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Dilma, a inflação e os neoliberais

9 de abril de 2013

João Sicsú, via CartaCapital

O balanço da atuação dos governos Lula e Dilma em relação ao quesito “manter a inflação sob controle” é positivo. Somente em 2003, a inflação ficou fora da meta estabelecida. Os governos do PT foram bem-sucedidos em 9 dos 10 anos que governaram o País até o momento.

O Brasil adotou o regime de metas para a inflação em meados de 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. A inflação estourou a meta nos anos 2001 e 2002. O regime implantado em 1999 era muito simples: o Banco Central (BC) seria o único organismo responsável por manter a inflação sob controle, teria somente esse mandato e também um único instrumento anti-inflacionário, a taxa de juro básica da economia.

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Tal regime era parte do receituário neoliberal cujas fórmulas são sempre simples e aparentemente neutras. O regime de metas brasileiro mostrou que precisava sofrer adaptações. A experiência internacional e brasileira revelaram que a inflação é um fenômeno complexo, de causas variadas. O regime de metas, em sua configuração original, apontava como causa da inflação o crescimento econômico que geraria excesso de demanda e pressão sobre os preços. Nesse sentido, tinha como regra que o BC deveria “tocar um samba de uma nota só”: quando existisse algum tipo de pressão inflacionária a taxa de juros deveria ser aumentada imediatamente.

É preciso que seja dito claramente: a elevação da taxa de juro desaquece a economia, gera desemprego e, por último, adormece a inflação. Em 27 de março de 2013, a presidente Dilma afirmou que não é uma entusiasta dessas políticas: “[…] não concordo com políticas de combate à inflação que ‘olhem’ a questão do crescimento econômico, até porque temos uma contraprova dada pela realidade: tivemos um baixo crescimento no ano passado e um aumento da inflação, porque houve um choque de oferta devido à crise e fatores externos”.

Utilizar somente a elevação da taxa de juro como instrumento anti-inflacionário obriga o Banco Central a utilizar o remédio em doses cavalares o que mata a inflação e, também, a economia real: a inflação é reduzida e com ela milhares de trabalhadores são jogados no desemprego. Complementou a presidente: “Esse receituário que quer matar o doente antes de curar a doença é complicado. Eu vou acabar com o crescimento do País? Isso daí está datado. É uma política superada.”

Selic_Meta01

Como a elevação de preços tem diversas causas, o combate a inflação não pode se restringir a utilização de um único instrumento, a taxa de juros, que possui um perverso efeito colateral. A inflação pode ser combatida, dentre outras maneiras, com a redução de tributos (p.ex. os impostos sobre os bens da cesta básica), com estímulos à produtividade (p.ex. qualificando a mão de obra) e com a redução de custos de produção (p.ex. diminuindo as tarifas de energia elétrica).

A independência ou autonomia do Banco Central, que torna exclusiva a responsabilidade pelo controle da inflação, representa também o atraso, o passado. Época em que os fenômenos reais, sociais ou monetários eram analisados por uma única ótica. Os fenômenos econômicos são todos fenômenos sociais que merecem um acompanhamento interdisciplinar e interministerial: um acompanhamento de todo o governo, inclusive da Presidência.

É fato que o Brasil não precisa ter uma taxa de juro elevada para ter uma inflação controlada. Isto foi provado nos últimos anos: houve queda da taxa de juro básica (a taxa Selic) e controle inflacionário. O Brasil também não precisa gerar desemprego e reduzir a massa salarial para ter preços bem comportados. Nos últimos tempos, empregos e salários subiram.

Neoliberais rejeitam a política bem-sucedida de controle da inflação dos governos Lula e Dilma. Para eles, sempre é melhor uma taxa de juro maior do que uma taxa menor. Aqui neoliberais revelam de que lado eles estão: com juros elevados, trabalhadores ganham o desemprego e banqueiros, mais rendimentos e lucros. Nesse jogo há perdedores e ganhadores. Não há a neutralidade das políticas anti-inflacionárias decantadas por neoliberais.

Para camuflar de que lado estão, ensaiam sempre o seguinte argumento: “Quem mais perde com a inflação são os pobres que não podem proteger seus parcos recursos no sistema financeiro”. É verdade, mas é igualmente verdade que a experiência tem mostrado que usar a taxa de juro com parcimônia pode auxiliar a manter a inflação sob controle, além de não provocar desaquecimento econômico e desemprego relevantes.

Por último, cabe ser destacado que essa sensibilização com a vida dos pobres não combina com o DNA dos neoliberais brasileiros. O que eles querem de fato são juros maiores, mais rentismo e lucros financeiros.

João Sicsú é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do Ipea entre 2007 e 2011.

Política neoliberal: “A saída é frear a economia. É demitir mesmo.”

26 de março de 2013

Alexandre_Schwartsman_Ilan_Goldfajn

A frase acima é do economista Alexandre Schwartsman (esq.), ex-diretor do Banco Central e um dos pit bulls do sistema financeiro na defesa dos juros altos. Assim como ele, Ilan Goldfajn (dir.), economista-chefe do Itaú Unibanco, também defende, abertamente, mais desemprego para conter a inflação: “Não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos”, diz. Será que existe o risco de que esse discurso seja ouvido em Brasília?

Via Brasil 247

Os pit bulls do sistema financeiro estão nervosos. Enfurecidos. Exigem, de qualquer maneira, uma ração maior de juros, que poderá trazer, como resultado imediato, aumento do desemprego. E já nem fazem mais questão de esconder seus propósitos. Pedem, abertamente, a demissão de trabalhadores, como forma de reduzir o consumo e tentar fazer arrefecer a inflação.

Um desses personagens é Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, que depois teve curta passagem como economista-chefe do Santander, onde nem mesmo os espanhóis conseguiram administrar seus excessos verbais. Schwartsman exige demissões já. “A saída é frear a economia”, afirma. “É demitir mesmo”, completa, sem deixar claro se essa recomendação valeria para ele ou para pessoas próximas.

Mais contido na forma, mas não no conteúdo, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, que também passou pelo BC, adota o mesmo discurso. “A inflação não cai num passe de mágica. Não cai porque o Banco Central resolve falar mais duro. Cai com o encontro do crescimento da oferta com o crescimento da demanda. É preciso fazer escolhas. Não dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos”, diz ele, repetindo uma frase da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello.

A posição desses dois economistas, no entanto, é questionada pelo ex-ministro Delfim Netto, um dos mais próximos conselheiros da presidente Dilma Rousseff. “A empregada doméstica virou manicure ou foi trabalhar num call center. Agora, ela toma banho com sabonete Dove. A proposta desses gênios é fazer com que ela volte a usar sabão de coco aumentando os juros”, afirma.

Em Brasília, até agora, tem prevalecido uma outra estratégia de política econômica. Com a redução dos juros, o governo federal, que é o maior devedor da economia, passa a ter uma folga fiscal, que permite desonerar vários setores da economia. Graças a isso, foram reduzidos impostos incidentes sobre a cesta básica e também reduzidas as tarifas de energia.

De todo modo, o latido dos pit bulls para que o Banco Central adote o remédio antigo de alta dos juros é cada vez mais forte.

Luis Nassif: Um raio X do IPCA de janeiro

9 de fevereiro de 2013

Grafico_Queda03Luis Nassif em seu Advivo

Primeiro ponto de análise sobre a inflação de janeiro: Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) batendo em 0,86%. Não se deixe impressionar por análises alarmistas ou por comparações indevidas com a Argentina. Nem pelo lobby dos que querem a volta dos juros altos.

A alta foi puxada por fatores pontuais, que não tendem a se repetir no tempo.

Vamos a um pequeno raio X do índice.

Quando mencionar percentual (%), significa a elevação do preço referido; quando falar em ponto, significa o quanto aumentou ou diminuiu o índice final.

Esses 0,86% de aumento do IPCA se deveram aos seguintes produtos:

1. Alimentação e bebidas foram responsáveis por quase metade: 0,48 ponto.

Dentre os produtos que mais pressionaram, grande parte são alimentos diretamente afetados pelo clima, não pela demanda (como tomate, batata inglesa, cebola, hortaliças, feijão etc.). Outro grupo foi o de derivados do trigo e o milho, cujas cotações internacionais foram afetadas pela seca nos Estados Unidos.

2. Despesas pessoais pressionaram o índice em 0,16 ponto.

Foi o segundo maior item de pressão. Mas só o cigarro significou um aumento de 0,09 no índice final. O reajuste foi devido ao aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). O outro fator de alta foi o crescimento nos rendimentos dos empregados domésticos (aumentou 0,58% em janeiro contra 0,82% em dezembro), refletindo, aí sim, melhoria de renda e da demanda.

3. Despesas com habitação reduziram o aumento em 0,08 ponto.

Aí também houve um fator pontual jogando para baixo: a redução da conta de luz. Houve aumento nas despesas com aluguel (1,56%), condomínio (1,18%) e mão de obra para pequenos reparos (0,70%), Mas a conta de energia elétrica caiu 3,91%, captando uma pequena parte da redução da conta de luz. A parte maior será no mês de fevereiro.

Por outro lado, o fim do desconto do IPI nos automóveis novos pressionou seus preços – 1,41% de aumento e pressão de 0,05 ponto no índice final.

Para fevereiro se terá, do lado positivo, com impacto maior da redução da conta de luz. Do lado negativo, o impacto do reajuste do preço da gasolina. Do lado dos alimentos, uma supersafra a caminho.

As características da inflação atual nada têm a ver com as loucuras que dominaram o país até o plano Real. Ainda é alta para os padrões globais, fruto de um conjunto de indexadores que ainda não saíram completamente nem dos contratos nem da memória atual.

No plano conjuntural, continuará refletindo as cotações internacionais de commodities (influenciando os preços internos), os movimentos fiscais de isenção ou aumento de imposto, um resto da inflação passada, na forma de indexação.

No plano estrutural, a entrada em cena da nova classe média provocará mudanças nos preços relativos, com serviços, produtos de limpeza, telefonia e tevê a cabo pressionando cada vez mais o orçamento doméstico, enquanto produtos tradicionais perdem força.

O mais relevante da história é não utilizar essa alta pontual como álibi para elevação das taxas de juro. Nenhum dos itens de pressão tem a mais leve relação com os juros praticados no mercado.

A guerra das usinas midiáticas do setor financeiro contra Dilma

28 de dezembro de 2012

Jornalismo_EconomiaMarcelo Justo, Via Carta Maior

A The Economist primeiro, o Financial Times depois: o governo de Dilma Rousseff entrou na mira dos grandes meios de comunicação financeiros britânicos internacionais. Ambos zombam do governo brasileiro, pedem a renúncia de Guido Mantega e qualificam Dilma como a rena do nariz vermelho. Não que as coisas na casa destas publicações andem melhor. Justamente o contrário.

A economia britânica acaba de sair da segunda recessão em três anos graças ao pequeno estímulo dos Jogos Olímpicos, mas a maioria dos analistas acredita que no próximo trimestre ela voltará a se contrair. A Eurozona salvou-se raspando neste ano de 2012, mas ninguém se atreve a apostar no que pode acontecer no próximo ano, apesar de o diretor do Banco Central da Europa, Mario Draghi, assegurar desde julho que fará tudo o que está ao seu alcance para salvar o euro. Por último, os Estados Unidos estão fazendo o impossível para evitar o abismo fiscal, um incremento de impostos e um corte de gastos públicos que entraria em vigor automaticamente no dia 1º de janeiro se não houver um acordo político.

Apesar deste cenário do primeiro mundo, as críticas a Dilma não surpreendem. Para as usinas midiáticas do setor financeiro, a presidenta cometeu um pecado imperdoável: forçou a baixa das taxas de juro. Quando esta crítica à presidenta brasileira vem do primeiro mundo aparece como uma variante do famoso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Desde o estouro financeiro de 2008, Estados Unidos, Reino Unido e Banco Central Europeu se dedicaram à emissão de dinheiro eletrônico, um mecanismo conhecido em inglês como quantitative easing, e a baixar as taxas de juros a mínimos históricos para estimular o consumo. “A ideia é que mantendo essas taxas de juros o setor privado terminará investindo, algo que não está fazendo porque a demanda está estagnada. Em resumo, o problema mais grave é que esta política monetarista não está funcionando”, disse à Carta Maior Ismail Erturk, catedrático sênior de finanças da Universidade de Negócios de Manchester.

Este monetarismo foi debatido no chamado mundo desenvolvido, mas sem a estridência desqualificadora reservada ao governo de Dilma Rousseff. No caso do Reino unido e da Eurozona a comparação se torna mais absurda se tomamos como parâmetro a crise provocada pelos programas de austeridade vigentes na Europa. No Reino Unido, a coalizão conservadora-liberal democrata que assumiu em maio de 2010 encabeçada pelo primeiro-ministro David Cameron herdou um forte déficit fiscal produto do estouro financeiro de 2008-2009 e uma incipiente recuperação de 1,7% pela mão do estímulo fiscal do governo trabalhista de Gordon Brown.

A coalizão prometeu equilibrar as contas fiscais ao final de seu período de governo, em 2015, e projetou um crescimento de 2,1% para 2011 e 2,5% para 2012. A chave-mestra para esse passe de mágica era um programa de austeridade com cortes de ₤80 bilhões (cerca de US$140 bilhões) com uma perda de mais de meio milhão de empregos públicos. O resultado desse apequenamento logo ficou evidente. Em 2011, o crescimento real foi de 0,8%, enquanto, em 2012, foi negativo (menos 0,4%). Quanto ao equilíbrio fiscal, o próprio governo admitiu em dezembro que para atingi-lo terá que ampliar a política de austeridade até… 2018.

As coisas não andam melhor pela Eurozona. Com a bandeira da austeridade, a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional (a Troika) conseguiram converter a debacle fiscal de um país que representava pouco mais de 2% do PIB da Eurozona em uma crise que pode colocar em perigo todo o projeto pan-europeu. Desde o começo da crise grega em 2010, quatro nações terminaram regatadas pela Troika (Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre), a banca espanhola foi salva com uma injeção de €100 bilhões do Banco Central Europeu e a Grécia recebeu um novo pacote de ajuda em dezembro, no valor de €34 bilhões, que todos sabem que não será o último.

Em 2012, a Eurozona teve um crescimento negativo de 0,5% que esconde em seu interior extraordinárias disparidades (a queda da Grécia superou 7%, enquanto que a Alemanha cresceu 0,8%). Segundo um informe da ONU, divulgado em 20 de dezembro, com estas políticas de austeridade as coisas vão piorar. O cálculo é que a região crescerá um magro 0,5% em 2013.

O governo de Barack Obama não apostou na austeridade e conseguiu evitar uma queda como a do Reino Unido ou da Eurozona, mas sua recuperação é menor do que a esperada e está ameaçada por uma obra-prima do terror econômico: o abismo fiscal. Em agosto, o Congresso estabeleceu o 1º de janeiro como prazo para chegar a um acordo sobre o gasto público e as reduções tributárias aprovadas durante a presidência de George Bush que finalizam nesta data.

Se não houver acordo e as medidas entrarem em vigor, o resultado será uma recessão nos Estados Unidos e um forte impacto em uma economia mundial que, nas atuais projeções, crescerá 2,4%, muito menos do que é necessário para recuperar o terreno perdido desde o estouro do Lehman Brothers. A responsabilidade fiscal das reduções de impostos de George Bush foi discutida em seu momento, mas nenhuma usina midiática econômica teve a ideia de colocar um nariz vermelho no artífice da invasão ao Iraque. Assim são as coisas.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


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