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Venezuela de Chavez liderou lista de alvos de espionagem dos EUA

8 de novembro de 2013
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A Venezuela de Hugo Chavez entrou na lista da espionagem em 2007, segundo o New York Times.

Via Agência Efe

A Venezuela integrava em 2007 uma seleta lista de seis alvos prioritários para a espionagem da NSA, preocupada pela ameaça com a influência que o governo de Hugo Chavez poderia representar para os interesses norte-americanos na América Latina, de acordo com documentos publicados neste domingo no jornal New York Times.

A Venezuela de Chavez fez parte, junto de China, Coreia do Norte, Irã, Iraque e Rússia da lista de “alvos de longo prazo” para os agentes da Agência Nacional de Segurança (NSA) em 2007, de acordo com um memorando oficial vazado pelo ex-analista da CIA Edward Snowden e cedido ao jornal nova-iorquino pelo britânico The Guardian.

A agência vigiou os e-mails oficiais e pessoais de dez funcionários do mais alto escalão do Ministério do Planejamento e Finanças da Venezuela, ainda de acordo com o NYT.

A missão da NSA no país sul-americano era “ajudar os encarregados políticos (norte-americanos) a prevenir que a Venezuela alcançasse seus objetivos de liderança regional e persiga políticas que impactem negativamente os interesses globais dos EUA”, segundo o memorando oficial de 2007.

O governo do então presidente norte-americano, George W. Bush, se via “em uma competição pela liderança na América Latina com o líder da Venezuela, o esquerdista Hugo Chavez”, indica o NYT.

Por isso, o documento da NSA instruía os agentes a “avaliar o progresso de Chavez em suas iniciativas de alcançar alvos de poder regional nas arenas política, econômica, energética e ideológica”.

A agência se mostrava especialmente preocupada pela possibilidade de que houvesse interferência na provisão de petróleo da Venezuela, o terceiro fornecedor mundial de petróleo aos EUA, e por isso insistia em vigiar “a estabilidade do regime, particularmente no setor energético”.

A NSA estudava “a amplitude e profundidade das relações da Venezuela com países de preocupação estratégica para os Estados Unidos, particularmente Irã, Cuba, China e Rússia”.

Uma apresentação de PowerPoint de agosto de 2010 revela que a agência seguia de perto os empréstimos de bilhões de dólares à Venezuela da China, para sistemas de radares e perfuração petrolífera; Rússia, para mísseis e aviões de combate; e Irã, para uma fábrica de aviões não tripulados.

Um funcionário da NSA no Texas “rastreava a cada dia as mensagens privadas de burocratas venezuelanos, buscando intrigas que pudessem proporcionar uma pequena vantagem política”, assinalou o jornal nova-iorquino.

Houve situações nas quais “a agência parecia saber mais das relações dentro de uma rede de narcóticos que os próprios narcotraficantes”, porque controlava os celulares “de toda a rede de compra, transporte, provedores e intermediários desde Holanda a Panamá e Bogotá”, garantiu o NYT, que cita um relatório oficial.

A NSA também cooperou com o exército colombiano, já que “sua tecnologia de espionagem, instalada em um avião do Departamento de Defesa dos EUA que voava a 18.300 quilômetros de altura no espaço aéreo da Colômbia”, deu uma vez “a localização e os planos dos rebeldes das Farc”, assinala o diário.

A vassalagem da Folha de S.Paulo

8 de novembro de 2013

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Sem surpresas, a denúncia da Folha contra o governo Dilma foi editorializada no Jornal Nacional da Rede Globo na mesma noite, em reportagem com mais de 3 minutos.

Jeferson Miola, via Carta Maior

A Folha de S.Paulo se superou no papel de vassalo neocolonial. Na capa da edição de 4/11/2013, estampou como manchete central: “Governo brasileiro vigiou diplomatas estrangeiros”.

Nas reportagens de apoio, em três páginas do jornal, a Folha não deixou dúvidas da intenção ideológica com a suposta “notícia”. No primeiro título, na página A4, forjou uma “denúncia” contra o governo brasileiro: “Agência brasileira espionou funcionários estrangeiros”.

Com esse título, buscou sugerir que uma ação de contrainteligência da Abin [Agência Brasileira de Investigação] em 2003, seria semelhante à espionagem e controle que faz a NSA [Agência Nacional de Segurança dos EUA] em todo o mundo contra pessoas, governos, empresas e instituições – com conhecimento e autorização do presidente Barack Obama.

A própria reportagem recomendaria menos sensacionalismo à Folha: menciona que a Abin somente observou rotinas, identificou contatos e fez fotografias dos estrangeiros monitorados. O governo norte-americano, por seu lado, faz escutas telefônicas sem autorização judicial, intercepta dados e mensagens da internet e extrai informações pessoais, governamentais, comerciais e empresariais de interesse estratégico.

No título da página A5 – “Salas usadas pelos EUA foram monitoradas” –, a Folha quis insinuar “reciprocidade” de tratamento. A mensagem subjacente, nessa manchete, é de que os EUA nos espionaram porque o Brasil os espionou; assim, Brasil e EUA estariam equiparados. Tem um efeito atenuante, porque naturaliza a espionagem como aceitável e menos grave, porque é da lógica dos serviços de inteligência e contrainteligência.

Com o terceiro título, inserido na seção “Outro lado” da página A6 [“Presidência diz que ações protegeram interesse nacional”], a Folha insinua outra suposta analogia, que também não se confirma na vida real, porque para o governo dos EUA, a espionagem objetiva “proteger a humanidade do terrorismo”, conforme evidenciam seus alvos: Dilma Rousseff, Petrobras, Papa Francisco, Ângela Merkel etc.

Sem surpresas, a “denúncia” da Folha contra o governo Dilma foi editorializada no Jornal Nacional da Rede Globo na mesma noite de 4/11/2013, em reportagem com mais de 3 minutos de duração. A repercussão nos dois veículos, com a mesma textualidade, ênfase e tônica, pode ser fruto de grande coincidência jornalística. Mas também pode indicar um jogo ensaiado.

É difícil saber se é o caso de um excessivo engajamento norte-americanófilo ou de um também excessivo – e irrefreável – engajamento anti-Dilma que orienta a opção política da Folha. Mas é fácil deduzir que o jornal fica ridículo com o viés ideológico preconceituoso empregado contra Dilma, contra o PT e contra valores de esquerda. O jornal parece acometido da síndrome de inferioridade da elite brasileira colonizada, que concebe a adulação ao seu Senhor, o poderoso big brother, como sua principal virtude.

A direita brasileira e a mídia conservadora, com seu discurso obsoleto e sem uma visão de futuro para o Brasil, carecem de munição para enfrentar e derrotar Dilma e o PT nas eleições de 2014. A cada dia, por isso, testam diferentes factoides, inverdades e profecias que, por fim, não se confirmam.

Essa cobertura ideologicamente enviesada da Folha de S.Paulo teve o objetivo de enfraquecer a imagem positiva de Dilma, cada vez mais reconhecida no mundo inteiro pelas decisões e posições políticas corretas frente aos crimes de espionagem dos EUA.

Já pensou se fosse a Dilma? Alemanha pode expulsar embaixador dos EUA e Espanha abre inquérito contra a espionagem

1 de novembro de 2013
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Merkel e Rajoy prometem retaliação aos EUA.

Ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedich, disse que se for comprovado que um embaixador dos EUA praticou espionagem ou infringiu a lei alemã, ele será expulso; também em resposta às denúncias de espionagem dos EUA, o Ministério Púbico da Espanha determinou a abertura de inquérito para averiguar os indícios de que o país foi monitorado; governos de Ângela Merkel e Mariano Rajoy fazem duras críticas às práticas de Barack Obama.

Via Brasil 247

As autoridades alemãs podem expulsar embaixadores norte-americanos no país como mais uma demonstração de inconformismo com as denúncias de espionagem dos Estados Unidos. Em entrevista à emissora pública alemã “ARD”, o ministro do Interior da Alemanha, Hans-Peter Friedich afirmou que, caso seja comprovado que algum diplomata usou da prática de espionagem ou infringiu a lei alemã, ele será expulso.

“Está bastante claro que, se alguém aqui na embaixada ou em algum outro lugar for responsável ou culpado neste assunto, será sancionado e, se for diplomata, deverá abandonar o país”, afirmou Friedrich, que garantiu que “haverá as correspondentes consequências” contra as ações norte-americanas. O ministro declarou ainda que o governo Barack Obama não tem respostas para muitas perguntas do governo alemão.

O governo da Alemanha obteve informações, com base em documentos do ex-colaborador da agência de espionagem norte-americana NSA, Edward Snowden, de que o celular da chanceler Ângela Merkel foi monitorado por cerca de dez anos. A denúncia foi o estopim para que as autoridades começassem a tomar providências. Merkel telefonou imediatamente para Obama pedindo esclarecimentos imediatos sobre os indícios.

Espanha abre inquérito sobre denúncias de espionagem dos EUA

Inmaculada Sanz, via Reuters

O Ministério Público da Espanha deu início a um inquérito preliminar nesta terça-feira para averiguar denúncia de que uma agência de inteligência dos Estados Unidos espionou milhões de cidadãos espanhóis.

O procurador-geral Eduardo Torres-Dulce autorizou um processo de coleta de informações após o jornal El Mundo publicar, na segunda-feira, reportagem afirmando que os EUA rastrearam mais de 60 milhões de ligações telefônicas de espanhóis, disse o gabinete do procurador em comunicado.

A Espanha convocou o embaixador dos EUA na segunda-feira para discutir as denúncias, similares a reportagens sobre a espionagem dos EUA em Brasil, França e Alemanha, que causaram uma rara indisposição diplomática entre Washington e aliados.

O chanceler espanhol, José Manuel García-Margallo, disse que se as reportagens forem verdadeiras, quebrariam um “clima de confiança” entre os dois países.

O El Mundo publicou um gráfico com um documento que seria da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) mostrando ter espionado 60,5 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre 10 de dezembro de 2012 e 8 de janeiro deste ano. A reportagem diz que o documento foi vazado pelo ex-prestador de serviço da NSA Edward Snowden.

Em visita à Lituânia nesta terça-feira, García-Margallo reiterou os fortes laços entre a Espanha e os EUA e disse que as negociações por uma acordo de livre comércio não seriam interrompidas.

“Trabalhamos bastante próximos com os EUA a respeito de segurança, temos alguns tópicos comuns em que nossas posições são as mesmas”, disse ele em uma conferência.

As revelações de Snowden também abalaram as relações dos EUA com o Brasil, que segundo denúncias foi outro alvo dos programas de espionagem da NSA.

A presidente Dilma Rousseff cancelou uma visita de Estado que faria a Washington este mês após denúncia de que teve suas próprias comunicações pessoais monitoradas pela agência norte-americana.

Zé Dirceu: Mais um capítulo na desconstrução da imagem do Império

27 de outubro de 2013

Imperialismo01Zé Dirceu em seu blog

A espionagem realizada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana violou a privacidade de 35 líderes mundiais, monitorando suas conversas telefônicas. A denúncia está publicada no The Guardian, jornal londrino, e tem como base um memorando confidencial vazado pelo ex-técnico de serviços de espionagem norte-americanos, Edward Snowden.

Embora não revele os líderes grampeados, o memorando desnuda a política da NSA de estimular o compartilhamento de agendas entre funcionários da Casa Branca, Pentágono e Departamento de Estado, além de outros órgãos. Com isso, a Agência obtém com facilidade os números telefônicos desses líderes globais.

Sem dar nenhuma resposta direta sobre o escândalo, a Casa Branca tergiversou. Seu porta-voz, Jay Carney, que ontem tentou apagar o incêndio Ângela Merkel – a chanceler descobriu que seu celular estava grampeado e cobrou explicações – apenas afirmou que vazamentos “causaram tensões”.

Vejam que as represálias e a perseguição das quais Edward Snowden é vítima e a ação da polícia britânica contra o brasileiro David Miranda, companheiro do jornalista norte-americano Glenn Greenwald ligado a Snowden, parecem que produziram um resultado contrário ao pretendido.

As novas revelações simplesmente expõem ao ridículo as autoridades norte-americanas e desnudam a espionagem institucionalizada em nível global, contra tudo e todos, acima da lei e dos acordos que o próprio EUA assinaram e não cumprem. Mais um capítulo na desconstrução da imagem do Império.

Glenn Greenwald: A espionagem dos EUA não está atrás de terroristas

25 de outubro de 2013

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Em entrevista à Carta Maior, o jornalista Glenn Greenwald fala sobre o seu trabalho de divulgar as práticas de espionagem dos EUA.

Eduardo Febbro, via Carta Maior

O ex-agente da CIA e da NSA norte-americana, Edward Snowden, e o jornalista norte-americano Glenn Greenwald acabam de desferir um novo golpe no esquema de espionagem global patrocinado pelos Estados Unidos. O jornal Le Monde publicou a totalidade dos documentos que revelam a amplitude da espionagem dos EUA contra a França. Espionagem massiva de indivíduos, espionagem industrial e econômica, nada falta no cardápio. Glenn Greenwald voltou a fazer tremer os alicerces das relações internacionais. Os drones, a luta contra o terrorismo, a nefasta herança da administração do ex-presidente George Bush, as zonas obscuras da administração de Barack Obama e a espionagem globalizada montada pelos Estados Unidos a partir do dispositivo Prisma: Glenn Greenwald conhece esses temas com o rigor e a paixão que lhe conferem seu compromisso e uma trajetória profissional que vai muito mais além do caso das revelações de Snowden.

Glenn Greenwald é o segundo ator central desta trama de espionagem. É este jornalista do Guardian que, mês após mês, destilou neste jornal o conteúdo do enorme dossiê que Snowden entregou a ele em Hong Kong antes de se refugiar na Rússia. Snowden não o escolheu por acaso. Greenwald é um reputado autor de investigações que sacudiram o sistema político norte-americano e o converteram em um dos 50 comentaristas mais influentes dos Estados Unidos. Aqueles que conhecem seu nome através de Snowden e do caso da espionagem tentacular do sistema Prisma ignoram a sólida trajetória que o respalda. Advogado de profissão, em 2005 Greenwald deixou sua carreira de representante de banco e de grandes empresas e se lançou na defesa dos direitos cívicos, das liberdades públicas e das investigações de fôlego.

Nesse mesmo ano, um caso de espionagem por parte da NSA revelado pelo jornal The New York Times o impulsionou através de seu blog, How would a patriot act, que logo se tornará um livro, How would a patriot act? Defending american values from a president. No ano seguinte, este ativista rigoroso publicou um livro feroz sobre a espantosa herança da administração Bush, A tragic legacy: how a good vs. evil mentality destroyed the Bush presidency. Em 2008, publicou outro livro acerca dos mitos e hipocrisias dos republicanos, Great American Hypocrites: Toppling the Big Myths of Republican Politic”, e, em 2012, outra obra sobre a forma pela qual a lei é utilizada para destruir a igualdade e proteger o poder, “With Liberty and Justice for Some: How the Law is used to destroy equality and protect the Powerful”.

Entre um livro e outro, Greenwald realizou investigações explosivas sobre WikiLeaks, Julian Assange e o soldado Bradley Manning – o militar que entregou correspondência secreta a Assange. Premiados várias vezes por seu trabalho, Glenn Greenwald define o jornalismo de uma maneira militante: “para mim, o jornalismo são duas coisas: investigar fatos sobre as atividades de quem está no poder e procurar impor-lhes limites”. Este é o homem a quem, em maio deste ano e logo depois do Washington Post ter se recusado a publicá-los, Edward Snowden entregou os documentos da abismal espionagem estruturada pela NSA através do dispositivo Prisma com a colaboração de empresas privadas como Google, Facebook, Yahoo, Microsoft e tantas outras.

Glenn Greenwald vive no Brasil há vários anos. O duplo caso Snowden e Prisma mudou muitas coisas em sua vida. Seu companheiro, David Miranda, foi detido e interrogado em Londres durante muitas horas em virtude de uma lei antiterrorista. Ambos sabem que suas conversações e seus gestos estão permanentemente vigiados. Adaptaram-se a essa vida sem renunciar a continuar o trabalho de denúncia. Nesta entrevista exclusiva realizada no Rio de Janeiro, para a Carta Maior, Glenn Greenwald revela aspectos inéditos sobre Edward Snowden, conta as dificuldades de sua vida e dá novas informações sobre a nova indústria norte-americana: espionar a cada cidadão do mundo.

Os Estados Unidos argumentam que a espionagem planetária tem como objetivo lutar contra o terrorismo. No entanto, a leitura dos documentos que Snowden entregou a você não fornece a prova para esse argumento.

Se olharmos os últimos 30 anos e, sobretudo, a partir dos atentados de 11 de setembro, há uma ideia de que os norte-americanos querem aplicar: utilizar o terrorismo mundial para que as pessoas tenham medo de agir com as mãos livres. É uma desculpa para torturar, sequestrar e prender. Agora estão usando a mesma desculpa para espionar. Os documentos sobre a maneira pela qual os EUA espionam e sobre os objetivos da espionagem pouco têm a ver com o terrorismo. Muitos têm a ver com economia, empresas e os governos, e estão destinados a entender como funcionam esses governos e essas empresas. A ideia central da espionagem é essa: controlar a informação para aumentar o poder dos Estados Unidos pelo mundo. Nos documentos da NSA há alguns sobre o terrorismo, mas não são a maioria. O gasto de milhões de dólares para coletar toda essa informação contra o terrorismo é uma piada. Espionar a Petrobras, a Al-Jazeera ou a OEA não tem nada a ver com o terrorismo. O governo está tentando convencer as pessoas de que elas devem renunciar a sua liberdade em troca de segurança. Trata de assustá-las e fazer crer que sacrificar a liberdade é algo necessário para estar a salvo e protegido das ameaças que vem de fora.

O passo que Edward Snowden deu ao entregar-lhe os documentos que revelam o modo como Washington espiona o planeta inteiro é surpreendente. Como se explica que alguém tão jovem, que fazia parte do aparato de inteligência, opte por esse caminho?

Há exemplos na história de pessoas que sacrificam seus próprios interesses para pôr fim a muitas injustiças. As razões pelas quais agem assim são complicadas, complexas. Neste caso, há duas coisas importantes: uma é que Snowden valoriza o ser humano e os direitos. Snowden tinha clareza sobre um ponto: ou continuar com esse sistema, perpetuar este mundo destruindo a privacidade de centenas de milhões de pessoas no planeta, ou romper o silêncio e atuar contra esses abusos. Creio que Snowden comprovou que se tivesse seguido permitindo a existência desse sistema não poderia seguir com a consciência tranquila para o resto de sua vida. A dor, a vergonha, o remorso e o arrependimento como sentimentos para o resto de seus dias despertavam medo nele. Era muito grave para guardar em sua consciência. Ele viu que não havia muitas opções e que devia tomar partido. O outro ponto importante é que Snowden tem 30 anos e sua geração cresceu com a internet como uma parte central de suas vidas. As pessoas um pouco mais velhas não se dão conta da importância da internet para a existência dessas pessoas. Snowden me disse que a internet ofereceu a sua geração todo tipo de ideias, campos de exploração, contatos com outras pessoas no mundo e uma capacidade de entendimento inédita. Então decidiu proteger esse patrimônio. Não queria viver em um mundo onde tudo isso desapareceria, onde as pessoas não pudessem utilizar a internet nunca mais.

Mas Snowden, apesar disso, foi um homem do sistema.

Sim, mas era muito jovem quando começou. Tinha 21 anos. Com o correr do tempo foi mudando seus pontos de vista sobre o governo dos Estados Unidos, a NSA e a CIA. Snowden mudou de forma gradual, progressiva. Começou a se dar conta de que essas instituições que pretendiam fazer o bem não estavam fazendo bem, mas sim o mal. Snowden me disse que, desde 2008 e 2009, pensava em se converter em um vazador de documentos. Como muitas outras pessoas no mundo, Snowden também pensou que a eleição de Barack Obama iria fazer com que os abusos diminuíssem. Confiava nisso. Pensou que Obama reverteria o processo, que seria diferente e melhor, mas se deu conta de que não era assim. Essa foi uma das razões. Teve consciência de que Obama não só não resolvia nada, como seguia perpetuando o império norte-americano.

O poder dos Estados Unidos praticamente não tem limites a partir do controle das tecnologias da informação. Muitos pensam que, em certo sentido, Obama é pior que Bush.

É difícil dizer que Obama é pior que Bush. Não é preciso que Obama diga: espionemos mais. É claro que Obama tem uma parte da responsabilidade no crescimento deste sistema de espionagem. Obama continuou com as mesmas políticas de antes, mas mudou o simbolismo e a imagem. Creio que o escândalo provocado pelo vazamento destes documentos mudou a visão que as pessoas tinham de Obama. Snowden e eu passamos muito tempo em Hong Kong falando sobre o que iria acontecer com as revelações. Não podíamos calcular as consequências. Tínhamos consciência da importância, mas pensávamos que poderia haver uma reação apática. Mas desde que se publicou a primeira história o interesse não parou de crescer. Isso está se convertendo em um freio para que os governos sigam abusando de seu poder, para que continuem atuando em segredo. Mas há indivíduos como Snowden, como o soldado Bradley Manning, ou entidades como o WikiLeaks que trazem a informação à luz. Julian Assange é um herói pelo trabalho que fez com WikiLeaks. Em muitos sentidos foi ele que tornou isso possível, foi Assange que expôs a ideia segundo a qual, na era digital, era muito difícil para os governos proteger seus segredos sem destruir outra privacidade. Essa é a razão pela qual o governo dos EUA está em guerra contra as pessoas que fazem isso: quer assustar outros indivíduos que estejam pensando em fazer o mesmo no futuro. Eu me apoiei na coragem de Snowden para publicar esses documentos. Edward Snowden é hoje uma das pessoas mais procuradas do mundo. É possível que passe os próximos 30 anos na cadeia. O que ele fez é uma das coisas mais admiráveis que já vi alguém fazer em nome da justiça.

Os governos de Argentina, Brasil e de outros estados no mundo estão pressionando para romper o cerco da espionagem e o controle quase absoluto que os Estados Unidos têm sobre a internet. Qual é a solução, na sua opinião?

Eu creio que a solução seria criar um lobby entre os países, que os países se unam para ver como construir novas plataformas para a internet que não permitam que um país domine completamente as comunicações. O problema reside também em que cada país começa a ter mais controle sobre a internet e isso pode fazê-los cair na tentação de fazer o mesmo que os Estados Unidos: tentar monitorar e utilizar a internet como uma forma de controle. Há uma consciência real de que Argentina e Brasil estão construindo uma internet própria, assim como a União Europeia, algo que até agora só a China tinha feito. Mas o risco está em que esses governos imitem aos Estados Unidos criando seus próprios sistemas não para permitir a privacidade de seus cidadãos, mas sim para comprometê-la. Isso é um perigo. É importante ter a garantia de que o controle dos Estados Unidos sobre as comunicações não termine em uma transferência a outros poderes. Li um documento no New York Times que mostrava o imenso poder e influência que os EUA têm graças ao controle dos serviços de internet. De fato, os Estados Unidos inventaram a internet. Muitos países se deram conta de que não serão capazes de garantir sua confidencialidade se seguirem usando sistemas abrigados em servidores norte-americanos. Por isso estão pensando em como desenvolver sua própria internet independente. No Brasil, por exemplo, a primeira reação do governo quando se soube da espionagem dos Estados Unidos consistiu em propor seriamente a criação de uma internet própria. E creio que outros países vão começar a fazer o mesmo, ou seja, criar redes que não passem pelos Estados Unidos nem tampouco que os dados fiquem armazenados em servidores de empresas norte-americanas. Creio que especialmente na Europa, onde há recursos financeiros para tanto, isso será proposto seriamente. Agora, é claro, a Europa não é muito dada a ser independente dos EUA. Ela gosta de ser tratada como um adolescente, algo assim como uma colônia com direitos que caminha ao ritmo do tambor dos EUA.

A presidenta Dilma Rousseff propôs a criação de um órgão independente de controle da internet. Você acredita que essa é uma ideia viável?

Não estou seguro de que isso pode resolver o problema. A ideia da internet é de uma irrestrita e não controlada forma de comunicação entre os seres humanos para compartilhar informações sem regulações. Então, não sei se é uma boa ideia colocar a internet sob o controle de organismos internacionais. Pode ser que seja pior assim. Quando foi criada, a internet não estava sob o controle de nenhum governo e cada um podia usá-la como bem quisesse. Esse é o motivo pelo qual ela se converteu em uma ameaça. Creio que esse é o modelo que devemos recuperar.

Você é hoje um homem ameaçado. Sua vida mudou muito desde que colocou em circulação os documentos de Snowden?

Sim, bastante, muito stress, é muito difícil todo o tempo. Meus advogados me dizem que é perigoso para mim regressar aos Estados Unidos, perdi minha privacidade individual. Sei que me espionam e monitoram. Tudo mudou em minha vida. Mas não estou assustado. Não vou parar. Vou publicar todos os documentos que tenho em meu poder.

Entre os atores ocidentais mais questionados está a União Europeia. Sua reação, após as revelações de Snowden, foi de uma tibieza impressionante.

A debilidade e a covardia da União Europeia nunca me surpreenderam, Creio que o que podemos esperar da Europa é que seja tão débil e covarde como qualquer outro país. Foi surpreendente ver como aparentaram indignação com as revelações de Edward Snowden para logo em seguida se fazerem de desentendidos. É muito perigoso que exista um mundo onde um só país pode ditar o que se deve fazer. Os governos têm que ter coragem. O governo do Equador foi muito valente quando deu asilo a Assange em sua embaixada de Londres. Foi algo muito elogiável. O que o Equador fez foi proteger os Direitos Humanos, não um jornalista ou um divulgador de documentos.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


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