Posts Tagged ‘Estados Unidos’

Por que os Estados Unidos são tão detestados

3 de junho de 2013

EUA_Morte01Esta é uma questão sobre a qual os norte-americanos deveriam se deter com profundidade e coragem.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Por que os Estados Unidos são tão detestados no Oriente Médio? Na chamada “Guerra ao Terror”, esta é uma questão sobre a qual os norte-americanos deveriam se deter com profundidade e coragem.

Nada alimenta tanto o terrorismo quando o ódio movido aos Estados Unidos. Bin Laden não teria abandonado os confortos de uma vida de milionário se não detestasse tanto os Estados Unidos.

O jornalista norte-americano Steve Coll, em seu aclamado Os Bin Ladens, um livro que conta a história da família empreendedora de Osama, cita um fato que faz pensar.

Segundo ele, mesmo em círculos moderados no Oriente Médio — estamos falando de gente que não apoia o extremismo – não houve condenação ao atentado de 11 de Setembro. Havia um sentimento, diz Coll, de que os Estados Unidos “tinham merecido” aquele castigo.

Tanto assim que Bin Laden virou um herói na região. Os índices de aprovação a ele eram enormes nos países do Oriente Médio. No Paquistão, onde afinal ele morreria, dois terços da população o apoiavam.

Por quê?

Porque ele simbolizou o ódio aos Estados Unidos, tão arraigado por lá.

Sua própria família, longe de ter sido estigmatizada, viu crescerem os negócios depois do atentado que tornou mundialmente conhecido Bin Laden.

Sem um exame de consciência para tentar entender o horror que provoca entre os árabes, os Estados Unidos podem matar quem for – que o mundo não vai ficar mais seguro.

Acabo de ler um livro chamado Meu diário de Guantânamo, de uma advogada norte-americana de origem afegã chamada Mahvish Rukhsana Khan. Espero que seja lançado no Brasil. É um livro que ajuda a entender melhor o mundo contemporâneo.

Mahvish, uma norte-americana que chega a chorar quando ouve o hino de seu país, frequentou como advogada Guantânamo. O que viu lá virou um livro. Mahvish, por causa dele, tem feito palestras para contar suas histórias de Guantânamo. Abaixo deste texto, você pode ver um vídeo dela.

Vou transcrever trechos do depoimento de um detento a ela:

Os norte-americanos disseram que foram ao Afeganistão combater violações de direitos humanos do Talibã. Mas os Estados Unidos mostraram ao mundo que não respeitam os direitos humanos. Eles agrediram leis internacionais. Bombardearam casamentos. Bombardearam funerais e mataram gente que chorava seus mortos queridos. Bombardearam casas e mataram meninos e meninas. Que crimes estas pessoas cometeram?

O problema com o governo norte-americano é que suas decisões são enviesadas. São governadas pela ganância. Os norte-americanos querem o petróleo e tudo que lhes seja favorável. Quando eles chegaram ao Afeganistão, gostamos. Considerávamos os Estados Unidos nossos amigos nos tempos em que fomos ocupados pela Rússia. Mas depois as bombas começaram a cair do céu. Os norte-americanos destruíram o que restava de nós, e começaram a nos prender sem julgamento e sem evidências.

Os Estados Unidos não estão em condições de falar em democracia. Eles têm de mexer muito neles mesmos antes de falar pelos outros. Não estou dizendo que todos os norte-americanos sejam ruins. Há bons e há maus. Mas há dois nomes nesta questão do terrorismo que merecem sua má reputação: o Talibã e os Estados Unidos.”

É tão difícil entender a origem do ódio aos norte-americanos?

Paulo Nogueira: Por que os EUA fracassaram

30 de dezembro de 2012

Obama_Favelado

Uma sociedade movida pela busca de status é insustentável, diz o acadêmico Morris Berman.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Morris Berman, 67 anos, é um acadêmico norte-americano que vale a pena conhecer. Acabo de ler Por que os Estados Unidos fracassaram, dele. A primeira coisa que me ocorre é: tomara que alguma editora brasileira se interesse por este pequeno – 196 páginas – grande livro.

A questão do título é respondida amplamente. Você fecha o livro com uma compreensão clara sobre o que levou os norte-americanos a um declínio tão dramático.

O argumento inicial de Berman diz tudo. Uma sociedade em que os fundamentos são a busca de status e a aquisição de objetos não pode funcionar.

Berman cita um episódio que viu na televisão. Uma mulher desabou com o rosto no chão em um hospital em Nova Iorque. Ela ficou tal como caiu por uma hora inteira, sob indiferença geral, até que finalmente alguém se movimentou. A mulher já estava morta.

“O psicoterapeuta Douglas LaBier, de Washington, tem um nome para esse tipo de comportamento, que ele afirma ser comuníssimo nos Estados Unidos: síndrome da falta de solidariedade”, diz Berman. “Basicamente, é um termo elegante para designar quem não dá a mínima para ninguém senão para si próprio. LaBier sustenta que solidariedade é uma emoção natural, mas logo cedo perdida pelos norte-americanos porque nossa sociedade dá foco nas coisas materiais e evita reflexão interior.”

Berman afirma que você sente no ar um “autismo hostil” nas relações entre as pessoas nos Estados Unidos. “Isso se manifesta numa espécie de ausência de alma, algo de que a capital Washington é um exemplo perfeito. Se você quer ter um amigo na cidade, como Harry Truman disse, então compre um cachorro.”

Morris Berman

Morris Berman

O norte-americano médio, diz ele, acredita no “mito” da mobilidade social. Berman nota que as estatísticas mostram que a imensa maioria das pessoas nos Estados Unidos morrem na classe em que nasceram. Ainda assim, elas acham que um dia vão ser Bill Gates. Têm essa “alucinação”, em vez de achar um absurdo que alguém possa ter mais de US$60 bilhões, como Bill Gates.

“Estamos assistindo ao suicídio de uma nação”, diz Berman. “Um país cujo propósito é encorajar seus cidadãos a acumular mercadorias no maior volume possível, ou exportar ‘democracia’ à base de bombas, é um navio prestes a afundar. Nossa política externa gerou o 11 de setembro, obra de pessoas que detestavam o que os Estados Unidos estavam fazendo com os países delas. Nossa política [econômica] interna criou a crise mundial de 2008.”

A soberba norte-americana é sublinhada por Berman em várias situações. Ele cita, por exemplo, uma declaração de George W Bush de 1988: “Nunca peço desculpas por algo que os Estados Unidos tenham feito. Não me importam os fatos.” Essa fala foi feita pouco depois que um navio de guerra norte-americano derrubou por alegado engano um avião iraniano com 290 pessoas a bordo, 66 delas crianças. Não houve sobreviventes.

Berman evoca também a Guerra do Vietnã. “Como entender que, depois de termos matado 3 milhões de camponeses vietnamitas e torturado dezenas de milhares, o povo norte-americano ficasse mais incomodado com os protestos antiguerra do que com aquilo que nosso exército estava fazendo? É uma ironia que, depois de tudo, os reais selvagens sejamos nós.”

Você pode perguntar: como alguém que tem uma visão tão crítica – e tão justificada – de seu país pode viver nele?

A resposta é que Berman desistiu dos Estados Unidos. Ele vive hoje no México, que segundo ele é visceralmente diferente do paraíso do narcotráfico pintado pela mídia norte-americana – pela qual ele não tem a menor admiração. “Mudei para o México porque acreditava que ainda encontraria lá elementos de uma cultura tradicional, e acertei”, diz ele. “Só lamento não ter feito isso há 20 anos. Há uma decência humana no México que não existe nos Estados Unidos.”

Clap, clap, clap.

Não vai dar no PIG: Processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo, diz Carter

23 de setembro de 2012

Via Vermelho

O ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, disse que, após monitorar mais de 90 eleições em diversos países, pode afirmar que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”.

O político elogiou a Venezuela por contar com um sistema automatizado de votação que também lança um boleto e facilita a verificação dos resultados, refere uma matéria publicada no site Global Atlanta.

Desde 2008, a plataforma eleitoral venezuelana funciona de maneira automatizada em sua totalidade, é dizer, cada um dos processos, desde a inscrição no Registro Eleitoral até a contagem dos votos, é auditável.

Em 2006, quando o mandatário Hugo Chavez ganhou pela segunda vez as eleições presidenciais, Carter declarou que o líder venezuelano havia triunfado “limpamente e com imparcialidade”.

Corrupção nos Estados Unidos

O democrata realçou que, enquanto os sistemas eleitorais na América Latina melhoraram significativamente, nos Estados Unidos se consolidou uma “corrupção financeira” vinculada aos processos eleitorais, alimentada pelas “resoluções que facilitaram o fluxo de dinheiro provado para os cofres dos candidatos”.

O ex-presidente (1977–1981) liderou a petição para a Corte Suprema dos Estados Unidos para anular a medida tomada em 2010, que declara inconstitucional a regulação por parte do governo das “doações” anônimas para organizações políticas. “Temos um dos piores processos eleitorais do mundo e deve-se praticamente para a excessiva entrada de dinheiro”, sentenciou.

No caso venezuelano, a lei de partidos políticos, reuniões públicas e manifestações ditas como obrigação das organizações políticas “não aceitar doações ou subsídios das entidades públicas, tenham ou não o caráter autônomo; das empresas estrangeiras ou com sede no estrangeiro; de empresas concessionárias de obras públicas ou de qualquer serviço de bens propriedade do Estado; de estados estrangeiros e organizações políticas estrangeiras”.

***

Resultado da eleição na Venezeula interessa a toda a América Latina

Venezuela escolherá seu futuro presidente no próximo dia 7 de outubro.

Os resultados das eleições presidenciais na Venezuela, que ocorrem no próximo 7 de outubro, dizem respeito a toda América Latina e decidirão o avanço emancipador no continente, afirmou, na terça-feira, dia 18, o jornalista argentino Carlos Aznarez.

O diretor do jornal alternativo Resumen Latinoamericano ressaltou que para a América Latina é fundamental o triunfo de Hugo Chavez nas eleições, porque seu governo está impulsionando, como nunca antes, a integração regional.

À Agência Venezuelana de Notícias (AVN), Aznarez explicou que Chavez “iniciou um discurso no qual inclui todos os países latino-americanos e ajudou muitíssimo na integração”.

Como exemplo, o analista lembrou a criação da União das Nações Sul Americanas (Unasul) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

Para Aznarez, na América Latina a “liderança de Chavez é imprescindível”, já que permite o questionamento de organismos da região “que estavam, e alguns deles ainda persistem, aliados ao império”.

Ele ressaltou ainda que um dos principais desafios que Chavez terá em seu próximo governo é “aprofundar o processo revolucionário, como o próprio Hugo Chavez disse”.

Aznarez destacou a necessidade de seguir avançando rumo ao socialismo e enfrentar “dois inimigos sinistros de todos os processos revolucionários, que são a burocracia e a corrupção. Ninguém duvida que Chavez esteja decidido a terminar com isso”, assegurou.

Por fim, Aznarez destacou que na Argentina a candidatura de Chavez “tem um bom eco nos setores populares argentinos e na classe média também” e assegurou que, se pudesse, o povo argentino votaria em Chavez.

Até quando o futuro pode esperar?

4 de setembro de 2012

Saul Leblon, via Carta Capital

O artigo de domingo, dia 2, de FHC no Estadão é uma das excrescências mórbidas de que falava o italiano comunista Antônio Gramsci. Morto em 1937, ele ensinou: “O que caracteriza uma crise é justamente o fato de que o velho já morreu e o que é verdadeiramente novo não consegue nascer; nesse interregno, aparecem toda uma série de sintomas mórbidos”.

Que poderia haver de mais sintomaticamente mórbido nesse arrastado colapso do que um ex-presidente tucano vir a público pontificar lições de ética, finanças e desenvolvimento tendo como régua e compasso o governo e o credo que o ralo da história digere há quatro anos?

FHC, Serra e outros valem-se do limbo pegajoso dos dias que correm para insistir em políticas e agendas condenadas, mas ainda não substituídas no plano mundial – o que dificulta sua ruptura definitiva também no Brasil.

Debater com FHC nesse ambiente movediço traz a angústia das reiterações inúteis. “O velho já morreu”, dizia Gramsci. Mas o novo não consegue nascer.

A quebra do Banco Lehman Brothers completa quatro anos no dia 15 de setembro. A falência do quarto banco de investimento dos EUA rompeu o sistema financeiro mundial e desencadeou a deriva da qual somos passageiros desde 2008. Sugestivamente, na terça-feira, dia 5 de setembro, começa também a convenção do Partido democrata nos EUA, da qual Obama sairá candidato à reeleição.

Visto como esperança de recomeço no terremoto de 2008, o democrata tornou-se também um ponto dentro da curva. Mais tragável que o antecessor ou o adversário, sem dúvida. Mas a nicotina mentolada de que é feito provou-se insuficiente para arejar o quadro asfixiante da maior crise capitalista desde 1929. O ano de 2008 não encontrou seu Roosevelt. E parece cada vez mais improvável que encontre um new New Deal capaz de afrontá-lo a partir do centro rico.

George Soros, o mega-especulador de cuja argúcia não se deve duvidar, declarou em recente entrevista ao El País que teme pelo desfecho político da deterioração em marcha. Sobretudo na Europa, coalhada de governos histericamente ortodoxos. Profundamente pessimista com o futuro do euro, vítima da incapacidade alemã de assumir-se como um “Roosevelt na União Europeia”, Soros, a 20ª maior fortuna do planeta, inquieta-se com os fantasmas que povoam seu ângulo de visão privilegiado. Um pouco como aconteceu depois da Depressão de 1929, ele adverte, o salve-se quem puder será entremeado de nacionalismos econômicos e totalitarismo político.

A margem de manobra se estreita de uma ponta a outra do impasse.

O extremismo mercadista dobrou a aposta neoliberal em sua versão arrocho. O resultado desespera eleitores que se voltaram à direita desde 2008. Espanha, Portugal, Itália, Grécia etc. fazem água e há desemprego por todos os lados. Ninguém leva a sério “os esforços”’ do direitista Rajoy para esfolar a Espanha até o osso, em troca de maior confiança dos mercados. Os mercados tiraram mais de €240 bilhões da economia espanhola só no primeiro semestre deste ano.

Não é exatamente convidativo, tampouco, o horizonte de forças que se opõem à razia conservadora, mas o fazem na margem, sem afrontar o cuore da austeridade suicida. O liquidificador dos interesses contrariados e das expectativas insatisfeitas tende a moê-los com virulência até superior à mastigação lenta dedicada às administrações direitistas.

Na França, o socialista recém-eleito François Hollande vê seu espaço de governo estreitar-se sob duplo torniquete: de um lado, a voz rouca de 3 milhões de desempregados; de outro, pressões do bureau do euro para cortar €33 bilhões do orçamento público.

O ambiente é cada vez mais abafado na sala VIP do mundo. Mas a brisa da esperança que sopra da América Latina tampouco exibe vigor, por enquanto, para fixar uma nova rota de longo curso, à margem do engessamento neoliberal. A AL – Brasil à frente – logrou em pleno colapso preservar baixas taxas de pobreza e desemprego, com alguma retomada de investimento.

Havia a expectativa de que o vendaval da crise pudesse amainar mais depressa devolvendo fôlego a essa travessia lenta e gradual, feita de redistribuição do crescimento com maior convergência de direitos e oportunidades.

A visibilidade dessa zona de conforto político torna-se a cada dia mais opaca.

Tudo indica que os avanços sociais tendem a se tornar mais difíceis. Sobretudo porque, após vitórias significativas contra a pobreza, ir além implica afrontar a desigualdade. Essa requer mudanças estruturais na alocação do estoque da riqueza existente para ser alterada (seja na esfera fundiária, urbana, patrimonial ou financeira).

Não é um mantra ideológico. Que ninguém se iluda com fábulas amenas de retorno a um mundo de desconcentração financeira amigável à produção e ao desenvolvimento. Regulação não significa diluição, mas sim subordinação do capital financeiro aos desígnios da sociedade e seu retorno ao papel de alavanca da produção.

A concentração de capitais – a formação de grandes fundos de recursos – é um traço intrínseco à dinâmica capitalista. Num certo sentido é também uma necessidade da escala de financiamento requerida pelas demandas por infraestrutura, planos de universalização de serviços e direitos, ademais da reordenação ambiental.

Essa agregação de grandes volumes de recursos terá de ser feita por alguém. O colapso neoliberal mostra para onde a coisa caminha quando os mercados ficam livres e capturam o crédito, o financiamento e o juro para estripulias especulativas dissociadas do circuito da produção.

A alternativa com capacidade para fazê-lo de maneira socialmente democrática é o Estado.

O prolongamento da crise exige que ele ocupe espaços crescentes na economia. Sem esse salto político será impossível comandar a retomada do crescimento e colocar os mercados e a serviço da sociedade. Não se cumpre esse papel indutor e planejador sem fundos públicos em escala correspondente.

Segundo o relatório da Cepal, “Mudança estrutural para a igualdade: uma visão integrada do desenvolvimento”, a carga fiscal média vigente na América Latina, de 18% a 19%, trava esse passo.

Na Europa e na América Latina, incluindo-se o caso específico do Brasil, a alavanca fiscal emperrada reflete um flanco mais grave: o desarmamento político das forças sociais que deveriam assumir a tarefa de acionar o papel hegemônico da iniciativa pública. Ou seja, erguer as linhas de passagem para equacionar a crise com uma socialização democrática dos recursos disponíveis.

É o cerne do impasse de que fala Gramsci.

A questão que se coloca aos partidos progressistas é de urgência transparente: quanto tempo o futuro ainda pode esperar antes que manifestações mórbidas, como a de FHC, tentem se impor à sociedade com sua agenda zumbi? A ver.

Leia também:

Resposta de Dilma ao privatista FHC: A herança bendita de Lula

Emir Sader: A herança maldita de FHC

Políticos paraguaios mantêm mentalidade da Guerra Fria

2 de setembro de 2012

Para ex-chanceler, classe política paraguaia rejeita Venezuela no Mercosul por personificar comunismo na figura de Chavez.

Para Lara Castro, EUA foram coniventes com golpe no país e Venezuela ajudará a diminuir assimetrias no Mercosul.

Via Opera Mundi

Os setores poderosos do Paraguai não se adequaram ao contexto mundial posterior à Guerra Fria. Esta é a tese do ex-ministro de Relações Exteriores Jorge Lara Castro para explicar a destituição do presidente Fernando Lugo, em junho, e a rápida iniciativa do governo de Federico Franco em favor da entrada de multinacionais no país.

Para o ex-chanceler, a rejeição local à adesão da Venezuela ao Mercosul se deve à mentalidade de uma classe política que parou no tempo e insiste na luta contra o comunismo, personificado atualmente na figura de Hugo Chavez.

Em entrevista ao Opera Mundi, Lara Castro explica como as tentativas de transformar o modelo socioeconômico do país levaram à derrocada de um governo eleito democraticamente em 2008. Discorre também sobre o isolamento do Paraguai após as sanções regionais e as potencialidades de contribuição da Venezuela para o desenvolvimento local.

***

Opera Mundi: Como o senhor analisa o impacto provocado pela destituição do presidente Lugo na política externa paraguaia?

Jorge Lara Castro: Antes de 2008, a política exterior refletia a manutenção de um modelo agro-exportador baseado na exploração irracional da terra e no sacrifício humano de milhares de pessoas. O governo Lugo redefiniu essas relações, priorizando a recuperação da soberania e uma integração regional centrada não somente no comércio, mas no desenvolvimento econômico e social. Isso fez com que o Paraguai melhorasse sua imagem, antes altamente negativa e marginal, no cenário internacional. Isso se deve a um maior contato em nível presidencial e da participação ativa da população nas discussões sobre a recuperação de recursos estratégicos. Mas com a suspensão do Paraguai no Mercosul e na Unasul, a consequência foi o isolamento do país e um retrocesso no trabalho que tínhamos iniciado.

OM: Mas este quadro de concentração de terra e modelo agro-exportador começou a ser revertido?

LC: Geramos confiança externa, que resultou no aumento de investimentos diretos e no crescimento econômico. Evoluímos muito no âmbito do Mercosul, em relação ao orçamento, à organização institucional e ao processo de integração, o que criava condições para a mudança do modelo. Contávamos com grande solidariedade da região, mas isso não pode ser feito de um dia para o outro. Não houve mudanças substantivas na estrutura, mas geramos espaços de participação entre setores excluídos e marginalizados.


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