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Mais Médicos supera meta e garante atendimento a mais de 51 milhões de brasileiros

6 de março de 2014

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Via Blog do Planalto

O Mais Médicos encerra seu quarto ciclo de seleção com a participação de mais 5.479 profissionais e previsão de chegar ao mês de abril com mais de 14,9 mil médicos atuando nos municípios do interior e na periferia das grandes cidades. Com isso, o governo federal passará a garantir assistência em atenção básica para mais de 51 milhões de brasileiros, ultrapassando a meta estabelecida para o programa no primeiro trimestre deste ano – de 13 mil médicos atendendo a 44,8 milhões de pessoas.

Entre os 5.479 médicos da quarta etapa estão 1.078 profissionais brasileiros que optaram por migrar do Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab) para o Mais Médicos e 4 mil cubanos que, assim como nos outros ciclos, vão ocupar as vagas não preenchidas pelos demais candidatos. Também integram o grupo os 401 candidatos selecionados em primeira chamada pelo edital, sendo 197 com diplomas do Brasil e 204 formados no exterior.

Atualmente, os 9.425 médicos que integram o programa estão distribuídos em 3.241 cidades e 32 distritos indígenas. Parte desse grupo, pouco mais de 2 mil, ainda está finalizando o processo de avaliação e deve iniciar o atendimento nos municípios em março.

Novo termo de ajuste

Os 4 mil profissionais cubanos do quarto ciclo chegarão, a partir de quarta-feira, dia 5, a seis cidades brasileiras – Gravatá (PE), Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Guarapari (ES), Fortaleza (CE) e São Paulo (SP), onde vão cursar o módulo de acolhimento e avaliação do programa junto com os demais estrangeiros.

A chegada deste novo grupo e a manutenção dos demais médicos que vieram ao Brasil por meio de cooperação entre o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) será viabilizada por um novo termo de ajuste deste acordo. O documento prevê investimento de R$973,94 milhões nos próximos seis meses, sendo 86% do valor previsto para os gastos diretos com o profissional, como o pagamento da bolsa-formação e da ajuda de custo de instalação. O aumento no valor se deve à presença de 11.400 médicos.

O novo termo, cujo extrato foi publicado no Diário Oficial da União nesta quarta-feira, segue o mesmo padrão do anterior, cujo cálculo de recursos considerou o pagamento de passagens, ajuda de custo e bolsa de formação mensal com base nos mesmos valores estipulados para os demais participantes do programa, sejam eles brasileiros ou estrangeiros. Além disso, o valor repassado à OPAS cobre os gastos com curso de acolhimento e avaliação de três semanas obrigatório a todos os participantes com diplomas do exterior, incluindo hospedagem, alimentação, estrutura física e equipamentos.

Na última semana, o Ministério da Saúde anunciou aumento do valor da bolsa recebido no Brasil pelos médicos cubanos, que passou para U$1.245, o equivalente a R$3 mil por mês. Este reajuste é resultado de articulação do governo federal brasileiro ao longo dos últimos meses junto à OPAS e ao governo de Cuba. O valor toma como parâmetro a bolsa para os médicos residentes no Brasil, de R$2.976 brutos.

O reajuste da bolsa repassado diretamente pelo governo de Cuba para os médicos será realizado sem qualquer custo adicional para o Brasil, mantendo o valor de referência de R$10,4 mil mensais por profissional.

As regras gerais adotadas entre o Brasil, a OPAS e o governo de Cuba para a realização do Mais Médicos seguem o mesmo padrão das demais cooperações realizadas por Cuba em 63 países para o provimento de profissionais de saúde.

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Ramona Rodriguez: Justiça nega liminar à desertora do Programa Mais Médicos

4 de março de 2014

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Via Brasil 247

O juiz Deodoro José de Carvalho Tavares negou a liminar em que a cubana Ramona Rodriguez pedia o bloqueio do valor de pagamentos feitos pelo governo brasileiro a Cuba, durante o período em que ela integrou o Programa Mais Médicos.

A médica, primeira desertora do programa, pede uma indenização de R$149 mil do governo brasileiro por discordar das discrepâncias entre os salários dos cubanos e de médicos de outras nacionalidades. Ela entrou com ação, com ajuda do DEM, para receber R$69 mil com relação a questões trabalhistas e mais R$80 mil por danos morais.

A ação leva em conta a postulação do Ministério Público do Trabalho (MPT), que alegou que o Mais Médicos se constitui em um vínculo de trabalho, e não em uma bolsa de especialização. De acordo com o órgão, é necessário igualar o salário dos médicos cubanos com os de outras nacionalidades, que recebem cerca de R$10 mil mensais. Os médicos de Cuba recebem cerca de R$960,00 mensais (US$400,00). O restante é mandado para o governo cubano. Atualmente, existem cerca de 7.400 médicos de Cuba trabalhando no programa.

Segundo a decisão da Justiça, publicada por Clarissa Oliveira, do Poder Online, o juiz Deodoro entendeu que, no caso de Ramona, o contrato firmado por ela com a Sociedad Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos S/A – que em acordo com a Organização Pan-americana de Saúde intermediou a prestação de serviços dos médicos cubanos ao Brasil – alterou as condições de trabalho. Assim, a União, segundo o juiz, passou a atuar como subsidiária pela contratação e não poderia ser responsabilizada pelo pagamento, no caso de uma eventual condenação. 

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Boa hora de a Dilma colocar em debate a democratização da mídia

25 de fevereiro de 2014
Cuba_Medicos59_Ramona

O caso da médica cubana desertora do Mais Médicos, explorado pela imprensa, mas sem abalar o eleitorado.

Não se deseja uma imprensa “chapa branca”, mas é hora de rever a hegemonia da expressão de um pensamento único representando a minoria do poder econômico.

Helena Sthephanowitz, via RBA

Na semana passada, três pesquisas nacionais de intenção de voto para presidente da República nas eleições de 2014 foram publicadas. Com pequena variação nos números, todas apontam uma vitória com folga de Dilma Rousseff em primeiro turno.

Os números refletem um pouco o tom do noticiário. Baixo desemprego e inflação em queda sustentam os níveis de popularidade. A sensação de maior segurança no emprego e de preservação do poder de compra com a renda são percebidas no cotidiano da população, mesmo que esses assuntos da maior importância para a vida das pessoas tenham sido tratados com discrição pela chamada grande mídia.

A tentativa de desqualificar a presença de médicos cubanos no Programa Mais Médicos a partir da “deserção” de uma médica cubana não surtiu o efeito desejado pela oposição. Foi visto pela população como o caso isolado que foi e só chama a atenção para o sucesso e importância do programa como um todo.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, durante protesto contra aumento da passagem de ônibus no Rio de Janeiro também ocupou intensamente o noticiário. Mas fez diminuir o apoio da população à manifestações, inclusive contra a Copa, pelos excessos.

O que bombou nos meios de comunicação foi a exploração política de um blecaute elétrico querendo forjar uma crise energética, as opiniões quase sempre negativas sobre números pinçados da economia que não correspondem ao conjunto da obra, a ênfase excessiva no atraso de algumas obras sem noticiar as que estão ficando prontas.

Houve também uma não notícia, que foi a escala em Lisboa de uma viagem presidencial, que ganhou grandes proporções. Críticas deturpadas sobre a geopolítica latino-americana na exportação de bens e serviços brasileiros para a construção do porto de Mariel, em Cuba, também foram alvo do noticiário que antecedeu as pesquisas divulgadas na semana passada.

A pauta negativa, quando deturpada, ou seja, sem refletir a importância real para o interesse público de cada notícia, indica que o governo perde a batalha da pauta do noticiário para a oposição partidária e midiática. Não se deseja uma hegemonia de uma imprensa “chapa branca” que seria até nociva para a depuração das instituições democráticas, mas também não há sentido haver uma hegemonia da expressão de um pensamento único representando a minoria do poder econômico com interesses contrariados pelo governo em detrimento dos grandes interesses populares.

Essa hegemonia da imprensa oligárquica tornou-se porta voz de um pensamento provinciano, não refletindo a nova dimensão, diversidade e complexidade da sociedade e da economia brasileira.

É verdade que na atual legislatura do Congresso Nacional não há apoio para uma reforma que democratize os meios de comunicação. Mesmo dentro da base governista, muitos parlamentares são donos ou ligados a emissoras de rádios, tevês, jornais e são avessos à mudanças. Ou temem ser retaliados no noticiário, se contrariarem os donos dos veículos.

Isso explica o governo Dilma, mesmo declarando reiteradas vezes ser favorável a um novo Marco Regulatório das Comunicações, não ter apresentado uma proposta de iniciativa do poder executivo. Afinal, mesmo que apresentasse um excelente projeto, perto de 80% dos parlamentares iriam descaracterizá-lo completamente com emendas ao gosto das atuais oligarquias midiáticas, tornando a iniciativa inócua.

Mas agora, ano eleitoral, quando por natureza há grandes debates, há a oportunidade para o governo também colocar em pauta propostas que levem a uma maior democratização dos meios de comunicação, independentemente da base de apoio no Congresso Nacional.

Nas próprias manifestações de rua, desde as jornadas de junho, os meios de comunicação oligárquicos sofreram severas críticas e entraram no rol dos alvos dos protestos. A democratização da mídia pode ganhar os corredores das faculdades e escolas técnicas, sobretudo nos cursos de comunicação social e multimídia, pela ampla oportunidade de aumentar a criação de empregos, com mais diversidade de veículos atuando.

Além disso, a própria mídia oligárquica terá assunto de verdade para fazer oposição ao governo, posicionando-se contra estas reformas democratizadoras, em vez de seus factoides no noticiário, tais como escalas técnicas do avião presidencial. Assim, inclusive, a coisa ficará mais clara, sobre os interesses que movem cada veículo de comunicação.

Certamente haverá um tensionamento inicial com os atuais donos da mídia, nada diferente do que interesses corporativos das associações médicas fizeram contra o Programa Mais Médicos. Mas fazendo a coisa certa, a população compreende e apoia, como aconteceu com o programa do Ministério da Saúde.

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25 de fevereiro de 2014
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Ainda como presidente, Lula deu início às conversas sobre a construção do Porto de Mariel. Agora, volta a Cuba para ver resultado.

Ex-presidente do Brasil debateu temas como energia e produção agrícola com lideranças cubanas, e visitou o porto de Mariel.

Via Opera Mundi

O líder cubano, Raul Castro, recebeu na terça-feira, dia 25, Luiz Inácio Lula da Silva, em Havana. Durante a viagem, o ex-presidente brasileiro debateu temas como energia e produção agrícola com lideranças de Cuba, além de visitar o Porto de Mariel. A última vez que Lula esteve no local foi em janeiro do ano passado.

O terminal, situado a 45 quilômetros ao oeste de Havana, está sendo construído pela Odebrecht e contou com um financiamento de US$682 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

A obra faz parte do projeto de integração latino-americana e poderá dotar a Cuba de uma moderna porta de saída marítima, que permitirá que indústrias brasileiras se instalem na Ilha e aproveitem a mão de obra local, incentivando cubanos a produzir e exportar a partir do próprio país.

Em janeiro, durante participação do encontro da Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) em Havana, a presidente Dilma Rousseff também visitou o Porto de Mariel. Na ocasião, a dirigente brasileira inaugurou, ao lado de Raul Castro, a primeira parte da Zona de Desenvolvimento do porto, que é considerado uma obra emblemática da colaboração entre Cuba e Brasil.

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24 de fevereiro de 2014

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Fernando Brito, via Tijolaço

A direita brasileira é tragicômica. Espalhou-se na internet o boato de que os 5 mil médicos cubanos que atuam no Mais Médicos estariam recebendo tornozeleiras eletrônicas como as de presidiários para evitar que debandassem para Miami.

Um monte de blogs e facebooks sem noção começaram a reproduzir a “nota” colocada por um gaiato direitista do Rio Grande do Norte, que se identifica como Joselito Müller, cuja imagem já é uma comédia, de que o Ministério da Saúde havia baixado uma portaria mandando colocar o tal artefato nos cubanos. Está exibida acima a imagem, ou as imagens, do post e da figuraça.

Nem assim. Tem um monte de gente – inclusive médicos – reproduzindo, “seriamente”, a palhaçada. É a histeria que as corporações médicas criaram.

Nem é, portanto, preciso dizer que tudo é falso, embora o Ministério da Saúde tenha sido obrigado emitir um insólito comunicado dizendo o óbvio.

Presos_Monitoramento01

Mais irônico ainda é que a tornozeleira da foto é tucana: é uma foto distribuída pelo governo de Minas Gerais, para ilustrar o uso de tornozeleiras em presidiários do estado, estrelada pelo Agente de Segurança Penitenciária Ferreira, da Secretaria de Defesa Social mineira.

Consta de um release distribuído pela Seds/MG no dia 17 de dezembro de 2012, onde se pode ver o Triângulo da Inconfidência no garboso uniforme do “agente de Fidel”.

Parece piada, e é. Eu, para ajudar, ainda acrescentaria que iam dar “anéis eletrônicos” de localização, em lugar de tornozeleiras, mas desistiram por causa da história dos dedos de silicone que médicos paulistas usavam para fraudar o ponto…

Mas não é piada, é tragédia que seja também em Minas que médicos, de fato, tenham de trabalhar usando tornozeleiras de presidiários. Pois é, porque apesar de condenados pela Justiça por terem – meu Deus! –três médicos que retiraram órgãos de uma criança ainda viva, o Conselho Regional de Medicina recusou-se a cumprir o pedido do Judiciário para cassar-lhes o registro profissional.

Não está acreditando?

Os doutores Sérgio Gaspar, Celso Scafi e Cláudio Fernandes foram condenados, respectivamente, a 14, 18 e 17 anos de prisão em regime fechado por submeter o paciente a procedimentos inadequados, adulteração de diagnóstico da morte encefálica e retirada, quando ele ainda estava vivo, dos órgãos do menino Paulo Pavesi, então com dez anos, em 2000.

Os dois últimos foram condenados pelo mesmo crime na morte do pedreiro José Domingos de Carvalho.

O fim seria o comércio ilegal de órgãos para transplante.

O Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais inocentou-os por não ver nenhum desvio ético em seus atos, apesar da longa, detalhada e apavorante sentença judicial. Eles foram absolvidos e poderão seguir clinicando.

Mas isso não é motivo de escândalo para nossos coxinhas e para as mentes deformadas dos radicais de direita. Afinal, os doutores não eram cubanos, eram mineiros.

O CRM/MG, presidido por um personagem que chamei de “Dr. Puliça” por ameaçar chamar a PM para encarcerar qualquer médico cubano que encontrasse atendendo doentes, diz que o juiz julga com a lei e eles, com a ética.

Dá pra notar que tipo de ética.

A direita mais feroz está à solta, armando, mentindo, forjando. E transformando a medicina, aos olhos da população, em uma triste piada.

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Leonardo Sakamoto: Quem vê cubanos como escravos nunca se indignou com escravos de verdade

21 de fevereiro de 2014

Escravidao07

Leonardo Sakamoto em seu blog

Do caso da fazenda Vale do Rio Cristalino, no Sul do Pará, que pertencia à Volkswagen, entre as décadas de 70 e 80, até a responsabilização da OAS por conta do resgate de trabalhadores em obras de ampliação do aeroporto internacional de São Paulo no passado, respeitáveis corporações foram envolvidas em denúncias relacionadas a esse crime.

Contudo, alguns dos paladinos da Justiça que agora erguem a voz contra a “escravidão” de médicos cubanos nunca abriram a boca para dar um pio sequer de solidariedade nesses casos supracitados.

E sabe por quê? Por que não dão e nunca deram a mínima se um trabalhador escravizado vive ou morre, nos campos ou nas cidades. Querem apenas ganhar sua guerra ideológica e política particular usando as ferramentas que têm em mãos, dobrando a lei para se necessário.

Mais de 45 mil pessoas foram libertadas desde 1995 pelo governo e um número maior do que isso permaneceu nessas condições. Muitos dos que “descobriram” a escravidão contemporânea agora irão “esquecer” logo que o argumento não lhes for mais útil.

Ou seja, se for para atacar Cuba e, com isso, constranger o governo brasileiro vale a pena batizar qualquer coisa de trabalho escravo. Criam-se os maiores malabarismos a fim de explicar que aquilo pode se enquadrar nessa forma de exploração. Mas alguém duvida que, quando todo esse furdunço desaparecer, se tentarmos ampliar o conceito para beneficiar o trabalhador brasileiro com a mesma facilidade com que agora fazem, iremos ouvir que não é bem assim que as coisas funcionam?

Por exemplo, quando o ministro Joaquim Barbosa usou a teoria do domínio do fato na condenação dos envolvidos no escândalo do “mensalão”, houve quem avaliasse que ela poderia ser usada na responsabilização de donos de empresas que se beneficiaram de trabalho análogo ao de escravo. Afinal de contas, não importa se eles sabiam ou não. Eles deveriam saber. Mas aí veio a turma do deixa disso, informando que a ideia só valeria para a Ação Penal 470 mesmo. Afinal de contas, garantia da qualidade de vida dos trabalhadores do país é assunto secundário na República.

O ponto é que, nessa discussão, em verdade, Cuba não importa. Afinal, isso é uma briga entre governo, oposição e os mensageiros de ambos para ver quem vence uma guerra fria. Porque ganha-se dinheiro tanto com a ditadura cubana quanto com a chinesa. Se eles, nesse processo, se matassem de tanto gritar uns com os outros, menos mal. Tava nem aí. Contudo, é uma pena que, no caminho, criem problemas para uma política de Estado, que perpassou governos, criada por Fernando Henrique, aprimorada com Lula, mantida por Dilma. Porque ampliar loucamente o conceito significa jogar os esforços do combate à escravidão no lixo. Se tudo é escravo, nada tende a ser.

Ou, façamos um combinado: bora ampliar o conceito e considerar os médicos cubanos como escravos!

Mas quero um compromisso de que assim que o último for “libertado”, passaremos a resgatar pelo menos uns 16 milhões de trabalhadores brasileiros em fazendas, indústrias, comércio e serviços, incluindo empresas de comunicação, que estariam no escopo de uma alargamento do conceito do que seja escravidão contemporânea. Ou seja, o problema sairia da casa de dezenas de milhares para 8% do país – em estimativas conservadores de juízes e procuradores ouvidos por este blog.

Também quero o compromisso de aprovar leis que estão bloqueadas no Congresso – e ajudariam a combater esse crime – pelos mesmos parlamentares que, agora, se fantasiam de Joaquim Nabuco. Como a proposta de emenda constitucional 57A/1999, que prevê o confisco de propriedades em que esse crime for encontrado. Ou a lei que cassa o CNPJ de quem usar escravos no país. E aproveitem e coloquem mais recursos nas rubricas de fiscalização e prevenção, porque elas desidratam quando chegam na análise de parlamentares.

E, por fim, alguns políticos poderiam parar de receber doações eleitorais de quem utiliza mão de obra análoga à de escravo. Quando defendi meu doutorado sobre o tema, em 2007, a situação já era uma esbórnia, imagina agora.

Um rosário de entidades sociais têm atuado nos últimos anos para não ceder às pressões da bancada ruralista no Congresso Nacional a fim de limitar absurdamente o que significa escravidão. Mas o oposto também tem sido feito, ou seja, evita-se que tudo seja chamado de trabalho escravo.

Tive a oportunidade de ajudar a criar uma das maiores ações coletivas do setor privado no Brasil, reunindo mais de 400 empresas, 30% do PIB, para evitar que essa terrível violação dos direitos humanos contamine a nossa economia e crie problemas para as nossas exportações. Nos últimos nove anos, centenas de empresas foram treinadas para serem capazes de entender o risco do trabalho escravo em suas cadeias de valor e adotarem medidas para mitigá-lo. Ou seja, o empresariado brasileiro já está percebendo e gerenciando esses riscos, evitando a perda de dinheiro.

Mesmo assim, quem afirma que não há evidência, até agora, de que o programa de médicos escraviza à luz de toda legislação brasileira, é chamado de “comunista”, de apoiador do governo ou do regime cubano. Uma besteira sem tamanho.

Comentaristas comuns de internet dizerem isso, vá lá. Grande parte vocifera sem saber o que diz, repetindo mantras. É café com leite. Mas “especialistas” tentarem dobrar a letra da lei para fazer caber é o ó do borogodó.

Quando o Mais Médicos apareceu, afirmei que uma coisa é a política pública em si, de levar médicos estrangeiros ao interior do Brasil em áreas carentes, que – a meu ver – está correta. Outra, que é muito ruim, foi a ideia equivocada de não pagar a totalidade do salário diretamente ao trabalhador, em um contexto em que muitos se veriam como vítimas de injustiça ao conviver com outros. A Justiça deve receber uma série de ações nesse sentido por parte dos envolvidos e terá que analisa-los sob a luz do tipo de contrato firmado.

Pois ao contrário de outros estrangeiros e brasileiros no programa, o governo federal contratou os serviços do governo cubano que, por sua vez, enviou servidores públicos para a tarefa, como em uma missão humanitária.

Particularmente, acho essa diferenciação na remuneração final o ó e creio que temos que lutar para que isso mude urgentemente, a despeito dos arranjos institucionais entre Brasil e Cuba. Mas a meu ver, até agora, não é trabalho escravo.

Dado que cada procurador do trabalho tem independência funcional, não acho difícil alguém entrar com uma ação por trabalho escravo contra a União – afinal, cada um conta com sua matriz de interpretação da realidade e possui diferentes experiências sobre o tema. Mas acho duro imaginar uma condenação final pelo tema. O que faço aqui é uma análise à luz de quem acompanha o combate ao trabalho escravo. E já criticou, mais de uma vez, atores públicos que tentaram alargar o conceito para além do que está no artigo 149 do Código Penal a fim de punir empresários fiscalizados.

Enfim, alguém gritou fogo no teatro lotado. E muita coisa que não é trabalho escravo vai começar a ser vista como tal. Quem deveria estar com os cabelos em pé são donos de fazendas de gado, siderúrgicas, construtoras, grandes magazines de roupas, usinas de cana…

De repente é até bom isso acontecer. Alguns amigos jornalistas, cuja condição de trabalho também desobedece “artigos da Constituição”, para usar uma expressão de um nobre jurista que alertou para a escravidão cubana, poderiam ser resgatados em suas redações pelo Ministério do Trabalho e Emprego usando um conceito ampliado.

Pessoal, aproveitem! É a sua chance de serem livres!

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