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O Grand Cherokee, as Havaianas e a Caninha 51

14 de agosto de 2012

Daniela Novais, via Brasília em Pauta

Ao criticar os altos preços de automóveis importados praticados no Brasil, a versão on-line da revista estadunidense Forbes ironizou que carros considerados de luxo no País custam muito menos nos Estados Unidos, ao ponto de um mesmo Jeep Grand Cherokee, por exemplo, custa no Brasil US$89,5 mil (R$179 mil) e por lá é possível pagar cerca de US$28 mil. Para exemplificar a relação entre o preço do produto e o que ele vale de fato, o autor fala das Havaianas e da caninha 51.

Logo no início do texto, o autor, Kenneth Rapoza, diz: “Alguém poderia pensar que, pagando U$80 mil por um Jeep Grand Cherokee, significa que ele vem equipado com asas e com aros banhados a ouro, mas no Brasil é o preço pago por um modelo padrão.” Segundo o jornalista, o novo Dodge Durango, que deve ser apresentado pela Chrysler no salão do automóvel de São Paulo em outubro, deve custar ainda mais que o Grand Cherokee: cerca de R$190 mil (US$95 mil).

Irônico, ele comenta a diferença entre os salários mínimos entre os dois países e diz que nos EUA, um professor do ensino fundamental pode ter um Dodge Durango seminovo, mas que no Brasil o salário mínimo está a anos luz do valor de um carro desses. Segundo Rapoza, os culpados pelos preços astronômicos são os de sempre, ou seja, impostos sobre importados e outras taxas aplicáveis a produtos industriais.

Havaianas, Pitu e 51

Para explicar sua afirmação, ele cita produtos brasileiros de sucesso no exterior, como as Havaianas e a cachaça, para explicar a “exploração” do consumidor no país: “Pense como seria se um amigo norte-americano dissesse a você que acabou de comprar um par de Havaianas por US$150,00. Claro que esses chinelos são sexy, chiques e estão na moda, mas não valem US$150,00. Quando se trata de status oferecido por carros no Brasil, a elite está servindo caipirinha com Pitu e 51 pensando que é bebida de primeira”, exemplifica.

Na opinião do jornalista, não vale a pena e o brasileiro acaba por confundir a relação entre o preço e a qualidade do produto. “Não há outra razão a não ser a taxação excessiva, de mais de 50% e a ingenuidade do consumidor que pensa que dá na mesma pagar por um Cherokee o valor de um BMW X5”, critica.

Ele brinca que, pelo mesmo valor de um Grand Cherokee no Brasil, três poderiam ser comprados em Miami e diz no fim de seu artigo: “Desculpem, ‘Brazukas’ (sic)… não há status em um Toyota Corolla, Honda Civic, Jeep Grand ou Dodge Durango. Não sejam enganados pelo preço. Vocês estão definitivamente sendo roubados”, avisa.

Vladimir Safatle: Outros Estados Unidos

9 de agosto de 2012

Vladimir Safatle

Gore Vidal era uma pessoa fora de seu tempo. Ele representava um Estados Unidos que teima em não querer morrer, mesmo quando todos os índices parecem indicar o contrário. Profundamente ligado a seu país, autor de novelas históricas que davam conta de momentos maiores da formação dos EUA enquanto nação, ele era, mesmo assim, um de seus críticos mais ferozes. Alguém que não tinha ilusões a respeito da transformação da democracia norte-americana em uma plutocracia animada por sonhos imperialistas de “guerra permanente”. Sonhos que se repetiram sistematicamente a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, animados por uma corrida armamentista que, como bem mostrou Vidal, fora criação norte-americana, com todo seu artefato de propaganda construído para convencer o povo norte-americano de que seu dinheiro não deveria ir para escolas públicas, mas para compras militares que os deixariam mais “seguros”.

“Não existe uma pessoa amável dentro de mim. Por trás do meu frio exterior, há apenas água gelada.”

Agora que Gore Vidal está morto, os jornais norte-americanos deleitam-se em fazer longos obituários em que se podem ler detalhes de sua vida sexual, de suas extravagâncias e sua linhagem, na qual era possível encontrar relações de parentesco com Jackie Kennedy e Al Gore. Ou seja, uma espécie de celebridade intelectual frívola e aristocrática que, entre outras coisas, tinha opiniões “bizarras” (ao menos para o norte-americano médio) a respeito da política externa dos Estados Unidos, do conflito palestino, da paranoia securitária, da ameaça terrorista, da necessidade de eliminar a Otan e do fracasso educacional dos EUA. Todos reconhecem a elegância de sua prosa, mas suas posições políticas são retratadas como gosto aristocrático por um radicalismo só assumido por ser inócuo.

É assim que a imprensa dos EUA procura interpretar afirmações precisas de Vidal como: “Neste país há apenas um partido: o Partido da Propriedade – e ele tem duas alas direitistas: a Republicana e a Democrata. Republicanos são um pouco mais rigidamente estúpidos, mais doutrinários em seu capitalismo laissez-faire do que os Democratas. Estes são mais amigáveis, um pouco mais corruptos – até recentemente – e mais dispostos a fazer pequenos ajustes quando os pobres, negros e anti-imperialistas saem do controle. Mas, essencialmente, não há diferenças entre os dois partidos”. Dificilmente alguém conseguiria colocar, no entanto, em palavras tão precisas a raiz do esvaziamento da democracia norte-americana.

Essa sensibilidade de Vidal vinha, na verdade, de uma tradição bem norte-americana. Pois ele era o legítimo representante de uma tradição crítica que poderíamos chamar de “liberalismo de esquerda” e que encontra raízes profundas na formação dos EUA. Basta lembrarmos aqui das posições políticas de pais fundadores da República norte-americana como Thomas Paine. Para esse liberalismo de esquerda, defender os valores liberais não significa fazer uma defesa tosca do individualismo e do empreendedorismo que escamoteia a maneira com que a concentração de riquezas quebra completamente o princípio de crescimento por mérito. Valores liberais não andam sem uma visão profunda a respeito da necessidade de elevar a luta contra a desigualdade econômica à condição de princípio político maior. Gore Vidal nunca se esqueceu disso.

Por outro lado, Vidal sabia que o conservadorismo na dimensão dos costumes é indissociável de uma elevação do medo a afeto político central. Medo que, por sua vez, serve de motor fundamental do conservadorismo político. Daí sua maneira de afirmar que, por exemplo, “sexo é política”, que a liberalidade a respeito dos modos da vida afetiva e de suas instituições é indissociável do fortalecimento de uma verdadeira consciência política crítica.

Por tudo isso, Gore Vidal tinha clara consciência de que ele era uma espécie de resquício de um tempo que não se realizou. Uma versão de um país que nunca se calou, mas que tinha cada vez menos vozes. Seu humor amargo era a expressão de alguém que sabia lutar contra o próprio tempo, isso em nome de um futuro que se conserva como promessa. Ele era a prova viva de como é possível ser liberal sem ser estúpido e simplório.

Vladimir Safatle é jornalista e professor da Faculdade de Filosofia da USP.

Gilson Caroni Filho: Mitt Romney, o retorno da serpente

3 de agosto de 2012

A campanha eleitoral republicana nos EUA é toda ela montada em cima de um chauvinismo protofascista. Promete-se uma política externa que, mais uma vez, se constituirá numa grosseira violação dos princípios fundamentais do direito internacional estabelecido na Carta das Nações Unidas.

Gilson Caroni Filho, via Carta Maior

Ao comparar a agenda de seu adversário, Henrique Capriles, com a de Romney, dizendo que “ambos representam a elite insensivelmente egoísta e capitalista”, o presidente venezuelano Hugo Chavez captou com precisão o significado das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Se Obama jamais desconsiderou a correlação de forças internas que limitam as possibilidades de uma reversão da política externa norte-americana, o candidato republicano encarna a continuação de um receituário que, surgido sob a liderança de Ronald Reagan, foi levado às últimas consequências nos dois mandatos de George W. Bush.

Diferente do conservadorismo clássico, em seu radicalismo e recrutamento, esse movimento recebeu o nome de “Nova Direita”. O que foi uma ideia embrionária depois do trauma indochinês, do escândalo de Watergate, da derrota no Irã e da queda de Somoza, se transformou em uma ideologia majoritária calcada na subida de Reagan ao poder e suficientemente consolidada no imaginário de expressiva parcela da opinião pública estadunidense. O que está em jogo nas eleições de novembro vai bem além de “um encontro da democracia com as urnas”. Trata-se de um acontecimento significativo demais para ser ignorado pelas forças progressistas da América Latina.

Mitt Romney significará que os desejos de revanche e utopias regressivas terão se apoderado das mentes e sensibilidades de uma boa parte do eleitorado, dando contextura a um poder que se move à margem da lei e à beira da barbárie. A campanha eleitoral da direita republicana é toda ela montada em cima de um chauvinismo protofascista. Promete-se uma política externa que, mais uma vez, se constituirá numa grosseira violação dos princípios fundamentais do direito internacional estabelecidos na Carta das Nações Unidas, bem como das regras básicas do direito consuetudinário internacional, construído ao longo dos anos.

No plano econômico, esse cenário pode ser explicado pela circunstância de que, por intermédio do sistema financeiro internacional, os Estados Unidos não hesitarão em se valer da força, se preciso for, para descarregar os incômodos negativos da sua crise sobre o resto da comunidade internacional, agravando ainda mais os problemas da Zona do Euro.

No plano ideológico, Romney continuará interpretando os papéis de Reagan e Bush, assumindo a liderança de uma revanche da moral familiar contra a “debilidade dos anos de 1960” e, sobretudo, contra a reação do patriotismo humilhado nos anos de 1970. Uma longa série de reveses que, segundo a cantilena republicana, se deveu à falta de firmeza de administrações democratas.

Paralelamente, ao querer revitalização do último avatar do neoliberalismo, a “Nova Direita”, já não tão nova assim, continuará a desfazer instituições por meio de desmontes radicais dos interesses coletivos. Não é difícil prever uma série de guerras cruentas e inconcludentes, tumultos sociais internos e aumento de arsenais. Lembremos que os republicanos sabem muito bem que o capitalismo requer polarização permanente e, aliás, floresce nela. Os processos de “libertação” dos povos – tal como as primaveras outonais a que temos assistido na África – ignoram todos os sujeitos históricos que não sejam funcionais às necessidades expansionistas do império. Essa cegueira continuará pretendendo expropriar os povos de seus próprios destinos para torná-los agentes de uma geopolítica que os supera. A alternativa a Obama aprofundará o que de pior foi registrado na gestão dele.

Mitt Romney é a crença do saneamento da economia através de limites ao jogo político. Apesar das evidências em contrário, seriam os excessos do Estado-Previdência, e não a crise do sistema em seu conjunto, a causa de todos os males. Apoiada sempre na escola monetarista, a “Nova Direita” continuará defendendo que a solução dos problemas passa pelo fim da intervenção estatal na economia. Além de não serem de forma alguma cerceados, os fluxos de capital devem receber novos estímulos, mediante a redução de impostos. A crença na reorganização da economia pela dinâmica própria das forças de mercado permanece intacta apesar do mergulho recessivo dos últimos anos.

Ao criticar a política externa de seu concorrente democrata, em discurso perante a 113ª convenção do grupo “Veteranos de Guerras Estrangeiras”, Romney não poderia ser mais claro em seus propósitos.

“O presidente Obama teve um momento de franqueza outro dia. Disse que as ações do ditador venezuelano, Hugo Chavez, não tiveram impacto sério em nossa segurança nacional. Do meu ponto de vista, convidar o Hezbollah para nosso hemisfério é grave, é uma ameaça.”

Em seu giro internacional, o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos mostrou como vê o quebra-cabeça, excessivamente complexo, do Oriente Médio. A situação econômica de Gaza e Cisjordânia nada tem a ver com o bloqueio israelense às duas áreas palestinas. A pujança de Israel, se comparada aos territórios ocupados, se deve, segundo Romney, à “superioridade cultural” do país governado por Benjamin Netanyahu. Essa e outras manifestações de apoio à política sionista permitem prever que as agressões militares permanentes ao povo palestino continuarão contando com apoio incondicional do governo estadunidense.

Não é preciso ter olhos de águia para perceber o lento deslocamento da serpente momentos antes da desova. Mitt Romney está silvando alto demais. Para uma América Latina que, desde cedo, foi condenada à amnésia por aqueles que a impediram de ser plena em sua própria história, convém prestar atenção às palavras do presidente venezuelano.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Relatório da CIA mostra o declínio da influência dos EUA no mundo

26 de julho de 2012

Relatório da CIA indica que o poder mundial dos EUA não se perpetuará ao longo dos próximos anos

Lido no Advivo

O National Intelligence Council (NIC), centro de estudos estratégicos da CIA, divulgou parcialmente seu novo relatório quinquenal sobre as tendências globais (Global Trends) da política internacional. O relatório definitivo será entregue em novembro ao próximo presidente dos Estados Unidos. Mas os tópicos já divulgados são de bastante interesse. Vários institutos de estudos estratégicos, jornais europeus e a blogosfera comentaram o relatório.

Como observou o jornal parisiense Le Monde, a principal análise do relatório consiste em projetar as tendências para 2030 num contexto pós-americano. Nesta perspectiva o relatório traça um o cenário otimista e outro pessimista. O primeiro prevê uma perda de influência gradual dos Estados Unidos, num mundo em que a cooperação internacional se acentuaria e as crises políticas e econômicas seriam resolvidas, pacificamente e em boa ordem, pelas negociações multilaterais. No segundo cenário ocorreria uma “desintegração”. O declínio norte-americano, seguido pela ascensão das potências asiáticas, daria lugar a um mundo fragmentado, no qual as instituições internacionais perderiam sua influência, e os riscos de conflitos armados aumentariam, principalmente na Ásia e no Oriente Médio.

Embora a notícia não tenha repercutido no Brasil, o país é citado em várias partes do novo relatório, nos textos preparatórios e nos comentários postados por especialistas.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU é comentada pelo jurista William Burke-White, que foi professor da Universidade de Princeton e conselheiro do Departamento de Estado. Para ele, o apoio explícito dos EUA à Índia e o incentivo, menos explícito, ao Brasil, para a entrada dos dois países como membros permanentes do Conselho Segurança (CS), não teve ainda maiores consequências. Mas a reforma do CS parece ser inevitável.

Num outro texto, o mesmo autor escreve que o próximo CS contaria com o Brasil, China, Índia, Japão, Rússia, Estados Unidos, um ou mais países europeus, e um ou mais países africanos. A situação é mais complicada é a da Europa, onde a Inglaterra e a França já tem assento permanente no Conselho de Segurança (CS), e a Alemanha pleiteia o mesmo privilégio. Segundo Burke-White, quanto mais o tempo passa, mais as pretensões europeias parecem irrealistas. Parece improvável que ainda haja, em 2030, dois assentos concedidos aos países europeus no CS.

Outros textos questionam o estatuto do Brasil, China, Índia e África do Sul como potências mundiais, dadas as contradições políticas e sociais existentes nestes países. A situação da China parece particularmente duvidosa. Dada às vulnerabilidades ligadas à sua evolução demográfica, à corrupção endêmica e à erosão da legitimidade do regime, a China pode conhecer sérios problemas num quadro de estagnação econômica. Neste caso, o cenário previsto é o de uma situação de hipernacionalismo, como no Japão e na Alemanha nos anos 1920-1930.

As análises mais detalhadas só serão conhecidas na publicação do relatório definitivo, depois das eleições presidenciais norte-americanas. No entanto, há um dado comum na maioria dos cenários esboçados até agora: a hiperpotência norte-americana não se perpetuará ao longo dos próximos anos.

Mauro Santayana: Os EUA precisam viver no mundo real

26 de julho de 2012

Os EUA e suas ficções

Mauro Santayana em seu blog

Os EUA, enquanto sociedade, sempre transitaram entre a fantasia e a realidade. A construção do mito americano e a sua disseminação pelo mundo, foram essenciais para o american way of life e a vitória sobre os soviéticos na Guerra Fria.

Usando o cinema como arma de propaganda e cooptação cultural, os Estados Unidos, de Tom Mix a John Wayne, sempre exploraram o mito do cavaleiro solitário, que é rápido no gatilho e vive à margem do sistema, embora, na verdade, Calamity Jane tenha morrido de alcoolismo, Buffallo Bill, de um problema renal, e Bat Masterson, do coração.

O cidadão típico norte-americano acredita piamente nisso, e de vez em quando sua convicção no individualismo vai além da crença, e explode como as bombas do “Unabomber” John Kaczynski, ou do veterano da Guerra do Golfo Timothy McVeigh, que implodiu em 1995 o Edifício Federal de Olklahoma City, com centenas de pessoas em seu interior.

Do hábito de fantasiar o passado de seus mitos os norte-americanos passaram a dar-lhes outras dimensões, mediante a ficção dos quadrinhos, com o aparecimento, em 1938, do Super-Homem, e, não por acaso, um ano antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

O menino de Krypton seria logo seguido de uma longa linhagem de seres dotados de identidades secretas e superpoderes, e alguns deles, como o Capitão América e o Príncipe Submarino, seriam convocados para combater, no plano da fantasia, os inimigos externos dos Estados Unidos.

Com o tempo, os roteiros e os vilões tornaram-se complexos, soturnos e psicologicamente mais bem estruturados. E a utilização de atores como Danny De Vito e Jack Nicholson para interpretá-los elevou a um outro patamar o que antes estava – teoricamente – dirigido apenas ao público infantil.

O cinema foi criado para que fantasia se sobrepusesse à realidade. Mas, de vez em quando, fantasia e realidade, neste novo mundo dominado pela ânsia da ilusão e do escapismo, tornam-se unidimensionais por um instante, e a tragédia eclode – lá e no resto do mundo.

Foi o que aconteceu na semana passada, em uma sala de cinema de shopping center de Aurora, na região de Denver, no Colorado. Como no título do filme, Batman – O Cavaleiro Negro Ressurge das Trevas, um universitário de 24 anos, mascarado e vestido de preto, explodiu duas bombas de fumaça e gás lacrimogêneo dentro do cinema, trinta minutos depois do início do filme, e atirou, em seguida, a esmo, matando doze pessoas e ferindo mais de cinquenta, entre elas crianças. Preso pouco depois, fortemente armado, no estacionamento, o matador, James Holmes, identificou-se como o “Coringa”. Apanhadas, como moscas em uma teia de aranha, entre a ilusão e o fato, muitas vítimas foram atingidas por ter continuado onde estavam, acreditando que tudo aquilo era parte do espetáculo.

O mundo necessita voltar à realidade.

Mauro Santayana: O crime organizado pelos banqueiros

16 de julho de 2012

Mauro Santayana em seu blog

A invenção da moeda, contemporânea à do Estado, foi um dos maiores lampejos da inteligência humana. A primeira raiz indo-europeia de moeda é men, associada aos movimentos da alma na mente, que chegou às línguas modernas pelo verbo sânscrito mányate (ele pensa). Sem essa invenção, que permite a troca de bens de natureza e valores diferentes, não teria havido a civilização que conhecemos.

A construção das sociedades e sua organização em estados se fizeram sobre essa convenção, que se funda estritamente na boa-fé de todos que dela se servem. Os estados sempre foram os principais emissores de moeda. A moeda, em si mesma, é neutra, mas, desde que surgiu, passou a ser também servidora dos maiores vícios humanos. Com a moeda, vale repetir o lugar-comum, cresceram a cobiça, a luxúria, a avareza – e os banqueiros.

A moeda, ou os valores monetários, mal ou bem, está sob o controle dos estados emitentes, que se responsabilizavam pelo seu valor de face, mediante metais nobres ou estoques de grãos. Nos tempos modernos, no entanto, a sua garantia é apenas virtual. Os convênios internacionais se amarram a um pacto já desfeito, o Acordo de Bretton Woods, de 1944. A ruptura do contrato foi ato unilateral dos Estados Unidos, sob a presidência Nixon, ao negar a conversibilidade em ouro do dólar, moeda de referência internacional pelo acordo.

Essa decisão marca o surgimento de uma nova era, em que o valor da moeda não se relaciona com nada de sólido. Os bancos, ao administrá-la, deveriam conduzir-se de forma a merecer a confiança absoluta dos depositantes e dos acionistas, e assegurar essa mesma confiabilidade às suas operações de crédito. O papel social dos bancos é o de afastar os usurários e agiotas do mercado do dinheiro. Mas não é desta forma que têm agido, sobretudo nestes nossos tempos de desmantelamento dos estados. Hoje, não há diferença entre um Shylock shakespereano e qualquer dirigente dos grandes bancos.

Na Inglaterra, o escândalo do Barclays, que se confessou o primeiro banco responsável pela manipulação da taxa Libor, provocou o espanto da opinião pública, mas não dos meios financeiros que não só conheciam o deslize, como dele se beneficiavam.

Segundo noticiou El Pais, os dois grandes executivos da Novagalícia, surgida da incorporação de duas instituições oficiais da província galega – a Nova Caixa e a Caixa Galícia – e colocada sob o controle de Madri em setembro do ano passado, pediram desculpas a seus clientes, por ter a instituição agido mal. Entre outros de seus malfeitos, esteve o de enganar pequenos investidores mal informados, entre eles alguns analfabetos, com aplicações de alto risco, ou seja, ancoradas em débitos podres – as famosas subprimes –, adquiridas dos bancos maiores que operam no mercado imobiliário do mundo inteiro.

Além disso, os antigos responsáveis por esses desvios, deixaram seus cargos percebendo indenizações altíssimas. E os novos administradores tiveram sua remuneração reduzida, por serem as antigas absolutamente irracionais. Com todas essas desculpas, a Novagalícia quer uma injeção de 6 bilhões de euros, a fim de regularizar a sua situação.

Este jornal reproduziu artigo de The Economist, a propósito da manipulação da taxa Libor, por parte do Barclays, e disse, com a autoridade de uma revista que sempre esteve associada à City, que não há mais confiança nos maiores bancos, do mundo, como o Citigroup, o J.P.Morgan, a União de Bancos Suíços, o Deutschebank e o HSBC. Executivos desses bancos, de Wall Street a Tóquio, estão envolvidos na grande manipulação sobre uma movimentação financeira total de US$800 trilhões.

Para entender a extensão da falcatrua, o PIB mundial do ano passado foi calculado em cerca de US$70 trilhões, menos de 10% do dinheiro que circulou escorado na taxa manipulada pelos grandes bancos. A Libor, sendo a taxa usada nas operações interbancárias, serve de referência para todas as operações do mercado financeiro.

O mundo se tornou propriedade dos banqueiros. Os trabalhadores produzem para os banqueiros, que controlam os governos. E quando, no desvario de sua carência de ética e falta de inteligência, os bancos investem na ganância dos derivativos e outras operações de saqueio, são os que trabalham, como empregados ou empreendedores honrados, que pagam. É assim que estão pagando os povos da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Grã-Bretanha, e do mundo inteiro, mediante o arrocho e o corte das despesas sociais, pelos governos vassalos, além do desemprego, dos despejos inesperados, das doenças e do desespero, a fim de que os bancos e os banqueiros se safem.

Se os governantes do mundo inteiro fossem realmente honrados, seria a hora de decidirem, sumariamente, pela estatização dos bancos e o indiciamento dos principais executivos da banca mundial. Eles são os grandes terroristas de nosso tempo. É de se esperar que venham a conhecer a cadeia, como a está conhecendo Bernard Madoff. Entre o criador do índice Nasdaq e os dirigentes do Goldman Sachs e seus pares, não há qualquer diferença moral.

Os terroristas comuns matam dezenas ou centenas de cada vez. Os banqueiros são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, todos os anos, sem correr qualquer risco pessoal. E ainda recebem bônus milionários.


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