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O truque do Valor para bater na Venezuela

11 de março de 2014

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

O Valor tem se caracterizado, como define um colega, como “PIG cheiroso”, porque, de fato, oferece uma linguagem muito mais sóbria que seus primos. Provavelmente porque seu público alvo são empresários; não os hommers simpsons vulgares e analfabetos políticos que, desgraçadamente, formam a maioria da classe média consumidora de textos de opinião.

De vez em quando, porém, o Valor precisa mostrar serviço, não ao leitor, mas a seus donos e os interesses aos quais estes servem, que vão muito além de míseras assinaturas de jornal.

Na quarta-feira de cinzas, por exemplo, a manchete do Valor era sobre um suposto calote da Venezuela.

Valor_Economico05032014Só que não.

Se você ler a matéria, ficará mais confuso do que informado. Primeiro porque todas as informações sobre dívidas foram dadas por fontes anônimas. Todas as fontes nominadas, ao contrário, contestam a informação.

A própria matéria é contraditória. Ela diz que a Venezuela tem US$20 bilhões em obras contratadas com empreiteiras brasileiras, e que um total de US$2 bilhões não pagos. Ora, 2 bilhões é 10% de 20 bilhões. Não há nenhum sinal de calote aqui.

A matéria diz que a maior parte da dívida é com a Odebrecht, principal empreiteira engajada em obras no país. Pois então, quando o repórter pergunta ao diretor administrativo da empresa, Claudio Daltro, ele respondeu o seguinte:

“O atraso no pagamento é normal no negócio de infraestrutura. Não tenho problema aqui que eu não tenha em outros lugares.”

Ou seja, a matéria é toda uma não-matéria. Falava de um calote que não se configura. De uma dívida perfeitamente natural diante dos valores envolvidos e em função do tipo de serviço oferecido, obras de infraestrutura que perduram por muitos anos.

O Valor fez uma matéria apenas tendenciosa, com objetivo de pintar o governo venezuelano como feio, bobo, mau e caloteiro. O artigo traz várias referências negativas sobre a economia venezuelana, omitindo-se de mencionar os profundos avanços sociais vividos pelo país.

***

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Quando Hugo Chavez morreu

6 de março de 2014

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O extenso período de incerteza sobre a saúde do presidente havia chegado ao fim. O que iria acontecer dali em diante?

Marina Terra, via Opera Mundi

O dia 5 de março de 2013 começou agitado. Apesar de o estado de saúde de Hugo Chavez estar cercado de incertezas e especulação desde o embarque do presidente venezuelano para Cuba, em 9 de dezembro do ano anterior, a movimentação dos ministros e de Nicolas Maduro demonstravam que algo estava errado. As reuniões a portas fechadas e os boatos em torno delas alimentaram dezenas de ligações minhas para jornalistas em Caracas e em São Paulo em busca de informações.

Algumas falavam que Chavez já estava nas horas finais e que o governo se preparava para dar, em breve, a notícia ao país, enquanto outras arriscavam dizer que o presidente havia se recuperado desde o retorno a Caracas, em 18 de fevereiro, e que reapareceria em breve em público.

Finalmente, já no meio da tarde no Brasil, começou a transmissão de um encontro entre o então vice-presidente e o gabinete ministerial. A reunião começou cheia de expectativas, mas nada foi informado sobre a situação no hospital militar da capital venezuelana.

Depois de passar horas de tensão, decidi ir pra casa, de onde permaneceria em alerta. No começo da noite, ainda na rua, duas mensagens de texto, uma da redação de Opera Mundi em São Paulo e outra, de um amigo em Caracas, deram a mesma notícia, ao mesmo tempo, mas em línguas diferentes: “morreu”, “murió”.

Hugo Chavez havia morrido. O extenso período de incerteza sobre a saúde do presidente havia chegado ao fim. O que iria acontecer dali em diante?

Imediatamente corri para o computador para me juntar à equipe, que naquele momento já havia começado a repercutir o falecimento. Assim que me certifiquei de que tudo estava correndo bem, combinei com a direção que eu embarcaria no dia seguinte para lá.

Era fim de tarde na capital venezuelana quando o avião aterrissou. Na noite anterior e durante o voo, só conseguia pensar que tinha um desafio imenso pela frente: como cobrir a morte de um dos personagens mais importantes da História? Como a Venezuela enfrentaria esse momento, um país que, indiscutivelmente, não era mais o mesmo desde a chegada de Chavez ao poder, em 1998?

Na imigração, o clima era tranquilo. Na fila, comigo, havia dezenas de outros jornalistas, vindos do mundo todo. “Sabe, jamais imaginei que ele fosse morrer tão cedo. Tinha só 58 anos e ainda muita coisa pra fazer. Mas te garanto que vamos continuar de pé”, arriscou dizer baixinho um dos fiscais da alfândega, para depois marcar meu sexto carimbo de entrada no país. “Você, que quase já é venezuelana, sabe disso”, brincou.

No entanto, as experiências anteriores no país, com a cobertura de diversas eleições e de um especial sobre a Era Chavez, feito em 2012 junto com o jornalista Jonatas Campos e o diretor de Opera Mundi, Breno Altman, não haviam me preparado para os dias que viriam. Já na estrada que liga o aeroporto internacional Simón Bolívar, em Maiquetía, à capital, uma procissão de motoqueiros vestidos de vermelho e com bandeiras chavistas seguia a toda velocidade. Uma mulher, na garupa de uma das motos, chorava copiosamente.

Sim, era real. Hugo Chavez estava morto.

Pouco antes, uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre que levou o corpo do presidente venezuelano até o Paseo de los Próceres, na Academia Militar, onde ficaria por nove dias sendo velado por milhões de pessoas.

A poucos quilômetros dali, no bairro de Altamira, na zona oeste de Caracas, conhecida por reunir os bairros mais abastados da capital e ser um bastião opositor, a vida parecia continuar igual. “Chegamos a ouvir fogos aqui quando a morte dele foi anunciada”, contou um dos funcionários do hotel, para depois lamentar: “que tivessem tido respeito pelo menos pela família”.

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Cerca de 2 milhões de pessoas foram às ruas dar adeus a Hugo Chavez.

Fila quilométrica

No dia seguinte, amanheci com a notícia de que a fila para o velório já era quilométrica e segui para a Academia Militar. Assim que o trem do metrô cruzou a linha imaginária que separa o oeste do leste, uma enxurrada de chavistas com os punhos pro alto e aos gritos de “Chavez vive, a luta segue” entrou. Muitos choravam. Quando fui entrevistar uma senhora com o rosto molhado de lágrimas, fui surpreendida por um abraço. “Eu não consigo acreditar!”, gritou.

Povo fala: um ano depois, o chavismo sobreviveu à morte de Chavez?

A mesma cena se repetiria comigo e com outros colegas. O colaborador de Opera Mundi em Bogotá, Simone Bruno, que havia ido a Caracas fazer a cobertura para um canal de televisão francês, confessou: “nunca vi nada parecido. Não há como ficar indiferente a tanto sofrimento”.

A cada entrevista, mais lágrimas. E o espanto pelo aluvião de gente que ocupava todos os espaços ao redor do Paseo de los Próceres. Como nas marchas chavistas que havia acompanhado outras vezes, o povo havia ido em peso às ruas. Mas agora, para se despedir de seu presidente.

Porém, conforme eu avançava na fila, ficou claro que não se tratava de uma procissão comum. Havia ali também uma alegria, traduzida por meio de muitos sorrisos e na música caribenha que ressoava em caixas de som, além de demonstrações de agradecimento e amor pelo presidente que havia partido. “Ele morreu por nós e por isso jamais deixarei de defender seu legado”, me disse uma jovem que havia viajado à noite de Maracay, Estado de Aragua, até lá.

Naquela confusão de choro e risos materializada na minha frente e que continuou nos dias seguintes, pensei que não era inédita a sensação de estar perdida na Venezuela. “Entender” o país, percebi desde a primeira vez que o visitei, em setembro de 2010 para as eleições legislativas, não era o caminho ideal para reportar o processo revolucionário iniciado por Chavez.

E não só porque as notícias dos principais meios internacionais resultavam superficiais e preconceituosas, mas porque, de fato, havia ali algo novo, em pleno desenvolvimento. Sem régua para comparação, a solução pra mim foi me envolver ao máximo com os personagens e acontecimentos, ir à rua, sempre procurando manter um olhar antropológico e, acima de tudo, respeitoso.

Eleição de 2012

O encerramento da campanha de Chavez em 4 de outubro de 2012 foi um desses momentos de espanto. Horas antes, havia decidido me juntar às milhões de pessoas que encheram as sete avenidas do centro de Caracas, em vez de acompanhar o discurso de um espaço reservado aos jornalistas, ao lado do palco principal.

Nos instantes prévios à chegada do presidente, uma multidão vestida de vermelho produzia uma cena impressionante de agitação e barulho. O som do motor das motos, das apresentações musicais – divididas em palcos espalhados pela região – e dos gritos de “Uh! Ah! Chavez não se vá” dominava aquele ambiente de caos e expectativa.

E então veio a tempestade. Tentando se manter em pé naquele lamaçal produzido com a mistura de sujeira e material de propaganda eleitoral, os apoiadores de Chavez respondiam a cada relâmpago que caia com gritos e sorrisos. “Mostramos a eles nossos dentes, literalmente”, disse um amigo chavista, em referência à oposição.

Em meio ao frenesi coletivo, o presidente subiu no palco correndo, com um microfone na mão. Finalizava em Caracas uma campanha cansativa, na qual havia percorrido quase todos os estados venezuelanos ainda com o fantasma do câncer o assombrando.

Chavez ganhou dois dias depois o páreo contra Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda que havia aceito o desafio de competir representando uma coligação de partidos opositores. Para os chavistas, estava garantida a continuidade do processo revolucionário, enquanto para a oposição, restava o reconhecimento da vitória do presidente e planejar os próximos passos após a derrota.

Volta do câncer

Mas nenhum dos dois lados esperava a notícia que o próprio Chavez deu na noite de 8 de dezembro. O câncer havia voltado e o embarque para Havana aconteceria já no dia seguinte. Aquela seria a última imagem do presidente vivo.

Os meses seguintes foram de expectativa e angústia. A cada anúncio em cadeia nacional, quando o então ministro da Comunicação, Ernesto Villegas, começava a ler um novo boletim sobre o estado de saúde de Chavez, a respiração nas ruas da Venezuela e nas redações parava por alguns instantes. Os micro comunicados foram tão marcantes que, depois da morte do presidente, muitos venezuelanos disseram ter instintivamente prendido o ar ao escutar o começo de outros anúncios.

Viajei ao país no começo de janeiro de 2013, depois de um boletim médico pessimista dado alguns dias antes, no final de 2012, e pela proximidade da posse do presidente na Assembleia Nacional, marcada para o dia 10. Chavez não veio, mas em seu lugar, foi empossado simbolicamente o “povo venezuelano”, representado na figura do vice, Maduro. Eu retornaria somente em 6 de março, para cobrir o desfecho dessa história e para o começo de outra, que segue em andamento: a da Venezuela sem Chavez.

Do período em que cobri a morte do presidente, um depoimento me surpreendeu. Fui atrás de quem estava por último na fila para as condolências, um périplo que durava em média 10 horas, debaixo de muito sol. Era uma jovem opositora. Intrigada, perguntei porque ela estava ali. “Apesar de não concordar com as políticas dele, o admirava muito por ter feito a diferença na vida de outros venezuelanos. Quero homenagear a pessoa Hugo Chavez”, respondeu. Num país onde as diferenças políticas chegam a separar famílias, aquelas palavras eram inesperadas.

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FHC quer ser o guru de todos os golpes

4 de março de 2014

FHC_Venezuela01

Miguel do Rosário, via Tijolaço

“Chegou a hora de corrigir o rumo. Que a crise
venezuelana nos desperte da letargia.”

A frase não foi dita por nenhum golpista de Caracas, após sacar uns dólares no guichê do consulado norte-americano. Quem a pronunciou, em artigo publicado em alguns jornais do país, foi Fernando Henrique Cardoso, nosso ex-presidente.

Em seu estilo altamente engordurado, FHC não faz outra coisa senão dizer que o Brasil deveria se aproximar mais dos EUA e assumir posições antibolivarianas, sobretudo na Venezuela.

É uma posição ideologicamente ultraconservadora. E burra economicamente, porque a Venezuela tem sido, nos últimos anos, nosso melhor parceiro comercial, o que paga mais caro pelos produtos brasileiros. Não porque os venezuelanos gostem de pagar caro, mas é que os importadores do país preferem comprar no Brasil aqueles produtos que outrora só se comprava na Europa e EUA.

Diz FHC:

O Brasil, timidamente, se encolhe enquanto o partido da presidente apoia o governo venezuelano, sem qualquer ressalva às mortes, aprisionamento de oposicionistas e cortinas de fumaça que querem fazer crer que o perigo vem de fora e não das péssimas condições em que vive o povo venezuelano.

Ora, FHC poderia muito bem se distanciar do golpismo doentio da máfia midiática do continente. Poderia falar dos problemas atuais, fazer críticas políticas à Maduro, mas deveria, se fosse honesto, admitir que o chavismo zerou o analfabetismo na Venezuela e melhorou profundamente a vida das camadas mais pobres do país. Não, ele prefere chancelar a mentira.

O seu artigo é uma prova de que a volta do PSDB ao poder constituiria um elemento de perigosa instabilidade para o continente, porque insuflaria confiança ao golpismo de oposição em todos os países latino-americanos.

FHC manda um recado até para Honduras, sempre apoiando o golpe: “[o Brasil] interfere contra o sentimento popular em Honduras […]”

Os governos Lula/Dilma têm sido, até então, um dos principais anteparos contra os golpes de Estado, antes tão comuns, em nosso continente. E mesmo assim, eles aconteceram: em Honduras e Paraguai, por exemplo, vimos a estreia de um novo tipo de golpe, disfarçado de legalidade.

Em Honduras, a suprema corte, presidida por algum Joaquim Barbosa, aliada aos barões da mídia, não apenas destituiu sumariamente o presidente, sem direito à defesa, como mandou o exército prendê-lo em sua casa, de madrugada, e ainda o expulsou do país. Para FHC, no entanto, isso foi fruto do “sentimento popular”, mesmo que a maioria das manifestações populares nas ruas fossem em favor de Manuel Zelaya.

E agora FHC apoia o golpe contra a Venezuela.

A qualidade dos tucanos é que eles são previsíveis. Onde houver golpe patrocinado pelos EUA, eles darão suporte.

Mais uma vez, as eleições presidenciais no Brasil definirão não apenas a nossa soberania, mas de todo o continente. Uma vitória do partido de FHC seria automaticamente entendida como autorização para todo o tipo de atentado contra governos eleitos democraticamente. Supremas cortes, mídia, consulados norte-americanos, partidos de direita, todos os núcleos golpistas, corruptos e corruptores se sentiriam estimulados a tomar o poder sem passar pelo crivo do povo.

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4 de março de 2014
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John McCain, senador do Partido Republicano dos EUA, ao lado do líder do partido neonazista da Ucrânia, o Svoboda.

Miguel do Rosário, via O Cafezinho

Entrevista com Sara Burke, feita pela Folha, traz algumas afirmações bombásticas que o próprio jornal preferiu abafar, dando destaque a trechos mornos.

A analista política da fundação Friedrich Ebert, ligada à centro-esquerda alemã, com sede em Nova York, é uma das maiores pesquisadores de protestos e manifestações populares do mundo, tendo já escrito diversos livros sobre o assunto.

Burke não tem papas na língua. Separei dois trechos que ilustram o que ela pensa de alguns assuntos mais quentes. Alguém poderia sugerir a FHC que lesse com lupa essa entrevista. Talvez aprendesse a ser menos colonizado.

A analista explica que a razão pela qual o presidente da Ucrânia não assinou os acordos políticos e comerciais com a Europa, em novembro último (o que motivou os protestos), era que eles exigiriam, como contrapartida do governo, uma série de reformas e medidas dolorosas para a população, em troca de empréstimos que o FMI se dispunha a dar.

Engraçado, nunca li isso em nossa imprensa!

Em outra parte da entrevista, Burke é bem direta sobre o patrocínio externo aos protestos: “Isso fica mais complicado – na Ucrânia e na Venezuela, como a Síria – com o fato de as potências externas usarem o confronto local para praticarem suas guerras por procuração.”

Em seguida, a analista lembra uma conversa da Secretária de Estado, Victoria Nuland, com o embaixador norte-americano na Ucrânia, e sugere que isso revela que o governo dos EUA estava tentando “direcionar os protestos para seus próprios objetivos, para aquilo que alguns alegam ser um golpe de Estado contra um presidente eleito e não uma solução democrática.”

Ora, aqui no Brasil, até mesmo setores da ultraesquerda, como vimos na declaração recente de Luciana Genro, candidata a vice-presidente pelo PSOL, festejaram o golpe na Ucrânia como uma “revolução popular”.

Burke poderia ter acrescentado ainda que o golpe na Ucrânia se deu com financiamento a grupos neonazistas, conforme se pode ver em centenas de fotos e denúncias de dezenas de blogs e sites.

Abaixo, um trecho (já citado) da entrevista:

Ucrania04

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4 de março de 2014
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Estudantes e jovens de tendência direitista usam bolas de golfe e motocicletas em protestos.

Bolas de golfe servem de munição quando acabam as pedras para armar estilingues. Nos capacetes de proteção, microcâmaras de alta definição registram as ações dos adversários. Motos de alta cilindrada facilitam a rápida locomoção entre os focos de protestos. Telefones inteligentes transmitem ao vivo o confronto com policiais. Walkie-talkies virtuais acompanham e coordenam declarações políticas. Todos esse aparato faz parte do “arsenal” utilizado pelo movimento estudantil que tomou as ruas de Caracas para exigir a renúncia do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro.

Claudia Jardim, via BBC Brasil

Os jovens venezuelanos que estão nas ruas há mais de três semanas não diferem de seus pares latino-americanos somente pelos recursos utilizados em suas manifestações. A maioria vem de famílias de classe média alta e aposentou a camiseta do guerrilheiro Ernesto Che Guevara, “uniforme tradicional” em manifestações.

“Estamos brigando contra o socialismo, certamente”, diz à BBC Brasil a estudante universitária Emily Vera, membro do movimento Javu (Juventude Ativa Venezuela Unida), um grupo estudantil alinhado à direita radical.

Entre as técnicas de protestos utilizadas pela Javu está a greve de fome. Emily conta que permaneceu 25 dias sem comer, junto a outros colegas, para exigir a libertação de supostos presos políticos, acusados pelo Ministério Público de assassinatos. A medida de pressão não foi atendida pelo então presidente Hugo Chavez, morto em março de 2013.

Polarização

Na Venezuela polarizada que defende de um lado uma “revolução socialista” e de outro a “erradicação do castro-comunismo”, nenhum grupo admite estar à direita do tabuleiro político, ainda que suas ações contrariem essas afirmações.

Emily diz estar nas ruas em busca de um modelo híbrido de sociedade, que mantenha a “igualdade” defendida pelos socialistas, respeitando, no entanto, a liberdade de mercado e consumo.

“Temos direito a consumir e ter o que queremos sem sermos acusados pelo governo de ser burgueses”, critica a estudante.

De acordo com especialistas ouvidos pela BBC Brasil, o perfil conservador que caracteriza os jovens que protestam contra o governo reflete um processo de “direitização” do ensino universitário na Venezuela – que se aprofundou a partir dos anos 90.

Acompanhando a onda neoliberal que predominava na região, as universidades, principalmente as privadas, passaram a privilegiar em seus currículos a preparação para o mercado de trabalho, em detrimento das ciências humanas.

Mais universitários

De acordo com um estudo da Universidade de Los Andes (ULA), a educação privada cresceu 115% entre 1990 a 1998. A tendência foi acompanhada por uma migração de 28% da população universitária do setor público para o setor privado.

Quando Hugo Chavez chegou ao poder, em 1998, menos de 500 mil estudantes tinham acesso à universidade pública. Em 2013, o número de matrículas chegou a 2,6 milhões de inscritos.

Assim como ocorre no Brasil, a maioria das vagas nas universidades públicas é ocupada por alunos provenientes de escolas privadas, que chegam melhor preparados para o vestibular que os estudantes da rede pública.

Para reverter a tendência, o governo Chavez criou um sistema educacional paralelo com vistas a incluir – sem exigência do vestibular – jovens de baixa renda provenientes de escolas públicas.

O sistema universitário Missão Sucre mantém, atualmente, quase 500 mil estudantes – em sua maioria, provenientes das classes populares.

“Esses estudantes estão vinculados ao governo pela oportunidade de formação que tiveram”, afirmou a historiadora Margarita Lopez Maya.

Nas outras universidades públicas tradicionais, no entanto, ainda é necessário prestar exame para competir a uma vaga. A manutenção do vestibular representa uma das derrotas amargadas pelo chavismo no campo da educação.

Não ao comunismo

O veto à controvertida reforma universitária em 2010, que incluía o fim do vestibular e a inclusão de disciplinas marxistas no currículo- é uma das vitórias que Emily Vera considera ter conquistado contra o governo chavista.

“A reforma implementava que deveríamos também ter matérias sobre comunismo e socialismo, assim como aconteceu em Cuba e estávamos contra isso”, afirmou.

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Líder de movimento estudantil opositor na Venezuela buscou orientação de blogueira Yoani Sanchez.

Emily conta que ela e seus colegas, entre eles o fundador do Javu, Júlio César Rivas, procuraram ajuda e orientações da blogueira cubana anticastrista Yoani Sánchez.

“Tivemos uma conversa com Yoani Sanchez e ela nos disse que assim foi como começou o comunismo dentro das universidades em Cuba”.

O vínculo entre Rivas e Sanchez seria referendado mais tarde, quando o partido conservador norueguês decidiu premiar a ambos, o venezuelano em 2011 e a cubana em 2013, com o prêmio Lindebraekke de Direitos Humanos e Democracia.

Privilégios

Outro elemento que estimula os jovens de classe média a protestar contra o projeto bolivariano é a defesa de privilégios, na opinião da socióloga e psicóloga social Carmen Elena Balbás.

“É uma reação em defesa à classe social e a um estilo de vida”, afirmou ela à BBC Brasil.

Dirigente estudantil nos anos 90, Sérgio Sanchez tem outra explicação para a disputa entre os dois modelos de sociedade.

“Desde que entram na universidade, os estudantes ouvem que devem obter o diploma para serem ricos, trabalham numa multinacional e morar em Miami. A revolução bolivariana está brigada com este modelo e seus objetivos de vida”, sentenciou Sanchez.

“Nossos jovens se formam e querem deixar o país porque pensam que terão melhores oportunidades fora daqui.”

Sérgio Sanchez, ex-dirigente estudantil

“Por essa razão, muitos deles se veem sem futuro. Essa é a raiz do problema”, acrescentou.

As preocupações de Emily Vera caminham nesta mesma direção. A jovem universitária considera que o projeto de “revolução” proposto pelo chavismo não preenche as necessidades e anseios de parte da juventude venezuelana.

“Nossos jovens se formam e querem deixar o país porque pensam que terão melhores oportunidades fora daqui”, afirmou.

Revolução colorida

Um punho cerrado identifica e inspira os jovens do Javu. O símbolo é o mesmo do movimento estudantil Otpor (Resistência) da Sérvia – que ajudou a derrubar o regime de Slobodan Milosevic, em 2000. O Otpor, que contou com ajuda financeira dos EUA, se transformou numa espécie de centro de formação de jovens e sua atuação foi decisiva para o êxito das chamadas “revoluções coloridas” que se espalharam por ex-países da União Soviética a partir do ano 2000.

De olho no que aconteceu no velho continente, Emily Vera diz que ela e seus colegas permanecerão nas ruas até cumprirem seu objetivo final: “Queremos uma mudança de governo”.

O enfrentamento no campo de batalha instalado na praça Altamira, centro nervoso dos protestos, permanece vivo. A mesma cena se repete quase todos os dias. Durante horas, os jovens atacam o cordão de isolamento da polícia com seu “arsenal” atípico aliado a coquetéis molotov e uma espécie de escopeta que dispara sinalizadores.

Em seguida, a polícia responde com gás lacrimogêneo e balas de borracha. No último domingo, no entanto, a disputa ideológica esteve marcada com música.

Em meio a escudos e veículos blindados, os policiais instalaram gigantescas caixas de som e fizeram ecoar a todo volume a música do cantor popular venezuelano, Ali Primera – ícone dos bolivarianos.

Enquanto os estudantes se perdiam na fumaça do gás lacrimogêneo, escutavam o refrão: “Não, não basta rezar, faz falta muita coisa para conseguir a paz”.

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Venezuela e Brasil não podem retroceder

O coxinha Leopoldo Lopez, pau-mandado do EUA, quer dar golpe na Venezuela

O que querem os EUA numa Venezuela em transe?

Atos na Venezuela são manipulados com fotos falsas

Venezuela: Povo marcha pela paz; opositores pela violência

50 verdades sobre Hugo Chavez

50 verdades sobre Henrique Capriles

Pedro Silva Barros: “Mídia traz uma Venezuela caricata, completamente deslocada da realidade.”

28 de fevereiro de 2014
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Pedro Barros: “Nos 15 anos de chavismo, a Venezuela foi o país do mundo que mais distribuiu renda e combateu a pobreza.”

Em entrevista ao Correio da Cidadania, Pedro Silva Barros, titular da missão do Ipea em Caracas, fala da crise na Venezuela e da cobertura da mídia.

Valéria Nader, via Correio da Cidadania e lido na Carta Maior

Acompanhar o noticiário internacional é sempre uma experiência que demanda discernimento – afinal, trata-se de notícias que vêm de longe e que, além de obviamente sujeitas ao viés analítico e ideológico do órgão de comunicação que as irradia, são relativas a fatos não vivenciados no dia a dia do público leitor. No Brasil, precisa-se de bem mais que discernimento para passar por esta experiência – muita desconfiança e dois pés pra trás talvez não deem conta da tarefa, especialmente se estão em foco países que tomaram um rumo que fuja minimamente ao que determina o mainstream.

A Venezuela é certamente um desses países. E não se trata aqui de tecer louvores ao país latino-americano, o qual, a exemplo de tantas outras nações de nossa região, tem uma trajetória marcada por uma série de contradições e precariedades sociais e políticas. Trata-se simplesmente de apelar para noções básicas e primárias do jornalismo, de modo que, diante dos fatos, se porte com um mínimo de seriedade e isenção.

Assistir aos noticiários ou ler matérias dos maiores grupos de mídia sobre os últimos manifestos na Venezuela é se deparar, no entanto, sem exceção, com um bloco monocórdio, parcial e tendencioso. Um dos jornais televisivos de maior repercussão no país, o Jornal Nacional da Rede Globo, em uma de suas edições da semana passada, chegou a trazer os acirrados acontecimentos da Venezuela, com sua população visivelmente dividida (como é de praxe em situações sociais de conflagração ou mais extremadas), a partir das falas, imagens e cenários de somente um dos lados – a oposição ao presidente Maduro e ao chavismo.

Ideias como as refletidas pela frase “Governo que cai? Não. Governo que sustenta grupos paramilitares e uma polícia política, dispostos a aterrorizar atos da oposição, espionar e matar”, seguida de posterior e literal alusão ao nazismo – frase de um editorialista da Folha de S.Paulo, na segunda-feira, 24 de fevereiro –, são quase exclusivamente o que se vê espelhado pela imprensa corporativa. Autênticas caricaturas de direita, ditadas pelos porta-vozes e críticos vorazes dos clichês que saem pela esquerda.

Para avançar o debate, o Correio da Cidadania insere-se na tentativa de outros veículos que procuram dar voz àqueles que não têm entrada na grande mídia e que apresentam fatos e visões que nela são quase proibidos. Na noite de segunda-feira, 24 de fevereiro, conversamos com Pedro Silva Barros. Professor licenciado do Departamento de Economia da PUC/SP e doutor em Integração da América Latina pela USP, Barros é técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e titular da missão deste órgão do governo federal em Caracas, Venezuela, desde setembro de 2010.

Dentre as várias e abrangentes colocações sobre o país no qual vive há quase 4 anos, Barros destaca que “os canais estatais não superam, somados, 10% da audiência”. Ele está se referindo ao mesmo país e à mesma mídia que os meios de comunicação por aqui denunciam como “100% controlados pelo chavismo”.

Abaixo, a entrevista exclusiva.

Correio da Cidadania: A Venezuela está no olho do furacão e, para aqueles que observam de fora os acontecimentos políticos, o cenário é no mínimo confuso. O que você teria a comentar, em primeiro lugar, sobre os últimos e intensos protestos e a composição das forças oposicionistas (protagonizada por Henrique Capriles e Leopoldo Lopez) que estão a mobilizá-los?

Pedro Barros: A oposição na Venezuela tem marchado unida dentro de sua multiplicidade. Depois de uma derrota de mais de 20% dos votos no referendo em que tentava revogar o mandato do presidente Chavez em 2004 e de boicotar as eleições parlamentares de 2005, apoiaram Manuel Rosales nas presidenciais de 2006 e Capriles nas eleições de 2012 contra Chavez e no apertado pleito de 2013 contra Maduro, além dos referendos para mudanças constitucionais de 2007, o único em que foram vitoriosos, e de 2009. Em 2012, a economia venezuelana cresceu mais de 5% e a inflação havia diminuído, ainda que num patamar alto, próximo a 20%; Chavez venceu as eleições em outubro com mais de 10% de vantagem. No início de 2014, após a vitória governista nas eleições municipais de dezembro passado, houve uma aproximação do governador (de Miranda, o estado com as maiores taxas de homicídio do país) Capriles com o governo federal para tratar de temas específicos, notadamente segurança pública. Esse tema é particularmente importante quando se leva em conta que, em 2012, o presidente Chavez havia lançado o Plano Nacional de Segurança Pública e o governo de Miranda não havia participado desse processo. Talvez isso o tenha afastado dos setores mais radicais da oposição, liderados por Leopoldo Lopez. Nas últimas semanas, Lopez, o prefeito de Caracas, Antônio Ledezma, e a deputada Maria Corina lançaram o movimento “A Saída”, abrindo espaço para reivindicações extraconstitucionais. A despeito da condenação de Capriles e outras figuras históricas da oposição, parcela importante do movimento estudantil aderiu à radicalização, que culminou nos episódios violentos de 12 de fevereiro, que deixou três mortes, dezenas de feridos, inclusive das forças de segurança, e destruição de prédios públicos. Hoje as mortes já chegaram a 15. A justiça venezuelana expediu uma ordem de detenção de Leopoldo Lopez, acusando-o de mentor intelectual dos protestos (formalmente, as acusações são associação para delinquência, danos ao patrimônio e incitação à violência). Ainda que seja um setor minoritário na oposição, o radicalismo tem ganhado força, particularmente na fronteira com a Colômbia e na região mais rica de Caracas. Alberto Ravell, jornalista muito influente na oposição, escreveu hoje pelo Twitter que “na Ucrânia já foi possível” – avalio que seja uma declaração bastante ilustrativa das intenções dos setores mais radicalizados.

Correio da Cidadania: O Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel disse à imprensa argentina que “há uma intenção de desestabilizar não apenas a economia, como também a ação social e política” na Venezuela, o que seria especialmente patrocinado pelos EUA. Como você encara esta possibilidade, ou seja, a ingerência externa na Venezuela?

Pedro Barros: A história recente da Venezuela é marcada pelo golpe de 2002, que levou o empresário Pedro Carmona ao poder por menos de 48 horas. Apenas os governos dos EUA de George W. Bush e da Espanha de José Maria Aznar, além do Fundo Monetário Internacional, reconheceram a legitimidade de Pedro, o Breve. Desde então, foi frequente a tensão entre Venezuela e EUA. Na semana passada, por exemplo, a deputada cubano-americana Ileana Ros-Lehtinen (Partido Republicano, Florida) afirmou que demandou ao presidente Barack Obama sanções econômicas à Venezuela. No mesmo ato em apoio às manifestações, realizado em Miami, Luigi Boria, prefeito de Doral, cidade com alta concentração de latinos na Florida, expôs que estava “muito entusiasmado porque acredito que agora sim se produzirá uma saída frente ao atropelo, à violação aos direitos humanos que se vive na Venezuela” e que “a experiência da Síria deve levar a uma reflexão do Departamento de Estado sobre as ações que se devem tomar. Acredito que os Estados Unidos e o presidente Obama devem tomar ações sobre a Venezuela”. Seria difícil não considerar natural e legítimo que o governo e os venezuelanos se preocupem com esse tipo de demanda externa. Nem seria necessário elencar as intervenções norte-americanas na América Latina ou em países exportadores de petróleo, apenas lembrar que a Venezuela está a três horas de voo de Miami e possui reservas de mais de 300 bilhões de barris de petróleo, a maior do mundo. De acordo com a Agência Internacional de Energia e com o principal anuário estatístico do tema, editado pela petrolífera britânica BP, a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Ainda que seja predominantemente um petróleo pesado, cujo custo de refinação de um barril supera US$20,00, ele é vendido a quase US$100,00 por barril. Talvez valha ainda apontar que, há dez anos, a Venezuela não exportava nenhuma gota de petróleo para a China e hoje vende mais de 400 mil barris diários para seu maior parceiro asiático.

Correio da Cidadania: Em que medida, de todo modo, a tensão está associada às reais condições sociais e econômicas do país, que têm de fato se precarizado, sobrepondo-se ao cenário e visão tão polarizados quando a Venezuela está em foco?

Pedro Barros: Nos 15 anos de chavismo, a Venezuela foi o país do mundo que mais distribuiu renda e combateu a pobreza. Isso foi impulsionado pelo incremento do investimento social, permitido pelo aumento da arrecadação, principalmente devido ao aumento do controle do governo sobre a renda petroleira, que foi particularmente alta nesse período. O mesmo êxito não ocorreu nas tentativas de diversificar a economia e, mais recentemente, no controle de importantes variáveis macroeconômicas, como o câmbio ou a inflação. Há evidentes problemas na economia venezuelana; ao mesmo tempo, a maioria da população tem a clareza de que a alternativa não é retornar ao passado. A repetição da saída fracassada de 2002 é improvável em um cenário em que as forças armadas, a estatal petroleira e parte dos meios de comunicação estão comprometidas com o processo político em curso. Em 2002, parte considerável da cúpula militar, a maioria da direção da estatal petroleira PDVSA e todos os meios de comunicação relevantes estavam absolutamente comprometidos com o golpe – mesmo assim, o povo na rua, em atitude inédita na região, reverteu as ambições desses setores. Naquele tempo, por exemplo, não estavam estruturadas as missões sociais, as redes de distribuição de alimentos a preços bastante subsidiados. A pobreza extrema chegava a 13,5% da população, hoje está em 2,5%, um número fantástico para um país latino-americano. Não há grandes mudanças no estoque de riqueza (patrimônio), mas os resultados na distribuição de renda são fabulosos: a Cepal aponta a Venezuela como a melhor distribuição de renda da América Latina, medida pelo coeficiente de Gini, superando o Uruguai ou a Costa Rica. O governo construiu uma grande rede com 27 mil pontos de distribuição de alimentos entre hipermercados, mercados médios e postos itinerantes. Ainda que haja escassez de alguns itens, o consumo per capita de proteína triplicou em 15 anos, a mendicância praticamente inexiste, ninguém passa fome. As camadas mais pobres da população vivem melhor e têm muito mais conhecimento sobre os seus direitos. Há também uma economia difícil de ser analisada a partir do exterior. Os subsídios são imensos, particularmente sobre energia, transporte, comunicação, alimentos básicos e itens de primeira necessidade. Uma lata de refrigerante custa quatro vezes mais do que um tanque de 50 litros de gasolina em um mesmo posto de serviço. Uma parcela muito pequena da população tem renda familiar inferior a 5 mil bolívares. Um bilhete do metrô de Caracas custa 1,5 bolívares, o mesmo valor de um minuto de ligação de um celular venezuelano para um celular no Brasil; o custo mensal do gás residencial é de 8 bolívares para mais de 90% dos consumidores; a assinatura da tevê a cabo por mês custa aproximadamente 300 bolívares. Isso permite um padrão de consumo para a maioria dos venezuelanos que apenas uma minoria dos latino-americanos consegue ter. Ao mesmo tempo, há distorções importantes, a escassez e as filas têm aumentado, parece que uma parte importante das classes médias não está disposta a enfrentá-las em seu cotidiano e alguns mercados não querem tê-las, restringindo o acesso e limitando a compra dos produtos subsidiados. Nos últimos anos, esses impasses foram equacionados e legitimados em disputas eleitorais: o governo mostrando as conquistas e a oposição, as limitações do modelo político, social e econômico. Vários organismos internacionais e organizações renomadas, como a Unasul e o Centro Carter, têm reconhecido as eleições e o sistema eleitoral da Venezuela como justo e limpo. Os resultados têm sido ligeiramente favoráveis ao chavismo. A oposição governa em importantes estados, como Miranda e Lara, e cidades, como Caracas, Maracaibo e Barinas, capital do estado homônimo onde Hugo Chavez nasceu e seu irmão mais velho atualmente governa. Conheço todos, todos os países da América Latina, todos os estados do Brasil e 21 dos 23 estados venezuelanos; não tenho a menor dúvida em afirmar que a Venezuela é o melhor país da região para alguém que está na metade mais pobre da população viver, se alimentar, ter acesso à educação e a bens de consumo. Não poderia dizer o mesmo na primeira vez que estive aqui, pouco mais de uma década atrás. O fenômeno migratório é ilustrativo. Ao mesmo tempo em que algumas dezenas de milhares venezuelanos das classes altas e médias emigram, principalmente para Estados Unidos, Colômbia e Panamá, a quase totalidade dos aproximadamente três milhões de colombianos, peruanos e equatorianos das classes médias e baixas que imigraram para a Venezuela permanece aqui. Analogicamente, a população universitária do país chega a dois milhões de estudantes, 7% da população está cursando o nível superior hoje na Venezuela (no Brasil, este número é menor que 3,5%, ainda que tenha dobrado nos últimos dez anos), mas a produção científica e a inovação avançaram pouco por aqui.

Correio da Cidadania: Como enxerga, neste sentido, o desempenho do governo, primeiro de Chavez, e agora de Maduro, e sua relação com a degringolada da situação econômica e social do país, visto haver intensos relatos de carestia, inflação galopante, crescente dívida externa, entre outros?

Pedro Barros: A Venezuela oscilou anos de forte crescimento econômico com outros de estagnação ou recessão. É permanente a tensão entre manter o bolívar valorizado, garantindo subsídios às importações, ou desvalorizá-lo para tentar diversificar a economia, com riscos de carestia no curto prazo. A opção do governo tem sido a primeira. No último ano, a sua principal preocupação foi se legitimar politicamente. No campo econômico, porém, se destacaram a inflação e o desabastecimento de alguns produtos. O presidente Maduro foi eleito em abril, pouco mais de um mês após a morte de Hugo Chavez. Havia pressão inflacionária e certo descontrole do mercado cambial paralelo. Ainda que a dívida externa tenha crescido e as reservas internacionais tenham caído, a balança comercial da Venezuela ainda é superavitária. Mais de 70% das reservas venezuelanas são precificadas em ouro, cujo preço frente ao dólar recuou algo como 30% em 2013, mas já recuperou quase 10% neste ano; as reservas totais, porém, são o dobro do que eram há 15 anos. A dívida externa de curto prazo é estável e menor do que as reservas. A dívida de longo prazo continua um pouco inferior às receitas de doze meses de exportação petroleira. Isso traz algum conforto para uma economia tão questionada. Há trinta anos a Venezuela não consegue ter três anos seguidos de inflação abaixo de 20%; nessas três décadas o período de inflação mais baixa foi o do governo de Hugo Chavez. Os outros dois governos, de Carlos Andrés Pérez e Rafael Caldera, tiveram taxas de inflação média superiores aos 56% nos últimos doze meses. Talvez a ausência de Chavez tenha anestesiado um pouco o país e o governo. Provavelmente seria imprescindível uma grande estabilidade política para ajustes de longo prazo na política econômica, mas a vitória bastante apertada, a demora da oposição em reconhecer a derrota e as eleições municipais de dezembro impuseram outras prioridades, de curto prazo. A política de impor redução de preços com coerção estatal (particularmente dos bens de consumo que eram adquiridos com taxas de câmbio preferenciais e revendidos ao preço do mercado cambial paralelo) obteve grande apoio e sustentou um aumento da popularidade do presidente Maduro no último trimestre de 2013. A oposição tinha a leitura de que a situação econômica havia se deteriorado no curso do ano e que isso comprometeria o desempenho eleitoral dos candidatos governistas. O próprio Capriles apresentava a eleição de dezembro como um plebiscito sobre Maduro. As urnas, porém, garantiram a vitória chavista em 75% das cidades do país. No início do ano, principalmente após o assassinato brutal da modelo Mónica Spear, o tema da segurança pública tomou conta do debate político. Houve uma aproximação entre governantes das mais variadas matrizes políticas para tentar amenizar o problema e concertar políticas públicas conjuntas. Parte mais radical da oposição passou a questionar a liderança de Capriles e a estimular protestos violentos.

Correio da Cidadania: Como você analisa o gesto político de Lopez, que se entregou semana passada à polícia venezuelana, sem deixar de fazer discursos de estímulo a seus seguidores?

Pedro Barros: Há uma disputa interna da oposição entre, ao menos, duas táticas para chegar ao poder. É parte de qualquer processo político que haja divisões dentro das grandes coalizões. Há disputas dentro do chavismo e há embates internos na oposição. Nos últimos anos, porém, os moderados ganharam espaço em ambos os lados. Muita gente diz que não é fácil ser político sem mandato. Leopoldo Lopez, que havia abandonado a prévia da oposição que definiu Capriles como candidato em 2012, aparentemente apostou no tudo ou nada e parte significativa de seus seguidores defendem a ruptura institucional. Os oposicionistas que têm tido votos, como o governador de Lara Henri Falcón, um ex-chavista, porém, são muito mais moderados. Agora pela noite, em reunião do Conselho Federal de Governo, ele defendeu que é hora de isolar os violentos e diminuir o tom do discurso. O prefeito oposicionista de Baruta (região de Caracas), Gerardo Blayd, afirmou hoje que os protestos devem ser “racionais e pacíficos”. O mesmo vale para o prefeito de Chacao, Ramón Muchacho. Essa visão encontra pouco apoio entre os manifestantes, mas é música para os ouvidos da imensa maioria da população, fatigada pela polarização e marcada pelo massacre do Caracazo, que completará 25 anos na quinta-feira, pelo golpe de 2002 e pelo locaute do fim de 2002 e início de 2003.

Correio da Cidadania: Qual a sua opinião sobre a cobertura da mídia, interna e externamente à Venezuela, no geral e no que se refere aos acontecimentos aqui narrados?

Pedro Barros: Diferentemente de 2002, hoje há acesso plural às informações na Venezuela. Nesta manhã fui à banca e contei dez jornais diferentes, todos eles impressos com papel subsidiado. Oito eram oposicionistas, com diferentes ênfases. Sugiro a visita aos sítios do influente eluniversal.com, do tradicional el-nacional.com, do talcualdigital.com, que nasceu para se opor ao chavismo, do econômico elmundo.com.ve, do ultimasnoticias.com.ve, que é o mais vendido, e do governista correodelorinoco.gob.ve. Os dois canais mais vistos da tevê aberta, os privados Venevisión e Televen, que foram protagonistas do golpe em 2002, não dão maior destaque às questões políticas. Também a privada Globovisión, que antes só apresentava os pontos de vista da oposição, tem se preocupado em dar espaço ao governo. Os canais estatais não superam, somados, 10% da audiência. Na tevê paga, que aqui é muito mais acessível e vista do que no Brasil, há vários canais oposicionistas, inclusive a CNN em espanhol, que tem entrevistado vários oposicionistas venezuelanos, ainda que seja um canal regional. Evidentemente, a TeleSur é seu maior contraponto. No rádio também há grande diversidade, a maior parte das emissoras privadas são abertamente de oposição, contrapostas pelas emissoras públicas e, principalmente, comunitárias, que têm muito espaço na Venezuela. A cobertura internacional é majoritariamente contrária ao governo, que parece ter concentrado seus esforços em divulgar internamente suas ideias e ações. Nos últimos anos, outros países da região talvez estejam seguindo esse mesmo caminho introspectivo. Surpreende muito o comportamento da imprensa brasileira, particularmente dos jornais, que antes apresentavam o ponto de vista do governo venezuelano, ainda que se opusessem a ele. Vou concentrar meus comentários na Folha de S. Paulo, que acompanho diariamente desde que me alfabetizei, o que prossigo fazendo hoje, assinando e lendo a versão eletrônica sistematicamente; e na TV Globo, na qual assisto ao noticiário por meio da Globo Internacional. O conteúdo mais desinforma do que informa e a análise, extremamente caricata, é completamente deslocada da realidade. Ambos os veículos enviaram jornalistas ao país na última semana, e nenhum deles procurou o governo ou qualquer posicionamento simpático a ele em qualquer de suas reportagens. Quando se cita o governo ou se apresenta alguma declaração, restringe-se a imagens e pequenas frases que são reproduzidas pelas agências de notícias tradicionais. A coletiva do presidente Maduro à imprensa internacional na sexta passada, reportada no mundo todo, não contou com a presença ou a menção desses veículos de comunicação. No início da semana passada, o Jornal Nacional apresentou duas entrevistas de rua para encerrar a matéria uníssona de que uma ditadura estava em curso; na primeira, ao ser perguntado sobre o que esperava para os próximos dias, o entrevistado afirmou seu desejo de que o governo caia; na segunda, veio uma ressalva: que não tenha derramamento de sangue. Um roteiro para um golpe à la Honduras e Paraguai. Se eu não acompanhasse a Venezuela e estivesse no Brasil, provavelmente teria essa leitura. Mais para o fim da semana, a mesma repórter foi enfática: “Os protestos continuam proibidos, mas os estudantes não saem das ruas”. As manifestações perdiam intensidade e os governos Chavez e Maduro nunca proibiram protestos na Venezuela, que têm menos restrições e mais proteção para serem realizados do que na grande maioria das democracias, inclusive do que no Brasil. O problema da violência e do excesso de armas na Venezuela vai muito além e independe dos protestos em curso. Os excessos cometidos, que evidentemente existiram, estão sendo investigados. Os funcionários do serviço de inteligência que descumpriram a ordem de aquartelamento e atiraram no dia 12 de fevereiro estão detidos e a investigação está em curso. O assassinato da estudante que havia sido miss turismo do estado de Carabobo foi causado por um tiro pelas costas, as investigações também estão em curso, mas, provavelmente, o tiro partiu de manifestantes da oposição. Os comentaristas brasileiros foram taxativos ao responsabilizar os “colectivos” pela morte. Até agora, em duas semanas de protestos, na contabilidade mais ampla, da ONG Foro Penal, foram 539 detidos em toda a Venezuela, a grande maioria já liberados; 19 estão privados de liberdade por decisão judicial, segundo a mesma contagem. Apenas no sábado passado 262 foram detidos, incluindo 5 jornalistas, em um único protesto em São Paulo, que talvez tenha sido menos violento do que os que têm ocorrido aqui. Hoje à noite, a mesma Delis Ortiz apresentava o general aposentado Angel Vivas como um herói, respaldado por seus vizinhos por resistir a uma ordem de detenção com um fuzil norte-americano nas mãos e uma pistola na cintura na varanda de sua casa. Sequer comentou a motivação da ação policial: ele havia aconselhado os manifestantes a utilizarem arame farpado nos bloqueios de rua e, horas depois, um trabalhador que voltava para casa em sua moto foi morto com o pescoço cortado por essas barricadas. Na reportagem, foi apresentada a vaga acusação de incitação à violência, sem nenhuma referência ao fato concreto. Na conta da imprensa brasileira, foi mais um manifestante que caiu em combate contra as forças da ditadura. Fico a pensar qual seria a reação dos mesmos jornalistas se uma figura pública brasileira tivesse, um dia antes da trágica morte do cinegrafista Santiago Andrade, incentivado que os manifestantes que protestam contra o aumento da passagem de ônibus no Brasil utilizassem rojões contra a polícia, alegando que ela havia reprimido desproporcionalmente em atos do passado próximo. A enviada da Folha de S. Paulo tem escrito diariamente, raramente cita uma fonte governamental ou uma posição que não seja de oposição radical a tudo que foi feito na Venezuela nos últimos 15 anos. As opiniões, quando não são de políticos opositores, são de ONGs opositoras. Tenta reportar que há manifestantes que lutam contra uma ditatura, que não podem utilizar meios eletrônicos e enfrentam o terror de bandos armados clandestinos que defendem o governo, que permite que eles pratiquem crimes variados impunemente. Tanto a enviada, como um ex-correspondente que publicou artigo de análise do caso venezuelano, como outro analista de temas aleatórios, apresentam uma absoluta confusão entre “colectivos”, milícias e paramilitares, como se tudo fosse a mesma coisa, como se não existisse uma lei que regulamentasse as milícias como reservistas e parte da defesa nacional da Venezuela, independentemente de sua coloração política, e que atuam fardados e identificados. Como se participar de um movimento social fosse, em si, um crime. Como se o que acontece no México ou na Colômbia fosse transposto automaticamente à Venezuela. Utilizam o termo milícias como se fossem os grupos que controlam ou controlavam áreas do Rio de Janeiro. Na segunda-feira, dia 24, o jornal publicou textualmente que a estratégia atual do governo era bloquear Twitter e Facebook, usando essa terminologia. Não consulto esses meios com frequência, mas meus colegas de trabalho e alguns amigos, sim: foram unânimes em afirmar que isso nunca aconteceu na Venezuela. Pode ter havido oscilação na velocidade da internet, mas nunca o Twitter foi retirado do ar ou coisa parecida, basta ver a sequência de publicação das mensagens de venezuelanos. A própria enviada postou pelo Twitter, a partir de Caracas, que não poderia utilizar redes sociais. Em poucos países do mundo esses instrumentos são tão utilizados e democratizados pelo amplo acesso à internet como na Venezuela, que tem a rede mais abrangente e de menor custo da América Latina. Provavelmente, eles nunca haviam sido tão utilizados aqui como nos últimos dias. Infelizmente, para o leitor brasileiro que gostaria de saber o que está acontecendo na Venezuela, o jornal nunca reportou os mais de 4 milhões de laptops com acesso à internet distribuídos gratuitamente para estudantes da educação básica e média. A palavra “canaimita”, que denomina esses computadores, nunca foi publicada pela Folha. No início deste ano, o governo anunciou, como parte da expansão do projeto, que distribuirá 2 milhões de tablets, igualmente com acesso à internet, para estudantes universitários. Desnecessário dizer que existe uma forte contradição entre essa política macro de ampliar radicalmente o acesso ao conhecimento e à informação e o denuncismo de censura estampado na manchete do jornal. Talvez caminhar um pouco pelas periferias, conhecer um pouco do interior, sair da área de um quilômetro quadrado ao redor do hotel da área mais nobre de Caracas, que abrigou os generais golpistas de 2002 e 2003 e que concentra os protestos dos últimos dias, ajudasse a entender o que se passa na Venezuela.

Correio da Cidadania: Como você acha que se dará o desfecho de mais esta crise venezuelana e quais as perspectivas do chavismo, um processo político que já supera 15 anos no governo?

Pedro Barros: No último sábado, observei de perto as manifestações da oposição e do governo e em ambas havia clima de absoluta normalidade e proteção policial para evitar possíveis confrontos. Destaca-se que a da oposição foi realizada em El Marqués, no município de Sucre, governado pela oposição, no estado de Miranda, governado pela oposição. Os maiores confrontos até agora foram na Praça de Altamira, município de Chacao, governado pela oposição, estado de Miranda, governado por Capriles, que tem sistematicamente criticado a prática de guarimbas (barricadas para bloqueio de ruas e avenidas, que em Caracas acontecem quase que exclusivamente em bairros nobres). Pelo que é reportado, os protestos no estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia, que foram mais fortes, também têm perdido intensidade. Nem sempre é fácil diagnosticar ou traçar cenários sobre o que se passa na Venezuela. Correndo o risco de errar redondamente, diria que os protestos vão esfriar nos próximos dias, serão rearticulados e voltarão com força no próximo período, podendo coincidir com a Copa do Mundo de futebol. O chavismo é o movimento que marcou a primeira tentativa de ruptura com o Consenso de Washington na América Latina. Depois vieram mais de uma dezena de governos, com diferentes tonalidades, mas com um objetivo parecido, de diminuição das desigualdades e não alinhamento automático aos Estados Unidos. A resposta fácil sobre as perspectivas seria indicar que o desafio é garantir o aprofundamento das conquistas sociais em um cenário econômico e, talvez, político adverso. Sistematicamente, tentaram apresentar a morte de Chavez como o fim do chavismo, mas, com o passar dos meses, me parece claro que estamos apenas no começo de uma longa história. Provavelmente, mais do que qualquer outro, o posicionamento sobre o que se passa na Venezuela indica as posições que cada um tem sobre o futuro da América Latina. As notas do Mercosul, da Unasul e da Celac, ainda que diferentes, indicam uma região mais unida, preocupada com a estabilidade e progresso mútuos. Essa tem sido a posição da presidente Dilma Rousseff, que foi afirmativa nos momentos mais decisivos da história recente da Venezuela, seja para a entrada do país no Mercosul, seja para o reconhecimento internacional das eleições de abril de 2013. Agora há pouco, em Bruxelas, ela foi novamente assertiva ao declarar que o diálogo, o consenso e a construção democrática são mais adequados do que qualquer tipo de ruptura institucional e que o caos, que é desejado por grupos minoritários na Venezuela, seria a desconstrução social, econômica e política. Por várias vezes, agora e antes, a presidente lembrou que é importante enxergar os avanços sociais da Venezuela. Em perspectiva histórica e para além da área social, provavelmente o governo Chavez será reconhecido como uma guinada para o sul e em prol da integração regional.

Valéria Nader é jornalista, economista e editora do Correio da Cidadania.

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