Posts Tagged ‘Falha de S.Paulo’

Relações da mídia com a ditadura: Um histórico debate da Falha de S.Paulo

21 de fevereiro de 2013
Bacuri03_FT

Eduardo Leite, o Bacuri, soube antecipadamente de sua morte. Seus torturadores, no cativeiro, mostraram para ele a Folha da Tarde do dia anterior. O jornal afirmava que ele havia fugido da prisão e metralhado.

Idelber Avelar, via Desculpe a nossa falha, texto publicado em 6/4/2012

Aconteceu na noite de quinta-feira [5/4/2012], na Casa Fora do Eixo, em São Paulo, um programa histórico da #posTV de Lino Bocchini, sobre o tema da cumplicidade entre a mídia brasileira e a ditadura militar de 1964–1985.

Reuniram-se Lino, a jornalista Thaís Barreto, do Núcleo da Memória, a pesquisadora Beatriz Kushinir e o jornalista e escritor Alípio Freire. Bia talvez seja a principal pesquisadora brasileira das relações entre a mídia e a ditadura, e é autora do livro Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2004), fruto de sua tese de doutoramento na Unicamp, para a qual realizou mais de 60 entrevistas. Alípio foi militante da Ala Vermelha, grupo dissidente do PCdoB. Preso pela Operação Bandeirantes em 1969, esteve no Dops, no Presídio Tiradentes, na Casa de Detenção do Carandiru e na Penitenciária do Estado de São Paulo. Trabalhou duas vezes na empresa Folha, a primeira em 1968 e depois de 1975 a 1979, período no qual testemunhou a demissão de Cláudio Abramo a pedido do 2º Exército.

No programa, Beatriz explica que dois fatos serviram de trampolim inicial para sua pesquisa. Os dez primeiros censores que chegaram a Brasília para servir à ditadura eram jornalistas, o que por si só já coloca em pauta a cumplicidade que norteia o livro. Em segundo lugar, na morte de Joaquim Alencar de Seixas sob tortura, no DOI-Codi (SP), ocorrera um fato curioso: seu filho Ivan Seixas, também torturado pelo carniceiro David dos Santos Araújo (que trucidava seres humanos no DOI-Codi com o codinome “Capitão Lisboa”), lera na Folha da Tarde a notícia da morte do pai 24 horas antes de que ela ocorresse. Numa saída com os torturadores, Ivan vê a manchete e, depois de regressar ao inferno do DOI-Codi, encontra seu pai ainda vivo. Ele só seria assassinado um dia depois.

O episódio mostra – e há outros do mesmo tipo – que a colaboração da Folha com a ditadura militar foi além do apoio puro e simples, em editoriais golpistas antes de 31/3/1964 e em sustentação ideológica depois de instalado o regime. Essa colaboração também incluía a produção antecipada da mentira sobre a morte, manchetada, em geral, como resultado de um tiroteio ou um acidente antes que o regime procedesse ao assassinato da vítima. No momento do assassinato, a vítima já estava, perante os olhos do público, “morta como resultado de tiroteio [ou acidente]”. A morte de Eduardo Leite, o Bacuri, assassinado pela ditadura, também foi anunciada antecipadamente, e de forma mentirosa, pela Folha. Seus torturadores chegaram a lhe exibir, no cativeiro, os jornais que afirmavam que ele havia fugido da prisão.

A pesquisa de Bia Kushnir e o testemunho de Alípio Freire também confirmam a já conhecida história do empréstimo de carros do grupo Folha às operações do DOI-Codi. Os carros serviram para albergar agentes da repressão em eventos de protesto contra a ditadura, para que dali eles capturassem ativistas de esquerda com mais facilidade. Os carros também foram usados para transportar presos políticos.

O programa de Lino, que é uma verdadeira aula de história do Brasil, também tocou no tema da autocensura e da delação. Como exemplo desta última, Alípio citou fato ocorrido no dia 7 de setembro de 1975, quando ele trabalhava na TV Bandeirantes. Alípio afirmou que depois de editada sua matéria sobre os desfiles, Roberto Corte Real, locutor do jornal do meio-dia, telefonou para a Polícia Federal, que recebeu cópias do programa.

No esforço de desarquivar o Brasil, é importante também abrir a caixa preta da imprensa, inclusive para que os jornalistas que hoje lá trabalham possam saber um pouco mais sobre a história que lhes precede. Apesar da pesquisa pioneira de Beatriz e dos vários testemunhos de militantes antiditadura como Alípio, é impressionante como ainda sabemos pouco sobre esse capítulo do Brasil.

Vitória da vergonha: Folha consegue manter censura do blog Falha de S.Paulo

20 de fevereiro de 2013

Folha_Caminhonete02.Felipe Rousselet, via Blog do Rovai

O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu na quarta-feira, dia 20, que o blog Falha S.Paulo deve continuar fora do ar. O blog, criado pelos irmãos Mário e Lino Bocchini, era uma divertida paródia do jornal Folha de S.Paulo e brincava com os recorrentes erros da publicação.

A decisão de manter a censura ao Falha de S.Paulo deixou de lado todo o debate sobre liberdade de expressão e se baseou apenas nas leis de mercado. O desembargador Edson Luiz de Queiroz manteve o blog fora do ar com a justificativa da similaridade entre o nome Falha de S.Paulo e a marca registrada pela Folha de S.Paulo.

Além de um caso óbvio de censura judicial, a manutenção da censura ao Falha de S.Paulo abre um precedente perigoso para a liberdade de expressão, principalmente em relação à sátira e à ironia.

Por exemplo, que se cuide o programa Pânico da TV, exibido pela Bandeirantes. Ao satirizar novelas da Globo, o humorístico costuma utilizar-se do mesmo recurso utilizado pela Falha de S.Paulo. Um quadro que faz uma paródia da novela Salve Jorge, da TV Globo, chama-se Salve George. Todo cuidado é pouco de agora em diante. A não ser que o que se fez com a Falha só seja utilizado contra veículos de comunicação que não se alinham ao piguismo.

Este blogueiro faz coro as palavras do relator especial da ONU para a liberdade de expressão, Frank La Rue, sobre o caso Falha × Folha: “É interessante esse uso da ironia que vocês fizeram usando as palavras Folha e Falha. Uma das formas de manifestação mais combatidas hoje em dia, e que deve ser defendida, é o jornalismo irônico”, disse em visita ao Brasil.

Este julgamento transformou uma questão de liberdade de expressão em um debate comercial com um único objetivo: calar os críticos do jornalão da família Frias. Ou alguém consegue ser ingênuo o suficiente para acreditar que o que incomodou a Folha foi a questão comercial, a similaridade do seu nome com o domínio de um blog sem nenhuma publicidade ou outra modalidade de retorno financeiro?

A vitória da Folha é a vitória da censura. Mas para um veículo de comunicação que colocava seus carros à disposição dos órgãos repressores e que hoje em dia ainda diz que vivemos naqueles dias uma ditabranda, isso não deve representar muita coisa.

Na quarta-feira, dia 20, justiça decidirá se o site de humor Falha de S.Paulo continuará censurado

14 de fevereiro de 2013
Falha_de_SP_Otavinho

O logotipo proibido e Otavinho Vader, uma de nossas fotomontagens originais.

Lino Bocchini, via Desculpe a nossa falha

O disputa jurídica Folha × Falha vai ser julgada em 2ª instância na quarta-feira, dia 20, pela 5ª turma de desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo. Você pode se perguntar: “Ótimo, sorte pra vocês. Mas o que essa briga da Folha com a Falha tem a ver comigo?”. Tudo. É fácil entender, por gentileza perca mais dois minutos e leia esse texto até o final. Segundo o próprio juiz de 1ª instância, Gustavo Coube de Carvalho, trata-se de um caso sem precedentes no Brasil. Nunca antes um grande veículo conseguiu tirar do ar judicialmente um site ou blog que o criticasse. Na ausência de jurisprudência em solo nacional, o magistrado chegou a citar casos dos EUA, onde, aliás, paródias assim são permitidas.

A alegação central da empresa da família Frias é a de que a Falha fazia “uso indevido da marca”, e que o logotipo e o nome registrado eram parecidos demais com os originais. Acontece que para toda blogosfera nacional, para a organização Repórteres sem Fronteiras, pro relator da ONU para a liberdade de expressão, para o Financial Times e outros veículos internacionais de peso, pro Marcelo Tas, para deputados federais de dez partidos, pro Gilberto Gil e até para Julian Assange, paródias e críticas como as feitas pela Falha não são motivo para censurar ninguém.

Há quase 100 anos, Barão de Itararé satirizou o jornal A Manhã criando a A Manha. De lá pra cá, dezenas de outros casos, no Brasil e no exterior, foram na mesma linha – lembra da Bundas de Zirado, que parodiava a Caras? E, desde os tempos do Barão de Itararé, ninguém censurou ninguém. Mas aí vieram os barões de Limeira.

Estamos fora do ar a pedido do jornal desde outubro de 2010, com uma ameaça de multa diária de R$1 mil caso voltemos. O juiz que concedeu a liminar foi até “bonzinho”: o pedido original da Folha era de uma multa de R$10 mil por dia se continuássemos no ar com nossas críticas. Esse site, o Desculpe a Nossa Falha, não contém nada do que estava no site original. Em 1ª instância, o final da censura foi negado, e agora vamos ao segundo round. A decisão final abrirá uma jurisprudência, ou seja: em casos semelhantes no futuro, os juízes devem basear sua decisão em um caso anterior semelhante já julgado em definitivo. O que for decidido na batalha Folha × Falha vai balizar decisões futuras. E é aí que mora o perigo.

Angeli_WikiLeaks

Precedente perigoso: essa charge do Angeli, publicada na Folha poucos dias após sairmos do ar, poderia ser censurada pelo McDonald’s, utilizando-se dos mesmíssimos argumentos que o jornal usou contra nós.

O embate central é entre a versão da Folha, que pratica censura travestida de proteção à marca versus a versão da fAlha, que evoca a liberdade de expressão. Em caso de vitória do jornal, o precedente que se abre é tão grave que joga contra a própria empresa, que poderá ser processada e condenada em publicação de algumas charges ou colunas do Zé Simão, por exemplo. A própria advogada Taís Gasparian, que assina o processo de 88 páginas contra nós (irmãos Mário e Lino Bocchini), em 2009, fez outra avaliação. Ao defender José Simão contra um processo que tentava censurá-lo, escreveu: “Tratar o humor como ilícito, no fim das contas, é a mesma coisa que censura.” Assinamos embaixo.

Defesa pública da censura

O julgamento da quarta-feira, dia 20, será interessante. Começará às 9 horas e haverá sustentação oral dos advogados de cada parte. Será a primeira vez, desde o começo do processo, que algum representante da Folha vai falar, defendendo a censura publicamente. Qualquer um pode assistir, é só estar na 5ª turma do TJ/SP às 9 horas. A presença da imprensa também é permitida, naturalmente. E, a exemplo do julgamento do chamado “mensalão”, seria muito interessante uma transmissão ao vivo, mas, para isso, algum veículo de imprensa tem que solicitar ao TJ, e o mesmo deve autorizar.

Por fim, um pedido singelo: por favor ajude-nos a divulgar o caso. Reproduza esse texto em seu blog, Facebook e Twitter. Ou então escreva sobre o tema com suas próprias palavras. Se animar, de repente, vá acompanhar o julgamento ao vivo.

Por motivos óbvios, a imprensa convencional irá ignorar o caso. Daí nosso apelo. Obrigado.

SERVIÇO

Sessão de julgamento da Folha × Falha

Data: 20 de fevereiro, quarta-feira

Horário: 9 horas

Local: Palácio da Justiça de São Paulo

Endereço: Praça da Sé, s/nº, 5º andar, sala 511

Lado esquerdo das escadarias da Estação Sé do Metrô

Falha_Folha07

Lino Bocchini: “Liberdade de expressão só é garantida para quem tem dinheiro.”

17 de dezembro de 2012
Mário e Lino Bocchini com o relator da ONU. (Foto: Fora do Eixo)

Mário e Lino Bocchini com o relator da ONU. (Foto: Fora do Eixo)

Nathália Carvalho

Com liminar que prevê multa diária de R$1.000,00 o blog Falha de S.Paulo segue fora do ar e sem veicular conteúdo. Em conversa com o site Comunique-se, o idealizador da página que satiriza a Folha, Lino Bocchini, diz que, no País, a liberdade de expressão não é garantida para todos. “A censura é proibida em tese, mas, na prática, ela só é garantida para quem tem dinheiro.”

O assunto voltou a ser debatido quando, na quinta-feira, dia 13, a situação foi apresentada ao relator especial da ONU para a Liberdade de Expressão, Frank la Rue. Na ocasião, Lino conta que o representante não entendeu os motivos de o jornal ter aberto o processo e afirmou que “o humor incomoda mais do que a crítica”.

Há dois anos, a página que parodiava o veículo foi tirada do ar, pois a Folha alegou que os autores usavam logo, fontes, conteúdo e fotos que caracterizavam o projeto gráfico do impresso. Para Lino, a questão não foi bem essa. “Criamos a página para criticar a postura da Folha, que se diz apartidária, mas faz jornalismo partidário. Eles têm preferências políticas muito claras. Não acho isso ruim. O errado é ser hipócrita falando que é imparcial”, argumentou.

De acordo com as informações, o relator vai analisar os documentos entregues por Lino a ele e, provavelmente, se pronunciar sobre o assunto. Uma das ideias do criador do Falha com está ação é que os veículos convencionais aborde o tema em pautas. “Ninguém fala sobre o assunto porque existe muito corporativismo nas redações”, diz. A reportagem procurou o Jurídico da Folha, mas ainda não teve retorno. A previsão é que o processo seja julgado no próximo ano.

Leia também:

Relator da ONU defende a democratização da comunicação brasileira


%d blogueiros gostam disto: