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A Igreja Católica e o golpe militar no Brasil

23 de outubro de 2013

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Miguel do Rosário, via Tijolaço

Parece até um filme de Glauber Rocha, mas é a realidade. Ou melhor, é um filme de Glauber Rocha. As recentes provas de que Igreja, latifúndio, udenistas de classe média, militares e, claro, barões da mídia, uniram-se em prol do golpe de Estado, ajuda a explicar a força do regime de exceção.

Semana passada, divulgamos o vídeo do Instituto João Goulart onde um militar hoje aposentado afirma, com todas as letras, que o general Amaury Kruel traiu Jango por seis malas de dólares.

A própria Globo, depois de apanhar nas ruas, já admitiu que foi golpista.

A informação, via Carta Capital, de que uma importante autoridade do Vaticano, o então arcebispo Dom Eugênio Câmara, prestou serviços à ditadura mostra o quão perigoso e nocivo é misturar religião e política.

Ambos devem estar bem separados, como manda o espírito republicano laico de nossa Constituição (apesar da citação de Deus no preâmbulo).

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Documentos inéditos provam a colaboração do primaz com a ditadura

Marsílea Gombata

Em 1976, sob a égide do Ato Institucional nº 5 e cercada por denúncias de torturas, prisões, desaparecimentos e mortes de presos políticos, como a do jornalista Vladimir Herzog, a ditadura começava a ruir em meio à transição “lenta, gradual e segura” anunciada pelo general Ernesto Geisel. A Igreja Católica, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cobrava do governo informações e esclarecimentos sobre os abusos e condenava o caráter arbitrário do regime militar.

Acuados, os generais buscavam minar o ímpeto das lideranças católicas dentro da própria CNBB. Contaram, para isso, com uma das figuras mais influentes do clero: o cardeal e então arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Salles. É o que revelam documentos oficiais obtidos por CartaCapital junto ao Arquivo Nacional em Brasília. Em relatório de 14 de março de 1976, o 1º Exército do Rio de Janeiro relata ao Serviço Nacional de Informações (SNI) como o cardeal conseguiu conter os esforços da própria CNBB de lançar uma campanha contra a repressão. Ao se referir ao “clero católico”, o documento dizia: “A CNBB pretendia fazer declarações sobre as atuais prisões, envolvendo elementos do PCB, no RJ/RJ. Dom Eugênio Salles conseguiu esvaziar o movimento da CNBB. Irah a Roma ET, no seu retorno ao país, farah declarações favoráveis”.

A evidência fica clara em outro documento do SNI, também parte do acervo do Arquivo Nacional. A carta da CNBB, endereçada ao general Ernesto Geisel em 24 de setembro de 1975, pedia esclarecimentos sobre o paradeiro de presos políticos. Preocupada em obter esclarecimentos “alvissareiros ou trágicos, mas definitivos” sobre casos de militantes desaparecidos, a entidade dizia ao então ditador: “Permanece, no entanto, um determinado número de desaparecimentos para os quais ainda não se obteve informações satisfatórias. […] Até esta data, no entanto, os esclarecimentos não foram satisfatórios. Isto é motivo de desespero para as famílias dos desaparecidos e de angústia para nós pastores”. O então presidente da CNBB, Aloísio Lorscheider, termina a carta com uma súplica: “Gostaríamos de receber melhores esclarecimentos, bem como qualquer retificação, sobre imprecisão dos dados ou fatos aí contidos”.

Diante da pressão, os militares usavam dom Eugênio – arcebispo primaz do Brasil desde 1968 – como uma espécie de garoto de recados, de acordo com o documento do I Exército do Rio de Janeiro ao SNI, de 1976. À época da prisão de jornalistas ligados ao PCB, como Oscar Maurício de Lima Azêdo e Luiz Paulo Machado, foram coletados depoimentos de outros profissionais de imprensa, como Fichel Davit Chargel e Ancelmo Gois, por meio dos quais seriam reveladas operações do PCB no Rio. Com tais informações nas mãos, os militares pressionaram o fotógrafo Luiz Paulo Machado para que redigisse uma carta de repúdio ao comunismo, a fim de demonstrar arrependimento pela militância. A existência da carta de próprio punho, ressalta o documento oficial, era para ser mantida sob “alta compartimentação” (sigilo).

Apesar da carta escrita na madrugada de 13 para 14 de março, os militares queriam mais. Pediram, como relata o documento da Operação Grande-Rio – que visava “buscar intimidar ou desencorajar livre manifestação subversiva VG especialmente por meio de prisões de subversivos selecionadas por suas atuações destacadas” –, que dom Eugênio conversasse com a mulher do fotógrafo, Elaine Cintra Machado, para sugerir procurar o comandante do I Exército e obter informações sobre o detido. Era de extrema importância, no entanto, que o arcebispo deixasse transparecer o mínimo sobre a relação próxima que tinha com os militares. “Dom Eugênio Salles, por solicitação do CMT do I EX, fazendo transparecer ser iniciativa sua, aconselhou a Elaine que procurasse o CMT do I EX, dando a crer, também que soh o Exército poderia cooperar com ela.”

O objetivo seria pressioná-la, a fim de conseguir “o apoio ET a cooperação de Elaine”, como sugere o relatório sobre os procedimentos a serem tomados com a militante denunciada pelo marido como “responsável pelo movimento financeiro do PCB, no RJ”. A intenção era “desencadear de imediato uma ação psicológica sobre a esposa de Luiz Paulo Machado, Elaine Cintra Machado, com base na “carta-repúdio”.

[…]

Discurso. Líder ecumênico metodista e coordenador do Grupo de Trabalho da Comissão Nacional da Verdade que investiga o papel das igrejas durante a ditadura, Anivaldo Padilha reconhece que a figura de dom Eugênio é controversa: além de ter atuado a mando dos militares, chegou a negar ajuda a militantes, inclusive os católicos. “Dos pronunciamentos dele, não me lembro de nenhum explicitamente apoiando a ditadura, mas lembro de muitos outros criticando setores de oposição, especialmente a esquerda.”

Da mesma visão compartilha dom Angélico, bispo auxiliar do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo cuja trajetória foi marcada pela proteção aos militantes e que, inclusive, mais de uma vez esteve com o então ministro-chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, para lhe entregar listas com nomes de desaparecidos. “Do que conheço a respeito da atuação do cardeal dom Eugênio, a não ser em casos isolados, ele realmente não se confrontou com a ditadura”, avalia.

Não são poucos os casos nos quais dom Eugênio foi chamado a ajudar e a fazer frente ao regime militar e não deu ouvidos. Um dos mais famosos é o da estilista Zuzu Angel, cujo filho Stuart foi torturado e morto pelo Serviço de Inteligência da Aeronáutica. Ao procurar dom Eugênio, bateu com a cara na porta. Sua filha, a colunista social Hildegard Angel, em mais de uma ocasião disse que o cardeal “fechou os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos ‘subversivos’ que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe”.

A omissão, o silêncio e a compra das versões dadas pelos militares para acobertar torturas e mortes nas prisões por dom Eugênio acabavam sendo respaldados pela mídia, com quem o cardeal mantinha ótimas relações – vale lembrar que ele escrevia artigos para O Globo e Jornal do Brasil com certa regularidade.

[…]

Assessor de imprensa de dom Eugênio por mais de 40 anos, Adionel Carlos da Cunha discorda. “Desconheço completamente qualquer ação do dom Eugênio nesse sentido (de colaboração com os militares). Pelo contrário, a ação dele foi de conseguir salvar mais de 5 mil militantes”, conta.

Trajetória. Um dos nomes cogitados para suceder ao papa João Paulo 1º, em 1978, o arcebispo nascido em Acari, no Rio Grande do Norte, em 8 de novembro de 1920, foi próximo do Vaticano como nenhum outro cardeal brasileiro. Ao longo de seus quase 60 anos de episcopado e mais de 40 de cardinalato, nomeou 22 bispos e 215 padres. Sempre foi um ferrenho opositor à Teologia da Libertação.

Para dom Angélico, a posição de dom Eugênio era clara: “Não era uma postura dúbia. Basta analisar historicamente”, disse, ao lembrar que a ditadura foi construída pelas “classes conservadoras, os grandes interesses econômicos e o apoio da CIA”. “Vivíamos em meio à polarização indevida entre o mundo livre e o mundo comunista. E muitos na Igreja temiam essa onda comunista.”

Entrevista: Moniz Bandeira analisa os 40 anos do golpe militar no Chile

11 de setembro de 2013
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Moniz Bandeira

Via Portal do Partido dos Trabalhadores

Dia 31 de agosto chegou às livrarias a edição alemã do livro de Moniz Bandeira: Wachstumsmarkt Brasilien – Der deutsche Wirtschafts und Handelsbeitrag in Geschichte und Gegenwart (Brasil – mercado em crescimento– A contribuição econômica e comercial da Alemanha na história e no presente), publicada por uma das maiores editoras da Alemanha, a Springer Gabler.

O livro já está anunciado na Amazon e será apresentado na Feira do Livro de Frankfurt, da qual o Brasil será este ano o país-tema. A apresentação será feita pelo economista Wolfgang Müller e pelo sociólogo Gilberto Calcagnotto, no dia 10 de outubro, às 10h45, na Halle 4.2, Fórum Fachmedien. Em seguida, Springer Gabler Verlag, em seu estande, oferecerá uma recepção. Está prevista a presença da ministra da Cultura, Marta Suplicy.

A 2ª edição em português, lançada pela Editora Unesp, tem o título O “milagre alemão” e o desenvolvimento do Brasil.

O lançamento dessa obra na Alemanha é da maior importância, num momento em que o Brasil e o governo de nossa presidente Dilma estão a sofrer um ataque especulativo, contra o real e sua economia, movido pelo sistema financeiro internacional e sob influência dos Estados Unidos.

Também de Moniz Bandeira, saiu na China a edição em mandarim de Formação do império americano. O livro foi publicado há dois anos pela Casa das Américas (Cuba), assim como na Argentina, há mais tempo.

Entrevista ao Portal do PT

Luiz Alberto Moniz Bandeira concedeu, por e-mail, uma entrevista ao Portal do PT onde ele analisa os 40 anos do golpe militar no Chile que derrubou o presidente Salvador Allende, as manifestações de junho ocorridas no Brasil e fala também sobre seu novo livro A segunda guerra fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio).

Confira a íntegra abaixo:

No próximo dia 11 de setembro, o golpe de Estado contra o presidente Salvador Allende completará 40 anos. Quais são, na sua opinião, as reflexões que devemos fazer nesta data, que nos sejam úteis na atual conjuntura latino-americana e mundial?

A principal reflexão que se pode tirar da tragédia do Chile é a de que não se pode cobrar da história uma fatura que ainda não venceu. Marx expôs, no prefácio de Zur Kritik der Politschen Ökonomie, que os resultados de suas pesquisas mostraram que uma formação social nunca desmorona sem que as forças produtivas dentro dela estejam suficientemente desenvolvidas, e que as novas relações de produção superiores jamais aparecem, no lugar, antes de que as condições materiais de sua existência sejam incubadas nas entranhas da própria sociedade antiga. E essa não era a situação do Chile, um país cuja economia se baseava fundamente na exploração do cobre, que dependia do mercado mundial, sob a regência do sistema capitalista. Nem Marx nem Engels nem Lenin jamais conceberam o socialismo como via de desenvolvimento ou modelo alternativo para o capitalismo, o único modo de produção que se expandiu globalmente. Logo na primeira parte do Manifesto Comunista, de 1848, Marx e Engels salientaram que a indústria havia criado o mercado mundial, mediante o qual burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países, retirando da indústria sua base nacional. As antigas indústrias nacionais – salientaram Marx e Engels – foram destruídas ou estavam sendo cotidianamente destruídas ou suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se convertia em questão vital para as nações civilizadas, por indústrias que não mais empregavam matérias primas domésticas, e sim matérias primas oriundas de distantes regiões, e seus produtos não só eram consumidos no próprio país, porém, ao mesmo tempo, em todas as partes do mundo. Essa lição mostrava a inviabilidade projeto socialista da União Popular, ademais dentro do contexto do Conflito Leste-Oeste, em que a CIA efetuava uma terrível guerra psicológica, visando a aterrorizar o povo e fraturar ainda mais a sociedade chilena. Se o presidente João Goulart, cujas reformas pretendidas tinham apenas caráter reformista e nacional-desenvolvimentistas, os Estados Unidos não toleraram e trataram de derrubar seu governo, é evidente que fariam o mesmo ou mais contra o governo do presidente Salvador Allende, que se alinhara com Cuba e a União Soviética.

Ainda sobre o Chile, a experiência do governo da Unidade Popular parece ter antecipado alguns dos dilemas estratégicos enfrentados, hoje, por várias governos progressistas e de esquerda latino-americanos. Em sua opinião, o que aquela experiência tem de atual, para os partidos de esquerda que dirigem ou participam de governos eleitos em nossa região?

A situação atual é muito diferente da que existia nos anos 1960, quando os Estados Unidos sustentaram e encorajaram o golpe militar no Brasil – e 1970-1973. Àquele tempo, quando promoviam o ignominioso golpe no Chile, estavam a perder a Guerra do Vietnã. Todo seu poderio militar não bastou para dar-lhes a vitória sobre forças que viviam no seu próprio habitat, na mais perfeita simbiose com a natureza e sobreviviam nas condições mais primitivas, combatiam extremamente bem, com eficiência e recebiam o mais amplo suporte da população, em todos os lugarejos do Vietnã do Sul. E, desde 2001-2003, os Estados Unidos estão chafurdados nas guerras no Afeganistão e no Iraque, onde os ataques e atentados terroristas mais do que se intensificaram e quadruplicaram e dos quais não conseguem retirar totalmente suas tropas. E os Estados Unidos, chafurdados ainda em profunda crise econômica, tornaram-se uma superpotência dependente. Dependem de tudo, inclusive de capitais e financiamentos, que foram possibilitados pela compra de bônus do Tesouro norte-americano pela China, Brasil e outros países. Como bem observaram Bill Bonner e Addison Wigging, “a nação mais rica, mais poderosa do mundo, depende das poupanças dos países mais pobres”. O poderio militar dos Estados Unidos defronta-se, portanto, com severos limites econômicos e financeiros. Mas Washington, quer seja George W. Bush ou Barack Obama o presidente, jamais tolerou, evidentemente os governos progressistas que emergiram na América do Sul, contra os quais promovem operações de guerra por meio da mídia nacional e internacional e outros métodos, através de ONGs, financiadas pela NED [National Endowment for Democracy], e entidades civis, como Freedom House, o Open Society Institute [renomeado a Usaid, Open Society Foundations, OSF, em 2011], e outras organizações não governamentais, com o objetivo de promover golpe de estado. A Open Society Foundations, a NED e a Usaid financiaram alguns movimentos e certos veículos da mídia, encorajando a denúncia de fraudes reais ou não nas eleições de vários países, como Sérvia, Geórgia e Ucrânia – nos quais encorajaram nonviolent revolutions, levando a oposição às ruas, por meio de ativistas, muitas vezes remunerados em manifestações contra o governo. O livro básico para a formação desses ativistas é From Dictatorship to Democracy, do professor do Gene Sharp, que ensina como intervir em eleições estrangeiras sob a máscara de interesse imparcial. Segundo ele explica a luta não violenta é travada por vários meios, tais como a guerra psicológica, social, econômica e política, aplicados pela população e pelas instituições da sociedade. Tais meios são, e.g., protestos, greves, não cooperação, deslealdade, boicotes, marchas, desfiles de automóveis, procissões etc. É o modelo do pós-moderno coup d’etat patrocinado Estados Unidos, adaptado às condições pós-comunismo, uma forma de cold war revolutionary, conforme definiu o coronel David Galula as atividades subversivas desenvolvidas dentro da legalidade. Aliás, já nos anos 1980, William Colby (1920-1996), então diretor da CIA, declarou que muitas operações, antes conduzidas de forma encoberta [covert actions] pela CIA, poderiam doravante ser realizadas pelas ONGs (um terço das cem maiores estava baseado nos Estados Unidos), abertamente e sem questionamento.

Seguindo na mesma toada, como você avaliou os eventos de junho no Brasil e em que medida isto se conecta com as dificuldades vividas, não apenas no Brasil, pelos governos progressistas e de esquerda?

Desde o início, vi os eventos de junho com suspeita. O Brasil não está a sofrer grave crise econômica e social. As contas públicas não estão insolventes Não há risco de default, de um calote na dívida interna e externa. Pelo contrário. O balanço de pagamentos não está em crise. Entretanto, enquanto o governo passou a enfrentar enorme dificuldade para conter a ameaça inflacionária, ocorreu forte desvalorização do real frente ao dólar, provocada, em larga medida pela expectativa de mudança da política monetária norte-americana, e pelo fato de que o real se valorizara mais do que as outras moedas em 2008. No entanto, ao mesmo tempo em que o ataque especulativo aproveitava tais circunstâncias, ocorreram, simultaneamente, manifestações de protestos, chegando até mesmo à violência, em diversas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo. Os motivos existem, são muito antigos; são problemas antigos, de várias décadas, gerados, em parte, durante o regime militar, e agravados com o neoliberalismo, que incentivou ainda mais a privatização como, e.g., da saúde e educação, pelos governo de Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso. Causas reais, inegavelmente, havia. Porém, foram largamente ultrapassadas pela intensidade e continuidade das manifestações, que buscaram desmoralizar as instituições, os governos e o país, prejudicando sua economia e imagem no exterior. Se possivelmente elas foram (em parte) espontâneas, não se pode desconsiderar que houve e há uma tentativa de solapar a estabilidade e a força econômica, política e militar, sem recorrer ao uso da força, provocando violentas medidas, a serem denunciadas como truculência do governo. A divulgação de informações falsas ou verdadeiras, através da mídia nacional e internacional, teve como objetivo solapar a credibilidade e a confiança não somente no governo como no Brasil. Quem leu e conhece a doutrina que o general Collin Powel estabeleceu, em 1992, como chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas [The Military Strategy of the United States, US Government, Printing Office, ISBN 0-16-036125-7, 1992, p. 7], que os Estados Unidos, após o colapso da União Soviética, tratariam de preservar sua credible capability to forestall any potential adversary from competing militarily, impedindo a União Europeia de tornar-se potência militar, fora da Otan, a remilitarização do Japão e da Rússia, e desencorajando qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a ordem econômica e política internacionalmente instituída, deviam consistir tão somente em manter uma capacidade militar necessária para autodefesa, combater o narcotráfico e exercer atividades policiais. Os Estados Unidos empenham-se, naturalmente, em criar as maiores dificuldades para o Brasil na medida em que ele se encaminha para tornar-se uma potência global e forma com a China e Índia um grupo de resistência à sua full-fledged dominance.

Finalmente, você está lançando um novo livro: A segunda guerra fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio). Falemos dele.

Esse novo livro – A segunda guerra fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio) – aprofunda, desdobra e atualiza minha outra obra – Formação do império americano – que este ano foi lançada na China e, em 2011, em Cuba. Nele, tratei de demonstrar, com documentos e informações, procedentes das mais variadas fontes, que as chamadas “revoluções coloridas”, na Sérvia, Ucrânia, Georgia e em outras repúblicas da extinta União Soviética, bem como nos países da África do Norte e Oriente Médio – comemoradas como Primavera Árabe – não foram nem espontâneas, ainda que condições domésticas houvesse para que elas ocorressem, nem democráticas. O papel dos Estados Unidos, assim como da França e da Grã-Bretanha, foi fundamental na promoção da agitação e da subversão, por meio do envio de armas e de pessoal, direta ou indiretamente, através do Qatar e da Arábia Saudita. Além das intervenções da Otan, abertas, como no caso da Líbia, ou veladas, as organizações não governamentais (ONGs) e dissidentes ativistas treinados pela Middle East Partnership Initiative (MEPI), como parte da freedom agenda, constituíram uma das armas empregadas para promover a political warfare, mobilizando multidões, com o pretexto de fomentar o desenvolvimento da democracia, o que significava regime change, i.e., subverter governos e instalar regimes favoráveis aos investimentos e interesses estratégicos do cartel ultra-imperialista, formado pelos Estados Unidos e seus aliados da União Europeia, contrapondo-se ao advento da China e à recuperação da Rússia, sob a direção do presidente Vladimir Putin. Os brasileiros devem estar atentos para que a possibilidade de que os interesses imperiais também não tentem fragmentar o Brasil como parece ser o objetivo de redesenhar o Oriente Médio e, de certo modo, fragmentar partes da China (Xinjiang) e da Rússia (Tchetchênia e outras regiões). As ameaças existem, conquanto possam parecer remotas. Como várias vezes adverti, o perigo que representa uma grande potência, tecnologicamente superior, mas com enormes carências, sobretudo de energia, pode ser muito maior, quando ela está a perder a preeminência, e quer mantê-la, do que quando expande seu império. Ela respeita a lei internacional, senão entre as potências cujas forças se equilibram. Neste momento estou indignado com a armação que os Estados Unidos e os chamado rebeldes armaram para a intervenção na Síria. Crianças não constituem alvo militar. Crianças atacadas com gás tóxico só servem para efeito de propaganda contra o regime, através da exibição de vídeos pela mídia, ecoando e endossando as acusações da guerra psicológica. É preciso denunciar isto em alto e bom som. Pode usar minhas palavras. Trata-se de outra trágica encenação armada pelos salafista-al-Qa’ida-Estados Unidos e seus aliados ocidentais.

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Aniversário de 40 anos do golpe militar no chile divide forças políticas do país

Aniversário de 40 anos do golpe militar no Chile divide forças políticas do país

11 de setembro de 2013

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Monica Yanakiew, via Agência Brasil

Quarenta anos depois do golpe militar e em plena campanha para as eleições presidenciais de novembro, o Chile continua dividido. Dois atos, na segunda-feira, 9, marcaram o aniversário de 40 anos da derrubada do governo eleito de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, em movimento militar liderado pelo general Augusto Pinochet – que governou o país com mão de ferro durante 17 anos.

Um dos eventos, convocado pelo presidente Sebastián Piñera, o primeiro eleito pela centro-direita desde o retorno do país à democracia há mais de duas décadas, ocorreu no palácio presidencial. Outro, no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, encabeçado pela ex-presidenta Michelle Bachelet – candidata pela coalização de centro-esquerda Nova Maioria e grande favorita nas pesquisas de opinião.

Na cerimônia no Palácio La Moneda, Piñera condenou o sangrento golpe (na época apoiado por muitos simpatizantes e integrantes de seu governo), que resultou na queda e no suicídio de Salvador Allende – primeiro socialista eleito na América Latina, em meio à Guerra Fria. Durante o golpe de 1973, o próprio palácio presidencial foi bombardeado.

Piñera criticou o silêncio daqueles que sabiam das atrocidades sendo cometidas e que até hoje não se manifestaram. Mas, apesar de considerar as violações aos direitos humanos “injustificáveis”, ele disse que as responsabilidades pelos acontecimentos do passado precisam ser compartilhadas. “O governo da Unidade Popular [de Allende] reiteradamente rompeu a legalidade e o Estado de Direito no Chile”, disse Piñera, justificando a intervenção militar.

Horas antes, em ato no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, Michelle Bachelet descartou qualquer possibilidade de reconciliação sem que o Chile termine de investigar os crimes do passado e punir os culpados. “Não existe reconciliação que se construa diante da ausência da verdade, da justiça e do luto”, disse ela.

Segundo Bachelet – cuja família foi vítima da ditadura – “injustificáveis” são os argumentos da direita, de que os militares atuaram para colocar um fim à crise econômica e política que dividia o país. “Para dar continuidade à democracia, era necessário ter mais democracia, não um golpe de Estado”.

A polarização, acentuada pelo aniversário do golpe e pela campanha presidencial, tornou-se evidente nos dois atos. Nenhum dos outros quatro ex-presidentes que governaram o Chile desde 1990 aceitou o convite de Piñera para a cerimônia em La Moneda. Todos são da chamada Concertação – uma aliança de centro-esquerda que ficou no poder durante duas décadas consecutivas, e que este ano mudou de nome para Nova Maioria e incluiu, pela primeira vez, o Partido Comunista.

Os ex-presidentes Eduardo Frei e Ricardo Lagos optaram pelo ato convocado por Bachelet, no museu que ela inaugurou durante seu mandato presidencial.

Apenas três dos nove candidatos às eleições presidenciais estiveram presentes em La Moneda. Entre eles, a candidata de Piñera, Evelyn Matthei, da Aliança, formada pelos partidos conservadores Renovação Nacional (RN) e União Democrática Independente (UDI). Não é a primeira vez que os caminhos de Evelyn e Michelle se cruzam. Ambas são filhas de generais (a mais alta patente) da Forca Aérea chilena que eram amigos até o golpe de 1973.

Alberto Bachelet, pai de Michelle, foi assessor de Allende. Foi detido e torturado depois do golpe e morreu na cadeia. A mulher e a filha também foram levadas a campos de concentração, mas conseguiram sair do país como exiladas. Na época do golpe e da morte de Alberto Bachelet, Fernando Matthei estava em Londres com a família. Voltou para o Chile quando Michelle e a mãe já estavam na Europa e tornou-se membro da junta de governo de Pinochet, que ficou no poder até 1990.

No domingo, dia 8, milhares de chilenos saíram às ruas (como fazem todos os anos) para protestar contra o golpe, em marcha que foi reprimida pela polícia. “Existem ainda 1.300 processos abertos durante 40 anos, sem que saibamos onde estão os desaparecidos e mortos”, disse Alicia Lira, presidente da organização de familiares de políticos executados na ditadura.

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“Autocrítica” da Globo é alvo de ironia e sarcasmo nas redes sociais

4 de setembro de 2013

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Quase 50 anos depois, as Organizações Globo, em nome da “memória”, resolveram fazer uma autocrítica sobre o apoio que deram ao golpe civil-militar de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart. A “autocrítica” das Organizações Globo desatou uma onda de comentários irônicos e sarcásticos na noite desta segunda-feira nas redes sociais. Teria a Rede Globo cometido outros “equívocos” (como chama) nestes 50 anos?

Marco Aurélio Weissheimer, via Carta Maior

Quase 50 anos depois, as Organizações Globo, em nome da “memória”, resolveram fazer uma autocrítica sobre o apoio que deram ao golpe civil-militar de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart e implantou uma ditadura que matou, torturou, reprimiu, censurou e interrompeu a frágil experiência democrática brasileira. Os danos causados por essa intervenção truculenta e desastrosa contra a democracia ainda estão por ser contabilizados.

A memória resgatada pelas Organizações Globo é extremamente seletiva. Omite, por exemplo, os benefícios que suas empresas obtiveram pelo apoio ao golpe. Omite também os crimes acobertados por seus veículos de comunicação que, durante anos, venderam dia e noite (e a palavra “venderam” aí não é uma expressão retórica, mas sim literal) um suposto Brasil gigante que estaria sendo construído pela ditadura. Omite ainda como os interesses dos Estados Unidos (que numa curiosa ironia história revelam agora seu caráter invasivo autoritário sobre a soberania nacional brasileira) foram colocados acima de uma agenda de reformas voltada ao combate da pobreza e da desigualdade social no País. Para restaurar essa memória sonegada somente algo como uma Comissão da Verdade que resolvesse investigar a sério as relações da mídia com a ditadura. Mas essa é outra história.

A “autocrítica” das Organizações Globo desatou uma onda de comentários irônicos e sarcásticos na noite de segunda-feira, dia 2/9, nas redes sociais. Teria a Rede Globo cometido outros “equívocos” (como chama) nestes 50 anos?

No Twitter, no Facebook e em outros espaços várias sugestões e lembranças foram feitas neste sentido, indicando que, se a Globo realmente pretende fazer um resgate da memória de sua presença no Brasil nas últimas décadas, terá um longo trabalho pela frente e, talvez, novos editoriais a serem escritos.

O debate nas redes sociais na segunda-feira, dia 2/9, sugere que, assim como o texto da Globo afirma, não é de hoje a consciência deste e de inúmeros outros “equívocos” desta empresa de comunicação. Confira alguns comentários sobre o editorial da Globo e algumas sugestões sobre futuros editoriais:

Lucas Rohãn, jornalista: “Pedido de desculpas demorou 50 anos. Quero estar vivo em 2039, quando rolar o mesmo sobre a eleição do Collor.”

Cintia Barenho, bióloga: “Hoje aprendemos que admitir erro não tem nada a ver com pedir desculpas.”

Duda Backes, advogado: “Globo suspende novela das 21 horas até 2016. Motivo: JN vai utilizar horário para editoriais de desculpas. Amanhã: eleição do Collor.”

José Simão, humorista: “A Globo demorou 50 anos pra admitir um erro? Nem o Rubinho ia demorar tanto.”

Cynara Menezes, jornalista: “Mortos, torturados, desaparecidos. Como a Globo apoiou a ditadura militar no Brasil manipulando o povo. Sexta-feira no Globo Repórter.”

Luiz Greenhalgh, advogado: “50 anos depois, O Globo se desculpa pelo apoio ao golpe contra o presidente João Goulart. Em 2036, irá se desculpar pelo mal que faz hoje.”

Grouchomarxismo: “Globo pede desculpas dizendo que foi induzida ao erro pelo povo. Genial! Foi você, Merval?”

Cristóvão Feil, sociólogo: “Globo faz autocrítica por ter apoiado o golpe de 1964. Ok. Agora falta devolver os dividendos auferidos pelo apoio.”

Silvia Sales, jornalista: “Globo foi bem recompensada pelo apoio ao golpe, construiu um império midiático por conta das boas e generosas relações com os militares.”

Caio Tardelli, poeta: “A Globo apoiou o golpe por causa do povo? É mesmo? 69% das pessoas aprovavam o governo de Jango na época.”

Rogério Correia, deputado estadual de MG: “Autocrítica da Globo não é sincera! Recentemente apoiou a tentativa de golpe na Venezuela contra Chavez e o golpe no Paraguai.”

Laurez Cerqueira, jornalista: “Disseram que o editorial apoiando o golpe foi um erro, mas se esqueceram de dizer que receberam US$3,6 milhões do grupo Time Life para comprar equipamentos, montar tevê, rádio e jornal e fazer parte da estratégia de combate à esquerda no Brasil como parte da estratégia da Guerra Fria (ver livro A história secreta da Rede Globo, do jornalista Daniel Herz).”

Eduardo Guimarães, blogueiro: “Pela lógica, faltam 26 anos para Globo assumir erro da edição do debate Lula x Collor.”

Tarcísio Pequeno, professor de Filosofia: “A Globo não apoiou a ditadura, a Globo foi sócia da ditadura.”

Marcos Rolim: “Igreja Católica costuma pedir desculpas alguns séculos depois. A Globo é muito mais rápida, 49 anos.”

Ricardo Berzoini, deputado federal: “Esse arrependimento da Globo parece coisa de alcoólatra ou marido malandro. Promete que nunca mais vai acontecer, mas na primeira chance…”

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O Brasil de Pinochet

4 de setembro de 2013
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Ditador Pinochet.

Roberto Simon, via Agência Estado

O expediente no Itamaraty já havia terminado quando, às 20h30 de 13 de setembro de 1973, diplomatas chilenos foram recebidos na chancelaria esvaziada, em Brasília. O presidente Emílio Garrastazu Médici estava em São Paulo, de onde telefonara dando ordens expressas para que o Brasil se tornasse o primeiro país a reconhecer a junta militar que derrubara o governo de Salvador Allende. Um avião com “20 toneladas de medicamentos” estava a caminho de Santiago.

“É certo dizer que o novo governo do Chile encontrará no Brasil um poderoso aliado”, escreveu, emocionado, no primeiro telegrama à junta militar, o encarregado de negócios chileno em Brasília, Rolando Stein – o embaixador de Allende no País, o jurista Raul Rettig, que décadas depois chefiaria a comissão da verdade chilena, havia renunciado naquela manhã. Stein acertou na mosca.

Com base em arquivos brasileiros, já se sabia que o governo Médici deu amplo apoio aos conspiradores chilenos antes, durante e depois do golpe que este mês completa 40 anos. Empresários brasileiros enviaram dinheiro a grupos de direita no Chile, o embaixador em Santiago, Antônio Cândido da Câmara Canto, atuou como pôde para minar o governo Allende e, dias após a queda dos socialistas, agentes brasileiros foram enviados ao Estádio Nacional e a outros centros de repressão para prestar “consultoria” a colegas chilenos.

O Estado, porém, teve acesso a centenas de telegramas diplomáticos secretos do Chile recentemente liberados – e inéditos no Brasil – que revelam novas informações sobre o grau e as formas de participação do governo Médici na derrubada do governo da Unidade Popular (UP).

Uma das revelações mais impressionantes dos documentos chilenos é que, logo após chegar ao poder, o governo Allende recebeu informações precisas sobre as atividades da ditadura brasileira contra o Chile – incluindo planos para derrubar à força a UP. Segundo um telegrama “estritamente confidencial”, um jornalista chileno vinculado ao ex-presidente Jorge Alessandri, de direita, alertou o embaixador de Allende em Brasília que havia sido procurado “por um general brasileiro amigo”. O militar lhe propôs ajuda para “organizar no Chile um movimento de resistência armada […], estruturado em forma de guerrilha, […] contra o ‘perigo vermelho’.”

No mês seguinte, a embaixada recebeu novas e mais detalhadas informações sobre o plano de insurgência no Chile. Desta vez, porém, o alerta partiu de um informante altamente improvável: um oficial brasileiro, “com ideias políticas de esquerda”, vinculado ao serviço de inteligência do Exército.

Por meio de um intermediário, o militar fez chegar a um secretário da embaixada chilena a informação de que, dentro do Ministério do Exército, no Rio de Janeiro, funcionava uma sala de operações, com maquetes da Cordilheira dos Andes e mapas, para estudar e planejar uma guerrilha anticomunista no Chile. Brasileiros participariam apenas como instrutores e os combates seriam travados por civis chilenos. Mais: como parte dos preparativos, o Exército do Brasil teria enviado “diversos agentes secretos, que entraram no Chile como turistas”.

Um cidadão chileno que viva em São Paulo “e merece toda confiança” também afirmou à missão diplomática que um “corpo do Exército nessa cidade estaria procurando voluntários chilenos para empreender uma aventura bélica” no Chile. A articulação estaria sendo feita com ajuda de integrantes da Fiducia – equivalente chilena à Tradição Família e Propriedade (TFP) – que haviam se mudado para São Paulo.

Embaixador suíço

O militar brasileiro, cuja identidade não é revelada nos documentos, passou outro recado importante ao governo Allende. Entre os 70 “subversivos” brasileiros que foram ao Chile no ano anterior, trocados pelo embaixador suíço, Giovanni Bucher, havia dois espiões do Exército brasileiro. A governo Médici havia deliberadamente atrasado a negociação para libertar os presos políticos com o objetivo de colocar os infiltrados em território chileno. Lá, eles deveriam coletar informações e se comportar como “agentes provocadores”.

À época, cerca de 5 mil exilados brasileiros viviam no Chile, onde conduziam intensas atividades de denúncia à ditadura. Os documentos chilenos mostram que o embaixador do Brasil em Santiago, Antônio Cândido da Câmara Canto, várias vezes apresentou protestos formais ao governo em razão de artigos e declarações de opositores brasileiros à imprensa local. Vários brasileiros que estiveram no Chile, consultados pelo Estado, disseram que muito provavelmente eles eram monitorados por meio de espiões.

O embaixador de Allende no Brasil chama atenção para o caso de duas senhoras brasileiras, parentes de exilados, que foram presas pela Aeronáutica no Aeroporto do Galeão, no Rio, ao desembarcarem do Chile, no dia 19 de janeiro daquele ano. Elas traziam cartas de brasileiros exilados, incluindo uma mensagem de Almino Afonso, ex-ministro do governo João Goulart, ao deputado Rubens Paiva. O embaixador chileno em Brasília acreditava que elas haviam sido delatas por informantes da ditadura entre os brasileiros em Santiago. No dia seguinte ao caso no Galeão, Rubens Paiva foi preso em sua casa por agentes que se diziam da Aeronáutica.


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