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JN esquece do jornalismo e presta enorme serviço à igreja católica

17 de março de 2013
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Dom Odilo fala em deus e Patrícia responde emocionada: “Que assim seja.”

Lino Bocchini em seu blog Desculpe a nossa falha

A exemplo de quarta-feira, dia 13, quando foi eleito o novo papa, o Jornal Nacional de quinta-feira, dia 14, também foi quase todo dedicado ao assunto. Com a íntegra em mãos, planejava contar quantas vezes, em 33 minutos de noticiário, determinadas palavras apareceriam. Desisti após o primeiro bloco, quando já se somavam 23 “papas”, sete “Jesus Cristo”, seis “missa” e uma pilha de “cardeais”, “igreja”, “basílica”, “deus”, “cúria”, “senhor” etc. Montei então o roteiro de frases abaixo, todas ditas pelos apresentadores William Bonner (nos estúdios da Globo no Rio) e Patrícia Poeta (no Vaticano) e pelos repórteres da Globo que fizeram a cobertura por lá, na Argentina e em Jerusalém. Lembro que todo material abaixo vinha acompanhado da entonação certa, trilha “emocionante”, edição cuidadosa, sorrisos etc. As frases estão colocadas em ordem de aparição:

“O primeiro dia do novo papa, a primeira missa”

“Como o papa se tornou conhecido pela simplicidade”

“Um papa matutino”

“Começou impondo um estilo novo ao papado e recusou o carro oficial”

“‘Também sou um peregrino’, disse”

“Comportou-se como um padre, quase um pai de família. Nem usou o trono para a homília”

“Tem a simplicidade evangélica de João 23 e o sorriso paterno de João Paulo 1º”

“O papa Francisco começa a conquistar um certo fascínio que já existia entre os cardeais”

“O colégio, num grande e inteligente gesto, em poucas horas mudou o rosto da igreja”

Aí entra ao vivo dom Odilo Scherer, que respondeu a quatro perguntas rápidas. Terminou a última, sobre a “torcida brasileira” a seu favor, dizendo que “os cardeais deveriam escolher aquele que deus indicasse”. Ao que Patrícia Poeta emenda, emocionada: “Que assim seja.”

Vem então uma reportagem sobre beatificação de João Paulo 2º:

“O papa peregrino, João Paulo 2º, pregou com gestos a humildade … tinha sorriso sereno e cativante … enorme carisma de se comunicar com as multidões… apenas seis anos depois de sua morte, a igreja concluiu a beatificação, último passo, antes de torná-lo santo … O clamor começou logo após sua morte, em abril de 2005. Depois, veio a descoberta do primeiro milagre. A cura de uma freira francesa, que sofria de mal de Parkinson”. [O milagre entrou dessa forma, como uma notícia banal, sem a palavra “suposto” ou “segundo a igreja”]. E termina assim a matéria de João Paulo 2º: “A imagem de um dos papas mais adorados da história recente é o reflexo também do que a igreja busca com a escolha de agora: a força de um líder carismático e amado”.

Continuam as frases do JN:

“O moderado e humilde Jorge Bergoglio”

“Antes mesmo de se tornar papa, Jorge Bergoglio já era conhecido por cultivar hábitos simples”

“Nos primeiros gestos, nas primeiras palavras, já um jeito próximo, natural. ‘Irmãos, irmãs, boa noite’. Ali estava não mais o Jorge, mas o Francisco”

“O nome já era um recado, mas era necessário mais. E para esse papa, o mais era o menos. Despojado, sem joias, apenas a batina branca”

“Repare no crucifixo, é de aço, nem mesmo é de prata”

“[Deixou que] vários cardeais se apertassem no elevador com ele”

“O papa preferiu ir de ônibus com os cardeais, deixando o carro especial do pontífice seguir vazio”

“De onde vem essa inspiração, esse sentimento de humildade? Até agora, o próprio papa não falou nada sobre isso”

“Francisco parece já ter definido como prioridade do seu papado a solidariedade para os que mais precisam”

“Ontem ao se despedir do público, dizendo ‘boa noite, bom repouso’, parecia um pai que vela pelos filhos. Sua santidade. Santa simplicidade”

Começa um bloco sobre a vida de Jorge Bergoglio na Argentina. O JN lembrou rapidamente das críticas mais fortes que pesam sobre o novo papa, seu suposto apoio à ditadura no país vizinho:

“Durante a década de 1970, na ditadura argentina, Bergoglio era a principal autoridade eclesiástica do país. Um jornalista o acusou num livro de ter dado informações que levaram à prisão de 2 padres jesuítas, que supostamente teriam ligações com grupos de esquerda. Em sua defesa, Bergoglio disse que há um documento que prova o contrário, ele pediu a renovação dos vistos de permanência no país de um deles. Já um biógrafo do papa diz que ele agiu secretamente para ajudar a retirar perseguidos políticos da Argentina”.

Esse pedaço “crítico” do noticiário, que durou pouco mais de um minuto, termina assim:

“Papa Francisco tem posição semelhante à de Bento 16: é contra o uso de preservativos”.

Voltam as frases:

“Na terra santa, as pessoas rezaram e se disseram contentes com a escolha de um papa humilde, de nome Francisco”

“Por todo oriente médio foi assim: atenções voltadas para o homem de fala suave e olhar sereno”

“Já que estamos falando de carisma, o que chamou a atenção hoje aqui nas ruas do Vaticano foi o número de fiéis tirando fotos, entrando nas lojas e perguntando se tinha um santinho, um terço, uma lembrança do novo papa. Isso horas depois de ele ter sido eleito. E quem procurou muito, acabou encontrando. Eu achei, nós procuramos bastante e achamos, tá aqui: ‘Habemus Papam Franciscum’ [e mostra um santinho com a cara do argentino]. Tá aqui Bonner, tô mostrando pra vocês”

No bloco final, a ameaça de um pouco de jornalismo:

“Apesar de tanto segredo, a imprensa daqui começa a publicar alguns detalhes do conclave que elegeu o novo papa. De acordo com o que um respeitado vaticanista declarou a um jornal italiano, a primeira votação apresentou o italiano Ângelo Scola, o canadense Mark Ouellet e Jorge Bergoglio com mais votos”.

Patrícia Poeta, contudo, desconversa:

“Mas isso não importa mais”.

E volta ao normal:

“Em mais uma demonstração do bom humor que estamos começando a conhecer, o papa brindou com os cardeais que o escolheram”

Por fim, recebe os cumprimentos do parceiro de mesa e editor do JN, William Bonner, que encerra assim o jornal:

“Missão cumprida, Patrícia. Para você e para toda nossa equipe que fizeram esse trabalho belíssimo aí no Vaticano, parabéns”.

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“Missão cumprida, Patrícia. Parabéns.”

***

Leia também:

O papa Chico 1º e a ditadura argentina – 1

O papa Chico 1º e a ditadura argentina – 2

O papa Chico 1º e a ditadura argentina – 3

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Relações da mídia com a ditadura: Um histórico debate da Falha de S.Paulo

21 de fevereiro de 2013
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Eduardo Leite, o Bacuri, soube antecipadamente de sua morte. Seus torturadores, no cativeiro, mostraram para ele a Folha da Tarde do dia anterior. O jornal afirmava que ele havia fugido da prisão e metralhado.

Idelber Avelar, via Desculpe a nossa falha, texto publicado em 6/4/2012

Aconteceu na noite de quinta-feira [5/4/2012], na Casa Fora do Eixo, em São Paulo, um programa histórico da #posTV de Lino Bocchini, sobre o tema da cumplicidade entre a mídia brasileira e a ditadura militar de 1964–1985.

Reuniram-se Lino, a jornalista Thaís Barreto, do Núcleo da Memória, a pesquisadora Beatriz Kushinir e o jornalista e escritor Alípio Freire. Bia talvez seja a principal pesquisadora brasileira das relações entre a mídia e a ditadura, e é autora do livro Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2004), fruto de sua tese de doutoramento na Unicamp, para a qual realizou mais de 60 entrevistas. Alípio foi militante da Ala Vermelha, grupo dissidente do PCdoB. Preso pela Operação Bandeirantes em 1969, esteve no Dops, no Presídio Tiradentes, na Casa de Detenção do Carandiru e na Penitenciária do Estado de São Paulo. Trabalhou duas vezes na empresa Folha, a primeira em 1968 e depois de 1975 a 1979, período no qual testemunhou a demissão de Cláudio Abramo a pedido do 2º Exército.

No programa, Beatriz explica que dois fatos serviram de trampolim inicial para sua pesquisa. Os dez primeiros censores que chegaram a Brasília para servir à ditadura eram jornalistas, o que por si só já coloca em pauta a cumplicidade que norteia o livro. Em segundo lugar, na morte de Joaquim Alencar de Seixas sob tortura, no DOI-Codi (SP), ocorrera um fato curioso: seu filho Ivan Seixas, também torturado pelo carniceiro David dos Santos Araújo (que trucidava seres humanos no DOI-Codi com o codinome “Capitão Lisboa”), lera na Folha da Tarde a notícia da morte do pai 24 horas antes de que ela ocorresse. Numa saída com os torturadores, Ivan vê a manchete e, depois de regressar ao inferno do DOI-Codi, encontra seu pai ainda vivo. Ele só seria assassinado um dia depois.

O episódio mostra – e há outros do mesmo tipo – que a colaboração da Folha com a ditadura militar foi além do apoio puro e simples, em editoriais golpistas antes de 31/3/1964 e em sustentação ideológica depois de instalado o regime. Essa colaboração também incluía a produção antecipada da mentira sobre a morte, manchetada, em geral, como resultado de um tiroteio ou um acidente antes que o regime procedesse ao assassinato da vítima. No momento do assassinato, a vítima já estava, perante os olhos do público, “morta como resultado de tiroteio [ou acidente]”. A morte de Eduardo Leite, o Bacuri, assassinado pela ditadura, também foi anunciada antecipadamente, e de forma mentirosa, pela Folha. Seus torturadores chegaram a lhe exibir, no cativeiro, os jornais que afirmavam que ele havia fugido da prisão.

A pesquisa de Bia Kushnir e o testemunho de Alípio Freire também confirmam a já conhecida história do empréstimo de carros do grupo Folha às operações do DOI-Codi. Os carros serviram para albergar agentes da repressão em eventos de protesto contra a ditadura, para que dali eles capturassem ativistas de esquerda com mais facilidade. Os carros também foram usados para transportar presos políticos.

O programa de Lino, que é uma verdadeira aula de história do Brasil, também tocou no tema da autocensura e da delação. Como exemplo desta última, Alípio citou fato ocorrido no dia 7 de setembro de 1975, quando ele trabalhava na TV Bandeirantes. Alípio afirmou que depois de editada sua matéria sobre os desfiles, Roberto Corte Real, locutor do jornal do meio-dia, telefonou para a Polícia Federal, que recebeu cópias do programa.

No esforço de desarquivar o Brasil, é importante também abrir a caixa preta da imprensa, inclusive para que os jornalistas que hoje lá trabalham possam saber um pouco mais sobre a história que lhes precede. Apesar da pesquisa pioneira de Beatriz e dos vários testemunhos de militantes antiditadura como Alípio, é impressionante como ainda sabemos pouco sobre esse capítulo do Brasil.

Vitória da vergonha: Folha consegue manter censura do blog Falha de S.Paulo

20 de fevereiro de 2013

Folha_Caminhonete02.Felipe Rousselet, via Blog do Rovai

O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu na quarta-feira, dia 20, que o blog Falha S.Paulo deve continuar fora do ar. O blog, criado pelos irmãos Mário e Lino Bocchini, era uma divertida paródia do jornal Folha de S.Paulo e brincava com os recorrentes erros da publicação.

A decisão de manter a censura ao Falha de S.Paulo deixou de lado todo o debate sobre liberdade de expressão e se baseou apenas nas leis de mercado. O desembargador Edson Luiz de Queiroz manteve o blog fora do ar com a justificativa da similaridade entre o nome Falha de S.Paulo e a marca registrada pela Folha de S.Paulo.

Além de um caso óbvio de censura judicial, a manutenção da censura ao Falha de S.Paulo abre um precedente perigoso para a liberdade de expressão, principalmente em relação à sátira e à ironia.

Por exemplo, que se cuide o programa Pânico da TV, exibido pela Bandeirantes. Ao satirizar novelas da Globo, o humorístico costuma utilizar-se do mesmo recurso utilizado pela Falha de S.Paulo. Um quadro que faz uma paródia da novela Salve Jorge, da TV Globo, chama-se Salve George. Todo cuidado é pouco de agora em diante. A não ser que o que se fez com a Falha só seja utilizado contra veículos de comunicação que não se alinham ao piguismo.

Este blogueiro faz coro as palavras do relator especial da ONU para a liberdade de expressão, Frank La Rue, sobre o caso Falha × Folha: “É interessante esse uso da ironia que vocês fizeram usando as palavras Folha e Falha. Uma das formas de manifestação mais combatidas hoje em dia, e que deve ser defendida, é o jornalismo irônico”, disse em visita ao Brasil.

Este julgamento transformou uma questão de liberdade de expressão em um debate comercial com um único objetivo: calar os críticos do jornalão da família Frias. Ou alguém consegue ser ingênuo o suficiente para acreditar que o que incomodou a Folha foi a questão comercial, a similaridade do seu nome com o domínio de um blog sem nenhuma publicidade ou outra modalidade de retorno financeiro?

A vitória da Folha é a vitória da censura. Mas para um veículo de comunicação que colocava seus carros à disposição dos órgãos repressores e que hoje em dia ainda diz que vivemos naqueles dias uma ditabranda, isso não deve representar muita coisa.

Lino Bocchini: “Liberdade de expressão só é garantida para quem tem dinheiro.”

17 de dezembro de 2012
Mário e Lino Bocchini com o relator da ONU. (Foto: Fora do Eixo)

Mário e Lino Bocchini com o relator da ONU. (Foto: Fora do Eixo)

Nathália Carvalho

Com liminar que prevê multa diária de R$1.000,00 o blog Falha de S.Paulo segue fora do ar e sem veicular conteúdo. Em conversa com o site Comunique-se, o idealizador da página que satiriza a Folha, Lino Bocchini, diz que, no País, a liberdade de expressão não é garantida para todos. “A censura é proibida em tese, mas, na prática, ela só é garantida para quem tem dinheiro.”

O assunto voltou a ser debatido quando, na quinta-feira, dia 13, a situação foi apresentada ao relator especial da ONU para a Liberdade de Expressão, Frank la Rue. Na ocasião, Lino conta que o representante não entendeu os motivos de o jornal ter aberto o processo e afirmou que “o humor incomoda mais do que a crítica”.

Há dois anos, a página que parodiava o veículo foi tirada do ar, pois a Folha alegou que os autores usavam logo, fontes, conteúdo e fotos que caracterizavam o projeto gráfico do impresso. Para Lino, a questão não foi bem essa. “Criamos a página para criticar a postura da Folha, que se diz apartidária, mas faz jornalismo partidário. Eles têm preferências políticas muito claras. Não acho isso ruim. O errado é ser hipócrita falando que é imparcial”, argumentou.

De acordo com as informações, o relator vai analisar os documentos entregues por Lino a ele e, provavelmente, se pronunciar sobre o assunto. Uma das ideias do criador do Falha com está ação é que os veículos convencionais aborde o tema em pautas. “Ninguém fala sobre o assunto porque existe muito corporativismo nas redações”, diz. A reportagem procurou o Jurídico da Folha, mas ainda não teve retorno. A previsão é que o processo seja julgado no próximo ano.

Leia também:

Relator da ONU defende a democratização da comunicação brasileira


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