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Só a elite ainda é escravocrata

4 de junho de 2013

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Fernando Brito, via Tijolaço

O Estadão divulga hoje [3/6], com certo ar de surpresa, os dados de uma pesquisa Ibope mostrando que a emenda constitucional que deu aos empregados domésticos os mesmos direitos de todos os trabalhadores tem o apoio de 91% dos brasileiros.

E não podia ser diferente, pois isso equivaleria a perguntar se alguém é contra ou a favor da escravidão. Mas não se iluda, tem gente que é.

Há dois anos apenas, o Tijolaço reproduziu trechos de uma deprimente matéria do mesmo Estadão sobre dondocas paulistanas que tinham formado um tal “Grupo Antiterrorismo de Babás”, destinado a “se proteger da ‘petulância’ das funcionárias, dar dicas sobre o que fazer em caso de ‘abuso de direitos’ e ainda trocar ideias sobre cabeleireiros, temporadas de esqui em Aspen e veraneios em condomínios do litoral norte”.

Lamentavelmente, estas senhoras não foram processadas, porque o Ministério Público está muito ocupado com política e nosso Ministério da Justiça lembra aquela piada do tempo da ditadura, quando um adido militar brasileiro espantou-se com a presença de oficiais da Marinha boliviana e perguntou-lhes como tinham Ministério da Marinha se não tinham mar. E a resposta foi: mas vocês não têm Ministério da Justiça no Brasil?

Felizmente essa elite escravocrata é uma minoria muito, mas muito mais reduzida que a própria minoria que possui empregada doméstica mensalista no Brasil: apenas 4% das famílias, segundo o Ibope.

E mesmo essas tem de ser ajudadas a manter, com simplicidade e correção, aquelas trabalhadoras em condições dignas e respeitosas. O portal lançado hoje pela Previdência Social vai simplificar a vida dos empregadores domésticos no controle de suas obrigações e as do empregado.

O resto, sobretudo o terrorismo da mídia sobre uma explosão de desemprego entre as domésticas e a ruína dos seus empregadores, era balela. Ou se suas cabeças colonizadas preferem exemplos norte-americanos, algo como fazem os confederados no filme Lincoln, de Spielberg, quando se recusam a aceitar a abolição da escravatura argumentando que isso arruinaria sua economia.

Merval Pereira e o elitista jornalismo da Globo

7 de março de 2013

Merval16_SerraHelena Sthephanowitz, via Rede Brasil Atual

Chega a ser hilária a coluna de Merval Pereira no jornal O Globo narrando seu “contato” com um grupo de populares que na sexta-feira, dia 1º, faziam um protesto – diga-se, aproveitando a presença de Dilma Rousseff – em frente ao Museu de Arte do Rio de Janeiro, inaugurado naquele dia.

A narrativa é de quem acha o contato com o povo tão estranho quanto um encontro com ET’s, com a diferença que, neste caso, o personagem humano teme visivelmente ser abduzido…

Os manifestantes não foram lá por causa do Merval, obviamente, e sim por causa das autoridades presentes. Havia um grupo reivindicando solução para o problema dos teatros fechados no Rio após o incêndio na boate de Santa Maria/RS, cujo alvo era o prefeito Eduardo Paes (PMDB/RJ) e o governador Sérgio Cabral (PMDB/RJ), e outro contra a Medida Provisória dos Portos, cujo alvo era a presidenta Dilma.

Em resumo, Merval narra que manifestantes o reconheceram, chamaram-no de “FDP” e fecharam o trânsito em frente a seu carro, batendo no vidro e gritando palavras de ordem. Disse que foi seu momento “Yoani Sanchez”. Sua narrativa, apesar de querer horrorizar, deixa claro que não sofreu nem viu nenhuma agressão física, nem dano material (o que não era mesmo acontecer; seria condenável, antidemocrático e contraproducente como protesto).

O que se percebe é que, mesmo querendo se fazer de vítima, o colunista acaba por mostrar seu distanciamento e incompatibilidade com o povo das ruas – o que é a cara do elitismo que impera nas redações da Globo. E tem gente que ainda crê que ele, Merval, e ela, a Globo, expressam a “opinião pública”.

Mas o que é mais hilariante são as impressões de Merval sobre os manifestantes. A certa altura, ele escreve. “Aparentemente, não havia no grupo nenhum estivador ou operário. Eram todos jovens estudantes com máscaras e cartazes…” Realmente, chega a ser engraçado.

Como Merval imagina que seja um trabalhador portuário de hoje? Será que imagina que seja igual àqueles que faziam parte do imaginário das pessoas no século 19, sem camisa, descalço, maltrapilho, com uma calça rústica rasgada, brutalizado e carregando dois sacos de 60 kg de uma vez?

E será que imagina que “operários”, hoje, não têm dinheiro suficiente para comprar boas roupas e se vestir como qualquer pessoa de classe média, tanto para andar na rua como para ir a protestos?

Esse é o retrato do jornalismo das Organizações Globo. As “notícias” refletem estereótipos do passado e traduzem preconceitos e ideologias dos donos do jornal e seus feitores. Os “formadores de opinião” dos jornalões nem sequer reconhecem o povo brasileiro nas ruas.

Um editor como Merval Pereira, diante do fato noticioso ali na sua frente, não apura os fatos e não manda um repórter apurar. E noticia o fato debaixo de seu nariz como “aparentemente”, em vez de ouvir os manifestantes e noticiar as coisas como elas aconteceram. E assim se faz nossa grande mídia informativa.

Detalhe: o sindicato dos estivadores do Rio fica a cinco quadras do local da manifestação. Até para um jornalista estagiário, é difícil concluir que “aparentemente não havia nenhum deles ali”.

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Sobre o esculacho dado em Merval

Danuza Leão é jeca

27 de novembro de 2012

Uma socialite e seu drama ao ver que o porteiro também pode ir à Broadway.

Kiko Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

Danuza Leão tem um problema: seu porteiro. Em sua coluna na Folha, cujo título é Ser especial, ela se pôs a discorrer sobre seu drama pessoal. Para Danuza, “viajar ficou banal e a pergunta é: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se é um ser raro, com imaginação e criatividade, diferente do resto da humanidade?” Danuza acha que só existe uma solução “para os muito exigentes: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates – sem medo de engordar –, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha”.

“Como se diferenciar do resto da humanidade, se todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais?”, ela pergunta. Está incomodada com o fato de que o porteiro também pode ver os musicais da Broadway, pagando R$50,00 mensais. Não acho que seja o caso, mas vamos supor que o texto é uma ironia dirigida ao mal-estar das chamadas “elites” diante da ascensão da classe C, ou algo do gênero. Uma coisa é ler sobre isso nas pesquisas do IBGE. Outra é ver ao vivo e em cores. Ok. Mas o desabafo da colunista é sincero. Ela não está sendo irônica. Quer dizer, esse tipo de programa era bom no tempo em que essa gente ficava em seu lugar.

Danuza não parece do tipo que trata mal o garçom, o ascensorista ou a faxineira. Seria estranho, para começar, porque ela está longe de ter nascido em berço esplêndido ou de descender de, digamos, aristocratas europeus falidos. Nasceu em Itaguaçu, cidadezinha do Espírito Santo, que, segundo ela mesma, só tinha uma rua. O pai era advogado. Mudaram-se, mais tarde, para Vitória. Ela escreve em sua autobiografia Quase tudo: “Depois do jantar eu sentava no chão com as filhas da empregada, e ficávamos sem fazer nada ou, às vezes, brincávamos com pedrinhas.” Aparentemente, Danuza tem uma memória afetiva de suas serviçais, mais ou menos como Scarlett O’Hara e Mammy em …E o Vento Levou.

Ela é uma mulher inteligente e já foi tida como uma espécie de símbolo de sofisticação. Teve uma vida interessante no Rio de Janeiro, entre fins dos anos 50 e começo dos 60. Casou-se com o jornalista Samuel Wainer, teve um caso escandaloso com o compositor Antônio Maria, foi modelo, circulou entre intelectuais e músicos etc. É irmã de Nara Leão, a cantora de bossa nova por excelência. Nos anos 70, foi hostess de uma boate badalada.

Danuza é descrita pela Wikipédia como “socialite”. Provavelmente, tem saudade da época em que era a única socialite do Brasil, no tempo em que suas dicas de Nova Iorque eram únicas e exclusivas (quando? Por quê? E daí?). Ou quando os porteiros, empregadas e que tais não ousavam pegar um avião e frequentar musicais. Ou, ainda, quando funcionários de lojas de cosméticos na França não tinham de aprender português ou mandarim para atender os clientes. O mundo de Danuza não é esse, ora. Ela é especial e merece ser tratada como especial.

Bem, seja lá o que for preciso fazer para, como ela diz, se mostrar um ser raro, Danuza Leão está fazendo o oposto. Ela é apenas jeca – total e irremediavelmente jeca –, como uma calça boca de sino.

Danuza Leão lamenta que todos possam ir a Paris ou Nova Iorque

26 de novembro de 2012

Ser rico perdeu a graça, segundo a colunista Danusa Leão. Seu artigo de domingo, dia 26, é um retrato da elite brasileira, que busca o prazer aristocrático e não se conforma com a ascensão social do resto: “Ir a Nova Iorque já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?”, indaga

Via Brasil 247

Em Tóquio, presidentes de empresas varrem a calçada das ruas onde moram. Em Manhattan, banqueiros usam o metrô para ir ao trabalho. Em Berlim, cada vez mais, os ricos rejeitam ser proprietários. Em Paris, o que distingue a elite é o conhecimento. No Brasil, no entanto, aqueles que estão no topo da pirâmide precisam ser diferentes, especiais, exclusivos, aristocráticos. Prova disso é o artigo de Danuza Leão, publicado no domingo, dia 26, na Folha de S.Paulo. Ela afirma que ser rico perdeu a graça, porque hoje, numa ida a Paris ou Nova Iorque, periga-se dar de cara com o porteiro de seu prédio. Resumindo, o que a elite brasileira mais deseja é a desigualdade ou a volta aos tempos de casa-grande e senzala. Leia, se tiver estômago forte.

Ser especial

Danuza Leão

Afinal, qual a graça de ter muito dinheiro? Quanto mais coisas se tem, mais se quer ter e os desejos e anseios vão mudando – e aumentando – a cada dia, só que a coisa não é assim tão simples. Bom mesmo é possuir coisas exclusivas, a que só nós temos acesso; se todo mundo fosse rico, a vida seria um tédio.

Um homem que começa do nada, por exemplo: no início de sua vida, ter um apartamento era uma ambição quase impossível de alcançar; mas, agora, cheio de sucesso, se você falar que está pensando em comprar um com menos de 800 metros quadrados, piscina, sauna e churrasqueira, ele vai olhar para você com o maior desprezo – isso se olhar.

Vai longe o tempo do primeiro fusquinha comprado com o maior sacrifício; agora, se não for um importado, com televisão, bar e computador, não interessa – e só tem graça se for o único a ter o brinquedinho. Somos todos verdadeiras crianças, e só queremos ser únicos, especiais e raros; simples, não?

Queremos todas as brincadeirinhas eletrônicas, que acabaram de ser lançadas, mas qual a graça, se até o vizinho tiver as mesmas? O problema é: como se diferenciar do resto da humanidade, se todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais?

As viagens, por exemplo: já se foi o tempo em que ir a Paris era só para alguns; hoje, ninguém quer ouvir o relato da subida do Nilo, do passeio de balão pelo deserto ou ver as fotos da viagem – e se for o vídeo, pior ainda – de quem foi às muralhas da China. Ir a Nova Iorque ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça? Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros – não é melhor ficar por aqui mesmo?

Viajar ficou banal e a pergunta é: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se é um ser raro, com imaginação e criatividade, diferente do resto da humanidade?

Até outro dia causava um certo frisson ter um jatinho para viagens mais longas e um helicóptero para chegar a Petrópolis ou Angra sem passar pelo desconforto dos congestionamentos.

Mas hoje esses pequenos objetos de desejo ficaram tão banais que só podem deslumbrar uma menina modesta que ainda não passou dos 18. A não ser, talvez, que o interior do jatinho seja feito de couro de cobra – talvez.

É claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam lá. Maracanã nunca mais, Carnaval também não, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos têm acesso a esses prazeres, eles passam a não ter mais graça.

Seguindo esse raciocínio, subir o Champs Elysées numa linda tarde de primavera, junto a milhares de turistas tendo as mesmas visões de beleza, é de uma banalidade insuportável. Não importa estar no lugar mais bonito do mundo; o que interessa é saber que só poucos, como você, podem desfrutar do mesmo encantamento.

Quando se chega a esse ponto, a vida fica difícil. Ir para o Caribe não dá, porque as praias estão infestadas de turistas – assim como Nova Iorque, Londres e Paris; e como no Nordeste só tem alemães e japoneses, chega-se à conclusão de que o mundo está ficando pequeno.

Para os muito exigentes, passa a existir uma única solução: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates – sem medo de engordar –, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha.

E quer saber? Se o livro for mesmo bom, não tem nada melhor na vida.

Quase nada, digamos.

Quem foi o menino pobre que mudou o Brasil?

6 de outubro de 2012

Elite brasileira enriqueceu com paraísos fiscais

24 de julho de 2012

Via Correio do Brasil

Um estudo inédito que, pela primeira vez, chegou a valores depositados nas chamadas contas offshore sobre as quais as autoridades tributárias dos países não têm como cobrar impostos, mostra que os super-ricos brasileiros somaram até 2010 cerca de US$520 bilhões (ou mais de R$1 trilhão) em paraísos fiscais. Trata-se da quarta maior quantia do mundo depositada nesta modalidade de conta bancária.

O documento The price of offshore revisited, escrito por James Henry, ex-economista-chefe da consultoria McKinsey, e encomendado pela Tax Justice Network, cruzou dados do Banco de Compensações Internacionais, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de governos nacionais para chegar a valores considerados pelo autor.

O relatório destaca o impacto sobre as economias dos 139 países mais desenvolvidos da movimentação de dinheiro enviado a paraísos fiscais. Henry estima que, desde os anos 1970 até 2010, os cidadãos mais ricos desses 139 países aumentaram de US$$7,3 trilhões para US$9,3 trilhões a “riqueza offshore não registrada” para fins de tributação.

A riqueza privada offshore representa “um enorme buraco negro na economia mundial”, disse o autor do estudo. Na América Latina, chama a atenção o fato de, além do Brasil, países como o México, a Argentina e Venezuela aparecerem entre os 20 que mais enviaram recusos a paraísos fiscais.

John Christensen, diretor da Tax Justice Network, organização que combate os paraísos fiscais e que encomendou o estudo, afirmou ao jornal da BBC Brasil que países exportadores de riquezas minerais seguem um padrão. Segundo ele, elites locais vêm sendo abordadas há décadas por bancos, principalmente norte-americanos, para enviarem seus recursos ao exterior. “Instituições como Bank of America, Goldman Sachs, JP Morgan e Citibank vêm oferecendo este serviço. Como o governo norte-americano não compartilha informações tributárias, fica muito difícil para estes países chegar aos donos destas contas e taxar os recuros”, afirma.

Segundo o diretor da Tax Justice Network, além dos acionistas de empresas dos setores exportadores de minerais (mineração e petróleo), os segmentos farmacêutico, de comunicações e de transportes estão entre os que mais remetem recursos para paraísos fiscais. “As elites fazem muito barulho sobre os impostos cobrados delas, mas não gostam de pagar impostos”, observa Christensen. “No caso do Brasil, quando vejo os ricos brasileiros reclamando de impostos, só posso crer que estejam blefando. Porque eles remetem dinheiro para paraísos fiscais há muito tempo”.

Chistensen diz ainda que no caso do México, da Venezuela e Argentina, tratados bilaterais como o Nafta (tratado de livre comércio EUA-México) e a ação dos bancos norte-americanos fizeram os valores escondidos no exterior subirem vertiginosamente desde os anos 70, embora “este seja um fenômeno de mais de meio século”. O diretor da Tax Justice Network destaca que há enormes recursos de países africanos em contas offshore.


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