Posts Tagged ‘Karl Marx’

Anticomunismo: Um espectro que ronda o Brasil?

26 de novembro de 2013

Marx01Luciana Ballestrin, via Carta Maior

Neste ano ocorreram pelo menos três episódios públicos envolvendo denúncias de “doutrinação marxista” no ambiente universitário brasileiro: a recusa de um estudante em realizar um trabalho sobre Karl Marx, a pedido de seu professor (Santa Catarina); a ação popular movida por um advogado contra um projeto de extensão de difusão do marxismo (Minas Gerais), que acarretou em sua suspensão pela Justiça Federal do Maranhão e a acusação de um filósofo sobre a contaminação do marxismo nas Ciências Humanas e Sociais (SP). As três notícias tiveram cobertura em veículos midiáticos, cujas posições ideológicas são historicamente conhecidas do público.

O espraiamento nacional de uma suposição sobre o avanço do comunismo e do marxismo no Brasil, às vésperas do cinquentenário do Golpe civil-militar, convida a todos os cidadãos e cidadãs para a seguinte reflexão: o que estes discursos e ideias representam no Brasil após 25 anos da promulgação da Constituição de 1988? Gostaríamos de sugerir que isso reflete uma paranoia, compartilhada por pessoas e grupos capazes de formar guetos de opinião e que a despeito do alcance restrito, ganham destaque desproporcional na mídia hegemônica.

O conceito de paranoia, em termos psiquiátricos, possui sua própria história, como todos os conceitos mais ou menos compartilhados pelo campo científico. A despeito das controvérsias particulares inerentes a este campo – no caso, o da psicanálise – é possível sustentar com baixo custo de prejuízo que a ideia de paranoia envolve basicamente um delírio persecutório baseado em uma desconfiança descolada da realidade, razão ou empiria.

Defensivas ou preventivas, as consequências políticas da proliferação do discurso paranoico anticomunista e antimarxista ferem, paradoxalmente, dois princípios liberais básicos: liberdade de expressão e tolerância. Ao mesmo tempo, reedita a paranoia clássica alimentada pela Guerra Fria, cuja conjuntura internacional fora cúmplice do segundo período ditatorial brasileiro.

Foi justamente neste contexto que ocorreu a institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, amplamente apoiada pela estadunidense e liberal Fundação Ford.

Neste período, várias brasileiras e brasileiros pagaram com a dor, o exílio e a vida, o preço pela defesa de suas ideias comunistas e marxistas, bem como quaisquer outros que contrariassem à lógica da ditatura civil-militar. Hoje, qual é o preço a pagar por essa retórica da intransigência? Como responder a uma paranoia revestida de intelectualidade, a um despautério anacrônico e a um disparate sem fundamento?

Seria um tanto contraproducente esboçar nessas linhas argumentos e razões que tentem comprovar que o Brasil não é governado por comunistas e que a universidade brasileira não está intoxicada pelo marxismo. Inútil, de igual forma, pensar na originalidade histórica dos escritos marxistas e na importância das várias correntes do marxismo – do vulgar e ortodoxo para o crítico e arejado – para os campos das Ciências Sociais Aplicadas ou não. Da mesma maneira estéril, argumentar que o eurocentrismo, o colonialismo e o progresso moderno não são completamente afastados do marxismo e que justamente por isso, ele encontra resistência nos movimentos decoloniais latino-americanos.

Produtivo, talvez, seja observar o nascimento de um novo tipo de direita no Brasil.

Mesmo os velhos e os contemporâneos clássicos do liberalismo político moderado são capazes de aceitar a tolerância, a diferença, a liberdade de expressão, a existência do Estado e o respeito ao outro. Não estamos falando, portanto, da adversária histórica direita liberal. Ela é nova justamente porque ultrapassa a própria moral e a própria ética do liberalismo e acontece neste exato momento histórico. Ela é nova justamente porque também se apropria dos discursos da esquerda e da democracia para combater a própria esquerda e a própria democracia.

Se, cada vez mais, a esquerda não tem se restringindo à alternativa marxista, criando um repertório de resistência, emancipação e libertação próprias, a direita não tem se restringido à alternativa liberal, criando um repertório de ignorância, esquecimento e ódio próprios. Certamente, o espectro que ronda a primeira já não é mais o do comunismo. Mas, o espectro que ronda a segunda ainda desagua no seu totalitarismo oposto, o fascismo. Ou será que estamos, simplesmente, paranoicos?

Luciana Ballestrin é professora adjunta de Ciência Política, coordenadora do Curso de Relações Internacionais – Centro de Integração do Mercosul Programa de Pós-Graduação em Ciência Política – Instituto de Filosofia, Sociologia e Política, da Universidade Federal de Pelotas.

Lincoln e o berço vermelho do Partido Republicano

11 de março de 2013
Robin_Blackborn_Capa_Livro

Capa do livro de Robin Blackburn.

O que o filme Lincoln, de Spielberg, não diz sobre Lincoln.

Vicenç Navarro, lido no Viomundo

O filme Lincoln, de Steven Spielberg, que acaba de estrear no Brasil, narra como esse presidente de forte lembrança popular lutou contra a escravidão e pela transformação dos escravos em trabalhadores. O que a obra cinematográfica não conta, porém, é que Lincoln também lutou por outra emancipação: que os escravos e os trabalhadores em geral fossem senhores não apenas de sua atividade em si, mas também do produto resultante de seu trabalho.

O filme Lincoln, produzido e dirigido por um dos diretores mais conhecidos dos EUA, Steven Spielberg, fez reviver um grande interesse pela figura de Lincoln, um dos presidentes que, como Franklin D. Roosevelt, sempre apareceu no ideário estadunidense com grande lembrança popular. Destaca-se tal figura política como o fiador da unidade dos EUA, após derrotar os confederados que aspiravam à secessão dos Estados do Sul.

É também uma figura que se destaca na história dos EUA por ter abolido a escravidão e ter dado a liberdade e a cidadania aos descendentes das populações imigrantes de origem africana, ou seja, a população negra, que nos EUA se conhece como a população afro-americana.

Lincoln foi também um dos fundadores do Partido Republicano, que em suas origens foi diretamente oposto ao Partido Republicano atual – este altamente influenciado por um movimento, o Tea Party, chauvinista, racista e reacionário, por trás do qual existem interesses econômicos e financeiros que querem eliminar a influência do governo federal na vida econômica, social e política do país.

O Partido Republicano fundado pelo presidente Lincoln era, pelo contrário, um partido federalista, que considerou o governo como avalista dos Direitos Humanos, entre eles a emancipação dos escravos, tema central do filme Lincoln e para o qual o presidente deu maior expressão.

Terminar com a escravidão significava que o escravo passava a ser trabalhador, dono de seu próprio trabalho.

Lincoln, antes de ser presidente, considerou outras conquistas sociais como parte também dos Direitos Humanos, entre elas o direito do mundo do trabalho de controlar não só a atividade em si, mas também o produto resultante dele.

O direito de emancipação dos escravos transformava o escravo em uma pessoa livre assalariada, unida – segundo ele – em laços fraternais com os outros membros da classe trabalhadora, independentemente da cor da pele. Suas demandas de que o escravo deixasse de sê-lo e de que o trabalhador – tanto branco como negro – fosse o dono não só de seu trabalho, mas também do produto de seu trabalho, eram igualmente revolucionárias.

A emancipação da escravidão requeria que a pessoa fosse dona do seu trabalho. A emancipação da classe trabalhadora significava que a classe trabalhadora fosse dona do produto do seu trabalho. E Lincoln demandou os dois tipos de emancipação.

O segundo tipo de emancipação, entretanto, nem sequer é citado no filme Lincoln. Na realidade, é ignorado. E utilizo a expressão “ignorado” em lugar de “escondido” porque é totalmente possível que os autores do filme ou do livro sobre o qual se baseia nem sequer conheçam a história real de Lincoln.

A Guerra Fria no mundo cultural e inclusive acadêmico dos EUA continua existindo e o enorme domínio do que ali se chama de Corporate Class (a classe dos proprietários e gestores do grande capital) sobre a vida, não só econômica, mas também cívica e cultural, explica que a história formal dos EUA que se ensina nas escolas e nas universidades seja muito distorcida, purificada de qualquer contaminação ideológica procedente do movimento operário, seja socialismo, comunismo ou anarquismo.

A grande maioria dos estudantes estadunidenses, inclusive das universidades mais prestigiadas e conhecidas, não sabe que a festa de 1º de Maio, celebrada mundialmente como o Dia Internacional do Trabalho, é uma festa em homenagem aos sindicalistas estadunidenses que morreram em defesa de trabalhar oito horas por dia (em lugar de 12), vitória que transformou tal reivindicação exitosa na maioria dos países do mundo.

Nos EUA, tal dia, o 1º de Maio, além de não ser festivo, é o dia da Lei e da Ordem – Law and Order Day – (ver o livro People’s history of the U.S., de Howard Zinn).

A história real dos EUA é muito diferente da história formal promovida pelas estruturas de poder estadunidenses.

As ignoradas e/ou escondidas simpatias de Lincoln

Já quando era membro da Câmara Legislativa de seu estado de Illinois, Lincoln simpatizou claramente com as demandas socialistas do movimento operário, não só dos EUA, mas também mundial.

Na realidade, Lincoln, tal como indiquei no começo do artigo, considerava como um Direito Humano o direito do mundo do trabalho de controlar o produto de seu trabalho, postura claramente revolucionária naquela época (e que continua sendo hoje) e que nem o filme nem a cultura dominante nos EUA lembram ou conhecem, sendo convenientemente esquecida pelos aparatos ideológicos do establishment estadunidense controlados pela Corporate Class.

Na realidade, Lincoln considerou que a escravidão era o domínio máximo do capital sobre o mundo do trabalho e sua oposição às estruturas de poder dos estados sulinos se devia precisamente a que percebia estas estruturas como sustentadoras de um regime econômico baseado na exploração absoluta do mundo do trabalho.

Daí que visse a abolição da escravidão como a liberação não só da população negra, mas de todo o mundo do trabalho, beneficiando também a classe trabalhadora branca, cujo racismo ele via ser contra seus próprios interesses.

Lincoln também indicou que “o mundo do trabalho antecede o capital. O capital é o fruto do trabalho, e não teria existido sem o mundo do trabalho, que o criou. O mundo do trabalho é superior ao mundo do capital e merece a maior consideração […]. Na situação atual o capital tem todo o poder e há que reverter este desequilíbrio”.

Leitores dos escritos de Karl Marx, contemporâneo de Abraham Lincoln, lembrarão que algumas destas frases eram muito semelhantes às utilizadas por tal analista do capitalismo em sua análise da relação capital/trabalho sob tal sistema econômico.

Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln, tal como documenta detalhadamente John Nichols em seu excelente artículo “Reading Karl Marx with Abraham Lincoln: Utopian socialists, Germam communists and other republicans” publicado em Political Affairs (27/11/12), e do qual extraio as citações, assim como a maioria dos dados publicados neste artigo.

Os escritos de Karl Marx eram conhecidos entre os grupos de intelectuais que estavam profundamente insatisfeitos com a situação política e econômica dos EUA, como era o caso de Lincoln.

Karl Marx escrevia regularmente no The New York Tribune, o rotativo intelectual mais influente nos Estados Unidos daquele período.

Seu diretor, Horace Greeley, se considerava um socialista e um grande admirador de Karl Marx, a quem convidou para ser colunista do jornal. Nas colunas de seu jornal, Horace incluiu grande número de ativistas alemães que haviam fugido das perseguições ocorridas na Alemanha daquele tempo, uma Alemanha altamente agitada, com um nascente movimento operário que questionava a ordem econômica existente.

Alguns destes imigrantes alemães (conhecidos no EUA daquele momento como os “Republicanos Vermelhos”) lutaram mais tarde com as tropas federais na Guerra Civil, dirigidos pelo presidente Lincoln.

Greeley e Lincoln eram amigos. Na realidade, Greeley e seu jornal apoiaram desde o princípio a carreira política de Lincoln, sendo Greeley quem lhe aconselhou a que disputasse a presidência do país. E toda a evidência aponta que Lincoln era um fervoroso leitor do The New York Tribune. Em sua campanha eleitoral para a presidência dos EUA, Lincoln convidou vários “republicanos vermelhos” a integrarem-se à sua equipe.

Na realidade, já antes, como congressista, representante de Springfield, no estado de Illinois, Lincoln frequentemente apoiou os movimentos revolucionários que estavam acontecendo na Europa, e muito em especial na Hungria, assinando documentos em apoio a tais movimentos.

Lincoln, grande amigo do mundo do trabalho estadunidense e internacional

Seu conhecimento das tradições revolucionárias existentes naquele período não era casual, e sim fruto de suas simpatias com o movimento operário internacional e suas instituições. Incentivou os trabalhadores dos EUA a organizar e estabelecer sindicatos antes e durante sua presidência.

Foi nomeado membro honorário de vários sindicatos. Em sua resposta aos sindicatos de Nova Iorque afirmou “vocês entenderam melhor que ninguém que a luta para terminar com a escravidão é a luta para libertar o mundo do trabalho, para libertar todos os trabalhadores. A libertação dos escravos no Sul é parte da mesma luta pela libertação dos trabalhadores no Norte”.

E, durante a campanha eleitoral, o presidente Lincoln promoveu a postura contra a escravidão afirmando explicitamente que a libertação dos escravos permitiria aos trabalhadores exigir os salários que lhes permitissem viver decentemente e com dignidade, ajudando com isso a aumentar os salários de todos os trabalhadores, tanto negros como brancos.

Marx, e também Engels, escreveram com entusiasmo sobre a campanha eleitoral de Lincoln, em um momento em que ambos estavam preparando a Primeira Internacional do Movimento Operário.

Em um momento das sessões, Marx e Engels propuseram à Internacional que enviasse uma carta ao presidente Lincoln felicitando-o por sua atitude e postura.

Na carta, a Primeira Internacional felicitava o povo dos EUA e seu presidente por, ao terminar com a escravidão, haver favorecido a liberação de toda a classe trabalhadora, não só estadunidense, mas também mundial.

O presidente Lincoln respondeu, agradecendo a nota e dizendo que valorizava o apoio dos trabalhadores do mundo a suas políticas, em um tom cordial, que certamente criou grande alarme entre os establishments econômicos, financeiros e políticos de ambos os lados do Atlântico.

Estava claro, a nível internacional que, como afirmou mais tarde o dirigente socialista estadunidense Eugene Victor Debs, em sua própria campanha eleitoral, “Lincoln havia sido um revolucionário e que, por paradoxal que pudesse parecer, o Partido Republicando havia tido, em suas origens, uma tonalidade vermelha”.

A revolução democrática que Lincoln começou e que nunca se desenvolveu

Não é preciso dizer que nenhum destes dados aparece no filme Lincoln, nem são amplamente conhecidos nos EUA. Mas, como bem afirmam John Nichols e Robin Blackburn (outro autor que escreveu extensamente sobre Lincoln e Marx), para entender Lincoln tem de entender o período e o contexto nos quais ele viveu. Lincoln não era um marxista (termo sobre-utilizado na literatura historiográfica e que o próprio Marx denunciou) e não era sua intenção eliminar o capitalismo, mas corrigir o enorme desequilíbrio existente nele, entre o capital e o trabalho.

Mas, não há dúvida de que foi altamente influenciado por Marx e outros pensadores socialistas, com os quais compartilhou seus desejos imediatos, claramente simpatizando com eles, levando sua postura a altos níveis de radicalismo em seu compromisso democrático. É uma tergiversação histórica ignorar tais fatos, como faz o filme Lincoln.

Não resta dúvida que Lincoln foi uma personalidade complexa, com muitos altos e baixos. Mas as simpatias estão escritas e bem definidas em seus discursos. E mais, os intensos debates que aconteciam nas esquerdas europeias se reproduziam também nos círculos progressistas dos EUA.

Na realidade, a maior influência sobre Lincoln foi a dos socialistas utópicos alemães, muitos dos quais se refugiaram em Illinois fugindo da repressão europeia.

O comunalismo que caracterizou tais socialistas influenciou a concepção democrática de Lincoln, interpretando democracia como a governança das instituições políticas por parte do povo, no qual as classes populares eram a maioria.

Sua famosa expressão, que se converteu no esplêndido slogan democrático mais conhecido no mundo – Democracy for the people, of the people and by the people – claramente afirma a impossibilidade de ter uma democracia do povo e para o povo sem que seja realizada e levada a cabo pelo próprio povo. Daí vem a libertação dos escravos e do mundo do trabalho como elementos essenciais de tal democratização.

Seu conceito de igualdade levava inevitavelmente a um conflito com o domínio de tais instituições políticas pelo capital. E a realidade existente hoje nos EUA e que detalho em meu artigo “O que não se disse nos meios de comunicação sobre as eleições nos EUA” (Público, 13/11/2012) é uma prova disso.

Hoje a Corporate Class controla as instituições políticas do país.

Últimas observações e um pedido

Repito que nenhuma destas realidades aparece no filme. Spielberg não é, afinal, nenhum Pontecorvo e o clima intelectual estadunidense ainda está estancado na Guerra Fria, que lhe empobrece intelectualmente. “Socialismo” continua sendo uma palavra mal vista nos círculos do establishment cultural daquele país.

E, na terra de Lincoln, aquele projeto democrático que ele sonhou nunca se realizou devido à enorme influência do poder do capital sobre as instituições democráticas, influência que diminuiu enormemente a expressão democrática naquele país. O paradoxo brutal da história é que o Partido Republicano se tenha convertido no instrumento político mais agressivo hoje existente a serviço do capital.

Certamente, agradeceria que todas as pessoas que achem este artigo interessante o distribuam amplamente, incluindo, em sua distribuição os críticos de cinema, que em sua promoção do filme, seguramente não dirão nada do outro Lincoln desconhecido em seu próprio país (e em muitos outros).

Um dos fundadores do movimento revolucionário democrático nem sequer é reconhecido como tal.

Sua emancipação dos escravos é uma grande vitória, que deve ser celebrada. Mas Lincoln foi muito além. E disto nem se fala.

Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia.

Izaías Almada: Síndromes, papas e datas memoráveis

24 de fevereiro de 2013

Marx_Papa_Yoani

Sugiro a nossa ilustre visitante Yoani Sanchez, brava defensora do direito de expressão dos grandes monopólios midiáticos, que interceda junto ao governo norte-americano pela vida e pelo direito de expressão do soldado Bradley Manning.

Izaías Almada, via Carta Maior

21 de fevereiro de 1848. Nessa data se publicou o Manifesto Comunista. Há 165 anos. Nele, Marx e Engels dão o diagnóstico fúnebre da monarquia e da religião, estas suplantadas por uma nova ordem econômica, o capitalismo, e identificando a burguesia como a nova classe social opressora.

Curioso o movimento pendular da História. Um século e meio depois o mundo vive, ao que parece, em nova crise de identidade, de transformação econômica onde, com esforço, impaciência e alguma incredulidade e ignorância por parte de uns e o esforço analítico e sério por parte de outros tantos, o mundo continua a dar cabeçadas em nome de alguma coisa que minimamente possa representar a solidariedade, a melhor distribuição da riqueza acumulada, a paz entre os povos. Nesse contexto reina a confusão entre homens e nações.

Aqui no Brasil, por exemplo, ao declarar a uma emissora de rádio gaúcha, semanas atrás, que o deputado José Genoíno deveria renunciar a seu mandato, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, do mesmo PT de Genoíno, ofereceu de bandeja à oposição, em especial a seus pittbulls na mídia, o pretexto para ampliar a execração da esquerda brasileira.

Outra coisa não fizeram alguns desqualificados jornalistas e comentaristas políticos que, além de ironizar o fato, ainda relembraram um caso antigo que envolveu o próprio governo Dutra no sul, citando o encontro de um seu funcionário com bicheiros naquele estado que, supostamente, ajudavam a financiar campanhas eleitorais.

Em outras palavras: Olívio Dutra, além de demonstrar inabilidade na análise da conjuntura atual da política brasileira, deu munição àqueles que já não sabem muito bem o que fazer com os dez anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Ou não sabem como conviver com o julgamento da AP 470, o maior e mais ridículo julgamento político feito por um tribunal brasileiro em tempos de democracia.

O tempo vai passando e, sobre isso, o jornalismo investigativo, o sério, vai aos poucos desmontando a farsa do “mensalão”, deixando a oposição de direita, de meia-direita, de centro ou mesmo de esquerda de calças na mão. Além do livro A privataria tucana, que mostra com provas irrefutáveis o verdadeiro ninho da corrupção no Brasil contemporâneo, temos o trabalho do jornalista Raimundo Pereira na revista Retrato do Brasil e agora o livro do jornalista Paulo Moreira Leite, A outra história do mensalão (também da Geração Editorial), matérias da revista CartaCapital e do jornal Brasil de Fato, além de inúmeros blogues, vão dando contornos à farsa político/jurídico/midiática organizada pelos setores mais comprometidos com o atraso em nosso país.

Do julgamento à renúncia do papa. O que deixa Deus sem seu representante na terra por algumas semanas. Fui surpreendido, como milhões e milhões de cidadãos, com a notícia da renúncia do papa Bento 16 e dei-me conta (não é a primeira vez, claro) de que é tudo muito efêmero a nossa volta. Nada é muito novo nas relações humanas. O mundo caminha a passos largos para tornar tudo relativo e de pouca importância. Ou melhor, essa caminhada – ao que tudo indica – tem a ver diretamente com o sistema econômico de cada época em que se vive e, portanto, a que estamos submetidos.

O laicismo, desde sua definição e adoção na França, não tem passado de um conceito apenas teórico, cuja prática deixou e deixa de existir com as diversas interferências da religião na vida dos cidadãos e do estado. A fé continua a ser um “produto” vendido nos grandes mercados mundiais da ingenuidade humana. O que, apesar de não ser nenhuma novidade, contribui para confirmar uma zona nebulosa da humanidade.

Por outro lado, o moderno sistema de comunicação social, tendo a seu serviço emissoras de televisão privadas e estatais, jornais e revistas para os mais variados gostos e ideologias, emissoras de rádio, internets, tuíteres, feicibuquis, celulares, tabletes e mais algumas bugigangas da pós-modernidade, afunda o ser humano numa cisterna de informações contraditórias, espalhando no mais das vezes a confusão para dividir e reinar, para alongar a vida de um capitalismo que já dá inúmeras mostras de esgotamento de seus principais postulados. Nesse vendaval de informações e teorias, as várias religiões espalhadas pelo mundo ainda tentam “vender” uma fé que já não consegue se explicar. E, em meu modesto ponto de vista, que nunca se explicou. A história das religiões é, antes de qualquer coisa, a história do próprio homem, de suas virtudes e de seus defeitos. O homem é quem cria os deuses a sua imagem e semelhança.

Termino por dizer que 21 de fevereiro de 1912 é também uma data importante, pelo menos em meu calendário. Nesse dia, mês e ano nasceu Martha, minha saudosa mãe, que morreu ainda jovem e não conheceu o computador, o celular, o Genoíno, o Partido dos Trabalhadores, o papa Bento 16 e, com toda certeza, nunca ouviu falar em Marx e Engels. E muito menos em Julian Assange e seu WikiLeaks.

Aproveito, então, a data para sugerir a nossa ilustre visitante Yoani Sanchez, brava defensora do direito de expressão dos grandes monopólios mediáticos, que interceda junto ao governo norte-americano pela vida e pelo direito de expressão do soldado Bradley Manning.

Izaías Almada é escritor e dramaturgo. Autor da peça Uma questão de imagem (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro Teatro de Arena: Uma estética de resistência, Editora Boitempo.

“Conversa com escritores mortos”: Marx e Engels

2 de fevereiro de 2013
Marx_Engels02

Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista.

Camila Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

A crise econômica mundial devolveu Marx aos debates. O Diário, atento, quis ouvi-lo na série “Conversas com escritores mortos”. Incluímos na conversa, por delicadeza, o melhor amigo de Marx, Engels, seu parceiro em muitos projetos, e também seu financiador dedicado, leal.

Herr Marx e Herr Engels, os senhores foram grandes intelectuais e revolucionários, além de terem sido os fundadores da doutrina comunista. Alguns dizem que foram até mesmo filósofos. Os senhores se consideram como tais?

Talvez um pouco, mas não muito. Somos muito mais revolucionários do que filósofos. Os filósofos apenas interpretaram o mundo, de várias maneiras diferentes; o ponto, no entanto, é que não basta interpretar o mundo – é necessário mudá-lo.

E essa, certamente, foi a intenção dos senhores.

Sim, é claro que sim. Os comunistas, como nós, lutam para atingir os interesses e objetivos imediatos da classe operária. Em uma palavra, em toda a parte os comunistas apoiam qualquer movimento revolucionário contra as ordens sociais e políticas estabelecidas. Tencionamos ascender o proletariado à classe dominante em nossa luta pela democracia.

Hmmm…

O que o operário assalariado obtém por sua atividade é o estritamente necessário para garantir-lhe a sobrevivência. Queremos apenas suprimir o caráter miserável dessa apropriação, em que o operário só vive para aumentar o capital e só vive enquanto o exigem os interesses da classe dominante.

E de que modo tencionam fazê-lo?

Os comunistas recusam-se a dissimular suas concepções e seus propósitos. Proclamam abertamente que seus objetivos só podem ser atingidos pela derrubada violenta de toda ordem social passada.

Com uma revolução, portanto?

Sim, e que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista. Os proletários nada têm a perder, exceto seus grilhões. Têm um mundo a ganhar! É muito divertido pensar, no entanto, que o último capitalista que enforcarmos será aquele que nos vendeu a corda.

O que os motivou a escrever o Manifesto do Partido Comunista?

Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa aliaram-se para uma Santa Caçada a esse espectro: o papa e o czar, Metternich e Guizot, radicais franceses e políticos alemães. O comunismo, portanto, já é reconhecido como uma força por todas as forças da Europa e estava mais do que na hora de os comunistas exporem abertamente ao mundo inteiro suas concepções, seus objetivos e suas tendências e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um manifesto do partido.

O partido foi criticado?

E como! Que partido de oposição não foi tachado de comunista pelos adversários no poder? Os comunistas também são recriminados por quererem suprimir a pátria, a nacionalidade. Os operários não têm pátria – não se lhes pode tirar o que não tem.

Compreendo. Vocês conseguiriam resumir em algumas palavras do que se trata a dita “burguesia”? E o “proletariado”?

Por burguesia entendemos a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores do trabalho assalariado. Por proletariado entendemos a classe dos operários assalariados modernos que, não possuindo meios próprios de produção, reduzem-se a vender sua força de trabalho para que possam sobreviver.

Como a burguesia se originou?

Ela foi inicialmente um grupo oprimido sob o jugo dos senhores feudais. Posteriormente, na época do surgimento da indústria, tornou-se um contrapeso à nobreza na monarquia descentralizada ou absoluta, fundamento essencial das grandes monarquias. Com a criação da grande indústria e do mercado mundial, a burguesia conquistou finalmente a dominação política do moderno Estado parlamentar.

Poderíamos dizer, então, que a burguesia desempenhou na história um papel revolucionário decisivo?

Sim, visto que a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas, estilhaçando os laços feudais que subordinavam o homem a seus superiores naturais, não deixando subsistir entre os homens outro laço se não o interesse nu e cru, senão o frio “dinheiro vivo”.

Como assim?

Submergiram nas águas glaciais do cálculo egoísta os frêmitos sagrados da piedade exaltada, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno burguês, reduzindo a dignidade pessoal a valor de troca. Em resumo, a burguesia rasgou o véu de emoção e de sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária.

Mas a dita piedade exaltada, o entusiasmo cavalheiresco e todas essas coisas não eram nada mais do que farsas, eram?

Exatamente, e é por isso que podemos afirmar que a burguesia substituiu a exploração disfarçada sob ilusões religiosas e políticas pela exploração aberta, cínica, direta e brutal.

Por falar em religião, Herr Marx, você nunca foi um grande entusiasta desta, não é mesmo?

A religião é o ópio do povo.

Como assim?

A religião é o suspiro das criaturas oprimidas, o coração de um mundo insensível e a alma das condições desalmadas. A abolição da religião como a felicidade ilusória das pessoas é a demanda para a verdadeira felicidade delas.

Entendo perfeitamente. Por vezes, penso nas monarquias e então na burguesia – e me pergunto se a última aboliu as classes hierárquicas existentes na primeira. Isso aconteceu, senhores?

Tentaremos explicar brevemente. Na Roma Antiga, temos patrícios, cavaleiros, plebeus e escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres de corporação, oficiais e servos. A sociedade burguesa moderna, oriunda do esfacelamento da sociedade feudal, não supriu a oposição de classes. Limitou-se a substituir as antigas classes hierárquicas por novas classes, por novas condições de opressão, por novas formas de luta. E cada vez mais a sociedade inteira divide-se em dois grandes blocos inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam diretamente: a burguesia e o proletariado.

Eu compreendo plenamente o fato de os senhores adotarem os interesses proletários. Ainda assim, gostaria de saber se veem algum mérito nas ideias e realizações burguesas?

Sim. A burguesia foi quem primeiro mostrou quão capaz é a atividade humana. Realizou maravilhas superiores às pirâmides egípcias, aos aquedutos romanos e às catedrais góticas. Levou a cabo expedições maiores que as grandes invasões e as Cruzadas. Em apenas um século de sua dominação de classe, a burguesia criou forças de produção mais imponentes e mais colossais que todas as gerações precedentes reunidas.

E como isso foi feito?

Controlando cada vez mais a dispersão dos meios de produção da propriedade e da população. Aglomerando a população, centralizando os meios de produção e concentrando a propriedade em poucas mãos.

E os senhores consideram necessária a luta contra essa burguesia?

Naturalmente. As armas que a burguesia usou para abater o feudalismo voltam-se agora contra ela mesma. Mas a burguesia não forjou apenas as armas que lhe darão a morte; também engendrou os homens que empunharão essas armas, aqueles que chamamos de proletários, de quem já falamos.

Os senhores disseram que os proletários são aqueles que devem vender a força de trabalho para poderem sobreviver, uma vez que os meios de subsistência estão concentrados nas mãos dos capitalistas. É isso?

Sim, e deve-se ressaltar que os operários são uma mercadoria como qualquer outro artigo do comércio e, portanto, estão igualmente sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado.

Como assim, vicissitudes da concorrência?

A concorrência crescente dos burgueses entre si e as crises comerciais, que daí resultam, tornam o salário dos operários sempre mais instável. Fora isso, o aperfeiçoamento incessante e sempre mais rápido do maquinismo torna sua situação cada vez mais precária. Por conseguinte, à medida que o trabalho se torna mais degradante, o salário decresce.

E quais são as principais reivindicações do proletariado?

Que certos interesses particulares dos operários sejam reconhecidos pela burguesia sob forma de leis. Por exemplo, a lei da jornada de dez horas na Inglaterra.

Alguns aristocratas se posicionaram a favor da burguesia no momento em que viram que esta iria triunfar. Os senhores acham que burgueses passarão para o lado dos proletários caso considerem provável que eles vençam na luta entre as classes?

Sim. Isso acontece porque nos momentos em que a luta entre classes aproxima-se do auge, o processo de dissolução no interior da classe dirigente assume um caráter tão violento, tão áspero que uma pequena parte da classe dirigente desvincula-se desta e junta-se à classe revolucionária, à classe que tem o futuro nas mãos. Assim como outrora parte da nobreza passara para a burguesia, parte da burguesia passa agora para o proletariado, especialmente uma parte dos ideólogos burgueses que chegaram à compreensão teórica do conjunto do movimento histórico.

Então a luta do proletariado por seus direitos irá desesperar os burgueses, sim?

É claro que sim – o proletariado, a camada mais baixa de sociedade atual, não pode erguer-se, recuperar-se, sem estilhaçar toda a superestrutura de estratos que constituem a sociedade oficial e consequentemente desesperar os que pretendem que a sociedade continue do modo que está.

Herr Marx e Herr Engels, uma das frases mais célebres do Manifesto do Partido Comunista é a seguinte: “A existência da burguesia não é mais compatível com a sociedade”. Como assim?

Até os dias de hoje, todas as sociedades repousaram, como vimos, no antagonismo entre classes opressoras e oprimidas. Mas, para se oprimir uma classe, é necessário assegurar-lhes condições para que se torne possível, no mínimo, prolongar sua existência servil. O operário moderno, no entanto, em vez de elevar-se com o progresso da indústria, decai cada vez mais – abaixo das condições de sua própria classe. O operário transforma-se em indigente, e a miséria cresce mais rápido do que a população e a riqueza. É por isso que dizemos que a sociedade não pode mais existir sob o domínio dos capitalistas, isto é, a existência da burguesia não é mais compatível com a sociedade.

Para finalizarmos, meus senhores, vocês podem diferenciar as aspirações da sociedade burguesa das aspirações da sociedade comunista?

Na sociedade burguesa, o trabalho vivo é apenas um meio para multiplicar o trabalho acumulado. Na sociedade comunista, o trabalho acumulado é apenas um meio para aumentar, enriquecer, fazer avançar a existência dos operários.

Marx diria: “STF serve às elites, estúpido!”

19 de outubro de 2012

Marcus Vinícius, via Brasil 247

Por que Duda Mendonça não foi condenado com base no “fato motivador”, como foram os réus do núcleo político diante da ausência completa de provas da PGR?

Além de filósofo, economista e “pai do comunismo”, Karl Marx batia um bolão como jornalista. No próximo 25 de outubro completa-se 151 anos de uma das análises mais contundentes sobre a Guerra da Secessão. O texto foi escrito por Marx para o Die Presse, um diário austríaco burguês de tendência liberal, e mostra como a Corte Suprema dos Estados Unidos se tornou o último bastião das elites escravistas do Sul contra os brancos livres do Norte.

As elites sulistas se valiam de seu domínio sobre o Congresso norte-americano para manter e ampliar o regime escravagista. Esse poder, no entanto, erodia-se devido ao crescimento acelerado da população dos estados do Norte e Nordeste, não escravistas. Como a representação na Câmara dos Representantes é ligada à população dos estados, e as populações dos estados livres cresciam acima daquela dos estados escravistas, as elites escravistas perdiam gradativamente o controle da Câmara e dependiam cada vez mais do Senado, onde cada estado, independente da população, tinha dois representantes.

Ocorre que, os senhores de escravos também estavam perdendo o controle do Senado e para manter o status quo se valeram da judicialização da política. Notou aí semelhanças com as elites do Brasil? Sim, as elites norte-americanas recorreram à Corte Suprema dos EUA para garantir seus privilégios, e foram os juízes supremos, que segundo Marx, deram veredicto pela escravidão:

“Ela [Corte Suprema] decidiu, em 1857, no notório caso Dred Scott, que todo cidadão norte-americano possui o direito de levar consigo para qualquer território qualquer propriedade reconhecida pela Constituição. Consequentemente, com base na Constituição, os escravos poderiam ser forçados pelos seus donos a trabalhar nos territórios. E assim todo senhor de escravos estaria individualmente habilitado a introduzir a escravatura em territórios até agora livres conta a vontade da maioria dos colonos. O direito de eliminar a escravidão foi tirado das legislaturas territoriais e o dever de proteger os pioneiros do sistema escravagista foi imposto ao Congresso e ao governo da União [pela Corte Suprema]”.

Luta de classes

No Brasil, desde a eleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), as elites conservadoras, que se valeram do golpe militar de 1964 para chegar ao poder, têm perdido gradativamente espaço na Câmara Federal e no Senado. O DEM (ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena) desmilinguiu-se. No período (1995–2002) de governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o partido chegou a ter 105 deputados federais e 17 senadores na legislatura de 1999. Os eleitos em 2010 foram quatro senadores e 43 deputados, número que reduziu-se a 28, pela migração para outras siglas como o PSD. Em 2004 o PFL tinha 6.460. Em 2012, o DEM reduziu-se a 3.271, ou seja 3.189 vereadores a menos! Em 1996, o PFL elegeu 934 prefeitos, saltou a 1.028 no ano 2000 e em 2012, o DEM elegeu somente 271, ou seja 757 prefeitos a menos!

Até o segundo mandato do presidente Lula, o equilíbrio de forças no Senado era desfavorável ao petista. Com a eleição de sua sucessora, a aliança trabalhista formada por PT/PMDB/PSB/PCdoB/PDT e outros partidos, passou a ter domínio no Congresso Nacional. A presidenta Dilma Rousseff assumiu com uma bancada de 311 votos (de 513) na Câmara dos Deputados e de 50 (de 81) no Senado. Assim como Karl Marx testemunhou a judicialização da política via Corte Suprema nos EUA, numa reação conservadora à perda de comando no Legislativo, o Brasil assiste movimento similar, no STF que se expressa com mais vigor no julgamento da Ação Penal 470, o dito “Julgamento do Mensalão”.

Exagero? Não.

O que justifica que no julgamento do publicitário Duda Mendonça os ministros do Supremo Tribunal Federal tenham considerado lícito o pagamento de seus serviços na campanha de 2002, com recursos oriundos do Banco Rural, mas em relação aos empréstimos feitos no mesmo banco, para pagamento de despesas de campanha no Waldemar Costa Neto (PR), de Pedro Henry (PP) ou de Delúbio Soares e José Genoíno pelo PT, o mesmo dinheiro do Banco Rural transformou-se em “corrupção passiva” e lavagem de dinheiro?

Não houve, nos dois casos, pagamento de despesas de campanha?

Por que, apesar da ausência completa de provas no relatório da Procuradoria Geral da República, os chamados “réus do núcleo político” foram condenados com base no “fato motivador”; no entanto, apesar do esculacho do ministro Joaquim Barbosa contra o procurador Roberto Gurgel, pela PGR não ter produzido provas contra Duda Mendonça, o empresário não foi enquadrado no mesmo “fato motivador”?

O fato motivador só se aplica a Puta, Preto, Pobre e Petista, como diria o ator José de Abreu?

Por que o caixa 2 do PSDB, do mensalão tucano, efetivado na tentativa de reeleição do governador Eduardo Azeredo em 1998, teve seu processo desmembrado para julgamento em 1ª e 2ª instâncias, enquanto o “mensalão do PT” teve direito a apenas uma instância de julgamento?

Por que o ministro relator, que colheu as provas na fase de inquérito, também participa do julgamento, tal e qual nos tribunais da Inquisição?

As respostas estão novamente na análise sesquicentenária de Karl Max: as elites, quando perdem o poder popular, recorrem aos últimos nacos de poder que controlam: seus pares no judiciário e às armas.

Em 1860 foram à guerra contra Lincoln. Em 1964, ao golpe contra Jango. E em 2012, ao STF contra Lula e o PT.

Nos EUA, os aristocratas do Sul; no Brasil, os barões da mídia a comandar a Corte Suprema.

Ah, diriam alguns, mas o relator da Ação Penal 470, Joaquim Barbosa, é um filho do povo, um ministro cujo pai era pedreiro, que veio do interior do País, de Paracatu/MG. Sim, de lar humilde, mas, ao que tudo indica, sem compromissos com sua classe de origem, pois somente isto justifica sua frase: “Presidente, o Supremo Tribunal Federal não tem de dar satisfação a ninguém!”

Se o Supremo como poder da República, segundo o ministro Barbosa, não deve satisfações ao povo, é porque do povo está divorciado. Se a Corte Suprema brasileira não está casada com o povo que banca neste ano de 2012, com impostos, os R$614,073 milhões aprovados na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDOs) para manutenção do STF, cumpre a este povo perguntar: a quem serve o STF?

Marx responderia: “Serve às elites, estúpido”!

Dia 17 de julho na história: Em 1867, Karl Marx publica sua obra máxima, O Capital

18 de julho de 2012

As mais de 2.500 páginas modelariam boa parte do pensamento político do século 20.

Via Opera Mundi

O Capital [Das Kapital], principal obra de Karl Marx, é publicado no dia 17 de julho de 1867. Desde então, a economia e a filosofia marxista foi objeto de estudos e polêmicas. Com base nelas foram fundados sindicatos e organizações, feitas revoluções e erigidos Estados.

São mais de 2.500 páginas escritas ao longo de 15 anos. Marx conseguiu escrever na íntegra apenas o primeiro volume. Os outros dois tomos foram concluídos após sua morte graças a fragmentos, bilhetes e anotações deixadas ao amigo Friedrich Engels.

A obra desvendou as engrenagens do capitalismo. Muitos consideram-na o marco do pensamento socialista marxista. Nela são expostos conceitos econômicos complexos, como a mais-valia, capital constante e capital variável. Há ainda a análise sobre salário, força de trabalho, teoria da alienação, acumulação primitiva, ou seja, todos os aspectos do modo de produção capitalista, inclusive uma crítica sobre a teoria do valor-trabalho de Adam Smith e outras teorias dos economistas clássicos.

Preocupa-se amplamente com a questão da circulação do dinheiro, dos valores de troca e de usufruto, das taxas de lucro e forças de produtividade. Ele falava de “engolir de todos os povos pela rede do mercado mundial” e da necessidade de eliminar as relações que escravizam as pessoas.

O ideólogo da classe operária nunca vira uma fábrica por dentro. Para sua obra de três volumes, pesquisou exaustivamente na biblioteca do Museu Britânico, em Londres. Lá, segundo suas próprias palavras, “juntou-se enorme quantidade de material” sobre o tema.

Marx levou tempo até chegar a sua obra máxima. Cada vez mais preocupado com os problemas econômicos, publica Miséria da filosofia, em 1847, em resposta ao livro do autor anarquista Proudhon A filosofia da miséria. Já demonstrava preocupação em erigir a economia política como ciência.

Em 1859 publicou Contribuição para a crítica da economia política, que já continha dois capítulos: “A mercadoria” e “A moeda”, retomados em O Capital. Seus textos eram escritos em cadernos de rascunho conhecidos como Grundrisse. A pequena Formações econômicas pré-capitalistas é uma das obras derivadas desse volumoso trabalho que se desdobraria nos Livros 1 a 3 de O Capital e no Livro 4, em que comenta teorias de outros autores.

Entre as várias opções de caminhos para expor suas ideias, Marx pensou publicar antes o Livro 4 e em unir o conteúdo do Livro 4 ao Livro 1. Decidiu, por fim, expor toda sua teoria primeiro para depois mostrar a de outros autores. Em O Capital, construiu um gigantesco complexo filosófico com os seus conhecimentos de ciências econômicas, história e sociologia, mesclados com os frutos de sua atuação política. Suas conclusões foram apoiadas por numerosas notas de rodapé e citações de referência.

A ideia central era a convicção da derrocada da sociedade capitalista, à qual se seguiria a vitória do socialismo e depois do comunismo, libertando a classe trabalhadora da exploração dos capitalistas.

Com a publicação de O Capital, conquistou reconhecimento universal e, ao lado de Engels, foi elevado à categoria de herói do socialismo científico, para muitos um dogma irrefutável.

A bíblia do proletariado nunca se tornou realmente popular. É de leitura difícil. Críticos neomarxistas consideram-na superada pelos acontecimentos reais e pela evolução da economia em âmbito global. Esses críticos acreditam que o desenvolvimento transcorreu, sob muitos aspectos, de forma diferente da que Marx esperava. Comparam a realidade de hoje com as teorias de Marx e sua validade em relação ao desenvolvimento real. Acreditam que exatamente assim é que se mantêm fieis ao espírito crítico de Karl Marx.


%d blogueiros gostam disto: