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Os filhos de 1964: Memórias e exumações

16 de novembro de 2013

Medici02Os filhos de 64 tiveram a construção de sua memória informada pelo ambiente da ditadura que, em muitas cidades e comunidades do País, tinha a forma aparente de algo um tanto inocente. Saudar o “presidente” Médici (foto) com bandeirinhas e cartazes era um dos atos dessa peça perversa.

Marco Weissheimer, via Sul21

Há quem não veja com bons olhos a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart, achando que há uma dimensão de espetáculo demasiada que teria como uma de suas consequências esconder a situação de tímidos avanços que o Brasil registra no tema da memória, da justiça e da verdade sobre o golpe de 1964. Muito espetáculo e pouco resultado, em resumo.

É uma crítica respeitável, até porque está compromissada com a tese da necessidade de o Brasil levantar o tapete e mostrar a sujeita da ditadura que ainda está escondida do amplo conjunto da população. No entanto, a decisão de exumar os restos mortais de Jango tem o mérito de abrir espaços e oportunidades para que os avanços tímidos que tivemos, quando comparados ao que outros países como a Argentina fizeram, se tornem um pouco menos tímidos. Os caminhos da memória são tortuosos e às vezes descobrem ou constroem atalhos em espaços e circunstâncias inesperadas.

Uma dessas circunstâncias inesperadas diz respeito ao interesse das novas gerações sobre o que aconteceu em 1964. De lá para cá, já se passaram quase 50 anos. Os milhares de jovens que saíram às ruas do País este ano provavelmente pouco conhecem desse período e das implicações da ditadura para o presente do País. Há um vazio, ou vários vazios, na memória que a sociedade tem do golpe e da ditadura. Preencher esses vazios é um condição necessária para entender vários dos problemas que levaram tanta gente para as ruas nos últimos meses.

A qualidade da representação política que temos, a lógica que rege o funcionamento dos partidos, a concentração de propriedade e de renda no País, a concentração dos meios de comunicação nas mãos de umas poucas famílias, a concentração da terra: todos esses temas estão ligados ao que ocorreu em 1964 e nos anos seguintes. Construir a memória desse período, portanto, não é uma tarefa menor ou secundária e tudo o que puder contribuir para ela é mais do que bem-vindo.

Não são apenas os jovens de hoje que desconhecem o que ocorreu no Brasil naqueles anos. Quem nasceu naquele período, como eu, provavelmente tem uma memória precária sobre aqueles dias. E a precariedade aí não diz respeito apenas à ausência de informações ou de lembranças, mas pela construção de uma memória informada pelo ambiente da ditadura que, em muitas cidades em comunidades do País, foi apresentado como algo um tanto inocente e mesmo idílico. Eu enquadraria minha infância e início da adolescência nesta categoria.

Minhas memórias mais antigas da ditadura tem a ver com os desfiles de sete de setembro, onde éramos obrigados a ensaiar em tardes quentes, marchando pelas ruas de Passo Fundo. Fomos levados – eu devia ter seis ou sete anos – para as ruas acenar pequenas bandeiras do Brasil saudando a passagem do presidente Médici pela cidade. Na época me disseram que era o presidente. A palavra ditador não frequentava o nosso vocabulário. Tem a ver também com as músicas patrióticas que também cantávamos alegremente na escola, como “este é um brasil que vai pra frente” ou mesmo cantos militares, como o hino da Força Expedicionária Brasileira, “por mais terras que eu percorra, não permita deus que eu morra sem que volte para lá…”, que, por alguma razão fazia parte dos nossos livros didáticos.

Um dos personagens que habitam minha memória desse período é o “Tio Edu”, que é como era chamado, carinhosamente, o coronel Edu Vila de Azambuja, interventor da ditadura na cidade, ou prefeito como diziam. Alunos mais pobres de escolas públicas, que não tinham a oportunidade de ir para a praia nas férias tinham como opção as colônias de férias no quartel do exército da cidade, onde entre alguns jogos e exercícios físicos, aprendiam a importância da disciplina e do amor à pátria. Há toda uma geração que viveu neste meio, com essas informações e com esse cenário. Não havia, em muitos casos, como no meu, sequer a consciência de que vivíamos em uma ditadura. Não era um tema que penetrava o dia-dia. Imagino que esse microcosmo que vivi em Passo Fundo tenha se repetido em centenas e mesmo milhares de outras localidades. Uma infância tranquila, mesmo idílica, em meio a uma ditadura.

Isso só vai mudar ao final da adolescência quando, para desespero de meus pais, passei a militar no Alicerce da Juventude Socialista, a organização de juventude da Convergência Socialista na época. Dali em diante, os olhos e ouvidos foram se abrindo e tive o gosto de participar de algumas “ações contra a ditadura”. As aspas se justificam pela timidez das mesmas. Mas, mesmo tímidas, valeram um fichamento no “setor de inteligência” do quartel do exército da cidade, uma medalha que recebi com muito orgulho.

Quais foram as implicações sociais desses buracos na memória de milhões de pessoas? É algo difícil de quantificar, mas certamente possível de qualificar: a falta de memória, a desinformação, a deformação e a alienação não costumam ser bons construtores de cidadania e de democracia. Há muito, portanto, a ser dito sobre aquele período. A ser dito e ouvido, e visto, e pensado. O nosso déficit neste tema é tão grande que não corremos o risco de uma overdose de memória e de informação.

Qual foi mesmo a história da ditadura em Caxias do Sul, onde nasci e vive até os quatro anos, ou em Passo Fundo, onde vivi todo o restante da ditadura? Quantas pessoas foram presas, torturadas, desaparecidas, mortas, ou perderam seus empregos e tiveram que se mudar para longe por causa de suas opiniões políticas? Em cada cidade, em cada comunidade do Brasil, há uma história a ser contada para responder essas e outras perguntas. Já existem alguns relatos, mas eles estão longe compor o livro do qual o País necessita. Nós, os filhos de 1964, talvez possamos dar uma importante contribuição neste sentido. Até porque, no nosso caso, não se trata apenas de contar as histórias ocultas da ditadura, mas sim de descobrir a nossa própria história individual, marcada por experiências surrupiadas em um ambiente onde o militar interventor na cidade era carinhosamente chamado de “tio”. Esse “tio” terá sido responsável por alguma tortura, prisão ou morte? Não sei. Talvez. Essa é uma de tantas histórias que aguardam ser contadas.

Para que isso ocorra, há, entre outras coisas, um trabalho de exumação a ser feito. Uma exumação dos restos de uma memória abastecida com histórias contadas por militares que se apresentavam como tios, por professores que integravam a Escola Superior de Guerra e por uma imprensa que foi, em sua maioria, cúmplice e apoiadora ativa do golpe e da ditadura. Essa exumação da memória estropiada é trabalho para muitos anos, para toda a vida talvez. Que a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart sirva de estímulo para que outras exumações sejam feitas. Nós, os filhos de 1964, deveríamos ser os principais interessados em abrir essas gavetas.

Dilma Rousseff recebe restos mortais do presidente Jango com honras militares

15 de novembro de 2013
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Autoridades receberam os restos mortais do ex-presidente João Goulart, que chegam a Brasília para exames periciais.

Via Correio do Brasil

Os restos mortais do ex-presidente da República João Goulart foram recebidos na quarta-feira, dia 13, véspera do Dia da República, com honras militares, pela presidenta Dilma Rousseff. O corpo de Jango, como era conhecido, começou a ser exumado na véspera, em São Borja (RS), e será submetido a perícia da Polícia Federal, na capital. A exumação faz parte de uma investigação para esclarecer se a causa da morte de João Goulart foi mesmo um ataque cardíaco, conforme divulgaram na ocasião as autoridades do regime militar.

Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, José Sarney e Fernando Collor também acompanharam a cerimônia. Fernando Henrique Cardoso, que se recupera de uma diverticulite, não pode participar da homenagem. A presidenta Dilma Rousseff disse, em sua conta no Twitter, que a solenidade de honra ao ex-presidente João Goulart “é uma afirmação da democracia” no Brasil, que se consolida com este gesto histórico. “Hoje é um dia de encontro do Brasil com a sua história.

Como chefe de Estado da República Federativa do Brasil participo da recepção aos restos mortais de João Goulart, único presidente a morrer no exílio, em circunstâncias ainda a serem esclarecidas por exames periciais. Junto comigo estarão ex-presidentes da República, o presidente do Senado e políticos de todas as vertentes. Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória”.

Deposto pelo regime militar (1964-1985), Goulart morreu no exílio, no dia 6 de dezembro de 1976, na Argentina. O objetivo da exumação é descobrir se ele foi assassinado. Por imposição do regime militar brasileiro, Goulart foi sepultado em sua cidade natal, São Borja, no Rio Grande do Sul, sem passar por uma autópsia. Desde então, existe a suspeita que a morte de Jango tenha sido articulada pelas ditaduras do Brasil, da Argentina e do Uruguai.

Após os exames, que serão feitos em Brasília e em laboratórios internacionais, os despojos voltarão para São Borja em 6 de dezembro, data de morte do ex-presidente. A exumação é coordenada pelo Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal e ocorrerá em duas etapas.

A primeira etapa é a análise antropológica, que detalhará informações sobre substâncias venenosas que eram usadas no Brasil, na Argentina e no Uruguai e podem ter causado o envenenamento do ex-presidente. Nesse momento, serão reunidos dados médicos e pessoais do ex-presidente. Além disso, será feita a análise do DNA. A segunda etapa constará do exame toxicológico dos restos mortais de Goulart para confirmar se houve envenenamento.

***

Jango era majoritariamente apoiado pela população

Reunida em São Paulo em 12 de novembro de 2013, a Comissão Nacional da Verdade aprovou a seguinte nota:

1. Depois de meio século, o Presidente João Goulart retorna a Brasília, onde receberá as honras de Chefe de Estado que lhe foram negadas em seu sepultamento.

2. A verdade que o golpe de Estado de 1964 tentou esconder, hoje surge com clareza. João Goulart era o Presidente constitucional, majoritariamente apoiado pela população, como revelam pesquisas de opinião da época. Foi deposto por uma conspiração civil–militar, com fundamento na ideologia de segurança nacional. Durante o exílio, foi vigiado permanentemente por órgãos de informação e repressão brasileiros e estrangeiros.

3. A CNV, desde sua instalação, trabalha para o esclarecimento das reais circunstâncias de sua morte. O retorno do Presidente João Goulart a Brasília é uma vitória da legalidade, da democracia e do Povo brasileiro.

Comissão Nacional da Verdade

A complicada morte de Yasser Arafat

10 de novembro de 2013

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O relatório da equipe de investigadores suíços apontou resquícios de polônio 210, numa quantidade 18 vezes superior à considerada normal.

Flávio Aguiar, via Carta Maior

Yasser Arafat, o líder palestino de 75 anos, vivia em seu refúgio, transformado num verdadeiro bunker em ruínas, em Ramallah, cercado por tropas israelenses. Em outubro de 2004, depois de uma refeição, ele sentiu-se mal, com vômitos, náuseas, dores e diarreia. O diagnóstico inicial foi de uma virose.

Entretanto seu estado piorou rapidamente. Em consequência disto, ele foi retirado de lá por um helicóptero e levado para um hospital militar francês, onde acabou falecendo. Não foi feita uma autópsia então – o que foi um erro.

Naquela época já especulou-se sobre a causa de sua morte. Teorias as mais díspares foram levantadas: Aids, leucemia, simplesmente velhice e outras – entre elas a de envenenamento. Entre os suspeitos enfileiram-se os governos de Israel e grupos palestinos rivais.

Em 2012 três equipes – uma russa, uma francesa e uma suíça – retiraram espécimes do seu túmulo – restos de ossos, de tecido humano e amostras da terra sob o cadáver – e recolheram objetos do morto, como sua escova de dentes e roupa de baixo.

O primeiro relatório destas equipes – o da Suíça – veio a público na semana passada, publicado pela Al Jazeera, depois de compartilha-lo com o britânico The Guardian. Ele pode ser conferido neste endereço. São 108 páginas muito detalhadas, com assinatura dos membros da equipe, do Centro Universitário de Medicina Legal da Universidade de Lausanne. A conclusão objetiva do relatório é a de que foram encontrados nos restos mortais do líder palestino e na terra sob seu corpo resquícios de polônio 210, uma substância radioativa letal, numa quantidade 18 vezes maior do que a normal. O resultado não surpreendeu, uma vez que a mesma equipe já dissera ter encontrado resquícios elevados de polônio 210 nas roupas e outros objetos de Arafat.

A partir daí começam a entrar em cena os adjetivos e advérbios, para qualificar – ou desqualificar – a afirmação. Ainda não se tem o relatório russo. Tem-se apenas uma declaração de Vladimir Uibe, presidente da Federação Russa de Medicina Biológica, declarando peremptoriamente que não haveria indícios de polônio nos restos de Arafat. Não se tem ainda o relatório dos franceses – que, de todos, será o mais complicado, porque na França, a pedido da viúva de Arafat, existe uma investigação criminal sobre sua morte.

É óbvio que os olhares se voltam para o governo de Israel e seus agentes secretos, como os possíveis e até prováveis envenenadores do líder palestino.

Algumas das declarações de representantes do governo, citadas na mídia internacional, escolheram o caminho mais complicado ainda: desqualificar o relatório, a equipe e a investigação, apontando-a como parte de uma “novela de tevê” (“soap opera”, em inglês) ao invés de algo cientificamente sério. Aventaram até a possibilidade da equipe suíça ser “parcial”, e que a única de fato independente seria a francesa.

Uma defesa mais apurada do governo israelense veio de membros do governo de Ariel Sharon, então o primeiro ministro em Telavive, argumentando que Israel não teria motivos para assassinar Arafat, na verdade, para esta visão, um ex-líder isolado entre os palestinos. Comentários reproduzindo declarações do autor de um livro sobre Arafat, Danny Rubinstein, contestam o argumento: para ele nas semanas que antecederam a sua morte havia seguidamente conversações no círculo próximo a Sharon sobre como “se livrar do líder palestino”. Mas os autores do argumento e o governo israelense continuam negando veementemente qualquer participação no episódio.

O próprio relatório afirma que existem suficientes indícios para sustentar “moderadamente” a tese de que Arafat possa ter sido envenenado por polônio 210. Ao final, nas conclusões, o relatório organizar uma tabela com os indícios e os argumentos pró e contra o envenenamento. Os principais argumentos pró são os sintomas apresentados por Arafat depois da refeição que parece ter sido o ponto de partida da deterioração de seu estado, mais a presença dos resquícios da substância letal. O principal argumento contrário é o da ausência de dois sintomas característicos do envenenamento por radioatividade: queda de cabelo e deterioração da medula óssea. Entretanto o próprio relatório diz que tais sintomas são obrigatórios no caso de uma exposição externa material radiativo, mas que poderiam não ocorrer numa ingestão do veneno, que é de ação extremamente rápida e também de decomposição moderadamente rápida.

David Barclay, expert britânico de medicina forense, citado em artigo de Angelique Chrisafis (Guardian, 6/11/2013), alega que os indícios do relatório suíço são mais conclusivos do que exprimem seus próprios comentários, dizendo que os resquícios de polônio são como “um revólver fumegante”.

Algumas coisas são absolutamente certas, no caso de ter de fato havido o envenenamento:

1. É altamente improvável uma presença “natural” na residência de Arafat de tais quantidades de polônio 210. Ninguém mais apresentou aqueles sintomas. Portanto, se polônio houve, ele foi ingerido por Arafat, e só por ele.

2. Os israelenses ao redor de Ramallah mantinham um controle rigoroso sobre tudo o que entrava e saía da residência de Arafat: pessoas, objetos, comida, tudo. Portanto, se o polônio chegou lá, ele passou através deles.

3. Das duas uma: ou o polônio já veio de fora misturado em alguma comida dada a Arafat, ou contou com a cumplicidade de alguém dentro da residência. Ambas parecem possíveis.

Em editorial (8/11/2013) o The Guardian expressa a preocupação em nome de que os assassinatos deixem de ser moeda comum e de troca entre as partes beligerantes na região.

Aguardam-se os relatórios russo e francês, sendo que este último poderá instruir a investigação criminal pedida também, no momento, pela Autoridade Palestina. Este enredo, que nada tem de “soap opera”, vai continuar.

Para a realização deste artigo consultaram-se as seguintes mídias: The Guardian, Der Spiegel, Al Jazeera, New York Times, Haaretz e Jerusalem Post, além de outras fontes citadas por estas.

Grupo de trabalho acompanha exumação dos restos mortais de João Goulart

9 de novembro de 2013
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Enterro de João Goulart.

O governo criou um grupo de trabalho no âmbito da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República para providenciar a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart e a realização de exames e atividades periciais. A exumação ocorrerá na quarta-feira, dia 13.

A portaria que cria o grupo de trabalho, assinada pela ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, foi publicada no Diário Oficial da União de quinta-feira, dia 7. O grupo é composto por representantes da própria secretaria, da Comissão Nacional da Verdade e da Polícia Federal, que vai coordenar a equipe de peritos. Os especialistas designados pela família do ex-presidente também participarão de todos os procedimentos de exumação e análises.

Segundo a portaria, o grupo de trabalho encerrará suas atividades após a entrega do laudo oficial conclusivo das atividades periciais à ministra Maria do Rosário e à Comissão Nacional da Verdade.

Deposto pelo regime militar (1964-1985), Goulart morreu no exílio, no dia 6 de dezembro de 1976, na Argentina. O objetivo da exumação é descobrir a real causa da morte e se ele foi assassinado. Por imposição do regime militar brasileiro, João Goulart foi sepultado em sua cidade natal, São Borja, no Rio Grande do Sul, sem passar por uma autópsia.

Operação Condor

Deposto pelo golpe militar em 1964, o ex-presidente João Goulart, o Jango, exilou-se com a família no Uruguai e, depois, na Argentina. No entanto, mesmo depois de retirado da Presidência da República, continuou sendo alvo do regime militar.

Fotos e documentos exclusivos do Arquivo Nacional, obtidos pela TV Brasil, mostram que João Goulart era vigiado pelos militares, inclusive em momentos privados, como durante a festa de aniversário em que comemorou 55 anos.

Para o neto de Jango, Christopher Goulart, o avô sabia que era vigiado, porém isso não o incomodava. “Ele não se importava muito, não era uma coisa que o incomodava”.

Um documento do Serviço Nacional de Informação (SNI) mostra que as correspondências do ex-presidente eram constantemente lidas e analisadas pelos militares. No próprio documento, datado de 1966, um agente militar revelou que as cartas de Jango eram obtidas de forma clandestina. Em outro documento, o Centro de Informações do Exterior (Ciex) traz informações sobre uma viagem de Jango para a Argentina. A partir dos detalhes da viagem, os militares classificaram que Jango estava se preparando para retornar ao Brasil.

Para o historiador e coordenador do curso de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Enrique Padrós, João Goulart foi vítima da Operação Condor, ação conjunta de seis países sul-americanos, inclusive o Brasil, para reprimir opositores às ditaduras militares da região. A operação foi criada oficialmente em 1975, mas começou antes cinco anos antes da criação oficial.

“Ele foi sistematicamente vigiado, foi sistematicamente atingido, com essa coisa de infiltrarem pessoas ou, talvez, infiltrarem mecanismos para obter informações”, completou.

Filho de Jango se disfarçou para descobrir verdade sobre morte do pai

28 de maio de 2013
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Documentos exclusivos do Arquivo Nacional mostram que Jango (marcado com o nº 3) era vigiado pelos militares, inclusive em momentos privados, como durante a festa de aniversário em que comemorou 55 anos.

João Vicente Goulart revela suspeitas envolvendo a morte do presidente deposto e de que agentes secretos teriam se infiltrado em sua casa como empregados.

Via Portal Terra

Desde o enterro do ex-presidente João Goulart, o Jango, no final de 1976, a família do presidente da República deposto pelo golpe militar de 1964 levanta suspeitas sobre sua morte, já que o caixão não pôde ser aberto “sob hipótese alguma” por ordem dos militares que acompanharam toda a cerimônia, segundo relata João Vicente Goulart, filho de Jango, em entrevista ao Terra. “A certidão de óbito não dizia nada com nada, apenas ‘muerte por enfermedad’ (morte por doença) e, o mais grave de tudo, que não foi feita a autópsia dos restos mortais, nem na Argentina e, tampouco, em nosso País”, afirma.

Recentemente, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) acatou o pedido da família de Jango de exumar o corpo para investigar qual foi a verdadeira causa da morte. Para conseguir indícios fortes de que seu pai foi assassinado, João Vicente chegou a se disfarçar para conseguir arrancar a verdade do ex-agente do serviço secreto uruguaio Mário Neira, preso no Rio Grande do Sul, na entrevista concedida para um documentário produzido pela TV Senado, em 2006.

“[Ele] disse que a família não tinha motivos de interesse pelo acontecido […]. Nesse momento eu disse a ele: ‘Olha, Mário, eu sou João Vicente, não sou repórter, e vim aqui para conhecer a verdade.’ Foi nesse momento que ele abriu o verbo sobre sua atuação na operação que havia culminado com a morte de meu pai”, diz, referindo-se a Operação Escorpião, montada para matar Jango.

A exumação ainda não tem data para acontecer, mas uma comissão com peritos brasileiros e estrangeiros está sendo montada, para atender as condições feitas pela família, para garantir a idoneidade do processo.

Confira os principais trechos da entrevista:

Terra – Desde quando a família pleiteava a possibilidade da exumação do corpo de João Goulart?

João Vicente Goulart – As suspeitas se remontam aos primeiros dias após a morte de Jango. Em seu enterro teve todo um aparato repressivo, soldados, seguranças à paisana, ordens e contra ordens que vieram até a derrubar o coronel Sólon, então chefe da Polícia Federal em Uruguaiana, após autorizar a passagem do cortejo por terra [a ordem era que só entraria por avião direto a São Borja com proteção militar do aeroporto ao cemitério], a não autorização de abrir o caixão sob hipótese nenhuma, certidão de óbito que não dizia nada com nada, apenas “muerte por enfermedad” e, o mais grave de tudo, que não foi feita a autópsia dos restos mortais, nem na Argentina e, tampouco, em nosso País. Era um ex-presidente da maior nação latino-americana, exilado, perseguido há 12 anos no exílio e tentando voltar ao Brasil para forçar uma anistia e abertura.

Além do depoimento do agente uruguaio, vocês tinham indícios de que a morte do presidente poderia ter sido provocada pela repressão?

O depoimento de Mário Neira só veio à tona em 2006. Fui a uma penitenciária de segurança máxima [Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas, no Rio Grande do Sul], pois foi feito um convênio entre o Instituto Presidente João Goulart e a TV Senado, para produzir o documentário Jango em 3 atos. Eu fui disfarçado de jornalista com a equipe para tomar o depoimento de Mário Neira. Foi quando em certo momento ao dizer que sabia das circunstâncias da morte de Jango, pois havia participado da operação [Escorpião] que o vitimou, disse que a família não tinha interesse pelo acontecido… Nesse momento eu disse a ele: “Olha Mário, eu sou João Vicente, não sou repórter, e vim aqui para conhecer a verdade.” Foi nesse momento que ele abriu o verbo sobre sua atuação na operação que havia culminado com a morte de meu pai.

No exílio, como estava a saúde de Jango? Exigia cuidados ou os problemas de saúde estavam controlados?

Jango, no exílio, vivia imerso nas suas saudades do Brasil. Dizia que o exílio era uma invenção do demônio, pois matava a pessoa deixando-a viva a olhar dentro do desterro, à distância, a Pátria amada deixada para trás, dos familiares e dos amigos… Trouxe a ele também, junto as suas amarguras, as feridas no coração, um enfarte produzido pela distância e pela saudade de seu povo. Mas ele se cuidava, periodicamente ia à França fazer tratamento com seu cardiologista, professor Fremont, em Lyon. Estava com a saúde em dia, dentro dos cuidados que um cardiopata necessitava. Agora, permitam abrir aqui um parênteses sobre o que alguns “opinicionistas” de plantão falam a esse respeito. Dizem eles: “Jango era um cardiopata, fumava, bebia, pelo que, é claro, morreu de enfarte”. Só por que era portador de uma enfermidade, não pode ter sido alvo de um assassinato? Das 40 mil vítimas do terrorismo de Estado praticado pelas ditaduras latino-americanas vocês acham que todos eram atletas de saúde impecável? Ninguém desse contingente será que tinha uma doença preexistente? Nosso grande poeta Neruda tinha câncer na próstata quando foi conduzido sob escolta a uma clínica, após o golpe, e eliminado em circunstâncias a serem investigadas, exumado recentemente. O ex-presidente Frei Montalva estava em um hospital para uma cirurgia simples, de uma doença preexistente, quando foi transferido de andar no hospital, trocaram os médicos, proibiram visitas e, uma semana depois, morreu de uma gravíssima infecção. Exumado e comprovado o seu envenenamento por agentes estranhos. Hoje, a investigação conduz a pegadas brasileiras: o composto teria sido produzido no Instituto Butantã. Ora, convenhamos, esse tipo de afirmação de que pessoas com patologias preexistentes não podem ser vítimas de atentados é história para boi dormir, como dizemos no Rio Grande do Sul.

No exílio, seus pais haviam relatado desconfiança ou medo de estarem sendo espionados pelos militares?

Sim, sem dúvidas sabiam desse monitoramento. Em Montevidéu, onde fomos exilados, aconteceu o laboratório da maior vergonha ocorrida no nosso diplomático Itamaraty. Lá, através da criação do Ciex [Centro de Informações do Exterior], invenção perversa de nada menos que Manoel Pio Correa, embaixador que atuava no Uruguai monitorando os exilados brasileiros, a diplomacia brasileira foi transformada em um centro de colaboração com a ditadura, que depois veio a fazer parte da Operação Condor, que trocava pessoas para morrerem nos países de origem sem extradição, sem Justiça, sem nada. Em nossa casa havia empregadas do SNI [Serviço Nacional de Informações], agente “B” da ditadura brasileira, que subtraía documentos de forma clandestina [hoje comprovado pelos documentos desclassificados em poder do Instituto João Goulart] e que se subtraíam esses papéis da gaveta do quarto de meu pai. Tranquilamente poderiam ter substituído um comprimido do coração por um comprimido de cianeto de potássio, não poderiam?

Quando vocês tiveram acesso a informações que deixaram evidente a hipótese de envenenamento? Existem documentos que indicariam que isso aconteceu?

As informações não param de chegar… As evidências vêm sendo liberadas e dão veracidade às suspeitas após o depoimento do agente uruguaio. Por que não houve autópsia, por que não deixaram abrir o caixão, por que o agente “B” estava dentro do nosso apartamento subtraindo documentos, por que Kissinger [Henry Kissinger, diplomata norte-americano], através de telegrama, enviado da África, dava instruções precisas ao seu embaixador [Harry] Schlauderman de que o Departamento de Estado norte-americano tinha conhecimento das operações de assassinatos seletivos envolvendo o Brasil, Uruguai e Argentina, e que tinha ordenado a ele [embaixador] que não se metesse nesses assuntos, deixando acontecer. São inúmeros os documentos que fornecem indícios. É lamentável que vários deles ainda estejam tarjados de preto escondendo nomes , principalmente de agentes do Estado brasileiro.

Quem teria sido a pessoa que ordenou a morte de Jango no exílio?

O relato do agente é claro. Houve uma reunião em Montevidéu, em princípios de agosto de 1976, na Jefatura General de La Policía, no porão do edifício situado nas ruas San José y Yí, onde estariam presentes o general [Luis Vicente] Queirolo, chefe da inteligência das forças armadas uruguaias, Frederick Latrash, chefe da CIA no Uruguai, Carlos Milles, médico patologista do Uruguai e colaborador do serviço secreto uruguaio, que detinha o codinome Capitán Adonis, e o delegado Sérgio Paranhos Fleury, já conhecido no Uruguai por suas incursões em Montevidéu anos antes, para monitorar os movimentos dos brasileiros que colaboravam com o MLN Tupamaros nas eleições. Fleury, portanto, foi quem teria levado a ordem para que a operação de monitoramento exercida sobre Jango [chamada de La Gaivota] se transformasse na eliminação física do ex-presidente, através da Operação Escorpião.

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João Vicente Goulart se disfarçou para conseguir ouvir depoimento de agente secreto uruguaio. Foto de Elza Fiúza/Agência Brasil.

Como foi a vida da família após deixar o Brasil? Quais eram os planos dos filhos e de Jango para quando voltassem?

No começo foi muito tranquilo. O Uruguai, para onde rumamos no começo, tinha uma tradição democrática enorme, não tinha tradição golpista há muito tempo. Começamos a viver uma vida normal no âmbito familiar. Os uruguaios tinham orgulho de terem recebido Jango, “El presidente democrático del Brasil”. O que se supunha em 1964 é que o golpe no Brasil era transitório, como em outras quarteladas acontecidas na história republicana de nosso País. Mas, ao contrário do que se supunha, foi um golpe planejado, executado milimetricamente com orientação do Departamento de Estado norte-americano, que, pelo Brasil, começaria o planejamento para derrubada da democracia em todos os países latino-americanos, e é exatamente na década posterior que nenhum país da América do Sul tem governos democráticos; todos são ditaduras impostas! É aí, então, que a coisa mudou de figura para aqueles exilados que lutavam pelo retorno do Estado de Direito, da liberdade, e pela democracia. Na verdade, o exílio é uma luta constante para o retorno à Pátria, mas o retorno para aqueles lutadores não era somente atravessar a fronteira para submeter-se ao regime que os havia deposto, era a volta para a reconquista da liberdade e da justiça social, o não entreguismo das instituições aos interesses internacionais. Por isso representavam perigo para os ditadores. Não eram apenas homens, eram transportadores de ideais libertários e democráticos.

Essa investigação que está sendo feita pela Comissão Nacional da Verdade traz, ao menos, algum tipo de conforto para a família por investigar o que realmente possa ter acontecido?

Para nós, que, do exílio, nos acostumamos a esperar, é um primeiro grande passo. Depois de seis anos em que o Instituto Presidente João Goulart entrou com o pedido de abertura de ação civil pública para que o Estado brasileiro investigasse a morte de seu ex-presidente, é um primeiro grande passo, ou seja, o Estado concordou; tardiamente ou não, não vem ao caso. Devemos fazer o dever de casa para que outros não venham a fazer nossas obrigações. É uma obrigação da família, que tem lutado, em uma desproporcionalidade gigantesca, no que tange os meios de investigação. Como por exemplo, os pedidos de oitivas de agentes norte-americanos, como Michael Townley, que vive sob a proteção de testemunhas do governo norte-americano [apesar de ter detonado uma bomba nas avenidas de Washington, produzindo o primeiro ato terrorista antes do 11 de Setembro, matando o ex-chanceler chileno Letellier], Frederick Latrash e outros. Sabemos que só um juiz pode fazer esse pedido com uma petição especial através do governo brasileiro pelo Itamaraty, pois só ele teria essa prerrogativa. Estamos esperando. Na verdade, não existe conforto enquanto existam dúvidas a respeito da morte de nosso pai, por parte da família; a respeito da morte do presidente constitucional derrubado pelo golpe, entendo ser uma questão de Estado, e aí a vontade é política do governo, que determina a ato de fazer.

Por que a família fez essa exigência da participação de peritos de fora na exumação de Jango? Existe o medo de que alguém possa influenciar nos resultados, ou é por uma questão de conhecimento técnico e tecnologia?

É uma preocupação de mostrar à sociedade brasileira, que acompanha o caso, em outorgarmos nesse procedimento a maior transparência possível. Já temos outros exemplos nada confiáveis em nosso País, quando nos referimos a peritos individuais contratados para um caso específico, Alagoas, São Paulo etc. Quando se trata de uma ação supostamente executada pela Operação Condor, por uma ação em conjunto com a “cooperativa do terror”, que se havia instalado na época, e que teria sido executada pelos serviços secretos de trás das cortinas de três ditaduras, é lógico que os peritos desses países, que também investigam o mesmo caso, sejam convidados a participar dessa investigação. Até por que Jango morreu na Argentina, e nós não queremos, amanhã ou depois, passar novamente por essa dor ao receber outro pedido de exumação da Argentina por não ter participado. E melhor ainda, termos três ou quatro laudos independentes dando mais credibilidade e independência à investigação, nos trará mais certeza na credibilidade e sucesso técnico na divulgação desses resultados.

Existem preocupações da família sobre a saúde da dona Maria Teresa com a exumação?

Ela sofreu demais durante todos estes anos, mas é uma lutadora incontestável. Depois de tanto sofrimento, ela quer passar por isso mais uma vez, mostrando sua têmpera diante de seu destino… estar mais uma vez ao lado de Jango e da história deste País.

Governo brasileiro quer a verdade sobre Jango e Plano Condor

7 de maio de 2013

Jango06Darío Pignotti, via Carta Maior

Depois das evidências sobre o envenenamento do ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva, em 1982, e das suspeitas sobre outro assassinato bioquímico que pode ter matado o poeta comunista Pablo Neruda, em 1973, logo após a derrubada de Salvador Allende, o governo brasileiro decidiu apoiar, politicamente, a exumação do ex-presidente João Goulart, falecido há 27 anos na Argentina, aparentemente após ingerir uma pílula cuja procedência está sob suspeita. Está provado que o ex-presidente deposto em 1964 esteve na mira no Plano Condor, do qual a ditadura brasileira foi uma peça crucial, e a menos investigada da região até aqui, talvez porque Emilio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel fossem os generais de maior confiança de Henry Kissinger, o verdadeiro fiador da caçada multinacional.

Por meio de uma iniciativa inédita no Brasil, cujos governos civis não quiseram investigar o Plano Condor, a presidenta Dilma Rousseff resolveu tomar a iniciativa no assunto, através de suas principais colaboradoras na área, a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e Rosa Cardoso, que foi sua advogada nos anos da resistência à ditadura e integra hoje a Comissão Nacional da Verdade. A Carta Maior falou com ambas no sábado, dia 4.

Goulart morreu no dia 6 de dezembro de 1976 na província argentina de Corrientes e as primeiras suspeitas sobre a causa do falecimento surgiram no dia 7, quando o regime de Ernesto Geisel autorizou o ingresso do corpo no Brasil sob a condição de que não fosse realizada uma autópsia.

Ministra Maria do Rosário, quais são as probabilidades de se descobrir vestígios tóxicos em um cadáver antigo?

Já se passaram tantos anos que talvez agora a perícia não consiga chegar a uma demonstração conclusiva de que ele foi envenenado. Mas a exumação é só uma parte de nosso trabalho de buscar a verdade sobre o que ocorreu.

Depois de muita investigação da Comissão da Verdade e da família do ex-presidente Goulart, estamos convencidos de que a perseguição que se fez contra ele durante tantos anos demonstra claramente que havia a decisão de ataca-lo da forma mais vil por partes das ditaduras que atuavam associadas. Ele era um alvo dessas ditaduras que estavam associadas na ideia de eliminá-lo.

Se a pesquisa não obtiver resultados isso pode dar argumentos aqueles que boicotam a investigação do passado?

Não creio que seja assim, porque temos informações muito consistentes que nos permitirão seguir outras pistas. Há uma determinação de trabalhar para que este caso seja esclarecido. A presidenta Dilma solicitou a mim e a Comissão da Verdade, que está realizando um trabalho muito importante, que avancemos tudo o que for possível com o caso João Goulart e com todos os outros casos de vítimas do Condor. Estamos investigando há tempo a perseguição que o presidente Goulart sofreu durante seu longo exílio no Uruguai, na Argentina e em outros países. Além de ter sido deposto pelo golpe de 1964, ele foi seguido quase que cotidianamente por agentes brasileiros articulados com os serviços de inteligência dos demais países do Cone Sul. Nós já temos isso muito bem documentado.

A intoxicação de Frei e a exumação de Neruda reforçaram a pista do envenenamento?

As experiências de crimes ocorridos em outros países como o Chile, com estes dois casos que você está citando, nos fazem reforçar nossa pesquisa sobre o que aconteceu com João Goulart. O certo é que houve, em geral, uma perseguição implacável e ataques aos dirigentes e presidentes como foi o caso do próprio presidente Salvador Allende.

A presidenta Dilma viajará este ano a Washington. Ela pedirá que Obama libere documentos secretos?

Temos buscado e obtido muitos documentos e acreditamos que sempre deve haver colaboração entre nações democráticas. A entrevista concedida por Maria do Rosário à Carta Maior já é, em si mesma, uma confirmação de que Dilma Rousseff recomendou a sua ministra de Direitos Humanos para que se envolvesse plenamente na reconstrução da odisseia vivida por Goulart e seu eventual assassinato, além das possíveis tentativas fracassadas. Um dado político nada desprezível. A família de Jango, que assumiu a pesada tarefa de investigar o caso solitariamente durante anos, apoia a tese de que o plano para eliminá-lo foi urdido com a participação direta do escritório da CIA no Uruguai, para onde teria sido enviado o repressor brasileiro Sérgio Paranhos Fleury. Além de algumas evidências e documentos, os herdeiros do ex-presidente citam, para sustentar a ideia do envenenamento, o testemunho do ex-membro do serviço de inteligência uruguaio, Mário Neira Barreiro, atualmente encarcerado em um presídio de segurança máxima em Charqueadas, Rio Grande do Sul, que declarou ter sido parte da operação pela qual teriam sido colocadas pílulas letais entre os medicamentos de Goulart. A advogada Rosa Cardoso, integrante da Comissão Nacional da Verdade, conversou no sábado com a Carta Maior, sobre o relato do uruguaio com quem conversou há alguns meses.

Você atribui credibilidade às declarações do ex-agente?

Todos temos nossas reservas sobre Neira Barreiro, é verdade, mas considero que uma parte do que nos disse pode ser verdadeira e, além disso, coincide em alguns pontos com o que a família Goulart já descobriu e com o que nós levantamentos na investigação que estamos realizando.

Você acredita que Goulart foi assassinado?

Essa é uma possibilidade que tem que ser ponderada. Não podemos assegurar nada até investigar mais e a exumação pode aportar algo ou não, porque o estado de decomposição pode ser muito avançado. Exumar o corpo e fazer a pesquisa é um trabalho que demora um longo tempo, temos que ser pacientes.

Convidaram a equipe de antropologia forense argentina para acompanhar esse trabalho?

Certamente o faremos, assim como também outros especialistas internacionais.

Goulart e Perón vigiados

Nascido formalmente em 1975, o Plano Condor já atuava como rede de espionagem multinacional, sem levar esse nome de rapina, desde alguns anos, e uma de suas presas mais cobiçadas era João Goulart, informado papéis secretos encontrados por Carta Maior. Um desses documentos, com detalhes de uma conversa entre Goulart e o ex-presidente argentino Juan Perón, em 1973, traz o rótulo de “secreto” e o selo do Serviço Nacional de Informações brasileiro (SNI) e do Ciex, o aparato de inteligência montado na época pelo Itamaraty. Outros relatos mencionam que a Argentina de 1973 era uma plataforma de articulação política para o ex-mandatário “populista”.

“Estes documentos do período em que Goulart era perseguido e espionado na Argentina, dos quais você me fala, mostram que houve um plano perverso contra os democratas e aqueles que ameaçavam a permanência da ditadura”, observa a ministra Maria do Rosário.

Setores do governo brasileiro sustentam a hipótese de que Goulart era um moderado capaz de encabeçar uma coalizão pela restituição democrática, representando uma ameaça ao modelo de transição vigiada concebido, e finalmente aplicado, por Ernesto Geisel. Goulart e Juscelino Kubitschek, outro ex-presidente falecido em um acidente nebuloso em 1976, assim como o chileno Orlando Letelier, assassinado no mesmo ano, poderiam se fortalecer com a vitória do democrata Jimmy Carter.

O Plano Condor via com horror o retorno de líderes apoiados por Washington, como conta em uma correspondência de agosto de 1976, descoberta há 20 anos, enviada pelo então chefe da DINA chilena, Manuel Contreras, a seu colega na época, João Batista Figueiredo, depois promovido a presidente de fato.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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