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Futebol: O Catar e a escravidão moderna na Copa de 2022

4 de outubro de 2013
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Um dos futuros estádios do Catar para a Copa de 2022.
Foto do Comitê de Candidatura do Catar / Copa 2022.

Entidade estima que 4 mil trabalhadores irão morrer na construção de estádios e infraestrutura do país se a legislação trabalhista continuar a ser ignorada.

Gabriel Bonis, de Londres, via CartaCapital

O Catar, sede da Copa do Mundo de futebol de 2022, voltou a ser alvo de críticas devido ao mundial da Fifa. Após a revista France Football, tradicional publicação esportiva francesa, afirmar em janeiro deste ano que o país comprou o direito de hospedar o evento esportivo, a Confederação Sindical Internacional (ITUC, sigla em inglês) denunciou nesta semana que mais de 4 mil trabalhadores podem morrer no Catar antes mesmo de a competição começar, devido a precárias condições de trabalho.

No país, dono da maior renda per capita do mundo, é comum que empresas relacionadas a obras da Copa – e outras construções em geral – não respeitem leis trabalhistas internacionais, como as que estipulam a carga horária diária do funcionário e o uso de equipamentos de segurança. Com as regras de lado, acumulam-se casos de acidentes no setor de construção do país e de mortes de trabalhadores, em sua grande maioria imigrantes de países pobres da Ásia e da África.

Segundo a Confederação Sindical Internacional, que representa a 178 milhões de filiados em 156 países, o número de trabalhadores imigrantes mortos no Catar chega a 400 por ano. A maioria deles vem do Nepal e Índia, em meio a uma população de 1,2 milhão de funcionários estrangeiros no país.

Em uma carta aberta, Sharan Burrow, secretária-geral da confederação, destacou que as autoridades do Catar esperam trazer até mais 1 milhão de trabalhadores estrangeiros para concluir toda a infraestrutura necessária à Copa. Mas, se não houver reformas trabalhistas, o número de mortes aumentará concomitantemente à quantidade de novos trabalhadores. “Mais de 4 mil vidas de trabalhadores correm risco nos próximos sete anos conforme a construção das obras da Copa do Mundo comece, se nada for feito para dar direitos trabalhistas aos imigrantes”, disse Burrow.

Segundo a sindicalista, após dois anos de conversas com a Fifa e o Catar, nada foi feito para mudar o cenário no país que tem nível de fatalidades no setor de construção oito vezes maior que o registrado em países ricos. A carta ainda pede que o governo do Catar assuma a responsabilidade pelos trabalhadores imigrantes, associando-se a empresas de recrutamento responsáveis para garantir uma escolha ética de funcionários para as obras da Copa.

O Catar, destaca a ONG, não coleta ou publica dados relacionados a morte ou ferimentos de imigrantes.

Os casos de violações trabalhistas no país ganharam grande destaque nesta semana, após uma reportagem do jornal britânico The Guardian revelar dezenas de casos de imigrantes em condições de escravidão moderna nos canteiros de obras da Copa. Segundo as apurações, ao menos 44 nepaleses morreram entre 4 de junho e 8 de agosto deste ano, cerca de 50% deles em acidentes de trabalho ou por problemas no coração, acredita-se, causados pelas péssimas condições de trabalho e pelo calor que costuma chegar a 50 graus no verão. Muitos eram jovens com cerca de 20 anos.

A reportagem do jornal colheu relatos de imigrantes obrigados a trabalhar no calor elevado, pessoas com salários retidos por diversos meses e passaportes presos para que não pudessem fugir. Além disso, eles não teriam acesso à água potável gratuita e muitos passavam fome.

As fatalidades também atingem os indianos: ao menos 82 morreram nos primeiros cinco meses do ano. Entre 2010 e 2012, foram mais de 700.

Com as denúncias, a organização da Copa no Catar se disse preocupada com os casos de escravidão moderna, mas ressaltou que a construção dos estádios ainda não começou. As obras com irregularidades, no entanto, fazem parte dos projetos de infraestrutura para o mundial. A Fifa comentou apenas que vai contatar a organização do evento para discutir as denúncias do jornal.

Futebol e ditadura: Filho de Vladimir Herzog cria petição online para tirar Marin da CBF

28 de fevereiro de 2013
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Petição online espera recolher 100 mil assinaturas para pressionar Marin a deixar o comando da CBF. Foto: José Cruz/ABr

Gabriel Bonis, via CartaCapital

Cresce na internet um novo movimento anti-José Maria Marin, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desde o início da semana, mais de 6 mil internautas assinaram uma petição online para tentar remover o dirigente do cargo (acesse aqui), em um protesto criado por Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, morto por agentes da ditadura. Durante a repressão, o ex-governador biônico de São Paulo integrou o Arena (partido criado pelos militares) e mostrou simpatia por figuras como Sérgio Fleury, torturador de dissidentes do regime.

A petição, que visa recolher 100 mil assinaturas, repercutiu de forma rápida. “Fiquei impressionado”, conta Ivo a CartaCapital. O presidente do Instituto Vladimir Herzog diz saber que a ação pode não ter a influência pretendida por ser direcionada a uma entidade privada. “Não podemos interferir, mas vai ficar cada vez mais pública essa indignação das pessoas em ter o Marin como o anfitrião do Mundial. Temos que registrar o nosso protesto e criar situações de incômodo para que ele saia ou ao menos deixe o Comitê Organizador da Copa”.

Segundo Ivo, a decisão de lançar o movimento ocorreu após ver o blog do jornalista Juca Kfouri ser acionado na Justiça para explicar a reprodução de uma “convocação” para um escracho a Marin, organizado pela Articulação Estadual pela Memória, Verdade e Justiça, e um texto sobre um discurso do dirigente contra a TV Cultura. A emissora era acusada por ele de ter “comunistas” infiltrados. Um deles seria o então editor-chefe de jornalismo, Vladimir Herzog.

As críticas à estatal paulista, e também os elogios a Fleury, ficaram registrados no Diário Oficial do Estado (Leia aqui e aqui). Em 9 de outubro de 1975, na Assembleia Legislativa, o então deputado estadual José Maria Marin pediu “providências” contra a emissora. “É preciso mais do que nunca uma providência, a fim de que a tranquilidade volte a reinar não só nesta Casa [TV Cultura], mas principalmente nos lares paulistanos”, disse Marin. Duas semanas depois, Herzog foi assassinado no DOI-Codi e teve o suicídio forjado pelo regime.

A petição enfatiza os laços de Marin com a ditadura e destaca que seus discursos apoiaram “movimentos que levaram a tortura, morte e desaparecimento de centenas de brasileiros. O caso mais notório é do jornalista Vladimir Herzog”. “Não podemos permitir que Marin viva a glória de estar à frente do maior evento mundial da nossa história”, diz o texto.

Para Ivo, o dirigente representa “o mais grave do sentido da impunidade”. Sua presença no comando da Copa do Mundo, acredita, vai reforçar para “a percepção de que o Brasil é um país da impunidade e que muitas vezes ela é recompensada da pior forma possível”.

CartaCapital contatou Marin por meio de sua assessoria de imprensa, mas não recebeu resposta.

Jornalista que investigou Ricardo Teixeira é condenado sem conhecer acusação

16 de fevereiro de 2013

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Via CartaCapital

Levantamento publicado pelo Jornal do Brasil mostra que o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira conseguiu na Justiça o arquivamento de todos os inquéritos nos quais era acusado de crimes como lavagem de dinheiro e recebimento de propina. As ações corriam no Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

A única condenação, de acordo com a reportagem, ocorreu na Justiça estadual do Rio. A decisão, no entanto, é favorável a Ricardo Teixeira, que foi chamado de “corrupto” pelo jornalista inglês Andrew Jennings (foto), da BBC, e conseguiu R$10 mil por danos morais. A declaração do jornalista, que levantou as primeiras suspeitas sobre o cartola – como a de que teria recebido R$15 milhões de propina da agência de marketing esportivo ISL – foi feita ao blog do deputado federal Romário (PSB/RJ). Jennings foi condenado à revelia e, em entrevista ao Jornal do Brasil, classificou a decisão como “absurda”.

“Não faz o menor sentido, eu nem sabia que tinha esta acusação formal contra mim”, disse.

A decisão do juiz Augusto Alves Moreira Júnior, da 3ª Vara Cível do fórum regional da Barra da Tijuca, foi publicada em 22 de novembro do ano passado e só veio à tona após a reportagem. Cabe recurso.

Na decisão, o magistrado escreveu que “os danos morais restaram caracterizados porque os fatos imputados pelo réu ao autor abalaram sua honra bem como sua imagem perante a sociedade”. Ele considerou que a culpa do jornalista ficou caracterizada em razão de sua ausência no julgamento.

“Isso tudo é um absurdo. O Teixeira é um cara que fugiu do Brasil, ele é notoriamente corrupto, renunciou todos os cargos e assumiu que participou do esquema de corrupção. Como posso ter prejudicado a imagem de uma pessoa assim? Como eu posso ter ofendido o caráter dele? Ele é corrupto, já estava com a imagem suja”, disse Jennings ao JB.


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