Posts Tagged ‘Juros’

Rombo? Rombo são os juros que o mercado exige do Brasil

6 de novembro de 2013

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Fernando Brito, via Tijolaço

A matéria, publicado na Folha de domingo, dia 3, onde se aponta que o Brasil paga, anualmente, 5,7% – ou 4,9%, que seria o patamar atual – de seu PIB em juros, deveria ser um escândalo nacional.

É curioso, porém, que a matéria não menciona quanto isso representa em dinheiro que o País entrega ao rentismo. Isso significa algo em torno de R$250 bilhões.

É como se entregássemos, a cada ano, mais do que gastamos com a educação, ou com a saúde. Isso não entra no discurso do pessoal que fala em um Brasil “padrão Fifa”.

Divida_Neoliberais01

Não é possível sonhar se não se olha a corrente no pé. Uma corrente que não é possível romper, o que é o pior dela, sem romper a própria estabilidade econômica e política do País. Mas que não pode ser esquecida ou tratada como “normal” na vida do Brasil.

Dilma não mereceu um aplauso dos “sonháticos” quando baixou os juros. Mas a mídia e o conservadorismo urraram:

“Intervencionista, interferindo no Banco Central!”

E desencadearam a campanha “inflacionista”. Depois, a da explosão do dólar, mesmo que esta tivesse evidentes causas externas.

Agora, os idólatras do “tripé macroenômico” vêm com a história do “rombo”, do superávit primário que não vai ser atingido – e será.

Os juros brasileiros são uma hemorragia, que mal e mal tentamos estancar com a sua redução e a do montante da dívida, que a década Itamar-FHC tornou gigantesca.

É curioso, para não dizer chocante, que os arautos do “equilíbrio” falem tanto em responsabilidades e controles, em dosar a torneira da despesa – a que paga serviços e obras públicas – sem jamais mencionar o ralo da dívida.

2014: Onde o bicho pega

25 de abril de 2013

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Via Carta Maior

Entre 2009 e 2011, o patrimônio líquido de 7% das famílias mais ricas dos EUA cresceu 28%; o dos restantes 93% encolheu em 4%. Em plena desordem neoliberal, as 8 milhões de famílias mais ricas dos EUA viram sua riqueza média saltar de US$2,5 milhões para US$3,5 milhões. As restantes 111 milhões tiveram queda de patrimônio: de US$140 mil para US$134 mil.

No Brasil, na última década, a renda dos 10% mais pobres cresceu 91%. A dos 10% mais ricos aumentou 16%. Acúmulo de patrimônio não é o mesmo que fluxo de renda, mas um interfere no outro. Uma das pontes é a taxa de juro real. O juro real no País hoje, mesmo com o recente aumento da Selic, é de 2,3%. Ainda um dos maiores do mundo. Mas está precisamente dez vezes abaixo dos 23% que atingiu em meados de 2002.

É aí que o bicho pega.

Daí deriva o jogral dos vigilantes do tomate. E o coral dos que prometem “fazer mais”, com menos intervencionismo. O Brasil tem um dos jornalismos de economia mais prolíficos do mundo. Ao mesmo tempo, um dos menos dotados de discernimento histórico em relação a seu objeto.

Aqui os desafios do desenvolvimento são tratados como crimes contra o mercado. Aliás, o Brasil, em si, é um crime contra o mercado.

Ampliar o poder de compra da população, gerar empregos, expandir o investimento público alinham-se entre os “ingredientes da crise”, segundo a pauta dominante. Solução é subir juro. Os exemplos se sucedem como folhas de um manual suicida. A cantilena diuturna contra o investimento público e o descrédito na agenda de obras públicas enquadra-se nesse adestramento da sociedade contra ela mesma.

Alta da Selic × oportunismo

18 de abril de 2013

A causa principal da moderada inflação brasileira de hoje não é de origem monetária, ou seja, não é do tipo que se pode combater eficazmente com o único instrumento da elevação da taxa de juro.

J. Carlos de Assis, via Carta Maior

Tome cuidado com quem, diante de um problema complexo, alega que só tem um jeito de acabar com ele. Em geral, é o jeito errado. Em sua obra monumental, The great wave (A Grande Onda), que trata da evolução dos preços no mundo ocidental desde a Idade Média aos nossos dias, o historiador econômico David Fischer identifica sete tipos de inflação segundo a suas causas, aos quais, na lista abaixo, acrescento dois tipos especificamente brasileiros. São eles:

1. Expansão exagerada da oferta monetária.

2. Aumentos excepcionais de demanda agregada.

3. Contração da oferta/quebras de safras.

4. Inflação de custos/espiral salários-preços.

5. Aumentos de preços administrados.

6. Bolhas especulativas.

7. Expectativas.

A essas eu acrescento:

8. Inflação inercial.

9. Inflação de origem cambial.

É evidente que, num processo inflacionário aberto, muitas dessas causas atuam em conjunto. Numa situação de inflação moderada, porém, é perfeitamente possível identificar suas causas principais. E a causa principal da inflação brasileira hoje, moderada como é – alguns centésimos de ponto percentual eventualmente acima da margem superior da meta – não é de origem monetária, ou seja, não é do tipo que se pode combater eficazmente com o único instrumento da elevação da taxa de juros para criar desemprego e conter a demanda.

A razão é que, para empresas e para os ricos, não temos uma moeda simples, mas uma moeda remunerada. Mais de um terço da dívida mobiliária pública são constituídos por títulos públicos que rendem juros diariamente no open à brasileira, e funcionam como caixa de seus titulares. Num mercado financeiro padrão, uma elevação da taxa básica de juros leva ao retraimento do crédito. Aqui a maioria das empresas aumenta sua liquidez monetária quando os juros sobem.

Essa é a principal razão pela qual não existe um conflito de interesses em torno de juros entre empresas do setor produtivo e empresas financeiras. Quando se trata de elevar juros, todas saem ganhando. Por certo que empresas que não têm dinheiro aplicado no open e dependem de algum crédito bancário saem perdendo. Mas essas são minoria. Além disso, a relação “normal” taxa básica de juros e taxas de juros de empréstimo é tão baixa que uma elevação de alguns pontos percentuais da primeira praticamente não afeta a segunda. Por isso que Alexandre Shwarztman, antes do BC e hoje do mercado, quer logo um aumento de quatro pontos na taxa básica.

Diga-se de passagem que essa distorção estrutural do nosso sistema financeiro não é culpa só do PT. Vem de longe. Num livro de 1985, “O Grande Salto para o Caos”, a professora Maria da Conceição Tavares e eu a denunciamos extensivamente. O curioso é que os chamados economistas ortodoxos não conseguem percebê-la e insistem em mecanismos de controle de inflação via indução da queda da demanda ou do aumento de desemprego com o aumento da taxa de juros que, dada a nossa institucionalidade, tem um custo muitas vezes superior ao de um país normal.

Contudo, o fetiche de que só existe um meio de combater a inflação tem um apelo fantástico entre acadêmicos, oportunistas e vigaristas, cada um com sua razão. Acadêmicos porque as equações do modelo são muito elegantes do ponto de vista matemático (“uma regra de três metida a besta”, como diz meu amigo e coautor, o matemático Francisco Antônio Dória); oportunistas e vigaristas, simplesmente porque ganham com a “moeda financeira” do open à brasileira.

Estamos às vésperas de uma reunião do Copom. Criou-se todo um clima para o aumento da taxa básica de juros. O único efeito relevante disso, se acontecer, é que haverá um aumento concomitante da dívida pública, do déficit nominal e, portanto, da necessidade de remunerar de forma crescente a dívida pública indexada à Selic. É a correção monetária da moeda, a pior forma de inflação, na medida em que acentua um processo inercial já presente nos preços dos serviços públicos. Seria este, realmente, o único jeito de combater a inflação, sabendo que a inflação já está cedendo?

Na I Guerra Mundial – conta a historiadora Bárbara Tuchman, em “A Marcha da Insensatez” – quando exércitos alemães e franceses se defrontavam, em 1917, no impasse da guerra de trincheiras sem possibilidade de vitória para nenhum dos lados, o Estado-maior alemão concluiu que teria uma derrota certa com a eventual entrada dos EUA na guerra. Mas os EUA relutavam. Sabia-se, porém, que estavam firmemente comprometidos a defender a liberdade dos mares. Acontece que os alemães estavam produzindo submarinos numa escala de mil por ano. O que fazer com eles? Parecia que a única coisa a fazer era deflagrar a guerra submarina. E deflagraram!

J. Carlos de Assis é economista, escritor e professor de economia internacional da UEPB.

Luis Nassif: Mesmo com economia patinando, o lobby por juros altos continua

17 de abril de 2013

Selic02_IlustraLuis Nassif

Os últimos indicadores econômicos mostraram o seguinte:

● Na sexta-feira, dia 12, foi divulgado o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR). Trata-se de um indicador que tenta antecipar os resultados do PIB (Produto Interno Bruto). O de fevereiro registrou queda de 3,13%. Em 12 meses, uma alta de apenas 0,87%.

● Um dia antes, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou queda de 0,4% nas vendas de varejo, pior desempenho desde fevereiro de 2003. No acumulado do ano e em 12 meses, os indicadores são razoáveis. A explicação para a queda no varejo é que o aumento da inflação provocou retração no consumo.

● No caso dos supermercados, houve queda de 2,1% nas vendas de alimentos e bebidas, também em decorrência da alta de preços.

Tem-se, portanto, um quadro definido.

Em relação ao comportamento geral da economia, índices claudicantes de recuperação. Em relação ao varejo, queda de consumo decorrente do aumento de preços. Ou seja, a própria inflação criando seu anticorpo, seja por meio da redução da renda, seja por meio das manobras defensivas dos consumidores. Vários itens de pressão nos preços começam a ceder.

Entre os que acreditam nos poderes mágicos da Selic, há a crença de uma defasagem de oito meses entre uma eventual elevação da taxa e seus efeitos.

Suponha que a Selic tenha eficácia e que exista essa defasagem sobre seus efeitos. Ela incidiria sobre uma economia desaquecida, em que até os indicadores de varejo começam a claudicar. Ou seja, exerceria um papel pró-cíclico (de acentuar a tendência dominante). Tem-se uma inflação que superou de leve o limite de alta da meta inflacionária.

Ao mesmo tempo, um conjunto de sinais mostrando uma economia a meia trava e outro conjunto de sinais mostrando distensão nos fatores principais de pressão sobre os preços.

Aliás, o melhor sinal veio da própria queda de vendas dos supermercados, comprovando que as grandes fabricantes de produtos de varejo, que reajustaram seus preços nos últimos meses, sofreram queda de vendas. Mesmo assim, o coro prossegue, por motivos que nada têm a ver com preocupações inflacionárias.

Além dos especuladores habituais da Selic, há um conjunto de atores engrossando o coro. Existem gestores de fundos de pensão que não conseguiram fazer a transição para o mercado de renda variável e necessitam de juros altos para fechar suas contas.

Os bancos de investimento atuam em várias frentes e uma redução de juros beneficiaria os segmentos que trabalham com empresas. Mas o sistema de bônus faz com que cada área lute ferozmente para preservar seus ganhos. E os maiores ganhos dos economistas – a parte do mercado com maiores vínculos com a mídia – se dão justamente nos resultados da renda fixa, no comportamento da Selic.

Com apoio dos bancos públicos, Banco Central e Fazenda coordenaram com maestria os movimentos do mercado em direção à redução dos juros e ao aumento do crédito. Desde que se percebeu consistência nas medidas para reduzir os juros, os bancos comerciais se prepararam para atuar em um cenário de competição.

Toda essa construção irá por água abaixo, será uma autêntica abertura da porteira, se o Copom ceder à pressão e aumentar a Selic.

Veja produz seu segundo caso Boimate

13 de abril de 2013

Dilma_Veja_Tomate

Em 1984, o jovem repórter Eurípedes Alcântara caiu numa pegadinha de primeiro de abril e acreditou numa reportagem de uma revista científica sobre o cruzamento genético entre o boi e o tomate. O caso “boimate”, levado às páginas de Veja, se consagrou como a maior “barriga” jornalística de todos os tempos, mas não impediu que Eurípedes se tornasse diretor de Redação da revista da Abril. Nesta semana, Veja diz que a presidente Dilma “pisou no tomate” e que o alimento virou piada nacional. A tabelinha entre Abril e Globo é mais um momento baixo do jornalismo brasileiro, em sua campanha para disseminar terrorismo, pedir juros altos e combater o PT.

Via Brasil 247

Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja, tem uma marca indelével em seu currículo. Em 1984, quando era apenas um jovem repórter que iniciava sua carreira na revista Veja, leu uma reportagem numa publicação científica sobre o cruzamento genético entre o boi e o tomate e produziu uma das pérolas da história do jornalismo no Brasil, sem se dar conta de que se tratava de uma piada de primeiro de abril. O caso Boimate, obra de Eurípedes, entrou para a história como a maior “barriga” da imprensa brasileira em todos os tempos (para saber mais, leia aqui).

Neste fim de semana, no entanto, Eurípedes decidiu produzir seu segundo caso Boimate. Numa tabelinha com a revista Época, da Editora Globo, Veja produziu uma capa idêntica, dizendo que a presidente Dilma “pisou no tomate”. Na Carta ao Leitor, Eurípedes “Boimate” Alcântara afirma que a presidente Dilma “pode afundar o Brasil”. E o texto sobre inflação é uma das peças jornalísticas mais vis, distorcidas e mal-intencionadas já produzidas pela imprensa brasileira.

Sob o título “Sim, eu posso…” e a imagem de uma Dilma com um tomate tatuado no braço, Veja “informa” que o alimento se transformou no símbolo da apreensão dos brasileiros com a volta da inflação. Mas nem torcendo e espancando as estatísticas, Veja consegue deixar sua tese de pé. Num gráfico interno, com a evolução dos preços do tomate, percebe-se que o preço do quilo foi de R$4,37 a R$7,81 entre 15 e 28 de março, mas já caiu para R$4,43 em 11 de abril. Ou seja: o estouro da meta inflacionária em 0,09%, que ocorreu em razão de uma entressafra, será revertido em abril.

Para ancorar sua peça de propaganda política, Veja cita as piadinhas que surgiram “com toda a naturalidade do mundo”, como o famoso colar de tomates de Ana Maria Braga. E fala até que os fiscais da Alfândega brasileira em Foz do Iguaçu estavam tendo que lidar com um novo tipo de crime na fronteira com o Paraguai: o contrabando de tomates.

Outro gráfico usado por Veja cita a inflação acumulada em 12 meses, de 6,59%, e outros preços que subiram mais do que isso, como a mensalidade escolar (9%), o pet shop (12%), o óleo diesel (14%) e o tomate (122%) – repita-se, um alimento com preços já em queda livre. Ora, é elementar que, se a média ficou em 6,59%, há outros itens que subiram bem menos, ou até caíram, como, por exemplo, as tarifas de energia elétrica.

Na reportagem, Veja mal disfarça seu lobby pelos juros altos. “Com a inflação não tem conversa. Ela só entende uma coisa: aumento dos juros, corte de gastos do governo e aperto no crédito – todas medidas impopulares”. No seu Boimate 2.0, Veja aproveita também a oportunidade para fazer um elogio rasgado em relação a Margaret Thatcher, que “cortou os gastos e elevou os juros”. Prestes a ser enterrada, Margaret Thactcher ainda hoje é um das figuras públicas mais odiadas da Inglaterra e a polícia britânica discute como conter protestos em seu funeral.

Sobre Veja, Eurípedes e seu segundo caso Boimate, nada a fazer a não ser atirar tomates na publicação. Que, aliás, já estão bem mais baratos.

Veja_BoiMate

***

Texto publicado por Alexandre Ceará, no Facebook

As maiores taxas de inflação do Brasil pós-real e que você não soube porque as revistas, jornais, Ana Maria Braga etc. não precisavam torcer contra o povo:

1994 – 916,43% (ainda não vale)

1995 – 22,41% (preços ainda se ajustando à nova moeda, aproveitando e fazendo aquele primeiro arrocho salarial básico)

1996 – 9,56% (mão grande aqui, arrocho ali e o trabalhador trocava a picanha pelo frango)

1999 – 8,94% (Reeleição comprada e ganha, desvaloriza a moeda pra mais um arrochinho)

Enquanto isso, a carga tributária saia do patamar de 20 e poucos para os atuais 32%. E a dívida/PIB saltava de 28% para 52%, mesmo vendendo estatais a preço de banana para os amigos. E crescimento pífio: “Um governo que não usou um saco de cimento sequer.”

2001 – 7,67% (o presida Boca de Suvaco admite fracasso e implora US$30 bi ao Clinton pra fechar as contas)

2002 – 12,53% (a vaca foi pro brejo, mas essa batata quente vai pro Lula, FHC sorri)

2003 – 9,30% (Palocci começando a limpeza)

2004 – 7,60%

2005 – 5,69%

2006 – 3,14%

2007 – 4,45%

2008 – 5,90%

2009 – 4,31%

2010 – 5,90%

2011 – 6,50%

2012 – 5,83%

2013 – 6,40% (projeção)

Em campanha contra Dilma, Época usa Ana Maria Braga como conselheira econômica

13 de abril de 2013
Via Esquerdopata.

Via Esquerdopata.

Em sua capa desta semana, a revista semanal das Organizações Globo anuncia que o governo Dilma faz tudo errado no combate à inflação e diz que a presidente e o ministro Guido Mantega pisaram no tomate. Autorreferente, a Globo usa declaração da global Ana Maria Braga, que disse usar uma joia ao pendurar um colar de tomates no pescoço, para afirmar que a inflação hoje assusta os brasileiros. Nunca é demais lembrar, no entanto, que, nos dois governos FHC, a inflação foi substancialmente maior do que a agora, sem disparar o mesmo alarme: será síndrome de abstinência de juros altos ou de ter amigos no poder?

Via Brasil 247

Nunca é demais relembrar os dados de inflação dos últimos governos. Na primeira gestão FHC (1995-1998), a taxa média foi de 9,7% ao ano. Na segunda (1999-2002), de 8,8%. Com Lula, os índices foram mais civilizados, sempre dentro da meta e, agora, com Dilma, a taxa média é de 6,2%. No entanto, nunca o alarma dos veículos de comunicação tradicionais soou tão alto como agora.

Em sua capa desta semana, a revista Época, das Organizações Globo, afirma que a presidente Dilma Rousseff e seu ministro Guido Mantega pisaram no tomate – produto que simboliza a alta de preços recente. Anuncia ainda que o governo federal faz tudo errado no combate à inflação – como se, por exemplo, iniciativas recentes, como a desoneração das contas de luz não tivesse a menor importância.

Autorreferente, a Globo usa uma declaração da apresentadora global Ana Maria Braga, a de que estava usando uma joia, ao pendurar um colar de tomates no pescoço, para indicar que a população brasileira estaria apavorada com a inflação. Detalhe: quem será que pediu para Ana Maria Braga fazer sua piadinha ridícula?

Com a capa desta semana, Época, na verdade, apenas acentua sua cruzada contra o governo Dilma e, a um só tempo, alia interesses políticos da Globo a interesses econômicos seus e de apoiadores. Os dois objetivos principais são derrotar o PT nas próximas eleições e garantir o início de um ciclo de alta de juros. No fundo, trata-se de uma síndrome de abstinência de juros e também um sintoma da falta de amigos no poder.

Abaixo, um trecho da reportagem:

“Estou usando uma joia.” Com essa frase, a apresentadora Ana Maria Braga apresentou o colar de tomates de seu figurino no programa da quarta-feira passada. Foi apenas uma das muitas piadas que pipocaram ao longo da semana sobre o mais novo símbolo da inflação. Numa piada da internet, a atriz Cláudia Raia, chefe de uma quadrilha internacional de prostituição na novela das 9, diz que mudará de ramo e traficará tomates. Em outra, um caqui que se passa por tomate vai para a cadeia. Alguém sugeriu um novo programa social – Meu Tomate Minha Vida. Na semana em que a inflação acumulada nos últimos 12 meses ultrapassou o teto da meta estipulada pelo Banco Central, o Brasil se transformou no “país do tomate”. Com alta de 122% em um ano, o fruto contribuiu para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechar o período em 6,59%.

Inflação oficial acumulada em 12 meses fica em 6,59%, diz IBGE

Não se acredita num descontrole que leve o País aos patamares de inflação do final dos anos 1980, quando, na casa dos 1.000% ao ano, ela obrigava os brasileiros a apostar corrida, entre as gôndolas dos supermercados, com os funcionários responsáveis pela remarcação de preços. É um erro, porém, comparar os índices desses dois períodos, tantas foram as mudanças da economia na conquista da estabilidade. Mesmo que o patamar atual não pareça assustador, ele é. Índices desse porte estão longe de representar um problema trivial. Um primeiro efeito: na semana passada, os supermercados divulgaram que, em fevereiro, registraram queda de 2,1% nas vendas de alimentos e bebidas, em comparação com o mesmo mês de 2012. O consumo diminuiu sobretudo entre a classe média e os mais pobres. De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), as vendas para famílias de menor renda caíram 4% em 12 meses. Essa situação – em que os maiores beneficiários do crescimento recente da economia brasileira perdem poder de compra – é a principal fonte de preocupação para o futuro político da presidente Dilma Rousseff.

Dois dias antes da divulgação do IPCA, a presidente convocara a seu gabinete três de seus principais consultores econômicos: o ex-ministro Delfim Netto, Luiz Gonzaga Beluzzo e Yoshiaki Nakano, que cuidou das contas de várias administrações tucanas. O governo só se pronunciou sobre o assunto depois que o índice foi divulgado, na última quarta-feira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não pouparia esforços para evitar a alta de preços e quis demonstrar otimismo. Afirmou que a entressafra agrícola terminará em breve, que as pressões sobre o setor de serviços estão mais brandas. Também lembrou que a inflação de março foi a mais baixa do ano – segundo ele, um bom sinal. Procurado por Época para comentar o assunto, Mantega não quis dar entrevista. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, também não quis se pronunciar. Na sexta-feira, durante um evento em São Paulo, Mantega afirmou que “as medidas que forem necessárias serão tomadas pelo governo”. “Não titubeamos em tomar as medidas, inclusive, posso dizer, mesmo medidas que são consideradas não populares, como elevação da taxa de juros, quando isso é necessário”, afirmou. “O Banco Central tem dito que não há e não haverá tolerância com a inflação”, disse Tombini no mesmo dia.

***

Texto publicado por Alexandre Ceará, no Facebook

As maiores taxas de inflação do Brasil pós-real e que você não soube porque as revistas, jornais, Ana Maria Braga etc. não precisavam torcer contra o povo:

1994 – 916,43% (ainda não vale)

1995 – 22,41% (preços ainda se ajustando à nova moeda, aproveitando e fazendo aquele primeiro arrocho salarial básico)

1996 – 9,56% (mão grande aqui, arrocho ali e o trabalhador trocava a picanha pelo frango)

1999 – 8,94% (Reeleição comprada e ganha, desvaloriza a moeda pra mais um arrochinho)

Enquanto isso, a carga tributária saia do patamar de 20 e poucos para os atuais 32%. E a dívida/PIB saltava de 28% para 52%, mesmo vendendo estatais a preço de banana para os amigos. E crescimento pífio: “Um governo que não usou um saco de cimento sequer.”

2001 – 7,67% (o presida Boca de Suvaco admite fracasso e implora US$30 bi ao Clinton pra fechar as contas)

2002 – 12,53% (a vaca foi pro brejo, mas essa batata quente vai pro Lula, FHC sorri)

2003 – 9,30% (Palocci começando a limpeza)

2004 – 7,60%

2005 – 5,69%

2006 – 3,14%

2007 – 4,45%

2008 – 5,90%

2009 – 4,31%

2010 – 5,90%

2011 – 6,50%

2012 – 5,83%

2013 – 6,40% (projeção)


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