Posts Tagged ‘Fernando Lugo’

WikiLeaks: Desde 2005, golpista paraguaio treina seu exército nos EUA

16 de fevereiro de 2013
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Franco (ao centro) já planejava o golpe, treinando policiais e militares nos EUA.

Documentos do WikiLeaks revelam que os EUA treinaram centenas de policiais e militares paraguaios de 2005 a 2010, dentre eles, os futuros comandantes militares de Federico Franco.

Natalia Viana e Jessica Mota, via A Pública

O treinamento de membros das forças de segurança paraguaias é um dos principais elementos da política dos Estados Unidos para o país. Durante os anos do governo Lugo, deposto num impeachment-relâmpago em junho de 2012, a agência de assistência do Departamento de Estado, a Usaid, administrou investimento de US$9 milhões em treinamento policial – só nos anos de 2009 a 2011 – por meio do Programa Umbral.

Mas além da Usaid, milhões de dólares vindos de outras fontes foram aplicados no Paraguai. Por exemplo, o Global Peace Operations Initiative, programa do Departamento de Estado, em 2009 destinou US$4 milhões aos paraguaios que fazem parte das forças de paz no Haiti; o treinamento do Batalhão Conjunto de Forças Especiais do Exército recebeu US$5,7 milhões em assistência militar; e o programa antinarcótico do Departamento de Estado (INL) alocou US$753 mil no país em 2009 e 2010, segundo relatório da embaixada em Assunção (clique aqui).

Entre 2005 e 2010, foram quase mil militares e policiais paraguaios treinados pelos EUA. Os cursos abordavam de direitos da propriedade intelectual a treinamento de contra-insurgência e combate ao terrorismo, entre outros temas, e se realizaram em diversos locais, dentro e fora do Paraguai. Promotores, juízes, fiscais alfandegários (Aduanas, em espanhol) e diplomatas também receberam treinamento dos norte-americanos.

Não se tratava apenas de treinar as forças militares, mas de investir na formação de oficiais que ocupariam cargos de comando. Como os dois altos oficiais da Armada (Marinha) que seriam retirados por Lugo em 2009, em meio a rumores de planos para um golpe militar no país.

Outros oficiais treinados se tornariam peças-chave no governo de Federico Franco. O novo chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Militares, o general Pedro Aristides Baez Cantero, por exemplo, participou de um curso em outubro de 2005 no Centro de Estudos Hemisféricos de Defesa em Washington. O novo chefe de Estado-Maior da Armada, Sílvio Salvador Guanes Solis – o número 2 da Marinha –, também foi convidado a viajar aos EUA para participar de um curso de Gerenciamento de Crises em Washington em maio de 2009.

Em setembro do mesmo ano, os EUA financiaram a viagem de outros futuros membros do sistema de Defesa de Franco à base militar de Fort McNair, em Washington, para um treinamento sobre “Carreiras civis para Defesa”. Um deles era o vice-almirante Pablo Ricardo Luís Osório Fleitas, nomeado comandante da Armada cinco dias depois da posse de Franco, em substituição ao almirante Benitez Frommer, que foi compulsoriamente passado para a reserva por ter desmentido a versão de que o vice-presidente venezuelano, Nicolas Maduro, teria tentado insuflar um golpe militar em defesa de Lugo (saiba mais aqui).

Angel Damian Sabino Chamorro Ortiz, que se tornaria secretário-geral do Ministério da Defesa de Franco, participou não só do treinamento em Fort McNair, como também de um curso no Centro de Estudos Hemisféricos de Defesa em Washington, em 2008, sobre “Coordenação Inter-Agências para o Combate ao Terrorismo”.

Nesse último, teve como colega Luís Alberto Galeano Perrone, atual vice-ministro de Defesa de Franco, nomeado em 2 de julho de 2012 (clique aqui).

Quem quer uma base dos EUA no Paraguai?

O deputado colorado Mário Morel Pintos também participou do curso “Carreiras civis para Defesa” em Washington. Morel é uma voz civil proeminente no aparato de Defesa: entre 2007 e 2010, presidiu a Comissão de Defesa Nacional, Segurança e Ordem Interna da Câmara de Deputados. Hoje candidato a governador do Departamento Central, com apoio pessoal do presidenciável colorado Horácio Cartes (um dos principais articuladores do impeachment de Lugo), é um aguerrido defensor da instalação de bases norte-americanas no Paraguai.

O ex-ministro Bareiro Spaini, que saiu do governo de Lugo por desavenças com a embaixada norte-americana, lembra de ter sido abordado por Morel assim que assumiu o cargo, em 2008. “Pensamos que seria interessante convidá-los (os norte-americanos) para que venham instalar suas bases aqui’’, sugeriu o deputado colorado em um restaurante em Assunção.

Pouco depois da destituição de Lugo, o tema das bases norte-americanas no Paraguai voltou à tona, novamente através de um membro do Congresso. No dia 2 de julho do ano passado, o atual presidente da Comissão da Defesa da Câmara, José Lopez Chavez, do partido direitista Unace, disse ter mantido conversas com generais norte-americanos para negociar a instalação de uma base militar no Chaco, região fronteiriça com a Bolívia.

O ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim, que se coloca publicamente contra a ideia desde 2005, quando era chanceler, ameaçou isolar o Paraguai se o projeto seguisse adiante. Em entrevista ao Diário ABC Color, a ministra de Defesa do Paraguai, Maria Liz Cargia, também do Unace, afirmou: “Não podemos esquecer que estamos suspensos unilateral e injustamente do Mercosul. O Paraguai é livre para eleger os aliados que lhe convém.”

O Congresso paraguaio, em especial os membros de seus conselhos de Defesa, é grande defensor dos interesses dos Estados Unidos na área de militar. O ex-ministro de Defesa Luís Bareiro Spaini foi alvo de um pedido de destituição no Congresso depois que enviou uma carta à embaixadora Liliana Ayalde reclamando de “ingerência” dos Estados Unidos na política paraguaia. A reclamação de Spaini foi feita por causa de almoço na embaixada em que o vice Federico Franco falou em impedir o presidente Lugo – dois anos antes de sua deposição. Spaini acabou caindo alguns meses depois (leia mais sobre o caso).

“Me interrogaram no Congresso muitas vezes”, lembra o ex-ministro Spaini. “Não importava se eu tinha ou não responsabilidade.”

Os cursos de treinamento dos EUA

Segundo a legislação norte-americana (Lei Leahy), o governo está proibido de financiar treinamento ou assistência a unidades militares estrangeiras que tenham cometido violações a direitos humanos. Por isso, todos os nomes de oficiais treinados passam por uma checagem de background, feito pela embaixada.

A Pública analisou mais de 200 páginas de documentos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks, e a partir deles elaborou uma detalhada base de dados com o nome de quase mil oficiais treinados pelos EUA entre 2005 e 2010, entre militares – incluindo do Destacamento Conjunto de Emprego Imediato (DCEI), montado e financiado pelos EUA – policiais – como os corpos de elite Grupo de Especial de Operações (GEO) e Força e Operações da Polícia Especializada (Fope) – e fiscais de Aduanas. Também constam da lista promotores e juízes.

Há 12 cursos diferentes sobre combate ao terrorismo (um deles inclui treinamento em “contra insurgência”) – a grande maioria ocorrida em Assunção, no Paraguai – e outros sobre direitos de propriedade intelectual em Lima, no Peru, além de cursos para enfrentar a selva (o “Jungle Command Course”) – no caso, a colombiana.

Naqueles cursos oferecidos fora dos Estados Unidos, figuram dois importantes centros de treinamento mantidos pelos EUA.

Em El Salvador, o Departamento de Estado mantém uma academia de treinamento policial na capital, San Salvador. Ali foram treinados pelo menos 19 policiais paraguaios em cursos no final de 2008 e 2009.

Em Lima, no Peru, o mesmo programa mantém uma academia voltada para o treinamento de forças policiais estrangeiras. Em 2007, 2008 e 2009, pelo menos 70 policiais paraguaios foram treinados ali, em cursos de manejo de cenas de crimes, tráfico de armas leves, detecção de documentos fraudulentos e crimes contra propriedade intelectual.

Apesar de todos os nomes terem sido checados pela embaixada norte-americana para verificar eventuais registros de abusos contra direitos humanos, isso não significa que todos os trainees tivessem uma reputação ilibada.

É o caso de militares de alta patente da Marinha reformados por Fernando Lugo em 2009, em meio a rumores de planos para um golpe militar: o contra-almirante Benigno Antônio Tellez Sanchez, aposentado em março de 2009, e o contra-almirante Claudelino Recalde Alfonso, substituído em novembro do mesmo ano.

O coronel do Exército Carlos Javier Casco Prujel, que recebeu um treinamento para emprego rápido em campo, em Assunção, em julho de 2008, foi detido por corrupção em julho de 2010. Também há casos de fiscais de Aduanas treinados pelos EUA flagrados pedindo propinas a contrabandistas e de um ex-chefe da polícia, Hermes Enrique Argana, detido com 5 quilos de pasta-base de cocaína cinco anos depois de ter participado de um treinamento antiterrorismo em Assunção.

O golpe e o franquismo no Paraguai

27 de novembro de 2012

Um dos pontos centrais do livro Franquismo no Paraguai. O Golpe, da socióloga Lorena Soler e do pesquisador italiano Rocco Carbone, é perguntar o que significa hoje a palavra “golpe”. Em uma conjuntura onde os processos políticos transformadores vivem com o fantasma da desestabilização às costas, surge a interrogação de como nomear as estratégias da direita continental. O livro compila uma série de ensaios, apresentados como “intervenções urgentes” a partir da destituição de Fernando Lugo da presidência do Paraguai no dia 22 de junho deste ano.

Federico Vázquez, via Carta Maior

Resenha do livro Franquismo no Paraguai. O Golpe, de Rocco Carbone e Lorena Soler (EDS) El 8vo. Loco Ediciones, Buenos Aires, 2012. pp.148.

“A orfandade social dessa praça era acaso a orfandade política de um presidente em retirada”, escreve – mordaz e provocadoramente – a socióloga Lorena Soler na introdução do muito recomendável Franquismo no Paraguai. O Golpe, livro onde ela, juntamente com o pesquisador italiano Rocco Carbone, compila uma série de ensaios, apresentados acertadamente como “intervenções urgentes” a partir da destituição de Fernando Lugo da presidência do Paraguai.

Um dos pontos centrais do livro é perguntar por que, paradoxalmente, leva em seu título uma caracterização determinante, mas ao mesmo tempo aberta: o que significa hoje a palavra “golpe”. Em uma conjuntura onde os processos políticos transformadores vivem com o fantasma da desestabilização às costas, surge a interrogação de como nomear as estratégias da direita continental. Até que ponto os mecanismos usados no Paraguai (ao qual se deve acrescentar Honduras e as tentativas fracassadas no Equador e na Bolívia) têm uma continuidade cristalina com o golpismo do século 20, e até onde são produto de outra época, na medida em que estes novos golpes são praticados sob formas institucionais, mas sejam de duvidosa legitimidade.

É uma questão que aparece no começo do artigo de Milda Rivarola, destacada socióloga paraguaia. “As opiniões contraditórias sobre o ocorrido em 22 de junho de 2012, dentro e fora do Paraguai, delatam o caráter confuso e obscuro desse evento. A variedade de categorizações beira o absurdo: golpe de Estado, substituição constitucional, golpe parlamentar (com ou sem colarinhos brancos), ruptura institucional, uso de atribuições legais do Congresso, julgamento expresso, mecanismo normal e legal, quebra ou ruptura democrática etc”.

Soler ilustra isso com uma mensagem que uma amiga enviou de Buenos Aires, enquanto ela estava em Assunção, no dia da destituição de Lugo: “Esconda-se na embaixada argentina, pede asilo e daí que te extraditem a teu país. Não corra perigo, Haverá fogo”. Como explicar em uma mensagem cifrada que não estávamos em 55, nem em 73 ou em 76. E, ao mesmo tempo, que Lugo era o melhor presidente possível de toda a história política do Paraguai e o que havia acontecido era um golpe de Estado. E que Franco era, por isso, um ditador. Em todo caso, as categorias utilizadas até agora já não podiam explicar a complexidade desse processo”.

Complexidade que, no caso paraguaio, tem um de seus marcos na passagem da ditadura de Stroessner aos governos democráticos, sem que houvesse mudança de partido político, conformando assim uma “transição sem alternância”, como assinala Waldo Ansaldi. Mas a raiz desse processo pode ser buscada mais atrás, e Ansaldi agrega a centralidade do conflito agrário (cabe lembrar que a faísca que acendeu o julgamento foi um enfrentamento entre camponeses sem terra e a polícia). A conta pendente da reforma agrária foi um dos temas que opuseram, desde o início, Lugo e seu vice e futuro conspirador, Federico Franco.

O texto de Rocco Carbone aponta outra questão, que se estende a todas as demais experiências continentais. “Como símbolo destes tempos, um dos lugares onde houve manifestações de apoio a Lugo foi precisamente a sede da TV Pública”. O texto marca bem um terreno fronteiriço, onde o luguismo parece ter feito as coisas na direção correta, mas demasiado tarde: o canal estatal foi um empreendimento que tinha apenas meses de vida e, ainda assim, foi um dos poucos espaços onde se percebeu certa resistência civil frente à destituição presidencial.

Uma “batalha cultural” que, no caso paraguaio, significa algo mais profundo, uma chaga subcutânea que durante a presidência de Lugo – mesmo com suas contradições – foi trazida à superfície, mediante os gestos simbólicos de um poder que, pela primeira vez, olhava em uma direção distinta da tradicional. Algo que aparece presente no trabalho de Juan Carlos Rodríguez, Os motivos do Lobo: “Fernando Lugo cometeu outro pecado grave. Ter em torno de si gente de esquerda, ou simplesmente, pobre. É verdade que seu entorno incluía também liberais, colorados, técnicos e independentes. E não havia muita gente de esquerda em postos decisivos de poder, como a Agricultura, Obras Públicas, Fazenda ou Defesa. Mas frequentava sindicatos de trabalhadores, sobretudo camponeses, quando anteriormente tinham acesso à “coroa” empresários, militares, políticos ou embaixadores. A corte desse bispo incluía convidados indesejáveis. Isso era execrável para a sociedade mais excludente do continente”.

Ricardo Aronskind, por sua vez, avalia o ocorrido no Paraguai dentro de uma disputa regional, assinalando que “assim como os governos progressistas de nossa região, apesar de serem muito diferentes e responderem a realidades nacionais muito diversas, os setores retrógados da América do Sul também compartilham uma série de valores que os caracterizam. Todos eles carecem de projetos nacionais autônomos”.

Mas a lupa tem que ser colocada sobre a singularidade de um país traumatizado por sua história desgraçada. Em um continente pacífico para os padrões internacionais, o Paraguai é uma exceção que confirma a regra. O imaginário da Guerra da Tríplice Aliança teve seu papel na conjuntura atual, apesar do século e meio de distância. Rossana Gómez sustente assim que “o golpe parlamentar não buscou só na legalidade suas fontes de legitimidade. Conforme foram surgindo as reações internacionais, ele foi buscando outros argumentos e os encontrou em velhos relatos nacionalistas”.

Finalmente, a pluma de Martín Rodríguez localiza esse relato de nação junto às perguntas sempre incômodas sobre o processo de integração regional, do qual o Paraguai segue sendo protagonista e vítima ao mesmo tempo.

“O Paraguai tem em seu disco rígido a pergunta da região: para que serve a região? A história revisionista joga lenha na fogueira dessa memória porque afirma incansavelmente: “O Paraguai sofreu um genocídio, mataram seus homens, destruíram a primeira experiência de Estado de bem-estar, populismo, ferrovias, fábrica de pólvora”“.

E assim, a lista enlaça um passado mítico em estado de sonho eterno. Quase a história de um país inventado. O Mercosul, essa afável expressão de desejos, é uma forma de nomear – aos olhos paraguaios – uma deformidade de outras tríplices alianças da paz que perduram como conspiração burocrática contra o país condenado a ter saída para o mar. E, para essa cultura eternizada, Lugo também foi um forasteiro.

Além dos autores assinalados, o trabalho de Soler e Carbone traz contribuições de Emir Sader, Ana Inés Couchonnal Cancio, Ticio Escobar e Gerardo Halpern.

Tradução: Katarina Peixoto

Presidente golpista do Paraguai diz que não permitirá nova candidatura de Fernando Lugo

6 de novembro de 2012

Federico, o pau mandado dos EUA

O golpista barato e fantoche dos EUA Federico Franco acusa Unasul de não ser neutra e de ser manipulada por Hugo Chavez.

Via Opera Mundi

O atual presidente do Paraguai anunciou no sábado, dia 3, que não permitirá uma nova candidatura do líder das esquerdas, Fernando Lugo. Em meio a uma conferência na cidade de Caacupé, Federico Franco alegou que a única coisa que seu antecessor pretende é “manchar” os comícios das eleições de setembro de 2013.

A advertência surge como uma resposta de Franco ao anúncio de que Lugo pretende recuperar a Presidência do país por vias democráticas no ano que vem. Embora não haja nenhuma candidatura oficial, Franco já argumenta que “respeitará a Constituição e as leis” e que, segundo esse raciocínio, impugnará qualquer chapa liderada por Lugo.

Na visão de Franco, o presidente deposto conspira para que sua candidatura seja impugnada e a Unasul não reconheça os resultados das eleições. Por essa razão, o presidente também deixou claro que não permitirá a entrada dos observadores do organismo. A seu ver, a Unasul não é neutra e é controlada pelo presidente venezuelano Hugo Chavez e sua Aliança Bolivariana para os Povos de nossa América (Alba).

Fernando Lugo foi destituído do poder após uma crise política originada pelo confronto entre policiais e líderes campesinos em meados de junho, na região norte do país. O presidente foi obrigado a deixar o poder após um processo de impeachment de 48 horas.

Presidente golpista pode sofrer impeachment no Paraguai

18 de outubro de 2012

Além de golpista, Federico Franco enriqueceu ilicitamente.

Via Página/12 e lido no Carta Maior

Senadores paraguaios estudam a possibilidade de abrir um processo de impeachment e de iniciar ações penais contra o presidente Federico Franco pelas irregularidades em sua declaração de bens e pelo aumento de 700% de sua fortuna pessoal em apenas quatro anos. Franco assumiu a presidência depois de um golpe constitucional contra Fernando Lugo, que foi destituído após um julgamento político que durou apenas 24 horas.

Franco justificou ontem o aumento de seu patrimônio nos últimos quatro anos, desde que chegou à vice-presidência, em 2008. O jornal Ultima Hora denunciou que seu patrimônio aumentou de US$150 mil, em 2008, para mais de US$1 milhão, em 2012.

“Houve um grave erro desde o ponto de vista da avaliação de meu imóvel”, disse Franco em uma coletiva de imprensa. O mandatário disse que pediu uma nova auditoria à Controladoria da Nação, o órgão encarregado dessa tarefa.

O pronunciamento dos legisladores, que ainda não foi apresentado ante o Parlamento, ocorreu logo depois da declaração de Franco à Controladoria, em agosto passado, se converter em uma verdadeira tormenta política.

O senador do Partido País Solidário, Carlos Fillizola, considerou que a descoberta do aumento do patrimônio pessoal de Franco “somada às acusações anteriores de nepotismo existentes contra ele, justificam que ele seja submetido a um julgamento político”.

Por sua parte, o senador Hugo Estigarribia, do Partido Colorado, avaliou que a Procuradoria deve investigar Franco, porque suas justificações sobre o tema “não o eximem da correspondente responsabilidade penal pelo ocorrido e ele pode ser acusado de ter prestado falsa declaração”.

Paralelamente, o procurador anticorrupção, Carlos Arregui, disse que, apesar da tentativa de Franco de “arrumar” sua declaração de bens, a Controladoria pode determinar que isso não é compatível com os fatos e, neste caso, o Ministério Público abrirá uma investigação penal.

Tradução: Katarina Peixoto

Golpe no Paraguai: Relatório indica que polícia paraguaia provocou massacre anterior à queda de Lugo

15 de setembro de 2012

Camponeses observam corpo de camponês morto durante o confronto na zona rural de Curuguaty.

Investigação da Missão Internacional de Solidariedade e Direitos Humanos contradiz versão de autoridades paraguaias

Via Opera Mundi

Os responsáveis pelo massacre de Curuguaty, que desencadeou o processo de destituição do presidente Fernando Lugo, são policiais, de acordo com uma investigação independente paraguaia. A tragédia, que deixou 11 sem-terra e 7 policiais mortos na zona rural paraguaia, aconteceu durante o desalojamento de sem terras que ocupavam uma propriedade de 2 mil hectares.

O relatório preliminar da Missão Internacional de Solidariedade e Direitos Humanos, divulgado nesta terça-feira (11/09), contradiz as conclusões das autoridades paraguaias ao apontar que a responsabilidade pela tragédia não é dos camponeses.

A partir de entrevistas com testemunhas, familiares e vítimas, o grupo concluiu que os trabalhadores sem-terra foram cercados pela polícia em duas frentes e que muitos foram executados. Segundo sua investigação autônoma, o dirigente sem-terra Avelino Espínola foi atingido pelo primeiro disparo.

A investigação do governo paraguaio, que está nas mãos da Seção de Homicídios do Departamento de Investigação de Delitos, aponta exatamente o contrário. Para Gilberto Freitas, oficial responsável pelo caso, os camponeses organizaram uma emboscada aos policiais e começaram a atirar entre 10 a 15 metros de proximidade contra o efetivo de 400 oficiais.

“A missão constatou que 54 pessoas foram acusadas arbitrariamente por sete delitos penais (homicídio doloso, tentativa de homicídio, grave lesão, associação criminal, coação grave, coação e invasão) já que se carece de indícios minimamente suficientes”, diz o relatório se referindo aos camponeses presos pela matança.

De acordo com as informações recolhidas, a Justiça paraguaia chegou a prender pessoas que nem mesmo estavam presentes no local no dia 15 de junho, momento do massacre. O grupo acredita que os promotores e investigadores responsáveis pelo caso se basearam em uma antiga lista de famílias assentadas em Curuguaty para fazer as acusações.

Além disso, a comissão afirma que as autoridades paraguaias não reconheceram todos os mortos. “É notório que um número significativo de feridos e cadáveres foi reconhecido pela população e não pelas instituições responsáveis”, afirma.

Violação dos direitos humanos

A investigação ainda revelou que as autoridades paraguaias violaram os direitos humanos dos sem-terra antes e depois do massacre. “Os depoimentos das vítimas do grupo camponês denunciaram presença policial diária com ameaças de desalojamento”, afirma o documento.

“Numerosos depoimentos coincidem que houve execuções, perseguições, ameaças de morte, torturas físicas e psicológicas e desatenção médica aos campesinos durante o operativo, imediatamente depois e nos dias seguintes do 15 de junho”, acrescenta. O texto relata diversos casos de detentos que possuem ferimentos decorrentes do massacre, mas que o acesso ao hospital lhes foi negado por juízes.

Os integrantes da Missão Internacional se instalaram em Curuguaty entre os dias 5 e 9 de setembro, onde montaram um centro de levantamento e processamento de dados. Baseados nestes dias de trabalho, a comissão elaborou um relatório preliminar, mas pretende escrever um relatório completo no final do ano para entregar às Nações Unidas e à OEA (Organização de Estados Americanos). O grupo é constituído por diversos movimentos sociais e campesinos paraguaios e internacionais e organizações de direitos humanos.

Massacre

Em Curuguaty, uma localidade rural no nordeste do Paraguai, forças policiais tentaram desalojar um grupo de camponeses sem-terra que ocupavam uma propriedade de 2 mil hectares, apropriada irregularmente por um empresário e político da ditadura, Blas Riquelme. A polícia interviu e se iniciou um batalha que acabou com 17 mortos (11 camponeses e 6 policiais) e mais de 20 feridos.

Foi a mais grave tragédia desde o fim da ditadura no Paraguai, que tocou um dos temas mais sensíveis no país: a alta concentração das terras e a grande pobreza no campo. No Paraguai, 80% de terras férteis estão nas mãos de 2% da população, concentrando-se no agronegócio de alta produtividade, que gerou um crescimento econômico de 14,5% em 2010, mas ao custo de uma taxa de 39% da população vivendo abaixo dos níveis de pobreza e 19% em situação de pobreza extrema, segundo dados do censo nacional.

A reforma agrária, para acabar com essa dívida antiga com os setores mais humildes camponeses do Paraguai, foi uma das principais promessas eleitorais de Fernando Lugo.

O massacre de Curuguaty foi explorado pelos líderes do Partido Colorado para vender a ideia de que Lugo foi o principal responsável pela morte de 11 camponeses e seis polícias. “Hoje temos um país sem lei, e o presidente Lugo é o principal responsável”, disse Lilian Samaniego, presidente do Partido Colorado, ao anunciar na noite de segunda-feira (18/06) que seu partido havia decidido pedir o impeachment do chefe de Estado no Parlamento.

Políticos paraguaios mantêm mentalidade da Guerra Fria

2 de setembro de 2012

Para ex-chanceler, classe política paraguaia rejeita Venezuela no Mercosul por personificar comunismo na figura de Chavez.

Para Lara Castro, EUA foram coniventes com golpe no país e Venezuela ajudará a diminuir assimetrias no Mercosul.

Via Opera Mundi

Os setores poderosos do Paraguai não se adequaram ao contexto mundial posterior à Guerra Fria. Esta é a tese do ex-ministro de Relações Exteriores Jorge Lara Castro para explicar a destituição do presidente Fernando Lugo, em junho, e a rápida iniciativa do governo de Federico Franco em favor da entrada de multinacionais no país.

Para o ex-chanceler, a rejeição local à adesão da Venezuela ao Mercosul se deve à mentalidade de uma classe política que parou no tempo e insiste na luta contra o comunismo, personificado atualmente na figura de Hugo Chavez.

Em entrevista ao Opera Mundi, Lara Castro explica como as tentativas de transformar o modelo socioeconômico do país levaram à derrocada de um governo eleito democraticamente em 2008. Discorre também sobre o isolamento do Paraguai após as sanções regionais e as potencialidades de contribuição da Venezuela para o desenvolvimento local.

***

Opera Mundi: Como o senhor analisa o impacto provocado pela destituição do presidente Lugo na política externa paraguaia?

Jorge Lara Castro: Antes de 2008, a política exterior refletia a manutenção de um modelo agro-exportador baseado na exploração irracional da terra e no sacrifício humano de milhares de pessoas. O governo Lugo redefiniu essas relações, priorizando a recuperação da soberania e uma integração regional centrada não somente no comércio, mas no desenvolvimento econômico e social. Isso fez com que o Paraguai melhorasse sua imagem, antes altamente negativa e marginal, no cenário internacional. Isso se deve a um maior contato em nível presidencial e da participação ativa da população nas discussões sobre a recuperação de recursos estratégicos. Mas com a suspensão do Paraguai no Mercosul e na Unasul, a consequência foi o isolamento do país e um retrocesso no trabalho que tínhamos iniciado.

OM: Mas este quadro de concentração de terra e modelo agro-exportador começou a ser revertido?

LC: Geramos confiança externa, que resultou no aumento de investimentos diretos e no crescimento econômico. Evoluímos muito no âmbito do Mercosul, em relação ao orçamento, à organização institucional e ao processo de integração, o que criava condições para a mudança do modelo. Contávamos com grande solidariedade da região, mas isso não pode ser feito de um dia para o outro. Não houve mudanças substantivas na estrutura, mas geramos espaços de participação entre setores excluídos e marginalizados.


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