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Juros: Quem quer a alta e o por quê

14 de abril de 2013
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Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles, cabeças das famílias que controlam o Itaú, esperam sorrir de novo: em 2012, lucros de “apenas” R$13,6 bilhões.

Para conter a inflação, há outros remédios. Mas a oligarquia financeira pressiona, porque quer voltar a ganhar os mesmos rios de dinheiro de antes.

Antonio Martins, via Outras Palavras

Um assunto único dominou, na quarta-feira, dia 11, as manchetes dos jornais brasileiros mais vendidos. Folha, Globo e Estado destacam, em frases quase idênticas que a inflação anualizada subiu (para 6,59%) e “estourou a meta” fixada pelo Banco Central (BC). Em consequência, não restaria, ao próprio banco, outra alternativa exceto iniciar uma nova rodada de elevação da taxa básica de juro (Selic), já na próxima semana. A presidente Dilma Rousseff, que se manifestou contra a alta, há poucos dias, teria sido vencida. A Folha chega até a prever o montante e o ritmo do ascenso: a Selic, hoje em 7,5% ao ano, passaria a 8,5%, após “quatro aumentos de 0,25%, até dezembro”.

Noam Chomsky cunhou certa vez o termo “fabricação de consensos”, provavelmente sem cogitar que alguém tentasse praticá-la de modo tão caricatural quanto a mídia brasileira. Há três abusos claros nas manchetes dos jornais de quarta-feira, dia 11:

a. a inflação não está mais em alta, nem deve ser reduzida a qualquer custo;

b. elevar os juros não é receita eficaz para fazê-lo;

c. por trás do suposto “remédio” esconde-se a luta da oligarquia financeira para capturar uma parcela ainda maior da riqueza coletiva. Os jornais, é claro, escondem esta tentativa.

IPCA_Tabela_Mensal

Observe, ponto por ponto, como se manipulam os fatos.

1. Para constatar que a inflação não está subindo, mas em queda, há dois meses, basta mirar a tabela, publicada sem destaque pelo Estado. A taxa, medida por um dos índices do IBGE (o IPCA), foi de 0,47% em março, ante 0,6% em fevereiro e 0,86% em janeiro. O índice anualizado só aumentou porque o 0,47% de agora substitui, no cômputo de 12 meses, uma taxa excepcionalmente baixa, registrada em março de 2012 (0,21%). Tudo indica que, já em abril, a inflação anual recuará, sem necessidade de qualquer intervenção, para os patamares previstos pela “meta” do BC.

2. A mídia brasileira omite, mas há uma crítica internacional crescente à crença segundo deve-se perseguir a queda da inflação a qualquer custo. Pelo menos dois economistas premiados com o Nobel – Paul Krugman e Joseph Stiglitz – têm sugerido o contrário. Propõem que os estados mantenham, nas próximas décadas, índices de inflação ligeiramente superiores aos atuais – como ocorreu, aliás, nos “anos gloriosos” do pós 2ª Guerra. Explicam que tal ambiente permitirá desvalorizar a riqueza financeira dos mais ricos, reduzir a dívida pública e, em consequência, promover políticas redistributivas. Estas, explica Stiglitz, estimulam a economia e a geração de empregos – porque a classe média e os pobres consomem uma parte expressiva de seus rendimentos, enquanto os super-ricos entesouram quase tudo.

3. Ainda que a meta seja reduzir a inflação, elevar os juros é uma péssima forma de fazê-lo. Num post extremamente didático, publicado hoje, o jornalista Luis Nassif demonstra que o BC dispõe de instrumentos muito mais eficazes para segurar os preços. Tem total autonomia, por exemplo, para determinar uma redução dos prazos de financiamento ao consumidor. A mudança torna mais difícil adquirir bens, reduz o consumo e as pressões inflacionárias. Tome, por exemplo, uma geladeira de R$1.000,00, financiada em 24 meses, a uma taxa de 4% ao mês. Hoje, as prestações são de R$65,58. Com a redução do prazo para 18 meses, elas saltam para R$79,00. Já a alta da Selic eleva-as para… R$65,86. “Alguém deixaria de tomar financiamento por conta de um aumento de 28 centavos?”, pergunta Nassif.

4. Por fim, a questão central. Se a alta da taxa Selic é tão ineficaz, qual o motivo de tanta batalha em torno dela? É que os juros, embora não reduzam a inflação, são, por excelência, o meio pelo qual a oligarquia financeira extrai riqueza do conjunto da sociedade. Em 2012, o Estado brasileiro desviou, do total de impostos arrecadados, R$128 bilhões (ou 4,81% do PIB) para pagar juros – equivale a aproximadamente seis vezes o montante aplicado no Bolsa Família. Mas, em vez de beneficiar 13 milhões de famílias, os juros fluem, segundo cálculos do Ipea, para apenas 0,5% da população – a ínfima minoria que tem recursos para comprar títulos públicos ou seus derivados.

Ocorre que este setor havia-se acostumado a ganhar muito mais, nos anos anteriores. Em 2011, foram R$151 bilhões; e no período FHC, a despesa com juros chegou a 9% do PIB. A redução da sangria foi alcançada precisamente graças à queda dos juros. A partir de julho de 2011, a presidente Dilma orientou o BC a retomar a trajetória de redução iniciada no governo Lula. As taxas, que são fixadas em reuniões do Conselho de Política Monetária (Copom) do banco, caíram de 12,5% ao ano para os 7,5% de hoje. Sucederam-se fatos extraordinários. Em 2012, por exemplo, os lucros de bancos como o Itaú e o Santander recuaram, ainda que muito levemente, depois de anos de recordes sucessivamente quebrados.

A oligarquia financeira jamais se conformou com a queda de juros. Não pode, evidentemente, expor suas razões. Mas tem muito poder, dinheiro e capacidade de “convencer” aliados importantes. Prepare seus olhos e ouvidos. Até a próxima reunião do Copom, você estará exposto a doses cavalares de propaganda ideológica – disfarçada na forma de “notícias” e previsões alarmantes dos “especialistas de mercado”. O governo e o Banco Central cederão? Esta é a pergunta que importa.

***

Texto publicado por Alexandre Ceará, no Facebook

As maiores taxas de inflação do Brasil pós-real e que você não soube porque as revistas, jornais, Ana Maria Braga etc. não precisavam torcer contra o povo:

1994 – 916,43% (ainda não vale)

1995 – 22,41% (preços ainda se ajustando à nova moeda, aproveitando e fazendo aquele primeiro arrocho salarial básico)

1996 – 9,56% (mão grande aqui, arrocho ali e o trabalhador trocava a picanha pelo frango)

1999 – 8,94% (Reeleição comprada e ganha, desvaloriza a moeda pra mais um arrochinho)

Enquanto isso, a carga tributária saia do patamar de 20 e poucos para os atuais 32%. E a dívida/PIB saltava de 28% para 52%, mesmo vendendo estatais a preço de banana para os amigos. E crescimento pífio: “Um governo que não usou um saco de cimento sequer.”

2001 – 7,67% (o presida Boca de Suvaco admite fracasso e implora US$30 bi ao Clinton pra fechar as contas)

2002 – 12,53% (a vaca foi pro brejo, mas essa batata quente vai pro Lula, FHC sorri)

2003 – 9,30% (Palocci começando a limpeza)

2004 – 7,60%

2005 – 5,69%

2006 – 3,14%

2007 – 4,45%

2008 – 5,90%

2009 – 4,31%

2010 – 5,90%

2011 – 6,50%

2012 – 5,83%

2013 – 6,40% (projeção)

Dilma, a inflação e os neoliberais

9 de abril de 2013

João Sicsú, via CartaCapital

O balanço da atuação dos governos Lula e Dilma em relação ao quesito “manter a inflação sob controle” é positivo. Somente em 2003, a inflação ficou fora da meta estabelecida. Os governos do PT foram bem-sucedidos em 9 dos 10 anos que governaram o País até o momento.

O Brasil adotou o regime de metas para a inflação em meados de 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. A inflação estourou a meta nos anos 2001 e 2002. O regime implantado em 1999 era muito simples: o Banco Central (BC) seria o único organismo responsável por manter a inflação sob controle, teria somente esse mandato e também um único instrumento anti-inflacionário, a taxa de juro básica da economia.

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Tal regime era parte do receituário neoliberal cujas fórmulas são sempre simples e aparentemente neutras. O regime de metas brasileiro mostrou que precisava sofrer adaptações. A experiência internacional e brasileira revelaram que a inflação é um fenômeno complexo, de causas variadas. O regime de metas, em sua configuração original, apontava como causa da inflação o crescimento econômico que geraria excesso de demanda e pressão sobre os preços. Nesse sentido, tinha como regra que o BC deveria “tocar um samba de uma nota só”: quando existisse algum tipo de pressão inflacionária a taxa de juros deveria ser aumentada imediatamente.

É preciso que seja dito claramente: a elevação da taxa de juro desaquece a economia, gera desemprego e, por último, adormece a inflação. Em 27 de março de 2013, a presidente Dilma afirmou que não é uma entusiasta dessas políticas: “[…] não concordo com políticas de combate à inflação que ‘olhem’ a questão do crescimento econômico, até porque temos uma contraprova dada pela realidade: tivemos um baixo crescimento no ano passado e um aumento da inflação, porque houve um choque de oferta devido à crise e fatores externos”.

Utilizar somente a elevação da taxa de juro como instrumento anti-inflacionário obriga o Banco Central a utilizar o remédio em doses cavalares o que mata a inflação e, também, a economia real: a inflação é reduzida e com ela milhares de trabalhadores são jogados no desemprego. Complementou a presidente: “Esse receituário que quer matar o doente antes de curar a doença é complicado. Eu vou acabar com o crescimento do País? Isso daí está datado. É uma política superada.”

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Como a elevação de preços tem diversas causas, o combate a inflação não pode se restringir a utilização de um único instrumento, a taxa de juros, que possui um perverso efeito colateral. A inflação pode ser combatida, dentre outras maneiras, com a redução de tributos (p.ex. os impostos sobre os bens da cesta básica), com estímulos à produtividade (p.ex. qualificando a mão de obra) e com a redução de custos de produção (p.ex. diminuindo as tarifas de energia elétrica).

A independência ou autonomia do Banco Central, que torna exclusiva a responsabilidade pelo controle da inflação, representa também o atraso, o passado. Época em que os fenômenos reais, sociais ou monetários eram analisados por uma única ótica. Os fenômenos econômicos são todos fenômenos sociais que merecem um acompanhamento interdisciplinar e interministerial: um acompanhamento de todo o governo, inclusive da Presidência.

É fato que o Brasil não precisa ter uma taxa de juro elevada para ter uma inflação controlada. Isto foi provado nos últimos anos: houve queda da taxa de juro básica (a taxa Selic) e controle inflacionário. O Brasil também não precisa gerar desemprego e reduzir a massa salarial para ter preços bem comportados. Nos últimos tempos, empregos e salários subiram.

Neoliberais rejeitam a política bem-sucedida de controle da inflação dos governos Lula e Dilma. Para eles, sempre é melhor uma taxa de juro maior do que uma taxa menor. Aqui neoliberais revelam de que lado eles estão: com juros elevados, trabalhadores ganham o desemprego e banqueiros, mais rendimentos e lucros. Nesse jogo há perdedores e ganhadores. Não há a neutralidade das políticas anti-inflacionárias decantadas por neoliberais.

Para camuflar de que lado estão, ensaiam sempre o seguinte argumento: “Quem mais perde com a inflação são os pobres que não podem proteger seus parcos recursos no sistema financeiro”. É verdade, mas é igualmente verdade que a experiência tem mostrado que usar a taxa de juro com parcimônia pode auxiliar a manter a inflação sob controle, além de não provocar desaquecimento econômico e desemprego relevantes.

Por último, cabe ser destacado que essa sensibilização com a vida dos pobres não combina com o DNA dos neoliberais brasileiros. O que eles querem de fato são juros maiores, mais rentismo e lucros financeiros.

João Sicsú é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconômicos do Ipea entre 2007 e 2011.

Luis Nassif: Um raio X do IPCA de janeiro

9 de fevereiro de 2013

Grafico_Queda03Luis Nassif em seu Advivo

Primeiro ponto de análise sobre a inflação de janeiro: Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) batendo em 0,86%. Não se deixe impressionar por análises alarmistas ou por comparações indevidas com a Argentina. Nem pelo lobby dos que querem a volta dos juros altos.

A alta foi puxada por fatores pontuais, que não tendem a se repetir no tempo.

Vamos a um pequeno raio X do índice.

Quando mencionar percentual (%), significa a elevação do preço referido; quando falar em ponto, significa o quanto aumentou ou diminuiu o índice final.

Esses 0,86% de aumento do IPCA se deveram aos seguintes produtos:

1. Alimentação e bebidas foram responsáveis por quase metade: 0,48 ponto.

Dentre os produtos que mais pressionaram, grande parte são alimentos diretamente afetados pelo clima, não pela demanda (como tomate, batata inglesa, cebola, hortaliças, feijão etc.). Outro grupo foi o de derivados do trigo e o milho, cujas cotações internacionais foram afetadas pela seca nos Estados Unidos.

2. Despesas pessoais pressionaram o índice em 0,16 ponto.

Foi o segundo maior item de pressão. Mas só o cigarro significou um aumento de 0,09 no índice final. O reajuste foi devido ao aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). O outro fator de alta foi o crescimento nos rendimentos dos empregados domésticos (aumentou 0,58% em janeiro contra 0,82% em dezembro), refletindo, aí sim, melhoria de renda e da demanda.

3. Despesas com habitação reduziram o aumento em 0,08 ponto.

Aí também houve um fator pontual jogando para baixo: a redução da conta de luz. Houve aumento nas despesas com aluguel (1,56%), condomínio (1,18%) e mão de obra para pequenos reparos (0,70%), Mas a conta de energia elétrica caiu 3,91%, captando uma pequena parte da redução da conta de luz. A parte maior será no mês de fevereiro.

Por outro lado, o fim do desconto do IPI nos automóveis novos pressionou seus preços – 1,41% de aumento e pressão de 0,05 ponto no índice final.

Para fevereiro se terá, do lado positivo, com impacto maior da redução da conta de luz. Do lado negativo, o impacto do reajuste do preço da gasolina. Do lado dos alimentos, uma supersafra a caminho.

As características da inflação atual nada têm a ver com as loucuras que dominaram o país até o plano Real. Ainda é alta para os padrões globais, fruto de um conjunto de indexadores que ainda não saíram completamente nem dos contratos nem da memória atual.

No plano conjuntural, continuará refletindo as cotações internacionais de commodities (influenciando os preços internos), os movimentos fiscais de isenção ou aumento de imposto, um resto da inflação passada, na forma de indexação.

No plano estrutural, a entrada em cena da nova classe média provocará mudanças nos preços relativos, com serviços, produtos de limpeza, telefonia e tevê a cabo pressionando cada vez mais o orçamento doméstico, enquanto produtos tradicionais perdem força.

O mais relevante da história é não utilizar essa alta pontual como álibi para elevação das taxas de juro. Nenhum dos itens de pressão tem a mais leve relação com os juros praticados no mercado.


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