Posts Tagged ‘Incêndio’

Tem um fusquinha no meio do caminho

31 de janeiro de 2014
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Cinco pessoas estavam dentro do Fusquinha.

O fusca de um serralheiro incendiado por manifestantes anti-Copa simboliza o equívoco dos que oferecem destinos redentores à sociedade sem combinar com ela.

Saul Leblon, via Carta Maior

Acontecimentos fortuitos muitas vezes sintetizam uma época melhor que as ações deliberadas de seus personagens.

Quando Maria Antonieta – afirma-se – num rasgo de espontaneidade aconselhou a plebe rude a optar por brioches à falta do pão, revelou-se por inteiro o abismo entre a rua que acabara de derrubar a Bastilha e a monarquia agonizante de Luiz 16. O general João Figueiredo, ditador entre 1979 e 1985, sintetizou o apreço do regime pela gente brasileira esponjando-se na língua das estrebarias: “Prefiro o cheiro de cavalo ao de povo”.

Na largada da campanha tucana em 2010, Eliane Cantanhede, colunista da Folha, definiu-se melhor que seus críticos ao explicar: “O PSDB é um partido de massa, mas uma massa cheirosa”.

O Fusquinha 75 incendiado na rua da Consolação, em São Paulo, no sábado, dia 25, revelou uma incomoda dimensão dos protestos contra a Copa de 2014.

Black Blocs que interrompiam a via atribuem o acidente ao piloto, que teria avançado sobre um bloqueio de fogo com crianças a bordo. Itamar Santos, serralheiro pobre de 55 anos, rejeita o papel de vilão.

Um colchão em chamas foi atirado sobre seu carro quando avançava para escapar de protestos, teoricamente, em defesa de brasileiros pobres como ele.

O Fusquinha no meio do caminho é a pedra no sapato dos que oferecem destinos redentores à sociedade sem combinar com ela –nem dizer como se chega lá.

Contrapor objetivos distintos aos do governo, qualquer governo, é legítimo. Sem adicionar aos enunciados as linhas de passagem capaz de materializá-los, porém, rebaixa-se a política ao plano do bate-boca inconsequente. Dispersa em vez de organizar.

A oposição conservadora também é useira e vezeira na atividade exclamativa. Desprovidos de compromissos com a sorte da nação e de sua gente, seus economistas, egressos em geral do vale tudo financeiro, colecionam receitas de como tocar fogo no país, indiferentes aos ocupantes dos Fusquinhas no meio do caminho.

A instabilidade cambial que ronda as nações em desenvolvimento nesse momento, antes de preocupá-los é vista como um bom aditivo para queimar caravelas. Move-os a esférica certeza de que o legado recente é incompatível com o futuro recomendado ao país.

A saber: aquele nascido de uma purga ortodoxa, capaz de limpar o tecido econômico de qualquer vestígio de soberania, interesse público e justiça social.

O problema dessa lógica é o bendito Fusquinha atrapalhando o tráfego das boas causas. Fortemente ancorada na ampliação do mercado de massa, a economia brasileira avançou nos últimos anos apoiada em ingredientes daquilo que a emissão conservadora denomina “Custo país”.

Em tempos de interdições inflamáveis, nunca é demais recordar. O salário mínimo teve elevação do poder de compra da ordem de 70% desde 2003, acima da inflação; 16 milhões de vagas foram abertas no mercado de trabalho, regidas pela regulação trabalhistas da era Vargas; políticas sociais destinadas a mitigar a fome e a miséria atingem mais de 55 milhões de pessoas atualmente.

No Fórum Social Temático, em Porto Alegre, a ministra Tereza Campello deu um exemplo do que está subjacente a estatísticas para as quais o vocabulário conservador reserva apenas uma palavra: assistencialismo.

Pela primeira vez na história do país, disse Campello, uma geração de crianças pobres, que agora completa 12 anos, nasceu e cresceu livre da fome (Bolsa Família, o poder transformador de uma infância sem fome).

O blackboquismo nas suas variadas versões dá de ombros.

O mesmo trejeito merece o cinturão de segurança de US$375 bilhões em reservas internacionais acumuladas no período de fastígio das commodities – “ciclo desperdiçado pelo governo do PT”, assevera-se. Não fosse ele, o Brasil seria presa fácil da volatilidade internacional desse momento, com consequências sabidas e equivalentes às da tripla quebra no ciclo tucano.

Mas a blindagem figura como um retrocesso do ponto de vista de quem acredita que as conquistas dos últimos 12 anos devem ser corroídas para reduzir o custo do investimento privado e aliviar o “gastança” fiscal.

Aí sim, sobre os escombros, brotaria uma nova matriz de crescimento “mais leve, ágil e competitiva”, temperada por um corte geral de tarifas de importações.

O diabo, de novo, é o Fusquinha na contramão do schumpeterismo blanquista. Dentro dele, 40 milhões de brasileiros saídos da pobreza extrema e outros tantos que ascenderam na pirâmide social formam a vértebra decisiva de um dos mais cobiçados mercados de massa do planeta.

Os jovens da chamada classe C, por exemplo, tornaram-se majoritários no mercado de consumo. Em 2013 eles realizaram compras no valor de quase R$130 bilhões – R$50 bilhões acima do valor consumido pela juventude dos segmentos A e B (Data Popular). Juntas, as faixas de renda C, D e E reúnem 155 milhões de pessoas, o que faz da demanda popular brasileira, sozinha, o 16º mercado consumidor do planeta.

É esse o recheio do Fusquinha que avança na contramão da dupla barreira, a incendiária e a purgativa, que sacode o debate do passo seguinte do país.

Reconheça-se, o tráfego social e econômico brasileiro tornou-se bem menos linear sob a pressão do fluxo de demandas, prazos e requisitos para o seu atendimento. Cada urgência tem um custo e quase nunca ele é neutro em relação a outra. Nenhuma novidade.

Desequilíbrio e desenvolvimento são irmãos siameses, exceto quando se entende por desenvolvimento a mera concentração da riqueza nas mãos dos endinheirados.

O Brasil talvez tenha avançado demais para regredir a essa modalidade de paz do salazarismo social. As multidões que invadiram a economia dentro do Fusquinha não aceitam dar meia volta na estrada da ascensão experimentada nos últimos anos.

Uma nova macroeconomia do desenvolvimento terá de ser construída em negociação permanente com elas. Ou contra elas –correndo-se o risco de ser atropelado por elas.

A contingência não incomoda apenas o blackbloquismo em suas variantes sabidas. Significa também que a vitória progressista em 2014 somente será consistente se ancorada na decisão política de promover a mutação do Brasil que se tornou majoritário na pista do consumo, em um Brasil hegemônico na repactuação de projeto de nação para o século 21.

Carta Maior, propositadamente, insiste em repetir: para isso é preciso – ao contrário do que fazem os shoppings aos sábados – alargar as portas da democracia e criar os instrumentos que forem necessários para sustentá-la.

Não adianta interditar o tráfego. Nem tacar fogo no Fusquinha das demandas populares.

A ver.

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Vândalos causam terror e destruição em São Paulo

Coincidência? Incêndios em favelas de São Paulo caem 70% em relação a 2012

22 de setembro de 2013

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Segundo o Corpo de Bombeiros, ocorrências até aqui foram todas de pequeno porte, apesar de o Programa de Prevenção chegar a poucas comunidades e não estar completamente implantado.

Sarah Fernandes e Malu Damazio, via RBA

Apesar de o Programa de Prevenção a Incêndios (Previn) ainda não estar completamente implantado nas favelas de São Paulo – e de seu alcance ser limitado a um pequeno número de comunidades – as ocorrências desse tipo tiveram redução de 70% entre janeiro e o início de setembro de 2013, em comparação com o mesmo período do ano passado.

São 20 ocorrências em 2013, segundo o Corpo de Bombeiros, contra 68 em 2012 (até setembro). Outro relevante dado é que os incêndios deste ano foram todos de pequeno porte. No ano passado, as chamas consumiram comunidade inteiras, deixando milhares de desabrigados.

Na época, autoridades dos governos estadual e municipal responsabilizavam o tempo seco pelas ocorrências. “Vou lembrar que o mês de junho teve o maior índice pluviométrico dos últimos tempos e não tivemos nenhum incêndio em favela. Por outro lado, entre julho e agosto, que foram os meses com menos chuva, tivemos vários casos”, disse em setembro de 2012 o então coordenador-geral da Defesa Civil, Jair Paca de Lima, à RBA.

O clima seco, no entanto, parece não ter causado os mesmos prejuízos neste ano: na média, a umidade relativa do ar entre junho e agosto deste ano foi apenas 1% maior que nos mesmos meses do ano passado, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O órgão lembra que nenhum dos dois anos foram os mais secos da cidade, sendo superados, por exemplo, por 2002, quando até outubro tinham sido registradas 20 ocorrências do tipo na capital.

São Paulo registrou pelo menos 530 incêndios em favelas entre 2008 e 2012, de acordo com os Bombeiros. Sobre este último ano, um levantamento produzido pela Rede Brasil Atual sobrepôs os endereços das ocorrências com as áreas a serem transformadas pelas políticas municipais de reurbanização e revelou que a maioria das favelas incendiadas estão coincidentemente concentradas nos perímetros das chamadas operações urbanas (confira abaixo).

Favela_Incendio10_Mapa

O traçado georreferenciado das operações urbanas previstas no Plano Diretor da cidade foi cedido pela Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa). Como a administração municipal tem autonomia de alterar o traçado, também foram utilizadas informações de mapas disponíveis nos sites da prefeitura.

Ao todo foram georreferenciados 89 dos 103 endereços de incêndios em favelas que constam no documento entregue pela Defesa Civil para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Incêndios em Favelas da Câmara Municipal. Para a elaboração do mapa foi usado o sistema colocado à disposição pela empresa Google. As ocorrências vão de janeiro de 2008 a agosto de 2012.

Vítimas do fogo

“Toda vez que lembro do que aconteceu eu choro”, disse a dona de casa Andréia Cássia, moradora da favela Alba, na zona Sul de São Paulo, que teve sua casa destruída pelo fogo em agosto do ano passado, que deixou pelo menos 120 desalojados. A prefeitura não ofereceu abrigo para as vítimas, que tiveram de se hospedar na casa de amigos e parentes.

“O fogo começou em um barraco atrás de casa, se espalhou e queimou o quarto dos meninos. Só deu tempo de pegar minha bolsa e sair correndo”, contou. Andréia, assim como a maioria dos moradores que perderam suas casas, está reconstruindo suas moradias, de alvenaria, nos mesmos lugares.

Andréia e os demais moradores se negaram a aceitar o aluguel social oferecido pela prefeitura na época. “Eram R$300 e com isso não se aluga um barraco para uma família com crianças aqui”, disse. No incêndio ela perdeu uma barraca e um fogão portátil, que usava para vender lanches em festas na comunidade.

Um núcleo da favela da Vila Prudente localizado entre a estação Ipiranga da CPTM e o centro de compras Mooca Plaza Shopping, que sofreu um incêndio em agosto do ano passado, registrou outra ocorrência em fevereiro deste ano, restrita a três barracos. Logo após o primeiro incêndio a prefeitura instalou uma barreira de concreto em torno do terreno, para impedir a reocupação. Os moradores foram ameaçados de serem expulsos e tiveram que recorrer ao Ministério Público.

Favela_Incendio12_ElzaElza Miranda (ao lado), moradora e dona de um pequeno comércio na área, conta que perdeu seu quarto no segundo incêndio, com todos os pertences, e que ainda está dormindo no chão de outro cômodo. “Não deixam a gente reconstruir. Toda hora tem a subprefeitura ou a GCM (Guarda Civil Metropolitana)”, reclama. Mesmo assim, algumas famílias voltaram a ocupar os escombros do incêndio, que permanece no terreno, ainda sem limpeza.

“Eu nunca tive uma oportunidade na minha vida. A única foi de abrir meu comércio na frente da minha casa, que eu agarrei com muita força. Não vou entregar a qualquer custo”, diz.

Prevenção

Em outro núcleo da favela da Vila Prudente, seis brigadistas que haviam sido treinados para atuar no Programa de Prevenção de Incêndios em Favelas (Previn) no ano passado foram desligados do projeto sem explicações, em dezembro. Outras duas pessoas foram contratadas para a função.

Dos 11 hidrantes que deveriam ser instalados na favela, ação prevista no Previn, apenas dois saíram do papel.

Favela_Incendio13_Joao_Roberto“Eu tinha feito a demarcação com os bombeiros, mas eles acabaram colocando em locais diferentes. E os hidrantes também não têm bomba para dar pressão no jato de água para apagar o incêndio”, disse o morador João Roberto Rodrigues (ao lado), que fez parte da brigada de incêndio.

Na favela São Remo, na zona oeste da cidade, onde a prefeitura já havia entregue os equipamentos, o programa parou de funcionar, segundo os brigadistas.

A Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, responsável pela iniciativa, afirmou, via assessoria de imprensa, que foi criado um grupo para fazer a gestão do Previn.

“Os envolvidos realizaram um diagnóstico da situação atual das 50 comunidades atendidas pela gestão anterior, no que se refere aos equipamentos e capacitação para moradores locais. Feito isso e constatada a falta dos equipamentos, todas as subprefeituras receberam verba da Secretaria de Coordenação para compra de materiais e já adquiriram a maior parte dos equipamentos. Além disso, está em andamento a contratação de zeladores para que o programa seja efetivamente implantado nas comunidades”, diz o texto.

O projeto original havia sido criado na gestão de Marta Suplicy (PT) e conseguiu, nos seus dois anos de atividade, controlar todos os focos de fogo em favelas antes que se tornassem grandes incêndios. A ideia era mais simples que o Previn: tratava-se de equipar algumas casas com extintores e treinar moradores para acabar com as chamas antes que se propagassem para moradias vizinhas.

Apesar do custo reduzido e do sucesso nas ações, ele foi extinto por José Serra (PSDB) em 2005, quando assumiu a prefeitura. Sucessor do tucano, Gilberto Kassab (PSD) teve a chance de reativar o trabalho depois que um projeto de lei foi aprovado pela Câmara Municipal em 2009, mas não tocou a ideia adiante. Durante a campanha para a prefeitura de São Paulo, no ano passado, o prefeito Fernando Haddad (PT), então candidato, se comprometeu a retomar o programa.

Em 2009, o vereador Celso Janete (PTB) apresentou um projeto de lei para a implantação de um novo programa de prevenção a incêndios em favelas, que foi aprovado em plenário. Quase um ano depois, o ex-prefeito Kassab, então do DEM, firmou um decreto que criou o Programa de Prevenção Incêndios em Assentamentos Precários (Previn).

Semelhante à ação da gestão Marta, o programa, implantado em 2010, prevê nomeação de um zelador comunitário, instalação de hidrantes e retirada de ligações clandestinas de energia elétrica (os populares “gatos”). No Orçamento de 2011, o projeto chegou a receber dotação orçamentária de R$1 milhão, mas, segundo as planilhas disponíveis, nada foi efetivamente investido. Em 2012, novamente o montante executado foi nulo.

Investigação

O número elevado e recorrente de incêndios em favelas motivou, no ano passado, o então vereador Ricardo Teixeira (PV) a pedir a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Incêndios em Favelas, que vigorou entre abril e dezembro. Apesar das reuniões serem quinzenais, apenas seis encontros foram realizados.

Os demais foram cancelados por não atingirem presença mínima de quatro dos seis vereadores participantes, todos da base aliada do então prefeito Kassab: Ricardo Teixeira (PV), Edir Sales (PSD), Toninho Paiva (PR), Ushitaro Kamia (PSD), Aníbal de Freitas (PSDB), Souza Santos (PSD) e Jamil Murad (PCdoB, que abriu mão da vaga). Os três últimos foram substituídos, quando só então entraram representantes da oposição, em novembro, por Eliseu Gabriel (PSB), Floriano Pesaro (PSDB) e Juliana Cardoso (PT), respectivamente.

Até então, o PT não tinha tomando parte da discussão, abrindo mão das duas vagas que teria direito, em protesto a não instalação de uma CPI para investigar denúncias de desvio de verba no Hospital Sorocabano.

A CPI terminou em 12 dezembro, em uma reunião com bate-boca, acusações, ataques políticos, retomada de questões já saturadas e nenhuma conclusão. A votação do relatório final ocorreu no dia 18, após oito meses de tentativas em vão de realizar encontros e tomar depoimentos. O documento considerou que as investigações não ocorreram a contento e que por isso seria necessário estendê-las para o próximo ano.

“Venho neste momento fazer uma recomendação ao plenário da Casa de retomar a referida investigação na nova legislatura, dada a importância do assunto”, disse o documento, escrito por Teixeira, presidente da comissão.

Neste ano ele assumiu o cargo de Secretário do Verde e Meio Ambiente e não deu continuidade às investigações. Seu suplente, Abou Anni (PV), não fez o pedido de reabertura da Comissão. Segundo a Secretaria de CPIs da Câmara, nenhum vereador requisitou a reabertura da CPI.

Luciano Martins Costa: Um escândalo embaixo do tapete

30 de julho de 2013

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Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa

Há uma enorme ilusão na ideia de que a imprensa tradicional trabalha com uma visão objetiva da realidade. Aliás, é nesse mito que a imprensa fundamenta seu valor simbólico, como instituição que suporta a modernidade: quanto mais objetiva a visão de mundo, mais distantes estaremos, supostamente, dos arcaísmos e da barbárie.

Com base nessa suposição, a imprensa cobra da sociedade um respeito e uma reputação que a colocam entre os principais poderes institucionais. No entanto, para qualquer lado que se olhe, pode-se notar que a objetividade é somente uma ficção, não apenas como resultado da narrativa, mas como na própria intencionalidade da ação jornalística.

O que move, condiciona e determina o trabalho jornalístico é uma crença – e, uma vez que se abandonou a ambição da objetividade, pouco resta de valor real das crenças que, afinal, têm como objetivo apenas a imposição de uma moral específica, não a busca da verdade. Tanto faz se um jornal está falando da visita do papa, de economia ou de política, a linguagem jornalística institucional produz sempre um discurso comprometido com uma crença, sob o disfarce de uma narrativa desprendida e fundada na realidade objetiva.

Observe-se, por exemplo, como os jornais tratam o caso do pagamento de propinas que denuncia a existência de um vasto sistema de corrupção nos governo do estado de São Paulo e do Distrito Federal, associado a obras do Metrô. O assunto foi tema de capa da revista IstoÉ na semana passada, em ampla reportagem intitulada “O propinoduto do tucanato paulista”, ilustrada com montagem de fotografias de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, que se sucederam no governo de São Paulo durante o período em que teriam ocorrido pagamentos de propinas em troca de contratos para obras do Metrô.

Embora potencialmente, segundo uma visão objetiva dos fatos, fosse o caso de os jornais darem curso às revelações de IstoÉ, como tem sido rotina em outros escândalos, a reação da imprensa, em geral, é um silêncio capaz de fazer ruborizar a imagem de Nossa Senhora Aparecida – para fazer referência objetiva a uma crença. Com certeza, os editores acreditam que, se eles não falarem do assunto, ele não vai existir.

Uma suposta eventual possibilidade

Acontece que a realidade objetiva indica que o Brasil precisa continuar investindo em obras de infraestrutura, o que inclui muitos quilômetros de Metrô e uma nova e moderna rede ferroviária. E as empresas que fornecem materiais e tecnologia para esses projetos bilionários têm de estar em dia com a Justiça, para participar de tais licitações.

A multinacional Siemens, de origem alemã, faz parte do seleto grupo de corporações habilitadas a fornecer essa tecnologia e disputar o bolo de dinheiro que está em jogo. Por isso, seu conselho de administradores resolveu colaborar com as investigações. Foi daí que saiu o material que informa a reportagem da revista IstoÉ. Mas a mesma fonte parece não ter provocado comichões de curiosidade nos editores que decidem o que é importante nos grandes jornais.

Assim, o que vemos é uma notinha de um parágrafo em O Estado de S.Paulo, na edição de sábado, dia 27, informando que o conselho de supervisão da Siemens se reuniria no fim de semana para discutir o futuro da administração do grupo. Segundo o texto, o desafio da reunião seria encontrar caminhos para melhorar o desempenho da empresa. Nenhuma referência ao processo criminal que a multinacional está sofrendo por haver comprado contratos com o Metrô de São Paulo e Brasília à custa de propinas.

Na segunda-feira, dia 29, na Folha de S. Paulo, uma reportagem um pouco mais alentada informa que a Siemens está discutindo com promotores a devolução aos cofres públicos de um valor correspondente a sobrepreço no fornecimento de serviços e equipamentos.

São 11 as grandes empresas envolvidas no esquema, um cartel montado para elevar custos, pagando milhões de reais em propinas a autoridades do governo de São Paulo e do Distrito Federal, durante anos. O resultado pode ser percebido nos trens lotados, no atraso do sistema de transporte sobre trilhos e na origem dos protestos do mês de junho.

Geralmente, a imprensa faz muito barulho contra supostos corruptos, mas costuma poupar os corruptores. Neste caso, com um corruptor confesso, o trem dos jornais passa direto pela estação da corrupção.

No infográfico da Folha, uma pérola da “objetividade” jornalística: a denúncia formal, apurada pela promotoria e admitida pela Siemens, se transforma em “suposto cartel de empresas fornecedoras de equipamentos”. Então, aquilo que é um escândalo concreto e comprovado, vira “talvez uma suposta eventual possibilidade”. E aqueles que se descabelaram com outras denúncias de repente ficam mansos como cordeiros.

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Propinoduto tucano: Incêndio criminoso destruiu papéis do Metrô em São Paulo

30 de julho de 2013

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Nesses tempos de escândalos envolvendo PSDB, Metrô, CPTM, Siemens e Alstom, é importante lembrar como os tucanos tentaram se livrar de parte das provas que os incriminavam. A matéria a seguir é de Bruno Ribeiro, publicada em O Estado de S.Paulo, jornal acima de qualquer suspeita (sic), em 4 de dezembro de 2012.

As 15 mil caixas de documentos que o Metrô de São Paulo perdeu em junho foram queimadas durante um incêndio criminoso. Na ação, um grupo de nove bandidos armados invadiu a empresa que armazenava os papéis e roubou computadores. Antes de deixar a empresa, os ladrões atearam fogo ao depósito.

A perda dos documentos foi noticiada pelo Estado na edição de sábado. Os papéis – contratos assinados entre 1977 e 2011, relatórios sobre falhas técnicas e documentos contábeis – constavam de um edital publicado na sexta-feira pelo Metrô no Diário Oficial Empresarial.

Mas só ontem a assessoria de imprensa da companhia informou a causa do sumiço dos documentos. De acordo com nota enviada pelo Metrô, os papéis perdidos representam 4% de todo o arquivo da empresa – que tem 44 anos – e, conforme já havia sido dito na sexta-feira, parte dos documentos estava microfilmada ou digitalizada, o que reduz o prejuízo.

A companhia garante que nenhum dos contratos queimados ainda estava em andamento – eram todos acordos que já foram encerrados. “Os documentos em suporte papel mais importantes danificados são os documentos técnicos e contratos encerrados que por sua importância estão microfilmados”, diz a nota, sem detalhar o que não estava microfilmado e realmente foi perdido.

Roubo. As 15.399 caixas de documentos estavam em depósito de uma empresa especializada em guardar arquivos em Itu, no interior do Estado, que havia sido contratada pelo Metrô.

Segundo a companhia, no dia do incêndio – 9 de junho – os assaltantes renderam os funcionários da empresa e roubaram dez computadores de uso interno da arquivadora.

Em seguida – segundo a nota, “por razões ainda não conhecidas” –, o grupo espalhou gasolina pelo depósito e ateou fogo ao galpão, que foi totalmente incendiado.

A nota do Metrô diz ainda que também foram perdidos documentos de outras 18 empresas que mantinham contrato com a companhia de arquivos. O Metrô registrou um boletim de ocorrência sobre o caso no 2º Distrito Policial de Itu.

Acidentes. Entre os papéis perdidos no incêndio, havia análises da Comissão Permanente de Segurança (Copese), órgão que apura acidentes da companhia, de incidentes ocorridos entre 2006 e 2009. Havia ainda relatórios de “incidentes notáveis”, como o Metrô chama as panes que paralisam as linhas por muito tempo e exigem a colocação de ônibus para transportar passageiros.

Além de fazer o boletim de ocorrência e publicar o edital sobre a perda dos documentos, o Metrô instaurou auditoria interna sobre o assunto.

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São Paulo: Os demotucanos saíram da Prefeitura e acabaram incêndios em favelas. Coincidência?

14 de maio de 2013
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Em oito anos de administração Serra/Kassab ocorreram mais de 600 incêndios em favelas em São Paulo.

Stanley Burburinho

Desde a posse do prefeito Fernando Haddad, ainda não ocorreu nenhum incêndio de grandes proporções em favela de São Paulo. Nas administrações anteriores, era uma média de dois incêndios por semana, sempre em véspera ou durante fim de semana ou feriado prolongado.

De 2005 até 2012, ocorreram mais de 600 incêndios seguidos de remoção dos moradores e das favelas. O interessante é que a maioria desses incêndios ocorreu em favelas próximas ao centro da cidade ou em bairros valorizados. Menos de 1% ocorreu em favelas da periferia.

Curioso, né?!

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Crimes, incêndio, sexo e drogas farão mensalão tucano bombar mais do que caso Eliza Samúdio

3 de janeiro de 2013

Via Os amigos do presidente Lula

Se a Ação Penal 470 despertou debates e manchetes nos meios políticos e jurídicos, o mensalão tucano tem todos os ingredientes para bombar também nas páginas policiais dos jornais e telejornais populares.

Em 2013 começa a hora do pesadelo para o tucanato. Apesar de o mensalão tucano ter menos réus e mais amigos no STF e de a velha imprensa preferir varrê-lo para baixo do tapete, o escândalo tem ingredientes daqueles de despertar interesse de jornais e programas televisivos populares, do tipo que fazem o Datena e o Ratinho. Assim como o caso Eliza Samúdio, acabará por pautar o Jornal Nacional e o Fantástico, mais cedo ou mais tarde.

Um dos tristes ingredientes é o caso da modelo assinada. Para advogado da família da vítima, ela era arquivo vivo do mensalão tucano:

Inquérito 3530/STF apura incêndio criminoso contra Nilton Monteiro e familiares

Mensalao_Tucano14

http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoDetalhe.asp?incidente=4302755
C S DE A – Clésio Soares de Andrade – Senador PMDB
E B A – Eduardo Brandão Azeredo – Deputado federal PSDB
J E F – Joaquim Engler Filho – Advogado
M B E – Maurício Brandão Ellis – Perito do Instituto de Criminalística MG
J I F M – José Inácio Francisco Muniz – Advogado
A C V G – Andréa Cássia Vieira Guerra – Ex-sócia de Monteiro
R D DA R – Ricardo Drumond da Rocha – Advogado
W S DOS M G – Walfrido Silvino dos Mares Guia – dirigente do PSB

Nilton Monteiro é um arquivo vivo sobre os malfeitos da turma do PSDB. Esteve envolvido em coisas das campanhas tucanas de 1998 e 2002. Depois de desentendimentos com o tucanato, denunciou a lista de Furnas (um caixa 2 tucano das eleições de 2002) e uma outra lista atribuída a Marcos Valério, de 1998. Nesta lista de 1998, a modelo assassinada aparece como emissária de R$1,8 milhão para o tucanato mineiro. Valério nega, a Polícia Federal investiga.

Perigoso demais, Monteiro passou a ser perseguido pelo tucanato de Minas desde o governo Aécio Neves. Setores da Polícia Civil de Minas o submeteram a um polêmico inquérito, não para investigar suas denúncias, mas para prendê-lo sem nenhuma condenação e desacreditá-lo, com características arbitrárias e de intimidação. Suspeita-se – inclusive pelas gravações entre advogados e burocratas tucanos – que Monteiro só não teve o mesmo destino da modelo, devido à investigação paralela da Polícia Federal, onde ele entregou boa parte da documentação em seu poder, o que ajudou a instruir inquérito e processo da Lista de Furnas e ligados ao mensalão tucano.

Um incêndio criminoso na casa de Nilton Monteiro provocou explosões cinematográficas de carros, ameaçou a vida de nove pessoas, sendo que uma delas ficou 40 dias na CTI. Resultou no Inquérito 3.530 no STF, investigado pelo Polícia Federal e movido pelo Ministério Público de Minas Gerais, sob relatoria do ministro Joaquim Barbosa. No inquérito, são investigados o deputado Eduardo Azeredo (PSDB/MG) e outros demotucanos, como supostos mandantes, financiadores ou envolvidos no atentado.

Sexo, drogas e crimes

O advogado Joaquim Engler Filho participou do grupo operacional das campanhas do tucanato mineiro. Gravou pelo menos 21 encontros que ele participou (e já encaminhados a Joaquim Barbosa). Há conversas de baixíssimo nível sobre sexo e drogas, envolvendo o nome de um importante senador e ex-governador tucano de Minas (é exatamente quem vocês estão imaginando). Porém, como os diálogos são impressão pessoal dos interlocutores, sem que tenham testemunhado nada, não chega a ter valor de prova. O que é muito mais grave são as conversas que giram em torno de mandantes de crimes, assassinatos, uso de policiais ligados a grupos de extermínio, subornos e acordos políticos com altas autoridades do poder judiciário, controle dos meios de comunicação. Quem leu as degravações (a primeira até a sétima foram vazadas para internet aqui ou aqui), fica com a desalentadora impressão de que em Minas Gerais está tudo dominado pelo crime organizado entranhado nos poderes, e precisa de uma Operação Mãos Limpas semelhante a feita na Itália nos anos 80/90 (aliás, coisa já percebida há anos pelas pessoas bem informadas que acompanham a política de Minas).

A verdade é que o mensalão tucano tem tudo para ser aquilo e mais um pouco do que a Globo e a Veja queriam que fosse a Ação Penal 470.

Quem conseguirá conter José Serra?

Por mais que FHC e Aécio Neves (PSDB/MG) telefonem para as redações dos jornalões e tevês dizendo para não publicarem nada, não haverá como esconder tanta sujeira debaixo do tapete, já que a blogosfera se encarregará de divulgar as informações que a Globo, Veja, Folha, Estadão e assemelhados escondem.

Mas, além da blogosfera, há um ingrediente a mais que tira o sono dos tucanos. Conhecedores do método de José Serra (PSDB/SP) para afastar seus concorrentes dentro do próprio partido, quem irá contê-lo, diante de dossiês tão fartos contra seu arqui-inimigo Aécio Neves?


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