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Por que a Globo é contra o governo venezuelano

25 de fevereiro de 2014

Hugo_Chavez85

Paulo Nogueira, via DCM

Noto, nas redes sociais, revolta contra a maneira como a Globo vem cobrindo a crise na Venezuela. A Globo ataca, ataca e ainda ataca o governo eleito.

Não existe razão para surpresa. Inimaginável seria a Globo apoiar qualquer tipo de causa popular. O problema começou com Chavez. Chavez e Globo tinham um história de beligerância explícita. Ambos defendem interesses antagônicos.

Se estivéssemos na França de 1789, a Globo defenderia a Bastilha e Chavez seria um jacobino. Em vez de recitar Bolívar, ele repetiria Rousseau.

Chavez cometeu um crime mortal para a Globo: não renovou a concessão de uma emissora que tramara sua queda. Veja: um grupo empresarial usara algo que ganhara do Estado – a concessão para um canal de tevê – para tentar derrubar o presidente que o povo elegera. Chavez fez o que tinha que fazer. E o que ele fez é o maior pesadelo das Organizações Globo: a ruptura da concessão.

Há uma cena clássica que registra a hostilidade entre Chavez e a Globo. Foi, felizmente, registrada pelas câmaras. É um documento histórico. Você pode vê-la no pé deste artigo.

Chavez está dando uma coletiva, e um repórter ganha a palavra para uma pergunta. É um brasileiro, e trabalha na Globo. Fala num espanhol decente, e depois de se apresentar interroga Chavez sobre supostas agressões à liberdade de expressão. Toca, especificamente, numa multa aplicada a um jornalista pela justiça venezuelana.

Chavez ouve pacientemente. No meio da longa questão, ele indaga se o jornalista já concluiu a pergunta. E depois diz: “Sei que você veio aqui com uma missão e, se não a cumprir, vai ser demitido. Não adianta eu sugerir a você que visite determinados lugares ou fale com certas pessoas, porque você vai ter que fazer o que esperam que você faça.”

Quem conhece os bastidores do jornalismo sabe que quando um repórter da Globo vai para a Venezuela a pauta já está pronta. É só preencher os brancos. Não existe uma genuína investigação. A condenação da reportagem já está estabelecida antes que a pauta seja passada ao repórter.

Lamento se isso desilude os ingênuos que acreditam em objetividade jornalística brasileira, mas a vida é o que é. Na BBC, o repórter poderia de fato narrar o que viu. Na Globo, vai confirmar o que o seu chefe lhe disse. É uma viagem, a rigor, inútil: serve apenas para chancelar, aspas, a paulada que será dada.

“Como cidadão latino-americano, você é bem-vindo”, diz Chavez ao repórter da Globo. “Como representante da Globo, não.”

Chavez lembrou coisas óbvias: o quanto a Globo esteve envolvida em coisas nocivas ao povo brasileiro, como a derrubada de João Goulart e a instalação de uma ditadura militar em 1964.

Essa ditadura, patrocinada pela Globo, tornou o Brasil um dos campeões mundiais em iniquidade social. Conquistas trabalhistas foram pilhadas, como a estabilidade no emprego, e os trabalhadores ficaram impedidos de reagir porque foi proibida pelos ditadores sua única arma – a greve.

Não vou falar na destruição do ensino público de qualidade pela ditadura, uma obra que ceifou uma das mais eficientes escadas de mobilidade social. Também não vou falar nas torturas e assassinatos dos que se insurgiram contra o golpe.

Chavez, na coletiva, acusou a Globo de servir aos interesses norte-americanos. Aí tenho para mim que ele errou parcialmente.

A Globo, ao longo de sua história, colocou sempre à frente não os interesses norte-americanos, mas os seus próprios, confundidos, na retórica, com o interesse público, aspas.

Tem sido bem-sucedida nisso.

O Brasil tem milhões de favelados, milhões de pessoas atiradas na pobreza porque lhes foi negado ensino digno, milhões de crianças nascidas e crescidas sem coisas como água encanada.

Mas a família Marinho, antes com Roberto Marinho e agora com seus três filhos, está no topo da lista de bilionários do Brasil.

Roberto Marinho se dizia “condenado ao sucesso”. O que ele não disse é que para que isso ocorresse uma quantidade vergonhosa de brasileiros seria condenada à miséria.

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25 de fevereiro de 2014
Venezuela_Leopoldo_Lopez05

Envolvido no golpe de 2002 e representante da elite de seu país, Leopoldo Lopez representa o que há de mais à direita no espectro político venezuelano. Foto: Renato Araújo/EBC.

Via DemocracyNow e lido na Carta Maior em 20/2/2014

Os protestos na Venezuela têm sido apresentados pela mídia comercial como manifestações populares massivas contra o governo Maduro; no entanto, não têm sido discutidos os verdadeiros jogos políticos que elas escondem. Transcrevemos abaixo trecho da entrevista do professor George Ciccariello-Maher*, que dá um panorama da história recente venezuelana e das figuras envolvidas nas tentativas de deposição do governo Maduro.

DemocracyNow: O que está acontecendo na Venezuela hoje?
George Ciccariello-Maher: Está acontecendo um grande evento, que será uma tarefa crucial para o governo de Maduro. É nossa obrigação que analisemos a situação dentro de seu contexto histórico, para entendermos quem está agindo. Se acompanhamos o Twitter, observamos que há uma tendência: neste momento “pós-occupy” e sucessor à Primavera Árabe, toda vez que vemos protestos nas ruas, nós começamos a retuitá-los e a sentir uma simpatia pela causa, mesmo sem saber qual é o contexto dela. Uma vez que analisamos o contexto venezuelano, o que vemos é mais uma tentativa, dentro de uma longa história de tentativas, de depor um governo democraticamente eleito, desta vez se aproveitando de uma mobilização estudantil contra a insegurança e as dificuldades econômicas.

DemocracyNow: George Ciccariello, quem é Leopoldo Lopez? O Washington Post o descreve como um homem de 42 anos, de esquerda, que estudou em Harvard. O que você sabe da sua história?
George Ciccariello-Maher: Dizê-lo de esquerda seria forçar a barra. Leopoldo Lopez representa o que há de mais à direita no espectro político venezuelano. Ele foi educado nos Estados Unidos desde o ensino médio até sua graduação na Harvard Kennedy, ele descende do primeiro presidente venezuelano e dizem que até mesmo do próprio Simon Bolívar. Em outras palavras, ele é o representante desta classe política tradicional que deixou o poder após a Revolução Bolivariana. Em termos de sua história política, seu partido, o Primera Justicia, foi formado por uma intersecção entre corrupção e intervenção norte-americana, corrupção por sua mãe, ao arrecadar fundo fraudulentos de uma companhia de petróleo venezuelana para este novo partido, e pelo outro lado fundos do NED, do Usaid, e de instituições do governo norte-americano. Assim que Chavez chegou ao poder, os partidos políticos tradicionais entraram em colapso, e tanto a oposição interna quanto o governo do EUA precisavam criar algum outro veículo para fazer oposição ao governo Chavez, e este partido de Leopoldo Lopez é um destes veículos. Neste momento, até mesmo a liderança anterior do partido, Henrique Caprilles, que foi o candidato para as eleições presidenciais, percebeu que a linha de tomar ações nas ruas na tentativa de depor um governo democrático simplesmente não vai funcionar. No entanto, Leopoldo Lopez e outros líderes, como Maria Corina Machado e Antônio Ledesma, continuam tentando depor o governo.

DemocracyNow: O presidente Maduro expulsou três diplomatas norte-americanos, alegando que eles estavam envolvidos no apoio à oposição. Você poderia nos falar sobre isso?
George Ciccariello-Maher: O governo Obama continua a financiar esta oposição, até mesmo mais abertamente do que Bush fazia: Obama requisitou fundos para estes grupos opositores, mesmo que eles estivessem envolvidos em atividades antidemocráticas no passado e apesar do fato de Lopez e outros estarem envolvidos no golpe de 2002 e terem participado de ações violentas na época. Dizer que Lopez hoje é um representante da democracia só pode ser uma piada. Há uma questão interessante aqui, a de que o governo venezuelano, se ouvimos as palavras da esposa de Leopoldo Lopez em declarações recentes, agiu para proteger a vida de Lopez, que estava sob ameaças. A maneira pela qual Lopez foi preso foi muito generosa, muito mais do que Lopez foi no passado, quando liderou uma caça às bruxas contra os ministros chavistas que foram espancados em público no caminho da prisão. Lopez pode até mesmo falar em um megafone no dia em que foi preso. Podemos nos perguntar: por que o governo de Maduro está sendo tão gentil com ele? Na verdade, preferem que ele seja o líder da oposição porque ele simplesmente não seria eleito, pois ele representa a nata das elites venezuelanas.

DemocracyNow: O que vemos na mídia comercial é uma Venezuela fora de controle, com altos índices de violência, escassez de comida e inflação altíssima. Qual é sua avaliação da situação do país hoje?
George Ciccariello-Maher: Para dizer claramente, a escassez de comida tem sido sim um problema, e a segurança pública é um problema gigantesco na Venezuela. Ambos são problemas profundos que tem a ver com falhas do governo para tratá-los, mas também relação com a ação de vários outros atores. No caso da criminalidade, a infiltração de máfias tem sido muito grande nos últimos anos, e no caso da escassez, o papel de capitalistas que estocam bens de consumo e a especulação da moeda tem sido uma força destrutiva que nos lembra muito o Chile de Allende, onde se tentou destruir a economia como uma preparação para o golpe. Mas, na verdade, este dois fatores que os estudantes tem protestado contra não explicam o porquê destes protestos estarem emergindo, pois os índices de criminalidade estão baixando e a escassez de comida não está nem de longe tão ruim quanto estava há um ano. O que explica o que está ocorrendo agora é que, depois das eleições de dezembro, este foi o momento em que a direita disse “já chega, estamos cansados de eleições, nós vamos às ruas tentar derrubar este governo”, mas neste meio tempo, os movimentos revolucionários venezuelanos, as organizações populares, que são no fim das contas a base deste governo, que nunca teve apenas como base Chavez ou Maduro enquanto indivíduos, mas sim milhões e milhões de venezuelanos que estão construindo uma democracia mais profunda e mais direta, construindo movimentos sociais, organizações, conselhos de trabalhadores, conselhos estudantis, conselhos de camponeses, estas pessoas estão continuando a luta, estão defendendo o governo Maduro, e estes protestos que estão ocorrendo principalmente nas regiões mais ricas de Caracas, a Beverly Hills de Caracas, não as fará desistir desta tarefa.

DemocracyNow: E o papel dos EUA?
George Ciccariello-Maher: Os EUA continuam a financiar a oposição. Acho que no futuro, como costuma acontecer, nós teremos acesso às informações do grau de envolvimento dos EUA no financiamento à oposição venezuelana. Na realidade, esses protestos são um cálculo errado por parte da oposição, não parece que os EUA teriam dito à oposição para tomarem este caminho, pois ele não parece ser muito estratégico. Sabemos que esta é uma oposição em contato direto com a embaixada norte-americana, que recebe fundos do governo dos EUA, mas este é o movimento de uma oposição venezuelana autônoma que vai, como parece, novamente desmoronar.

Você pode conferir o vídeo da entrevista completa no site do DemocracyNow.

George Ciccariello-Maher é professor da Drextel University e autor do livro We created Chavez: A People’s history of the venezuelan revolution (Nós criamos Chavez: Uma história do povo da revolução venezuelana).

Tradução: Roberto Brilhante

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24 de fevereiro de 2014

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Natalia Viana e Luiza Bodenmuller, via Agência Pública

Documento secreto do WikiLeaks detalha como o embaixador William Brownfield (foto), hoje secretário-assistente do Departamento de Estado, planejava acabar com o chavismo

Após o fracasso do golpe contra Hugo Chavez em 2002, a embaixada norte-americana em Caracas resolveu tomar para si a tarefa de reorganizar a oposição venezuelana, apostando em uma estratégia de longo prazo que minaria o poder do governo. Em agosto de 2004, mesmo mês do referendo revocatório promovido pela oposição com amplo apoio da missão norte-americana, o texano William Brownfield chegou a Caracas, nomeado por George W. Bush, para assumir o posto de embaixador no país. Pragmático e sucinto, William Brownfield elaborou um plano de 5 pontos para acabar com o chavismo em médio prazo, como revela um documento do WikiLeaks analisado pela Agência Pública.

O documento secreto, enviado por Brownfield a Washington em 9 de novembro de 2006, relembra as diretrizes traçadas dois anos antes. “O foco da estratégia é: 1) Fortalecer instituições democráticas, 2) Infiltrar-se na base política de Chavez, 3) Dividir o chavismo, 4) Proteger negócios vitais para os EUA, e 5) Isolar Chavez internacionalmente”, escreveu Brownfield, hoje secretário antinarcóticos do Departamento de Estado – órgão que cuida do treinamento de forças policiais estrangeiras pelos EUA, incluindo em dezenas de países latino-americanos.

Entre 2004 e 2006, a Usaid realizou diversas ações para levar adiante a estratégia divisada por Brownfield, doando nada menos de US$15 milhões a mais de 300 organizações da sociedade civil. A Usaid, através do seu Escritório de Iniciativas de Transição (OTI) – criado dois meses depois do fracassado golpe – deu assistência técnica e capacitação às organizações e colocou-as em contato com movimentos internacionais. Além disso, explica o documento, “desde a chegada da OTI foram formadas 39 organizações com foco em advocacy (convencimento); muitas dessas organizações são resultado direto dos programas e financiamentos da OTI”.

Um dos principais objetivos da Usaid era levar casos de violações de direitos humanos para a corte interamericana de Direitos Humanos com o objetivo de obter condenações e minar a credibilidade internacional do governo venezuelano. Foi o que fez, segundo o relato do ex-embaixador, o Observatório das Prisões Venezuelanas, que conseguiu que a Corte emitisse uma decisão requerendo medidas especiais para resolver as violações de direitos humanos na prisão “La Pica”, no leste do país. Outra organização, a “Human Rights Lawyers Network in Bolivar State” (rede de advogados de direitos humanos no estado de Bolívar), apresentou à Corte Internacional um caso de massacre de 12 mineiros pelo exército Venezuelano no estado de Bolívar. O grupo foi criado, segundo Brownfield, “a partir do programa da Freedom House, e um financiamento da DAI distribui pequenas bolsas no programa”.

A empresa DAI – Development Alternatives Inc. – foi de 2004 a 2009 a principal gerente da verba da Usaid no país, tendo distribuído milhões de dólares a diversas organizações a partir da estratégia do governo norte-americano. (Clique aqui para ler mais sobre a DAI)

Ela desembolsou, por exemplo, US$726 mil em 22 bolsas para organizações de direitos humanos, segundo o documento do WikiLeaks. Também ajudou a criar o Centro de Direitos Humanos da Universidade Central da Venezuela. “Eles têm tido sucesso em chamar a atenção para o Direito de Cooperação Internacional e à situação dos direitos humanos na Venezuela, como uma voz nacional e internacional”, explica o texano Brownfield no despacho diplomático.

Outras áreas nas quais financiamento para ONGs ajudaria a concretizar a estratégia norte-americana incluíam tentativas de neutralizar o “mecanismo de controle Chavista”, que utiliza “vocabulário democrático” para apoiar a ideologia revolucionária bolivariana, nas palavras do diplomata. “A OTI tem lutado contra isso através de um programa de educação cívica chamado ‘Democracia entre nós’, cujo princípio era ensinar ao povo venezuelano o que, de fato, significava democracia. Programas educacionais dirigidos, como tolerância política, participação e direitos humanos já atingiram mais de 600 mil pessoas”, diz o documento.

Dividindo o chavismo

Em seguida, o documento detalha as estratégias para “dividir o chavismo”, baseadas na concepção de que Chavez tentava “polarizar a sociedade venezuelana usando uma retórica de ódio e violência”. O remédio, na cabeça de Brownfield, seria dar auxílio a ONGs locais que trabalham em “fortalezas chavistas” e com os “líderes chavistas” para “contra-atacar a retórica” e “promover alianças”. Os esforços da Usaid neste sentido custaram US$1,1 milhão para atingir 238 mil pessoas em mais de 3 mil fóruns, workshops e sessões de treinamento, “transmitindo valores alternativos e dando oportunidade a ativistas de oposição de interagirem com chavistas, obtendo o desejado efeito de tirá-los lentamente do chavismo”.

Exemplos são o grupo “Visor Participativo” composto por 34 ONGs formadas e supervisionadas pela OTI, para trabalhar no fortalecimento das municipalidades. “Enquanto Chavez tenta recentralizar o país, a OTI, através do Visor, está apoiando a descentralização”, escreve Brownfield.

Outra iniciativa, a custo superior a US$1,2 milhão, promoveu a criação de 54 projetos sociais em toda a Venezuela “permitindo visitas do Embaixador a áreas pobres do país e demonstrando a preocupação do governo dos EUA com o povo venezuelano”, detalha Brownfield. “Esse programa confunde os bolivarianos e atrasa a tentativa de Chavez usar os EUA como um ‘inimigo unificador’”.

Com o objetivo de “isolar Chavez internacionalmente”, o embaixador gaba-se de que a Usaid, através das ONG norte-americana Freedom House, financiou viagens de membros de organizações de direitos humanos da Venezuela ao México, Guatemala, Peru, Chile, Argentina, Costa Rica e Washington. “Além disso, o DAI trouxe dezenas de líderes internacionais à Venezuela e também professores universitários, membros de ONGs e líderes políticos para participarem de workshops e seminários, para que eles voltassem aos seus países de origem entendendo melhor a realidade da Venezuela, tornando-se fortes aliados da oposição venezuelana”.

Brownfield termina o documento, escrito em 2006, com um alerta: “Chavez deve vencer a eleição presidencial de 3 de dezembro e a OTI espera que a atmosfera para o trabalho na Venezuela se torne mais complicada”. De fato, o embaixador saiu do país no ano seguinte, assumindo o mesmo posto na Colômbia antes de ser designado pelo governo Obama para cuidar de cooperação policial com outros países.

Antes de Brownfield assumir a política dos EUA para a Venezuela o escritório de Iniciativas de Transição (OTI) focava sua atuação no fortalecimento dos partidos políticos de oposição – como mostra outro documento do WikiLeaks, de 13 de julho de 2004 – incluindo um projeto de US$550 mil destinado a promover consultorias de especialistas latino-americanos em liderança política e estratégia aos partidos, e um projeto de US$450 mil com o International Republican Institute (IRI) – do Partido Republicano – para treinar os partidos de oposição a “delinear, planejar e executar campanhas eleitorais” em “escolas de treinamento de campanha”.

Em 2010, sob crescente pressão do governo venezuelano, o escritório da OTI no país foi fechado, e suas funções foram transferidas para o escritório para América Latina e Caribe da Usaid.

Clique aqui para ler os documentos.

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24 de fevereiro de 2014
Ucrania03_Venezuela

Em Kiev e em Caracas não há “vândalos”, segundo a Folha.

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

Rodrigo Vianna, em seu blog O Escrevinhador, faz uma análise interessante da cobertura da Folha sobre a violenta crise política na Ucrânia. Eu acrescento alguns comentários. É um bocado assustador constatar que o repórter da Folha não faz a pergunta principal: quem financia a oposição?

Ele vê um sujeito passar o dia inteiro fabricando coquetéis molotov, como se isso fosse muito normal. Nem o repórter nem a Folha buscam fazer qualquer análise sobre isso, o que me parece muito estranho. Nem falo do custo em si dos coquetéis, e sim da mão-de-obra e do planejamento.

A Ucrânia se tornou mais um centro de experimentação de golpes fabricados à distância, com ajuda de redes sociais e, obviamente, muito dinheiro.

Agentes políticos da Europa e dos EUA, talvez com a complacência dos governos (ou talvez mesmo com a participação deles), estão patrocinando o golpe na Ucrânia com objetivo de afastar o país da Rússia. A Ucrânia é uma peça-chave no grande jogo energético jogado entre Ásia, Rússia e Europa.

Rodrigo Vianna lembra, contudo, que essa guerra, hoje, é jogada principalmente na mídia, em toda parte. Conforme os apoios vão se firmando entre os grupos políticos, consegue-se mais recursos, publicidade e negócios. E qual é o país que exerce a hegemonia absoluta sobre as famosas “redes sociais”?

Temos que tomar muito cuidado. Agentes poderosos estão se aproveitando do ambiente anárquico das redes para recriar novos impérios virtuais, e que aliás nem são tão virtuais assim.

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Ucrânia e Venezuela: Lutar com palavras: não há vândalos em Caracas ou Kiev, só em São Paulo

“Lutar com palavras é a luta mais vã.
No entanto lutamos mal rompe a manhã.”
Drummond

Rodrigo Vianna, em seu blog

Não se trata de poesia. Mas de política. A edição da Folha de sexta-feira, dia 21, é mais uma demonstração de que a batalha nas ruas de Kiev ou Caracas não é feita só de coquetéis molotov, bombas e fuzis. A batalha se dá na mídia, na tevê, na internet, nas páginas envelhecidas dos jornais. São Paulo, Caracas, Kiev, Moscou e Washington. A batalha é uma só.

Reparemos bem. Ao lado, temos a primeira página do jornal conservador paulistano – o mesmo que apoiou o golpe de 64 e emprestou seus carros para transporte de presos durante a ditadura militar. Na capa da Folha, ucranianos escalam uma montanha de entulho no centro de Kiev, e a legenda avisa: “Manifestantes antigoverno usam pneus e entulho para montar barricadas…” Logo abaixo, uma chamada sobre reintegração de posse em São Paulo: “Em SP, invasores destroem imóveis do Minha Casa”. Numa página interna, o jornal informa que esse “invasores resistiram e, até a noite, praticavam atos de vandalismo”. (página C-1)

Ucranianos não praticam “vandalismo”. São tratados de forma heroica. Ainda que se saiba que parte dos manifestantes em Kiev tem um discurso racista, próximo do nazismo. Brasileiros são “vândalos”. Ucranianos são “manifestantes”.

Mas sigamos adiante. Nas páginas internas, a Folha traz vários textos do enviado especial a Kiev. Num deles, o repórter mostra uma pequena fábrica para produção de coquetéis molotov, dentro do Metrô de Kiev. O cidadão que produz as bombas é descrito assim: “Sem afiliação a partidos ou uma proposta ideológica clara, o cidadão diz ter sido atraído pela praça e pelas manifestações a partir da ideia de que é necessário mudar o sistema político na Ucrânia.”

Mudar o sistema político. Hum. Não fica claro se o cidadão quer uma ditadura. A Ucrânia não é uma democracia? O governo não foi eleito pela maioria? Hum… “Sem afiliação a partidos” – essa parece ser a chave para legitimar tudo nos dias que correm. A CIA, os EUA, a CNN, a Folha não tem filiação a partidos. Não. Nem o nobre manifestante de Kiev.

Ao lado da reportagem sobre os molotov, um texto opinativo assinado por Igor Gielow (sobrenome “eslavo”, muito bom! Isso dá credibilidade ao comentário). Basicamente, Gielow diz que a crise na Ucrânia é “reflexo da estratégia de Putin para a região”. Ele não está errado. Pena que esqueça de contar uma parte da história. “O importante não é o que eu publico, mas o que deixo de publicar”, dizia Roberto Marinho.

Gielow e a Folha ensinam: Putin é um líder malvado, que pretende manter na Ucrânia “a esfera de poder dos tempos imperiais e soviéticos”. Aprendam: só a Rússia tem interesses imperiais na Ucrânia. Do outro lado, há cidadãos sem afiliação partidária, lutando contra um insano governo pró-Moscou. Os EUA e a Europa não têm interesses na Ucrânia. Só Putin. A culpa é dos russos.

Na Folha luta-se com as palavras muito antes da manhã começar. Luta-se com as palavras em Kiev, em São Paulo, Moscou. Washington fica invisível. E toda a estratégia passa por aí. O poder imperial só existe por parte da Rússia. Washington não tem qualquer projeto imperial: nem na Ucrânia, nem na Síria, nem tampouco na América Latina…

Falando nisso, a cobertura sobre a Venezuela é também grandiosa no diário da família Frias. Declarações de Maduro aparecem entre aspas. Velho truque jornalístico para desqualificar, colocar no gueto da suspeição, qualquer fala dos chavistas. Segundo a Folha, o governo de Maduro afirma que o movimento (golpista? Isso a Folha não diz) é uma armação de “forças de ultradireita da Venezuela e de Miami”. No texto original a expressão está assim, entre aspas. Por que? Para dar a impressão de que Maduro é um lunático, e que não há forças de ultradireita lutando nas ruas. Não. Há só “estudantes” e “manifestantes” (e agora sou eu que coloco entre aspas).

A legenda da foto ao lado (também publicada pelo jornal conservador paulistano) diz: “Estudantes queimam lixo em atos contra Nicolas Maduro”. Primeiro, como se sabe que o sujeito é um “estudante”? Depois, reparem que queimar lixo na Venezuela é “ato contra Maduro”. Queimar prédios em desapropriação, em São Paulo, vira “vandalismo”.

Em Caracas não há “vândalos”.

Ao lado da foto, um texto assinado por repórter (que está em São Paulo!) narra roubo de equipamento da CNN em Caracas: “O ataque à CNN se assemelha a inúmeros relatos de motociclistas intimidando manifestantes, com tolerância e até respaldo das forças de segurança do governo”. O roubo ocorreu em manifestação da oposição. Mas o roubo certamente é coisa dos chavistas. Claro. Nem é preciso ir até Caracas pra saber (registro a bem da verdade factual que o repórter – a quem conheço, ótima pessoa – foi correspondente em Caracas).

No mesmo texto (assinado, de São Paulo) os grupos que defendem o governo são chamados de “milícias”. Ok. Já estive em Caracas cinco ou seis vezes. E há grupos chavistas que se assemelham mesmo a milícias. Mas do lado da oposição há o que? Não há milícias? A turma de Leopoldo, que deu golpe em 2002, é formada por cidadãos inocentes. E só.

Quem lê a Folha aprende que, em Caracas, há de um lado “milícias chavistas”. De outro, só “estudantes” e “manifestantes”.

Não há neutralidade no uso das palavras. Nunca houve. Nunca haverá. E quanto mais agudas as crises, mais isso fica claro. Há escolhas. A Folha faz as suas. A CNN, a Telesur, a VTV – ou esse blogueiro. A diferença é que uns assumem que têm lado. Outros fingem que estão “a serviço do Brasil”.

Lutemos, com as palavras. Não há saída. O outro lado luta todos os dias, todas horas.

“Palavra, palavra
(Digo exasperado),
Se me desafias,
Aceito o combate”
Drummond

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24 de fevereiro de 2014

Via Jornalismo Wando

“6 mil guerrilheiros cubanos chegaram no Brasil
disfarçados de médicos!”

“Somente em uma ponte em Cuba foram gastos 3 bilhões.
Tudo pago pelos brasileiros!”

Essas informações estão espalhadas pelas redes sociais e foram confirmadas por Maycon Freitas, um dos líderes das revoltas de junho, em entrevista a este blog. Munido da credibilidade adquirida durante a “Primavera Brasileira”, Maycon tem muito a oferecer para os manifestantes venezuelanos. Foi a partir de suas postagens no Facebook que passei a prestar atenção nos últimos acontecimentos.

Maycon está preocupadíssimo com nossos vizinhos e tem compartilhado freneticamente qualquer notícia sobre aquele país. Além de publicar um tuíte falso em que Michele Bachelet repreende Maduro, o revolucionário da Veja também anunciou a importação de 100 mil policiais comunistas chineses que viriam pra defender a ditadura venezuelana. Mas a luta do guerreiro não para aí. Maycon repercute também uma grave denúncia contra o PT e a imprensa brasileira:

PT paga 10 bilhões para canais de televisão não divulgarem genocídio na Venezuela

Ou seja, depois de torrar 3 bilhões numa ponte cravejada de ouros e diamantes em Cuba, Dilma agora comprou toda a mídia para defender o regime bolivariano e abafar a matança de Maduro.

“Mas, pera lá! GENOCÍDIO, Wando? A informação oficial é de que apenas 3 pessoas morreram e 23 ficaram feridas!”

Bom, mas isso é para quem se informa por meio de uma mídia que se vendeu ao abominável foro de São Paulo. A verdade é outra. Informações que chegam diretamente da Venezuela pela internet confirmam que mais de 3 mil pessoas foram assassinadas desde o início das manifestações. Graças ao poder das redes sociais, não dependemos mais da grande mídia pra espalhar nossas próprias mentiras divulgar a verdade dos fatos.

A força da internet é tão grande que muitas vezes acaba rompendo com o silêncio na imprensa. César Filho, ex-namorado de Angélica e atual jornalista do SBT, furou o bloqueio midiático internacional e colocou o tema genocídio venezuelano em pauta. Vejamos o tuíte que ele compartilhou com seu público:

Venezuela_Manifestacao23_Cesar_Filho_Tuite

Eu, com meu jornalismo-sapeca, atualizei o colega de trabalho com informações ainda mais fresquinhas e estapafúrdias. E não é que nosso garoto compartilhou?

Venezuela_Manifestacao24_Jornalismo_WandoAgora sim seus leitores estão atualizados. Graças à coragem, ao faro jornalístico e ao rigor apurativo desse experiente jornalista.

Se aqui a coisa está assim, imagine na Venezuela. Uma famosa atriz, Amanda Gutierrez, uma espécie de Regina Duarte venezuelana, também aderiu à força das redes sociais e divulgou a imagem de um jovem sendo violentamente estuprado pela ditadura de Maduro:

Venezuela_Manifestacao25

Sim, querida. Seu dever é compartilhar, claro. Pra que checar a informação antes de dividir com mais de 227 mil fãs preocupados com o futuro de um país em crise?

O único problema é que esses “estupros” já haviam sido registrados em um pornô norte-americano há muitos anos:

Venezuela_Manifestacao26

Essas coisas acontecem, querida! Uma atriz não é obrigada a checar informações. Podia ser pior. Imagine se você fosse uma jornalista do SBT!

As possibilidades de se viralizar uma notícia – qualquer notícia! – são infinitas e isso é o que torna as redes sociais ainda mais sedutoras e poderosas. Basta fazer uma montagem bacaninha e enviar para pessoas-chave como César Filho e Amanda Gutierrez e pronto! Quem vai duvidar de mentiras tão bem acabadas como essas? Uma mentira contada por porta-vozes fofos vale mais do que mil verdades.

Mas essa é uma pequena amostra do que essa fantástica fábrica de verdades é capaz de produzir. As montagens e as farsas são tantas que os mais crédulos já estão equiparando Maduro a Hitler.

Esse vale-tudo promovido pela oposição venezuelana tem atropelado o mundo como uma avalanche. Tanto que internautas brasileiros já falam tranquilamente sobre os estupros e genocídio na Venezuela. Vale até bater na mãe, tirar foto e divulgar como mais uma ação violenta do regime bolivariano. O importante é postar, curtir e compartilhar.

Algumas montagens são tão estapafúrdias que fazem a imagem do “estupro” parecer coisa de profissional. Esse site de notícias não pensou duas vezes antes de publicar mais essa arbitrariedade do governo venezuelano:

Venezuela_Manifestacao06

Caracas! Que frio que faz por lá! Esses violentos policiais da guarda bolivariana são tão insensíveis que, além do povo, ignoram também o calor venezuelano.

Mas o jornalismo tradicional e as redes sociais muitas vezes se confundem e se comportam de forma parecida. A CNN, cujo silêncio ainda não foi comprado por Dilma, entrou de cabeça na onda acusatória. Vejamos a foto que ela divulgou:

Venezuela_Manifestacao18

Calma, CNN. É só uma foto antiga de Singapura, e não da Venezuela. Mas, tudo bem. Essa coisa de repassar informação sem checar acontece com todos, até mesmo com jornalistas do SBT!

Checar, apurar, criticar são verbos que já não combinam com o dinamismo do mundo atual. Não importa se você é jornalista conhecido, atriz popular, twitteiro ou comentarista de portal. O negócio é clicar, curtir, postar e compartilhar. Mesmo que seja uma mentira escabrosa capaz de comover o mundo e influenciar decisões políticas importantes.

#AcuerdaVenezuela #REPASSEM

PS.: Pra ilustrar esse bom momento da família #SouReaçaMasTôNaModa nas redes sociais, decidi criar um tumblr recheado com cenas reais da Venezuela: o #AcuerdaVenezuela. Nele reunimos todas as informações sonegadas pela mídia corporativa.

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24 de fevereiro de 2014

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Em debate na GloboNews, Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da UFABC, explica a crise, derruba o mito da “falta de liberdade” no país vizinho e desnuda a parcialidade da imprensa.

Paulo Donizetti de Souza, via RBA

O professor de Relações Internacionais da USP José Augusto Guillon e a apresentadora Mônica Waldvogel, do programa Entre Aspas, da GloboNews, chegaram ao limite da gagueira, na terça-feira, dia 18, durante debate a respeito da crise na Venezuela com a participação do jornalista Igor Fuser, do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC). O debate começa dirigido, ao oferecer como gancho para a discussão a figura de Leopoldo Lopez, o líder oposicionista acusado de instigar a violência nos protestos das últimas semanas.

Diz a narração de abertura:

“Ele é acusado de assassinato, vandalismo e de incitar a violência. Mas o verdadeiro crime de Lopez, se podemos chamar isso de crime, foi convocar uma onda de protesto contra o governo de Nicolas Maduro. Protestos seguidos de confrontos que deixaram quatro mortos e dezenas de feridos.”

E segue descrevendo que a violência política decorre da imensa crise no país – inflação, falta de produtos nas prateleiras, criminalidade em alta. Ainda no texto de abertura, na voz de Mônica, o governo é acusado de controlar a economia e a Justiça, pressionar a imprensa e lançar milícias chavistas contra dissidentes. E encerra afirmando que Leopoldo Lopez, na linha de frente, reivindica canais de expressão para os venezuelanos, e abrem-se as aspas para Lopez: “Se os meios de expressão calam, que falem as ruas”.

Do início ao fim do debate, com serenidade e domínio sobre o assunto, Igor Fuser leva a apresentadora e o interlocutor às cordas. Reconhece as dificuldades políticas do presidente Nicolas Maduro e a divisão da sociedade venezuelana. Mas corrige os críticos, ao enfatizar que o país vive uma democracia, e opinar que a campanha liderada por Lopez é “golpista”, ao ter como mote a derrubada do governo legitimamente eleito com mandato até 2019.

Fuser informa que em dezembro se cristalizou um processo de diálogo entre governo e oposição, então liderada por Henrique Capriles, derrotado nas duas últimas eleições presidenciais por margem muito pequena de votos. E que a disposição ao diálogo levou a direita mais radical a isolá-lo, permitindo a ascensão de figuras como Leopoldo Lopez. Indagado se não seria legítimo as manifestações da ruas pedirem a saída do governo, como foi no Egito ou está sendo na Ucrânia, o professor da UFABC resume que as manifestações na Ucrânia são conduzidas por nazistas, e no Egito a multidão protestava contra uma ditadura. Lembra que na Venezuela houve quatro eleições nos últimos 15 meses, que o chavismo venceu todas no plano federal, mas que as oposições venceram em cidades e estados importantes, governam normalmente e as instituições funcionam, e que a Constituição é cumprida.

Questionado sobre a legitimidade da Constituição – que teria sido aprovada apenas por maioria simples – informou que a Carta, depois de passar pelo Parlamento, foi submetida a referendo popular e aprovada por 80% dos venezuelanos – o que inclui, portanto, mais da metade dos que hoje votam na oposição. E à ironia dos debatedores, de que seria paranoia das esquerdas acusar os Estados Unidos de patrocinar uma suposta tentativa de golpe, esclareceu: os Estados Unidos estiveram por trás de tantos golpes da América Latina – na Guatemala nos anos 1950, no Brasil em 1964, no Chile em 1973, na própria Venezuela em 2002 – que não é nenhum absurdo supor que estejam por trás de mais um. E que também não é absurdo, em nenhum país do mundo, expulsar diplomatas que se reúnem com a oposição como se fossem dela integrantes.

O jornalista desmontou também os argumentos de que o país sofre de ausência de liberdade de expressão. Disse que o governo dispõe, de fato, de jornais, canais de rádio e de televisão importantes, mas que dois terços dos veículos de imprensa da Venezuela são controlados por forças oposicionistas. E que o que existe na Venezuela seria, portanto, a possibilidade de contraponto. E Fuser foi ferino no exemplo dos problemas que a ausência de diversidade nos meios de comunicações causam à qualidade da informação: “Sou jornalista de formação e nunca vi nem na Globo nem nos jornais brasileiros uma única notícia positiva sobre a Venezuela. Uma única. A gente pode ter a opinião que a gente quiser sobre a Venezuela, é um país muito complicado. Agora, será que em 15 anos de chavismo não aconteceu nada positivo? Eu nunca vi. Não é possível que só mostrem o que é supostamente ruim. Cadê o outro lado? Será que os venezuelanos que votaram no Chavez e no Maduro são tão burros, de votar em governo que só faz coisa errada?”

Clique aqui para assistir aos 26 minutos de programa. Essa crítica à Globo em plena Globo está nos dois minutos finais. Vale a pena.

E fecha aspas! Fecha aspas!

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