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Emir Sader: Guantânamo, a vergonha mundial

3 de fevereiro de 2014

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Guantânamo é a maior vergonha mundial no tratamento de seres humanos. Guantânamo continua como o pior atentado aos direitos humanos em muitas décadas.

Emir Sader, via Carta Maior

Já se passaram 12 anos de sua instalação, seis da promessa do presidente Obama de que iria fechá-lo, promessa agora reiterada para este ano. Mas Guantânamo continua como o pior atentado aos direitos humanos em muitas décadas. Nada se compara no mundo, hoje, às violações dos direitos mais elementares dos seres humanos que tudo o que acontece em Guantânamo.

Por isso os EUA a instalaram fora do seu território, fora de qualquer circunscrição, de qualquer tipo de controle jurídico. No limbo constituído por essa outra monstruosidade – um território imperial incrustrado em território cubano, contra a vontade soberana do povo de Cuba.

Assim, nesse território de ninguém – ou, melhor do terror imperial – continuam sucedendo-se as piores formas de tratamento animalesco de seres humanos. Eles já chegam à prisão amarrados com animais, com capuzes, desfigurados de qualquer fisionomia que recordasse que sem trata de seres humanos, para que possam ser tratados como animais.

Presos em jaulas como animais ferozes, amarrados todo o tempo, com capuzes, sem sequer poder ler o Corão, alimentados à força todos os dezenas de presos em greve de fome – essa é a situação mais desumana que se conhece no mundo de hoje.

Acusados de terrorismo sem qualquer prova, sem nenhuma obrigação de cumprimento de qualquer norma jurídica, com os seus acusadores sem ter que provar nada a ninguém, eles são vítimas da covardia internacional. Não há nenhuma grande iniciativa no mundo hoje que busque acusar e punir o que os EUA fazem em Guantânamo, como se fosse seu quintal na era da guerra fria.

Cerca de 800 pessoas passaram por esse inferno, 150 ainda estão ali, 9 morreram, apenas 7 foram condenadas – 5 delas se declararam culpadas para apelar a acordos que lhes permitiram sair da prisão. 6 dos suspeitos podem ser condenados à morte.

Os EUA deveriam, além de ser condenados expressamente por todos os organismos internacionais que tenham a ver com os direitos humanos, estar excluídos de participar e de se pronunciar sobre a situação dos direitos humanos em qualquer lugar do mundo, enquanto siga existindo Guantânamo. Menos ainda poderiam os EUA continuar a ser sede da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da OEA

Guantânamo é a maior vergonha mundial no tratamento de seres humanos. Os países que reivindicam políticas externas soberanas, tem que se unir e exigir o fim da prisão de Guantânamo e, além disso, a devolução desse território a quem lhe pertence, Cuba.

Dia 13, em São Paulo, lançamento de livro de Emir Sader terá a presença de Lula

10 de maio de 2013

Emir_Sader09_Capa_LivroO evento contará com a presença de Marilena Chaui, Marcio Pochmann, Emir Sader e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, todos colaboradores do livro, que farão um debate sobre os governos pós-neoliberalismo no Brasil.

Emir Sader, via Blog Boi Tempo

Sai na próxima semana o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. Eu organizei o livro com 22 artigos de alguns dos melhores pensadores brasileiros, mais uma longa entrevista do Lula de balanço do seu governo, como forma de incentivar a reflexão sobre as transformações que o Brasil viveu nesses dez anos, assim como sobre os obstáculos e as perspectivas postas por esse imenso processo de democratização social.

Acreditamos que balanços desse tipo são indispensáveis para inserir os processos políticos numa ótica de mais longo prazo, em função dos seus objetivos estratégicos. Estamos incentivando a realização de balanços similares pela esquerda argentina – já se cumpriram dez anos dos governos dos Kirchner – e da uruguaia – logo se cumprirá uma década de governos da Frente Ampla.

É normal que seja assim. A esquerda tem que ter consciência dos passos que deu, dos que está dando e das dificuldades que enfrenta.

Não é o caso dos governos neoliberais. Tanto aqui, quanto na Argentina, no Uruguai e nos outros países da região, não se conhece balanços dos seus governos, feitos pelos que o dirigiram ou pelas forças que os apoiaram ou por pensadores – jornalistas ou intelectuais – que os elogiaram durante a totalidade de suas durações.

Foram governos que saíram derrotados – alguns dos seus presidentes foram parar na cadeia, outros mais também mereciam esse destino –, ficaram definitivamente rejeitados pelo povo desses países, mas nunca fizeram o balanço do que fizeram e do que o povo impediu que fizessem. Vergonha? Incapacidade de dar conta do seu fracasso?

No caso do Brasil, tivemos um governo presidido por um sociólogo, com enorme quantidade de obras e artigos publicados na mídia, loquaz e de palavra fácil. Contou também com outros intelectuais (ou ex-), com livros publicados – que depois abandonaram essa atividade, provavelmente sem ter o que dizer dos governos de que participaram.

Economistas que quebraram o país três vezes e que o entregaram ao Lula em meio à mais prolongada e profunda recessão que o Brasil tinha conhecido em muito tempo, ficam escrevendo nos jornais e revistas, falando nas rádios e TVs, ditando cátedra do que o país deveria fazer, mas nunca escreveram o balanço do que eles fizeram com o país. Da mesma forma que o presidente que os escolheu e que comandou a quebra do Brasil.

Por quê? Eles têm à disposição um montão de editoras, revistas, outros meios de comunicação, mas o país foi privado das explicações do fracasso dos governos neoliberais no Brasil. Não sabemos se eles acham que foram um sucesso ou não tem coragem de confessar que fracassaram. E nem tem os argumentos para explicar o fracasso, porque continuam a propor as mesmas políticas do seu fracasso, que alimentam também a candidatura presidencial tucana.

Teriam que confessar que a centralidade do mercado, o Estado mínimo, a abertura acelerada da economia, as privatizações, a promoção da hegemonia do capital especulativo, a política de precarização das relações de trabalho, a política externa de livre comércio e de subordinação a Washington – foram as causas do fracasso dos governos Collor, Itamar e FHC. E da razão pela qual o país não quis nunca mais voltar a tê-los na direção do Brasil.

Serviço

Título: 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil

Subtítulo: Lula e Dilma

Autor: Emir Sader (org.)

Prefácio/Orelha: Maria Inês Nassif

Páginas: 384

Ano de publicação: 2013

ISBN: 978-85-7559-328-8

Preço: R$20,00

Ebook gratuito (a partir da segunda quinzena de maio)

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Debate de lançamento de 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma

Com Lula, Marilena Chaui, Marcio Pochmann e Emir Sader

Não perca o debate de lançamento de 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil, na próxima segunda-feira, dia 13, às 19 horas. O evento contará com a presença de Marilena Chaui, Marcio Pochmann, Emir Sader e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, todos colaboradores do livro. Aberto ao público, o evento é gratuito e não requer inscrição. Senhas para entrada serão distribuídas a partir das 18 horas, no local do evento.

Serviço

13/5 – Segunda-feira – 19 horas

Centro Cultural São Paulo

Rua Vergueiro, 1.000, Liberdade – São Paulo – SP

Retirada de senhas para entrada a partir das 18 horas, no local.

Após uma década, Lula explica o porquê do silêncio sobre o “mensalão”

5 de maio de 2013
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Lula, líder sem precedentes na história do País.

Via Correio do Brasil

Trechos de uma longa entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao sociólogo Emir Sader, transformada em livro a ser lançado ainda este mês, vazaram no sábado, dia 4, para a mídia alternativa e revelam o porquê de o líder mais influente do Partido dos Trabalhadores manter silêncio sobre o escândalo do “mensalão”, quebrado apenas no diálogo com o intelectual carioca. Tratou-se de uma estratégia para seguir adiante, apesar do pesado ataque da mídia conservadora, ao longo da última década.

“Tentaram usar o episódio do ‘mensalão’ para acabar com o PT e, obviamente, acabar com meu governo. Na época, tinha gente que dizia: “O PT morreu, o PT acabou”. Passaram-se seis anos e quem acabou foram eles. O DEM nem sei se existe mais. O PSDB está tentando ressuscitar o jovem Fernando Henrique Cardoso porque não criou lideranças, não promoveu lideranças. Isso deve aumentar a bronca que eles têm da gente – que, aliás, não é recíproca”, ressalta.

Na entrevista, reproduzida no livro Governos pós-liberais no Brasil: Lula e Dilma, a ser lançado no próximo dia 18, o ex-presidente também reafirma a necessidade de uma constituinte, para levar a cabo a reforma política essencial para a consolidação da democracia no país. Segundo afirmou a Emir Sader, “a eleição está ficando uma coisa muito complicada pro Brasil”.

“Eu tentei, quando presidente, falar de uma Constituinte exclusiva, que é o caminho: eleger pessoas que só vão fazer a reforma política, que vão lá [para o Congresso], mudam o jogo e depois vão embora. E daí se convocam eleições para o Congresso. O que não dá é pra continuar assim. Às vezes tenho a impressão que partido político é um negócio, quando, na verdade, deveria ser um item extremamente importante para a sociedade”, afirmou.

Leia a seguir alguns trechos da entrevista.

Qual o balanço que o senhor faz dos anos de governo do PT e aliados?

Lula – Esses anos, se não foram os melhores, fazem parte do melhor período que este país viveu em muitos e muitos anos. Se formos analisar as carências que ainda existem, as necessidades vitais de um povo na maioria das vezes esquecido pelos governantes, vamos perceber que ainda falta muito a fazer para garantir a esse povo a total conquista da cidadania. Mas, se analisarmos o que foi feito, vamos perceber que outros países não conseguiram, em trinta anos, fazer o que nos conseguimos fazer em dez anos. Quebramos tabus e conceitos preestabelecidos por alguns economistas, por alguns sociólogos, por alguns historiadores. Algumas verdades foram por água abaixo. Primeiro, provamos que era plenamente possível crescer distribuindo renda, que não era preciso esperar crescer para distribuir. Segundo, provamos que era possível aumentar salário sem inflação. Nos últimos 10 anos, os trabalhadores organizados tiveram aumento real: o salário mínimo aumentou quase 74% e a inflação esteve controlada. Terceiro, durante essa década aumentamos o nosso comércio exterior e o nosso mercado interno sem que isso resultasse em conflito. Diziam antes que não era possível crescer concomitantemente mercado externo e mercado interno. Esses foram alguns tabus que nós quebramos. E, ao mesmo tempo, fizemos uma coisa que eu considero extremamente importante: provamos que pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de renda e que muito dinheiro na mão de poucos é concentração de renda.

Quando começou o governo, o senhor devia ter uma ideia do que ele seria. O que mudou daquela ideia inicial, o que se realizou e o que não se realizou, e por quê?

Lula – Tínhamos um programa e parecia que ele não estava andando. Eu lembro que o ministro Luiz Furlan, cada vez que tinha audiência, dizia: “Já estamos no governo há tantos dias, faltam só tantos dias para acabar e nós precisamos definir o que nós queremos que tenha acontecido no final do mandato. Qual é a fotografia que nós queremos”. E eu falava: “Furlan, a fotografia está sendo tirada”. Não é possível ficar com pressa de obter resultados. Nós temos que provar, no final de um mandato, se nós fomos capazes de fazer aquilo que nos propusemos a fazer. Se a gente for trabalhar em função das manchetes dos jornais, a gente parece que faz tudo e termina não fazendo nada. Então é o seguinte: eu plantei um pé de jabuticaba. Se esse pé nascer saudável, vai ter sempre alguém dizendo: “Mas, Lula, não está dando jabuticaba, está demorando”. Se for cortar o pé e plantar outra coisa, eu nunca vou ter jabuticaba. Então, eu tenho que acreditar que, se eu adubar corretamente, aquele pé vai dar jabuticaba de qualidade. E eu citava esses exemplos no governo… Soja tem que esperar 120 dias, o feijão tem que esperar 90 dias. Não adianta ficar repisando, “faz uma semana que eu plantei e não nasceu”. Tem que ter paciência. Eu acho que eu fui o presidente que mais pronunciei a palavra “paciência”, “paciência”… Senão você fica louco. Tem gente na política que levanta de manhã, lê o jornal e quer dar resposta ao jornal. E daí não faz outra coisa. Eu não fui eleito para ficar o tempo todo dando resposta a jornal. Eu fui eleito para governar um país. E isso me deu tranquilidade suficiente para ver que o programa de governo ia ser cumprido.

Quando o senhor perdeu a paciência?

Lula – Obviamente que nós tivemos problemas no começo. Você acha que é simples um metalúrgico sentar naquela cadeira na qual sentaram tantas outras personalidades, que via pela televisão, que achava que era mais importante do que eu… E o mesmo em relação a dormir no quarto em que dormiu tanta gente importante ou que, pelo menos a voz da opinião publica, são importantes. E eu ficava pensando: “Será que é verdade que eu estou aqui?”. No começo tinha muita ansiedade. “Será que nós vamos dar conta de fazer isso? Será que vai ser possível?”, eu me perguntava. Eu acho que nós fizemos. Com erro e com muita tensão, mas fizemos. Tivemos tropeços, é lógico. Muitos tropeços. O ano de 2005 foi muito complicado. Quando saiu a denúncia [do “mensalão”], foi uma situação muito delicada. Se não tivéssemos cuidado, não iríamos discutir mais nada do futuro, só aquilo que a imprensa queria que a gente discutisse. Um dia, eu cheguei em casa e disse: “Marisa, a partir de hoje, se a gente quiser governar este país, a gente não vai ver televisão, a gente não vai ver revista, a gente não vai ler jornal”. Eu passei a ter meia hora de conversa por dia com a assessoria de imprensa, para ver qual era o noticiário, mas eu não aceitava levantar de manhã, ligar a televisão e já ficar contaminado. Então eu acho que isso foi um dado muito importante. Eu tinha uma equipe e criamos uma sala de situação, da qual participavam Dilma, Ciro [Gomes], Gilberto [Carvalho] e Márcio [Thomaz Bastos]. E era muito engraçado: eu chegava ao Palácio e eles estavam todos nervosos. E eu estava tranquilo e falava: “Vocês estão vendo? Vocês leem jornal… Vocês estão nervosos por quê?”.

Vocês nasceram radicais…

Lula – O PT era muito rígido, e foi essa rigidez que lhe permitiu chegar aonde chegou. Só que, quando um partido cresce muito, entra gente de todas as espécies. Ou seja, quando você define que vai criar um partido democrático e de massa, pode entrar no partido um cordeiro e pode entrar uma onça, mas o partido chega ao poder. Então, a nossa chegada ao poder foi vista por eles não como uma alternância de poder benéfica à democracia, não como uma coisa normal: houve uma disputa, ganhou quem ganhou, leva quem ganhou, governa quem ganhou e fim de papo. Não é isso? Eles não viram assim. Quer dizer, eu era um indesejado que cheguei lá. Sabe aquele cara que é convidado para uma festa, e o anfitrião nem tinha convidado direito. Fala assim: “Se você quiser, passa lá”. E você passa e o cara fala: “Esse cara acreditou?”. Então, nós passamos na festa, e o que é mais grave, acertamos. E depois, tentaram usar o episódio do “mensalão” para acabar com o PT e, obviamente, acabar com o meu governo. Na época, tinha gente que dizia: “O PT morreu, o PT acabou”. Passaram-se seis anos e quem acabou foram eles. O DEM nem sei se existe mais. O PSDB está tentando ressuscitar o jovem Fernando Henrique Cardoso porque não criou lideranças, não promoveu lideranças. Isso deve aumentar a bronca que eles têm da gente – que, aliás, não é recíproca.

O senhor não tem raiva da oposição?

Lula – Eu não tenho raiva deles e não guardo mágoas. O que eu guardo é o seguinte: eles nunca ganharam tanto dinheiro na vida como ganharam no meu governo. Nem as emissoras de televisão, que estavam quase todas quebradas; os jornais, quase todos quebrados quando assumi o governo. As empresas e os bancos também nunca ganharam tanto, mas os trabalhadores também ganharam. Agora, obviamente que eu tenho clareza que o trabalhador só pode ganhar se a empresa for bem. Eu não conheço, na história da humanidade, um momento em que a empresa vai mal e que os trabalhadores conseguem conquistar alguma coisa a não ser o desemprego.

O Brasil mudou nesses dez anos. E o senhor, também mudou?

Lula – Uma das coisas boas da velhice é você tirar proveito do que a vida te ensina, em vez de ficar lamentando que está velho. A vida me ensinou muito. Criar um partido nas condições que nos criamos foi muito difícil. Agora que o partido é grande, tudo fica fácil, mas eu viajava esse país para fazer assembleia com três pessoas, com quatro pessoas, com cinco pessoas. Saia daqui de São Paulo para o Acre pra fazer reunião com dez pessoas, para convencer o Chico Mendes a entrar no PT, para convencer o João Maia – aquele que recebeu dinheiro para votar na eleição do Fernando Henrique Cardoso e era advogado da Contag – para entrar no PT. Era muito difícil fazer caravana, viajar ao Nordeste, pegar ônibus, ficar uma semana andando, fazendo comício ao meio-dia, com um sol desgraçado, explicando o que era o PT para que as pessoas quisessem se filiar.

Por quê?

Lula – A eleição está ficando uma coisa muito complicada pro Brasil. No mundo inteiro. No Brasil, se o PT não reagir a isso, poucos partidos estarão dispostos a reagir. Então o PT precisa reagir e tentar colocar em discussão a reforma política. Eu tentei, quando presidente, falar de uma Constituinte exclusiva, que é o caminho: eleger pessoas que só vão fazer a reforma política, que vão lá [para o Congresso], mudam o jogo e depois vão embora. E daí se convocam eleições para o Congresso. O que não dá é pra continuar assim. Às vezes tenho a impressão que partido político é um negócio, quando, na verdade, deveria ser um item extremamente importante para a sociedade. A sociedade tem que acreditar no partido, tem que participar dos partidos.

O PT não mudou necessariamente para melhor?

Lula – O PT mudou porque aprendeu a convivência democrática da diversidade; mas, em muitos momentos, o PT cometeu os mesmos desvios que criticava como coisas totalmente equivocadas nos outros partidos políticos. E esse é o jogo eleitoral que está colocado: se o político não tiver dinheiro, não pode ser candidato, não tem como se eleger. Se não tiver dinheiro para pagar a televisão, ele não faz uma campanha. Enquanto você é pequeno, ninguém questiona isso. Você começa a ser questionado quando vira alternativa de poder. Então, o PT precisa saber disso. O PT, quanto mais forte ele for, mais sério ele tem que ser. Eu não quero ter nenhum preconceito contra ninguém, mas eu acho que o PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava e que foram banalizados por conta da disputa eleitoral. É o tipo de legado que a gente tem que deixar para nossos filhos, nossos netos. E provar que é possível fazer política com seriedade. Você pode fazer o jogo político, pode fazer aliança política, pode fazer coalizão política, mas não precisa estabelecer uma relação promíscua para fazer política. O PT precisa voltar urgentemente a ter isso como uma tarefa dele e como exercício prático da democracia. Não tem de voltar a ser sectário como era no começo. Eu lembro que companheiros meus perderam seu emprego numa metalúrgica, montaram um bar, mas quiseram entrar no sindicato e não puderam. “Você não pode entrar porque é patrão”, diziam. O coitado do cara tinha só um bar! A coitada da minha sogra, a mãe do marido da Marisa, a mãe do primeiro marido da Marisa [eu sou o único cara que tive três sogras na vida e uma que não era minha sogra; era sogra da minha mulher, por conta do ex-marido dela, que eu adotei como sogra], a coitada tinha um fusquinha 1966 que era herança do marido. E ela ganhava acho que R$600,00 – naquele tempo era como se fosse um salário mínimo de hoje – de aposentadoria, mas gostava de andar bem-vestida. Ela chegava a reunião do PT e o pessoal falava: “Já veio a burguesa do Lula”. Tinha um candidato a vereador que queria dinheiro para a campanha e eu falei: “Olha, eu não vou pedir dinheiro para a campanha. Se você quiser, eu te apresento algumas pessoas”. Daí ele disse: “Não, mas eu não quero conversar com empresário”. Falei: “Então você quer que um favelado dê dinheiro para a tua campanha?”. Eu já fiz campanha de cofrinho. Eu já fiz campanha de macacão em palanque. Na campanha de 1982, a gente ia ao palanque, antes que eu falasse, fazia propaganda das camisas, dos botons, de tudo que a gente vendia. E a gente vendia na hora e arrecadava o dinheiro para pagar as despesas daquele comício”.

Ódio nas redes sociais: Tuiteiro diz que Emir Sader “merece surra de gato morto”

1 de abril de 2013

Miguel Baia Bargas

No início da noite de segunda-feira, dia 1º, o sociólogo e escritor Emir Sader, após ficar sabendo que o presidente da Bolívia, Evo Morales, havia cancelado sua agenda oficial devido a um problema de saúde relacionado ao sistema respiratório, tuitou: “Evo Morales deixa de participar de atividades públicas porque padece de grave doença respiratória.”

Eu o retuitei e depois escrevi: “Caramba! Outro presidente progressista doente? Aí tem!” Pode até parecer teoria da conspiração, mas é no mínimo estranho a maioria do presidentes sul-americanos envolvidos em causas populares ficar doente e até morrer.

Mais tarde, apareceu em minha TL Alexandre Gonçalves, vulgo @SaoBlack, que possui (ou participa?) um blog chamado Caçador de Imundos. Ele, metido a humorista (deve assistir aos cafajestes do programa CQC), afirmou que Emir Sader “merece surra de gato morto” e em referência a sua torcida pela morte de Evo escreveu “prepare o luto”.

Alexandre segue e é seguido por pessoas reacionárias e virulentas que espalham boatos nas redes sociais. Quando isso irá ter um fim?

Em tempo: SaoBlack também me chamou de idiota. Imagino que, naquele exato momento, ele tenha me xingado pensando em seu pai, se é que ele o conhece, claro!

Twitter_Emir00

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Leia também:

Hugo Chavez: Morte produzida em laboratório

Emir Sader: Por que a direita odeia a América Latina

12 de março de 2013

America_Latina05Emir Sader, via Carta Maior

A direita odeia a América Latina. Antes de tudo porque sua mentalidade colonial e seus interesses a vinculam aos países do centro do capitalismo, aos Estados Unidos em particular, que tem uma relação histórica de conflitos com nosso continente. A direita nunca esconde sua posição subserviente em relação aos EUA, adorava quando os países latino-americanos eram quintal traseiro do império, quando, por exemplo, na década de 1990 do século passado, não expressavam nenhum interesse diferente dos de Washington e buscavam reproduzir suas políticas.

A direita não entende a América Latina, nem pode entender, porque sua cabeça é a da anulação diante do que as potências imperiais enviam para nossos países, de aceitação resignada e feliz aos interesses dessas potências.

Para começar, compreender a América Latina como continente é entender o que a unifica como continente: o fenômeno histórico de ter sido colonizada pelas potências europeias e ter sido transformada posteriormente em região de dominação privilegiada dos EUA.

Daí a incapacidade da direita de entender o significado do nacionalismo e dos líderes nacionais, porque para a direita não há dominação e exploração imperialista, menos ainda o conceito de nação. Esses líderes seriam então demagogos populistas, que se valeriam de visões fictícias para fabricar sua liderança carismática, fundada no apoio popular.

A própria existência da América Latina como continente é questionada pela direita. Ressalta as diferenças entre o México e o Uruguai, o Brasil e o Haiti, a Argentina e a Guatemala, para tentar passar a ideia de que se trata de um agregado de países sem características comuns.

Não mencionam as diferenças entre a Inglaterra e a Grécia, Portugal e a Alemanha, Suécia e Espanha, que no entanto compõem um continente comum. Por quê? Porque tiveram e tem um lugar-comum no sistema capitalista mundial: foram colonizadores, hoje são imperialistas. Enquanto os países latino-americanos, tendo diferenças culturais muito menores do que os países europeus entre si, fomos colonizados e hoje sofremos a dominação imperialista.

Esses elementos de caracterização são desconhecidos pela direita, para a qual o mundo é compostos por países modernos e países atrasados, sem articulação como sistema, entre centro e periferia, entre dominadores e dominados.

Assim a direita nunca entendeu e se opôs sempre tenazmente aos maiores líderes populares do continente, como Getulio, Perón, Lázaro Cárdenas e hoje se opõe frontalmente ao Hugo Chavez, ao Lula, aos Kirchner, ao Mujica, ao Evo, ao Rafael Correa, à Dilma, ao Maduro, além, é claro, ao Fidel e ao Che. Não compreendem por que foram e são os dirigentes políticos mais importantes do continente, porque têm o apoio popular que os políticos da direita nunca tiveram.

Ainda mais agora, quando a América Latina consegue resistir à crise, não entrar em recessão, continuar diminuindo a desigualdade, e projetar líderes como Chavez, Lula, Evo, Rafael Correa, Mujica, Dilma, a incapacidade de dar conta do continente aumenta por parte da velha mídia. Sua ignorância, seus clichês, seus preconceitos a impedem de entender essa dinâmica própria do continente.

Só resta à direita odiar a América Latina, porque odeia os movimentos populares, os líderes de esquerda, a luta anti-imperialista, a crítica ao capitalismo. Odeiam o que não podem entender, mas, principalmente, odeiam porque a América Latina protagoniza um movimento que se choca frontalmente com tudo o que a direita representa.

Emir Sader: “Desafio é quebrar hegemonia do capital financeiro.”

21 de fevereiro de 2013
Emir Sader: “Lula e Dilma integram uma aliança formada para transformar a realidade brasileira ao longo das próximas décadas.” Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula.

Emir Sader: “Lula e Dilma integram uma aliança formada para transformar a realidade brasileira ao longo das próximas décadas.”
Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula.

Via Correio do Brasil

Um dos que usarão a palavra na quarta-feira, dia 20, em São Paulo, no ato comemorativo de dez anos de governo do PT no Brasil, o sociólogo e professor Emir Sader pretende aproveitar a oportunidade para estimular um processo de reflexão nacional sobre os avanços, problemas e futuros desafios do projeto de governo democrático e popular iniciado com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência da República em 2003.

Organizador e coautor do livro Dez anos de governos pós-neoliberais no Brasil, que reunirá artigos de 23 pensadores brasileiros de esquerda e tem lançamento previsto para abril pela Editora Boitempo, Emir será porta-voz de uma mensagem dos intelectuais aos políticos e militantes petistas: “É preciso continuar avançando.”

No caminho do projeto do governo de centro-esquerda, o desafio da vez, diz o professor da USP e da Uerj, é “quebrar a hegemonia do capital financeiro que resiste aos impulsos de continuidade do desenvolvimento econômico do Brasil”. Emir afirma que esse setor se colocará de forma permanente como obstáculo aos avanços sociais pretendidos no País: “O governo está fazendo todas as concessões que eles [o setor financeiro] pedem e consideram necessárias, praticamente sem contrapartida. Eles estão viciados no investimento especulativo e acabam não respondendo aos incentivos que o governo tem propiciado. Essa é a questão central, por detrás da qual está a hegemonia e a sobrevivência do capital financeiro em sua modalidade especulativa”, diz.

Em que pese a necessidade de continuar avançando, Emir adianta que o balanço sobre a década de pós-neoliberalismo no Brasil contido no livro é essencialmente positivo: “Foi um processo que transformou o Brasil para melhor por caminhos que não necessariamente eram os previstos. Muitas das transformações se deveram à intuição e ao pragmatismo do Lula e não houve uma reflexão em relação a isso. Então, a comemoração de dez anos de governo é um bom momento para pensar o que foi feito e o que não foi feito e qual é a projeção de futuro. Ainda mais porque há perspectiva concreta de continuidade do governo. Então, com mais razão ainda, é preciso ter uma consciência maior dos motivos de cada política e dos obstáculos de cada política para poder pensar a superação desses obstáculos”.

Balanço de Lula

Emir Sader revela que a publicação será “um livraço de umas 400 páginas” e, além dos artigos de opinião, trará uma entrevista com o ex-presidente Lula considerada antológica por quem já a leu: “Temos uma entrevista longa do Lula, que, pela primeira vez, faz uma reflexão de balanço do seu governo”, diz.

Nos artigos de opinião, os temas vão desde a avaliação da crise financeira e seus reflexos sobre a situação no Brasil e no mundo até a análise detalhada da política interna brasileira: “Haverá análises sobre as várias políticas setoriais, em relação a questões de gênero e de etnia, as questões sindicais, ecológicas e dos meios de comunicação, entre outras”, afirma Emir.

Para o time de autores, Emir pensou em “alguns dos principais intelectuais do País que tivessem uma perspectiva identificada com esse processo, mas com visões críticas também”. Entre os autores, há vários nomes de peso como José Luís Fiori, Luiz Gonzaga Beluzzo, Marilena Chauí, Márcio Pochmann, Tânia Bacelar, Venício Lima, Marco Aurélio Garcia e Liszt Vieira. “O livro apresentará vários pontos de vista, mas na visão de quem considera que há transformações positivas nos dez anos de governo”, diz o sociólogo.

Uma turnê nacional de lançamento do livro está sendo organizada e terá início em abril: “Estou fechando a edição esta semana. Daqui a dois meses o livro deverá sair com um grande seminário em São Paulo e depois dezenas de seminários em todo o Brasil. Temos de nacionalizar essa reflexão”, conclui Emir Sader.

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