim e as expõe a estas complexidades e dificuldades uma e outra vez, elas irão levar em conta e processar isto.

Outro aspecto que nós (médicos) somos capazes de fazer é conciliar aspectos psicológicos, a falência biológica, com os mais difíceis temas humanos. O que é a vida? O que é a morte? Do que se trata? Nos confrontamos com isso quase todo dia, como ninguém mais em nossa sociedade, exceto talvez pastores.”

GuntherMaher disse que os médicos com quem se relaciona estão no hospital diariamente e “a maioria deles, quando externa sua opinião sobre (intervenções no final da vida), diz basicamente: ‘De jeito nenhum que farão isso comigo’.”

Não foi surpresa descobrir que as escolhas de GuntherMaher sobre seu próprio final de vida ecoam as dos outros doutores no estudo da Johns Hopkins. Em realidade, meses atrás, ele reuniu os três filhos de 20 e poucos anos para falar sobre seus desejos. “Colocamos minha filha e meu genro no FaceTime do Ipad”, disse. GuntherMaher deu suas instruções e mostrou aos filhos um formulário POLST (ordens médicas para tratamento de vida assistida, na sigla em inglês), declaração sobre que tipo de tratamento médico doentes seriamente enfermos querem para si mesmos.

“Acho que isso nos deu uma boa oportunidade para ser uma família e falar sobre coisas significativas juntos, praticar o saber ouvir e falar profundamente uns com os outros”, disse. “Fazer considerações, por um momento, sobre este período da vida é precioso.”

Entre outras coisas, GuntherMaher lhes falou: “Não quero ser ressuscitado se meu coração parar. Não quero ser colocado em ventilação mecânica. E quando meu momento chegar, quero morrer em minha casa.”

“Medicina não pode consertar tudo”

Doutor Jeffrey Yee está de frente a seus alunos – camisa cinza de botões, jaqueta e um pager de bolso – com todo o carisma amigável de um professor de ciências sociais. Mas ele é um médico que deixa por um tempo suas consultas particulares como clínico-geral para ensinar idosos e pacientes cronicamente doentes sobre as instruções e formulários POLST. O público de Yee no início de setembro consistia em 14 pacientes idosos –muitos deles pareciam lutar com doenças crônicas ou câncer.

Yee, que testemunhou em 1997 a favor do POLST antes da aprovação no Estado, faz uma apresentação em PowerPoint para seus estudantes sobre as instruções e a importância de nomear um procurador para cuidados com a saúde. Ele e uma enfermeira inclusive encenam um pequeno esquete onde fazem o papel de dois irmãos com diferentes interpretações sobre o que o médico recomendou que deveria ser feito com uma mãe no caso de assistência à vida.

“Tentamos fazer com que as pessoas considerem essa problemática, tenham conversas sobre isso”, Yee disse antes da aula. “Tentamos que as pessoas experimentem as tensões e os desafios que terão que enfrentar no futuro.”

Yee não usa “final da vida” ou a palavra “morte” em seus seminários. Nem discute procedimentos específicos ou possíveis consequências. “Quando você reduz isto a uma conversa sobre ‘este procedimento dura tanto tempo’, isto realmente não proporciona um bom quadro”, ele diz. “Que número poderia representar ‘pequena chance de sucesso’?” Se você tem 95, você responderia esta questão de forma diferente do que se tem 30 e três filhos.

Curiosamente, Yee –o mais novo dos médicos entrevistados– foi o único médico que não disse imediatamente que iria declinar de intervenções se ele mesmo se deparasse com uma doença terminal. “Depende da situação”, ele diz. “Não sei se eu poderia estabelecer isto tão especificamente agora”.

Um outro programa que poderia resultar para reduzir o fosso entre médicos e o resto de nós nas escolhas de final da vida é chamado ROYL, sigla para “resto da sua vida” (em inglês).

Quino16

Doutor Philip Lisagor, cirurgião cardiotorácico aposentado e chefe médico do ROYL em Reno, Nevada, teve um estalo no final de sua carreira: “Me dei conta que ninguém estava falando com pacientes com doenças sérias sobre o que estava acontecendo”, disse.

“Um jogo está sendo jogado aí”.

Lisagor observa que o fator lucro não pode ser desprezado quando se discute por que este fosso existe, e por que tantos médicos frequentemente encorajam intervenções que eles mesmos não escolheriam. “A indústria da assistência médica faz muito dinheiro com os cuidados no fim da vida”, diz. De fato, cerca de 27% do orçamento anual de 327 bilhões de dólares do Medicare (seguro de saúde governamental nos EUA) são destinados a pacientes em seu último ano de vida.

“Todo mundo no sistema lucra com mais procedimentos”, disse Lisagor, “incluindo médicos, hospitais, companhias farmacêuticas, centros de diagnósticos etc. É um problema enorme.”

“Há uma mudança cultural acontecendo no país”, disse Murray, o médico do ensaio polêmico. “O tabu está acabando, as pessoas querem falar sobre isso… Demorará, mas acredito que está acontecendo.”

Os médicos entrevistados para esta reportagem também concordaram que as coisas estão melhorando. “Sim”, disse McGregor. “As pessoas precisam entender que existe a possibilidade de ter uma morte confortável, de morrer cercado por seres queridos. As pessoas precisam entender que é uma opção real e viável.”

“E necessitam entender que a medicina não pode consertar tudo.”

A farra dos médicos no Rio de Janeiro

30 de agosto de 2013

Via Portal SBT

Há um mês, o SBT fez uma reportagem abordando a farra dos médicos de um hospital público de São Paulo que não trabalhavam, apenas entravam na unidade para bater o ponto e iam embora. Na segunda-feira, dia 26/8, o SBT Brasil mostrou que no Rio Janeiro a saúde pública também é uma bagunça e está cheio de médicos fantasmas por lá! A reportagem é de Fábio Diamante, Fábio Serapião, Ronaldo Dias e Cristian Mendes.

A vinda dos médicos estrangeiros, uma guerra ideológica

27 de agosto de 2013

Medicos03Dislene de Lemos, lido no Blog da Dilma

Diante de tantas manifestações a favor e contra a vinda de médicos estrangeiros, senti-me compelida a externar minha opinião.

Primeiro o que tem ocorrido nos últimos anos é uma elitização da medicina, onde os custos mensais com o curso atualmente, gira em torno de R$5 mil a R$6 mil em faculdades particulares e ainda a grande maioria das vagas de faculdades públicas é preenchida por estudantes egressos dos melhores e mais caros colégios. Consequentemente este médico faz parte de uma classe que não tem a necessidade de trabalhar nos rincões deste Brasil, preferindo especializar-se em longas residências, em que não estão errados.

Historicamente o interior sempre foi assistido de forma transitória por médicos recém-formados em sua maioria. E que ao longo do tempo foi tornando-se figurinha rara. Poucos fixavam-se naquelas cidades. Para complicar ainda mais, o mercado da medicina está aquecido nos grandes centros. Aqui em Fortaleza vários hospitais têm dificuldades em preencher as escalas de plantão, mesmo oferecendo quantia acima de R$1 mil por 12 horas de trabalho. O governo do estado do Ceará tem custeado inclusive passagens aéreas para especialistas em cidades do interior como Juazeiro do Norte e Sobral. Portanto, a ausência de médicos no interior do País se deve principalmente a esta elitização. Todos preferem o conforto e as melhores condições de vida que as capitais oferecem.

A justificativa de péssimas condições de trabalho no interior não convence, já que nas metrópoles a maioria dos hospitais públicos ou privados está muito aquém de condições ideais.

Do médico estrangeiro espera-se um serviço em atenção básica de saúde e todos temos consciência de que estes não são ameaça aos empregos da categoria, que valoriza a especialização da especialização.

Dizer-se preocupados com a saúde da população é falácia, pois pior que ser atendido por um médico sem Revalida é não ter médicos. Sem falar que eles estão vindo para nos ajudar, somos nós os necessitados, somos nós que os chamamos, como exigir Revalida? Além do que é sabido que muitas de nossas faculdades, apesar de caras formam muito mal nossos médicos. E que estes recebem seus diplomas imediatamente após o término do curso.

Não podemos falar mal da medicina cubana, pois os índices revelam o quão são competentes em medicina preventiva, deixando o Brasil muito aquém de Cuba.

É sabido também que o Programa Mais Médicos não resolverá o problema de saúde do Brasil, pois os problemas vão além de falta de médicos, mas trará alguma assistência médica básica para uma parte carente da população.

Outro fator sem fundamento é acreditar que os médicos cubanos estão sendo escravizados. Isto é analisar a atuação destes sob o prisma consumista do capitalismo, é a visão de uma categoria com um perfil elitista de direita.

Enfim, vejo nessa guerrinha estúpida e insana um “rancor ideológico” que não trará benefícios algum à categoria muito menos à sofrida e carente população brasileira.

Dislene de Lemos é médica ginecologista e obstetra.

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Médicos cubanos: Como se desmonta uma farsa de jaleco

27 de agosto de 2013

Cuba_Medicos33_Twitter

Fernando Brito, via Tijolaço

Está rodando na internet uma farsa apelativa. O dr. Rogério Augusto Perillo, que acha que as pessoas são burras, postou uma foto segurando um cartaz dizendo que “não faltam médicos” e denunciando ter sido demitido pelo prefeito da cidade de Trindade, próxima a Goiânia, “para dar lugar a um médico cubano”.

Com a repercussão nas redes, o prefeito teria “reconsiderado” a decisão e mandado readmitir Rogério.

Conversa.

Rogério é amigo e correligionário do prefeito da cidade, Jânio Darrot, do PSDB, com quem aparece sorridente na foto postada há 15 dias. E, pelo sobrenome Perillo, você deve imaginar de quem ele é parente. Claro, do governador Marconi Perillo, também do PSDB, aquele que escapou, sabe-se lá como, dos escândalo Demóstenes-Cachoeira.

A página de Rogério Perillo no Facebook é um misto de carolice, antipetismo, anticomunismo e baixarias que me poupo de reproduzir. Ele, aliás, tentou fazer uma inscrição no Programa Mais Médicos para ajudar a “melar” o programa, dizendo que o sistema não aceitava o CPF.

Cuba_Medicos34_Twitter

Ele tem o direito de ser um idiota, ninguém lhe negará. Como tem o direito de ser integrante do PSDB e apoiador da candidatura Aécio Neves. Gosto, mesmo sendo duvidoso, não se discute.

Tem mesmo o direito de ser um mau caráter. Mas ele não tem o direito de construir uma mentira na rede, para ser reproduzida por incautos, de boa-fé, ou mesmo imbecis, de má-fé.

Não tem o direito de manipular para combater o direito de outros brasileiros, não tão “bem-nascidos” quanto ele.

Infeliz do povo que vai ser tratado com critérios éticos como o do dr. Rogério. Se Goiás é o curral dos Perillo, não é difícil saber como tratam seu povo.

Cuba_Medicos32_Twitter

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